latas de felicidade

Foi difícil entender porque a Filosofia se preocupava com a felicidade. Num primeiro momento me perguntei “pra que refletir sobre isso, com tanta coisa mais interessante e importante?”. Afinal esperava estudar sobre ética, política, o mundo das idéias. E lá estava a questão: o objetivo da vida é alcançar a felicidade. Foi, então, uma desilusão. Não achava que era sério.

E era. Daquelas frases de senso comum sobre “todos buscam a felicidade” ou musicalmente adaptadas “eu só quero é ser feliz andar tranquilamente na favela onde eu nasci” a Filosofia parecia apropriar-se sem dó. É claro que o caminho era invertido, cronologicamente, pois que a idéia havia surgido antes das frases feitas e dos versos.

Então, o objetivo da vida era a felicidade. Posto o drama, jogam-se os filósofos na arena. Todos saem vencidos e vencedores. Não há nada mais platônico do que lançar-se a questão “todos buscam a felicidade” sem dizer, num primeiro momento, o que, afinal, ela é. E aí temos mais de dois mil anos de disputas.

Eu não entendia. Tenho real dificuldade em entender algumas (muitas) coisas. Não levei a sério o objetivo da vida dado por eles. Minhas concepções e experiências, além das questões da individualidade, não me faziam aderir ao conceito. O que mais me incomodava – e incomoda – é colocar certos pontos como “buscas” dos seres humanos. Sim, eu sei, tem o homem e a mulher (maiorias esmagadoras) que procuram “alguém”. Tem, então, aqueles que buscam a felicidade.

Buscar ou procurar algo, intencionalmente, foge à minha ação. As surpresas da vida são muito mais interessantes. Também me é difícil compreender a felicidade atrelada à vida correta. As boas ações, o agir corretamente, agir conforme ou de acordo, praticar a justiça são todos passos à felicidade. Pessoas felizes, então, não fazem coisas erradas. Ou, melhor formulado, se você não age corretamente, não alcançará a felicidade. Eis o ponto que sempre me deixou pensativa por alguns minutos.

Haverá aquele que vai proclamar que a felicidade se sente, não se explica. Essas frases feitas vomitadas pelos seres. Porém, refletir sobre as coisas talvez seja mesmo um problema. Vejam só, quantas vezes concordei com Raul e seu “É uma pena eu não ser burro Assim eu não sofria tanto”. Aquele que é feliz e não pensa é um caso a ser estudado. Pois também me incomoda muito (e acho que não tinha me dado conta disso até há pouco tempo) cultuar-se a elevação do pensar. Esta vida de contemplação, de busca pelo saber, como supra-sumo da condição humana. Não sei, é possível ser feliz assistindo ao Programa Pânico ou deliciando-se com um sorvete.

Pois que diacho, então, é isso da Filosofia preocupar-se com a felicidade? Teria a felicidade perdido a sua nobreza ao ser encontrada quando abrimos uma lata de coca-cola ou ao postar um selfie exibindo uma paisagem invejável?

Não sei vocês, mas eu já tive provas de que agir corretamente, de acordo com a razão, com as regras morais e etcéteras e tais pode mandar a felicidade para bem longe. Ser feliz ou estar feliz, se existe a felicidade ou momentos felizes… chamem todos os filósofos que podemos discutir tudinho.

Para falar a verdade, como é tradição eu contar de onde surgiu a motivação do texto, conto-lhes que foi pela certeza de que há pessoas que acreditam piamente que não podem – já foram mas jamais serão de novo – ser feliz. Há pessoas que por tantas dores e vidas vividas não acreditam na felicidade, e talvez seja mais fácil acreditarem em algum filósofo. E é diante delas que eu encontrei a certeza de que sou feliz – no sentido mesmo de ser. Eis que também não me convence a idéia filosófica de que só se pode dizer de alguém se foi feliz quando da sua morte. Eu já quis escrever numa lápide, adaptando Merimée, Viveu, amou, foi feliz (é de um conto do Carmem, mas da última vez que procurei não descobri de qual – como vocês sabem sou péssima com citações). Não gostaram do “amou” ali no meio e tinham lá suas razões. Então, quem sabe, eu guarde este para a minha lápide. Quem sabe sem o “amou” fique melhor. Apesar da fatalidade que há no “foi” pois pretendo ser feliz também depois da morte.

Não pensar e não agir corretamente, dentro dos preceitos e regras morais, deve estar mais próximo da felicidade do que toda a Filosofia reunida. Recordo dos primeiros filósofos que irritavam-se com a vida e suas necessidades mais básicas, as biológicas e fisiológicas. Como nos afastamos do mundo das idéias ao ter que procurar um banheiro numa longa e deserta estrada. Teriam eles razão? Se o objetivo da vida é a felicidade, ela não deveria estar contida em cada satisfação de desejo e necessidade, em cada prazer como abrir uma lata de coca-cola ou na água quente de um banho depois de um dia cansativo? E para citar literalmente o Aristóteles com seu sedutor meio-termo, não deveria também estar contida na reflexão sobre nossas ações e suas consequências na vida dos outros, ou no quanto o trabalho alienado marxista corrói meu ócio, ou, ainda, se sou feliz?

Me contradigo? Acredito que sim, pois isso volta e meia acontece. Eu não acredito na felicidade da maior parte das pessoas que conheço. Fingem tão mal. Os psicólogos, as euforias, os impulsos, as domesticações, as reclamações… fotos, posts e conversas não têm cores o suficiente para esconder suas infelicidades. Como ainda considero a Filosofia melhor que certos profissionais, tarjas pretas ou livros de auto-ajuda, o meio-termo aristotélico me cai bem.

Já não sei ao certo porque escrevi sobre a felicidade. Constatei que não escrevi quase nada do que havia pensado. Mas cheguei ontem em casa com a missão auto-impingida de escrever sobre a felicidade. Ainda leio os filósofos com muita desconfiança. E, claro, com muita gratidão e, alguns, com paixão. Ah, cá estou a falar de paixão… aí mesmo que eles levantariam de suas tumbas e cassariam meu diploma de mísera bacharel em Filosofia.

Não sei, não sei… de fato não sei onde está a felicidade. Sei que a possuo. Não a procurei, porque como eu disse, não busco nem procuro por nada na vida. Espero, assim, que ela se descortine e me apaixone. Sim, horrorizo pessoas quando constatam que não tenho objetivos, metas e essas coisas como, sei lá, ser feliz.

Hoje, então, tirei o dia para implicar com a Filosofia. Não quis dizer nada e duvido que tenha dito muita coisa. Melhor deixar cada um com sua lata de felicidade e voltar aos filósofos e às suas certezas. Como gosto tanto de surpresas, vai que ainda hoje a vida me surpreenderá com alguma.

