Imagem e semelhança

Gostava de acreditar em Deus. Pensava-o um ser grandioso, feliz, compreensível como nenhum outro seria capaz. Deus como um Pai, melhor do que todos os pais deste mundo juntos. Caminhava pelo mundo com os olhos atentos às obras e aos sinais: Deus existia. Tão difícil, porém, crer. Fácil era andar por aí e fiar-se na certeza das ciências, na força dos homens e nas causas e consequências. Já sabia, no entanto: se era vida, não havia de ser fácil. E preferia acreditar, em Deus.

E quem era Deus? Deus calculava nossos destinos, marcava a hora das nossas mortes, planejava bebês não esperados? Ouvia, afinal, todas as nossas preces? Sentava tardes inteiras a anotar nossos pecados e pecadilhos, dos mortais aos ínfimos esquecíveis? Tirava algumas horas para julga-nos aos céus ou ao inferno ou, quem sabe, ao purgatório? Era Deus este burocrata a policiar-nos a vida, a ter tanto tempo para quem a ele dedica tão pouco? Como Deus grandioso, se preocuparia com minhas sonolências, minha desatenção, minhas fraquezas da carne e do pensamento?

É Deus, o Deus acima de todas as coisas. Não nos vigia, não nos pune por mau comportamento. Existe sobre este mundo vil, ganancioso e curvado às mesquinharias. Pecamos com sua licença, encontramos a felicidade no improvável, com seu consentimento. Ele sabe que não deixamos de ser Seus filhos. Pouco fiéis, por certo, mas Seus. Os pés na terra, Deus sabe que nos afasta de qualquer santidade – só alguns poucos, Seus melhores filhos a alcançam. É nossa condição de carne e osso e sangue quente, não somos etéreos e grandiosos. Deus, porém, exige quase nada.

Ele exige que sejamos bons uns com os outros. Dos céus ou da terra, não parece evidente que o bem nos caiba na vida e nos seja exigido? E os bons agem bem – indissociável é. Se fosse Deus o contabilista por muitos imaginado, sermos bons e agirmos de acordo Lhe pouparia muito trabalho e horas de decepção conosco. Deus poderia tirar férias duas vezes por ano, descansaria na rede em noites tranquilas, teria mais tempo para observar Sua criação. O faríamos feliz – ainda mais.

O Deus deste novo paganismo é o Deus que queremos que se encaixe nos nossos planos de filhos infiéis, seres sujos do barro dos descaminhos que trilhamos porque víamos, ali, vantagens, sucessos e graças terrenas. Esquecemos com leviandade: somos nós à imagem e semelhança Dele; não o contrário. Deus não perdoa nossas faltas conscientes e más com relação ao próximo (das mais gratuitas às mais graves) porque ele conhece nossas fraquezas. Por conhecer nossas fraquezas Ele nos ampara em oração a sermos melhores – mesmo quando o teto nos cai sobre a cabeça e os braços pendem sem força.

Deus não nos exige filosofias nem enormes sacrifícios. Deus nos entrega os amores sem deixar um bilhete de felicitação. Deus é o ar que nos mantém em pé quando sentimos que não há mais saída. Deus é cada pedrinha no caminho, com elas construímos nossas ações sagradas em paz.

Da nossa vida

 

A flor do ipê-amarelo

desliza safada e me alcança

o rosto em movimento

como as ruas largas

da cidade aos domingos

 

O vento sorrateiro

pelas mangas do casaco

acariciam meu corpo

como o silêncio distante

da cidade aos domingos

 

O pensamento em ti

quase me faz cair

da bicicleta

como as curvas vazias

da cidade aos domingos

 

Os corredores de ônibus

onde posso acelerar

o pulso e os sonhos

como a falta de pressa

da cidade aos domingos

 

O corpo revivido

e os músculos respondem

ao futuro do imperfeito

como o temporal eminente

da cidade aos domingos

 

Os ponteiros desamados

cínicos contam os segundos

da nossa vida

como o ar estático

da cidade aos domingos.

Balões no nosso céu

para o João.

Neste nosso céu passavam balões… de todas as cores. Abríamos mais os olhos para vê-los rasantes sobre o telhado de casa, temíamos que eles se descontrolassem e colidissem. Seria uma tragédia, não? Os balões cruzavam nosso jardim, de lado a lado. Embelezavam o azul sombreado de nuvens esparsas daquelas Primaveras. Eram nossos, mesmo que à distância, naqueles instantes que por ali se quedavam.

