O Destino

Vejo ali no canto o Destino. Homem mudo, magro, cabelo preto lambido e um bigode igual o do Poirot, sentado numa poltrona Luís XV de veludo vermelho. Usa um robe bordô e me olha sempre atentamente com seus olhos negros. Não há como chantageá-lo pois ele olha através de mim para o futuro e é mudo: nunca me diria nada.

Reparo que, às vezes, ronda um riso-sorriso nos seus lábios. Em nada parecido com o da Monalisa. Os lábios. Lábios sensuais, atraentes. E deles nunca terei nada. E eu queria que eles, se não me contassem os próximos cruzamentos, pelo menos me explicassem os que já aconteceram. Ele brincca comigo. Ele sempre prepara as próximas surpresas com carinho e atenção. Quando me encontro próxima de mais um revés, ele sorri. Porque ele vê o que eu sequer desconfio.

Ele não me confiar as novidades e não ser passível de chantagem eu já entendi. Mas ainda me reviro na cama querendo que ele me confidencie as explicações. Já tem tanta coisa que eu não entendo… não quero não entender as brincadeiras dele. O Destino, este homem que me persegue, arquiteta encontros e desencontros que tiram o trem – eu que me conheço bem e me orgulho de ser tão dona de mim – dos trilhos violentamente. Acontecem os acidentes, o sinal do cruzamento que sofre apagão, o tropeço que rola a pedra que mudará a vida alheia. Este trem de pontualidade francesa, de tantas certezas e intuições. O trem que sempre sabe que vai. E mesmo assim eu olho aquele homem ali no canto, nossos olhares se cruzam e fixam.

Toca um saxofone suave, malemolente, sedutor. É assim que o Destino me atrai. Quando me aproximo, vem um violino arrepiante, atrás a me cutucar a nuca e me empurrar pra frente. O saxofone desaparece e já estou presa no som raivoso do violino que acelera o sangue nas veias. Não há volta.

Os homens da minha vida – a impossibilidade e je repars à zèro

Eu, do nada, perguntei: vamos jantar no Subway? E a resposta foi positiva. Mal sabia eu o que me preparava o destino. Lá fomos nós, conversa aqui, ali e chegamos na lanchonete. Às vezes eu esqueço o motivo de não sair em Joinville. Esta cidade me guarda surpresas impensáveis, até pra mim.

Abro a porta de vidro e um olhar me traz o passado. Eu com essa mania do sangue inglês de disfarçar o que sinto, vejo o dono daqueles cachos arregalar os olhos daquele jeito que, ó Deus, eu ainda conheço tão bem, virar a cabeça repentinamente pra fugir (com toda razão, como sempre) da memória do corpo (a melhor memória de todas), falar alto “sim, mas claro, azeitona” com aquela voz travada e o sotaque que, ó Deus, eu amei por tanto tempo e ficar revirando as mãos nervosamente, me evitando a todo custo.

E nós ali na fila, duas pessoas entre nós, meus olhos perscrutando enquanto os dele fugiam. Sempre fora assim, enquanto havia sido.

Tudo continuava igual, tudo, tudo. Bem, nem tudo. Ele usava tênis agora, não mais as sedutoras botas e o relógio era digital (estranhei muito isso) não mais de ponteiros. A pele. A pele estava bem mais marcada pelo tempo. Ele gosta do sol, um ponto em comum. Mais um. Ainda tinha uma caminhonete, ainda era casado (com outra, é verdade). E estava na cidade numa quinta-feira.

Eu me divertia, novamente (como sempre fora), ria do jeito assustado e fugidio dele. Falava com quem estava comigo com a cabeça em outro mundo. Igual como no passado. Eu ri à toa.

Sim, ele foi meu caso mais divertido. Ele foi o mais inspirador. Ele foi com quem mais aprendi. Foi ele o culpado por todos os meus planos daquela época – que fazem de mim o que sou hoje.

E ele ali, disfarçando, fugindo. E eu me divertindo. Ao sair, passando pela mesa deles somente aquela troca de olhar com um sorriso e um meneio de cabeça. E eu sorrindo.

Confesso que a volta para casa foi em suspenso. Minha cabeça rodava feliz pelas lembranças, o corpo adormecido de dias trancada em casa numa longa e quase interminável convalescença havia sido despertado por doces e aterradoras lembranças. Há muito tempo que eu não tinha nenhuma notícia dele nem sequer nos meus delírios imaginativos.

Eu me divertia lembrando de tudo. Postei o fato, resumidamente, lá no Facebook. Me divertia em lembrar e relembrar, em captar cada detalhe, como aprendi a fazer. Contei a uma amiga, testemunha dos fatos e companheira da época.

Faltou perguntar se ele continuava no mesmo hotel. Porque os dias haviam mudado.

Só os dias?

Eis que me pego pensando durante o banho: nada havia mudado. Ele que me havia aberto todos os mundos possíveis diante dos meus jovens olhos, estava ali no mesmo lugar, pelas mesmas razões, do mesmo jeito.