Perspectivas

Foi ali, num ponto qualquer – ou não tão qualquer, posto que velho conhecido – da BR 101 que ela se deu conta. Brotou aquela vontade de levantar e sair dançando pelo corredor do ônibus. A renovação das músicas do mp3 ajudaram, é inegável. Naquele momento ela se deu conta qual era, afinal, a boa de 2014. Era tempo de mudar os pontos de vista. Já andava preocupada há meses com essa incerteza sobre o ano que chegava na metade: e ela não sabia, ainda, qual era a dele, afinal. Burrice não ter percebido antes – ela tem dado sinais de burrice aguda, a perdoem. E foi ali, diante do mar azulzinho, do sol laranjão de outono recém-nascido que teve aquela epifania. Havia mudado os pontos de vista desde o começo do ano. Havia mudado drasticamente a alimentação, havia abandonado hábitos ruins (ruins não, péssimos – e impublicáveis), havia deixado de pensar em quem não devia, só ainda tinha dificuldade em esquecer aqueles olhos verdes (pois é, Johnny Cash, por aqui não são azuis), havia assumido responsabilidades astronômicas – pois sim, ela que gostava de pensar que era irresponsável (doce ilusão) agora responsabilizava-se por tanto e tantos que lhe assustava a novidade. E a grande e deliciosa mudança havia começado sem querer por algo que ninguém esperava dela, lá em janeiro: dormia e acordava cedo. Sim, ela, mais uma notívaga que louvava a criatividade, a beleza e o silêncio da madrugada agora não conseguia ficar acordada depois das onze da noite. Ou, ainda, quando era assaltada por sonos cavalares às oito. A animação com a qual acorda às cinco da manhã e tem visto mais sol nascendo do que se pondo – ela que já se apaixonou por todos os pôr-do-sol que já viu. Dormir e acordar cedo foi a primeira mudança drástica de perspectiva à qual ela aderiu este ano. Em seguida vieram as mudanças alimentares – hoje come até cenoura. Lhes digo que já até sentou em lugares que não eram os cativos. Pintou a unha de esmalte branco (e não arrancou-o no dia seguinte). E foi ali diante do mar e de um sol lindo que saltitava de alegria ao, finalmente, descobrir a razão da existência de 2014. Não sabia ao certo o que lhe embotara a percepção nos últimos meses, se os chocolates da Páscoa, a agenda exigente e apertada ou, ainda, o peso das responsabilidades e da realização de alguns sonhos. Agora até ama Porto Alegre. Agora cumpre regularmente – ó dó – e com respeito todos os horários semanais. Imagine-a assim anos atrás… sei que não dá. Por dias ela até disse que não estava feliz e, em seguida, se desdizia sem entender, afinal, o que sentia. Sei lá, talvez estivesse pagando pra ver até onde iria. Desistir não tem lhe parecido uma boa pedida. Porém, poucas coisas a interessam e divertem mais do que mudar a perspectiva. Por que 2014 não seria, então, mais uma alegria?

Aceito trocas

Precisava mudar de vida. Aceitava trocas. Agora não havia mais dúvida. Pois quando uma simples e despretensiosa caminhada pelo bairro que conhecia desde criança, cabelos ao vento, o nariz sorvendo o ar com prazer, lhe dava o maior prazer em semanas, é que as coisas não andavam bem. Queria viver outras vidas. Não queria estar nem ser. Queria não ter tempo para ouvir aquela canção que lhe fazia relembrar aqueles olhos verdes. Quem sabe uma outra cidade. Ou uma aventura bem longe de qualquer cidade. Talvez um trabalho perigoso num outro país. Não, não. Não precisava correr risco de vida para sentir-se viva. Isso era para os doentes da alma. E que não lhe ouvissem os sentimentos, pois o fato é que amava quem lhe amava – mas as circunstâncias não lhe apaixonavam. Os caminhos de sempre estavam vazios. Não lhe causavam mais arrepios. Já tinha tantos livros, tantas fotografias, tantos anéis e cartas. A vida, enfim, lhe pesava. Volta e meia se pegava pensando como seria a vida sem aquela cama antiga, sem a bolsa de estimação, sem aquele abajur de borboletas. Algo lhe dizia que, ainda assim, não seria outra pessoa. Porém, ela temia. Temia esquecer-se de si. Temia não amar tanto quem lhe ama. Temia que seu amor pela vida superasse qualquer outra paixão. Enfim, de novo sentia-se presa. Presa, amordaçada, encurralada. De novo o amor lhe cobrava. Cobrava que estivesse ali por outra pessoa. Cobrava que demonstrasse diariamente este amor. Cobrava a cumplicidade. Não que ela não amasse ou que não quisesse, já lhes disse. Ela só amava de outro jeito. Não amava com amarras, nem com presenças exigidas, nem, muito menos, com responsabilidades. Queria, mesmo, amar sem tirar os olhos e o sorriso do horizonte. Sentia-se atada às palavras, às idéias, às lembranças, a tudo que aprendera com a experiência e sentada nas carteiras. Atada aos laços de sangue. Atada à falta de perspectiva e opções. E aquela inocente caminhada com a chave da casa num bolso, a identidade no outro e os fones no ouvido fora sua queda. Precisava de outra vida. As ruas continuavam iguais, um prédio novo apenas, a segurança de que o tempo não havia passado por ali faria mais da metade da humanidade feliz – segurança, a meta de tantas pessoas. Pois ela recusou-se a atravessar a rua na faixa. Dobrou uma quadra antes, seguiu outro caminho até o mesmo destino. E assim percebeu. Precisava de outra vida. Quis enganar-se de que mudar um trajeto era o começo da grande mudança. Mentira. Mudar caminhos e chegar aos mesmos destinos é como trocar de roupa para ir a mesma festa. E ela só não sabia ao certo se havia outra festa para ir. Por enquanto, desejava apenas uma festa à fantasia.

“os carinhos do motor”

Entrou, sentou, bateu a porta. Bufou. Numa cápsula, enfim. Gestos coordenados, o cinto, os espelhos, o freio de mão, a ignição, o som. Chovia como há tempos não se via. Chovia. Já se inspirara alhures nas imagens da chuva sobre a cidade. Deu o pisca e foi. Noite. Noite vazia de cidade operária. O coração sorria com as canções do CD. Sorria. Chovia. E era gostar tanto assim de dirigir na chuva quanto off road. O paralelepípedo, que era cidade de ainda tê-los, molhado, desnivelado, esburacado e pintado pelas luzes. Seguiu ruas vazias seguiu rumo nenhum seguiu sorrisos e versos. Queria estar sozinha. Entrou em ruas que já de tanto conhecer-lhes os nomes, os havia esquecido. Sim, sim… agora entendia, Belchior, os carinhos do motor. Era ele e ela e um sem fim. Ela queria dizer que jamais esquecia do que quer que fosse. Jamais. Tinha cá o inferno particular que é lembrar. Ruas vazias. Chovia. Sentia-se tão parte dele e ele dela, sem dúvida. Se tivesse imaginação diria que ele a acariciava. E aquela – aquela – canção tocava. Aumentou o volume. Cantou junto. Queria viver presa na imagem da chuva sobre a cidade à noite. Até porque… ah! até porque… Queria estar ali e estava. O olhar rápido entre um espelho e outro, detalhando os reflexos no asfalto, nas gotas do pára-brisa. Um dia apaixonara-se pelos reflexos. Coisa de gente que olha o mundo pelas lentes. Era melhor não falar de paixão. Melhor, não. Amaria. Chovia. Pensava nos sentimentos. Ah, mas diz que o amor não precisa de Filosofia. Precisava – lhes digo que muito precisava – do amor e da Filosofia. Se perdia. Chovia. Parada no sinal ficou com aquele temível olhar fixo num ponto entre o nada e o tudo. Ah, mas o trem passa e poderia levá-la. E não são assim todas as histórias? Inventaria mais um personagem. Criaria um a la Tyrone Power. Pois tem isso, quando se cria um personagem deve-se dormir e acordar, tomar banho e beber vinho, com ele. Cansara dos seus personagens dolorosos. Queria Tyrone do Rawhide e não daquele mascarado famoso. Fazia bico de charme nos solavancos dos buracos das ruas abandonadas daquela cidade operária – e sentia-se um tanto operária e entendia suas dúvidas, anseios e irritações das últimas semanas – e a mão acariciava o volante lembrando da praia Brava e do Sertão do Ribeirão. Dê-lhe uma estrada de chão e a faça feliz. Já havia dito que um dia fugiria, mas certeza que avisaria. Iria. Chovia. Chegaria em casa, ouviria de novo a canção-hino da sua libertação – era a hora de tudo mudar – flutuaria e iria para a cama encontrar-se com Tyrone. Assim como no banho do dia anterior, a vida era melhor servida com boas doses de sonhos de olhos abertos. Pois esses sonhos de olhos fechados cheios de escadas a confundiam. Nos azares da vida preferia ter um Tom Owens ao seu lado na cama do que tê-la vazia. Vazia. Chovia. Ah, os carinhos do motor. Suave deslizava e até se sentia amada. Fugira. Voltaria. Chovia.