Começavam ao amanhecer e seguiam a esmo. Porque eles não podiam estar nos céus pelas noites, nos enchiam o coração o dia inteiro – nossos sonhos então eram deles. Não era a leveza, nem a perfeição da forma, ou os mistérios físicos da sua flutuação. Era a paixão pelos céus que ele carregava. A paixão por nos encher daquela doçura que leite condensado nenhum é capaz – porque dura. Nosso jardim não era ponto turístico de algum lugar exótico do Oriente, nem faziam competições por ali. Nosso jardim vivia amor, eis a condição da paisagem repleta de balões sobre nossas cabeças. Enquanto cultivássemos o amor em cada centímetro daquelas terras, teríamos balões. Era condição que ali nos amássemos todos os dias, diante dos olhos de Deus e dos céus, sem preguiça, tédio ou brigas. Então eles voltariam no dia seguinte a cruzar nosso espaço apaixonado. As cores refletiam-se na nossa pele e refulgiam nossos olhos às vezes cegos pelo sol.

No nosso jardim o amor tinha hora marcada: acontecia todos os dias. Não éramos mesquinhos. Economizar amor é envenenar-se. Víamos amor em cada gota de chuva. Ouvíamos amor em cada zumbido dos zangões. Sentíamos o perfume do amor na grama cortada. Era um amor que fervia sob a pele e carecia de explicações. A cada palavra cuidávamos para que apaixonássemos um ao outro. O amor transcendia aqueles corpos e sentia-se no ar que respirávamos. Cada passo que um dava, olhava para o outro buscando a aprovação do coração alheio. O amor selava nossos caminhos. Porque o amor é assim exigente. Ele não dá bobeira. Ele não desiste. Ele atravessa o espaço que sequer compreendemos. Enquanto houvesse amor, haveria balões. E enquanto houvesse balões, amaríamos mais.

Foi um descuido. Um descuido qualquer. Faltou um bocadinho de amor. Faltou olhar nos olhos… faltou aquele “boa noite” sussurrado… faltou um abraço em meio às lágrimas… faltou dizer que sentia falta. Foi o descuido de imaginar que se sabia quanto amor ali existia, então não precisava mais ser dito. Amor proferido é sempre amor aumentado. Faltou sorrir um ao outro ao ouvir os sinos da igreja. Faltou lembrar do outro ao ouvir o apito do trem ao longe. Faltou colher as flores mais belas para o arranjo de boas-vindas. Faltou… amar ainda mais. Foi o descuido de acostumar-se aos balões enchendo de beleza aquele céu que era só nosso. O descuido de acreditar que nada mais era preciso fazer para tê-los sempre ali ao alcance do coração. Era preciso o único exercício digno da alma: amar.

E em amar nós falhamos. Déramos o amor por certo. Por presente naquele jardim tão bem cuidado. Achávamos que o amor nunca nos abandonaria a superfície tão sensível da pele. Acreditáramos que o amor alimentava-se de poucas palavras. Em amar nós falhamos. Cuidávamos daquele jardim da mesma forma, todos os dias, antecipando o olhar do outro, os balões engrandecendo aquele céu que, também, tanto amávamos. O amor, então demoramos a descobrir, não se prevê. O amor, enquanto amor, não é certeza nenhuma. Por mais que se cultive, o amor nos escapa num descuido qualquer do cansaço do dia, no olho tremido de uma noite mal dormida. O amor foge numa palavra mal interpretada. E os balões jamais voltarão a habitar nossos olhos desolados deste amor que nos escapa sem que desconfiemos…

Nova empreitada

O tempo, o teu tempo. Assim devia ser a vida. No nosso tempo. Os dias, as noites, o trabalho, a diversão, o prazer. Mas não é – ou raramente o é. Você só vive se caminha, as distâncias só existem de fato ao caminhar. Aquele exercício simples e prático. A saúde agradece, a alma fica mais leve, a cabeça segue o seu ritmo. Inventaram o avião, o navio, o carro, o trem para cortar essas distâncias, para romper com o nosso tempo. Perde-se o caminho, objetivam-se os destinos.

Numa conversa a pessoa, moradora de Curitiba, me disse que queria ir embora dali (Curitiba, que quando digo “nasci lá” sempre ouço “sempre quis morar lá” ao que respondo “eu nunca”). E disse que aquele ritmo de cidade não era para nós que pensamos, trabalhamos com idéias, escrevemos, estudamos, pesquisamos. É exigir demais de nós. Cismei com isso. Ela está certíssima. O tempo, o nosso tempo, sofre com o tempo externo, esse aí que passa nos pontos de ônibus, que atravessa sinaleiros. Eu mesma nunca quis morar em cidade grande. Não gosto, não adianta. Sinto falta de morar perto do mar e do mato porque eles seguem o meu tempo.

Você passa pela cidade e mal tem tempo de parar para olhar os ipês floridos. Ou reparar que a lua ainda não se foi, apesar do sol que lhe queima a nuca. E o tempo não lhe pergunta se já é hora de almoçar. O telefone tocou, esses dias, e não era pra mim, mas ficamos conversando. Falamos do clima, era final de inverno mas lá na Serra já fazia calor, ao que ouço “mas você precisa de sol, filósofos precisam de sol para pensar” (é uma, dentre as duas pessoas que me chamam de filósofa). E eu preciso mesmo do sol para pensar – para viver, velha história. As idéias ficam confinadas à falta de tempo das cidades, à correria e aos dias nublados.