Um peso no coração me abateu. Foi por isso que há tanto tempo atrás eu havia tomado uma das primeiras decisões mais difíceis da minha vida. Ele estava ali. Se eu tivesse dito “sim”, eu também estaria ali, na mesma, do mesmo jeito. Eu não era mais a mesma. Não cresci, é fato, mas não envelheci. Sim, eu faria tudo novamente hoje. Tirando o peso dos anos (bem, neste caso acho que empatamos), eu poderia sentir a mesma coisa por ele e não sou do tipo que diz “eu não faria de novo”. Faria, com muito (mais) prazer. E, provavelmente, me divertiria muito, novamente.

E aí, cai água do chuveiro e eu penso que esta história resume o fato do fim de todos os meus (quase ou não) relacionamentos: o caminho. Terminei todos (e, sim, eu sou a má que é sempre quem termina os dito cujos) pelo mesmo motivo, caminhos diversos a serem seguidos. Difícil colocar isso em palavras. Todos eles chegaram naquele momento em que eu segui, eu desejava mudar, ir para a direita, esquerda, pra frente ou até pra trás e eles… bem, eles ficavam (e ficariam, mostrou o futuro ao se tornar presente) no mesmo lugar. Garanto que posso encontrar todos eles a hora que eu quiser porque continuam com a mesma vida, exatamente igual – talvez apenas usando um relógio diferente.

E foi isso, até hoje, que me fez seguir sozinha: o fato de querer (e precisar) seguir. Eu não poderia ficar para discutir qual máquina de lavar roupa comprar, ou qual a cor da cortina da cozinha. Eu não conseguiria. Eu não consegui.

Eu não disse “sim” (nem nunca consegui dizer) a um casamento e aos filhos quando este não era, ainda, o caminho que eu traçava.

Vejam só, eu vou do desânimo à euforia em um olhar.

Terminei todos eles até hoje porque não consegui estar ao lado deles onde eles ficavam, e eles, definitivamente, não me seguiram. E, por que, ó Deus, esse azar no amor de cruzar com esses homens que param, que ficam e não vão?! Seja para qualquer lugar, mas não seguem, param, se acomodam, se satisfazem. Por quê?!

Há um que não é assim. Mas o destino é tão sacana com os encontros e desencontros (muito mais estes do que aqueles) que acredito na doce ilusão de um dia nossos caminhos cruzarem de vez. Acredito somente na ilusão, pois sei que é (quase) impossível. E, às vezes, me dou ao luxo de acreditar no impossível.

E de toda a felicidade legítima que eu tive naqueles cachos, naquele sorriso e naquele sotaque me sobraram as lembranças divertidas. Por que o destino cruzou nossos caminhos tão despretenciosamente hoje? Não sei. E prefiro não pensar nisso (vejo chifre em cabeça de cavalo, diria meu pai). Comentei que eu pensaria, obviamente, sobre o incidente do dia. Mas que eu não deveria me deter demais no “pensar”. E não devo. Quem me conhece sabe que eu sempre faço o que não devo.

Ao lado da delícia de lembrar e, de certa forma, reviver aquilo tudo de um passado até que distante, veio uma tristeza agridoce por vê-lo ali, um ídolo de pés sujos na lama. Ele que podia tanto, ali estava. E nada mais. Como flecha me acerta a certeza da minha decisão repentina na época. E se eu tivesse insistido e dito “sim”, sei que hoje eu não estaria com ele e provavelmente as lembranças seriam amargas num encontro assim fortuito.

Por que esse azar no amor, ó Deus, de não cruzarem meu caminho no momento certo? Sempre o homem certo na hora errada. Sempre caminhos embolados, um no fim e o meu sempre dando voltas. Por quê?!

E aí veio a madrugada, o vinho, a música, os amores que já senti, o chocolate e saiu tudo isso daí, todos esses pensamentos provocados pelo banho, por aquele olhar, por aquelas lembranças.

Só posso dizer que eles nunca entenderam e nem entederão. Se aquele um vai se tornar realidade, só o destino sacana dirá. Se o azar no amor é esse mesmo, mais caminhos desencontrados virão. Cenas para os próximos capítulos.

E toca agora aqui “Non, je ne regrette rien”.

Nunca um sanduíche do Subway me fez tão feliz.

Madrugadas

Eu poderia falar de tantas coisas nobres. De Política. De questões sociais. De História e de Cinema. Ou então contar alguma coisa do meu dia-a-dia, aquelas coisas que causam espanto, como diria o Gullar, e que fazem do poeta o poeta. Poderia escrever alguns versos, uma estória que habita minhas idéias. Ou poderia simplesmente satirizar alguma coisa. Sou péssima nisso, eu sei. Afinal, humor não é o meu forte. Gosto do drama, da dor, das coisas impossíveis, do inalcançável, das emboscadas.