Historietas

Dez anos atrás. Não sei ao certo como eu e Elaine – aquela a quem eu chamo de Loira, pois ela era assim de corpo e alma quando a conheci – ficamos amigas. Santo bateu forte. Primeira fase do curso de Filosofia e éramos tão – mas tão – diferentes. Lembrei disso hoje.

Amiga pra toda a vida que viria a partir daqueles dias. Ela me emprestava o caderno dos dias que eu faltava, eu passava cola, vendia trabalhos, ela me convidava pra balada, eu nunca fui, eu chamava pro bar e pra praia, ela ia. Ela me contou a história mais triste – e, pô, é triste pacas – da vida dela. Com ela fiz a minha primeira trilha na Ilha. Com ela passei meu primeiro fim de semana na Ilha. E não havia porre que me derrubasse – bem descobriu o primo dela.

Antes disso tudo, um dia ela apareceu com um baralho cigano. Eu tive que ler as instruções, ela já sabia tirar as cartas. Aí ela tirou pra mim. Uma, duas, três, quatro… em todas as vezes – todinhas – saiu uma conjunção de cartas que provavam meu futuro: união forte (casamento no vocabulário chulo), amor, sentimento avassalador (o adjetivo é perdão de trocadilho, não resisti). Na primeira vez fiquei chocada (já lá, e antes, meu horror ao casamento era estável). Aí pedi uma segunda vez, e pedi a terceira, a quarta. O resultado não mudava.

Sou uma amiga que não se encontra por aí – pode perguntar pra Elaine e para uma dúzia de gente, até para aqueles que decidiram não ser mais meus amigos. Nos relacionamentos que existem entre as pessoas só sou realmente excepcional como amiga. O problema é que sou chata, é o único preço a pagar. E Elaine, com toda classe de uma loira e paciência de uma leonina para com uma pisciana, pagou.

Fomos para a biblioteca do CED e mais de hora passou enquanto ela tirava repetidas vezes as cartas daquele baralho tão querido. O resultado sempre o mesmo. Ela só pediu pra parar quando uma dor de cabeça fulminante a atacou.

Quase não vejo mais Elaine. Ela me abandonou. Mudou-se. Um dia uma prima dela queimou nosso tão estimado baralho e nunca poderei perdoá-la por isso.

Ela quase não usa internet. De vez em quando eu telefono pra ela quando tenho um babado forte ou quando é o ilustre aniversário dela, no nosso querido dia dos solteiros. Até fundamos um clube.

Sobre o resultado das cartas daquela época? Confirmou-se (por um tempo, é claro). Tempos depois as cartas me pregaram mais umas peças que também se realizaram. Diriam os capricornianos que fui influenciada. Talvez. E, ainda bem, pois sou um tanto indecisa e tapada de vez em quando.

Lembrei disso tudo porque encontrei um baralho igualzinho àquele nosso, porém virtual. Aí, quando a lua entra em alguma conjunção que me deixa à beira dos penhascos fazendo rimas ricas e pobres enquanto rio das minhas desgraças, recorro a ele.

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Era janeiro. Não sei, talvez início de fevereiro. Frisantes na geladeira, eu sozinha na casa de praia. Havia começado a ler Os Sofrimentos do Jovem Werther dias antes. Tinha uma dissertação para terminar mas saber dosar prazeres e deveres é um dom que eu possuo. A rede do Piauí na varanda. As gatas dormindo no sofá. Um pôr-do-sol lindão se anunciava. Fábio Jr na vitrola.

Tinha certeza que jamais leria Werther. Certeza. Ainda mais que Elaine, a personagem da historieta acima, nos seus dias de busca para as razões e obstáculos do amor havia devorado todos os livros sobre o tema, inclusive ele – e, lembrem, ela tinha aquela história triste. Eu não leria Werther, havia escapado dele na época de minha adolescência quando li muitos e muitos clássicos e, sério, ele suicidava-se no final. Só gosto de saber o final quando eu mesma, lá pelo meio do livro atolada na ansiedade, corro para as últimas páginas.

Eu não leria Werther. Poderia passar a vida sem lê-lo. Tipo, sei lá, Romeu e Julieta. Muito amor e morte no final pro meu gosto. E nunca superei o trauma – aterrador – d´O Sorriso do Lagarto. Nunquinha. Ubaldo que tenha pesadelos de vez em quando por ter escrito aquilo.

aí… ah, aí…

A vida, sabe? Essa graça que começa e termina todos os dias. E eu e essa mania de me desafiar, de gostar de mudanças, de gostar de me desdizer. Me desdigo e seja lá o que for. E às vezes é cada coisa…

Um punhado de coincidências e de atração infernal deram uma rebolada na minha vida. Eu vi. Eu dei um passo. Aí eu chamei desesperada por uma amiga, contei tudo o que (não) havia. Pensei, pensei, pensei… já nem sei direito se paguei pra ver ou se… bem, a vida, apesar de tão bela, tem lá suas regras.

Regras. E não era o momento de eu querer fazer coisas erradas de novo.

Narrei (quase) tudo aqui. Sobre o Werther: juro que não entendi. Me perguntei centenas de vezes se alguém em sã consciência passaria uma espécie de cantada falando dos sofrimentos do Werther. E aí, ah, aí… eu teria que ler para descobrir.

Feira de praia, lá estava o livro bem baratinho. Muito contrariada, comprei. A saudade, a distância, o calor, tudo me atormentava. Era claro que eu não havia entendido algo. Comprei-o. Ou minha burrice é tamanha que eu havia entendido de forma clara e dolorosa demais, só não queria aceitar tanto azar.

Azar no amor, azar no jogo, sorte na vida. Meu lema.

Comprei. Comecei a ler. E foi naquele final de tarde, naquela rede, naquela varanda, com aquela trilha musical e aquele frisante que eu li o Werther.

Como já disse num outro post aqui, eu e Werther temos muito em comum. Engasgava em muitos parágrafos. Foi difícil. Fui aceitando. Fui entendendo. Saí da rede porque os pernilongos haviam me devorado e eu nem tinha percebido. Garrafa vazia era uma nova que era aberta. Da rede pro sofá. Não via nada. Não pensava em nada. Só lia e sentia. Não lembro nem quantas garrafas foram – mas tenho certeza que foi meu recorde. Fábio jr ainda cantava e eu terminei de ler e fui com a última garrafa para debaixo do chuveiro. Sentada no chão do box falei sozinha por mais de hora.

