Por que me temem? Uma velha reflexão

Eu escrevi aqui, lá pelo começo do ano, que este ano seria marcado por coisas inéditas. Ou seja, eu faria e aconteceriam coisas comigo que nunca havia feito/acontecido.

E é verdade. Aliás, a verdade me persegue e esta não é inédita.

Não sei se eu já contei aqui que uma água-viva me queimou. Pois é. Há vinte e tantos anos assídua frequentadora do mar e nunca uma água-viva tinha me dado um “oi”. E eis que uma abelha me picou.

Então, também em vinte e poucos anos nunca havia sido picada por uma abelha. Fiquei com o braço super inchado, doendo e ardendo. Não sabia o que fazer/passar. Coloquei gelo, o que aliviava por algum tempo. Dei aulas (muitas aulas) com o braço coçando loucamente e sem poder fazer nada. Passei mais de uma semana assim, pois me recusei a ir ao médico (a chance de levar uma injeção era muito grande e além de não gostar eu estava sozinha). Aí, numa tarde de desespero de tanta dor, inchaço e coceira, resolvi passar vinagre (é, esta coisa que não serve pra nada na cozinha). E resolveu! Vinagre realmente alivia a coceira e a dor. A mancha vermelha enorme que tinha tomado meu braço (e no meio uma bola vermelha dura e dolorida) foi diminuindo. Descobri, então, que vinagre serve para três coisas: para picada de abelha, queimadura de água-viva e tirar mofo dos armários. Vivendo e aprendendo. Hoje ainda tenho uma mancha um pouco mais escura que a pele onde ficou inchado – mas de marcas no corpo é que eu vivo.

Sobre viver e aprender é que eu venho escrever hoje.

Além das coisas inéditas que acontecerão neste ano, há as repetições. Aquelas coisas que já conheço há muito tempo.

E elas volta e meia, voltam.

Eu falei sobre a verdade ali em cima, e lhes digo que da verdade ninguém gosta. A falsidade, por outro lado, é abraçada por muitos.

O tempo tem sido escasso, fato. Só comparar a quantidade de posts ano passado e esse ano. Mas este ano apresentou-se como uma reedição de velhos temores dos outros em relação a mim.

Há certas pessoas, colegas de trabalho, namoradas de conhecidos/amigos, “superiores”, parentes e afins que se sentem ameaçadas por mim. Vejam só, eu sou uma ameaça.

E de tanta confusão, dor de cabeça e encheção de saco que eu já tive este ano por esse motivo eu resolvi escrever este texto. Hoje amanheci (depois de um dia turbulento) pensando qual o motivo, afinal, para essas pessoas se sentirem assim? Porque eu não me acho uma ameaça à namorada de ninguém, nem a nenhum colega, muito menos aos meus “superiores”. Não sou do tipo que tenta subir às custas dos outros, não invento picuínhas, não dou em cima de homem comprometido (não mais, ok?), não sou falsa, não faço nada escondido, não sou puxa-saco. Formulei mentalmente esta lista e pensei cá comigo: peraí, a lista só se refere ao que eu não sou. Mas então o que eu sou que ameaça tanto as pessoas? A primeira resposta (com aquele carregado sotaque paranaense) foi “ah, pára, né”. Ou seja, eu não sou nada que ameace as pessoas.

Ou sou?

E aí fiquei analisando os fatos das últimas semanas (e alguns dos últimos meses). Em menos de uma semana fiquei com o estômago literalmente revirado ao ter dois desagradáveis imbróglios nos dois trabalhos que tenho (ou tinha). Os dois casos aconteceram por intermédio de pessoas falsas e incompetentes que não querem minha presença por perto. Vejam só, em nenhum momento eu briguei com ninguém, nem falei por trás nem coisas do tipo que pudessem levar a isso. Eu ali, fazendo meu trabalho zelosamente, calma (aliás, sempre comentam isso nos meus trabalhos), prestativa, sempre pronta a ouvir e ajudar. Sei ser profissional. Além, é claro de tremendamente brincalhona e de bom humor (não tolero ir trabalhar de mau humor). E? E? E? Levei na cabeça.

O motivo?

Pessoas foram falar isso ou aquilo. Pessoas disseram que eu disse ou fiz isso ou aquilo. Pessoas, pessoas… eu sempre disse que o mundo seria perfeito, se não existissem pessoas nele. Simples assim.

E essas pessoas falam para outras pessoas. Hum… interessante. Porque pra mim ninguém veio falar nada.

Aí surge a primeira pista. Falsidade. Num dos meus trabalhos aprendi uma coisa este ano (mais uma para as inéditas): falsidade se paga com falsidade. Acabei levemente entrando nisso para tornar minha presença suportável diante de certas criaturas. Mas falei para uma pessoa muito querida, que me disse que eu demorei pra aprender isso (ele um menino de uns quinze anos, vejam só!), que eu aprendi mas não vou praticar. Não cabe em mim a falsidade. Nem o disse-me-disse. Eu digo na cara o que tenho que dizer. Não esperem menos de mim. Aqui eu falei só do trabalho, mas isso é assim também nos estudos. Não fui a primeira colocada na seleção, não sou puxa-saco-bolsista-faz-tudo, falto aula e às vezes não leio um texto ou outro. Mas mesmo assim as poucas conversas que se dignam a ter comigo são permeadas de frases desconfiadas e de testes (será que ela é inteligente mesmo ou só aparenta ser?!). Não preciso provar nada pra ninguém, meus queridos. Aliás, provas, o que são provas? Eu com meus alunos nem faço provas (sou uma professora adorável) e tenho que fazer prova no mestrado (infelizmente o professor precisa disso para confirmar certas coisas, que tem aluno que está lá para nada).

Então eles me temem?

