O que eu sinto não importa a ninguém

 

Tem certas coisas sobre as quais eu não queria ter que pensar, muito menos dizer ou escrever. Sentir, então, nem de longe.

Enfim, como eu disse esses dias, o que eu sinto não importa a ninguém. Assim, simples.

As pessoas me cobram tantas coisas, me dizem como se sentem, me fazem perguntas… e eu tenho que aguentar calada que agindo assim elas só deixam claro que nem passa pela cabeça delas perder tempo com as minhas perguntas, com as minhas dúvidas, com os meus sentimentos.

 

Será porque eu sou forte? Porque eu escondo o que realmente sinto? Se sou forte, não sou por acaso. Se escondo o que sinto de verdade, não é uma mera característica pisciana. Tenho (muitos) motivos para isso. “a vida me fez assim”.

Eu não vou, nunca, substituir ninguém. Isso eu já sei… e mesmo assim me desdobro em ser mais do que deveria ser, só porque eu sei que certas pessoas fazem muita falta na vida de algumas pessoas que eu amo.

 

Sabe o que eu sinto? Que sou invisível. Na escuridão da BR, tocando alguma coisa brega no mp3, lágrimas silenciosas escorriam sem dó nem piedade diante desta constatação: as pessoas não me vêem. Eles partem da arrogância deles de que me “conhecem” e que, por isso, não precisam me “olhar” porque já sabem quem eu sou, como eu sou, o que eu penso e sinto. Não percebem que a mudança é mais eu do que qualquer outra característica. E aí se alguém que não me “conhece” me chama de otimista, os que me “conhecem” riem do descabido. Sim, já fui pessimista, já fui realista. Não sou mais. Simples assim. E quem me conheceu quando eu era essa ou aquela não me vê hoje.

 

E tudo que eu faço nada adianta. Então não reclamem da minha solidão, pois só ela me basta. Não reclamem dos e-mails não respondidos e dos telefonemas não atendidos. Vou ignorar aqueles que me ignoram. Não para fazê-los me “perceberem”, só porque eu canso. Eu canso de tentar mostrar, em gestos e palavras, tudo aquilo que não se dão conta. E olha que eu eu tento. Tento tanto… mas aprendi, com o cansaço, a dar fim às tentativas inúteis.

 

Enquanto olharem através de mim, é isso o que terão. Também sou boa com a indiferença. E, lembrem, eu mudo, sempre. Ou às vezes.

 

E eu não quero saber das suas dores, tenho cá as minhas. Tenho cá minhas saudades e minhas faltas. Tenho cá minhas lamentações. Convivo todos os dias, a todo instante, até dormindo, com elas. Levo-as para a praia, para a estrada, para o banho. E ninguém tem a menor idéia da existência delas. Não tenho mais nem amigos para ouví-las. Sim, lamento muito não ter mais nem um outro que antes ainda se importavam e tinham tempo para me ouvir. Nem meu anjinho mais pode me ouvir. E a solidão sempre me acompanhou. Amiga mais amiga que esta, impossível.

Já tentei ser tudo, hoje não quero nada.

 

 

Verdades verdadeiras: o verdadeiro final feliz é a esperança.

 

Poderia ter ficado com peso na consciência – de fato não fiquei porque este tipo de lamúria não me atrai. Mas troquei voluntariamente e sem muita frescura um filme brasileiro por um argentino. Fato, também, é que tenho ao longo dos anos tido mais alegrias com os argentinos. Dos fatos não há como fugir, apesar de tanto dizerem por aí os historiadores obscuros que não há “fato”.

Qual brasileiro foi preterido? “À Beira do Caminho”, cuja atração foi tão somente o fato de ter músicas do Roberto Carlos. Para me ganhar é preciso me atrair em tudo, não só nisso ou naquilo. Então fui de drama argentino.

Todo drama argentino tem pitada cômica ou é impressão minha? O cinema argentino conta com excelentes roteiristas, o que não é nem de longe o caso brasileiro. Se a direção argentina tem um excesso aqui outro ali, é perdoada porque arrisca e as produções, em geral, cometem seus pecados porque não fazem cinema estrondoso – o que é excelente.

Eis que depois de ter duas aulas bem boas mas uma das mais desanimadoras de todos os tempos, antes de recomeçar os trabalhos, passei no Burguer King e comprei uma torta de chocolate (daquelas de derreter na boca, como eu adoro). Já tinha dado uma olhada nos filmes em cartaz, minha curiosidade se deteve em “O Dedo”. Porém, o horário dele não era conveniente. Restava o brasileiro. Mas, ao chegar lá (com um pouco de dificuldade, sim, eu me perco em shoppings) eis que havia um argentino em cartaz. Pergunto pra moça “e aí, o argentino é drama?” (“O Dedo” era comédia, mas as comédias argentinas nem sempre ganham meu coração). Ela lê e relê um papel e diz que sim. Então, beleza, esse aí mesmo.

Era sexta-feira, mas não havia nem dez pessoas na sala, aí já amei.

Eu não sabia nada da “história” do filme. O que, aliás, eu também adoro. Já de cara percebi que era mais um filme argentino da época da ditadura (da deles, bem entendido). Aí pensei: pô, mais um.

Sim, mais um. Um filme com direito a flashback, a protagonista ser a mesma em três ou quatro épocas diferentes e só mudar o corte e a cor do cabelo, sem cenas de conflito, dramalhão assumido.

E é aqui que eu me detenho. Assumir. Você só consegue assumir aquilo que é (sejam pessoas ou obras) quando você sabe o que você (ou aquilo) realmente é. Este é o princípio. Filmes que nem sabem “o que” são, não conseguem se assumir.

“Verdades Verdadeiras, A Vida de Estela” é daqueles filmes que sabem o que são, dizem a que vieram e não precisam de mais nada. Se eu tivesse lido a sinopse antes, provavelmente não teria ido assistir. Parece o tipo de filme para malas acadêmicos. Não me preocupei com o aspecto “histórico” do filme (nem seria daqueles a sair dali fazendo referência à abertura dos arquivos da ditadura e blábláblá), nem com a relação com a história do Brasil, nem com a questão política. Aliás, nem o filme se preocupa com isso. Ele se detém no drama de uma mãe/avó, esta, aliás, se esquiva da política desde o começo. Os jovens bobos, inocentes e protótipos de heróis é que discutem política, escrevem jornaizinhos e acham que estão “lutando”. A dor, ah! a dor, resta aos pais. Pode ser uma visão mortificadora de toda uma resistência aos regimes totalitários, à violência, à perda de direitos. Porém, esta é a essência do drama. Ninguém lê os livros de Jane Austen (ou assiste aos filmes) e se detém nas questões morais da época que ditam atitudes, isso passa longe, o que resiste é o drama.

