Memória e lembrança no Ribeirão

 

Na semana passada, numa aula discutíamos a memória e a lembrança. A professora perguntou qual seria a cristalizada e qual a fluida. A memória é a cristalizada, fixa, dura. A lembrança é a fluida, a intangível. Quando eu havia me deparado com a questão no texto imaginei uma fotografia de alguém: a fotografia é o instante, a memória fixa, cristalizada, palpável da pessoa; as lembranças são aquilo que eu sinto toda vez que olho para a fotografia, os momentos que passei com aquela pessoa, a saudade que eu sinto, a reconstituição do momento no qual a fotografia foi tirada.

 

E eis que a memória e a lembrança pregaram-me uma peça.

 

Participei novamente este ano da Maratona Fotográfica de Florianópolis. Aí já se vão alguns anos participando. Já ganhei por foto, não pelo conjunto, uma ou outra vez. Não participo pela competição. Não sou, de modo algum, competitiva.

 

Participo, enfim, pela maravilha de poder redescobrir a Ilha a cada ano por uns dois dias. As surpresas que se encontram nos meus lugares tão conhecidos é que valem a pena.

 

Este ano não foi diferente. Tive boas e deliciosas surpresas, me senti transportada para o século XVIII, conheci pessoas especiais, etc.. Mas sobre a memória e a lembrança tive um momento singular e até certo ponto indescritível.

 

Digamos que as lembranças não possam ser ditas. Podemos até tentar descrevê-las e quem tomá-las para si poderá transformá-las em memória.

 

Andando pelo Ribeirão passei por uma rua que não conhecia. Eis que surge uma placa sobre o tal picolé da dona Nair Falcão (a lembrança me embota agora e não sei se é Nair mesmo o nome) que há cinquenta anos delicia o Ribeirão, a receita legítima. Fiquei intrigada, obviamente. Havíamos almoçado e um picolé num dia ensolarado pareceu tentador, além da curiosidade (minha) de conhecer mais um personagem da Ilha. Lá fui eu.

 

Uma senhora bem senhorinha atende e diz que tem de coco ou de chocolate. Pedimos dois de cada, eu escolhi coco. Dois reais cada um. No meio tempo de catar dinheiro para a senhorinha não precisar dar troco, pego o picolé e já experimento. Fico calada e parada. Minha irmã também abre o dela (de chocolate) e experimenta. Em seguida ela me olha. Sim, eu estava ali parada, sem palavras. As lembranças podem ser indizíveis. Mas minha irmã sempre consegue dizer tudo e solta “é o da vó!”. Talvez não tanto exclamação mas mais constatação. Era essa a constatação que meu paladar havia enviado para minha lembrança. Eis que aquele picolé, memória cristalizada de uma receita que eu conheço desde que me entendo por gente, revirou o meu mundo das lembranças. E eu não pensava, não dizia, apenas sentia e lembrava. A exatidão do sabor era chocante. Minha avó foi e sempre será única. Tudo o que eu lembro dela também. E aquela senhorinha que, apesar de ser uma velhinha, não lembrava em nada minha avó fazia um picolé que está materializado na minha memória, que é um pedaço da minha lembrança. Não senti regozijo, nem felicidade. Algum tipo de angústia talvez.

 

Fiquei ali, quieta, sem conseguir entender, chupando aquele picolé que pra mim sempre foi o melhor. Eu mesma já fiz esta receita algumas vezes, mas já faz algum tempo que não tenho feito. Era algo que não deveria ser tão desestruturador. Mas me senti perdida. Tentei encontrar uma explicação lógica: se eu perguntasse a idade da senhorinha, poderia comparar com a da minha avó e ver se seria, então, uma receita difundida na época, muito antes do surto de freezers kibon. Aí percebi que essa tentativa de explicar pelo conhecimento, pela razão, não fazia o menor sentido diante do que eu estava sentindo. Parei na sombra e terminei meu picolé ao lado da minha mãe, mais emotiva que eu.

 

A memória prega peças. A lembrança não só prega peças como nos deixa desconcertado diante da memória, daquilo que cristalizou e que mesmo assim talvez não seja passível de ser dita. Uma receita anotada num papel pode constituir-se memória, mas será apenas uma receita num pedaço de papel.

 

Claro que fiquei esperando “entender” (na verdade o termo não cabe aqui porque seria mais um entender sem a lógica) o que tudo isso significava. Estou num momento “sinais” e acredito muito nisso. Acredito mais do que entendo. Isso é fundamental. Não sei se entendi. Só sei que no mesmo momento a aula sobre memória e lembrança fez ainda mais sentido. Eu conseguia, afinal, explicar o fato. Mas foi só.

 

Enfim, e estiver passando pelo Ribeirão, desça a rua da Igreja Nossa Senhora da Lapa à direita. É tudo o que eu posso compartilhar.

 

 

Os bons e os maus exemplos do nosso Litoral

Tem quem frequenta o litoral apenas no verão. Eu não.

Moro na Ilha, frequento o litoral inclusive no inverno, quando ele se mostra tão introspectivo e prazeroso.

Santa Catarina tem um belo e diversificado litoral. Infelizmente uma parte dele é negligenciada pelo poder público; e, sabemos, a ignorância popular tão imensamente difundida no nosso país faz com que todos os lugares, cidades ou praias, sejam negligenciados pela população.