Eles me temem porque sou contra as mentiras, a falsidade, a incompetência deles, o mau humor perene de alguns falsos profissionais. Porque eu falo na cara o que tenho para falar (isso faz os incompetentes e mentirosos tremerem nas bases). Aliás, nunca minta pra mim. Porque antes de você terminar a frase eu já terei descoberto o tamanho da mentira. E posso até te dar detalhes. Esse é um dom que eu tenho. A falsidade pode até ser ensinada, há alunos que já agem conforme esta praga só por vê-la sendo praticada dentro de uma escola e por ver as “vantagens” que ela pode trazer. O caráter! Ah! O caráter! Também tenho. E para os que não o tem o temor é ainda mais pungente. Porque, meus queridos, caráter, ou se tem, ou não se tem. Nem o passar do tempo muda isso. Ah, e tem aquilo que eu sou moderna (demais), liberal (demais). Isso já diziam meus amigos e professores do ensino médio. Então as caretas e os caretas me temem por isso, porque eu assumo o que faço e penso diferente dessa gente quadradinha. Vai ver minhas atitudes profissionais, apaixonadas e afins joguem na cara destes despeitados e despeitadas o relacionamento falido que eles tentam fazer sobreviver, a pobreza intelectual do que eles tentam produzir. Vai ver é isso. E aí eu começo a entender tudo!

Quando é espelho, serve. Quando é realidade, desgosta.

Não gostam, então, de ser confrontados com alguém diferente deles, com capacidades, bom humor, paixão. Porque, vamos e venhamos, é preciso paixão nesta vida em tudo! E não como a paixão biológica que dura seus dois anos. Temem que eu roube os corações dos outros? Ah, mal me conhecem! Tenho um coração que me dá tantas alegrias e trabalho que nem me passa pela cabeça ter outro! Temem que eu me destaque numa equipe? Que eu seja a favorita de alguns alunos (por favor, unanimidade nunca!)? Temem o que mais mesmo? Que a minha felicidade e jogo de cintura com a vida escancare a infelicidade e a fraqueza deles? Aí eu realmente entendo todas as sacanagens que fazem comigo, todo o leva-e-traz, todas as fofocas, a falsidade, a grosseria. São pobres infelizes, incapazes, incompetentes e mal-amados. Como eu disse, não é novidade nenhuma este tipo de situação na minha vida, por isso já tenho uma noção do que acontece. E por isso já aprendi a dar a volta por cima rapidinho. Aliás, nesses casos nem volta por cima mais dou porque não caio. É, as cicatrizes já foram profundas o suficiente pra eu nem me cortar ou me deixar cair por essas bobagens.

Mas digo uma coisa a quem leva a sério essa gentinha: me perder é o pior que você pode fazer. E não é porque eu posso ser vingativa ou coisa assim porque realmente não sou. Mas porque eu realmente me empenho em ajudar e colaborar, em fazer um trabalho bem feito e porque sou uma amiga sem igual (esses dias ainda recebi uma mensagem, por ter feito algo por uma amiga, que dizia “a amiga mais amiga de todas!” – e realmente sou). Faço de tudo pelos meus amigos. E não vou escrever “amigos de verdade”, pois não existe outro tipo de amigo que não seja de verdade; ou é amigo, ou não é.

Falar abetamente das coisas, como faço aqui no blog inclusive, gera revolta e desperta este sentimento de ameaça nas pessoas. Não colaborar com os planinhos bobos delas, não se mostrar conivente e cúmplice com a falta de ética que serpenteia em alguns lugares, não ficar quieta: tudo isso faz com que o mundinho hipócrita, falso e sem caráter delas pare de girar. E as pessoas precisam que o mundo gire. Quando ele pára elas percebem que estão num relacionamento falido, estão maceradas pelo tempo no mesmo ambiente e emprego, são incompetentes e vivem mentiras. E isso, meus queridos, é choque demais para elas aguentarem – pois normalmente já são pessoas fracas, por isso agem assim.

Temam… continuem temendo. Porque definitivamente eu não pretendo entrar no mundo de vocês. Já experimentei muita coisa nessa vida, e isso que vocês reproduzem só faz mal às pessoas, inclusive a vocês. Eu sei porque já senti na pele. Não me cabe, nesta vida, fazer mal a quem quer que seja.

E como disse um excelente professor do Jornalismo da UFSC (de quem eu tive o prazer de ser aluna) no Twitter esses dias (bem durante a minha turbulência), “as ideologias é que são vãs, não a filosofia”.

Essas ideologias do mal reproduzidas afú por vocês é que são vãs. Não eu.

E nem me darei ao trabalho de lembrar Maquiavel. Sobre os que me amam há problemas ainda maiores.

Temam. Porque, infelizmente, é só o que resta para vocês.

Meus eus

 

Eu poderia pensar mais nos outros. Tentar entender que eles têm sentimentos e que sofrem. E que podem sofrer por mim.

 

Mas aí não seria eu.

 

Eu poderia ser mais compreensiva, mais carinhosa, mais sentimental.

 

Aí também não seria eu.

 

Eu poderia sossegar o facho, como dizia minha avó, tomar rumo na vida, vergonha na cara, me olhar no espelho e dizer “chega! pára com tudo isso.”

 

Ainda assim, não seria eu.

 

Eu poderia fazer como todo mundo, ter só uma casa, um endereço, uma profissão, um emprego, uma família, um destino.

 

Aí eu seria só um eu, dentre tantos eus que há em mim.

 

Eu poderia ser simpática, amável, popular, diplomática.

 

Aí ninguém acreditaria que era eu.

 

Eu poderia concordar mais, desconfiar menos (pois desconfio até da minha própria sombra, como sempre disse meu pai – e que as caminhadas noturnas dos últimos dias confirma), falar menos, ouvir mais, escrever menos, ler menos, ficar mais tempo no mesmo lugar.

 

Mas aí nem eu me reconheceria.

 

Eu poderia tentar conciliar mais todos os meus eus que se entendem tão bem.

 

Mas aí eles não seriam eles.