 

Eu posso contar que gosto das madrugadas. Conheci-as quando nova, bem nova. Ficava lá naquele outro quarto que nem era bem meu, adolescente bem precoce, portas trancadas, meia-luz. Era um livro que começava na hora de ir dormir, era a rádio – aquela mesma – que criava a trilha para as letras. Ou era a música – sim, aquelas – que me embalavam. O certo era que ali começava e não via o “tempo passar”. Ora, o tempo nunca passa, ilusão organizacionista humana. Apreensões, negações, aceitações, vivia com o coração aflito até a última página. E aí já era quase hora de levantar para ir para a aula. E a cabeça mais e mais aflita e presa ao coração que moía e remoía cada ida e vinda das páginas. Apagava a luz, andava pelo escuro pela casa grande, tomava água, ia ao banheiro, tudo maquinalmente, enquanto a cabeça se deliciava com a estória. Deitava, agora para dormir mesmo, e, às vezes, não dormia logo. Reinventava a estória, encarnava personagens, fazia uma alteração aqui, outra ali. Ou revivia a própria estória, me deleitando com novas imagens e sensações. E ali ficava, fim de madrugada, sorte era pegar no sono antes da mãe chamar para levantar. Muitas (e foram realmente muitas) vezes não conseguia levantar. Inventava uma dor, olhava pra mãe com aquela cara famosa ou simplesmente não levantava. Ela aparecia e perguntava: não vai? Não, eu não iria. Do mundo das estórias me jogava com toda a força para o mundo dos sonhos e neles ficava.

 

Foram tantas madrugadas assim… dos livros e da música fui aos filmes. Sofá, coberta, um vinho às vezes, e as mesmas reações, o mesmo corpo e a mesma cabeça reagindo a cada imagem, a cada personagem, a cada fala. De vez em quando a noitada começava num filme e terminava num livro. Como alguns dizem que começam a balada em tal lugar e depois vão para outro. Minhas baladas sempre foram essas. Para quem não sabe ainda, nunca fui para a “balada”, nem pra “night”, nem pra nenhum desses clubes, boates, dance clubs ou sei lá como se chamam. Nunca. Aliás, também nunca fui em festa da faculdade, nem antes, nem durante, nem depois de duas graduações e meia.

 

Mas já virei muita madrugada. Não queria ser indiscreta, mas nem sempre a companhia foram os livros, as músicas e os filmes e a minha própria companhia. Nem sempre.

 

E aí eu não entendo acordar cedo. Eu vejo a beleza do amanhecer, de vez em quando o contemplo. Raramente, é verdade. Mas sou apaixonada pelo pôr-do-sol. Aliás, parece que as 18h tem um poder sobre mim. Eu vivo melhor na madrugada, eu penso melhor, eu escrevo melhor… eu sinto melhor. Não pretendo nem quero explicar. Só sei que o silêncio, a sensação de vazio, de estar só no mundo é o que mais me atrai às madrugadas.

 

Eu preciso disso. E nem sempre todos souberam respeitar. Eu preciso viver algum tempo no mundo paralelo. No meu mundo paralelo. Senão eu não vivo. E não posso dizer que me sinto no meu lugar. Bem pelo contrário, como agora, meio da madrugada, e eu andava pela casa escura com a sensação de que faltava algo. De que falta algo. E só me espera a cama. Eu preciso sentir que falta algo. Eu não posso me sentir completa. Eu não posso me sentir satisfeita.

 

Nessas madrugadas já falei muito sozinha, já falei com os atores gostosos dos filmes, já xinguei os autores dos livros. Já fiz pipoca às 4h, uma vez na casa grande queimei (ou melhor: derreti) o pijama de seda no fogo do fogão, uma outra fiz no microondas e o cheiro era tão forte e nauseante que no frio abri toda a casa. Já conversei com meus peludos, discutindo as estórias, os meus sonhos, falando dos personagens reais que me atormentavam o coração. Eles ali, sempre ouvintes a tentar dormir, e eu a transbordar o coração daquilo que nenhum ser de duas patas jamais me ouviu dizer.

 

As madrugadas já me mostraram o que eu deveria fazer, numa encruzilhada. Já me impediram de fazer grandes bobagens. Já me levaram ao mundo dos prazeres inenarráveis. Já me tiraram o sono, me deixaram rolando na cama, quando eu tentei ceder e fingir que dormia e acordava como todo mundo. “O mundo inteiro acordar e a gente dormir” Gosto de ouvir as pessoas acordando quando estou pegando no sono, ouço aqueles que trabalham, os que estudam, os escravos de corpo e alma, minha madrugadeira mãe, meus vizinhos, os cachorros e as gatas, eu ali procurando o primeiro sono depois de um tempo rolando na cama com as estórias e os sonhos e eles a subir e descer escadas, a irem ao banheiro, a saírem de carro, a abrirem e fecharem as portas. Acompanho com um certo deleite ao saber que o mundo lá fora ainda existe e que eles vão mantê-lo funcionando por mim. Enquanto eles dormem eu mantenho, por eles, as estórias e os sonhos bem vivos.

Novela das 7h

Ao abrir a porta eu já senti aquele cheiro. Era de um sabonete japonês antigo, de mel, que a avó dela tinha dado de presente. Eu conhecia aquele cheiro e não suportava mais senti-lo. Era como se nossas vidas tivessem aquele perfume enjoativo, forte e tão conhecido.

