Too late ou tarde demais

Há um momento pelo qual já passei inúmeras vezes em todo os relacionamentos que tive. E acho que nem foram tantos assim. O momento em que ele deveria ligar. O momento que ele deveria vir com a conversa exata. Aquele momento que as palavras certas fariam toda diferença. Aquele momento de um pedido de desculpa. Ou de uma simples pergunta sincera. (sim, há perguntas sinceras, não somente respostas)

 

E esses momentos passam… todos eles sempre passaram. Quando ele ligou, quando ele veio conversar, quando brotaram as palavras certas, quando pediu desculpa ou quando perguntou com sinceridade já não era mais o momento. “O” momento, bem assim, destacado. De nada adiantou vir fora de hora.

 

A resposta que sempre me veio aos lábios foi “é tarde demais”. Mas antes de proferir essas três palavras tão cruéis, mentalmente sempre me ocorreu “too late”. Não sei o motivo, mas o “tarde demais” me parece realmente cruel enquanto o “too late” é todo carregado de tristeza, de melancolia e desamparo. E sempre me senti, nessas horas, longe da crueldade e mais próxima dos últimos. Lamentar não é um bom sentimento, mas não dá pra deixar de lamentar por alguém que, tarde demais, teve a coragem de fazer ou dizer o que deveria, o que precisava. Também, é claro, lamentava por mim… lamentava ter esperado tanto tempo por algo que veio, mas quando já não fazia mais sentido.

 

Poderia incluir na lista um desdenhoso “perdeu, playboy” (que tantas vezes ouvi de um memorável tutor), mas nenhum demorou tanto assim para receber o puro desdém.

 

Se parar para analisar, é bem fácil concluir que sou alguém que espera demais das pessoas. Alguém que idealiza a pessoa a quem ama. Sou mesmo. E quem não é? Eu idealizo, eu amo demais, eu sonho e espero demais (demais mesmo!) das pessoas. Tudo isso porque não imagino o amor de outro jeito. Se é pra idealizar, se é pra amar, se é pra pensar coisas boas de alguém, que seja pra valer. Que seja exagerado. A queda do lugar mais alto nem sempre é a mais dolorosa, posto que é mais longa, durante ela você amortece o encontro final com o chão. Quando a gente cai de lugares (expectativas) mais baixos a queda é curta e o contato com o chão é bem mais traumático. Se é pra cair, que seja bem do alto.

 

Já me propus inumeráveis vezes deixar de esperar demais das pessoas, para meu próprio bem. Não adianta. Vou continuar aqui esperando aquela mensagem, aquele telefonema, aquelas propostas, aquelas palavras, aquela conversa, aquela pergunta. Deixaria de ser eu se não fizesse assim e, de verdade, nem sei se saberia lidar com algo diferente. Eu espero. Porque ainda creio que além do período tão dedicado e deliciosamente interessante da conquista, há tantos (e tantos!) outros momentos verdadeiros e poderosos num relacionamento. Quando eles faltam, resta afastar-se. Quando eu cansar de esperar por aquelas palavras, ou quando elas vierem atrasadas, só restará um “too late”. Ou, para ser mais direta e compreensível, um “tarde demais”. A resposta a essa expressão é das coisas mais aterradoras que já vi na vida.

 

Como diz a canção, eu não me canso de esperar. E eu acredito nas coisas, porque nas pessoas já deixei de acreditar (pelo que eu me lembro). “Timing” é, por isso, fundamental. Não sei se ainda direi algum ou muitos “too late”, mas sei que ainda e sempre esperarei. Porque às vezes as mensagens, telefonemas, perguntas nunca vêm.

Joinville, o mirante, o descaso, os amores, o risco e as fugas. Escrevo porque posso.

Eu poderia passar sem essa. Não, eu não poderia. Não suporto sofrer auto-censura baseada em opiniões e julgamentos que os outros fazem a meu respeito. Já tive que ouvir até um “você não pode falar porque mora em Fpolis, não aqui”. Acho tão lindo que alguém saiba mais onde eu moro do que eu mesma. Nem eu sei onde eu “moro”. E aí me pergunto, então, se tenho endereço (rá! querem saber? eu tenho endereço em quatro cidades! então posso falar de todas, certo?!) em Fpolis não posso falar do Rio, nem de Mafra ou de Joinville? Pois bem, falo de onde eu bem entender. Falo quando eu penso que tenho algo a falar. Se os dignos “moradores” (muita gente só tem um endereço, tadinhas) de um lugar não sabem ser críticos acerca do seu entorno, entendam: o problema não é meu. Podem dizer que curitibano é bairrista, e somos mesmo! Digam, também, que o típico joinvilense tem características bem definidas e uma delas é você não poder criticar a cidade deles. Meu irmão era desses. Antes de qualquer consciência sobre o “típico joinvilense” eu já discutia horrores com ele (vê lá, não é a maior cidade do Estado, é só a mais populosa, a maior em território é Lages – nunca entendi porque os joinvilenses se agarram ao número populacional e ao título, enfim…), como volta e meia vejo a careta que minha mãe (nem tão típica, mas joinvilense) faz quando eu critico alguma coisa.

Quem me acusou de nem morar aqui foi a amiga virginiana que deixou de falar comigo por discussão política na última eleição. Ela defendia o candidato da igreja, vejam só, aquele que prometia meia dúzia de elevados e que nunca sequer fez uma proposta para o ridículo terminal de ônibus do centro. Essa amiga só anda de ônibus a vida toda dela aqui em Joinville. E eu perguntei pra ela: como tu pode votar em alguém assim? Ela teve que concordar! O terminal de ônibus (não só do centro, mas alguns dos bairros são, pelo menos, mais novos) do centro é a coisa mais ultrapassada que eu posso imaginar, desde que me entendo por gente é o mesmo! Trocaram o telhado ali faz alguns anos, mas não mudou nada! Esse é só um exemplo, não é o principal para hoje.

Sobre eu morar “aqui” ou “ali”, lhes digo que nos últimos dois anos, por motivos pessoais e avessos à minha vontade, tenho passado bastante tempo por aqui (sim, encontro-me faz alguns dias em Joinville). Nos anos anteriores estive mais afastada, mas sempre presente.

Sei que Carlito ganhou, novamente, destaque na imprensa por conta dos seus “últimos dias” como prefeito. Criticá-lo parece bater em cachorro morto, é verdade. Ele será para sempre, pra mim, o babaca que deixou retirarem as azáleas dos canteiros da JK. Sim, aquelas azáleas lindas, sempre floridas no inverno, barreira natural para pedestres afobados, que existiam lá desde que eu era criança. Foi ele também que deixou colocarem aquelas cercas dentro da rodoviária (esta abandonada desde a última reforma feita pelo Luiz Henrique) que não servem para nada. Foi durante o mandato dele que vi as ruas da cidade virarem mato.

Ontem tive que fugir de casa. Pois é, fugi mas tinha que voltar. Enfim, isso não vem ao caso. Saí andando rápido sem destino (por aqui posso andar de olhos fechados, como, aliás, eu fazia ao voltar da escola). Para onde ir quando se quer fugir de tudo e todos aqui? É difícil. Não tem praia. Tá, eu sei, tem. Mas eu não iria à pé até a Vigorelli ou ao Morro do Meio. Ah, sim! O zoobotânico! Lugar com mato, lago, bichos, pouca gente. Ou, quem sabe, o mirante? Para quem não sabe, sou apaixonada pelo mirante de Joinville. Claro, ninguém sabe disso. Mas, dizem, o mirante está interditado… desde quando? Desde sempre.

