Nota

Onde torres são erigidas

Pedaços de terra são perdidos e conquistados

Onde há guerra ao lado

E as pessoas querem ser corajosas

Um gole de bondade

Uns petiscos de solidariedade

Nada vai e tudo volta

Em nome de que eu existo?

Cá estou, meu senhor, este é meu nome

Sobrenome, religião, princípios

Aqui, veja, tem até a hora que sinto fome

Agora pode, senhor, dizer quem eu sou?

Os arranha-céus e os igarapés

As bandeiras hasteadas

E o discurso de paz

Talvez se eu lhe disser, senhor

Qual o meu livro favorito?

Se prefiro anéis ou brincos?

Qual o meu signo?

Então me dirá se: culpado ou inocente

Onde doces as vinganças

Amargas as vitórias

Os heróis de terno não sabem seu destino

Senhor, por favor, uma nota de pé de página:

Não ato laços, eu crio casos.

O mal, uma questão existencial

Não sei bem quando foi que conheci a maldade. Talvez tenha sido quando a colega de escola, nos primeiros anos, me chamava de elefante – “ó, lá vem o elefante!”, gritava pelos corredores ao me ver, ela que era e ainda é magérrima. A mesma que hoje tem por companheiro um rapaz acima do peso e abriu um restaurante de comida vegana, além de viver cercada por mandalas e afins.

Talvez tenha sido quando pessoas muito próximas, dessas que dizem que temos o mesmo sangue, traíram, enganaram e causaram uma infinidade de males às pessoas que mais amo. Lembro bem, enquanto na escola me chamavam de elefante, de uma ex-prima, ao dormir na minha casa, dizer que os pais dela diziam que conosco era tudo “olho por olho, dente por dente” e de uma ex-tia que me agarrou à força na frente de casa e me disse tanta coisa que ao chegar para minha mãe eu nem sabia repetir tudo aquilo – o bloqueio, graças a Deus, permanece até hoje.

E foi assim, de pessoas que eu nem ligava muito até aqueles que entram na casa da gente, que eu conheci a maldade. Vi as lágrimas correrem de olhos nos quais eu jamais imaginaria, tudo por conta da maldade. Lá se vão quase trinta anos de vida e posso dizer que, na pele, já senti a maldade em umas centenas de formas – enquanto observo-a, no mundo, em tantas outras fantasias que ela adquire.

O mal não é novidade. O mal é banal. Enquanto houver ser humano na face da Terra, existirá a maldade. Todos nós podemos praticá-la. O ser humano, enquanto ser, é mau – falta-lhe a humanidade. Já devo ter dito, mas não gosto dos adjetivos “selvagem” ou “bárbaro” para designar o que me parece estritamente humano, como a maldade.

Talvez pela minha natureza curiosa ou teórica, gosto de quem pensa a maldade. Foi o que me atraiu em Hannah Arendt. Ainda experienciando a maldade no meu dia a dia, tive contato com Eichmann em Jerusalém. Desde aqueles tempos da escola, a história da dizimação dos judeus me fascinava (a maldade, vejam só, tornar-se-ia um tema dos mais relevantes na minha vida) com suas fotos nos livros de Histórias (os quais guardo até hoje). É um fragmento da História da Humanidade que detém meus pensamentos há muito tempo. E a filósofa toma Eichmann, esta figura pretensiosa e angustiante, como exemplo do mal que se faz tomando o famoso “apenas cumpri ordens” por princípio. Ela quer distanciar os vilões, dessas moças bonitas, maquiadas e bem-vestidas das novelas da TV, por exemplo, da pessoa genial, da grande vilania da literatura. O vilão é um Eichmann, um ridículo. É esse cara com quem você almoçou ontem, de calça jeans e camiseta, sem nada de especial.

Recentemente me deparei com Labirinto de Mentiras e The Eichmann Show, além de ter revisto Hannah Arendt, estes dois utilizam as imagens reais de arquivo do julgamento de Eichmann – pois imagino que não há ator capaz de interpretá-lo na sua total falta de humanidade; só demonstra, talvez, no máximo, preguiça em estar ali – e me debrucei novamente sobre a maldade: como não gostamos de falar sobre isso, como fazemos de conta que ela não existe. Até, talvez, atacarem a capital mundial da liberdade. Aí é difícil evitar os noticiários e o assunto do momento permeado de opiniões rasas.

Depois que li A Sangue frio, delineei uma relação entre o livro da Hannah Arendt e a jóia de Truman Capote. Ambos tratam do mal, este mal banal que permeia a nossa vida, seja lá a vida de quem for. Eu já conhecia a história da família assassinada em Holcomb, porém ao começar a leitura percebi a genialidade de Capote ao traçar o caminho (não só geográfico) dos assassinos. Ao terminá-lo, perguntas ficam sem respostas. Não é o crime, a cena sangrenta, que interessa.

Talvez por este interesse em particular pela maldade eu não entendo a comoção histérica diante de grandes catástrofes e holocaustos perpetrados pelo ser humano. O mal que se faz ao planeta, tanto quanto o mal que se faz a qualquer ser humano (seja ele branco, negro, mulher, criança, homem, idoso, etc.) é o mal que se faz contra o mundo no qual vivemos e contra todos nós. Não existe grau de “mais mal” e “menos mal”, seja por questões pessoais, religiosas, geográficas ou políticas. Hannah Arendt enfatiza a maldade propagada por ideologias, pois muito mal se faz em nome deste ou daquele, desta ou daquela crença (em idéias, deuses, ídolos). Nossas crenças pessoais são as que mais praticam o mal. A colega da escola não me chamava de elefante porque pertencia ao partido de algum Estado totalitário, eram as convicções pessoais dela (sim, as temos desde cedo) que a levaram a agir assim. A maldade, em si, não precisa de grandes causas, não precisa encontrar em um povo inteiro a sua vítima.