Não me imagino presa duas a três horas no trânsito para ir e voltar do trabalho, foi o que eu disse ao morador de Curitiba. Ao que ele disse que isso, hoje, é pouco – e é mesmo, mas pra mim soa absurdo. Ele fugiu de São Paulo, eu não consigo me imaginar morando num lugar tão sufocante. Não é a terra do meu tempo. Já corri muito na vida, para não perder aviões, ônibus, pegar trens cheios, chegar antes dos alunos, chegar atrasada na aula e perder ponto na avaliação final. Não corro mais porque minha idéias não acompanham. Sempre gostei da cidade como laboratório, ver as pessoas, ouvir coisas, criar histórias. Faz um tempo me afastei do dia a dia e nem sinto mais falta. Segui atrás do meu tempo. E descobri-o.

O meu tempo é esse que segue o mar imutável. Que testemunha o sol chegar e ir-se embora. O meu tempo acompanha as Estações, as árvores que perdem suas folhas e voltam a brotar devagarzinho. É caminhar pela cidade. Poder cumprir as distâncias com minhas próprias pernas – poder alcançar só o que consigo. As idéias não têm pressa, não irrompem em meio ao barulho irritante do motor do carro da frente. Não respeitamos mais a nós mesmos, ao nosso ritmo, ao nosso tempo – o que não é nada num mundo que não se respeita. É querer fazer muito nesse intervalo que é a vida, sem se deixar observar um menino soltando pipa num dia sem vento. É esperar que os títulos, diplomas, prêmios, papéis, tempo de contribuição da previdência digam o que foi o tempo que você passou aqui neste mundo. Dizem, por sua vez, que corrias não com ele, mas contra ele. Guerra inglória.

Quero buscar meu tempo – nova empreitada na vida. Quero descobrir que hora exata é essa que os sonhos me permitem acordar, sem despertador nenhum. Quero descobrir porque o sol se pôr é anúncio de recolhimento, prece e paz. Quero deixar que as idéias e as histórias tomem seu tempo e seu espaço na minha cabeça sossegada de banho tomado. Quero caminhar, a pé mesmo, ao longo dos dias. Quero não cumprir distâncias só pela chegada. Quero reparar nas paisagens – e fotografar os ipês, as ondas, os cavalos a rolarem na grama. Quero ver as aves cruzando o céu na sua viagem infinita pelos pólos. Quero saber em qual tempo me encaixo – no hoje, no ontem e, quiçá, no amanhã. O tempo é um velho amigo, quero cuidar melhor dele. Quero-o comigo quando ele começar a pesar nas pálpebras e nas costas. Quero deixar meus olhos aproveitarem-no para ver a vida em cada detalhe que passa despercebido aos que precisam trocar a marcha, anotar na agenda e ir para a academia. E comecei reparando na amoreira que tem em frente ao Batalhão. Comecei observando o pato que furava as ondas furiosas da última ressaca.

Ao vê-lo, pensei de brincadeira “queria ser na vida como aquele pato ali encara essas ondas gigantes”. E, bem disposta, entrei na brincadeira – levando-a muito a sério.

madrugadas

no limiar

seu olhar perspicaz

prendeu-me

 

acenou com palavras

entreguei perguntas

e sobrou-nos um quase

ou dois

 

da chuva ao sol

de uma praia a outra

levou-me

 

eu de mãos vazias

listei dúvidas

e me afogo em costões

às vezes

 

talvez ainda

presa àquele passeio de trem

e aos seus silêncios

Fraturas e processos

Existe um processo. E processos são sempre fraturas (Deus meu, como detesto esta palavra). Parece contraditório, agora assim escrito. Vê, um processo deve ser algo contínuo, um trecho da vida. E como é, ao mesmo tempo, fratura? Fratura é o que quebra, rompe uma linha, um osso, uma confiança. Quero explicar isso pra mim mesma, dificuldade maior do que para quem quer que seja. O processo é a fratura em meio ao contínuo. As coisas deveriam seguir sempre, o eterno rio, os ponteiros do relógio. Mas você pára ali no meio (ou perto do fim, ou em qualquer ponto) e fica. E é aí que irrompe o processo. O processo fratura o teu seguir, porque precisas deste processo para continuar – melhor ou pior, mais ou menos feliz, com novos olhares ou não. Certeza que já fui mais clara na vida. O processo é a fratura que rompe o devir – que, talvez, por algum motivo, tenha parado (de vir – não é hora pra trocadilhos, Fahya, o assunto é sério).