O drama não exige análises mais profundas sobre contexto, conjunturas (palavra cara aos historiadores), política, filosofia, nem nada.

E é aí que eu quase cheguei às lágrimas (é difícil me fazer chorar, mas mais fácil chorar com um filme do que na vida real) ao ver o reencontro do filho com o pai.

Há um elemento agoniante no filme: a reconstrução da memória, empreendida pelos familiares e pessoas próximas, os depoimentos e objetos coletados para o filho/neto que é buscado. Em vários momentos do filme vemos a gravação de depoimentos de pessoas que contam como era o pai/mãe desaparecido (morto, provavelmente), narram momentos de alegria passados, contam os últimos momentos de uma relação que acabou logo no início. Este é o trabalho do escritório criado pelas avós, cada criança (nascida nas prisões argentinas durante a ditadura) cujo desaparecimento é acusado, recebe uma caixa com seu nome e onde estas fitas e objetos são depositados. A caixa fica ali, guardada, crescendo, até que a pessoa seja encontrada. O único caso que vemos uma caixa desta ser entregue ao seu “dono” é o do filho do gordo. Há uma supressão do sentido daquilo quando o rapaz (um homem, praticamente) abre a caixa e encontra uma roupa de bebê e uma chupeta. Sua mãe foi levada quando estava grávida. Aquela caixa constitui-se em valor e cheia de sentido para os que a fizeram – o pai e os outros que ali se encontram – mas parece distante do filho encontrado.

Assim são as nossas lembranças. Sejam aquelas que guardamos em caixas pelos nossos “escritórios das avós” ou nas nossas cabeças. Elas só fazem sentido para nós. É a mesma sensação quando, numa conversa, citamos uma lembrança de um fato ou de alguém e a outra pessoa nos olha como se dissesse “é?”. A lembrança dela nunca será a mesma que a nossa. Ou ainda quando alguém encontra esta nossa caixa de lembranças – comum acontecer quando o dono da caixa falece e as pessoas próximas são obrigadas a mexer nas coisas dela – e vê cartões, bilhetes, flores secas, um isso, um aquilo e não vê, ali, uma vida inteira.

E talvez, também, assim seja o filme. Um caixa de lembranças vívidas da Argentina, que para muitos (argentinos inclusive) não faz sentido.

Ousaria dizer que é a história de uma família, como a minha, a sua. As atuações podem claudicar de vez em quando, o texto não é nenhuma obra prima, o roteiro pode ser um pouco piegas ali ou aqui (como na metáfora do pior flashback da mãe procurando a filha quando criança). Mas é um drama que se assume.

Ele deixa a maior lição (inclusive para o cinema, ou principalmente para este) para o final: o verdadeiro final feliz é a esperança. Porque a esperança não é concreta. Estela não encontra seu neto, dos 500 desaparecidos apenas 107 encontraram. “Por enquanto”, palavras do filme.

Não vou me deter demais, mas obviamente lembrei dos russos. Este é um final russo por excelência. Finais felizes com beijinho dos protagonistas num cenário lindo é só para a ficção que nem sabe a que veio.

O filme, ao que parece, está em cartaz no Floripa Shopping. Só procurar.

 

 

Rio de Janeiro: breves considerações antes da despedida

Últimas horas no Rio de Janeiro. Breves considerações:

– a cidade é MUITO suja, infelizmente.

– a partir de umas 17h brotam da terra vendedores ambulantes de comida e impedem os pedestres de andarem nas calçadas, realmente muito ruim.

– as mulheres se vestem pessimamente mal, aliás, umas, se andassem peladas feririam menos os olhos alheios.

– é realmente muito no sense aqueles meiões por cima de legging.

– há um índice elevado de beleza masculina; porém, desconfie dos homens “atenciosos” por aqui, alguns são só isso mesmo, outros…

– o povo não sabe dar informação; e não é má vontade, é porque desconhecem mesmo.

– o metrô é uma piada.

– tem sempre muita gente e muito barulho pra todos os lados.

– tem MUITO ônibus nas ruas.

– Avenida Nossa Senhora de Copacabana: dúzias de Banco do Brasil, Lojas Americanas, lojas de coisas do Paraguay, Mc Donald´s.

– o trânsito me lembrou o de Ciudad del Este.

– a parte histórica é linda, mas a belle époque passou e ela se ressente de não ser mais a capital do país; enfim, parece decadente.

– ela é hostil com os pedestres.

– o Cristo fica mais bonito na TV.

– andar de trem da SuperVia me deu a sensação de estar em Auschwitz.

– as favelas, muitas delas, ficam realmente “escondidas” pelos prédios.

– acho muito estranha esta postura de voltar as costas uns para os outros; isso é latente.

– as pessoas andam olhando de soslaio para os lados.

– o carioca diz “hoje tá bem melhor!” e eu me perguntei o que seria o “muito pior”. :/

– carioca tem uma semelhança com o gaúcho: tudo deles é o melhor.

– os preços são elevados e a exploração aumentou com a vinda de Olimpíada e Copa; é um velho erro brasileiro, e você não vê nada à venda porque os preços estão nas alturas.

– por falar em Copa e Olimpíadas: a cidade não tem condições de recebê-las.

– as tais estátuas à beira-mar em Copacabana são bregas.

– assustadoras as ruelas e ruas que são fechadas a grade.

– a cidade fede. Simples assim. Há um cheiro forte de urina pela cidade toda (até de dentro dos ônibus e estabelecimentos dá pra sentir) e fezes humanas pelas calçadas. Nojento.

– a abordagem “não pode fotografar aqui, moça”. Como é? Não pode nem fotografar monumento em uma praça?!

– livrarias e sebos caríssimos (sim, eles têm preciosidades, mas incompráveis).

– o morro da Urca é mais baixo do que parece.

– o acesso a alguns pontos é bastante difícil, e mais difícil ainda é conseguir informações.

– a sensação de desorganização é grande: vide os trens na Central do Brasil.

– frases como “mas rico não gosta de pobre” e semelhantes, com um sotaque bem carioca, são facilmente ouvidas pelas ruas.

– as estações de trem e as passarelas das mesmas estão em condições péssimas; não parece nem ser possível reformar.

– a imagem de trem superlotado, sem portas, com pessoas penduradas, realmente existe.

– nunca conte com os trens da Central do Brasil; entrar e sair em uns três antes de seguir viagem é normal.

– muitos ambientes públicos (como estações de tem e metrô) têm música ambiente; fora um Leonardo aqui ou Paula Fernandes acolá, é algo bastante agradável e interessante.

– última moda: bolsa redonda Tommy Hilfinger falsificada (algumas já desbotadas).