Talvez não sejam esses medíocres a praticar a maldade verbal mais pobre que estejam aptos a praticar os grandes atos maus. Depois desses anos todos e de tanto pensar nisso, sei que o mal está em quem tem poder, dinheiro, meios tanto quanto em quem não tem um tostão no bolso, nem um cachorro que lhe lamba a cara: e os atos de todos prejudicam, matam, ferem, destroem, deixam cicatrizes para sempre.

Talvez a humanidade prefira creditar as atrocidades do mal à grandes grupos religiosos, étnicos ou políticos. Porque o que torna a nossa vida ainda mais difícil, ainda mais insegura, é sabermos que o mal em si é medíocre, é banal e, como Labirinto de Mentiras expõe tão bem, está no padeiro, nos nossos familiares, no professor da escola dos nossos filhos, nos grandes artistas do nosso tempo, em líderes que vêm do povo. É isso que nós não queremos saber.

O mal, a despeito do nosso medo de encará-lo, não tem limites ao ser praticado nem ao que ou quem atinge. E preferimos pensar que estaríamos a salvo no seio da nossa família, cercado pelos vizinhos do nosso condomínio, ao entrar no avião, ao jantar tranquilamente nos melhores restaurantes, enfim, cercados pela civilização da qual tanto nos orgulhamos.

É raro, mas quis deixar assim organizado (tudo fácil de encontrar, nada cult ou dificílimo de ver/ler).

* Lista das citações

Eichmann em Jerusalém, Hannah Arendt, 1963.

Im Labyrinth des Schweigens (Labirinto de Mentiras), Alemanha, 2014. Direção Giulio Ricciarelli

The Eichmann Show, Reino-Unido, 2015. Direção Paul Andrew Williams

Hannah Arendt, Alemanha e França, 2012. Direção Margarethe von Trotta

A Sangue Frio, Truman Capote, 1966.

E alguns outros que eu lembro agora porque me marcaram muito:

Areia Pesada, Anatoli Ribakov, 1978.

Wakolda (O Médico Alemão), Argentina, 2013. Direção Lucía Puenzo

Exceto A Sangue Frio, todos tratam do assassinato em massa dos judeus – é uma fixação minha, claro, mas considero um bom exemplo a não ser esquecido do ser enquanto não-humano. As bombas em Hiroshima e Nagasaki também podem ser usadas, a perseguição aos católicos no Oriente Médio, a Inquisição Católica, o tráfico de escravos, e tantos, tantos, tantos outros (volta e meia falo disso por aqui, aliás). O que só prova meu ponto de que o mal está sempre presente, é inerente a nós.

Quarenta e dois dias

Quando eu acordava, era você que eu via por primeiro. Não sei mais o que são meus dias sem você além de uma sucessão de horas passadas sem memória. Meu corpo sente a tua falta. Meus olhos sentem a tua falta. Nem em sonhos eu te vejo mais. Eu vivia num buraco escuro quando você surgiu. Fomos, sim, como dizem todas as canções, tão felizes juntos. Fomos feitos um para o outro. As melhores e mais belas coisas que eu fiz na vida, lá estava você. Ah, como sinto saudade das nossas fotos juntos. Com você eu me sentia viva. Pedalar pelas cidades na tua companhia era sublime, nem importava o fato de quase ser atropelada ou o suor abundante que escorria pelo corpo: eu estava com você. Quantas aventuras juntos? Quantas presepadas e quantos tropeços meus você presenciou? Sempre ali ao meu lado, consciencioso, firme e me transmitia tanta confiança. Era tão fácil confiar em mim, com você ao meu lado. Era tão fácil sorrir pra vida, sabendo que eu te teria comigo.

Tudo perdeu a cor. Tudo perdeu a graça. Voltei ao breu da vida. Sem desculpa e com muitas explicações e justificativas, você se foi. Se foi com alguma promessa vaga de voltar. Dizem que você vai bem, longe de mim. Dizem até que vai melhor assim. Mas eu me agarro à esperança de um dia te ver de novo. De um dia tê-lo novamente ali ao acordar. Sinto frio todos os dias, o dia inteiro. Dizem que estou pálida, que não me animo a nada, que não ponho os pés para fora de casa. E é verdade. É a falta de você. Como um presidiário com longa sentença a pagar, conto os dias da tua ausência em risquinhos na parede. O tempo é um castigo. Não sei o que fiz pra te perder e por mais que digam que não é culpa minha, me penitencio.

As flores do jardim, as árvores, os cachorros e gatos, todos sentem tua falta. Ou são meus olhos que vêem neles a falta que você faz. Por vezes, sinto que minha alma escoa junto à chuva, se perdendo em milhares de metros cúbicos pela terra encharcada. Tem dias que sinto-me à beira da loucura, como atada à punições severas e querendo fugir para uma terra onde possa encontrá-lo de novo. Acordar, abrir a janela e não vê-lo é o resumo do meu dia. Foi assim hoje e nos últimos quarenta e um dias. Então, sem você, abro inutilmente as cortinas da casa e espero o horário de fechá-las, sem que você tenha vindo me fazer sorrir. Sem que você tenha aparecido pra despertar em mim a vontade de encontrar o ângulo certo para captar uma bela foto. Sem que você me anime a sair pelas ruas novamente.

Quarenta e dois dias sem sol. Quarenta e dois dias penando neste calabouço. Mas, dizem, você vai voltar. Dizem que ali acima, em algum lugar, você está. Tenho até medo da minha reação quando você aparecer… talvez eu saia dançando pelo jardim, numa espécie de dança do sol; talvez eu cante enquanto percorro as ruas buzinando e gritando “ele voltou!”; talvez eu sinta tanta alegria ao mesmo tempo que não consiga acreditar nos meus olhos; talvez, pela minha natureza desconfiada, eu espere pra ver se você veio pra ficar; talvez, meu querido, eu abra a cortina e te dê meu melhor presente: este sorriso que só você conhece.