A missão era ir até o mirante. Na volta uma passada pelo zoobotânico (sempre me dá vontade de ir às segundas, coincidentemente, e nesse dia não abre). Eis que desacelero o passo ali pela Casa da Cultura, um dos lugares que mais tive o prazer de frequentar na vida. Me bate uma tristeza enorme toda vez que passo ali e a vejo fechada, abandonada. Ela foi interditada já faz algum tempo e nada de reabrir. Sigo e vejo mais movimento de pessoas do que eu gostaria. Lembro minha mãe dizendo que tomava banho ali naquela pequena barragem um pouco antes do zoobotânico. E eis a surpresa (ou não): pessoas chegando no portão do zôo e voltando. Alguém ali dizia o motivo de estar fechado. Eu nem ouvi, segui em frente. Já estava posto a tônica do governo Carlito: fechado. Foram escolas, Casa da Cultura, Museus, zoobotânico… tudo fechado por falta de manutenção, interditado, abandonado. Outro exemplo: o cemitério dos Imigrantes. Perdi a conta de quantas vezes fui lá e o portão fechado (apesar da placa com o “horário de funcionamento”), hoje pensei em ir lá, mas não sei se tenho vontade de dar com a cara no portão novamente. Ah, Museu Fritz Alt, que a maioria esmagadora do povo dessa cidade sequer conhece: fechado. A última vez que fui lá saí com o coração apertado. É um crime não conhecer. E está lá “em reforma” e abandonado. Mas se as pessoas nem conhecem, como poderiam condenar o abandono?!

Sigo e passo pela placa “perigo em obras” “acesso restrito”. Eu só paro diante de placas assim quando acompanhada por pessoas chatas, bundões em geral. Como, aliás, foi o caso da penúltima vez que estive no zoobotânico. Enfim, segui. A mudança foi drástica. O caminho que leva até o mirante era de terra na maior parte, até encontrar a antena lá em cima. Agora é toda ela iluminada (pelo menos há lâmpadas, desci já passava das 19h e não vi nenhuma acesa) e com paver na calçada e via. Ah, é uma “trilha” um pouco urbana no meio do mato. Minha alegria: não havia ninguém. Só perto de uma casa que tem ali havia dois meninos. E ela sobe, sobe… tão vazia que tirei a blusa ensopada de suor e segui só de sutiã em meio ao mato com vento refrescante.

Quando eu estava pensando em fazer isso novamente (tinha uma foto em mente para fazer), lá na última subida, quase chegando, vem um ciclista. Tiro uma foto aqui, outra ali e sigo. Lá em cima há o pedaço de uma placa onde se lê “perigo” e “acesso aos funcionários da obra”. Chego, o cara da bicicleta (ele tinha uma garrafa d´água!) faz a volta e desce, fotos para cá e para lá, relembro desde a primeira vez que lá estive e chega um carro. Um homem e uma mulher. Os dois de cara sobem no mirante. Penso cá com meus botões: eles são reforçados, espero aqui e vejo se vai cair, se não cair eu subo. E eu subo. Relembro cada vez que subi ali. Lá em cima aproveito um sol lindo, uma vista maravilhosa, vejo o quanto a cidade cresceu para a parte “de trás”, sim, o lugar mais lindo da cidade. Logo, mais um casalzinho, de carro. Depois eu desço e começo a me divertir. Sento ali no banco que pode cair a qualquer momento e resolvo observar as pessoas. Todo mundo sabe que tem bons e baratos motéis em Joinville. Mas uma fugidinha para um lugar êrmo deve fazer a cabeça das pessoas. Toda vez que vou para lá encontro os vestígios desses amores fugitivos. E dá-lhe chegar casal, dar uma volta, e ir embora. Já era lá pelas 18h, então o movimento tinha razão de aumentar. Além de observar as pessoas, reparei na sujeira que predomina, num portão ridículo que estava aberto sem impedir o acesso, em cercas de plástico há muito arrancadas, em grades que já não existem e oferecem risco real. Lá em cima, com um vento leste forte, reparei que o mirante mantinha-se firme – muito mais firme do que das últimas vezes. Ele resiste.

Logo chega um uno, um homem e umas cinco crianças pequenas (a maior não devia ter dez anos). Ele liga o som, toca Raul Seixas, abre uma cerveja (e eu me derretendo por um copo d´água!) e as crianças sobem e descem correndo, descem ali atrás do banco, sobem e correm por tudo. Ele nem aí. Pelo que entendi nem era o pai delas. Acende seu cigarro e fica ali, urina do lado de lá do carro. uma criança corre até onde não tem mais cerca de proteção e diz “se eu cair daqui será que eu morro?!” ao que uma um pouco maior forja empurrá-la. Ao observar tudo isso me lembrei daquelas grandes tragédias que a imprensa cobre de vez em quando. “Criança morre ao cair do mirante em Joinville” e aí viria todo o drama de um lugar da cidade supostamente em obras estar abandonado e gerando risco para as pessoas. Bem, quando subi no mirante tuitei: se eu morrer, não haverá indenização. Eu estava lá por minha conta e risco, ciente da situação. Como sou um tanto cética quanto ao mirante estar prestes a desabar (como disse, sempre ouvi isso), subi. E, também, ontem estava com a frase “quando eu morrer” desde quando acordei, ou seja, um tanto mórbida. Como poderiam responsabilizar alguma coisa ou alguém quando um babaca daqueles permite que crianças sob a sua responsabilidade façam o que não pode? Volta e meia é esse tipo de situação que gera as notícias dramáticas, mas aí só vale explorar a dor. Desse babaca só agradeço pela trilha, fazia tempo que eu não ouvia Raul e Maluco Beleza caiu como uma luva para o meu dia.

Nesse meio tempo cerca de cinco ou seis pessoas subiram até ali e desceram, pessoas que só estavam fazendo exercícios. Alguns carros e seus casais, duas motos. Logo chega um homem de carro alugado, tira foto daqui, dali e sobe. Eis que surge uma moto. O cara desce e me diz “Não pode ficar aqui, moça. É um perigo, tá tudo fechado, tem placa, não pode subir.”. Eu levanto para sair, né. Ele “Está sozinha, não é pra subir!”. Eu “Eu só estou aqui sentada, estou sozinha. Tem um cara lá em cima.”, ele “Ah, então desculpa, moça. Pode ficar. Só não pode subir. Só pode vir aqui pra fazer caminhada, subir é que não pode.”, eu “Mas eu passei lá embaixo e o cara não falou nada.”. Ali depois do zoobotânico há uma corda barrando a entrada de carros e uma guarita, onde havia um homem que não me impediu de subir.

Eis que ele chama o cara lá de cima, ele desce, diz que “não viu placa nenhuma” (aham…), só tirou fotos, pede desculpa. O guardinha da moto diz que o portão ali foi arrombado ontem (aham, sei…) e que não pode subir, que é um perigo, que está pra cair. O cara do carro vai embora, o guardinha sobe e chama o casalzinho que está lá. Aí chega um carro com placa de outro Estado cheio de gente e uma moto com dois. O guardinha desce e diz que não podem subir, que está interditado. Olha pra mim e diz que vai fechar o portão, eu levanto e vou saindo. Só ouço a voz alta dizer para os turistas “Não pode, não, pessoal. Está fechado. Vou fechar o portão, vocês precisam sair.”. Achei uma abordagem linda para turistas, né? Já passei por coisas semelhantes em certas cidades e é o que a gente sempre lembra ao associar o lugar. Quando eu estava ali perto da antena passou o carro, um ciclista e a moto. Logo o guardinha (que me esperou um pouco mais adiante), me senti escoltada.