 

 

Memória e lembrança no Ribeirão

 

Na semana passada, numa aula discutíamos a memória e a lembrança. A professora perguntou qual seria a cristalizada e qual a fluida. A memória é a cristalizada, fixa, dura. A lembrança é a fluida, a intangível. Quando eu havia me deparado com a questão no texto imaginei uma fotografia de alguém: a fotografia é o instante, a memória fixa, cristalizada, palpável da pessoa; as lembranças são aquilo que eu sinto toda vez que olho para a fotografia, os momentos que passei com aquela pessoa, a saudade que eu sinto, a reconstituição do momento no qual a fotografia foi tirada.

 

E eis que a memória e a lembrança pregaram-me uma peça.

 

Participei novamente este ano da Maratona Fotográfica de Florianópolis. Aí já se vão alguns anos participando. Já ganhei por foto, não pelo conjunto, uma ou outra vez. Não participo pela competição. Não sou, de modo algum, competitiva.

 

Participo, enfim, pela maravilha de poder redescobrir a Ilha a cada ano por uns dois dias. As surpresas que se encontram nos meus lugares tão conhecidos é que valem a pena.

 

Este ano não foi diferente. Tive boas e deliciosas surpresas, me senti transportada para o século XVIII, conheci pessoas especiais, etc.. Mas sobre a memória e a lembrança tive um momento singular e até certo ponto indescritível.

 

Digamos que as lembranças não possam ser ditas. Podemos até tentar descrevê-las e quem tomá-las para si poderá transformá-las em memória.

 

Andando pelo Ribeirão passei por uma rua que não conhecia. Eis que surge uma placa sobre o tal picolé da dona Nair Falcão (a lembrança me embota agora e não sei se é Nair mesmo o nome) que há cinquenta anos delicia o Ribeirão, a receita legítima. Fiquei intrigada, obviamente. Havíamos almoçado e um picolé num dia ensolarado pareceu tentador, além da curiosidade (minha) de conhecer mais um personagem da Ilha. Lá fui eu.

 

Uma senhora bem senhorinha atende e diz que tem de coco ou de chocolate. Pedimos dois de cada, eu escolhi coco. Dois reais cada um. No meio tempo de catar dinheiro para a senhorinha não precisar dar troco, pego o picolé e já experimento. Fico calada e parada. Minha irmã também abre o dela (de chocolate) e experimenta. Em seguida ela me olha. Sim, eu estava ali parada, sem palavras. As lembranças podem ser indizíveis. Mas minha irmã sempre consegue dizer tudo e solta “é o da vó!”. Talvez não tanto exclamação mas mais constatação. Era essa a constatação que meu paladar havia enviado para minha lembrança. Eis que aquele picolé, memória cristalizada de uma receita que eu conheço desde que me entendo por gente, revirou o meu mundo das lembranças. E eu não pensava, não dizia, apenas sentia e lembrava. A exatidão do sabor era chocante. Minha avó foi e sempre será única. Tudo o que eu lembro dela também. E aquela senhorinha que, apesar de ser uma velhinha, não lembrava em nada minha avó fazia um picolé que está materializado na minha memória, que é um pedaço da minha lembrança. Não senti regozijo, nem felicidade. Algum tipo de angústia talvez.

 

Fiquei ali, quieta, sem conseguir entender, chupando aquele picolé que pra mim sempre foi o melhor. Eu mesma já fiz esta receita algumas vezes, mas já faz algum tempo que não tenho feito. Era algo que não deveria ser tão desestruturador. Mas me senti perdida. Tentei encontrar uma explicação lógica: se eu perguntasse a idade da senhorinha, poderia comparar com a da minha avó e ver se seria, então, uma receita difundida na época, muito antes do surto de freezers kibon. Aí percebi que essa tentativa de explicar pelo conhecimento, pela razão, não fazia o menor sentido diante do que eu estava sentindo. Parei na sombra e terminei meu picolé ao lado da minha mãe, mais emotiva que eu.

 

A memória prega peças. A lembrança não só prega peças como nos deixa desconcertado diante da memória, daquilo que cristalizou e que mesmo assim talvez não seja passível de ser dita. Uma receita anotada num papel pode constituir-se memória, mas será apenas uma receita num pedaço de papel.

 

Claro que fiquei esperando “entender” (na verdade o termo não cabe aqui porque seria mais um entender sem a lógica) o que tudo isso significava. Estou num momento “sinais” e acredito muito nisso. Acredito mais do que entendo. Isso é fundamental. Não sei se entendi. Só sei que no mesmo momento a aula sobre memória e lembrança fez ainda mais sentido. Eu conseguia, afinal, explicar o fato. Mas foi só.

 

Enfim, e estiver passando pelo Ribeirão, desça a rua da Igreja Nossa Senhora da Lapa à direita. É tudo o que eu posso compartilhar.

 

 

Eu quero a loucura

Cena 1: Garrafa de vinho na pia. Pedaços de cortiça da rolha espalhados. Um saca rolha ao lado. Olhos fechados, mãos apoiadas na beirada da pia. Toca Nelson Gonçalves. A vela acesa.