Mas, volte. Volte porque nem eu aguento minha pele tão branca, nem tenho paciência para usar tanta roupa. Volte porque todos aqui sentimos a sua falta. Volte, porque se não me deste a Primavera dos deuses que me inspira tantos amores, ao menos me prometa um Verão inesquecível na tua companhia.

Da terra onde há quarenta e dois dias não vemos o sol.

Camelos passarão

E aquela mulher não ficava quieta. Chamou o filho “Diz que eu não tenho dinheiro pro remédio, diz pro médico que tu quer C E F A L E X I N A (dizia com uma acentuação engraçada) porque eu tenho um cunhado que já teve isso e curou.” E repetia C E F A L E X I N A. O rapaz quieto enquanto ela reclamava da demora. O segurança contava para um homem que ele não pegava a escala para trabalhar ali nas segundas-feiras, pior dia, porque sempre dava confusão e era preciso chamar reforço. A mulher irritante atravessou-se na conversa e, como havia entendido errado, comentou que era muito bom a Guarda Municipal cuidar dos carros do estacionamento. E o tempo não passava.

Os nossos problemas são, sempre, menores do que os problemas de tantas outras pessoas. Era este o meu pensamento sentada ao lado daquela mulher irritante. Sabe aquele tipo que dá palpite e acha que sabe tudo, manda e desmanda? Eu, quieta no meu canto, não escapei do seu ataque “Tá esperando muito tempo?” ao que eu respondi que não. Mesmo se estivesse, não daria este gostinho a ela. Não seria mais uma a me juntar aos reclamadores de plantão. Esperaria, é certo, e sabia que não levaria pouco tempo.

Naquele mesmo domingo, onze de outubro, o padre Juca fez um apelo. Pediu que rezássemos pelo nosso povo, pela intercessão de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, padroeira do Brasil, que seria celebrada no dia seguinte. Padre Juca lembrou dos desmandos, roubos e crimes que temos visto serem cometidos contra o nosso país – em favor dos que mais têm poder e que prejudicam muito os trabalhadores, nós, os que menos ou quase nada têm. Um país destroçado pela ganância e sede de poder. Um povo abandonado à própria sorte, sofrendo os danos infligidos por quem deveria trabalhar para ele. Talvez só reste, a este povo, rezar. Pedir à Mãe Aparecida a intercessão e proteção.

Estava no PA Sul pela décima segunda vez, segundo a minha ficha. Ao sair às pressas para a missa, prensei a mão no portão. Além dos ralados, doía. Era a mão direita, meu instrumento de trabalho – e eu imaginava o caos que seria não poder usá-la. A mulher insuportável e os dois filhos, homens feitos, tinham furúnculo. Um deles no dedo, outro lá onde vocês podem imaginar e ela eu nem sei. A cada minuto ela dizia que ia desmaiar, que estava tonta, foi até aferir a pressão. Eu aguardava a minha vez fingindo um estoicismo ardente.

Eis que minha atenção foi aprisionada por uma senhora. Agarrada a uma sacola plástica, ela era uma das vítimas da mulher irritante que a bombardeava de perguntas e ordens. Esta senhora era parente de um paciente que estava internado no PA – desconfio que irmã ou mãe dela. Sem notícias, aguardava. Sem deixá-la em paz, a mulher irritante incitou-a a entrar na área de internação.

Nossos problemas, como eu dizia, não são nada diante do que sofrem os outros. A senhora voltou da Observação e contou a história da paciente que ela acompanhava. Estava ali desde ontem, havia sofrido parada cardíaca e queriam transferi-la para Florianópolis, pois em Joinville não havia vaga. Vi as lágrimas conformadas naquele rosto seco e envelhecido, o vazio naquele abraço automático ao saco plástico. Os médicos estavam tentando de tudo, mas “na maior cidade do Estado” não havia vaga em CTI para um caso de parada cardíaca. Me senti por terra. Não queria mais estar ali. Passaria um cataflam na minha mão e ela ficaria boa. Mas por aquela senhora, por aquele paciente que nem sei quem é, eu não podia fazer nada.

Pouco antes de eu ser chamada, a senhora voltou – sem esperança. Os médicos haviam conseguido a vaga em Florianópolis, mas a paciente não estava em condições de empreender as pouco mais de duas horas de viagem. “Acho que ela não vai conseguir mesmo, só estão esperando” foi o que ela disse. E mesmo neste momento a mulher irritante soltou “Leva pelo menos até o Betesda, não deixa ela morrer aqui” ao que a senhora repetiu que não havia vaga.

Sabe quando você sente que nunca mudará o mundo? Quando você se sente sem palavras ou sem ter o que fazer? Eu me sentia pior. Eu vi chegar mais um senhor e uma moça com os olhos pastosos de tristeza. Eles se debatiam em telefonar pra esse, chamar aquele. E não havia vaga em nenhum hospital para que aquela pessoa lá dentro tivesse o tratamento necessário. Para salvar aquela vida.

Fui examinada e segui para o raio-X. Pela primeira vez encontrei o corredor dos consultórios vazio – justo naquele dia eu havia sido encaminhada para o Cirúrgico. No silêncio, rezei uma Ave-Maria pela paciente que estava diante da realidade. Da realidade de não ter um leito numa cidade que se orgulha dos seus mais de 500 mil habitantes. Da realidade de médicos que tentam de tudo, mas que se frustram por não ter como fazer mais. Da realidade da tristeza impotente dos que a amam.

A mulher irritante e seus filhos saíram de lá com os remédios e curativos. Eu peguei uma receita. Ao todo, o atendimento durou cerca de duas horas.