O processo fratura a tua leve caminhada pela vida. Você está aí, seguro, confiante, cheio de dúvidas, talvez, algumas más decisões, dois ou três arrependimentos, já aprendeu muito na vida, sabe o que faz, com quem caminha, quais os destinos que se te oferecem pela frente. E aí, ah, aí, meu amigo… você se depara com o inesperado. Ou o esperado que você não preveria mais na tua vida, ou que não era tua prioridade, sei lá. É o inesperado (não sei se foi a melhor escolha de palavra). Os que reclamam que sou muito abstrata devem estar exultantes até este segundo parágrafo. Querem exemplos concretos?

Uma gravidez inesperada (foi o melhor que me ocorreu, vejamos se ele se encaixa). Gravidezes não são, em nada, inesperadas para pessoas que praticam sexo (Fahya sendo Fahya). Mas, uma gravidez inesperada. Construirei a situação, namorados há seis meses, um estuda o outro só trabalha, lá pelos vinte. E surge a gravidez. Cada um tinha a sua linha da vida, seus sonhos, seus objetivos a serem cumpridos, um vestibular talvez, uma promoção no trabalho, comprar um carro ou um patins. Nunca se sabe. E ali no meio deste caminho “previsto”, surge a gravidez. Ser pai, ser mãe, ser, talvez, um casal (é, ainda hoje gravidez parece requerer obrigatoriedade para juntar as trouxas – fica quieta, Fahya, o assunto é sério). Ambos terão que passar por processos. Romperão a linha que seguiam para entrar em processo diante das mudanças que virão (e que, neste caso, serão enormes). As famílias de ambos, talvez, também passarão pelo processo – o filho que sairá de casa, quem ficará com o bebê, onde vão morar, sei lá. Eis um exemplo de processo.

O processo é íntimo. Muito íntimo. Por isso minha abstração e dificuldade em vir escrever sobre. Não ficou claro o exemplo? Vejamos outro. Apaixonar-se. É um processo. Até para esses que vivem aí nas pistas da vida (imagino eu), para os que correm atrás do “alguém” (y los hay) a vida inteira. Você está aí de boa na vida, vai pra escola todo dia, dorme a tarde toda, joga videogame e, pronto. Num dia a menininha tímida que senta na carteira ao lado puxa conversa, te dá um bombom de presente, convida para ir ao aniversário dela. E vocês gostam disso. Mas, sei lá (meus exemplos estão adoráveis, acho que sou boa com isso), você vai precisar lembrar da data do primeiro beijinho debaixo da árvore nos fundos da casa dos pais dela. Ela vai querer conversar a tarde toda, no teu tempo dedicado ao sono. E agora? Agora é o processo, mocinho. Tens aí, sei lá, seus doze anos. Você passará por isso algumas vezes pela vida. Esta experiência servirá de base para todas as outras, se fores galã (credo, Fahya, palavra velha, só tu usa) chegará a usá-la e aperfeiçoá-la demais. Você vai saber a diferença de um “não” para um “não sei”, e essas coisas todas. (cuidado para não se confundir diante das repetições, fica o conselho) Você estava preocupado com lembrar de salvar o jogo para recomeçar amanhã do mesmo ponto, não com se apaixonar. E aí é a fratura, rompe teus dias, te empurra para o processo.

E no processo de apaixonar-se há perigos (em todos, não?). Você precisa n e c e s s a r i a m e n t e sair de si mesmo. É horrível, eu sei. Porém, aviso aos incautos, não pode abandonar a si mesmo. Ah, divinas dificuldades. Vejamos o primeiro ponto: precisa, sim, sair do teu casulo, dos teus hobbies, do teu dia a dia, da tua rotina, das tuas visões, das tuas expectativas. Sempre tive problema com este assunto (sempre não, só depois dos 25 HAHAHA), e ano passado numa conversa animada uma pessoa disse algo que eu nunca tinha pensado (posto que burra) e é a resposta. Cada um tem a sua educação, sua experiência familiar, a direção das pequenas coisas: a orientação religiosa, as exigências ou não com limpeza, higiene, organização, as minúcias pavorosas do cotidiano. Também têm, isso lá pra bem depois dos amores dos doze anos, as orientações políticas, os ódios e amores, as experiências traumáticas da vida, os vícios e os prazeres (ambos muito perigosos nesse “processo”). Você tem o que você é – e a outra pessoa, mesmo que creias “alma gêmea”, também. E vai juntar esses dois mundos pra você ver. Uma confusão. Então pessoas que têm mais “coisas em comum” terão mais facilidade no processo? Não necessariamente.

Nem precisa ir para os contos de fada e novelas de TV, quando a mocinha é pobre e o mocinho é rico. Não me ateria à classe social. Mas, claro, questões sociais, raciais, religiosas interferem muito. São muito grandes pra discutir aqui. Quero me ater à personalidade, aos gostos, aos hábitos, talvez. É horrível. Pior do que a mocinha pobre ter que se acostumar a comer lagosta (reparem, cena repetidíssima na ficção para mostrar o processo). Ah, Fahya, mas o amor, a paixão, os sentimentos. Pera, gente, nem chegamos lá. Essas coisas nublam o entendimento. Estou tentando ser prática, objetiva, lógica (se encontrarem esta Fahya por aí, mandem sinal). Apaixonar-se pode vir antes, durante ou depois. Nunca se sabe.