E eu ali pensava nas questões de gênero: nunca senti tanto o machismo quanto naquela hora. Garrafas feitas para só serem abertas por homens. E eu não encontrava de jeito nenhum o meu saca rolha velho de guerra. Talvez tenha se perdido em alguma mudança. Talvez não. Ele era meu companheiro, sempre bebi sozinha e conseguia abrir as garrafas. E ali era a imagem do fracaso; mas fracasso só diante da garrafa. Enfim, eu não preciso do álcool. Enfim, eu não preciso de nada, nem de ninguém. E as coisas se esclarecem. Não há mais o “mudanças vão acontecer”; elas já aconteceram. Sim, já. E eu sou corajosa o suficiente, como sempre fui, para aceitá-las, acatá-las e colocá-las em prática. Prisões, censuras, cobranças só de quem não me conhece; e, enfim, ninguém realmente me conhece. Fácil compreender. No entanto, não há tempo pra perder com isso. E resolvi ouvir um CD para lembrar conquistas inéditas do passado. Pensei até em escrever sobre o passado, um passado bom, doce, vívido, vivido. O que me interessa e importa, hoje, é a loucura. E no amor não há loucura, é sanidade; só há certeza, segurança, exatidão. Perdi a exatidão numa curva do Canto da Lagoa. A segurança na trilha do Saquinho. E todas as certezas à beira-mar. Eu quero a loucura. E ela me quer, me chama. Eu não quero ninguém nem nada que me chame à sanidade, que me tira dos filmes do Buñuel. Que desligue meu aparelho de som. Não quero ninguém ao lado de quem eu não possa dançar. Eu assumi os desafios e só me vejo neles sozinha. Não cometerei o mesmo erro da última vez, eu aprendo com eles. Sou esperta o suficiente pra muita coisa. E a garrafa ficou ali despedaçada. E as músicas se sucederam. Fiz a trilha para os outros. Fiz a minha trilha que estava lá empoeirada, travada, esquecida. Eu quero a loucura de viver. Se já deixei de tê-la? Sim, talvez brevemente. Mas meu alarme andou disparado desde então. E eu não ouvia mais nada direito, até entender que era ele. Mas eu sou uma boa ouvinte. Eu quero a loucura, eu quero amigos – sim, meus bons amigos e novos amigos. Eu quero chegar em casa e não ter certeza se o que aconteceu realmente aconteceu, se eu vi o que eu vi, quero não saber o que eu sinto. Quem não quer nada disso, já é infeliz por opção. Eu escolho a loucura. Sim, eu faço coisas demais, eu corro demais, eu viajo (literalmente e não, segundo meus alunso inclusive) demais, eu durmo de menos – “balanceada” é uma coisa que não entra na minha vida. Nada depende de nada e relativismo de ser civilizado no mundo moderno são balelas. Delas também não preciso. Passagem comprada. Mala para arrumar amanhã. Ter certeza de onde acordará não serve pra mim. Também não me servem as grosserias, as cabeças duras, as ignorâncias. Não me serve a arrogância, que fique claro. Construo personagens, escrevo histórias e ainda tenho que escrevê-las quando amadurecem na minha cabeça. O vinho não foi bebido hoje, amanhã tomarei outro. Quem sabe eu compre um saca-rolha decente, quem sabe eu esqueça. Quem sabe eu consiga resolver meia dúzia de coisas pendentes esta semana, talvez não. Quem sabe eu dê conta de ler tudo o que tenho para ler, ou não. Quem sabe eu esteja sentindo falta das minhas meninas. Quem sabe eu ame ficar sozinha – e sempre tenha amado, e que o meu retiro de surpresa reeditado numa versão “ano inteiro” tenha me revivido isso de forma monumental. E vai que por tudo isso, ou quase tudo, eu não entenda crianças de dezesseis anos sofrendo por amor. E já dizia o Renato Russo, se dói não é amor. E se não dói, nem tira do sério, nem é loucura, então também não é amor. A dor é sempre opcional. A burrice também. E eu tenho que parar com a mania de ter pena das pessoas – vou anotar no meu quadro de recados. E muita coisa só existe na minha cabeça – e eu liguei pra minha Loira e disse pra ela me dizer isso, cara a cara, porque eu simplesmente precisava e só ela poderia fazer isso por mim. Não ganho nem perco, só me livro de problemas. Problemas não tenho, nem quero, muito menos os dos outros. E eu quero mesmo é só a loucura. Se não for pra isso, nem falem comigo.

 

 

Num filme do Buñuel

Me sentia como um personagem do Buñuel. Passei dias me sentindo assim.

Como escrevi no post anterior, não cabe aqui relatar os fatos. No surreal, os fatos são o que menos importa.

O que eu posso relatar aqui é o meu sorriso sacana a tudo aquilo que “acontecia”. Me senti muito fdp.

Senti e pensei demais. Demais. Demais.

Sentir é inerente ao surreal, entender não. Abri mão de entender qualquer coisa esse ano. Já não entendo o que sinto, nem o que penso. E vejo isso em relação a algumas pessoas, a alguns lugares.

Mas a vida dá voltas e voltas, mais do que as do Canto da Lagoa. Mas o Canto da Lagoa também é bem surreal. Aquelas frases e imagens que surpreendem e não explicam me convenceram ainda mais do surreal dos meus dias.

Se o surreal estava contribuindo com a minha felicidade… deve ter incomodado alguém, não é mesmo?

Tem um monte de gente que não sabe ser feliz. E, aliás, não pode suportar a felicidade alheia.

E eu cruzo meu caminho com essa gente, que de “gente” não tem quase nada.

Contato com as pessoas?!

Caí do meu mundo surreal… quebrei a parede da sala de jantar. Deixei meu personagem ao ouvir um distante e confuso “corta”!

Bem, conseguiram o que queriam. O que eles não esperavam é que eu tivesse tomado gosto pelo surreal, tivesse encarnado o personagem – provavelmente voltarei para lá.

Pessoas não me dão medo nem irão controlar a minha vida. Tirei hoje de folga do mundo, fiquei comigo mesma. Amanhã prometo atentar os ouvidos para o “gravando” que o Buñuel vai gritar de lá onde quer que ele esteja.

A vida é boa

 

Eu decidi que 2012 seria um bom, bom não, um ótimo ano. Decidi, meio que por acaso, que eu faria, neste ano, coisas que nunca havia feito na vida.

 

E eis que a minha decisão meio inconsciente, meio sem perceber, não ficou só no acordo tácito comigo mesma e com o destino, ela foi colocada em prática.

 

Talvez porque, como manda meu signo, eu tenha me reaproximado daquilo que eu sei que guia minha vida. E, sem querer, comecei a ver as coisas mudarem. Sem querer, me deixei guiar pelas coisas que aconteciam. Acima de tudo não tentei entender. E talvez seja essa a grande verdade da minha vida: não entender, apenas viver.