Pensei tantas vezes naquela senhora e na paciente. Aliás, não consegui tirá-las da cabeça. Me socorri nas palavras do padre Juca. Senti como é estar tão desolado que a prece é a única coisa na qual podemos nos agarrar. Mas senti, também, uma necessidade de escrever. E este texto saiu a marteladas, como se eu tivesse tanta coisa para dizer e não conseguisse, como se eu quisesse apontar culpados, como se eu precisasse escrever para dividir minha angústia. O caso da falta de vaga não rendeu capa para os jornais locais. Ninguém perderá votos, por isso, na próxima eleição. Eu não sei o que aconteceu com a paciente, mas desejo que ela esteja bem. Que o amor dos familiares, a intercessão divina e o empenho dos médicos tenham-na salvado.

O evangelho daquele domingo foi a famosa passagem sobre ser mais fácil um camelo passar no buraco de uma agulha do que um rico ir para o céu. Talvez seja mais fácil fingirmos que o país vai bem, ou reclamarmos inclementes do péssimo atendimento de um PA que abrange toda a região sul de uma cidade populosa, ou simplesmente pagarmos um plano de saúde. Muitos camelos passarão, enquanto achamos nossos problemas mais importantes do que os dos outros e a todos nós só nos resta rezar aos céus.

Como ser um little boy

12 de outubro, dia de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, dia, também, das crianças. Talvez eu escrevesse aqui aquelas quatro ou cinco páginas sobre mil coisas e pensamentos que tenho vivido. Mas sobre esses dias que a gente não quer que acabe, terei muito ainda por escrever nas próximas semanas.

Escrevo para deixar uma pérola do cinema, um sonho como todo filme deveria ser. Nunca repararam como os filmes se assemelham muito aos sonhos? Pois é. Deixarei a crítica de cinema de lado, por ora, – só devo dizer: Fotografia (iluminação, as cores e enquadramentos e movimentos de câmera, essas coisas) deslumbrante e com um toque de felicidade; atuações maravilhosas; roteiro sensacional; – para comentar uma lista, “an ancient list”, que é praticamente um personagem do filme.

Gosto de escrever de coisas boas, de como podemos ser melhores. E o filme, numa sessão Dia das Crianças, e increase your faith, ambas perfeitas para este feriadão, é exatamente isso: como ser melhor. Como melhorar a nossa fé, e nada melhor do que a partir da visão de uma criança. Deixo aqui a lista com o desafio: conseguiríamos dar conta dela? O post de hoje é breve e imprescindível, com tempo poderíamos discutir cada item. Na última lição a ser empreendida e aprendida devemos acrescentar o nome do nosso Hashimoto: quem mais odiamos na vida, o que desperta nossa ira, a quem destinamos nossas más ações. O nome que devemos colocar ali fica aberto à nossa livre e sincera escolha.

Fiquem com a lista. Assistam ao filme Little Boy (Alejandro Monteverde, 2015) se quiserem porque quem sou eu para impor alguma coisa a alguém. É emocionante, no mínimo. Qualquer dia talvez eu fale mais dele por aqui (porque por aí falarei pelos cotovelos, certeza).

the-list

Ps.: não sei se a lista tem alguma origem e tal, depois pesquisarei com calma (mas vi que tem textos interessantes sobre o filme por aí).

Mundos possíveis – exercício filosófico

Em homenagem ao último conto que li, sofrendo por ver o livro terminar, decidi escrever sobre um exercício filosófico. A Filosofia só causa males, para a alma, mente, corpo, enfim, para tudo. Vamos ao exercício.

O que você faria se não houvessem leis, nem morais nem jurídicas, nenhuma, nem consequências (que, se olharmos bem, só existem moralmente) dos nossos atos, nem punições? Uma das artes da Filosofia é imaginar os famosos mundos possíveis. Então, este seria nosso mundo possível: não há leis nem consequências. Quais seriam seus atos? Quais seriam seus princípios?

Talvez caiba definir se nasceríamos neste novo mundo ou sairíamos do nosso mundo (já afogados em leis e detentores de uma consciência tolhida em várias esferas) e entraríamos no paraíso do mundo possível. Se nascêssemos no mundo possível proposto, seria ideal, posto que não traríamos o arraigado certoXerrado das nossas sociedades – e provavelmente viveríamos naturalmente nele. Se hoje jogassem um de nós neste mundo possível, o processo se daria de modo muito mais agressivo, para uns, ou assustador, para outros. Ou, em muitos casos, não haveria processo algum.

Pensem em pessoas que vocês conhecem. Aquele cara que no momento da suspensão das leis e das consequências, sairia bêbado dirigindo loucamente como bem entendesse, pegaria em armas e mataria todos os seus desafetos – até quem lhe pisasse o pé por acaso. Talvez as leis existam justamente por causa dessas pessoas. E você? O que você faria?

Quantos sinais você furaria? Quantos casos extraconjugais teria? Quantas pessoas mataria? As leis só existem para que deixemos o nosso lado ser (do humano) aprisionado e domesticado. Enquanto seres, agiríamos – todos – de modo repreensível. O acréscimo “humanos” é que nos previne de que não podemos apenas ser neste mundo. O humano deve pensar que há uma humanidade, que há outros que dependem entre si para continuar existindo. Talvez hoje sejamos mais humanos do que em 1940. Talvez digamos isso baixinho, numa noite escura, para tentar nos convencer.

Eu tenho certeza que mataria alguns. Poucos, é verdade. Um ou outro aí que eu preferia que não existisse. A não existência de leis morais nos levaria a praticar tudo aquilo que nossa mente refreia ardorosamente todo santo dia. Jogaríamos (mais) lixo nas ruas e nos rios, ouviríamos música num volume (mais) alto, não doaríamos nada nem daríamos esmolas, arrotaríamos e peidaríamos quando e onde desse vontade, cobiçaríamos a olhos vistos até conseguir. Praticaríamos os atos mais ignóbeis que hoje permeiam os cantos das notícias de jornal.