E é aí que o processo pode pôr tudo a perder – até os grandes amores imortais. Você começa a sair com o garoto e toda vez que ele chega na tua casa liga a TV. E a TV fica ligada o tempo t o d o. Você começa a namorar a mocinha, mas na casa dela tem que tirar os sapatos na porta (diz lá a sabedoria milenar asiática) e você é daqueles machos que se sentem menos machos sem sapatos fechados e ela passa aspirador de pó no chão a cada refeição que faz. Você pode ser a garota que detesta TV ligada o tempo todo. E o mocinho que além da segurança masculina ferida, se irrita com barulho de aspirador. Fui para questões muito práticas. Mas, vão por mim, essenciais.

É o processo. O processo de sair de si. De deixar tuas manias e desgostos, pelo outro. Ah, vendo assim, apaixonar-se é sublime esforço humano. Ou você pode optar por ficar na tua bolha – quentinha, ou fresca, confortável, calculada, segura e certa. É certo, para você, ter a pia sempre limpa e seca. É a tua segurança. Pro outro, talvez não. Talvez ele seja meio preguiçoso, ou meio nem aí para isso, ou meio sujinho. E sair da bolha nos leva para o segundo ponto (para alguns, assustadoramente mais difícil do que este), não abandonar a si mesmo. Amigo, você precisa ajustar os ponteiros com o outro, mas teu relógio (de novo?) não pode correr os ponteiros para seguir os dele. Talvez uma das questões femininas mais pesadas de todos os séculos (e pouco abordada), quando as mulheres ainda (como hoje) largavam seus sonhos e desejos para seguir os maridos, cuidar dos filhos. Tivemos sucessivas gerações de mulheres aos quarenta desiludidas, decepcionadas, infelizes com o que haviam “deixado para trás”. Citei só pela questão social, mas não se refere só às mulheres. Abandonar a si mesmo acomete a ambos. Quantos homens deixam de ser caras divertidos, animados, brincalhões quando começam a namorar porque ela (provavelmente ariana – Fahya, pára) vê traição e suspeita em tudo? Quanto deixamos de nós, pelo outro? É o processo.

Ao ajustar os ponteiros acontecerá isso, fatalmente. Você deixará de ser um pouco do que era. Depois de sair de si para encarar o outro, você verá que algumas partes do teu eu não conviverão bem (de jeito nenhum) com o eu dele. Ninguém escapa disso. É o processo que fratura a tua vida estabelecida, dentro dos eixos, que seguia na boa. Sair de si é escolha, normalmente. Você pode ser a gata aí na pista, aberta às possibilidades e opções – está praticamente fora de si (sem trocadilhos), disposta a “conhecer novas pessoas” (eu morro com algumas expressões). Abandonar a si mesmo é menos escolha, parece que a gente vai perdendo aos poucos, vai se deixando levar (pelos sentimentos, e tal, aquelas coisas), mesmo quando toma certas decisões (ele não quer que você trabalhe e deixe o recém-nascido com um estranho, “não tem problema, amor, em uns dois anos você volta pra tua carreira”, e na hora você acha isso também).

Somos melhores juízes na hora de sair de si. Você pode ser um solteirão convicto (existe algum depois que o George Clooney casou?), nunca ter se interessado pelos descaminhos do amor. Ou você pode ter tido tua dose dessas coisas na vida e preferiu ficar quieta na tua. Sair de si em direção ao outro, repito, é horrível. (tem que estar muito cego de paixão louca pra não pensar assim – e depois que a cegueira passar hão de concordar comigo) Somos péssimos juízes entorpecidos quando se trata de abandonar a si mesmos. Dependendo da personalidade ou do caráter da pessoa a coisa pode ficar bem crítica (e perigosa). Tomem cuidado. É o processo.

Como deixamos os sentimentos de lado, na hora de escolher sair ou não de si mesmo é mais fácil pensar “ah, esse aí tem coisas que me agradam, bons costumes e tal, vale tentar”. Mas aí, minha amiga, esse aí pode não te satisfazer em quase nada. Nem te dar tesão, sei lá. Coisas a se levar em conta, sabe? A teoria está incompleta, obviamente. Ou você pode toda felizinha escolher sair de si mesma na direção de um cara que você já sabe que não vai ajustar ponteiro nenhum. Os sentimentos que te ajudem! Porque, o que eu sei, é que em todos os casos, se não pensar nisso antes, a vida te obrigará a dar de cara com os fatos. E os fatos são dolorosos em todos os amores. Eles não nos deixam passar incólumes.