Pouco tempo sobe um carro com mais um casal, e lá vem o guardinha atrás! Achei as cenas hilárias. Logo, desce o carro escoltado pelo guardinha. Na descida ainda encontrei dois maratonistas (uhuhu) e três adolescentes subindo. Nada mais do guardinha.

No final da rua pavimentada há uma placa onde constam os planos para o mirante “janela”, a pavimentação da via, etc.. Segundo a placa (sem data) a pavimentação estava concluída e as outras duas etapas em “fase de licitação”. Licitação eterna. Por que não começou pelo mirante, depois a pavimentação?! Eu nunca deixei de ir no mirante porque a rua era de barro. Aliás, havia alguma rua ali que dava acesso aos fundos da prefeitura, onde ela foi parar?

Na volta, sigo à pé pela beira-rio e me irrito com aquele asfalto jogado às pressas e sem nenhuma noção onde havia o belíssimo mosaico português. E dizer que teve quem elogiou aquilo ali! Carlito se resumiu, bem resumidamente, àquilo: pavimentação. Ou nem isso. Porque aquele cimento grosso, mal acabado e feio não é pavimentação. Eu caminho com certa frequência pela beira-rio. Então eu posso falar, certo? Aliás, ninguém tem idéia da minha revolta, durante a campanha para prefeito, quando tive que passar por ali e ver os caras arrancando e jogando fora o mosaico português enquanto o caminhão despejava o cimento. Por que não cimentam o Cachoeira duma vez?!

Por que não fecham tudo, duma vez?! O mirante não recebe sequer manutenção desde, no mínimo, o primeiro mandato do Luiz Henrique. Ele teve dois, mais um do Tebaldi e um do Carlito. Calculem o tempo. Antes disso minha memória política não alcança. Posso, sem orgulho mas com razão, dizer que sou mais joinvilense que muitos “daqui” que eu conheço. Não vou, por nada nem ninguém, fechar os olhos ao que eu vejo seja onde for. Porque, segundo dizem, até parece que eu não critico Fpolis, por exemplo. Não critico Curitiba. Vejam só, cheguei ao desparate de criticar o tão babado Rio de Janeiro! E, quando tenho os melhores motivos, me derreto em elogios…

Assumam o risco, subam ao mirante de Joinville. É inesquecível, lindíssimo. Você vê a Baía da Babitonga, a cidade toda, os morros. E quando subirem a Serra do Mar, numa determinada curva lá depois da Santa, olhem para traz e vejam uma pedacinho disso ali. É lindo. É, sim, emocionante. Não esperem que algum prefeito arrume o mirante, acho que infelizmente ele cai antes disso (e olha que acho bem difícil que ele caia tão cedo!).

Ineditismos, sobre signos e amizade

 

Eu havia prometido atualizar a lista dos ineditismos de 2012. Aí, passei dias pensando e reparei que tenho a tendência a só querer atualizá-la com as coisas boas (ok, a queimadura de água-viva e a picada de abelha não foram assim das dez mais). 2012 foi (está sendo, diz o calendário) um ano especialíssimo, delicioso (só eu sei o peso desse adjetivo pra mim) e eu não desejaria contaminá-lo com coisas ruins. Porém (ah! porém!), é óbvio que algumas coisas ruins (esperadas ou inesperadas) também deram as caras.

 

Posso começar dizendo que fiz mais tatuagens. Sim, a coisa vicia e passei meses apaixonada pela primeira tatuagem, até que fui lá e fiz… mais três! Ah, usei esmaltes Channel. Inclusive limpei banheiro usando esmalte Channel. Ele descascou todo, é claro, porque não é feito para quem limpa banheiro. Então não é pra mim, porque um dia posso estar lá de roupa de festa, no outro posso estar esfregando o chão. Nem esmaltes nem as pessoas conseguem acompanhar minha inconstância. Ah! Tomei banho de chuva completamente nua! Pelo que me lembre nunca havia feito isso… já tomei banho de chuva em inúmeras circunstâncias, e inclusive com quase nada de roupa, mas sem nada foi a primeira vez! Deixando de lado os ineditismos, fiz várias vezes algumas daquelas coisas que já prometi pra mim mesma nunca mais fazer… pois é, dar murro em ponta de faca é especialidade.

 

Infelizmente, devo dizer que perdi amigos este ano… e, sim, lamento muito isso. Para escrever sobre isso, vou falar de signos. Aí vem aquele que torce o nariz (sempre tem). Minha resposta definitiva: tem quem fala de futebol, tem quem é viciado em chiclete, tem aquele que comenta a novela das nove e tem quem fala da sua cólica. Eu aprecio as miudezas do zodíaco. Voltando… o perdi, ainda mais infelizmente, não se deveu à única coisa que não tem volta. Nenhum morreu, só sumiram da minha vida, com ou sem motivo.

 

Tenho uma paixão muito grande pelos virginianos. Adoro vê-los, perfeccionistas, perdidos com meu jeito meio louco de ser. E eles me amam (será que foi aí o problema?). Sério, meus amigos mais próximos são virginianos. Me dou muito bem com eles e sempre foi assim. Aí, este ano, por motivos diferentes, dois amigos virginianos me abandonaram. Um eu posso até dizer que sofri… o outro eu fiquei meio p da vida mesmo. Os motivos dos dois é que me desanimaram em relação a toda a humanidade. Então não posso ter amigo que tenha namorada?! Então não podemos conviver com nossas diferenças?!?! Sejam sexuais, religiosas, políticas?! O que posso dizer é que não esperava isso deles. Desses dois não.

Não gosto de dizer que fiquei triste. Mas realmente senti falta, uma baita falta, de um desses. E mesmo que ele me leia aqui não será nenhuma revelação porque eu disse isso com todas as letras… e fui ignorada.

Ah, ah! Anotem aí! Ineditismos de 2012, fui ignorada por amigo e rejeitada como mulher! Nunca tinha passado por isso! Aliás, experiências ótimas! Estou ainda aprendendo a lidar com elas porque realmente não gostei de me ver em tal situação. Mas coisas novas sempre me atraem. Mesmo as ruins.

 

Aí os leoninos me cansaram com o drama infinito de se fazerem de vítimas e me tratarem como criança. Os arianos se mostraram traiçoeiros (nenhuma novidade). E sempre pensei que tentei minha vida inteira entender os cancerianos… e nunca consegui. Aí hoje fiquei me perguntando se realmente tentei. Vale tentar de novo?! Diz lá o zodíaco que piscianos e cancerianos são perfeitos juntos, minha mãe sempre disse que eu era igualzinha a um canceriano. Será?! Será esse o problema? Ah, 2012 só confirmou também que adoro os geminianos! E começo a descobrir alguns novos signos do zodíaco, sagitarianos, escorpianos… ampliar horizontes é sempre bom!

Nunca pensei que me daria bem com sagitarianos. A vida é uma surpresa…

 

Perdi amizades que valiam muito pra mim. Mas ganhei algumas que não esquecerei jamais, mesmo que não sejam daquelas de conversar e se ver todo dia. Ah, e descobri uma baita amizade numa pisciana! Isso sim é novidade e tanto! Sempre tinha alguma coisa que não batia com as piscianas. Ah, e os piscianos?! Desde de que sejam curitibanos… mas, deixa pra lá! A seara é das mais indizíveis e até eu me calo em certas coisas!