– a proibição de manifestação religiosa nos trens é excelente; poderiam proibir venda de chocolates e jornais também.

– achei engraçado numa verdureira em plena 1º de março: “pinhão do sul”.

– nunca ouvi tantas DRs nas ruas em tão pouco tempo (“ah, amor, tu olhou fixo, virou o pescoço e quer dizer que não foi nada?” e segue).

– assustadores os avisos nos elevadores: 1. contra a prostituição infantil (que é crime e deve ser denunciado) e 2. uma lei de 2003 contra o racismo e discriminação de negar acesso para negros e deficientes.

 

Enfim, não parece uma cidade dividida em duas (zona Sul e Norte) até porque toda cidade tem sua zona “sul” e sua zona “norte. Parece uma cidade que não quer olhar para si. Isto, além de triste, justifica a guerra que existe.

Tenho ouvido demais o coração?

 

Pensando em, depois de tanto tempo, escrever…

Sei que deveria narrar longos posts sobre minhas últimas viagens, atualizar a lista de coisas que eu nunca havia feito e que 2012 exigiu de mim (afinal, como já dito aqui algumas vezes, o ineditismo bateu à porta), escrever um anúncio de jornal e tantas mais coisas.

 

O que me impede de escrever isso tudo? Nada. Não é a falta de tempo (para tudo há tempo nessa vida), nem nenhuma outra desculpa fácil. Não gosto de desculpas, já disse em algum outro momento.

 

Talvez me impeçam os pensamentos… ando tão ligada a eles. Esses dias ainda, em São Paulo, sozinha no quarto de hotel altas horas da noite lendo uma revista “feminina”, numa reportagem sobre morar sozinha avisavam para você não se tornar anti-social neste processo.

 

Eu me achava anti-social antes mesmo de morar sozinha (lá se vão muitos anos…). Será que piorei de vez isso? Será que nem para escrever para o blog, para quem me lê, me sinto sociável?

 

Será?

 

Ou as mudanças aqui por dentro, os pensamentos (ah! os meus pensamentos!), têm me mantido tão ocupada? Sei que escrevo aqui muitas coisas que penso, mas, no momento, não queiram saber quais são meus pensamentos. Não mesmo.

 

E, no fim, talvez eu continue a mesma de sempre.

 

Porque às vezes eu preciso pegar o caminho errado só para saber o que o certo tem de diferente. Ou eu tenho ouvido demais o coração? Talvez eu tenha esse péssimo costume de fazer o que sei que não devo para poder sentir o gostinho da transgressão. E não sei porque não tenho sofrido. A falta de sofrimento, a falta de preocupação com o que há de vir, as ausências, nada disso tem me surpreendido. Isso sim parece muito estranho.

 

Tenho deixado tudo a cargo do destino. E ele tem se saído muito bem, no tempo dele (que não parece igual ao meu), porém ainda não alcançou meu coração. Ando difícil até para ele.

 

Quem sabe…

 

 

O anti-herói Schmidt, a hipocrisia, eu e o “sempre”

 

Resolvi dar uma parada na vida fenética dos últimos meses. Bem, não resolvi, o corpo e a mente resolveram por mim e não conseguiram sair da cama como programado hoje.

 

E motivos não me faltam para tanto. Não faltam para continuar no ritmo frenético, nem para parar tudo e tirar umas horas de folga.

Eis que pela manhã estava trocando de canal e encontrei um filme que eu já havia começado a assistir. O engraçado é que ele estava passando bem no momento onde eu o havia largado das outras vezes. Pensei cá com meus botões que, enfim, eu deveria assisti-lo, pois foram muitas as vezes que ele me apareceu na frente. Acredito em sinais.

 

Talvez o filme não tenha nada de mais. Talvez até tenha alguns pequenos problemas de produção e de elenco. Jack Nicholson e Kathy Bates tiram de letra, mas o resto deixa a desejar. Talvez ele tenha uma visão exagerada do grotesco e caia no riso (constrangido) sem graça.

Talvez não.

 

Ao longo do filme eu não sabia se simpatizava ou trocava de canal. Parecia bobo demais. Era cansativo acompanhar o protagonista nas suas horas de solidão.

 

E lá pelo final eu percebi que tudo isso era intencional. Na sequência do casamento eu pude perceber tudo. O discurso do personagem do Jack Nicholson encerra um pensamento perfeito: casamento é a mais pura hipocrisia.

E, claro, adepta que sou de idéias anti-conjugais, vi a genialidade do filme.

 

Esses dias ainda pensava na questão: acho lindo quem resolve viver junto a vida inteira, que leva isso a sério, admiro mesmo e acredito quando elas professam isso. Só não entendo.

Porque, pra mim, a palavra sempre só pode se referir ao passado, nunca ao futuro. De um modo geral, para não criar confusão, a palava “sempre” e seu significado ficam fora do meu vocabulário. Assim é menos constrangedor, menos desagradável ao ser confrontado com o seu próprio discurso. E há tantas pessoas nessa babação de análise do discurso…

 

Ao descobrir que o seu casamento, que parecia perfeito – como todos, enfim, parecem -, era uma farsa, Schmidt se vê frente a frente com a hipocrisia que é o casamento dos outros e o eminente casamento da própria filha. “About Schmidt” é, então, um filme que remexe de leve – não com precisão como o colchão de água do futuro genro – com o pensamento nobre e vazio, atualizando que é sempre mais importante fazer o difícil do que cair no óbvio.

 

Além de fracasso e fracassado, o personagem não acredita que fez alguma diferença. Tudo seguia sua hipocrisia e sua obviedade. A filha casou, ele não impediu isso. Mas aquele menino lá longe era a diferença, era o além, era fugir ao óbvio do sogro que sustenta um casal fracassado. E ele só encontra isso num desenho óbvio (minha mãe adivinhou o que estava desenhado antes de aparecer a imagem) e clichê. Será que também na obviedade pode estar uma alegria?

 

Quem casa deve acreditar nisso.

 

Nicholson faz o anti-herói que não cede aos desejos da futura sogra da filha numa banheira de hidromassagem, o anti-herói que, por mais que o espectador espere, não faz um discurso inflamado contra o ridículo casamento com convidados ridículos aos quais a filha está se submetendo (talvez ela mesma já seja como eles). Ele volta para a casa, onde já não estão mais as coisas da esposa infiel, onde agora ele já consegue dar conta de arrumar e limpar, é mais sincero nas cartas ao menino que ajuda financeiramente em outro continente, mesmo sabendo que o menino nem o lê.

Ele foge ao óbvio que permeou seus 42 anos de casado. Sua solidão lhe parece mais interessante. Para o filme também.