Enrolada na toalha caí no sofá e apaguei. Acho até que chorei.

Finalmente, pela primeira vez na vida, havia tomado um porre homérico. O que ficaria em segundo lugar também fora histórico: não fiz a pior besteira que poderia ter feito (mas por muitas vezes me perguntei o que teria acontecido se eu tivesse apenas esticado o braço naquele determinado momento). O terceiroo foi divertido. Este foi devastador. Fiquei sem beber até semana passada. Já temia meus pensamentos e sentimentos. E eis que voltei ao vinho.

Não me perguntem se foram as cartas que tirei no baralho cigano virtual, ou se as malditas e doces coincidências ou, ainda… o Werther e nossos sofrimentos.

hesitación

“no hesites en me escribir”

es tu mensaje

y yo me ahogo en hesitación

hace frio

y yo no lo siento

llueve

y yo camino

sin paraguas

el perro del 302

llora

y poco me importa

no te busco

porque estás lejos

– estás del otro lado del océano

pero

quería te escribir

me quita el sueño

encontrar palabras

que no te dirán

nada

es que no te veo

en mis sueños

pero tienes

lugar en mi

cama toda

madrugada

bebo té por la tarde

y aguardiente por la noche

no sé si para olvidarte

o solo para calentar

mi cuerpo casi sin

voz

busco razones

para escribirte

una respuesta

y no logro

encontrarme

me preguntaba esos días

si eras tu mi amor

no lo sé

y cómo puedo descubrir?

es que me hacen falta las palabras

para, por nada,

te decir que te quiero

si te pregunto

cómo está el verano allí

es que no supe inventar

otra cosa

pero puedes decir que

vendrás con el verano

y mi deseo no sabrá

esperar

por fin

no tengo nada para decir

sólo quería aquella charla

tranquila, bella, enamorada

y luego tu sabrías

que se pasa

y yo sabría si no pasa nada

antes que el verano – y quién sabe tu – llegue

Velar a saudade

Hábitos e costumes são coisas que não sobrevivem bem ao tempo. No meu apreço pelos seriados ingleses cometo overdoses de vez em quando. Foi o que ocorreu esses dias e fiquei a pensar em como educaria meus filhos – pensamento que volta e meia ocupa meu tempo, sem nenhuma exigência. Admiro a educação à moda antiga, o pedir licença ao sentar-se ao lado de alguém – fiz isso, esses dias, como de costume e me senti um ET -, o cavalheiro levantar-se quando a dama se retira, um respeito aos mais velhos não pela idade, mas pelo reconhecimento. O revoltar-se só com bons e verdadeiros motivos. Não falar muito alto, não fazer cenas em público. Coisas que não sobreviveram, enfim. Há toda uma classe no agir dos personagens dos seriados ingleses que me encanta, independente da classe social. O simples fato de não ter intimidade e chamar por miss ou mister já demarca as relações pessoais. Sobre relações pessoais num assunto que me toca bastante eu escreverei em breve.

Comecei pelo final, de fato. Pois continuarei de trás para frente, então. Não na narrativa, mas na ordem que meus pensamentos surgiram. Falava sobre como educaria meus filhos e cada vez tenho mais certo de que os privaria das maravilhas dos nossos tempos. Não teriam acesso à internet, nem a smartphones ou tablets. Redes sociais: nem pensar. A simples idéia me apavora. Não comeriam, jamais, no McDonald´s, Bob´s, Burguer King ou qualquer primo-irmão. Ah, sim, não beberiam refrigerante. Talvez até pudessem usar o computador para ler, escrever ou até jogar. Seriam, sim, analfabetos tecnológicos. Prefiro-os analfabetos tecnológicos a analfabetos funcionais ou emocionais. Não me imaginem tão tola ao ponto de não perceber a dificuldade que seria criá-los em tempos pós-selfies de Instagram.

Contudo, eu fui criada num mundo um tanto a parte e sei que não é de todo ruim nem impossível. Lá se vão alguns anos, eu criança acreditava que o mundo para além do portão de casa era igualzinho o meu mundo ali dentro. Pai, mãe, irmãos, avós, casa, comida, bichos, choradeiras e alegrias. E foi essa mesma criança que aos olhos muito atentos e preocupados de todos sumia de casa e ia passear pelas redondezas – queria, talvez, descobrir o mundo, sem ao menos duvidar que ele não era igual ao seu.

Conto isso porque foi quando criança que comecei a compreender que os hábitos e costumes não são os mesmos em tempos e lugares e pessoas diferentes. Com os colegas filhos de mães solteiras ou separadas descobri que as famílias não eram todas como a minha. Nas casas de colegas descobri que as regras e os ambientes também não eram os mesmos. Era, sempre, tudo muito estranho. Deve ter sido aí que meu estranhamento, em relação aos lugares e pessoas, começou – e, ó vida, nunca me abandonou. Era difícil entender a vida. As pessoas. Mas eu fui tentando – eu acho.

Já frequentei casas sem portas ou sem maçanetas, casas onde não se usam toalhas sobre as mesas, já conheci pessoas que não jogam o próprio lixo na lixeira, pessoas que não tomam banho todo dia, casas onde a TV fica ligada o dia inteiro, pessoas que passam a ferro até cuecas e lençóis, casas onde dormem todos no mesmo quarto, pessoas que só bebem coca-cola, casas onde os banheiros são imundos, pessoas que proíbem você de entrar de sapato na casa delas, casas onde não há TV, pessoas que nunca estudaram nenhum outro idioma. De um choque inicial bem marcante, cheguei a um modo zen de não julgar e me interessar deveras por tudo que observo.

Hábitos e costumes não mudam de uma região para outra, de um Estado para outro ou de um país a outro. O que pode causar transtornos nos relacionamentos e alegrias para espíritos curiosos. Tinha pra mim, por um tempo, que eu devia, então, ter os melhores hábitos e costumes – que fossem racionais e corretos. Tentei. De vez em quando implanto algo novo sempre prezando alguma racionalidade. Vivo tentando. Se não é algo exato, deve ser sempre perseguido.

Mas eis que um hábito meu nunca encontrei em ninguém. As visitas ao cemitério. Não conheço ninguém que frequente cemitérios – bem, frequento um em especial e mais dois ocasionalmente, porém, tenho um gosto especial em conhecer os cemitérios das cidades para onde viajo. Frequento cemitérios desde bem pequenina. Sempre gostei deles, nunca os temi por nada. Uma vez lá ouvi que medo de cemitério era bobagem, pois os mortos não podem nos fazer mal – os vivos sim (e farão, esteja certo).

Enfim, no começo de tudo estava minha constatação de que hoje, quando as pessoas morrem, os vivos livram-se dela muito rapidamente. Sim, foi observando notícias de mortes seguidas de enterros em poucas horas que percebi isso. Os vivos não velam mais seus mortos. Há pressa em jogar aquele corpo, que começa a apodrecer, ao fogo ou à terra. Antes os velórios eram dignos das saudades latentes no porvir. Hoje eles se aproximam desta ausência das pessoas nos cemitérios, das pessoas que fogem dos seus mortos – tenham eles, em vida, feito-lhes bem ou mal.