As contas estavam em cima da mesa, como sempre. A lixeira aberta como um post it para me lembrar de tirar o saco de lixo e levar para fora. A TV ligada naquela insuportável novela das 7h. Se me perguntassem qual era a novela, eu nem saberia dizer, todas as que ela assistia eram insuportáveis. As luzes todas do apartamento estavam acesas, ou seja, hoje ela não queria sexo, não tentaria me seduzir com a meia-luz dos abajures e uma camisola transparente. Como se precisasse de camisola transparente, eu conhecia cada centímetro daquele corpo – e a mesma camisola de sempre. Eu me perguntava por que ela não desligava a TV pelo menos nesses dias de meia-luz e colocava alguma música. Não, ela não gostava de música. Só ouvia rádio no carro: entrava, batia a porta feito um cavalo e ligava o rádio. Eu nem tentava conversar, evitava gritar mais do que aquelas músicas enfadonhas de sempre.

Sempre. Sempre. Sempre.

O que havia sido minha vida antes do sempre? Parado ali no meio da sala, parcialmente de costas para a TV, eu me perguntava uma coisa tão banal. Existira vida antes do sempre? Haveria algo depois do sempre? O para sempre me sufocava, comecei a alargar o nó da gravata tentando respirar.

– Ah, eu falei com ele! Acho que ele não quer ir, sabe, mas dá nada, eu dou um jeitinho, sabe, né, mulher tem sempre que conseguir tudo o que quer.

A voz estridente (nem era estridente, mas pra mim já soava assim) vinha lá do quarto. Pendurada no telefone, claro, falando demais com qualquer amiga idiota. Falando da nossa vida, a idiota.

Então o para sempre era isso? Era disso que tanta gente corria atrás? Amizades para sempre, amores para sempre, felicidade para sempre? Estava ali absorto ao invés de ir até o quarto, jogar a pasta sobre a cadeira, fazer uma careta de desgosto para ela, como sempre. Eu também era como sempre.

Não ia. Não queria ir. Mas via a cena se desenrolar… via meus passos, a cara dela já marcada de tanta maquiagem e cosmético anti-idade desde os 25, via o quarto bagunçado com roupas e sapatos pra todo lado. Via o beijinho sem graça com um sorriso falso que ela me mandava entre as fofocas sórdidas do telefone. Sem graça? Falso? Ela me amava de verdade? Aquilo era amor?

Tinha sido prova de amor ela ter deixado, por um tempo, a carreira? Ter parado de estudar? Ter se mudado tantas vezes por causa do meu trabalho? Eram provas? O que ela precisava me provar?

O telefonema ia chegando ao fim com aquele “vou lá esquentar a janta pro meu safadenho” de sempre. Todos os modismos que ela imitava, tudo que ela tentava parecer engraçado. E eu ali parado.

– Ué, taí ainda? Quequetedeu hoje? Sabe com quem eu tava falando? Com a Mari. Ah, é, eu sei, uma chata. Ela quer tanto que a gente vá sábado. Nós vamos, né, só pra provar que eu não acho ela chata. Eu sei que tu quer ir.

Ela passa… aquele cheiro indistinguível. O cabelo crespo armado todo loiro que ela puxa e repuxa a cada instante.

Eu largo a pasta no chão, no meio da sala. Pego o controle no sofá cheio de revistas, copos, cobertas e desligo a TV.

Os passos acelerados vêm da cozinha.

– Quequetedeu?! Por que tu desligou isso?! O que tu tem na cabeça?!

Os olhos arregalados, o corpo enrijecido, a mão na direção do controle da TV.

Eu desvio a mão.

– Me dei conta de que você nunca assistiu, nem assiste essa novela. Nenhuma novela das 7h.

Ela pára. Ela congela. O para sempre dela abre uma brecha.

– Eu sempre assisto e assisti a novela! Dáqui isso já.

Os olhos arregalados.

– Tu nunca assistiu nem nunca mais vai assistir.

– Ai, tá bom. Deve ser o calor, querido. Vou abrir a janela um pouco e tu liga a TV.

Tudo havia voltado ao normal, como sempre. Aquela cara marcada, o olhar de peixe, o sorriso falso (sim, só poderia ser falso). Só não era mais falso do que o “querido” que ela usava como se me amasse.

Ela se apóia na janela, abre um lado, abre o outro, respira, olha para baixo. Com o canto do olho espera que eu ligue a TV.

Caminho até ela, seguro com firmeza suas coxas – num breve segundo ela solta um gritinho – e a atiro pela janela.

A TV desligada.

Pareceu-me o único digno “para sempre”. Agora eu entendia.

Same time, next year e as delícias do bom cinema

Num domingo, nada como acordar e ir assistir um filme. Tenho andado tão romântica para a ficção, acho que para compensar as agruras da vida e as obrigações sérias. O mundo fantasioso de uma pisciana precisa, de certa forma, ser alimentado. Como esqueci de pegar um livro para colocar na mala e nenhum daqui me interessou, fico com os filmes.

 

E há aqueles filmes que mexem com a vida da gente. Esses dias ainda, conversando com um amiga de muito tempo (se vão aí pra mais de dez anos), ela me dizia que naquela época me via, no futuro (ou seja, hoje), autora de vários livros, que nunca havia pensado que eu iria parar no cinema. Mas são as voltas que a vida dá e minha ficção foi encontrar satisfação nas imagens. Talvez aquela união da fotografia e da escrita, velhas paixões e companheiras.