 

É preciso aceitar a hipocrisia nas nossas casas, nas nossas vidas. Senão, fica quase impossível viver. Quase. É muito mais difícil encará-la sem o véu da hipocrisia. Talvez eu tenha algum problema e não consiga conviver plenamente com ela. Talvez me seja difícil conviver plenamente com qualquer coisa, com qualquer sentimento. Viver confortável só se for muito hipócrita. Eu dispenso.

 

Ainda pretendo voltar aos posts sobre as coisas inéditas que tenho feito este ano, e nelas vou encontrar a hipocrisia forjando seus caminhos.

 

Confesso que abri mão, este ano, de repetir coisas que já fiz no passado. Então, ao que parece, o ano tornou-se realmente inédito: tenho feito coisas que nunca fiz e tenho deixado de fazer coisas que já fiz. Não arruinarei nenhum lar por desejos bobos, não poderei dizer que nunca usei drogas… Só não consigo deixar de ser meio Schmidt e prefiro fugir do caminho do óbvio, como quase “sempre”.

 

 

Fui ao FAÇA e só me restou um delicioso “Ballet das Coisas”, de Bruna Granucci

Já faz um tempo eu, por motivos diversos, estive no FAÇA – Festival Audiovisual Catarinense (qualquer semelhança com o “Catavídeo” não é só mera impressão), na sua edição em Fpolis.

A primeira impressão que eu tive do evento foi “mais um festival”. Mas o que parecia ser o “lado bom” é que seria em três cidades catarinenses: Lages, Blumenau e Florianópolis – o que, de certa forma, poderia ser positivo porque finalmente descentralizariam este tipo de evento. Só não entendi, num primeiro momento, o fato da escolha das cidades e por que Joinville não estaria na lista – afinal, por lá não há curso de Cinema, como nas outras, mas ainda é uma grande cidade e teve, nos últimos anos, produções de destaque.

Enfim, em se tratando de audiovisual catarinense, a primeira impressão provavelmente será uma furada. Nada é tão inocente e puro como poderá parecer.

Eis que fui num dia assistir a todos do primeiro horário e depois alguns do segundo horário. Foi a primeira vez que eu pisei no “novo” CIC que, aliás, de novo não tem quase nada. Aviso aos navegantes: a entrada pela rua da Penitenciária não está aberta e é preciso dar uma volta linda para entrar pela frente. Lá dentro não há nenhum bar ou restaurante (vulgo lugar que venda qualquer coisa de comida ou bebida) e no dia nem água tinha. No “velho” CIC havia bebedouro e um cafézinho fuleiro para pseudo-intelectuais, mas que se você fosse emendar uma sessão na outra dava pra rolar um refrigerante e um salgado qualquer para enganar. Porém, não há nada disso atualmente. Já começou mal a noite, pois eu havia saído da aula direto para lá e a fome atacou, obviamente. O lugar mais próximo, segundo o atendente, é o Angeloni. Sem comentários.

Os banheiros realmente foram reformados. Estão maiores. O que me deixou curiosa foram as tampas dos sanitários, velhas, quebradas, sujas pelo tempo. Fiquei me perguntando se com uma obra tão grande e onerosa faltou dinheiro para comprá-las. Enfim…

Comprovado que as paredes do cinema são claras (oh, God!), sentei-me para assistir aos curtas.

Pensei se deveria colocar em ordem, um por um, ou se escreveria só sobre os que gostei ou que, por outros motivos, haviam me despertado a atenção. Enfim, falar de todos talvez seja desnecessário.

O único que me fez, ainda depois de tanto tempo, escrever este post foi o lindíssimo “Ballet das Coisas”, de Bruna Granucci. Dos outros, um comentário aqui, outro acolá, de todos, definitivamente, não tenho o que dizer.

“Ballet das Coisas” tem tudo o que um curta-metragem precisa, e é de encher os olhos. Uma decupagem em nada excessiva, uma trama simples e poética e atuações perfeitas para o mundo audiovisual.

A história é uma fantasia, e nem por isso afasta os críticos mais realistas. Afinal, meus queridos, o cinema é fantástico desde sua origem. Não vou me deter a pormenores da “história”, mas posso resumir que é o amor de uma boneca (ao belo estilo espanhola) pelo garçom do restaurante em frente ao antiquário onde ela mora.

Alguns detalhes fazem deste curta uma jóia rara, principalmente entre os seus concorrentes da noite. E por “detalhe” já começo minha crítica. Num curta metragem, plano detalhe só pode ser usado quando extremamente essencial para o drama. Excesso de planos detalhe sufocam a narrativa e as imagens perdem-se na paciência do espectador. Aliás, pretendo aqui deixar este e outro ponto bem claros – pois nesta noite os curtas que eu assisti me fizeram lembrar dessas questões. Plano detalhe tem um poder dramático, nunca deve ser usado num curta para “matar tempo”, como é, por sinal, usado por filmes longa-metragem (é muito fácil perceber num longa o excesso de planos detalhe para cumprir com um determinado tempo, alguns, inclusive, poderiam ser apenas média metragem). Ele precisa significar (e aí, queridos diretores, vão lá procurar os teóricos, aqui é só o meu blog, não dou aulas). Outra coisa que não é em especial para curtas é uma pontuação sobre a direção de Arte. Muitos filmes pecam pela direção de Arte que acha que é só escolher objetos, figurinos e cores e estar de plantão ali para colocar os objetos certos nos lugares certos em determinada cena. Não é assim. E, novamente, quem precisa saber que é mais que isso deve voltar às salas de aula.

Os objetos de cena, os figurinos, tudo o que compõe a imagem precisa ser estudado a partir de uma escolha de Arte, por isso “direção de Arte”. Quais as influências? Quais cores serão usadas? Quais linhas? Qual a concepção de “tempo” sobre o cenário, os personagens, os figurinos? Infelizmente muito ainda se erra nos filmes (principalmente brasileiros, em destaque os que gostam de uma imagem “retrô-saudosista”). Toda a concepção de Arte precisa ser pensada e arquitetada (aqui já deixo o gancho para um próximo post sobre storyboard, plantas baixa, etc.), planejada, levando-se em conta o roteiro, a construção dos personagens, a intenção dramática. Não é no dia da gravação que se escolhe qual carro será de tal personagem. Para quem não trabalha com cinema, nunca estudou, este tipo de coisa parece não fazer sentido, mas quem é da área deve(ria) entender do que eu estou falando.