Se você estiver disposto a apaixonar-se, pronto para esticar o braço para fora da bolha do teu mundinho, boa sorte. Não deixe, porém, a cabeça por último na bolha. Às vezes vale mesmo a pena, sou testemunha (o texto não prometeu ser imparcial). Se algo começar a puxar tua mão para fora da bolha e você “mas eu quero ficar aqui, escolhi isso”, o dilema é maior. Serão duas escolhas numa só. Quando eu descobrir mais sobre isso, prometo contar-lhes. Mas, por último, eu diria que nunca, jamais, em hipótese alguma, abandone a si mesmo. Por nada. Não tem amor digno que valha isso – por pior que você seja, inclusive.

Interlúdio

 

Chego sem aviso. Nunca te fiz promessas. Entrelaça-te nas minhas pernas. Sou a amante desalmada que partiu sem palavra. Trago meus problemas e partirei com eles: tu não os resolve, mas me alivia o fardo. Venho sempre com pouco ou quase nada de roupa – é contigo que sinto-me livre. Reclamam da tua frieza, ela me revigora. Passo horas – horas não, que contigo não sei contá-las – nos teus braços a rodopiar, sonhar. És inclemente, me puxa, me joga, me abraça afogado. Saio exausta, sem fôlego, caio no chão enquanto a tontura não passa. Me deixas exausta. Exausta, exaurida, acabada. E é como gosto. Vim te ver, de novo. Tinha que pôr a cabeça e a alma no lugar. Logo te abandonarei de novo e, vê, levarei mais alguns problemas. Não me importo. Contigo não sinto nem o peso do corpo. Me abandono contigo à sensualidade extra das manhãs, te procuro infalível nas paixões desesperadas dos finais de tarde. És minha segurança na vida – ninguém concordaria. És a única segurança que quero ter na vida – porque de segurança não preciso. Vê o mundo, muda sempre. E tu, não, meu ponto de equilíbrio. Me arrebatas trançando minhas pernas em ti. Puxas o meu cabelo. Me fazes tropeçar. E eu sorrio. Tens meu melhor sorriso. Nunca fizemos promessas um ao outro. Se te deixo nunca foi por querer. Só a ti sempre fui fiel. Enquanto tu deleitas tantas outras. E não me importo. Me deixas o corpo dolorido, a pele mais bonita, o olhar lânguido. Sou toda tua como nunca fui de nenhum outro. Seja justo, não te procuro só nos meus piores momentos. Tens minhas mais doces alegrias, é a ti que procuro quando tenho algo a comemorar. Conheces cada risco da minha pele, cada canto escuro da minha alma, cada prazer de todas as cores. Não me conheço como tu o sabes. Às vezes te procuro embriagada, digo coisas que esquecerei e me hipnotizas sem levar em conta meus desatinos. Tudo passa. Já me viste, mais de uma vez, chorar. Só tu e Deus. Tudo passa. Só por ti faço drama, atiro vasos contra a parede, esbravejo más palavras. É a tua falta. Só eu sei como me fazes falta. Não tem lembrança, nem foto, nem nada que te faça mais próximo. E a amante volta, larga tudo, vem sem avisar, se ajoelha ao te rever. Conta os problemas, meu bom ouvinte. Só tu me ouves. Te confesso as dúvidas e as angústias. E te ouço – ah, que deleite. Não sou de promessas. Nem te digo, está certo que sempre voltarei – um dia para ficar, quem sabe. És minha melhor metáfora. Se fosse definir carícia, diria: tu. Vais me confinando no vai e vem da ponta do dedão do pé e subindo, subindo… não sobra nada de mim. Dou risadas. Que me tiras do sério e da tristeza. Me tiras do chão. Me tiras o chão. Quando me devolves à vida, menina birrenta a refrear o instinto de voltar aos teus vais e vens. Não me pedes promessas. Eu jamais as faço. Lá me vou novamente, não voltarei daqui a pouco, desta vez. Quero teus dias de ressaca e de calmaria. Esteja preparado, aparecerei qualquer hora – que nossos intervalos sejam cada vez mais curtos. Quero te trazer conquistas a comemorar, quando eu voltar, mas não me importo. É no teu colo que, se precisar, eu choro. Não há promessas. Te levo sobre a pele e aqui de novo estarei em breve.

Uma inesquecível Primavera

 

Quero te desejar uma boa Primavera. Sei que me desejarias o mesmo. Sei, também, que isso não diz nada. Eu estava diante do mar de ressaca às 11h21 e garanto que nada mudou – nem o sol ficou mais quente, nem mais brilhante, nem surgiram flores pelos morros, nem o vento soprou mais sedutor. Nem eu, naquele instante, mudei. Sei, porém, que toda Primavera transforma a vida da gente. Repara. Não tenho estatísticas, não tenho provas. Mas, repara. Temos até a beirada do Verão para olhar bem. É preciso, porém, olhar de perto e com coragem. Coisa que não fiz com essas ondas enormes que hoje tomaram meus olhos a manhã toda. Às vezes, preferimos olhar de longe e com pontadas de covardia – ou seria medo?