 

Eu já plantei inúmeras árvores nesses tantos anos de vida, eis que só me faltam os livros e os filhos. Eles já não parecem assim tão distantes…

Escrever é como um prolongamento do meu braço, tão natural quanto necessário. E escrever sobre filmes é tão delicioso quanto difícil.

 

E naquele domingo acordei com a casa em silêncio e liguei a TV. Começava um filme no meu canal favorito. A intro me conquistou no mesmo instante com um trilha pegajosa e tão direta. Dei uma olhada na sinopse (essas infelizes) e não tive dúvidas que assistiria. Eis que chegam do supermercado com os ingredientes para o almoço que eu havia prometido e tive que interromper a sessão. Passaria novamente dali a dois dias.

 

Recomendei a uma amiga que assistisse também indicando que era verborrágico tipo um Woody Allen e baseado em uma peça da Broadway.

 

Eu teria reservas sobre ser baseado em uma peça, afinal dispositivos diferentes podem não contemplar suas aspirações ao mudarem de “casa”. Mas…

 

E para quase tudo na vida há um “mas”.

 

A intro é perfeita, um homem e uma mulher que se conhecem sem mais num hotel de beira de estrada americano. Risos, sorrisos, não ouvimos o diálogo (e o que importa este tipo de diálogo? como diria a personagem Doris depois, ele nem a estava ouvindo) pois toca o tal tema meloso e lindo e nesses momentos o que vale é a sintonia.

 

A sintonia! Ah, esta me é muito cara!

 

E, um elipse depois – aliás, a elipse neste filme encontra sua forma genial -, lá estão os dois discutindo. Não vou aqui me deter a escrever uma sinopse do filme, nem a contar a historinha. O texto é afiado, lapidado, perfeito. Os atores não deixam escapar nada. É preciso um elogio maior à direção de arte que soube conduzir uma história que se passa durante 26 anos com cortes bruscos, e conta os anos turbulentos de 1951 a 1976 com detalhes de deixar qualquer bom apreciador da sétima arte babando!

 

O poder de síntese da fotografia e do roteiro é que mais encanta, definitivamente. É uma história de amor contada no seu tempo, com as elipses de tempo transformadas em pura imagem, sem mais. Talvez algumas mentes mais recentes e pouco informadas não consigam acompanhar as referências, mas isso não deixa o filme datado: datado é o espectador mediano (ou abaixo da média) que não reconhece aquelas imagens, aqueles personagens, e, assim, não há de entender nada do filme.

 

Ele, ao contrário do que poderia parecer – e foi um dos meus receios – não é repetitivo. Pensei que o roteiro escorregaria na sua perfeição quando George pede Doris em casamento: mas, não, até ali ele soube ser tão genial.

 

Confesso que não entendi como, até hoje, eu não havia me deparado com esta pérola. É um daqueles momentos que você sabe porque ama o cinema, porque ele te atrai tanto, porque ele é tão múltiplo.

 

“Same time, next year” é uma versão da vida que não se encontra em qualquer lugar, a qualquer dia. É um filme que infelizmente não fez escola, talvez porque reparar nos pequenos pontos da vida não rendam boas bilheterias.

 

Alan Alda esta incrível.

 

E só para deixar na vontade e resumir muito bem toda esta obra-prima, cito uma metáfora (para o espectador atento, são várias!): Doris pergunta a George que horas são. Ele diz para ela ver no relógio dele. São 11h50 e ela fica surpresa, não achava que era tão tarde. Ele diz que, na verdade, ele está mais de três horas adiantado, então é preciso diminuir para saber o horário certo. Doris: se está quebrado, por que você não arruma? George: ah, sabe como é, a gente se acostuma.

 

É, nós nos acostumamos com o que está quebrado… e leva uma vida inteira assim. Não é um poema que diz isso?

 

 

X-polenta

 

E nas voltas que a vida dá, volteei muito nos últimos dias, tanto mentalmente quanto fisicamente. Aumentei um pouco aquela lista das coisas inéditas e pensei, pensei muito.

 

Pensei em uma pessoa que ronda minha vida e que deixou aquele sentimento de “um dia nos veremos novamente”. E os caminhos já se entrecruzaram de tantas formas que é impossível não pensar assim. Mas, talvez seja só mais uma ilusão. Ilusão assim, pelo menos, não machuca, não faz perder o tempo precioso dessa vida, nem faz de mim uma pessoa pior.

 

Pensei que quanto mais traço meu caminho naquilo que estou fazendo agora, mais penso no depois. O negócio é traçar uma meta, buscar muito as melhores condições para isso, abandonar o que for preciso, perder noites de sono planejando e estudando e não dizer que são sonhos, pois são objetivos.

 

Escrevo só para acrescentar à lista que comi x-polenta. Coisa de interior, no interior, feito por aquela italianada de interior.

Escrevo só para dizer que estou por aqui, mas cada vez mais longe. Jamais longe de mim.

 

 

Desabafo (e não é do Roberto Carlos)

Eis que chega o dia de voltar ao passado. Retomar práticas antigas como o desapego, o desprendimento e o desassossego. Eis que decido voltar àquilo que já fui, talvez nunca tenha realmente deixado de ser, e que deixei dormitando por razões infames.