Ah, então seria a barbárie! Não. Seria o ser do humano. Só isso. Seríamos, digamos, mais nós. De verdade. Roubaríamos milhões, bilhões, trilhões (e eu mal sei contar até aí) porque não haveria punição nem nenhum peso moral que nos condenasse – diante da sociedade ou afundados nos nossos travesseiros. Mentiríamos ao nosso bel-prazer! Imaginem quantas desculpas, mentiras e justificativas poderíamos dar sem o peso do constrangimento! Enganaríamos quem amamos, passaríamos a perna nos nossos concorrentes da forma mais desleal possível.

Quando batesse uma tristeza, poderíamos colocar o pé para alguém tropeçar, só pelo desejo de rir de alguma coisa. Certeza que eu faria muito isso. O exercício consiste em nos colocarmos neste mundo possível para, no mínimo, nos conhecermos melhor. Sabermos, enfim, do que seríamos capazes na prática. Visto que a maioria esmagadora de nós não matará, neste mundo real, o seu colega de trabalho porque ele é burro e fala demais (no mundo possível eu mataria, certeza certa). E vocês, o que fariam? Me contem! (se é que pode ser algo assim dito com todas as letras)

Além de matar os burros e chatos e praticar sacanagens bobas para rir dos outros, esses pecadilhos de nada, não sei se eu faria coisas muito graves – é o peso do humanismo moral que nos cerceia até a imaginação. É, pensando bem, também não teria muito problema com roubar. Mas preferiria correr as casas de madrugada, sacaneando cachorros e quebrando vidraças só para não deixar em paz o sono alheio.

O exercício filosófico de imaginar mundos possíveis é gratificante. Nos coloca de frente com nossos maiores medos e prisões. Faz com que entendamos muito mais de nós, do que somos capazes e, principalmente, dos nossos desejos. Não acho que a humanidade conseguirá ser assim tão humana enquanto os desejos viverem reféns do joguinho infantil do pode e não pode. Talvez, ao sair de um mundo possível, cheguemos a conclusão de que não precisamos de tantas leis, de tanto pensamento ruim, de tantas amarras. Imaginar um mundo possível qualquer nos faz olhar o nosso mundo com outros olhos. E os mundos possíveis são infinitos, longe de nos amedrontar diante da nossa finitude, nos permite sonhar e acreditar que as coisas não podem (nem devem) ser apenas como são. Porque, para fazer deste mundo, um mundo possível, às vezes só nos falta coragem.

Dias ruins

A parte boa dos dias ruins é que eles não duram pra sempre. Pode, ou não, haver a disposição de encará-los de frente, como: vou ser feliz, me entendeu? Ou podemos apenas tentar colocar a cabeça no lugar, os sentimentos em ordem e distrair com seja lá o que for. Às vezes, desejo escrever sobre o que sinto. Não o faço porque já passei da idade de acreditar que alguém se importa de verdade com os sentimentos alheios. Qual é essa idade? Não sei, certeza que não se trata de um número aleatório calculado pela data de nascimento. É a partir de um ponto na vida, de uma carga de experiências, que você entende o valor do silêncio acerca do lhe passa pelo coração. Ninguém se importa e trazer os sentimentos à tona só é chato e ridículo. Não que não devamos tê-los, longe disso. Mas é imprescindível saber conviver com os próprios sentimentos, sem que precise externá-los a ninguém. É só uma teoria? Talvez. Uma teoria que funciona na prática.

Nesses dias ruins, me pego pensando: o que faz alguém que não tem um quintal nessas horas difíceis? Joga vídeo-game, oras. Bem, eu não tenho vídeo-game e acho plausível que alguns tenham esta válvula de escape. O que fazem aqueles que não apreciam um bom chá para clarear a mente e confortar o corpo, quando as notícias não causam boas sensações? E os que não se encantam com um incenso aceso para liberar os pensamentos das coisas ruins? Vão ao shopping, talvez. Fazem hora extra no trabalho, quem sabe. Desde que cada um saiba identificar quando está num dia ruim e o que deve fazer para passar por ele sem muitos danos – e de preferência com ganhos – tudo ficará bem. Mas há quem não enxerga nada e por isso, também, não faz nada para melhorar. E há quem não se conheça o suficiente para saber no que deve mergulhar para não se afogar.

Ou, ainda, quando você sabe que só conseguirá passar pela turbulência ao ouvir as suas músicas favoritas para estes momentos. E aí parei pra pensar que há quem não ouve nenhum ruído deste mundo, nem a música. A estabilidade de uma vida com tudo “perfeito”, com saúde, braços, pernas, sentidos nos cega. É como viver todos os dias da vida sem nunca pensar que num instante podemos perder tudo e todos que amamos. Assim, num vapt. Porque quando der o vupt já será hora de lamentar não ter se prevenido do que poderia acontecer. Dizem que é sair da sua zona de conforto, essa vidinha cheia de pleonasmo que a gente leva e fica deitando e levantando todo dia da cama. E preparar-se para os dias ruins – dando aquele tempo pra cuidar do jardim, jogar vídeo-game, tomar um chá, estourar o cartão de crédito – é contornar de antemão os danos a si e aos outros.

Nesses dias ruins, até aquele livro adorável que estou lendo, que me fez enxergar e estudar tanta coisa, está acabando. Nas últimas páginas… no último conto, e eu faço como quando estamos comendo algo muuuuito gostoso, começamos pelas bordas, vamos comendo devagar, para prolongar o prazer. Eu não quero que o livro acabe. Não agora que talvez eu esteja num desses dias ruins. Então me delicio aos pouquinhos. Bem, isso só vale para o tipo de pessoa que gosta de histórias que os livros contam e, também, que não vai com toda sede ao pote – porque sabe que a vida é assim gostosa e bonita porque foi feita pra ser apreciada, e não engolida de uma vez sem sentir o gosto. As teorias nunca valem pra todo mundo, vejam só.