 

Porque as coisas se dão de uma forma que eu me agarro na minha fé (esta, felizmente, nunca me faltou) e não me pergunto nada. Querer explicar demais, querer respostas, não faz, em absoluto, parte do meu caminho. E as coisas sempre foram assim comigo. Talvez eu tenha passado por um período tão difícil (e põe difícil nisso) e tenha me curvado às dores, ao pessimismo, às exigências que as pessoas e que a vida comum, vulgar, trazem.

 

Eis que “me libertei daquela vida vulgar” e decidi assumir que a minha vida não tem explicação. Estou fazendo coisas, assumi certos riscos, que ninguém – e eu digo ninguém mesmo – consegue entender (nem mesmo acreditar, em alguns casos).

 

Nessa lista de “coisas que eu nunca fiz” eu coloquei algumas das quais eu já havia dito por diversas vezes “nunca farei”. Por quê? Porque eu gosto disso. Porque é disso que eu preciso. Porque cresci ouvindo minha mãe dizer “nunca diga nunca”. E eu sei que vai me faltar tempo, que algumas pessoas vão me ver menos do que gostariam e vão lamentar isso, sei (porque já sinto) que vou chegar ao cansaço com frequência. Porém, já passei por essas coisas, talvez seja a hora de repetir a dose. Sei que não tenho mais quinze nem dezoito ou vinte anos. Apesar disso, me sinto de novo com dezesseis! E tudo aquilo que não fazia sentido aos dezesseis, agora também não faz, e eu sei que é o certo.

 

Garanto pra vocês que a mente pequena, vulgar e mesquinha das pessoas não consegue entender (porque, enfim, mentes assim precisam entender tudo) alguém que tem duas profissões, mora em dois (ou mais!) lugares, vive uma vida dupla, quem sabe tripla, quadrúpla. Bem, talvez seja mal de família. Ou talvez seja uma necessidade real de não se deixar acomodar, de fugir da repetição, de não me enquadrar, de não querer e não conseguir viver sob rótulos. Pra mim, isso é simples. É até óbvio.

 

Estamos ainda em março mas eu poderia enumerar uma boa lista de coisas que já fiz e que nunca havia feito. Eu poderia. Mas não sei se ela faria sentido. Ando me furtando de, inclusive, publicar nas tais redes sociais esses “feitos”. Por quê? Logo eu que sou, sim, adepta delas. Porque talvez esteja espiritualmente em outro lugar. Ou porque não deu tempo. Ou porque debaixo de temporal fortíssimo com vento, raios a alguns metros e trovões o celular nem a câmera (que ainda não é à prova d´água – ou talvez até seja porque olha que ela já passou cada coisa!) peguem. Porque eles tiveram que voltar pro carro numa tentativa de que continuassem a funcionar enquanto eu ia lá pensar na vida num banho quente na lagoa do Peri. Ou porque sob um sol que prometia não aparecer, naquele lugar onde eu nunca havia estado, eu estava me queimando debaixo do guarda-sol, sem peixe nenhum no anzol e me divertia com o cara de tanga vermelha ao lado. Ou porque uma professora não pode ficar com o celular na mão o tempo todo publicando enquanto dá aula (como, aliás, fazem os aluninhos queridos – mas a professora é gente boa, não tem frescura e não se importa realmente com isso). Ou porque as idas e vindas para lugares inacreditáveis e fantásticos sejam tão inebriantes que o celular fica ali esquecido na bolsa, sem sinal. Porque a maioria dos melhores lugares do mundo não recebem sinal de celular, nem 3G nem nada. E essa é uma boa pedida! Talvez porque num belo dia de praia num excelente companhia, praia vazia, as aves almoçando um peixe espada de um cardume que passou a alguns minutos eu não havia levado a câmera. Tenho andado assim, mais leve. Mais despreocupada. Mais incoerente do que nunca. Mais satisfeita.

 

Sim, eu poderia enumerar muitas coisas. Falar e escrever sobre elas não faz sentido, por isso não o faço.

 

Acho que tudo isso estava anunciado nas cobras do final do ano passado. Há um surreal que cobre o que eu faço na companhia de um amigo que entra direto nessa lista aí do que eu nunca havia feito. E o surreal tem me perseguido esse ano. Confesso que estou me divertindo. Muito.

 

Às vezes me sinto quase como uma espectadora, aqui sorrindo com a vida como entretenimento que passa diante de mim. A vida é boa. Só não sabe disso quem não quer.

 

 

Vitória

 

Eu vou contar a história da Vitória.

 

Faz algum tempo, na casa verde do outro lado da rua morava uma família. À primeira vista uma família comum, mãe, pai e dois filhos. Ela jovem, porém macerada, magrela e feia. Ele robusto, moreno de sol, bonito, peito cabeludo. Ela estava grávida. Com o tempo percebi que ele ficava em casa e ela não. Raramente a via. Ele era um exímio jardineiro. Tinha um olhar perfurante. Eu evitava qualquer contato, afinal nunca gostei de vizinhos. Mas ele era atraente e meu olhar volta e meia o observava. Ele ficava ali, cuidava do menino, Junior, da menina e depois de mais uma menina, o bebê. A única coisa curiosa, além do “dono de casa”, era que o nome dele era Fábio. Ou seja, o menino era Fábio Jr, como o cantor. Eu tinha dó do menino, tão novinho mas sempre mal-tratado pela mãe e ignorado pelo pai. Às vezes ate trocava sorrisos com ele. Um dia, ou uma madrugada, meu irmão assistia TV quando ouviu sons na rua, risadas, barulho de moto. Espiou e viu a mãe da família da casa verde descendo aos agarros da moto de um rapaz, tudo temperado com muitos beijos. Eis que a partir de então percebemos que isso era rotineiro nas madrugadas. Normalmente o carro, caminhão ou moto vinha da direção da BR… sempre um homem diferente. Isso me fez fantasiar sobre o Junior e fiquei com mais dó ainda dele, afinal, me parecia óbvio que ele não era filho legítimo. Criei eu minhas histórias enquanto observava já não tão disfarçadamente o moreno excelente jardineiro e dono de casa.