Se tem coisa que mais detesto nas pessoas é esse arrastar-se da consciência pesada pela culpa. A isso, só os chutes.

Decidi voltar a uns dez anos atrás, retomar aquela rebeldia, reviver com toda a intensidade o espírito daquela menina que só se vestia de preto porque usava um luto pelo mundo, vivia trancada no quarto lendo livros, ouvindo música e sonhando com eles. É a ela que eu quero retomar com toda a vida.

Porque já vivi o suficiente para, entre o ideal e o real, preferir sem questionamentos o ideal e dispensar todos os “reais” que me aparecerem pela frente.

O que atravessou meu caminho e me feriu de morte? A hipocrisia. É, essa mesma. Essa que me fez num dia de fúria escrever num dos meus murais do tal quarto fechado “sejamos hipócritas” como um hino de escárnio.

Decidi não ser mais a mulher perfeita para completos idiotas. Decidi não ser mais a filha atenciosa, sempre presente e dedicada a pais que não me vêem, a irmã sempre e sempre ao lado para irmãos que acham que nunca passei dos cinco anos. Decidi não ser mais, num esforço sobrenatural, simpática com qualquer babaca boçal que cruza, todos os dias, o meu caminho. Decidi que estou cagando e andando pra todo mundo. Decidi que o mais nobre em mim só terá expressão com os animais e os sonhos.

Liguei o dane-se.

Decidi retomar os abaixo-assinados, decidi voltar a incomodar. Decidi mandar à merda quando e quem eu bem entender. Decidi que só vou usar o bom senso dentro da minha casa e, fora dela, só se houver completo retorno.

Lembrei que aquela menina que vivia de cara fechada e fone de ouvido sou eu, sem tirar nem pôr, e que não preciso mudar isso por ninguém. Lembrei que o homem que faz careta porque eu gosto disso ou daquilo, ou porque eu falo alto, ou porque bebo, ou porque faço piadas, ou porque sou obscena simplesmente é um merdinha que não me merece.

Se sou a fútil que adora bolsa e esmalte e isso incomoda alguém, me resta um peido.

Resolvi riscar da lista todos os que não têm consideração à altura de mim (ou da consideração que eu dedico à pessoa). Sim, não é mais o “mínimo” de consideração. Não sou maior abandonada pra viver de migalhas. Restos não me interessam. E ficar ruminando é coisa pra vaca.

Não me acompanha, ficará pelo caminho.

Estou cagando e andando para o dinheiro (como, graças a Deus, sempre fiz). Estou cagando e andando para o que as pessoas pensam (e falam, este tipo de gente sempre fala mais do que pensa) de mim. Estou meio Jesus, não nasci pra agradar. E farei piada com o que bem entender.

Aliás, não perdi meu orgulho, nem meu adorável amor-próprio, nem minha arrogância, nem meu narcisismo, nem meu egoísmo. Tem coisas na vida que nada tira da gente, ainda bem. Nunca serei unanimidade. Nunca deixarei de falar da vida alheia e dos idiotas deste mundo. Aliás, manterei sempre meu bom humor e alegria de estar viva. Sim, até nisso posso ser superior a muitos: estou viva e sei viver. Viver. E, como dizem, viver não é só estar respirando.

Vou, eu sei, atiçar ainda mais essa inveja que corrói os pequeninos deste mundo. Se deixarem, farei de tudo para atiçar ainda mais. Gosto de vê-los se retorcendo.

Vou cuspir de volta todo o veneno que me atingir. E ainda acrescentar um sorridente “obrigada”.

Vou rir do ignorante. Vou rir do pobre de alma.

Decidi não ter que ser nada. Não ter que ter nada. Decidi dizer mais verdades inteiras.

Lembrei que não fui eu que nunca amei ninguém, mas que esses pobres-diabos que andam por aí arrotando seus “te amos” é que não sentem com a cabeça, só com o estômago. Eu sei amar. Sei amar muito bem. Quem ama dá pérolas aos porcos. Quem sabe amar pode se dar a esse desfrute.

O comodismo nunca me infectou e eu nunca precisei de status, nem papel, nem teto pra referenciar o que se passa comigo.

Lembrei que não posso abandonar meu erotismo, minha putaria, minha sacanagem, meu pervertimento, meu lado inteiro cruel porque as pessoas assim me imploram. Implorem seus perdões que estarão mais bem pagos.

Lembrei que aquela menina escrevia bem e que não estava nem aí para quem se incomodava com o volume da música que ela ouvia. Reassumi isso faz já umas horas.

Lembrei que remorso, vergonha ou arrependimento nunca fizeram parte do nosso vocabulário. E que assim seja.

Decidi esnobar os falsos moralismos. Decidi pisar nas baratas, só pelo passatempo.

Decidi dizer o proibido.

Decidi ter “maus modos” e, quem sabe, sentar de saia com as pernas abertas.

E nada, nadinha, de titubear.

A ignorância e a arrogância de mãos dadas e um comentário sobre o horário eleitoral

 

Minha mãe chega em casa e relata a seguinte história:

 

Na clínica, sala de espera.