Se os dias ruins não duram pra sempre, os bons também não. E é essa balança que nos fideliza na experiência. Há quem se iluda. Há quem idealize tudo e todos. Há quem se engane. Há quem fuja. Na minha teoria, a vida foi feita pra ser encarada de frente. Vai arranhando, vai tirando pedaço, vai deixando saudade, vai sorrindo, vai surpreendendo, vai arrancando e brotando. Olhar de soslaio pra vida, ou de óculos escuros, ou por cima dela, é coisa daquelas pessoas que nos dias ruins nunca sabem que é hora de parar pra jogar vídeo-game, assistir a um filme, podar umas árvores, pegar a estrada, dar um mergulho no mar ou, sei lá, tomar um banho de chuva. Depois podemos até voltar, mas só depois.

Pretensões

Eu aqui nessa pressa e nessa angústia de escrever algo tão inteligente, com aquelas frases bonitas que dão vontade de publicar nas redes sociais porque, a gente sabe, como é pretensioso todo ser que acha que tem algo a contar. Vejam a fila do supermercado: não anda. Aqueles dois a falarem de tudo de ruim, “Sabe o preço da cebola? Então, e o gás, rapaz! A conta de luz tá mais que o dobro do mês passado e o dólar passou de quatro reais!” como se alguém ainda não soubesse, eles tagarelam interminavelmente. E a fila não anda. Agora até eu sei que a filha de um deles vai casar – mas ama outro que não o noivo. Não entendo muito da vida, mas sei que na ficção isso acontece bastante.

E eu aqui, nessa pretensão de contar alguma coisa. Como a recepcionista daquele prédio, disse pra colega que vai comprar quatro peças de roupa – vocês sabem como é, não dá pra ser só recepcionista, tem que fazer uns bicos, já viram quanto que tá o Omo? E a moça pegou uma blusinha rosa que não esconde quase nada por cento e quinze reais. Cento e quinze, meu amigo? Imagino aquele senhor do supermercado, se a visse, certeza que perguntaria “e a crise?”. Mas a colega disse que parcela em até quatro vezes. Chega natal e nada da blusinha estar paga.

E eu aqui vendo uma formiga atravessar o estacionamento, daquele tamaninho e contra o vento forte e frio. Como o senhor da fila do supermercado que cortou a sagrada cerveja com alcatra de domingo – agora só uma macarronada ou, no máximo, um frango assado, sem álcool – e quase chorou quando, baixinho, confessou ao amigo que vai pagar sozinho toda a festa de casamento da filha. Insistiria, quem sabe, na metáfora “as formiguinhas somos nós”. Mas, coitadas das formigas, ou felizes delas, sei lá. O escritor é quem não as deixa em paz.

E eu aqui, pois escritor não deixa ninguém em paz – nem a si mesmo. Fui dormir e as histórias não deixaram, enquanto você não as coloca no papel e põe o bendito ponto final, elas ficam aí nesse ego inflado achando que têm tudo a nos dizer. E eu querendo pensar “deixa a moça comprar a blusa e não deixa a tua filha casar”. Mas o que eu tenho com isso? Quero mais meu sofá com um bom filme de amor do século passado que amanhã eu tento de novo.

Você talvez não saiba

Meu avô dizia: a ocasião faz o ladrão. Faz tempo que não escrevo coisas do meu cotidiano (tenho evitado), porém, por motivos nobres, abrirei uma exceção.

Quais os motivos? Sei que não sou a única (nem de longe) que passa por isso. Sei que o ser mulher é muito diferente de qualquer outro ser (no sentido ontológico mesmo) e não, o mundo ainda não atentou o suficiente para isso. Sendo do sexo feminino, não importa a idade, estar acima, abaixo ou no peso, estar com tudo em cima ou desleixada, ter cabelo curto, comprido, médio, loiro, ruivo, pintado ou branco. Não importa. Você é do sexo feminino e será vítima de situações de violência, de opressão, de intimidação. Por ser mulher. Antes: não sou feminista. Tomo todo o cuidado, por princípios, de me manter distante de bandeiras de lutas (sociais, ideológicas, sei lá) – exceto minha predileção política e econômica pelo Liberalismo, mas é outra história. Tenho pra mim que determinadas coisas, quanto mais hasteadas as bandeiras, mais elas de afastam de ser dizimada das atitudes das pessoas. Posso estar errada. As cisões sociais e afins tendem a aumentar, a tornarem-se mais radicais, quando são expostas – enquanto eu sonho que possam ser diluídas até não mais existirem. Contudo, é preciso que sejam relatadas, expostas, esfregadas na cara dessa gente que tem a mentalidade e, pior, a atitude de quem vê o mundo com olhos estúpidos.

Era cedo, mas não muito, quase oito da manhã. Saí de casa para caminhar até uma parte da praia. Muitas, muitas e muitas vezes fiz e farei o mesmo caminho. No Verão, muitas vezes o fiz realmente cedo, lá pelas seis, para ver o sol nascer. Estava com a câmera fotográfica no estojo dela e o mp3 (não ouço música no celular), só. Calça comprida, camiseta, casaco de moletom, tênis, cabelo preso. Mais comum, impossível. Fiz meu velho conhecido caminho e desci até uma ponta de pedras. À direita, uma longa praia de mar aberto, esta curta ponta emenda um caminho de pedras que leva a outra praia ao lado, menor e de mar fechado pela enseada. Caminho muito comum, todo mundo conhece, parte de cimento, inclusive. Dia nublado, praia vazia. Sentei ali nas pedras e fiquei algum tempo.

Eu gosto do mar. Uma parte de mim só existe porque eu aprecio ficar muito tempo observando o mar, fotografando ou não, ouvindo música ou não, pensando ou não. Dos meus vinte e tantos anos, uma parte foi passada assim.