 

Passou alguns anos, cheguei eu para uma nova temporada e qual não foi o susto quando vi uma placa na casa verde: vende-se. Confesso que fiquei um tanto desanimada, pois já me acostumara a observar aquela família, em meio às brigas e agressões ao filho e ao carinho excessivo dispensado às meninas. Enfim, eles tinham ido embora. Em pouco tempo, vi colocarem uma placa na casa verde, já não era mais de vende-se: Dina Cabeleireira.

 

Ali surgiu um casal. Casal já de uma idade entre os quarenta. Ele com uma idade e os anos a mais na aparência que o mar dá aos seus navegantes, ela macerada, dura, nem tão feia. Na sala da frente ela montou seu salão. Entra e sai de carros e clientes da classe média alta da cidade – o que eu estranhava. Nem vestígios do jardim tão bem cuidado e sempre florido do moreno forte e dono de casa, ele havia se tornado um estacionamento para os carros das madames.

 

Quase na mesma época eu descobri onde se encontrava a família anterior da casa verde – agora na rua detrás, ainda mais perto da BR, numa casa sem reboco, mas com um jardim espetacular; Fábio sempre por lá com a menina no colo – com uma desprendida alegria. Porém, agora já não lhes observava o passo, a distância me impedia. De vez em quando ainda passo por lá. Por aí também surgiu a novidade: a tal Dina, a cabeleireira, estava grávida.

 

Eu não falo com nenhum vizinho, nem falava na época. Soube disso pela minha mãe que vez por outra conversava com uma vizinha amiga da tal Dina, uma velha que está (já naquela época estava) encolhendo – não só pela idade, mas por causa de uma doença, ela encolhe. Eis que boas coisas não se falavam, a idade da Dina já era avançada para uma gravidez. Ele era embarcado, ela com o salão, uma “imprudência”, uma “irresponsabilidade”, diziam as más línguas.

 

Cidade pequena, bairro distante e saúde precária. As previsões para aquela criança não eram as melhores. E ninguém pensava que poderiam ser ainda piores.

 

Em menos dos usuais nove meses, eis que nasce diante de problemas de saúde e complicações – tanto da mãe quanto da filha – nasce Vitória. (como frequentemente vemos, o nome foi principalmente pela “conquista” de chegar a este mundo – e eu sempre me pergunto onde está a “vitória” disso)

 

A alegria dos pais, casal já conformado em não poder ter filhos, era evidente. A menina crescia a olhos vistos, esperta, ligada em tudo e em todos, alerta, forte, robusta. Morena, cabelos escuros, sempre ali pela frente do salão, no colo da mãe, no carrinho e em pouco tempo tão grande já correndo e brincando com tudo. Apaixonou-se fácil pelo meu cachorro e volta e meia a via namorando-o à distância. Menina de uma curiosidade tocante (assim também fui). E eis que a família, um tanto diferente também, como a anterior, habitava a casa verde – agora já sem jardim.

 

Vitória tinha (e tem) alegria pela vida. Para os felizes, uma alegria contagiante; para os infelizes, uma alegria irritante. Menina comunicativa, levava e buscava as clientes da mãe, pela mão, até seus carros estacionados numa grama insípida onde antes havia um lindo jardim.

 

E o tempo, implacável e surpreendente como sempre, foi passando. A alegria de Vitória, com suas perguntas bobas e até inesperadas pela cerca do meu jardim, parecia a mesma. Eu não percebi nada.

 

E um dia eu volto novamente e reparo que na casa verde já não há mais a placa de cabeleireira. A casa parece triste, Vitória já não anda alegremente de um lado para o outro provocando os cachorros da rua. Eis que as más línguas se fazem presentes e alguém fala daqui que ouviu de lá que Dina havia morrido. Fora uma longa doença, apareciam umas perebas, não se sabia o que era – a agonia durou menos do que os menos de nove meses que trouxeram Vitória ao mundo. Para a morte, já se sabe, não é preciso tanto tempo. A morte está acima do tempo.

 

Vitória estava sumida. O pai estava presente – embarcado que era, passava longos períodos fora de casa. As más línguas faziam seu serviço e ainda enquanto Dina estava doente sussurravam que ela tinha AIDS (afinal, o que era aquilo que cada hora era uma coisa e ela definhava a olhos vistos?!). As más línguas, que não têm cara nem idade, murmuravam penas sem fim a uma menina tão novinha já sem a mãe, com um pai velho e ausente e uma mãe, bem, não era nem preciso comentários sobre o tipo de pessoa que pega AIDS.

 

Nenhuma dessas, porém, se dispôs a dar um caderno para a Vitória. Aliás, mal cumprimentavam a menina. No vai-e-vem da casa um dia vejo muitos balões nas portas e janelas e uma mulher abraçada à Vitória. Amiga da família ou parente distante, que agora se revezava nos cuidados com a menina – o pai preocupava-se com as “coisas de menina” que ela precisava saber. As más línguas, novamente, atiçavam e coçavam ao sugerir (porque as más línguas nunca indagam) o relacionamento de uma moça jovem com o viúvo dentro daquela casa. Era aniversário da menina Vitória, e eu pude ouvir aquelas vozinha estridente falando pelos cotovelos, rindo alto e comicamente, pude finalmente vê-la correndo de um lado a outro recebendo seus convidados. Todos ali faziam um esforço sem medida para que aquela menina voltasse a sorrir.