 

Já contei que fui até a Parnaíba? Ao Delta? Que fui ao teatro municipal de São Paulo? Que fui ao MON, em Curitiba? Ah, sim, sim, que andei por Curitiba durante uma semana, completamente sozinha? Pois é, tantos anos na cara e eu não havia feito isso. Aliás, Curitiba é daquelas cidades deliciosas para andar à pé (ou de ônibus as distâncias mais longas), não recomendo carro de jeito nenhum! Alguns ineditismos realmente não posso contar aqui, mas garanto que já tem até sementes para 2013.

 

Nunca disse algo como “ex-amigo” ou “melhor amigo”, porque, de fato, amigo é amigo. Eu sou muito leal aos meus. Eu sou aquela amiga que faz tudo, se doa pra caramba. Aliás, a lista de coisas que fiz para esses dois virginianos que me abandonaram é enorme. Passei horas da minha vida ajudando, fazendo companhia, conversando, me desloquei daqui pra lá pra dar aquela mão na hora que me ligaram “pode me ajudar?”. Eu tenho isso… eu faço. E não cobro, não jogo na cara. Eu faço porque acho que amizade é isso. Não tenho muito isso de falar das minhas qualidades, mas um ineditismo desse ano foi receber alguns elogios. E é verdade, sou leal, sou companheira, sou daquelas para todas as horas. Por isso quando alguém me liga para ir a um velório, eu largo tudo e vou na hora. Nem que seja alcoolizada (viu só? ineditismos…), mas vou.

 

Aliás, para terminar, vou colocar em ordem a lista dos maiores elogios que já recebi na vida (a maioria deles foi esse ano). Em primeiro lugar, auto-suficiente (obrigada, meu irmão, por ter me dado isso aí, eu sei que querias me xingar, mas o efeito foi ao contrário e trago pra sempre!). Sim, gosto de ser auto-suficiente. Desde lá antes da adolescência peguei essa nóia de não depender de ninguém, de não esperar que me ajudem ou que façam as coisas. Ontem ainda a moral do dia foi: quem quer, faz. Em primeiro lugar, de honra, inteligente (minha mãe sempre disse: ela é muito inteligente. Eu sei que é elogio de mãe, mas vale.). Dois vieram de alguém que é melhor não citar, “otimista” e “anti-convencional”. Terceiro e segundo lugares. Sim, depois de tanta coisa na vida e de tanto ser chamada de pessimista (tentando me defender com o “sou realista”) alguém finalmente percebeu a grande mudança que se fez em mim este ano, sou uma otimista incorrigível! E nem vou perder meu tempo em dizer o quanto eu adorei o “anti-convencional”. Minha vontade, ao ouvir, foi de dizer: não tens idéia o quanto! Sim, poucas pessoas sabem o quanto eu sou realmente anti-convencional. Em muita coisa. E em quarto lugar, mais uma amiga (geminiana) que percebeu as grandes mudanças por aqui: prática. Aí a amiga leonina, ao lado, disse que não concordava. Claro que ela não concorda, é só mais uma leonina que se vitimiza e olha para mim como se eu tivesse dez anos. Sim, sou prática com muita coisa. Posso ainda ser a sonhadora romântica (já diz lá o nome…) incorrigível, mas a vida me ensinou a ser prática com tudo aquilo que preciso.

 

O que dizer de um ano que me trouxe tanta, mas tanta, coisa boa? Sobre as amizades, é claro que eu sinto falta, mas tenho certeza que eles estão perdendo muito mais do que eu. Não é todo dia que se encontra uma amiga assim. (ah, anotem aí, assumi uma certa arrogância esse ano também… foi necessário.) E tenho certeza que eles sabem que perderam uma amiga sem igual por motivos tão banais.

 

 

ex-atéia

 

Já vi muito ateu

Na hora H

Chorar por Deus

Eu mesma já fui atéia

Mudei de idéia

Assim era mais fácil

– o que é fácil eu passo

Esta ou aquela religião

Sem religião

Ou sem D(d)eus(es)

Ou com

Eu crer ou eu ter

O que te atinge

A minha fé?

Não consegui pensar em nada além de corredores de supermercados

Tenho essa fascinação em, de vez em quando, criar a expectativa de encontrar o amor da minha vida pelos corredores de um supermercado. Antes de ontem me senti assim.

Essas minhas fascinações, as paixões e tantos ões podem me fazer parecer uma pessoa incompreensível. Não só incompreensível porque fica feliz feito criança pequena ao encontrar milho cozido a R$1,50 no centro e poder vir caminhando para o apartamento, de chinelo, me sentindo um pouco em casa depois de mais uma semana sem explicações. As pessoas me olhavam (reparei que por aqui não usam chinelo) como se houvesse algo… de errado? Pois eu creio que há tudo de muito certo.

 

Minha vida é uma inexatidão que constrói caminhos tortuosos, vertiginosos, confusos.

 

E hoje tive mais um ponto culminante dessa inexatidão tão perfeita que eu amo. Eu não conseguiria descrever (ah, Merleau-Ponty!), eu não saberia transliterá-lo, de nada adiantaria citar fatos e frases em sequências. Eu sei porque eu acredito, e isso sempre me bastou.

 

Talvez eu quisesse alguém para ouvir meus sonhos, meus delírios (que não passam nem perto de Becky Bloom), alguém que não apenas me ouvisse, mas lesse meu olhar, meus gestos incontidos, minha euforia, ao falar sem nexo nem sentido sobre todas as impressões (ões, ões…) que me fazem acreditar e pensar como penso. Talvez a ventania absurda que ouço aqui do sétimo andar me tenha chamado para ir lá para fora, sentar num meio-fio qualquer e ter conversas intermináveis com gosto de paixão pura, sem pensar na hora, sem se preocupar com assaltos, enrolada numa jaqueta (ou seria japona?) tiritando de frio… Talvez. Mas não há ninguém para ir lá comigo, nem para me ouvir. Não lamento nem sofro por isso. Alguém que só me ouvisse como uma coisa a mais, ou alguém que acha que me ouvir faz parte do preço para ter sexo, ou alguém que do trabalho só saberia em pouco tempo falar em cansaço, esses alguéns não me interessam. Não quero mais muita coisa e sei bem o que me espera. Tenha dessas, de saber o futuro.

 

Por falar em sétimo andar, confirmei que não posso viver em apartamento (nunca gostei!). A louca pode cair da janela ao tentar fotografar a lua linda, como fiz ontem e antes de ontem, lá entre outros prédios porque é Primavera e no Inverno ela fica numa posição mais fácil e menos perigosa de fotografar.

 

Talvez eu fique aqui, podendo alongar minha madrugada depois de semanas tendo que acordar com horário, pensando que não estou lá fora aproveitando a ventania (mais uma paixão), a noite, o frio, uma conversa desregrada… Talvez eu aproveite mais umas horas de solidão como as que tanto me fizeram falta na última semana. Talvez eu escreva, já antevendo aquilo tudo que prometi.

 

2013 começou. Começou terno, descortinando os louros de longas batalhas. Já me apresentou as certezas que sempre tive porque, na verdade, nunca deixei de acreditar.

 

Sobre 2012 posso dizer que havia aí umas dezenas de coisas para completar na lista de ineditismo, porém, sinto que a maioria delas é impublicável. Umas por censura como a dos filmes adultos mesmo, outras porque, enfim, amo meus leitores, mas devo me preservar em algumas coisas.

 

Em 2013 vou completar a lista, além de ineditismo, completarei aquela lista das coisas que sempre busquei, que construí, e agora é a hora de investir no acabamento para poder me mudar de vez. É aquela mudança de alma que vai se completar.