Vou usar como exemplo oposto o curta “Qual queijo você quer?”, de Cíntia Bittar, exibido naquela mesma noite. Sobre os dois pontos acima, este curta vai na contra-mão. Ele tem excessivos planos detalhes (às vezes, uma obsessão do diretor/diretora) que, se pretendem servir para alguma coisa, é só para tentar ambientar ou “decorar” o cenário. Vejam bem, o cenário estará presente nas imagens dramáticas para compô-las, não é, necessariamente, um personagem. Transformar cada planos, cada elemento do cenário, em personagem é esvaziar a dramaticidade do enredo. Num curta, não há “tempo” para isso. No caso deste curta, o casal de idosos está em uma sala de TV cercado por um excesso (no sentido de exagero da Produção) de objetos que, juntos, deveriam compor uma longa trajetória a dois. A câmera desfila por vários e vários desses objetos para que eles se tornem personagens do drama ali representado. Contudo, é justo aí que se escancaram alguns problemas de uma direção de Arte, no mínimo, fraca. Vejam o detalhe da Bíblia. Obviamente, este e outros objetos passam pela cabeça de qualquer um que tem/teve avó. Contudo, a Bíblia ali presente é nova. Nova! Sem nenhuma marca de uso! E, detalhe ainda mais importante, ela é de um tipo gráfico bastante recente – eu ganhei uma igual a ela na minha primeira comunhão, cerca de catorze anos atrás, e, notem, a minha tem muito mais marca de uso (e nem sou assim fervorosa) do que a cenográfica. As Bíblias das minhas avós e a dos meus pais são em muito diferentes daquela ali. Pode parecer um detalhe bobo, mas aquilo ali gerou um desconforto em mim. O que, do drama do casal, já tinha me passado a forte impressão de um casal de idosos sendo retratado sob a ótica de uma pessoa jovem diante de um conflito contemporâneo, ali se confirmou. Pareceu um túnel do tempo para o futuro, “como eu me veria daqui a cinquenta anos”. Ao pecar pelo excesso de objetos de cena, o drama perdeu-se em objetividade e conexão temporal. Muitos objetos além da Bíblia cabem na mesma crítica. E da parte do drama, em nada me convenceu como uma história de velhinhos de hoje, mas sim de uma projeção futurística. Aliás, o enredo é bastante pobre pois cultiva o espectador levando-o pela mão e já antevendo quais as próximas falas e ações (muito poucas, por sinal). Clautrofobicamente ambientado em um único cenário (só nos créditos aparece a cozinha), ele perde em dramaticidade (e ganha em economia de gastos e tempo) e se ampara no uso excessivo de planos detalhe para tentar passar algo que seria muito mais “visível” se o apartamento do casal fosse acompanhando o diálogo. Os próprios atores parecem atados (ela teatral em excesso para a tela do cinema, ele intimidado pela atuação esbravejante dela) e precisam apelar também para os objetos além das falas simples e óbvias. O título, por si só, já praticamente conta a história toda. A atriz, que não me recordo o nome, fez recentemente uma ponta numa novela da Globo, numa cena (não acompanho a novela então não sei dizer mais nada sobre o papel dela) em que fazia a mãe de um noivo (havia a Carolina Ferraz em cena). Ali ela consegue ser atriz para a tela pequena, para o audiovisual, sem os excessos dramáticos do palco.

Vale ressaltar um incômodo sobre o curta “Qual queijo você quer?” que eu senti e já ouvi de várias pessoas: o acúmulo de “títulos” e “prêmios” que aparecem elencados antes do curta mesmo começar. São várias as participações e premiações, porém parece que a cada uma dessas são incluídas as nomeações numa nova edição. O que incomoda o público é, citando literalmente alguns comentários que li e ouvi, “se todos esses jurados e públicos elegeram este curta como o melhor, você também deverá gostar”. O “deverá” ali cabe como uma ordem. A sensação para quem vai assistir pela primeira vez é de desconforto, pois ninguém deve me dizer que pela trajetória que ele tem, eu sou obrigada a gostar. Como aqueles filmes que a gente pega na locadora e na capa do DVD vem “palma de outro disso”, “oscar daquilo”. E é por isso que é um excelente filme? É por isso que sou obrigada a gostar dele?

A planificação atenciosa e as escolhas de Arte zelosas fazem de “Ballet das Coisas” um curta fluido, cativante. A câmera não precisa ficar passeando pelo cenário para dar detalhes – nem dramáticos, nem de ambientação – e explicar nada. O “uso” dos objetos falam por si só, a quantidade também. A própria escolha da locação já consegue dirigir adequadamente o drama. Senti-me num pequeno vilarejo do mediterrâneo sem nem ter visto imagens externas ou tido qualquer indicação. O espectador entra na fantasia e consegue acompanhá-la sem esforço e sem ser guiado passo-a-passo. Um elogio à parte para o busto de gesso, personagem excelente e digno, suicida contundente. O movimento das coisas (seu “ballet”) não é óbvio, ao mesmo tempo que o amor da boneca pelo garçom o é. Nem a breve repetição de algumas frases alcançam a monotonia. O “tempo” dos objetos e do velhinho é próprio. Notável também a participação mais do que especial do pequeno gatinho laranja. A presença dele soa tão natural quanto espntânea e cheguei a duvidar de que estivesse no roteiro.

De certa forma, “Ballet das Coisas” prescindia de uma direção de Arte cuidadosa e especial. Contudo, nenhuma obra audiovisual pode abrir mão disso. Seja de qual gênero for. Tomemos como exemplo outro curta da noite (e um dos premiados), o “Vide Verso”, de Cristian de Ciancio. Mesmo se atendo a um cenário simples (exigência dramática) e com um enredo que prevê este espaço, a direção de Arte não cometeu nem excessos nem faltas. Os elementos esseciais para um drama tenso estão ali, o espectador facilmente identifica tudo o que precisa para construir o personagem. Não há nada além do drama e do personagem. O rádio (como produção sonora) é peça fundamental para ambientar (muito mais do que qualquer objeto de cena) a história. Reparem que no casal de idosos no apartamento nós nem temos a referência da TV, muito menos do áudio. Em “Vide Verso”, você não cai na desatenção porque os elementos de composição te prendem enquanto dramaticamente “nada acontece”, além, é claro, do suspense sobre o envelope. O crescente é uma opção de direção que nem sempre funciona, mas que ali é (auxiliado com maestria pela elaboração artística de um elemento essencial: o quebra-cabeças) angustiante e no tempo certo.

Caberiam alguns breves comentários sobre o “Babás”, de Consuelo Lins; “Sentidos”, de Samuel Moreira e Richard Maus e “Das Ocupações Instantâneas”, de La Osnofa.