 

Num fim de semana, passou o “carro do picolé” e minha irmã comprou um monte (louca que é por sorvete e não tinha nada em casa). Quando o carro do picolé parou aqui, veio Vitória correndo porque também queria comprar. A moça que cuida dela deu algum dinheiro e ela voltou para casa com cinco picolés e aquela alegria que não custa nada. Cada um de nós chupava um quando minha mãe pegou alguns e levou para Vitória – há em certas pessoas, como minha mãe, uma alegria por ver a alegria alheia, que a motivam a alimentar a alegria dos outros para poder sorrir junto. “Quer, Vitória? Acho que não vamos comer tudo.” (às vezes os melhores gestos podem ser os mais mal interpretados, e minha mãe sabe disso) “Claro que quero! (com toda a desenvoltura deste mundo) E eu como tudo, pode deixar!” rapidamente começou a pegar com as duas mãozinhas aquele tanto de picolés, no mesmo momento a moça corria pegar uma bacia “Coloca numa bacia, Vitória, você não vai conseguir carregar tudo!” E a sofreguidão da menina parecia lhe responder “ora, se não!”.

 

Ontem ainda o pai de Vitória passou pedalando para um lado, ia ela falante, caminhando ao lado. Logo mais, volta pedalando o pai de Vitória, e logo ela caimnhando e falando aparece de novo. Foram e voltaram várias vezes. Já faz algum tempo que o pai dela tem ficado mais tempo em casa, talvez aposentdo, talvez em outro trabalho. Ela ri, brinca, inventa mil histórias e mundos ali sentada na grama quase inexistente – onde antes era um belo jardim e depois um estacionamento sem graça. Ela parece não perceber. Eu a observo, entre curiosa e pesarosa. Já ousei me perguntar que futuro terá Vitória… encerram-se vitórias na sua vida? Cidade pequena, bairro distante, falta tudo… o que isso pode reservar a alegre menina que ouço agora indagando seriamente o pai? Ela veio à vida diante de cenário tão ou mais aterrador e seu nome batizou sua conquista. Ela se salvará sempre das más línguas? Ou a alegria dela diminuirá sempre um pouco cada vez que se defrontar com elas? Viverá para sempre na casa verde?

 

Durante a semana, já em fevereiro, o movimento pela rua é quase nenhum (do jeito que eu gosto). É inevitável ouvir Vitória o dia inteiro. Sempre questionadora, efusiva, alegre, determinada. Ela incorporou-se aos meus dias, aos meus ouvidos. Já não sou a menina que observava o vizinho forte e moreno. Meus olhos a acompanham, robusta e morena, cabelos lindos, com um princípio de pesar que quer revelar-se em esperança, em fé. A vida a ser boa com Vitória.

 

E era a história de Vitória que eu queria contar hoje, porque senti assim uma alegria com um pingo de temor pelo futuro que aguarda esta menina que eu mal conheço, com quem troco poucas palavras e olhares. A vida dela não faz nem fará diferença nenhuma para nenhum de vocês e talvez ela já nem esteja mais aqui quando eu voltar – e talvez eu nunca mais venha a saber dela. Hoje eu queria falar dela, como quem fala de si sem ser egoísta.

Pessoas que almoçam ao meio-dia

 

Sabe, eu nunca fui pra balada. É, nunca saí pra “night” (o povo do interior gosta de falar assim, né?). Vejam vocês, janeiro, alta temporada (só não posso listar “calor”), sexta-feira à noite e? Estou aqui escrevendo. Emocionante, né? Pois é, acho que é. Ou não, sei lá.

 

Eu gosto do silêncio. Eu gosto de ficar sozinha. Agora a pouco me senti meio sem rumo – certo, isso frequentemente acontece. Estou no meio de mil coisas que eu gosto e que quero fazer e? Me sinto sem rumo, sem vontade pra nada do que está acontecendo. E por quê? Bem, quem souber a resposta me avisa. Não faz sentido. Mas eu gosto do que não faz sentido.

 

Já me irritei algumas vezes hoje. Com trabalho (quando me deparei com algo que eu sei como é, não é bom mas terei que encarar de qualquer jeito), com esse, com aquele, com tudo. Até com as pobrezinhas das peludas. Mas é assim, estou um porre hoje. E daí só eu me aguento.

 

Aí li, dormi no sofá, abandonei tudo. Passei uma parte da tarde enrodilhada na coberta no sofá, entre dormitar e ouvir música. E quando me dei conta (ou seja, quando vi que ainda pertencia a esse mundo), pensei: era tudo o que eu precisava! E era mesmo. Aí, depois disso veio a história da falta de rumo.

 

Aí liguei a TV, assisti a novela, resisti a matar a fome (pelo menos hoje não veio o desejo insano por azeitonas que tem me assaltado nos últimos dias – o qual eu tenho saciado toda vez que aparece. Não venham com bobagens, claro que não estou grávida.), deixei a TV no mudo com a tecla SAP (acho isso divertido) e voltei a ler o italiano chato. Quer dizer, chato não. Não, não, é chato mesmo. Só porque sou mais chata que ele, terminarei de ler o livro e não o abandonarei antes disso.

 

Viram? Sou chata, sou velha.

 

Aí, ali lendo, dando uma espiada no SAP, puf! Bato sem querer no controle e desconfiguro a TV. É, sem TV, ponto pra mim. Aí me irritei, pô, eu queria mesmo assistir TV. Ah, o italiano é chato. E, sei lá, internet uma fada sem madrinha, as peludas brincando pra cá e pra lá e nem me convidaram. E eu ia o quê? Ficar com o italiano? Este maldito é como aquele tio sem razão que quase nunca te vê, tu aguenta uma meia dúzia de pergunta antes de escapulir atrás de um brigadeiro como se fosse pela tua vida (pra quem me conhece sabe que eu não gosto de brigadeiro).

 

Aí ligo pra mãe, pro pai e pro espírito santo pra saber como arrumar a TV. Dramalhão que ninguém atende telefone. Quando um atende já solto os cachorros por não atenderem o telefone. Pô, não façam isso num dia como hoje! E desligo sem saber como configurar a pobre amiga. Banho? Janta? Banho frio não dá (não tô conseguindo mudar o chuveiro pro “inverno”, aí já é sacanagem), sopa de feijão com um monte de alho (calor, frio, calor, em janeiro? a velha se previne). Pô, tá difícil. E o italiano ali jogado no sofá com aquela cara estapafúrdia dele.