 

Nem antes de ontem nem hoje encontrei o amor da minha vida pelos corredores dos supermercados. Por outro lado, tenho o prazer indescritível de reencontrar as minhas paixões todos os dias. Esse amor virá. Mas amores vêm e vão… as minhas paixões, o que eu sou permanecem.

 

Escrevo para dizer que não há como escrever o que foi esta semana, de onde ela, ao longo dos anos, se formou, de onde surgiram tantas pontas, detalhes, frestas que formaram o ponto culminante de hoje e de muita coisa que virá. Mesmo se eu tivesse alguém com quem ir ver a ventania, teria escrito. Porque já contei e recontei para as pessoas que me cercam e ainda assim preciso ficar tagarelando. A euforia me permite. Não verbalizar até aquilo que não é possível dizer é para os poderosos da síntese. Eu dispenso.

 

 

Thanksgiving Day

 

Eu sou e faço certas coisas que só em determinados momentos eu consigo nomear. Acontece com certa frequência, é um exercício de auto-conhecimento e auto-análise que desenvolvo consciente e inconscientemente há tempo. Sim, posso, de passagem, culpar algumas leituras dos livros de Psicologia de papai num momento crítico da minha vida. Independente dos culpados, fato é que para alguém solitária e tão introspectiva (vá lá, Jung) esta atitude parece corriqueira.

 

E eis que ontem, durante o banho de mar naquela praia deliciosa, no mar mais gostoso da Ilha, comecei a agradecer. Agradeci tudo o que tinha para agradecer deste último ano. Meu 2012 começou em novembro do ano passado, portanto, por agora (sou péssima com datas!) é meu “Ano Novo”. O que precisava acontecer, o que precisava mudar, tudo o que deveria acontecer, começou a acontecer lá por novembro de 2011, depois de um período confuso, difícil, doloroso. Claro, não foram só coisas ruins, mas o turbilhão não me deixou seguir o caminho que eu deveria fazer para mim. Passado. E o passado deve lá ficar. Esses dias ainda me dizia silenciosamente que sei muito bem passar por cima das coisas. E como sei! Pensei isso ao ver e ouvir pessoas se remoendo sobre coisas, sobre o passado, sobre sentimentos, sobre tanta coisa… passem por cima! A vida exige isso. Senão, seremos todos mal-amados, recalcados, chatos, intransigentes. Eu ali ouvindo e lendo o que me diziam e feliz, fazendo festinha em mim mesma, por conseguir passar por cima das coisas. Caso não fosse assim, meus queridos, eu não estaria aqui. Muita gente e muita coisa já teriam me derrubado. E, sinceramente, isso não é pra mim.

 

E eis que ali agradecendo e mal conseguindo listar tudo o que nestes doze meses eu queria agradecer consegui nomear mais uma coisa que sou. Ritualística. Sim, sou ritualística. Gosto de rituais, os faço com muita frequência para muitas coisas. E ontem ali, dentro d´água, olhando para os barcos, para o mar, para o morro, para a lua, para o sol, me descobri uma pessoa com fé que precisa de certos momentos, certas preces, rituais que signifiquem e resignifiquem a vida e tudo o que vem com ela. Fiz meu ritual de agradecimento – mas Thanksgiving é só hoje! – e senti como se dois terços de tudo tivesse ficado naquela água límpida e calma.

 

Sim, Thanksgiving é hoje. Mas, queridos, eu digo que sou péssima com datas! Agradeci tudo antecipadamente porque naquele momento e naquele lugar foi que senti. Sim, me deixo levar por tudo o que sinto, sem dó nem piedade, nem de mim nem de ninguém. Não resisto a nada – mais uma constatação das últimas semanas – e esta incapacidade me faz ainda mais feliz.

 

E ali tentando enumerar tudo o que eu tinha para agradecer, dentre a revolução que estes últimos meses foram na minha vida, entre coisas “boas” e “ruins” (sim, entre aspas porque considero tudo necessário, não penso que só coisas boas devem acontecer, sou o que sou tanto pelas boas quanto pelas ruins!), passou aquela vozinha “não vai pedir nada?”.

 

Não. Não peço nada. Nunca mais. Li, faz tempo, um texto que já até citei aqui, do Thomas More (meu querido!), em que ele dizia que não deveríamos pedir nada, apenas agradecer. Naquela época, num ano que teve um tantinho (ou muito!) deste último, eu me sentia assim, com tanta coisa por agradecer depois de ter passado meses rezando e pedindo. Eu pedia pelo grande salto, pela grande mudança que se fazia necessária na minha vida, e fui atendida. A partir de então, só cabe a mim fazer o que é preciso (foi isso que eu esqueci nos anos antes de 2012!) para que tudo aconteça. Por isso, tudo o que vier, eu agradeço. Não peço mais nada.

 

Sou ritualística, tenho fé, sou religiosa à minha maneira, acompanho horóscopo, leio tarot… quando me perguntam se acredito nisso ou naquilo, respondo com o verso de uma canção: acredito em tanta coisa que não vale nada!

 

No que creio pertence somente a mim.

 

Por isso, tenho tanto a agradecer neste Thanksgiving (sei que não é tradição brasileira, mas por motivos culturais e familiares ela foi introduzida nas nossas comemorações, vejam só, antes de eu nascer! Se copiamos tanta coisa de outros países, por que não uma tão boa?). Espero que quem me lê também tenha, independente de crenças, religiões ou qualquer coisa.

 

O texto do More que eu citei é “Diálogo Sobre o Conforto Espiritual e a Atribulação”. Não vou dizer “recomendo”. Porque, sinceramente, às pessoas de pouca ou nenhuma fé eu não recomendaria e acho chato e pedante recomendar livros. Eu sei onde eu li este livro, quando. Tenho essa péssima mania de associar músicas e livros a lugares, épocas da minha vida. Até hoje sei exatamente onde e quando li os mais marcantes e importantes para mim. Lembro de cada detalhe daquela tarde em que comecei a ler Cem Anos de Solidão, sem entender nada das primeiras páginas e resolvi dormir para voltar a ele no começo da noite, já desanimada, e devorá-lo madrugada adentro. Sei até qual era a disposição dos móveis daquele quarto. Rituais. E uma memória às vezes bem sacana. So não vou colocar citações aqui porque, enfim, é mais chato e pedante e nem sempre eu faço anotações nos textos (caso deste do More).

 

Dia de agradecer, de saber que o Tempo (este amigo!) e o Destino (este velhinho safado!) são cúmplices, de ter a certeza de não correr porque tudo está no seu lugar.

 

 

coração vazio

 

Dos amigos

O qual sempre levo comigo

É o Tempo

 

atinge e consola

o coração vazio.

 

Vazio tropeça

Erra mais

Se engana

Se desfaz em palavras encantadoras

e se vê só naquela noite, o vinho, a outra taça vazia

 

coração vazio

não sofre, sente falta

até da dor.

finge-se louco, fugidio

finge mil

 

Logo este coração

que tão difícil se apaixona

quase nunca se entrega [quase?]

coração dramaturgo

cria e recria

reescreve seus personagens

e estórias

 

coração vazio

sente por demais

não ter nada para sentir.

 

não lamenta

nem pede para reviver

as histórias do passado…

não vive do passado

não vive do presente – vazio

Vive o que virá.