 

– Ai, cheguei atrasada porque teve um acidente na rua Aubé, com três carros. Mas não tiraram os carros da pista, deixaram lá, ninguém ia nem vinha. Tive que dar a volta e ir lá por trás. – diz uma mulher

-Ah, mas ano que vem isso tudo vai mudar. Vão colocar elevado pra todo lado, duplicar. Ano que vem! – diz minha mãe citando ironicamente a propaganda política que vimos ontem no horário eleitoral.

– Ah, é mesmo! Ano que vem a cidade vai ter “elevado” o trânsito! Mas elevado não é nada, vai ter até túnel! O túnel foi demais! – diz um homem, citando a tal propaganda do candidato a prefeito.

– Túnel? Elevado? – pergunta a mulher que ficou presa no trânsito.

– É, é, não viu o horário eleitoral ontem? Disseram que vão fazer até túnel em Joinville! – responde o homem.

– Túnel em Joinville? Pra quê? Pra encher de água da enchente?! – pergunta a mulher.

 

Aí entra em cena outro personagem, quieto até o momento.

 

– Eu nem vejo horário eleitoral porque eu tenho TV a cabo. Aliás, esses canais todos aí, Globo, SBT, eu nunca assisto porque tenho TV a cabo.

 

E o silêncio domina.

 

Eu pergunto pra minha mãe: E tu não respondeu que também tem TV a cabo e que coloca no horário eleitoral porque vota e quer ver o que está acontecendo na campanha?!

 

Eu digo, meu povo, arrogância e ignorância andam de mãos dadas.

 

Sim, a ignorância do high society brasileiro é arrotar que não assiste Globo. E ignorância maior é fazer questão de dizer que não ouve no rádio (não sei se vocês sabem, mas tem propaganda no rádio também, tá?) e nem assiste na TV. Fazem questão de dizer. Sim, porque é aí que entra a arrogância.

 

Fiz meu título de elitor com dezesseis anos. Desde então talvez só não tenha votado em uma eleição para prefeito porque não estava na cidade. E assisto e ouço no rádio frequentemente os horários eleitorais (que, não sei se vocês sabem, mas não tem nada de gratuito).

 

Além de assistir comento em casa e onde eu bem entender sobre os candidatos e sobre os programas. Te incomoda? Problema teu.

Se paga de inteligente e blábláblá e ignora Política? Ou, ainda pior, se paga de revolucionariozinho-esquerdista-pseudo-mil-coisas mas não tem um argumento atualizado sobre Política? Taí, ignorância e arrogância em lua-de-mel.

 

Próximo post vai pensar um pouco mais sobre isso, sobre a falsa associação que se faz entre renda, nível social, educação, cor e outras cositas mais.

 

 

Atualizando a lista 2012

 

– Andei de avião – não enjoei, não tive medo, nem frescura. Viciei em tomar pepsi pela manhã. E a hora que o avião acelera tudo pra sair do chão é MUITO boa. Ah, peguei umas turbulências pesadas e achei divertido.

– Andei de trem no Rio. É, daqueles que já citei aqui. Sinistro. Central do Brasil rules.

– Andei de metrô \o/ – no Rio e em São Paulo. Em um dia eu já dava indicação para os outros. Virei fã do metrô em São Paulo, o do Rio é piada.

– Fiz uma tatuagem. ❤ Pois é, pasmem. E quero mais uma duas, pelo menos. Só preciso ter umc aso com um tatuador, porque os preços são mais altos do que eu imaginava.

– Fui ao nordeste brasileiro.

– Cheguei ao Delta do Parnaíba, e ao chegar no Porto das Barcas pensei “eu quero, eu posso, eu consigo” e ninguém no mundo vai entender o que isso significa pra mim.

– Comi tapioca e me apaixonei.

– Tomei sorvete de bacuri e love forever.

– Fui a lugares que eu não fazia idéia que existiam – e esses são ainda melhores.

– Fiz tomografia (essa não é inédita) com aplicação (na veia!) de contraste. No ineditismo não há só coisas boas.

– Perdi alguns dos amigos mais importantes da minha vida. E não foi para a irremediável morte.

– Tomei banho de mar em agosto. =)

– Fumei cachimbo e maconha. Já contei isso aqui? Ó, sem apologias: maconha não é bom, não dá nada e só vale pra quem quer parecer, confortavelmente, transgressor – e que de transgressor não tem nada.

 

Deve ter mais coisas, mas vou atualizando. A lista de coisas ruins também tem crescido no ineditismo. Coisas da vida. Agora provavelmente a lista dará uma parada brutal. Coisas da vida. Mas pra quem teve tanta novidade nos seis primeiros meses do ano, nada estranho uma calmaria por agora.

 

O que tem me tomado o pensamento é o fato de eu ter feito coisas que fazia muito tempo eu não fazia. E, por outro lado, ter pensado em fazer certas coisas que eu já prometi pra mim mesma que nunca mais faria. Felizmente, gente, por enquanto só no pensamento!