 

Pode esperar querido.

 

E estou irritada mesmo com as pessoas que almoçam ao meio-dia. Mas como?! Que doença é essa? O relógio bate meio-dia, parece que o buraco no estômago dessa gente desperta e grita. Não entendo esse povo. Eu nunca almoço ao meio-dia. Pior ainda quem consegue almoçar às 11h30. Só podem ser doentes. Nem quando eu estudava de manhã (foram muitos e muitos anos, acreditem. quer dizer, ir eu não ia muito não) eu conseguia almoçar meio-dia em ponto. Acho que são ETs, se estão no telefone, trabalhando, dirigindo, largam tudo e entram no primeiro restaurante que vêem, sentam à mesa e precisam comer. Isso não pode ser normal, não pode ser ser humano. Tô achando mesmo que são ETs. E desconsidero quem comparar isso com a minha falta de rumo. Quem tentar insinuar isso eu bloqueio em todas as redes sociais e mando o e-mail pra spam, hein!

 

Sexta-feira, eu aqui escrevendo. Meus leitores por aí na balada, viajando, namorando, fazendo aquelas coisas que, olha, é melhor eu nem dizer por aqui senão terei que auto-censurar o blog – só para maiores de 25 anos.

 

Já contei pra vocês que nunca fui pra balada? Pois é. Dizem que pra tudo sempre tem a primeira vez. A gente sabe que é mentira, né. Tem um monte de gente aí que morre sem a primeira vez de muita coisa. Tem coisa que a gente ate dispensa a primeira vez. Pois é. Agora tô meio “pois é”, repararam? Pois é.

 

Um dia, uma amiga quase, quase me levou pra balada. (mas, pô, não me vem com esse negócio de sertanejo analfabeto ou bate-estaca) No fim, não fui. Tem um monte de coisa que eu nunca fiz. Pois é. E a vida está boa, tudo do jeito que eu queria. E eu fico sem rumo pra pensar que pode estar bom, mas pode ser ainda mais diferente, pode ser inédito, pode ser mais. E eu lá sou mulher de me acostumar com o bom? E minha falta de rumo me fez até me perguntar: quem vai me levar pra balada? Porque é assim, tô precisando fazer algumas daquelas coisas que nunca fiz. Tá afim?

Pós-guerra

 

Já faz tempo que sou “velha”, porque a vida correu e pra não piorar o que já era ruim eu corri atrás. O ceticismo, a ironia, a desilusão mantiveram apagadas muitas coisas que não tiveram seu tempo nem seu lugar na minha vida. Poucas (boas ou más) reações derivavam da surpresa.

 

De velha pra chata é um passo. E qualquer um que me conhecia, pouco ou muito, percebia isso. Apesar de uma alegria fugidia que parecia negar tudo isso. Só parecia.

 

Não falta juízo, experiência, nem um monte de coisa.

 

Porém, como eu disse nos últimos posts, tenho pensado muito. E eis que uma coisa grande e simples, mas tão sutil, me fez pensar que eu tinha uma idéia errada.

 

A guerra. Sim, a guerra. O exemplo surgiu da guerra real, aquela de combate, entre nações ou ideologia, a luta armada. A guerra em si é um exercício devastador, destruidor. Nos locais dos combates há morte, fome, destruição, medo, excessos de ambos os lados. Os povos dos locais onde elas ocorrem fogem ou ficam e tentam se esconder. É um tempo de privação e mudanças. Fácil dizer que é uma coisa ruim, que estraga mais do que beneficia. O período de guerra é o prato principal de muitos livros, é objeto de cobiça de historiadores, programas de TV e o cinema se deleitam entre a ficção e o documento.

 

A coisa, então, assim se apresentava pra mim. A “guerra” pode ser, também, todas as nossas batalhas contra pessoas, instituições ou “problemas”. Entramos em guerras no sentido figurado. Usamos a guerra como uma metáfora, pois consideramos esta guerra a nossa guerra, usamos todas as relações: nos armamos, planejamos, atacamos os inimigos.

 

Contudo, a surpresa se deve ao perceber que a guerra em si, o período de guerra não é o cerne da questão. Neste caso, o que realmente conta, o que faz a diferença é o pós-guerra. A modificação que a guerra causa nas pessoas, como os lugares (no caso da guerra literal) ficam depois da guerra, as trocas que ocorrem entre os exércitos, o “mundo expandido” é que é o efeito da guerra. O durante importa muito pouco ou quase nada. O efeito daquele período, as consequências, é que dirão a que veio tal guerra.

 

E assim é também com a guerra metafórica. Nós nunca somos os mesmos depois que saímos de uma guerra. (lembram os relatos, filmes e livros sobre ex-combatentes das guerras literais?) Os comandantes e os líderes se preocupam demais com o desenrolar da guerra, sem perceber que o que vem depois é a verdadeira guerra.

 

Por isso, antes de entrar na guerra, não pese apenas as estratégias, as armas, as munições, a força do inimigo. Pense se você está à altura de aguentar o que virá depois, porque o combate embota os sentidos e as emoções, mas na hora que a poeira baixar, na hora de contar mortos e feridos e retirar a tropa os olhos vão voltar a enxergar, inclusive aquilo tudo que você fez e sofreu durante o combate.

 

Era isso, talvez, que eu ainda não tinha percebido. Como eu disse, é sutil, muito sutil. Tão sutil mas ainda mais importante. O silêncio que reina justifica a importância dessa percepção. A sutileza ao tocar no assunto é tão delicada posto que é, de fato, algo difícil e delicado em si.

 

Talvez você, querido leitor, já soubesse disso e perdeu seu tempo lendo. Pois bem, a velha aqui não. E o desassossego do blog é feito disso. Fico, na contramão, pelo menos satisfeita porque não sou totalmente imune às surpresas. Ainda me falta um pouco da “velhice”. Ainda bem.

 

 

Blog no WordPress.com.

Acima ↑