 

coração vazio

acredita como quem não acredita

nas ilusões passageiras do Chico

aprecia em demasia as brisas primeiras

 

coração vazio

só encontra a cama

à meia-luz

 

coração vazio

aprecia malas feitas

e desfeitas

aprecia idas e vindas

 

coração vazio

arisco te evita

evita aquele, aquela conversa

aquelas fotografias

aquele lugar

aquela cidade

aquele olhar

 

coração vazio

até queria

querer-te bem, querer-te mais

e não sabe encontrar

meios pelos quais

possa disso falar

 

coração vazio

não revira o lixo

não procura quem cala

se esconde de quem se insinua

foge, vazio

se tranca, diz que é demais pra si

volta aos livros

aos personagens

 

e sente falta até de sofrer.

 

coração vazio

discute mais

investe em banalidades

pede atenção naquelas horas

em que tudo passa mais devagar

 

coração vazio

anseia por sentir…

deseja desejar.

E não se encontra

não se vê em nada, em ninguém

 

coração vazio

olha para os lados

lê poesias

ouve canções

suspira

 

coração vazio

erra tanto

tropeça tanto

ignora tanto

tanto quanto

o caminho

para a tranquilidade

que o Tempo

lhe ensinou.

 

Não, hoje não.

 

Houve um tempo que os dias eram anotados ali no começo do caderno, todos os dias, na aula. Cidade, estado, dia, mês, ano. Ainda hoje anoto a data em cada dia de aula. Sempre houve o tempo em que os dias não importavam. Nunca me pergunte em que dia estamos, eu nunca sei. Não sei o dia, confundo o mês, não tenho idéia do dia da semana.

 

Porque há dias que num instante mudam a vida para sempre. E não estou falando dessas bobagens do dia do casamento quando você assina um contrato ou diz sim para um padre ou do dia na balada que pela primeira vez seus olhos se cruzaram. Falo de instantes que num golpe do Destino (sempre ele, o personagem ilustre que resolveu dar sua cara no ineditismo deste ano), alheios à toda e qualquer vontade ou ação sua, mudam tudo, sem volta, sem chance.

 

E aquele instante (é difícil lembrar a hora exata nesses casos) será lembrado ad nauseum pelo resto da sua vida, por você, pelo calendário, pelas pessoas a sua volta…

 

Pois eu não quero. Não quero lembrar que dia é hoje.

 

Houve um tempo em que era um arrastar-se sofrido e masoquista necessário a cada eterno retorno. Depois a superficialidade de um pensamento “evolutivo” me fez superar o masoquismo e quase dar uma resposta às datas tão marcantes e dolorosas. Não adiantou. Porém, já tive eternos retornos menos piores.

 

Eu não vivo datas. Esqueço fácil delas. Mas sempre terá uma anotação de aula, um amigo, um calendário a me lembrar. Não quero lembrar que dia é hoje, nem que dia foi há um mês, nem que dia será amanhã e depois de amanhã… Nem aqueles dias de aniversário… nem pensar em signos.

 

Não quero.

 

“Pois qualquer sofrimento Passa mas o ter sofrido não”

 

Como só Belchior me entende, fica aqui o registro de uma percepção tão rara e exata. O “ter sofrido” é a data, o fato, a marca. O “sofrimento passa”, você envelhece, cresce, ama mais ou menos, se decepciona, reaprende tanta coisa, pára e pensa “como seria hoje, depois de tanto tempo?”, se perde nos cálculos sem saber se foi em 2006 ou 2007 e por mais que de vez em quando alguém te diga que foi num desses dois, você volta a esquecer.

 

Talvez eu tenha levado muito a sério a idéia de viver o “hoje”, nunca lembro que dia será amanhã. Mas quando o hoje é um hoje que o Destino marcou a ferro, não me sinto na obrigação de reviver cada “ter sofrido”. Não sou obrigada, porém… ah! porém! Porém, queridos, quem controla isso?

 

Por isso digo: não, hoje não. Hoje não para nada. Hoje não para conversas, hoje não para telefonemas, hoje não para companhia, hoje não para ninguém.

 

Dias borbulhantes, com novas idéias, sonhos saindo da gaveta, caminhos dissertativos mais claros e amplos, salas escuras de cinema tão convidativas e aconchegantes para uma alma inquieta, efervescência de conhecimento que faz meus dias como gosto… só me falta alguém interessante. E inteligente, claro. Mas… deixa pra lá.

 

E entre dias tão (mas tão) interessantes, importantes e excitantes lá vem o calendário falar por si coisas que só o coração sabe. Não, hoje não.

 

 

Pra você que só reclama: há dor e delícia

 

Não é novidade alguma para ninguém que gosto muito de Florianópolis.

Vim pra cá praticamente sem conhecer a cidade, com uma mala com roupas e uma caixa com livros. Dezoito anos na cara, matriculada em duas graduações e sozinha. Não me faltou coragem, não me assustaram nem a solidão nem as responsabilidades e decisões. O pouco que eu conhecia da Ilha tinham deixado uma impressão forte de quando menina: a beleza natural. E, bem, já um pouco mais velha, eu pensava que se num lugar tão lindo (isso só do pouco que eu conhecia) ainda havia a oportunidade daquilo tudo que na época eu sonhava e traçava meu destino, melhor ainda.

Também não é novidade alguma que eu gosto muito de praia, talvez pelo costume de frequentá-la desde antes de fazer um ano, talvez pela alma que se encontra à beira-mar. Gosto da natureza, de cachoeiras, de morros altos com vistas lindas, do meio do mato, de árvores e flores. Isso sempre foi assim, me sentia criada no meio do mato quando abria a janela do quarto e via a goiabeira e um pé de fruta do conde, lá embaixo as galinhas e patos livres pelo quintal. Vivi sempre num mundinho a parte, com meus brinquedos e as histórias e personagens que eu criava. O elo com a realidade era a mãe, sempre por ali, e que tem papel definitivo em quase tudo o que sou, e em muita coisa que gosto, como esse apreço pela natureza.

Bicho do mato como me sinto, não nego ter nascido onde nasci e sempre gostei de cidade com opções. Naquela época eu olhava para a Ilha e via isso, um deleite natural com cara de cidade grande. E aí, me senti em “casa”. Eu sei, não sou só uma e não vivo em um só lugar. Por isso vivo para lá e para cá, com aqueles meses sagrados no meu reduto (que de cidade grande não tem nada).

Eis que estava na Ilha sem ter sido ela nunca um objetivo em si, sonhada ou idealizada. Mas ali estava e ali eu vivia. Viver, no sentido mais doce e amplo. Soube aproveitar tudo o que ela me oferecia. Quantas vezes, ao chegar no CFH e ter uma notícia de falta de professor não olhei para as amigas e disse: vamos pra praia? Quantas vezes num dia de folga de aula ou faltando aula não subi um morro desses aqui em volta? Quantas vezes não fui ensandecida a um bazar de shopping fazer compras como se não houvesse amanhã? Foi tudo e foi muito.

Não sou daqui e nem me sinto de lugar nenhum. Posso, amanhã, ir para qualquer lugar. Ainda não fui porque me sinto contrariada em sair de onde gosto tanto e de estar nas proximidades de quem é importante pra mim. Afinal, a BR 101 é aqui ao lado. Sei que é bom ampliar horizontes e blábláblá. Nunca me neguei a isso. Nem me nego. Mas ao chegar aqui tão sem planos concretos, hoje vejo traçados para o futuro coisas das quais não posso fugir pelo traçado que já vivi até agora. E assim se faz.

Tudo isso convive conscientemente comigo. Nas últimas semanas, certos eventos fizeram tudo ficar à flor da pele. Já conheci algumas características da Ilha e de quem vive aqui. Já escrevi sobre isso inúmeras vezes. Sei que é impossível impedir o crescimento, mas acredito possível impedir muitas das suas nefastas consequências. Sei que sempre pareço saudosista. Não acho, porém, que seja o caso.