Depois de um tempo, vi um homem que vinha da praia de mar aberto em direção às pedras. Não fiz nenhum contato em nenhum momento. Fiquei ali sentada como estava até então. Ele veio até perto de onde eu estava. Ficou um pouco ali e seguiu para o caminho entre as praias. Nessas horas, eu macaca velha, já tinha ligado aquele alerta que, sendo mulher, nunca desliga. Fiquei na minha, mas sem “dar na cara” não deixei de observar onde ele estava. Um tempo depois, sentei em outra pedra ali ao lado. Ao levantar, vi que ele fazia de conta que examinava as folhas de um mato que crescia no caminho pelas pedras. Da curva onde ele estava “distraidamente” parado dava para me observar. Fiquei ainda um tempo lá (minha intenção era, na volta, ir pelo caminho e passar pela outra praia) esperando que ele tivesse ido para eu poder seguir pelo mesmo caminho, de preferência sem encontrá-lo novamente.

Até o momento, claro, além do olhar insistente na aproximação de onde eu estava nas pedras e ele ter ido e voltado “para ver o mato”, nada me dizia que ele era um perigo real. Como eu disse, são vinte e tantos anos de vida muito bem vivida – e eu não deixo escapar nada. É assim que a gente se cria, olhando tudo, vendo os possíveis suspeitos, sabendo quando está ou não vulnerável. A praia estava realmente deserta, apesar de eu saber quais casas ali perto têm moradores. Ser do sexo feminino é, o quanto antes na vida, estar ciente de ter que cuidar de si mesma – o tempo todo. E eu sempre fui sozinha, sempre andei sozinha. Ele era um estuprador? Um galanteador barato? Um tarado? Tinha se apaixonado fulminantemente à primeira vista por mim? Não sei. E nunca, em nenhum caso, eu tenho desejo ou interesse de descobrir.

A gente aprende que homens são assim. Eles são conquistadores, eles tentarão qualquer coisa, eles, é óbvio, não precisam estar apaixonados por você, mas podem até dizer isso – nem que seja num encontro na rua. Homens são uma ameaça. É isso o que a experiência nos diz. Se nós temos que viver em alerta, vocês têm que viver provando que não são uma ameaça. Falem o que quiser de mim, que sou traumatizada, rancorosa, o escambau. Eu sei que aprendo com a vida – e sou uma baita observadora.

Eis que vi quando ele voltou um pedaço e ficou fingindo qualquer coisa só para me observar. Cancelei a volta pela outra praia. Fiquei mais um pouco ali, até que ele sumiu de vista. Talvez tivesse seguido o caminho. Esperei mais um pouco para garantir a distância e levantei para vir embora. Quando desci das pedras fiz questão de olhar para trás. Lá estava ele, esgueirando-se pelo caminho entre o mato, procurando por mim nas pedras onde eu estive antes. Até que, de longe, viu que eu já estava no caminho que seguia para o outro lado. Ele nunca seguiu o caminho das pedras para a outra praia. Ao me ver voltando, também voltou. Não apressei o passo, ele estava longe. Voltei pra casa com algumas bonitas fotos, com pensamentos bons embalados pela trilha do mp3: como eu amo tanto, mas tanto, e jamais deixarei de fazer. No entanto, neste dia, voltou comigo uma espécie de desalento.

Frequento esta região há muito tempo. Não sou de ir à praia só no Verão – Deus me livre! Sou sozinha. Ainda hoje, desde meus doze anos, ouço conhecidos e gente da família estupefatos porque fico sozinha, saio sozinha e tal. Porque há um silêncio sobre o conhecimento de que o perigo ronda qualquer criatura do sexo feminino. Não sou medrosa, nem temerária, com o tempo a gente vai aprendendo, mas meus dez anos já sabiam muito do que eu sei hoje sobre os perigos que rondam. É um fardo que a gente carrega a vida inteira.

As palavras do meu sábio avô me vieram aos pensamentos, pois não sei nem posso acusar aquele homem de algum crime. Talvez seja um cara comum. Como você. Como o seu pai, como o seu tio, como o seu filho um dia será. E talvez os homens não entendam que mesmo uma abordagem assim supostamente sem violência ou violação explícita é marcante. É traumatizante. Eu que sou até que, sei lá, forte (não é bem essa a palavra). Mas muitas mulheres sucumbem. Muitas ficam atemorizadas – com razão. É que a vida já me ensinou a duras penas que não posso guiar a minha vida pelo mal que os outros me fazem.

E esse cara comum que estava passando ali numa praia vazia e viu uma mulher com quem, sei lá, ele pensou que poderia entabular um papo legal é um babaca. É um babaca que intimidou, que cerceou, que vigiou, que certamente não teve as melhores das intenções. Talvez tenha voltado pra casa, sentado à mesa com a esposa e filhos, tomado seu café – e jamais voltou a pensar sobre. Mas certeza que em qualquer outra oportunidade que aparecer, agirá do mesmo modo.

Não foi a primeira vez que passei por isso. Sei, infelizmente, que passarei por isso o resto da vida. Como eu disse, não importa peso, idade, nada. Estava ali, largada (meu normal, viu), feliz da vida, quieta com meus pensamentos, com sobrepeso, roupa fuleira, naquela alegria de pensar que o mundo não existe e que ele não sabe que eu existo. E aparece um babaca desses.

Desta vez não houve abordagem. Mas e aquela vez na praia do Campeche, o mineiro bêbado? E o cara no trem de Porto Alegre? E tantas, tantas, tantas, outras vezes? E, claro, meu interesse em especial, os conquistadores on line? Aquele que elogia tuas pernas nas fotos do Instagram, o que te persegue no Twitter, o que manda fotos obscenas no Facebook? Não bastava o mundo real? No mundo virtual chega a ser muito pior na questão de invasão e quantidade. Qualquer um te encontra, mesmo você estando quietinha escondida em casa.