O primeiro segue os melhores padrões do documentário brasileiro e acredito que é um deleite para os historiadores. O segundo é uma tentativa de dar vistas a quem não vê, mas sinceramente me senti muito desconfortável com um discurso construído previamente e recheado de referências visuais – o que me pareceu muito estranho. O terceiro é um ensaio visual e sonoro despreocupado, mas que captou alguns instantes belos (sonoramente e visualmente) abrindo mão de qualquer narrativa e nos mostrando a presença de uma câmera insuspeita. Não sei quem fez o “documentário” (se é para classificar nos tão discutíveis “gêneros”, eu colocaria como experimental), mas construí mentalmente uma viagem de mochileiros pela América do Sul, captada pelas sensações. Enfim, dos outros não vale a pena falar. Um sobre a perda do pai é chato e sem graça, outro sobre uma Alice assassina é entediante e uma animação boba e interminável que se pretende poética (e, pasmem, ganhou prêmio).

Aliás, aí é que mora o perigo desse tipo de “evento” em Santa Catarina.

Os prêmios foram vergonhosos. Como pode o próprio organizador ganhar prêmio? Como pode, aliás, ser produtor e etc. de obras concorrentes? Achei tudo muito estranho. Só não adentrei demais nisso para não ficar com mais nojo ainda. Uma dica: não misturar, na exibição, documentários, ficção, animação. Isso prejudica muito a obra. E digo com toda a sinceridade que assisti “documentários” muito melhores do que o tal “Fotossensível”, de kike Kriguer. Diante dos dois que eu assisti, este passaria longe de uma premiação – até porque eu também não o enquadraria em “documentário”, afinal é só um vídeo de família.

A velha “nata” (tem gente que adora nata, né? eu tenho ânsia de vômito só de ver!) de um grupinho do audiovisual quase não deve ter saído do palco no dia da premiação.

Não posso falar do eleito pelo júri nem do “melhor ficção” porque não assisti nenhum dos dois. Só sei que são famosos e o primeiro bastante popular. O “melhor ficção” não é produção recente (como o “Manhã”, do Zeca Pires, que é de 1989) e eu não achei muito correto isso, pois produções de épocas diferentes devem ser separadas também. Há muita coisa a ser levada em conta, tanto técnica quanto artística.

Um tal “prêmio estímulo” foi muito bem entregue para o “Vide Verso”. O “prêmio especial do júri” ficou muito esquisito. Pareceu “prêmio consolação para aqueles que nós queríamos que ganhassem, mas o júri popular não quis e tivemos que dar um jeito nisso”, vide a explicação do próprio evento no site “Pela diversidade e qualidade das propostas estéticas e narrativas das obras em competição o Júri Oficial do 1º Faça concede, além dos prêmios de melhor obra por categoria, Prêmio Especial do Júri.”. Engraçado o “pela diversidade e qualidade das propostas estéticas e narrativas”, pois um evento que se pretenda sério leva isso tudo em consideração para definir suas escolhas e as exibições. O que se perdeu no caminho? Se vocês olharem nos “jurados” e na “curadoria” verão uma propagandeação de tantos quesitos e seriedade que não traduz nada disso. Me nego a comentar as “menções honrosas”.

Tire um pouco do seu tempo e vasculhe o site. Veja o nome dos criadores, das produtoras envolvidas, coloque no Google-nosso-de-cada-dia e verá um mundo de conexões. Assim é o pobre audiovisual catarinense.

Por isso, raramente frequento este tipo de evento. E toda vez que eu perco meu tempo indo me decepciono ainda mais – normalmente com a organização, grupinhos, interesses. Mas desta vez “Ballet das Coisas” me fez perceber que há chance de se fazer boas coisas sem financiamentos astronômicos para projetos dialogados em uma única pequena locação, que ainda há quem saiba o que é uma boa Direção e uma boa Direção de Arte, que o curta-metragem tem peculiaridades que devem ser levadas em conta e que a Arte Audiovisual em Santa Catarina produz poucos e bons filhos – mesmo que nem todos rodem o país e o mundo.

(nem sempre o link funciona)

Por que me temem? Uma velha reflexão

Eu escrevi aqui, lá pelo começo do ano, que este ano seria marcado por coisas inéditas. Ou seja, eu faria e aconteceriam coisas comigo que nunca havia feito/acontecido.

E é verdade. Aliás, a verdade me persegue e esta não é inédita.

Não sei se eu já contei aqui que uma água-viva me queimou. Pois é. Há vinte e tantos anos assídua frequentadora do mar e nunca uma água-viva tinha me dado um “oi”. E eis que uma abelha me picou.

Então, também em vinte e poucos anos nunca havia sido picada por uma abelha. Fiquei com o braço super inchado, doendo e ardendo. Não sabia o que fazer/passar. Coloquei gelo, o que aliviava por algum tempo. Dei aulas (muitas aulas) com o braço coçando loucamente e sem poder fazer nada. Passei mais de uma semana assim, pois me recusei a ir ao médico (a chance de levar uma injeção era muito grande e além de não gostar eu estava sozinha). Aí, numa tarde de desespero de tanta dor, inchaço e coceira, resolvi passar vinagre (é, esta coisa que não serve pra nada na cozinha). E resolveu! Vinagre realmente alivia a coceira e a dor. A mancha vermelha enorme que tinha tomado meu braço (e no meio uma bola vermelha dura e dolorida) foi diminuindo. Descobri, então, que vinagre serve para três coisas: para picada de abelha, queimadura de água-viva e tirar mofo dos armários. Vivendo e aprendendo. Hoje ainda tenho uma mancha um pouco mais escura que a pele onde ficou inchado – mas de marcas no corpo é que eu vivo.

Sobre viver e aprender é que eu venho escrever hoje.

Além das coisas inéditas que acontecerão neste ano, há as repetições. Aquelas coisas que já conheço há muito tempo.

E elas volta e meia, voltam.

Eu falei sobre a verdade ali em cima, e lhes digo que da verdade ninguém gosta. A falsidade, por outro lado, é abraçada por muitos.

O tempo tem sido escasso, fato. Só comparar a quantidade de posts ano passado e esse ano. Mas este ano apresentou-se como uma reedição de velhos temores dos outros em relação a mim.

Há certas pessoas, colegas de trabalho, namoradas de conhecidos/amigos, “superiores”, parentes e afins que se sentem ameaçadas por mim. Vejam só, eu sou uma ameaça.

E de tanta confusão, dor de cabeça e encheção de saco que eu já tive este ano por esse motivo eu resolvi escrever este texto. Hoje amanheci (depois de um dia turbulento) pensando qual o motivo, afinal, para essas pessoas se sentirem assim? Porque eu não me acho uma ameaça à namorada de ninguém, nem a nenhum colega, muito menos aos meus “superiores”. Não sou do tipo que tenta subir às custas dos outros, não invento picuínhas, não dou em cima de homem comprometido (não mais, ok?), não sou falsa, não faço nada escondido, não sou puxa-saco. Formulei mentalmente esta lista e pensei cá comigo: peraí, a lista só se refere ao que eu não sou. Mas então o que eu sou que ameaça tanto as pessoas? A primeira resposta (com aquele carregado sotaque paranaense) foi “ah, pára, né”. Ou seja, eu não sou nada que ameace as pessoas.