Continuo observando as notícias de fulano que morreu ontem à noite e hoje cedo já foi enterrado. Não, manter o falecido por horas aqui não diminuirá a dor. Mas, me parece, no mínimo, mais digno. Também não considero que o mausoléu seja a presença eterna aqui na Terra. São os nossos monumentos ao amor e à saudade. E, bem, não tenho problema algum com nenhum dos dois.

Foi esses dias que me surpreendi, imersa nessas considerações, com uma família que desceu do carro perto de onde eu estava, num cemitério fazendo minha visita habitual. Pai, mãe e três filhos – dois adolescentes e uma criança. Confesso que achei a cena muito estranha. Fiquei observando e eles foram até um túmulo que nem é muito novo na vizinhança. O pai falou, falou, a mãe ficou mexendo no celular o tempo todo. O menino pequeno olhava, olhava para os lados, cruzava as mãozinhas. O rapaz mais velho ficou o tempo todo parado. A moça parecia emocionada. Conversaram um pouco, o pai acendeu uma vela, ficou uns instantes em silêncio e saiu seguido pela mãe que não largava o celular. O pequeno acompanhou-os. O rapaz ficou uns minutos com os olhos fechados e a moça sentou-se na beirada e começou a chorar com vontade. Ficaram ali algum tempo até que ela levantou-se e viu que estava sozinha, o irmão tinha saído em silêncio. Ela enxugou os olhos na manga do moletom e foi embora.

Meu respeito duelou com minha mania de curiosidade e observação, por isso não sei ao certo qual foi a conversa, qual era o elo entre o falecido/a e os presentes (mas, tenham certeza que formulei minhas teorias). Eu poderia ver mais cenas assim. Já fui protagonista e testemunha delas algumas inúmeras vezes. Mas, pelo que aprendi ao longo dos anos, as pessoas têm hábitos diferentes – até para chorar pelos seus mortos, pelas suas dores e saudades.

Enfim, sem saber como terminar, posto que vim parar no começo, me assusta que estejam livrando-se dos mortos assim com tanta pressa. Se um dia eu vier a morrer, daqui muito muito tempo, por favor, encerrem meus belos dias aqui na Terra com um longo velório oferecendo as coisas que eu mais aprecio em vida – e, claro, não esqueçam do sol. Jamais me enterrem num dia de chuva.

Condição e Situação

Passei algumas semanas montando uma teoria. Vocês sabem, tenho mania de fazer isso – para justificar ou explicar as coisas que vivo, penso e vejo. Pensava sobre condição e situação. Tentava me justificar num assunto quando encontrei estes dois termos que poderiam ajudar.

Condição é aquilo que não muda (ou que muda em raras exceções, já explico, alterando uma condição por outra) e situação é um estado que foi alterado mas que pode ser alterado novamente a qualquer momento. Exemplos sempre ajudam. Ser homem ou mulher é uma condição – e aí entra a mudança de sexo como a exceção – você nasce mulher e será mulher, não se altera. Um exemplo melhor sobre a exceção é uma pessoa que possui pernas, braços, tronco e cabeça e ao sofrer um acidente tem sua perna amputada, ela terá sua condição alterada. São exceções e casos mais extremos que podem alterar uma condição.

Situação é fácil de entender e vou usar meu exemplo favorito. Um homem é casado, eis uma situação, jamais uma condição. Estar casado é algo que não existia antes, foi alterado e pode ser alterado novamente a qualquer momento. É como pintar o cabelo de castanho para loiro – ser loira é uma situação, no caso, não uma condição. Ou usar lentes de contato. São atos que alteram momentaneamente (mesmo que, em alguns casos, “para sempre”, como aquele que morre sem jamais ter se divorciado ou aquela que pintará o cabelo de loiro até morrer) estado civil, aparência, estado emocional, situação econômica (desempregado, ou até o caso de “estudante”, etc.).

Como eu disse, foi uma teoria nada aprofundada (demorei para perceber que mesmo em condição haveria casos de alteração) que formulei nas horas vagas por conta de uma questão pessoal. Mas aí…

Caminhava eu pelo centro de Porto Alegre quando me deparei com uma manifestação em frente a prefeitura. Segui meu volteio quando me deparei com outra manifestação na Salgado Filho (rua parada, fila de ônibus atrás, pontos de ônibus lotados, pessoas observando). Logo mais outro grupo barulhento caminhava em frente ao Museu de Arte. Ouvi coisas do tipo “não é só pela educação” e “Fortunatti, cadê você?! Eu vim aqui só pra te ver!” e “você aí que está no ponto de ônibus”. Fiquei com a impressão de que a população no geral (tanto quanto eu) assistia sem sentir-se impressionada num clima que não era nem de aprovação nem de desaprovação. Aliás, em alguns cantos até ouvi pérolas do bom humor gaúcho.

Ver manifestação, em Porto Alegre, não é novidade. Reparar nos cartazes colados pela cidade fazendo alusões políticas também não. (juro que lamento muito não ter fotografado um que aparece o Tio Sam com a cara (mais feia) da Dilma e a frase “Mostra a tua cara Dilma!”, quem sabe em alguns dias eu consiga) Sempre admirei a politização do povo gaúcho. Nem sei porque demorei tanto tempo para me apaixonar por Porto Alegre (uma outra história). Semanas antes eu havia me deparado com uma tenda com os dizeres “Dúvidas sobre a Copa? #ogovernoresponde” e meia dúzia de gente sem fazer nada entre mesinhas de plástico e folders ali na famosa volta da Borges de Medeiros. Quando vi a tenda vazia pensei cá com meus botões que o povo não parece ter dúvidas quanto a Copa.

Sim, a Copa. É só sobre o que se fala, não? Anos atrás quando ouvi pelo rádio que elegeram o país como sede (tenho duas testemunhas) fui contra – aliás, fui contra desde o vídeo absurdo que fizeram para “convencer” a Fifa. Era tudo manipulação politiqueira (do Lula, é claro, mas se eu escrever isso aqui serei apedrejada). A vergonhosa escolha de tantas cidades-sede e os interesses politiqueiros também nesta escolha já eram ruins o suficiente para não me fazer apoiar o evento. Mas o povo gostou. O povo apoiou. E Lula ainda não era Dilma (ele sabia que não estaria no governo hoje e que seria meses antes da eleição, já pensaram nisso?).

Mas nem quero falar disso. Hoje até os lulistas estão insatisfeitos. Até os dilmistas, aqueles que compraram a história do poste que Lula colocou como candidata, estão insatisfeitos. Eu juro que tentei dar uma chance pra Dilma. Gostava do jeito durona dela. Mas não foi dessa vez.

Via aquelas manifestações e já bem menos iludida do que estive em junho do ano passado em relação a elas (e, vamos e venhamos, Santa Catarina é um zero à esquerda nessas movimentações) fiquei a pensar sobre a condição e a situação. O problema não é a Copa. Nem o Lula ou a Dilma. Nem, sei lá, os salários. O problema é o brasileiro. É uma questão de condição.