O Inverno despediu-se com enterros. Levou-me um recente sossego. Levou-me a apatia de ser quem eu era há tanto tempo. Disse-me ele, com todas as letras: as coisas não se repetem, Fahya. Disse-me, também, enfurecido: de onde queres enganar-te a deixar o passado sobrevoar sobre o presente? Ele foi cruel comigo nas últimas semanas, arrasou-me, puxou-me as orelhas, disse-me cínico: não tens como continuar sendo a mesma, renova-te. Receio encontrá-lo daqui três Estações e ele me cobrar o que não tive forças para fazer. Ficaremos de mal, abraçados debaixo de casacos pesados.

Desejo-te uma bela Primavera. Que possamos esquecer – que mudar dá trabalho pra mais de uma Estação – um pouco quem somos. Desejo que ela nos prepare com calma para o turbilhão da próxima, quando é ainda mais difícil viver despidos das nossas fantasias. Quem dera a Primavera não tivesse sempre deixado suas cicatrizes e tatuagens na minha vida, obedeceria ao Inverno e jogaria o passado entre as rochas agora fustigadas injustamente pelo mar que vinga-se da sua saudade. Não foi de ontem para hoje que deixei de ter um passado, mas o Inverno sorrateiro tem toda razão. Como, então, despedi-lo, mandá-lo embora para a tumba fria da memória? Sei lá, será que já podemos almoçar e voltar a ver o mar?

Me ensinaram que só vivemos a repetição – das horas, dos dias, das Estações, dos mitos, dos fatos, das explicações, das datas tristes e festivas, dos arrepios e dos vícios. E o Inverno, sacana, me manda não pensar mais assim. Assim, de antes de ontem pra hoje. Levou-me pela mão até o costão e me explicou, deu exemplos, discutimos. Quase me convenceu. Lembrei que ele em breve partiria e resolvi não brigar mais. Prefiro despedidas com apertos de mão e sorrisos abertos. E hoje me sinto a aluna de férias com uma pilha homérica de tarefas a cumprir. Boa aluna que nunca fui, será que já podemos fingir que nada disso aconteceu e voltar para o sol com a missão do bronzeado primaveril?

Me conforta te dizer que, ao contrário do exigente e mandão Inverno, a Primavera é aquela amiga meio louca que nos empurra e apoia sem muita distinção. Ela deixa tomar banho de mar com a água fria debaixo do sol quente, sem se preocupar com a febre que virá de madrugada. Ela nos abraça e dança junto sob a chuva refrescante ao final do primeiro dia mais quente desde abril e está nem aí para os papéis importantes encharcados dentro da bolsa. Ela chega de mansinho, pedindo rouca que sintamos o prazer de andar descalço. Passa feito furacão guardando as blusas de lã, abrindo a garrafa de rum da geladeira. Ela não quer mais janelas fechadas, empurra tua mão para abri-las, sentir o vento na cara e nem ouses ligar ar-condicionado! Porque é só isso que ela quer: que tu sintas. E é assim que desejo sempre a Primavera: a sentir mais. Depois passaremos o sufoco das consequências de tanta ousadia – mas só no Verão.

Te desejo uma boa Primavera. Porque ninguém toma decisões nas Primaveras. Ela não nos julga – culpados ou penitentes. Ela busca encobrir nossos rastros de erros do passado. Vai, aos poucos, pedindo com jeitinho que a gente mostre o que existia adormecido no Inverno. Ela nos convida a vê-la, ao show que ela não deu às 11h21, mas que terá atrações todos os dias e madrugadas. Ela quer que a gente mude, pra melhor (talvez ela tenha ouvido minhas discussões acaloradas com o Inverno, não sei). Ela ri de mim, dessa ânsia aloprada em pegar tanto sol e estar com a pele em brasas antes da nossa hora marcada – talvez só o Verão saiba como gosto do cheiro do sol sobre a pele.

Desejo, a nós, uma inesquecível Primavera. Não esqueça, não se distraia: repara. O Inverno é pai das certezas; nem só de repetição é feita a vida, e o presente de passado se sufoca.

22 de setembro, 12h. Hora de almoçar e voltar para a praia.

A moça da história incompleta

Eu não sei bem as razões que nos levam a querer tantas explicações. Natural do ser humano, diriam. De uns tempos pra cá talvez eu tenha deixado de ser tão humana, então. Saber é um vício, ou um simples exercício, ou, ainda, problema de ególatras. Fui deixando de querer saber… Nem sei quando isso começou. Nem o “curiosidade mata” me impediu de ser uma criança que perguntava tudo, que queria saber de tudo, e que incomodava muito. Eu lia a Barsa da casa dos meus avós e a dos meus pais, por exemplo. Não tinha Google e era divertido. Lembro de me admirar “nossa, a Barsa tem tudo!”. E quem é que dá bola pra Barsa, Fahya?