A real campanha contra essa mentalidade idiota, machista, superior, estúpida dos homens que praticam a violência (de todo tipo) e violação contra as mulheres só se dará pelos próprios homens. Vocês precisam assumir o que fazem e condenar isso. Não basta o cara que se diz feminista, respeita as mulheres e blábláblá – conheço muitos desses, que praticam coisas inomináveis. Tem que assumir a culpa. Assumir diante de todos: eu assobiei quando uma gostosa passou, eu dei em cima de uma no bar por causa do decote dela, eu fiquei obcecado por fulana e fiz da vida dela um inferno, eu fiquei observando fulana no trabalho. Não vem com o papo “não fiz nenhum mal” porque certeza que tudo isso que vocês fazem, nós sabemos, nós percebemos, nós sentimos. Na maioria esmagadora dos casos, a gente faz de conta que não sabe de nada.

Eu lamento que esses babacas, que hoje fazem isso, têm filhos. E filhas. E eu sei, não é difícil prever, que eles serão criados à imagem e semelhança – pois filhos aprendem muito observando seus pais. E elas crescerão ouvindo e recebendo instruções silenciosas de que “precisam se cuidar”. Deve ser complexo ser homem, também, sabendo que é uma espécie que ameaça, com a simples existência, seus iguais. Não são as mulheres, denunciando e contando (como fiz) que mudarão isso. Somente os homens, assumindo que são o problema e que devem corrigi-lo, podem fazer algo – assumir a culpa diante dos outros é o primeiro passo, o segundo é ser um fiscal dos outros homens, deixando de vez a posição de cúmplice e comparsa. Enquanto isso, teremos leis Maria da Penha, do Feminicídio, etc.. Até quando vocês farão leis para nos proteger de vocês – nos proteger do simples fato de que somos do sexo feminino?

Você talvez não saiba, mas não vai encontrar o amor da tua vida num encontro casual à beira-mar.

Já pode casar

Todos diriam que Mariana fora um bebê tranquilo e uma criança que nunca dera trabalho – e estariam certos. No meio de irmãos bagunceiros, sua retidão ganhara destaque. Previsível, Mariana fora sempre obediente e boa aluna. Aprendera cedo a cozinhar e a costurar. Um dia, diante de uma Mariana surpresa, a mãe ficara encantada com o vestido que ela havia feito para a irmãzinha e exclamara “Já pode casar!”. Mariana não entendeu a frase, mas ficou quieta.

Pouco tempo depois, ao fazer uma sobremesa para o dia dos pais, fora a vez deste surpreendê-la, “Já pode casar, filha!”, e assim ela cresceu e tornou-se adolescente; por algum motivo muito misterioso, quando ela cozinhava bem, costurava algo ou limpava a casa, as pessoas lhe diziam que ela poderia casar.

E foi no começo da adolescência que Mariana encontrou o amor da vida dela. A professora de Ciências falava sobre as fontes de energia renováveis, sobre o petróleo, o carvão, sobre formações sedimentares e todo este universo encantador quando Mariana descobriu a biomassa. Apaixonou-se. Pesquisou muito, procurou professores, falava sozinha sobre as maravilhas que a biomassa poderia fazer pelo mundo e pelos seres humanos. Depois de encontrar o amor da vida dela, a biomassa, ela queria salvar o mundo também.

Mariana decidiu que estudaria inglês para conhecer mais sobre a biomassa. E quando foi a primeira colocada depois de cinco anos de curso, não ouviu um “já pode casar”. Mariana teve as melhores notas da turma no ensino médio e isto lhe valeu uma medalha: mas nem depois da festa ela ouviu um “já pode casar”. No ano que faria vestibular, decidiu trabalhar meio período para pagar o curso de alemão, pois o inglês não bastava. Apesar das dificuldades que teve, em menos de um ano já se sobressaía na turma: nem por isso ouviu “já pode casar”. Fazia o terceirão, trabalhava, cursava alemão e ainda arranjou tempo para o intensivo do pré-vestibular. E no final do ano lá estava ela, com foto no jornal e tudo: primeiro lugar geral da universidade federal. Teve até faixa na frente de casa, mas ninguém lembrou de lhe dizer “já pode casar”.

Sempre a melhor aluna do curso, não perdia de vista a biomassa. Os professores a admiravam e no segundo ano conseguiu estágio e participava de um grupo de pesquisa. Nem assim, com artigos publicados e pesquisa avançada alguém lembrava de lhe dizer “já pode casar”. No dia da formatura, claro, foi a melhor da turma e recebeu a notícia de que já estava aprovada no melhor mestrado do país. Nesta noite de comemoração, ela até aguardou que alguém lhe dissesse “já pode casar”. E nada. Terminou o mestrado em menos tempo do que o previsto e tinha em mãos o projeto do doutorado – elogiadíssimo pelos seus pares. Com confiança, mandou para a melhor universidade do mundo que pesquisava biomassa.

Naquele dia, ela entrou esfuziante em casa, com uma carta nas mãos. Seu sorriso gritava alegria: fora aprovada no doutorado. Encontrou o namorado no sofá, assistindo a um filme com tiroteios sem fim.

– Amor! Amor! Fui aprovada! Pro doutorado! – ela engasgava de felicidade.

– Ah, é? Que bom, amor. Mas a gente tem que ver isso daí. Não dá para esperar quatro anos para casar, e eu não posso ir. Depois a gente vê, né? Me traz uma cerveja?

Mariana foi até a cozinha, abriu uma lata de cerveja, deu um gole e ficou pensativa. Deixou a cerveja na mesa sobre um bilhete: “Não posso casar”.

(texto publicado originalmente no jornal Notícias do Dia, de Joinville, na página da Confraria do Escritor, em 14 de setembro de 2014)

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