Ou sou?

E aí fiquei analisando os fatos das últimas semanas (e alguns dos últimos meses). Em menos de uma semana fiquei com o estômago literalmente revirado ao ter dois desagradáveis imbróglios nos dois trabalhos que tenho (ou tinha). Os dois casos aconteceram por intermédio de pessoas falsas e incompetentes que não querem minha presença por perto. Vejam só, em nenhum momento eu briguei com ninguém, nem falei por trás nem coisas do tipo que pudessem levar a isso. Eu ali, fazendo meu trabalho zelosamente, calma (aliás, sempre comentam isso nos meus trabalhos), prestativa, sempre pronta a ouvir e ajudar. Sei ser profissional. Além, é claro de tremendamente brincalhona e de bom humor (não tolero ir trabalhar de mau humor). E? E? E? Levei na cabeça.

O motivo?

Pessoas foram falar isso ou aquilo. Pessoas disseram que eu disse ou fiz isso ou aquilo. Pessoas, pessoas… eu sempre disse que o mundo seria perfeito, se não existissem pessoas nele. Simples assim.

E essas pessoas falam para outras pessoas. Hum… interessante. Porque pra mim ninguém veio falar nada.

Aí surge a primeira pista. Falsidade. Num dos meus trabalhos aprendi uma coisa este ano (mais uma para as inéditas): falsidade se paga com falsidade. Acabei levemente entrando nisso para tornar minha presença suportável diante de certas criaturas. Mas falei para uma pessoa muito querida, que me disse que eu demorei pra aprender isso (ele um menino de uns quinze anos, vejam só!), que eu aprendi mas não vou praticar. Não cabe em mim a falsidade. Nem o disse-me-disse. Eu digo na cara o que tenho que dizer. Não esperem menos de mim. Aqui eu falei só do trabalho, mas isso é assim também nos estudos. Não fui a primeira colocada na seleção, não sou puxa-saco-bolsista-faz-tudo, falto aula e às vezes não leio um texto ou outro. Mas mesmo assim as poucas conversas que se dignam a ter comigo são permeadas de frases desconfiadas e de testes (será que ela é inteligente mesmo ou só aparenta ser?!). Não preciso provar nada pra ninguém, meus queridos. Aliás, provas, o que são provas? Eu com meus alunos nem faço provas (sou uma professora adorável) e tenho que fazer prova no mestrado (infelizmente o professor precisa disso para confirmar certas coisas, que tem aluno que está lá para nada).

Então eles me temem?

Eles me temem porque sou contra as mentiras, a falsidade, a incompetência deles, o mau humor perene de alguns falsos profissionais. Porque eu falo na cara o que tenho para falar (isso faz os incompetentes e mentirosos tremerem nas bases). Aliás, nunca minta pra mim. Porque antes de você terminar a frase eu já terei descoberto o tamanho da mentira. E posso até te dar detalhes. Esse é um dom que eu tenho. A falsidade pode até ser ensinada, há alunos que já agem conforme esta praga só por vê-la sendo praticada dentro de uma escola e por ver as “vantagens” que ela pode trazer. O caráter! Ah! O caráter! Também tenho. E para os que não o tem o temor é ainda mais pungente. Porque, meus queridos, caráter, ou se tem, ou não se tem. Nem o passar do tempo muda isso. Ah, e tem aquilo que eu sou moderna (demais), liberal (demais). Isso já diziam meus amigos e professores do ensino médio. Então as caretas e os caretas me temem por isso, porque eu assumo o que faço e penso diferente dessa gente quadradinha. Vai ver minhas atitudes profissionais, apaixonadas e afins joguem na cara destes despeitados e despeitadas o relacionamento falido que eles tentam fazer sobreviver, a pobreza intelectual do que eles tentam produzir. Vai ver é isso. E aí eu começo a entender tudo!

Quando é espelho, serve. Quando é realidade, desgosta.

Não gostam, então, de ser confrontados com alguém diferente deles, com capacidades, bom humor, paixão. Porque, vamos e venhamos, é preciso paixão nesta vida em tudo! E não como a paixão biológica que dura seus dois anos. Temem que eu roube os corações dos outros? Ah, mal me conhecem! Tenho um coração que me dá tantas alegrias e trabalho que nem me passa pela cabeça ter outro! Temem que eu me destaque numa equipe? Que eu seja a favorita de alguns alunos (por favor, unanimidade nunca!)? Temem o que mais mesmo? Que a minha felicidade e jogo de cintura com a vida escancare a infelicidade e a fraqueza deles? Aí eu realmente entendo todas as sacanagens que fazem comigo, todo o leva-e-traz, todas as fofocas, a falsidade, a grosseria. São pobres infelizes, incapazes, incompetentes e mal-amados. Como eu disse, não é novidade nenhuma este tipo de situação na minha vida, por isso já tenho uma noção do que acontece. E por isso já aprendi a dar a volta por cima rapidinho. Aliás, nesses casos nem volta por cima mais dou porque não caio. É, as cicatrizes já foram profundas o suficiente pra eu nem me cortar ou me deixar cair por essas bobagens.

Mas digo uma coisa a quem leva a sério essa gentinha: me perder é o pior que você pode fazer. E não é porque eu posso ser vingativa ou coisa assim porque realmente não sou. Mas porque eu realmente me empenho em ajudar e colaborar, em fazer um trabalho bem feito e porque sou uma amiga sem igual (esses dias ainda recebi uma mensagem, por ter feito algo por uma amiga, que dizia “a amiga mais amiga de todas!” – e realmente sou). Faço de tudo pelos meus amigos. E não vou escrever “amigos de verdade”, pois não existe outro tipo de amigo que não seja de verdade; ou é amigo, ou não é.

Falar abetamente das coisas, como faço aqui no blog inclusive, gera revolta e desperta este sentimento de ameaça nas pessoas. Não colaborar com os planinhos bobos delas, não se mostrar conivente e cúmplice com a falta de ética que serpenteia em alguns lugares, não ficar quieta: tudo isso faz com que o mundinho hipócrita, falso e sem caráter delas pare de girar. E as pessoas precisam que o mundo gire. Quando ele pára elas percebem que estão num relacionamento falido, estão maceradas pelo tempo no mesmo ambiente e emprego, são incompetentes e vivem mentiras. E isso, meus queridos, é choque demais para elas aguentarem – pois normalmente já são pessoas fracas, por isso agem assim.