Há uma canção da Shakira que diz que para falar de dois é melhor começar por si mesmo. E acredito que para poder falar sobre qualquer coisa, preciso dizer de onde estou falando (coisas que a academia fazem você perceber ainda mais) e por isso começo sempre por dizer quem escreve aqui, de onde, por quais olhos.

Meu discurso representa aquilo que eu estou o tempo todo formando como “eu”. Não nego isso e prefiro deixar bem claro.

Fazia algum tempo que não explorava uma determinada região do Campeche. Sabia que numa rua havia acesso para uma trilha, como há tantas pela Ilha. Resolvi, naquele dia, ir até lá. Quanto tempo havia passado? Uns três anos, provavelmente. Mas sou frequentadora da região e fui direto por onde eu achava (resquícios da memória, obviamente) que era a entrada para a tal trilha. Eis que logo na estrada de uma rua comecei a reparar nas mudanças. Mudanças drásticas. Há, agora, pelo menos mais cinco novas “servidões” (nada mais característico da urbanidade da Ilha) ali atrás da tal rua que eu conhecia. O mix indescrítivel que é a população e os tipos de moradia da Ilha (um dia aquele documentário sai do papel) tinham ali um belo exemplo – certo, não tão belo assim. Ao mesmo tempo que sempre me fascinei por essa multi-qualquer-coisa que são os moradores da Ilha e suas habitações, sempre fiquei horrorizada. Ali naquelas servidões há um novo condomínio fechado com casas de alto padrão com suas piscinas, sem muros nem cercas, as casas de metragem razoável com carro simples na garagem e terreno padrão, as velhas casinhas que parecem existir desde que a Ilha é Ilha, um puxadinhos pra lá e pra cá que pelo número de portas diz que o aluguel ali come solto, aquela casinha de madeira caindo aos pedaços com um sedã caríssimo na garagem, as inúmeras e intermináveis casas em construção… Um churrasco pra cá, um cachorro pra lá, um fogão a lenha ali, um som alto de carro acolá. Diante de mim estava o melhor exemplo do que é a Ilha. Há bairros com características predominantes, mas essa mistureba é a cara da Ilha. Como toda cidade, tem seus bairros “ricos” e os “pobres”, mas estes convivem numa babel econômica bastante peculiar por aqui.

Como viajante da Ilha, já encontrei um tipo bem específico que é aquela pessoa que constrói sua casa ao lado do paraíso (uma praia, um morro, o início de uma trilha) e desrespeitosamente coloca cachorros, cercas ou qualquer outra coisa para impedir o acesso dos outros ao que é de todos. Esse tipinho é o que mais me irrita. E neste dia me irritou muito, quase desisti de tudo e resolvi voltar para casa. Porém, caso eu tivesse feito isso, teria voltado com uma péssima sensação e seria mais uma a olhar a Ilha pelo ângulo tão desfavorável ao qual é tão fácil recorrer nessas horas por quem mora aqui.

Entrei em uma servidão, perguntei na penúltima casa, a mulher disse que achava que era ali o acesso à trilha, senão seria na rua detrás. Na última casa desta rua, uma casa que a melhor descrição que me ocorre é “improvisada”, dois cachorros enormes dominavam a área que pensavam ser deles, o cara lá na casa fez de conta que não me viu e eu voltei. Voltei bufando. O cara não tem o direito de jogar sua casa onde bem entender, fazer que aquilo é dele e ignorar quem deseja ter acesso ao que não é dele. Fui até a rua de trás, subi um morro, tentei achar a trilha e nada. Um morador da última casa desta rua me observava. Nessas horas os moradores daqui não são tão queridos. Voltei, vi uma mulher na casa desse observador e perguntei sobre a tal trilha. “Ah, não é nessa rua. Pega a principal e entra na próxima.” Pois bem, ou ela queria me dispensar de vez (o que acontece muito nesses casos) ou a minha memória realmente tinha dado uns pulinhos. Eu lembrava de toda aquela entrada da rua principal, exceto pelas novas servidões. Voltei, segui, entrei na outra e, sim, era lá. Eu havia errado (e minha memória me alertou que da outra vez eu também tinha errado) a entrada. Subi, subi, subi, lavei e sequei a alma, lamentei o mato alegre com o calor que fez no nosso inverno e que me tirava uma parte da vista, tive aquele momento que só eu sei o que é e voltei.

 

Nos últimos meses tenho acompanhado a campanha política para prefeito. Não só de Florianópolis, mas de Joinville e de outras cidades. Um dia, em casa na Ilha, ouço a propaganda do Cesar Souza Jr falando sobre as liberações em excesso para construção de imóveis na Ilha. Esse é um lema da campanha dele desde o começo. Achei um risco grande tocar nisso, mas ao mesmo tempo um trunfo. Este é um grande problema da Ilha, é verdade. Mas a nata da cidade administra a construção civil (Político posicionar-se contra a elite? Nem Lula fez isso… o perigo é grande demais e não garante votos.) e o povo quer morar em Florianópolis, é imagem, é demonstrar poder, posição, sei lá o quê. Aí quem se posiciona contra a ocupação desenfreada é tachado de saudosista, atrasado, mané. Fiquei pensando se o Cesar faria uma placa com a famigerada frase “fora haole” e colocaria nas pontes. Porque é disso que acusam quando se tenta abordar o problema. As pessoas, no geral, não percebem que construir um prédio como aqueles ao lado do Paula Ramos, na Trindade, é um atentado ao que já está tão ruim. O cara reclama do trânsito parado, mas só usa o seu carro (e como 90% das pessoas nessa cidade, anda sozinho no seu carro). A pessoa olha para um prédio e não entende que cada apartamento daquele vai ter entre duas a quatro pessoas, que essas pessoas vão andar nas ruas, vão ter carros (a maioria dos prédios por ali tem pelo menos duas vagas na garagem), vão precisar de serviços na região, etc.. O problema por aqui é realmente grave. Porém, se você critica as cidades do entorno que são “dormitório” e não absorvem a mão-de-obra dos seus habitantes, levando à exaustão as pontes e a região central (aquela pessoa que mora em Palhoça e vem todo dia trabalhar num shopping qualquer) você é preconceituosa e sabe-se lá mais o quê.

 

Fiquei curiosa pela declaração do Cesar Jr., mas achei ainda mais curioso quando ele, num programa na TV, disse que a cidade não aguentava mais elevados. Segundo ele, a gestão anterior havia construído elevados pela cidade e não havia resolvido o problema do trânsito, havia, inclusive, piorado a situação. Cesar Jr. é candidato pelo PSD, mesmo partido de Kennedy Nunes, candidato de Joinville. E aí eu lembrei da questão do “horizonte” que citei ali acima.