Peralá! Não, não sou mais uma daquelas que só fala mal do Brasil, que adora citar exemplos do exterior porque tem a idéia idiota de que tudo lá fora é lindo e aqui é ruim. Não sou idiota nem ingênua. Gosto muito do Brasil. Acho realmente difícil me ver morando, estudando ou trabalhando, fora dele. Já pensei, é claro, mas em seguida penso certas coisas e desisto. Eu quero viver bem aqui. Já é um custo me fazer pensar em morar fora de Santa Catarina, imagine em outro país. Sou uma garota do Sul, é verdade. Aliás, sobre isso me veio a nada brilhante declaração do Wagner Moura, nosso Pelé do cinema brasileiro, aquele que “calado é um poeta”. Sim, porque Wagner é mais um que deu declarações de que irá morar fora do país e sente que isso até é bom “porque aqui não dá mais”. Wagner que fez umas novelas fuleiras na Globo, foi alçado ao sucesso e agora virou ator cult. Não discuto. Não é o único que vem a público demonstrar sua desilusão com Lula-Dilma e sem querer colocar-se numa posição além da “simpatizo com a Marina, mas com o Campos não dá” prefere dizer que falta educação, saúde e o país está horrível.

Essas pessoas fazem muito mal ao país. Por favor, exilem-se voluntariamente. Queria ver se tirassem os milhões das pastas da Cultura para colocar na educação e na saúde (que sabemos não é frequentada por esses que falam tanto). Sinceramente? Por mim podem fazer. País que não tem educação e saúde não precisa de teatro, cinema e música – ainda mais se dermos uma boa olhada na maioria dos projetos aprovados em editais e apoios.

Aliás, um megafone daqueles em Porto Alegre falava na educação. No salário ruim dos professores, é claro. Tudo se resume a dinheiro. Sobre professores muito ruins ninguém quer falar, né? Professores que faltam, que vivem de atestado, que vivem de favores políticos, que chegam em sala e só sabem mandar os alunos fazerem resumo do livro didático, que não dão atenção nenhuma aos alunos… desses não querem falar? Se há problemas na educação, é certo que não se trata só de investimentos e salários.

Eu mesma já aderi ao discurso da falta de educação. E aí é uma questão de condição. A condição do brasileiro é não valorizar nem se importar com educação. Os que o fazem são exceção. Não é de encher o saco ver tanta manifestação, tanto “falta educação” e o povo não respeitar nem uma fila de ônibus? Pior, de avião, onde todo mundo vai sentadinho no lugar marcado e o qual só sairá quando estiverem todos a bordo. Tem coisa mais irracional?

Por isso me ocorreu que é um problema de condição. A condição do brasileiro não o permite alcançar níveis melhores. No Brasil não existe a idéia do coletivo, de se pensar e agir pelo bem de todos, há o individualismo. Esses dias ainda comentava com uma amiga como a política havia sido reduzida ao particular, ao “o que é bom pra mim”. Em como decidimos nosso voto pelos nossos interesses pessoais e só. Sob uma condição individualista não há como chegar a um país “bom para todos”.

Não é uma questão política. Não importa Dilma, Marina, Campos, Aécio, Serra. Essa é só a cortina de fumaça. Ser um vermelho que perdeu a noção do tempo ou um contra-cotas-e-contra-o-bolsa-família é a burrice que tomou conta de nós. Pensa-se no eu. E política, meus queridos, não se faz com interesses particulares (nem privados, diga-se de passagem). Claro que lembro de Aristóteles e Hannah Arendt nessas horas. Politicagem é que se faz com interesses (escusos) particulares (e privados). Não adianta nada entoar o discurso vazio do “contra tudo e contra todos” dessas manifestações que tenho visto. Nos jornais estrangeiros hoje muito se falou sobre o povo nas ruas, ontem, há menos de um mês da Copa. Na maioria não havia lista de reivindicações, no máximo a citação ao aumento de salários. Sobre os mortos nas construções do estádios, ou sobre as desapropriações que foram feitas nunca vi cartaz. Tem coisa mais egoísta do que sair às ruas porque meu salário é baixo? É bem diferente do que sair às ruas porque há uma política econômica deficiente que causa problemas para todos (exceto aquela meia dúzia) conseguirem consumir os produtos mais básicos. E voltamos ao preço do tomate.

Acredito que as ruas serão cada vez mais tomadas por pessoas que parecem não saber direito o que querem. E as manifestações serão invalidadas politicamente, de novo. A condição do brasileiro não será alterada, viverá ainda sob a individualidade, sob o discurso vazio e incoerente com seus atos enquanto a nossa miséria poderá ser vista por qualquer um com boas doses de sensibilidade e razão. Reclamarão da militarização da polícia porque não percebem que sua condição de criminosos em maior ou menor grau não permite que a polícia seja de outro jeito (furamos fila, nos apadrinhamos politicamente, burlamos o imposto de renda, roubamos aqui ou ali, sou profissionais preguiçosos, professores relapsos, alunos desinteressados). Não farão nada pelo bem comum, não olharão para suas belezas naturais, não preservarão o meio ambiente, não deixarão de jogar lixo no chão, nem de lavar a calçada com mangueira dia sim, dia não. Em algum momento acalorado gritarão “falta educação”. E não se educarão.

Enquanto isso veremos notícias lamentáveis durante a Copa. Tenho até receio de fazer previsões. Talvez, enfim, ao ver tantos olhos voltados para nós, como nunca antes em mais de quinhentos anos aconteceu, sentiremos vergonha e não assaltaremos os turistas, trataremos bem os repórteres de fora e faremos a torcida mais bonita do mundo. Talvez. Porque os preços das diárias dos hotéis já reservados não voltarão aos valores normais, nem os restaurantes cobrarão os preços justos. E a Copa acontecerá para poucos, pois mesmo nós aqui em Santa Catarina sentiremos pouco do seu vento (um ou outro turista de passagem, o grupo que se hospedará em Balneário Camboriú).

Só ficaremos felizes com os feriados. Eu programei cardápios especiais, para a abertura festa junina, para BrasilXMéxico comida mexicana, ItáliaXInglaterra lasanha, paella valenciana para o jogo da Espanha. Claro que não deixaremos de comentar os jogos no twitter (comprar ingresso no site da Fifa não deu certo) e a babar pela seleção da Espanha, pelo Balotelli, pelo Eto´O e pela bunda do Fred. Provavelmente morrerei sem ter pisado em nenhum desses estádios. E minha aposta (podem rir, quem ri por último…) é na Holanda campeã. (cadê minha havaiana?!)

Menos de um mês e as propagandas para nos injetar fervor positivo pela Copa entulham os canais de TV. As ruas se enchem. E parece que o sensato, como aquele seriado que você começa a assistir e não sabe direito se gosta ou não, é aguardar os próximos capítulos. Ah, em junho estarei em Porto Alegre com minha camiseta da seleção da Argentina (se eu fosse maledicente diria que os hermanos pagaram para ter os adversários da primeira e segunda fase e, por isso, são fortes candidatos) observando aeroportos e ruas em situações mais calamitosas do que as de ontem, com certeza. O melhor é que depois que a Argentina perder e voltar para um país em situação tão ruim quanto a nossa, depois que a Holanda sagrar-se campeã, depois que os turistas tiverem embarcado com suas garrafas de cachaça e impressões conflitantes sobre nosso povo, voltaremos à vida individualista e politiqueira que consagra nossa condição. Porque a Copa será só uma situação. Peraí, eu disse “o melhor”?

Sobre pessoas e personagens

Tenho pensado muito nas pessoas (é mais um mal que eu tenho). Na verdade, queria um personagem. Foi assim que escrevi ali no meu mural. E no meio do caminho fui pensando nas pessoas.