Não sei porque sempre queremos saber – estaria eu, agora, querendo saber? Tivemos um colega na graduação de Filosofia, aluno mediano, envolveu-se com o mais morto que vivo centro acadêmico do curso (que, aliás, sempre me lembra de outra história – quem dera eu nem lembrasse mais), frequentava as festinhas do CFH. Não era amigo próximo, mas vez ou outra conversávamos entre a roda de amigos. Eis que um dia uma moça (não lembro se era caloura da Filosofia ou de outro curso) morreu no Campus no meio da madrugada. Digamos que foi uma história chocante na época. Nós sabíamos que os dois estavam juntos de vê-los pelos corredores (ah, se aqueles corredores falassem! – Deus queira que eu nunca os ouça) e o burburinho correu solto. Uma moça foi encontrada morta e os fatos eram nebulosos.

Lembro de ter visto na TV as imagens das câmeras. Foi depois de uma festinha no campus, um prédio novo em construção (da Química, se não me engano, atrás do estacionamento do centro de Direito e Sociais), os dois subiram as escadas – as câmeras mostraram tudo – e no alto, meio que num impulso, ela sobe o parapeito e cai – ou se joga. Além da comoção, lembro de ter ficado bem próxima da convicção de que ela havia se jogado, talvez um pouco inconsciente (sob efeito, talvez, sei lá do quê) das suas ações. Ele sumiu por algum tempo, nem sei se terminou o curso. Acho que fiquei, à época, um pouco obcecada pela história. Surgiram boatos de que eles haviam brigado e como os jornais gostam, deram o prato cheio da tragédia, não deram muita bola para as consequências e exposição dos envolvidos.

Até hoje eu não sei como terminou a história. Os amigos mais próximos dele também não tiveram muito contato, muitos de nós não queríamos julgá-lo. Ou seja, é uma história incompleta. E eu me descobri obcecada por histórias incompletas. Por isso mesmo que, esses dias, lembrei desta história e fiquei me perguntando o que teriam pensado ou sentido os pais da moça (não lembro o nome dela por nada deste mundo). Se o nosso colega, afinal, era culpado ou não. Ou, ainda, se existem culpados numa situação dessas.

Minha obsessão por histórias incompletas se vê até nos filmes e livros que abandono. Só semana passada foram uns quatro. Fiquei uns minutos imaginando como seriam os finais daquelas histórias – umas, aliás, de tão óbvias e quadradinhas, estou certa que não errei (redundante isso, não?). Quando alguém conta uma história, nós queremos ouvi-la toda. Se a pessoa interrompe a narrativa, ou se termina de contar sem ter um final, nos frustramos (ou ficamos revoltados). É essa sensação de completude sobre os fatos, os eventos e as narrativas que sacia as pessoas. E eu não sei bem quando foi que perdi isso…

O caso desta moça foi pouquíssimo tempo depois do meu irmão ter se suicidado. E foi bem naqueles dias que todo filme que eu ia assistir tinha, obviamente, um suicida. E foi quando eu não sabia mais se saber de tudo é tanto assim da natureza humana. E foram essas experiências que me fizeram mudar – apesar de ter, por algum tempo, me incomodado com histórias incompletas, se não por mim, pelos outros. Talvez as pessoas realmente precisem de explicações. Talvez elas precisem saber porquês, comos, quandos e ondes. Eu já sei que a vida é muito curta para perder tempo com filmes ruins e livros chatos. Ou com pessoas que não trazem alegrias pra tua vida – ou que você não pode fazê-las felizes.

Eu não lembro mesmo o nome da moça. Não sei se o nosso colega falou com os pais dela, quais foram as últimas palavras dela – para os pais faz diferença. Eu nunca dei meu apoio explícito a ele (ainda tenho cá guardada a convicção de que não houve culpados), mas lembro que deixei claro que não fiz julgamentos – e, naqueles (como em tantos outros) corredores, isso é raro. A história, vocês me desculpem, fica assim incompleta. (talvez um google aí os ajude, as Barsas certeza que não se atêm a essas minúcias da vida mundana – não somos nenhum Napoleão)

Bilhete de partida

Parti sem data pra voltar

deixo o bilhete de despedida

sem meias verdades

levo a alma manchada

de frustrações

Queria querer precisar

de ti e do abraço apertado

hoje sinto-me sem ar

sem rumo a encantar-me

sem paixões

– das que rompem meu querer

Levo pouca roupa

pouca comida

pouco dinheiro

e uma mala de saudades doidas

para matá-las à beira-mar

Acendi uma vela

para desfazer o encanto

das tuas palavras

deixo instruções

de sobrevivência sobre a mesa

e parto sem peso na consciência

vou ali sentir o sopro vibrante

de saber que o mundo não precisa de mim

que nem você nem ninguém

– precisam de mim

e, quem sabe, nas ondas

descobrirei o que preciso.

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

Acima ↑