 

 

Os rótulos que me dão, a pregação e a veemência

 

Querem dizer que eu sou contra o casamento? Só porque acho errado assumirem casar por conveniência? Porque sou contra uma mulher largar estudo, emprego e tudo para seguir um cara? Porque eu acho o fim “se ajuntar” para economizar no aluguel? Porque acho de uma hipocrisia sem tamanho continuar casado quando ambos traem, sabem disso e inventam mil desculpas? Começaram a dizer que sou contra o casamento porque faço algumas críticas como essas aos “casais” que tenho visto por aí.

 

Então, se isso satisfaz às pessoas, anotem aí: sou contra casamento.

(de fato sempre achei as cerimônias bem chatas, as festas também, o cardápio é que poderia salvar algumas; e eu nunca disse que não casaria, isso é intriga)

 

Então anotem aí também que sou natureba. Afinal, moro perto da praia, ando de bicicleta, como frutas (ontem mesmo foi o cúmulo do naturebismo: goiaba à beira-mar), tenho flores e plantas na varanda, gosto e tenho animais (tem uma diferença, né, vejo um monte de gente aí que diz “amo animais! amo plantinhas! mas não sabe diferenciar um poodle de um bichon frisé nem um hortelã de um alecrim – e, claro, vive o mais longe possível disso tudo), sou chegada numa trilha e em ficar horas longe da civilização, sou contra construções e obras que destruam a natureza, acho o cúmulo a Ilha não cuidar dos seus parques, acendo insenso, etc..

 

Sou natureba, dizem. Só deixem de lado meus banhos de, no mínimo, meia hora. Esqueçam que eu sou consumista – sou bem menos que a maioria das pessoas, mas vou enganar quem dizendo que não sou? Ignorem que eu vou no Burguer King. Ah, nem reparem que eu tenho uma bolsa linda de couro de bezerro e mais umas de couro de boi. Façam de conta que eu sou a pessoa que mais economiza luz e água. E, então, me chamem do que quiserem.

 

Aliás, sou branca. Repararam? Sou branca, cor de leite. Até tento pegar uma corzinha para parecer saudável, mas sou daquelas curitibanas coxa branca mesmo. Então, porque sou branca sou isso e aquilo. Julguem aí. Tudo o que quiserem.

 

Sabe por quê? Porque as pessoas precisam rotular as outras – e, em alguns casos, a si mesmas.

 

Porque sou branca então as pessoas acham que já sabem tudo da minha vida! Ah, claro, dos meus pais e avós também. Sabe como os brancos faziam com os negros? “Ah, esse é negro, então é escravo.” Pois é, exatamente assim. É assim que hoje fazem, continuam fazendo, nunca deixaram de fazer, nem os brancos nem os negros.

 

Eu aprendi a aprender com os erros dos outros. Sempre levei mal aprender com os meus erros, então adquiri esta tática. Tem gente que prefere repetir os erros dos outros – depois de devidamente apontados e criticados!

 

Sabe o que eu aprendi com meus pais? Ninguém é uma coisa ou outra por causa da cor da pele, do sexo, das escolhas que faz ou pelo que critica ou elogia.

 

Não esqueçam que sou liberal também – esta é a mais antiga!

Não posso argumentar a favor ou contra alguma coisa simplesmente porque me parece o mais racional que já saíam me tachando de liberal. Exercer o pensamento bem fundamentado é coisa de liberal, pelo jeito.

 

Quem rotula é porque não consegue mais discutir. Ou nunca teve esta capacidade ou já, infelizmente, a perdeu.

 

Percebo um agravamento da situação. Vejo diariamente muitas pessoas criticarem quem é religioso (seja lá qual for a religião, alguns preferem ainda andar na moda do passado e só criticar os católicos). Criticam principalmente a cegueira na qual o crente vive, o excesso de pregação (passam do limite e incomodam os outros) e a tentativa, nesta pregação, de convencer os outros das suas idéias sem, contudo, apresentarem argumentos.

 

Pois estas pessoas têm agido da mesma forma que estes religiosos (vamos atentar para o fato de que nem todo religioso faz pregação, etc.): parecem cegos a proclamar suas verdades, entulham a vida alheia (pessoalmente e no mundo virtual) com textos e imagens e frases feitas que corroboram com suas posições e tentam enfaticamente te convencer das idéias deles – seja sobre homossexualidade, vegetarianismo, ateísmo, racismo, preconceitos sem fim, feminismo e polêmicas afú.

 

“Desconfio muito dos veementes. Via de regra, o sujeito que esbraveja está a um milímetro do erro e da obtusidade.” Para lembrar o sábio e ácido Nelson Rodrigues.

 

Vejo a veemência sendo gritada pos todos os cantos… e ao proferir alguma dúvida ou crítica a respeito dos discursos, levo chicotadas, rótulos e a ouço a ladainha (procurem quando o termo “ladainha” era usado, procurem e verão o que eu digo) ser repetida sem fim – e, também, sem novidade.

 

“Fique quieta (e nem escreva!), mulher branca de classe média brasileira da elite dominante heterossexual machista que estudou em escola privada (blergh! pra você) paga pelo pai e que não sabe o que é passar fome.”

 

Shhh! Essa gente tem bola de cristal também?

 

Se me deixarem escolher, na próxima, posso ser uma latinha de milho? Obrigada.

 

 

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