Conheci e tenho convivido (mesmo que das formas menos banais) com pessoas interessantíssimas. Algumas têm feito minha alegria diária. São as trocas de pensamentos, os comentários espirituosos, a presença esperada, o humor variável. Sim, porque gosto de encontrar nas pessoas algo que me possui tanto como a variação de humor. Me encantam em especial as pessoas que pensam (não, não são todas), que levantam a voz para criticar, que fazem perguntas, que se indignam, que não querem fazer voz ao coro das opiniões, aquelas que não precisam mostrar nada porque o são de verdade.

Acima de tudo são pessoas que aprendem com a vida. São pessoas que não são óbvias. Ah, quanto amor meu por isso! Vou abrir um breve parênteses e comentar que todos os meus relacionamentos (algo) amorosos tiveram seu fim por causa da obviedade que nos corrói. Em alguns meses eu já sabia o que irritava-o, como provocá-lo (principalmente), como contrariá-lo, o que e quando perguntar, como ele agiria em determinadas situações, do que seria capaz. E assim perdia a graça. E as pessoas, meus queridos, precisam manter a graça. Desinteresso-me num piscar de olhos se a previsibilidade torna-se rotina. Aliás, sobre amor e tédio, já escrevi aqui, né?

Sobre aprender com a vida, pensava nisso antes de ontem no banho. Aí ontem, conversando com uma amiga, voltei às idéias. Como há pessoas que já passaram por tanta coisa na vida, já leram tantos livros, já assistiram tantos filmes, já trabalharam, já perderam pessoas que amavam (e que as amava, veja bem), que já choraram sem ver nada à frente, já bateram e já apanharam… enfim, pessoas que têm histórias boas e ruins na vida e que têm algum conhecimento do mundo e, ainda assim, são umas – me falta a palavra – umas bestas, umas portas. São pessoas que não sabem viver. Não sabem aprender. Não sabem olhar para os outros. Não sabem preservar as melhores coisas que têm. Não sabem apreciar este ir e vir dos dias.

Aí fiquei lá matutando sobre o meu personagem. Queria que ele fosse uma mistura dessas coisas. Queria-o óbvio, mas intrigante. Queria-o uma anta que não aprende com a vida, mas que tem sonhos.

Na literatura contemporânea o que não falta são narrativas auto-referentes. É um mundo de narradores que olham o mundo sob uma fração que o seu umbigo o permita. Personagens com tantas dúvidas vazias e dores inexistentes que enchem páginas sem fim.

Enquanto ainda pensava nas doces pessoas e fui escrever mais um pedaço do meu personagem me dei conta de que escrevia a história de uma pessoa que eu conheço pouco. Na verdade eu sei uma coisa ou outra da vida dela, e ao escrever eu escrevia a história dela preenchendo tudo o que eu não sei (que é bastante coisa) com a minha imaginação. E é assim que eu faço a minha vida mais bonita. Sempre faço isso, se eu conheço alguma coisa de você, pode ter certeza que já fui preenchendo as lacunas, fazendo deduções e criando a minha (tua) história. De fato, até abro mão da tua história e prefiro ficar com a que eu criei.

Queria um personagem assim. E queria-o difícil, real, abominável. Um autor uma vez me disse (talvez já tenha comentado aqui) que a coisa mais fácil de se fazer, ao escrever uma história, é matar seu personagem (até quando ele é o protagonista? Fiquei me perguntando. Fica pra outra hora.). E hoje me irritei tanto com os filmes que tenho visto que pensei que mais fácil ainda do que matar um personagem é criá-lo rico. Pronto, você matou-o de outro jeito, destruiu a maior parte dos conflitos que ele poderia gerar. O que, aliás, torna a maioria esmagadora das histórias atuais extremamente entediantes.Não é que faltem conflitos nos personagens milionários. Mas eles são vazios, chatos e vulgares.(as duas últimas frases foram twittes meus e segue um comentário em reply a quem me disse que sempre preferiu os personagens pobres) São mais profundos, têm mais dramas. Qualquer viagem (até um passe de ônibus) é um conflito pra eles. Perfeito.

Filmes ou livros (mais aqueles que estes) e, principalmente, novelas, nos quais os personagens são riquíssimos. Me deparei com muitos deles ultimamente. Novela é quase sempre assim, tipo as do Manoel Carlos. Agora o público não gosta mais tanto, pelo jeito, porque prefere aquelas nas quais os pobres… ficam ricos. Já escrevi sobre isso por aqui também. Essa idéia maniqueísta de que pra ser feliz é obrigatório ser rico. Li um texto de uma menina esses dias e ela dizia que todo mundo queria ser rico, mas que ela não queria dinheiro. Simpatizei tanto. E por conhecer a história dela foi totalmente compreensível o comentário.

Pessoas que viajam pra lá e pra cá com toda facilidade do mundo, nos seus jatinhos ou chegam no aeroporto e sempre tem avião pra onde querem e eles sempre têm dinheiro, é claro. Aquele filme super entediante do Walter Mitty, por exemplo, que era pra ser encantador em como ele via o mundo na imaginação dele. Aí ele do nada precisa ir pra Groenlândia e puf! lá está ele. Ou O Capital, aquele francês. O dinheiro supera conflitos nada dramáticos no cinema. É tão entediante. Tudo se resolve. Há os que colocam o dinheiro e o fetiche que ele carrega como o conflito, alguns, ainda assim, não conseguem fugir da facilidade e do tédio.

Assisti a um filme no qual uma mulher rica entrava num táxi e mandava o cara (pobre, pobre, pobre, como aquela música lindíssima que a Ângela Maria canta) rodar sem destino. Horas e muitos quilômetros depois ele a questiona sobre o destino porque o valor já está muito alto, ela joga notas de dólares em resposta. Eis que eles seguem viagem para atravessar os EUA de leste a oeste e no meio do caminho ela perde a bolsa. Ou seja, criou-se um conflito porque eles precisavam seguir ou voltar e para tanto era preciso dinheiro. Eles encontraram formas criativas de seguir. Aí o dinheiro é usado dramaticamente.

E são esses filmes com personagens vazios e bolsos cheios de dinheiro que têm me entediado deveras. Sobre as pessoas, o mesmo. Sobre a auto-literatura tão praticada hoje em dia, também. Gosto de um pobre com drama porque a vida é mais vida assim. A imensidão de conflitos que há, desde conseguir colocar comida na mesa, de um personagem que não vive com o saldo positivo na conta e tem cartões de crédito com limites nas alturas é, como comentei naquele reply no twitter, riquíssima. Some-se a isso dramas internos alimentados por estes conflitos. É uma teia interessante demais. E foi assim que fui olhando para o meu personagem.

Não era pra ser um desabafo sobre tantos filmes e livros entediantes com os quais tenho me deparado. E vocês também talvez não se interessem pelos meus personagens. Mas só cheguei a tudo isso pensando nas pessoas… ah, essas criaturinhas que cruzam meu caminho. Saibam que sempre e sempre penso muito em vocês. E vocês nem fazem idéia, eu garanto.