 

Kennedy Nunes tem por principal promessa de campanha a construção de seis elevados e um túnel em Joinville. Como toda cidade brasileira de médio e grande porte, Joinville hoje também só sabe reclamar do trânsito. (Parênteses necessário: o “trânsito”, ou “mobilidade” que acham mais bonito chamar, é um problema nacional. É sabido o incentivo para a compra de automóveis, a isenção de impostos, o crédito fácil e o consequente endividamento da população para que, num ideal golpe de mestre, o governo não entre na crise mundial e possa dizer aos quatro ventos que aqui, agora, a população não é mais pobre e compra, compra, compra, tem acesso a tudo e mais um pouco. Um golpe de mestre, sim, senhores presidentes, que joga para o indivíduo, com a querida intervenção federal, mais problemas – endividamento, trânsito, poluição, doenças – e nenhuma crítica.) Eis que pensei, então, que Florianópolis, anos atrás com a maior frota proporcional do país quis solucionar o tal “problema do trânsito” e construiu suas dúzias de elevados. Em pouco tempo, agora aquela solução politiqueira e de aparências tornou-se um problema maior ainda porque em nenhum momento tocaram na raíz do problema – e ganharam a colaboração de grego do governo federal. Joinville, com o candidato do mesmo partido de Cesar Jr, deveria ter este alerta da experiência. Florianópolis, que é mais desenvolvida que Joinville (alguns joinvilenses me odeiam por declarações assim), enfrenta problemas por ter sido ludibriada com as soluções de fachada, e Joinville segue o mesmo caminho. Não cobro a previsão, mas daqui poucos anos estaremos ouvindo em Joinville a mesma ladainha do “novo”, da “mudança” que a cidade precisa com este ou aquele candidato que vai finalmente resolver o problema do trânsito em Joinville, coisa que o prefeito anterior não conseguiu e só gastou dinheiro em obras faraônicas.

 

Tenho profundo desprezo pelos que “passam” pela Ilha. Aqueles que vêm morar aqui porque foi onde encontraram as oportunidades que não tiveram nas suas terras e só sabem explorar (no pior sentido) e criticar muito a cidade. Essa babaquice de “Beverly Hills catarinense” só demonstra isso. Por que a chacota? Todas as cidades têm todo tipo de gente, não é só aqui que encontraremos idiotas que fazem declarações idiotas. Não é só aqui que há pessoas com muito dinheiro e pouca coisa na cabeça. E sabe o que as páginas do Facebook de Diário de Classe, Beverly Hills catarinense e afins demonstra? Uma outra característica forte do povo de Florianópolis: a vocação por seguir modismos rasos. Sai qualquer bobagem, lá estão todos achando lindo. Quem se ancora aqui e fica só dizendo o quão desprezível a cidade é, a mentalidade das pessoas, merece, sim, um “fora haole”. Volta pra onde veio e vê se lá vão te dar a vaga na universidade que você queria, o emprego que você precisa. Difícil?

Não dou crédito ao discurso “ah, mas acha que é fácil largar tudo”. Não é fácil. Eu não gostava de morar em Joinville, não via minha vida lá, e só eu sei o que passei para resolver isso. Vire-se, eu diria. Agora, quem vem com o discurso, ao morar poucos meses em Florianópolis, de que aqui não é paraíso nenhum, que a cidade é elitizada, excludente, que tudo aqui é ruim, que é só propaganda a tal “ilha da magia”, precisa sair da Trindade, abrir os olhos de verdade, pegar umas dúzias de ônibus, estudar algumas coisas e pensar antes de falar. Acho bem simples. Se, mesmo assim, continuar na rabungentice, saiba que as pontes ainda estão abertas, pra quem chega e pra quem sai.

 

Quem gosta de verdade de alguém ou alguma coisa aprende a ver seus defeitos. E, melhor ainda, se preocupa com eles, tenta fazer alguma coisa. Seja aqui, em Joinville ou onde for. Uma amiga ainda me disse “Bom saber que o Campeche ainda resiste.”, infelizmente não sei se posso dizer que o Campeche, ou a Ilha, estejam resistindo. Não sei dizer se Joinville com suas tão mais frequentes enchentes (com exceção de umas três citações durante a campanha, foi o tema mais grave e mais esquecido) está resistindo, seja ao avanço ou aos péssimos políticos. Ou, ainda, à própria ignorância de suas populações.

 

Sei que Florianópolis não é nenhuma perfeição. Nunca chamei-a de “ilha da magia” ou “floripa” porque discordo do que vem embutido nisso. Me preocupo muito com os problemas que me parecem os mais graves da cidade. Mas sei olhar aquilo que é bom, sei aproveitá-la e não deixo de criticar. Eu poderia ter voltado pra casa quando tropecei nos malditos moradores com seus cachorros. (E, só para constar, há um caminho dali até onde eu queria sem precisar ir para a outra rua, pude constatar isso lá numa das curvas do morro, onde começa a trilha que vai para a casa das servidões, mas os moradores devem achar que é acesso “particular”.) Mas, não, eu insisti e fui lá ver, ouvir e sentir o que eu precisava, com vistas maravilhosas, silêncio, paz e alma lavada. Eu poderia ter ficado com medo e não ter pegado aquela mala e aquela caixa com livros para vir pra cá. Reclamar e desistir são cânceres da alma, meus queridos.

 

 

Frascos de perfume quase vazios…

E eis que os astros mandam que eu hiberne e eu aceito com todo gosto.

Porque eu sofro, eu me descabelo, eu escondo o que sinto, eu me enclausuro na casa da mãe até ter coragem de encarar o mundo, eu passo as noites com imagens audiovisuais, estórias e vinho. E eu sei que pra tudo há um tempo, há o momento de cair, tentar se agarrar a qualquer coisa que pareça ao alcance e… deixar passar. Chegar ao fundo, respirar e resolver subir de volta.

Não deixo, entretanto, de me divertir, de rir de mim, de analisar bastante até saber que era pra ser como foi. Tudo é assim. Errar é não ter coragem de tomar atitudes. E eu as tomo com todas as possibilidades que elas trazem.

Aproveito a hibernação ao me ver livre, leve e solta. Feliz. Busco uma coisa aqui, outra ali, vou pra lá, pra cá… porque sei que é a hora de não se prender, de não sofrer, de sorrir pro Tempo que me promete tudo, e mais um pouco.

Certas coisas que por uns dias me desinteressaram completamente me reapaixonam sem dó. Porque paixão tem que ser assim, imediata, dolorida, rápida.

Hoje à beira-mar, sentindo a areia gostosa roçando meus pés e pernas, lendo um texto um tanto fraco, mas com relevância eu percebi que minha pesquisa tem uma fragilidade. E isso me deixou alegre e entusiasmada. Sinal de que eu percebi isso a tempo, sinal que há um desafio ali. Melhor eu ter percebido isso do que outra pessoa (até porque o mundo está cheio de gente querendo sacanear, né?), melhor agora do que tarde demais.

E o sol… ah! o sol! Queimando a pele… como senti falta disso! Não quero mais dias que exijam blusas de lã! Quero sandálias, chinelos, vestidos… a leveza, a pouca roupa…

Domínio de si é uma coisa que vem e vai. Ainda mais para alguém tão (mas tão) passional. É preciso saber aproveitar cada um dos momentos.

Nunca me amedrontei diante do fracasso, nem dos fins, nem do frio da alma, nem de muita coisa.

Não me amedronta, agora, retomar as rédeas da minha vida e das minhas loucuras. Nem dos frascos quase vazios de perfume. Certas coisas são como um perfume que você adora, quando chega bem no fim você pára de usar só pra deixar ali, poder olhar todo dia pra ele e saber que você ainda o tem, mas na verdade não pode mais usá-lo. Se usar as duas últimas gotas ele vai acabar. Se não usar, ele acaba do mesmo jeito mas você tem uma desculpa pra mantê-lo ali. Chega uma hora que é preciso usar as duas gotas e jogá-lo fora, ou guardá-lo, com as duas gotas, mas longe da vista. Como uma lembrança de batizado qualquer.

Tenho vários frascos de perfume… alguns vazios joguei fora, outros guardei com suas últimas gotas numa caixa qualquer. Daquelas que você, num dia qualquer, abre e nem lembra o que tinha dentro.

É preciso saber, além de viver, entender as metáforas e acreditar nos astros.

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