Temam… continuem temendo. Porque definitivamente eu não pretendo entrar no mundo de vocês. Já experimentei muita coisa nessa vida, e isso que vocês reproduzem só faz mal às pessoas, inclusive a vocês. Eu sei porque já senti na pele. Não me cabe, nesta vida, fazer mal a quem quer que seja.

E como disse um excelente professor do Jornalismo da UFSC (de quem eu tive o prazer de ser aluna) no Twitter esses dias (bem durante a minha turbulência), “as ideologias é que são vãs, não a filosofia”.

Essas ideologias do mal reproduzidas afú por vocês é que são vãs. Não eu.

E nem me darei ao trabalho de lembrar Maquiavel. Sobre os que me amam há problemas ainda maiores.

Temam. Porque, infelizmente, é só o que resta para vocês.

Meus eus

 

Eu poderia pensar mais nos outros. Tentar entender que eles têm sentimentos e que sofrem. E que podem sofrer por mim.

 

Mas aí não seria eu.

 

Eu poderia ser mais compreensiva, mais carinhosa, mais sentimental.

 

Aí também não seria eu.

 

Eu poderia sossegar o facho, como dizia minha avó, tomar rumo na vida, vergonha na cara, me olhar no espelho e dizer “chega! pára com tudo isso.”

 

Ainda assim, não seria eu.

 

Eu poderia fazer como todo mundo, ter só uma casa, um endereço, uma profissão, um emprego, uma família, um destino.

 

Aí eu seria só um eu, dentre tantos eus que há em mim.

 

Eu poderia ser simpática, amável, popular, diplomática.

 

Aí ninguém acreditaria que era eu.

 

Eu poderia concordar mais, desconfiar menos (pois desconfio até da minha própria sombra, como sempre disse meu pai – e que as caminhadas noturnas dos últimos dias confirma), falar menos, ouvir mais, escrever menos, ler menos, ficar mais tempo no mesmo lugar.

 

Mas aí nem eu me reconheceria.

 

Eu poderia tentar conciliar mais todos os meus eus que se entendem tão bem.

 

Mas aí eles não seriam eles.

 

 

Sobre os pinhões

 

Deixo o carrinho de compras perto dos congelados e caminho até o pinhão. Há um pote para recolher e colocar no saco plástico, mas reparo que eles estão bem novos e, por isso, com muitas “cascas” que saem junto da pinha. Começo a catar com a mão, um por um, e reparo que há uma mulher fazendo o mesmo.

 

Naqueles dias eu experimentava e mostrava para as visitas como o povo manézinho é receptivo. Ao sairmos da missa uma senhora bem velhinha que mora na minha rua havia puxado conversa (ela não se conforma que ninguém mais da nossa rua, em frente à Igreja, vá à missa). Ao sairmos do Curiódromo, num domingo, um homem puxa conversa e diz que no sábado é que é bom ir porque ontem havia mais de trezentos pássaros lá. O manézinho é conversador, é solícito, é amigo.

 

A moça catando pinhão, como não podia deixar de ser, puxa conversa. “bom um pinhão com esse frio, né?” Era mais uma constatação do que uma pergunta. É Outono, mas uma onda de frio abateu nossas gargantas. Logo pra mim ela diz isso? Estou comendo freneticamente pinhão desde final de março. Sim, sou doente por pinhão, sou serrana, faço pinhão assado na chapa e tenho ataques de prazer.

 

E ela continua “mas tem que escolher, tá cheio de cascas”. Ao que eu comento que é o que vem junto na pinha, porque ele está novinho. Logo chega o marido e dois filhos, um casal.

 

Um sorriso de canto de boca me pega desprevinida. Vejo ali uma cena linda: mãe, pai e filhos num domingo de manhã catando pinhão, juntos, conversando “quer pegar um pouco de carne moída pra fazer panqueca, amor?” diz ela, “filha, pegou o refrigerante que você queria?” dia o pai, o menino come uma pipoca bilu, a menina bebe alguma coisa, “ó, mãe, esse tá bonito!” diz o filho ao pegar um pinhão lustroso, enorme, novinho.

 

Eu ali catando meus pinhões e acompanhando a cena começo a refletir sobre minhas péssimas considerações acerca do casamento, da tal constituição de família e tal. Penso: não devem ser todas tão ruins. Talvez a tolerância, talvez o amor profundo, talvez algumas coisas consigam fazer um casamento, um relacionamento, durar muitos e muitos anos em harmonia. Talvez o problema seja eu. Talvez eu não seja capaz de nada disso, porque, veja só, afinal essas coisas devem existir para algumas pessoas. Por que diacho eu sempre só vejo o lado ruim das coisas? Quer coisa mais linda que esta cena? Uma família unida num domingo escolhendo pinhão e fazendo compras? E eu aqui na minha vidinha…

 

Foram alguns minutos (comprei alguns quilos de pinhão). Eis que minhas reflexões são quebradas pela frase do pai “dá pipoca pra ela”. Assim, sem mais nem menos. Parece que a menina, do outro lado, ao lado do pai, havia falado alguma coisa. O menino começa “ela não me deu água”. “ela não me deu água” “ela não me deu água” “ela não me deu água” e o pai retruca “taqui a água, toma, agora dá pipoca pra ela”. O menino pára a ladainha da água para responder “agora? agora não quero”. A irmã não deu água, queria pipoca, ele não dá pipoca porque ela não deu água; na contrapartida a irmã, agora por interesse, dá a água; ele nega porque percebe o jogo. Situação óbvia e justa. Foi-se a harmonia.

 

“parem vocês dois” diz a mãe com uma cara cansada, já não há o amor pensando nas panquecas, já não há a alegria da escolha dos pinhões. “vão ficar de castigo os dois”. “eu fiquei de castigo já, mãe, até ontem, lembra?” diz o menino justo e invencível. “vão ficar uma semana sem poder sair” diz a mãe, “sim, só ontem que você foi na casa do Felipe, ficou uma semana… não, mais de uma semana” relembra a mãe agendadora. A menina só fala em voz baixa ao lado do pai, como se ele fosse seu mais fiel tradutor.

 

A cena se desfez… acusações de ambos os lados, erros elevados ao infinito de pais que acham que fazem justiça e apenas colocam-se em lados opostos… a miséria da vida a dois, da familiaridade, do convívio exposto transbordando sobre os tão lindos e novos pinhões.

 

Uma parte de mim sorri triunfante: serviu para refletir, mas quem sabe há situações que só possuem o lado ruim mesmo. Eu pego meu saco cheio de pinhões, antecipo o prazer que será devorá-los e me retiro com um estalo de esquecimento à cena tão grotesca posto que é comum, e tão comum posto que é grotesca.

 

Não preciso que me esfreguem as misérias alheias na cara, nem nos tão deliciosos pinhões.

 

 

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