Queria ver sentir falta do que nunca teve

Falar sobre o que não sabe é fácil, qualquer um pode fazê-lo. Queria ver sentir falta do que nunca teve. Ela ouvia o advogado ao lado ruminar suas sabedorias sem fim sobre coisas das quais ele não tinha idéia. Tentava ser simpática, concordava, fazia um comentário ou outro. Educação, sabe? Não confundam. Eram os problemas do mundo e todas aquelas banalidades. Ela estava com sono, mas ainda assim ouvia o homem com um relógio enorme, engravatado e usando um perfume forte. Ele falava dos condomínios em Miami, sobre os fingers do Brasil, sobre os gastos com a Copa, as maravilhas da tecnologia em celulares, os problemas de assistência às pessoas com deficiência e mais alguma dúzia de coisas que ela não saberia listar.

As pessoas são assim. Insistem. Querem atenção. Acham que seduzem. Se vêem obrigadas a serem sociáveis, a conversarem com os outros. Não sei de onde vem estas obrigações – ela também não sabia. Na verdade, ela não estava pensando nisso. Pensava apenas no sono e em como gostava de aproveitar aquele momento de despegar da terra. Ela gostava de voar. Mas, é claro, por vezes ela não entendia esta necessidade de ser sociável que as pessoas sentiam – e mesmo assim se via ali, conversando… não, conversando não, era só um monólogo do advogado com breves comentários dela.

Ele falava sobre tudo, o que tão facilmente leva ao nada. Não bastasse todo o barulho de fora e de dentro, ele ali tagarelando e ela só pensando no sono – doce sono. Ela não se considerava, enfim, mais um boi deste mundo e foi por isso que quando ele quis, mais uma vez, demonstrar sua gigantesca sabedoria comentando que o barulho da turbina era anormal por falta de manutenção e que eles não faziam overall, ela silenciou, fechou os olhos e ignorou-o até o fim – quando ele ainda (por essas obrigações descabidas do social) virou-se para ela e disse “tchau, querida”.

Ele é um bom exemplo. Uma criatura dessas jamais entenderia o que é sentir falta do que nunca teve. Jamais. Talvez o mundo todo possa ser dividido entre as pessoas que falam sobre o que não sabem e as que são capazes de sentir falta do que nunca tiveram. Porque, vamos e venhamos, generalizações são perfeitas para um mundo como o nosso. Se não isso, coloquemos uma mesinha com um atendente para anotar todos os entremeios de cada indivíduo deste mundão.

E pouco importa o certo. Quem sente falta do que nunca teve não compreende o certo e o errado, como um cachorro que revira o lixo para comer papel higiênico usado. E, também, é algo sobre o que nunca se fala – nem aqui deveria estar constando. É uma das poucas coisas que não deve constar nos autos do mundo – já que falávamos de advogados, vale citá-los: se não está nos autos, não está no mundo.

Opa. Então… perceberam a relação? Se você nunca teve é porque nunca esteve nos autos da sua vida. Ou seja, não existe – deixemos de lado o “não lhe pertence” porque a discussão seria por outra vereda. Há metafísica demais nisso. Não acham? Ela não achava. Com um olhar de quem viu um mosquitinho flutuando na panela de sopa fervente, ela acompanhava o vazio da tela do computador, da tela do celular e com um ouvido irritado pelas mesmas palavras de sempre, ela acompanhava o celular que não tocava, o recado que não era dado, a mensagem que não chegava.

Talvez as más línguas dirão que ela sonhava (dormindo ou acordada, já se fez muita poesia sobre isso, não cabe repetir). Pois não era bem o caso. Ela desejava, isso sim. Seu desejo não desejava controlá-lo. Deu para entender? Os desejos, muito mais que os sonhos, tratam daquilo que não temos. Sonhar é, de alguma forma, ter. Então sentir falta de algo com o que já se sonhou não é sentir falta do que nunca se teve. Ela desejava apenas e por isso sentia aquela falta.

Ela que me desculpe, mas há metafísica demais nisso. A tal falta em nada insinua-se na vida, nas relações, no dia a dia, nesse passar tão indecifrável do tempo – que me desculpem, também, os relógios. Seria interessante tentar dividir a humanidade entre os que falam sobre o que não sabem e os que sentem falta do que nunca tiveram porque os primeiros são facilmente identificáveis, enquanto os segundos não dão sinal da provação pela qual passam. Bem, se há mesmo metafísica nisso tudo, vocês também não deixaram de perceber que em ambos os casos há negação. E quem dera que para além do mundo dos matemáticos de duas negações surgisse uma afirmação.

E se alguém do primeiro grupo a interpelasse depois do advogado e ela quase lhe abrisse o coração (coisa que os que sentem falta do que nunca tiveram nunca o fazem) e ele fosse desses que falam sobre o que não sabem acerca da metafísica, dos livros, dos pensadores, ele lhe diria compungido “a vida é negação”. E se ela estivesse já com o sono a embotar-lhe o humor, ela levantaria e diria “se fosse negação, não terias nascido porque tua mãe teria tido o mínimo de respeito com a humanidade e teria dito um belo ‘não’ ao teu pai – evitando o ato de te fazerem” (eu disse que ela não era muito chegada nessas coisas sociáveis).

Não há conceitos nem definições aqui. Lamento se decepcionei vocês. “sentir falta” é ausência, “nunca teve” também é ausência. Como definir o que não há? Sobre “sentir falta” talvez muitos de bom coração tentem abraçar a idéia. A única coisa, não sei se vocês perceberam, é que existe uma presença ali que muda tudo: “do que”. Há um que, um quem (talvez). Eis a charada. Nunca existiu nem existe no momento (posto que faz falta) mas existe – há. É presença. Tão presente quanto ela naquela poltrona com aquele advogado ao lado. Tão presente quanto o sono que ela sente. Tão presente quanto o som que vem da turbina.

E, com metafísica ou não, é a presença que sempre altera tudo. Há o desejo que concretiza esta presença, simples assim. Quem tem desejo é que pode sentir falta do que nunca teve. Quem não o tem, fala sobre o que não sabe – não há desejo, há necessidades (as piores, se é que entre necessidades há alguma que não seja ruim) palpáveis. Sim, para a metafísica as necessidades inexistem. E ficamos assim, vendo-a sentada diante daquele chocolate quente, com um cheiro forte de esgoto que vem lá da rua apinhada de ônibus e gente em êxtase, esperando um pastel do qual já se arrependeu, com os olhos desenhando um quadro mental daquelas cadeiras de ferro, do dono anotando os pedidos, da moça gorda na mesa ao lado e dos cantos sujos. Falo dos olhos, mas não posso falar do que lhe vai por trás deles.

Imaginemos, então. Ela pensa, é claro. Sente, também. Posso contar-lhes com sinceridade que aquela tarde foi das mais marcantes da vida dela. Pensou até em anotar numa agenda ou algo assim. Ela leu e releu o recado que havia recebido. Como há muito não acontecia, emocionou-se. Do jeito dela, é claro. E felizmente sem advogados nem pessoas que falam sobre o que não sabem por perto. Pôde ser feliz como lhe convém. O sono ela nem lembra que sentiu. Não sei, talvez não pense. Talvez apenas agradeça e sinta. Sei que foi um tanto depois desta cena que ela veio a sentir falta do que nunca teve. Sentiu-o assim como o céu ensolarado que vai nublando. Estava diante de dois nadas com um todo no meio. E era aquele todo que agora levava-a a suspirar, a retrair-se, a desejar, é claro.

Se falhei em explicar-lhe o que é sentir falta do que nunca se teve, logrei meu intento. Fico feliz. Só sei que o dia que você sentir isso, lembrará desta pobre anunciação metafísica. Pra mim basta. Quem sou eu para falar sobre o que não sei?

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