E é fácil ouvir turista e veranista reclamar da infraestrutura. É fácil. É fácil todo dezembro os jornais fazerem as mesmas reportagens sobre os problemas que o nosso litoral enfrenta.

Falta infraestrutura em todo lugar.

É com pesar que eu observo muitas coisas no nosso litoral (frequento e viajo por uma parte dele). Mesmo assim, podemos encontrar bons exemplos. No entanto, alguns bons exemplos, alguns cuidados básicos, podem ser barrados pela ignorância da população e pelo descaso público. Leviano é você que quer culpar o governo por tudo de ruim que acontece e existe; foi assim que a História Política ressurgiu: colocou-se sobre a Política a responsabilidade de tudo. Não se exclui da culpa o cidadão – e não o digo pelo senso comum “quem elegeu os políticos fomos nós, portanto somos também culpados”. Tanto na ação quanto na omissão está a culpa e a responsabilidade.

Considero tentador dar algumas alfinetadas sobre esse assunto naqueles que se consideram totens do bom mocismo e do cuidado com tudo e todos. Vejamos se conseguirei me controlar.

Um exemplo que eu lamento muito é a Penha. Uma pérola natural do nosso litoral norte, com uma vegetação ainda preservada e bem provida pela natureza que lhe deu encantos sem fim com praias de todos os tipos. Penha hoje está com a quase totalidade das suas praias com água imprópria para banho. E não é de hoje. A Praia Alegre, que já sofreu com a perda da orla e foi “reformada”, com águas pacatas, tranquilas, típica “praia para crianças” – onde, aliás, passei muitos verões – está podre. O cheiro fétido é nauseante e não permite nem que se fique na areia. Não há nenhum ponto próprio para banho atualmente na sua faixa de areia. Ano passado fui, desavisada, tomar banho lá. Em poucos minutos dentro da água comentamos sobre um cheiro ruim, de podre, no ar. Percebemos que a água sob nosso nariz é que fedia. Ela está assim há mais de um ano! Nada foi feito! Naquele mesmo dia pudemos perceber cerca de mais de dez cães na areia. A praia conta com banheiros químicos e chuveiros, o que deveria contrariar a tal qualidade da água. Aliás, todas as praias da Penha, inclusive a afastada Praia Vermelha, possuem chuveiros.

A Praia da Armação, inclusive a do Trapiche, e a Praia de São Miguel estão totalmente impróprias. Não é raro ver construções irregulares, cães, lixo, tudo que se posso imaginar. A Praia de São Miguel é linda, mas já sofre com essa sujeira a muitos anos, pois quando lá estivemos uma vez até tivemos casos de problemas na pele. É fácil se perguntar: mas cadê a Prefeitura?! E eu observo e digo: e por que cães na areia? por que todo esse lixo espalhado? por que você que tem casa aí não cuida do seu esgoto?!

Casos assim também ocorrem na Ilha. Sabidos são os pontos onde é impossível entrar na água do mar. Nos Ingleses tem um esgotão que sai no meio da praia, a lagoinha do norte é parcialmente suja, Canasvieiras, então! E o Sambaqui, Santo Antônio e Cacupé, área nobilíssima da Ilha? Por que as casas nobres e caras não cuidam do seu esgoto para que possamos ter uma orla (que já não tem areia como uma praia) ao menos limpa? Uma vez por lá, observei uma cena: no caminho do Sambaqui, numa entrada que dava acesso à areia, um carro estacionado em cima da vegetação. Olho mais adiante, uma criatura do sexo feminino sentada em direção ao sol nessas posições de meditação ridículas, com seu cachorrinho-pelúcia andando e defecando pela areia. Quão estúpida é essa cena? A criatura visivelmente alternática, com roupinhas pseudo-hippie e carrão importado. O que adianta um ser desses meditar e bater palmas para o sol? Se o sol pudesse, garanto que a teria fuzilado.

Eu defendi aqui, num post anterior, a construção da passarela do Essence na praia do Campeche. Justifiquei e houve até tentativas de pessoas ignorantes de ridicularizar a idéia. Pois bem, alguém que tenha o mínimo de conhecimento e percepção de mundo consegue concordar na construção de passarelas de acesso à praias como a do Campeche, com a quase totalidade da vegetação natural e até dunas preservadas. Não é preciso ir longe! A belíssima e extensa orla de Navegantes, aqui no nosso litoral, é um exemplo ate clássico disso. Em toda a sua extensão há passarelas que passam, sem prejudicar, sobre a vegetação e a areia e permitem o acesso à praia e a preservação. As duas coisas andam juntas. A ignorância, ali, é coibida o tempo todo e praticamente não se vê pessoas desconsiderando as passarelas e se embrenhando no meio da vegetação. Houve até uma tentativa de argumento de que na Ilha (Ingleses e Jurerê) as passarelas não eram usadas pelos cidadãos, o que ocasionava, do mesmo modo, a destruição da vegetação. Mas, vejam bem, então não vamos colocar passarelas porque as pessoas ignorantes não vão usá-las?! As passarelas deveriam existir em mais uma dúzia de praias, no mínimo! Como as trilhas da Ilha deveriam ter, pelo menos, uma estrutura básica de placas e territórios de parques e afins delimitados! Então porque as pessoas não respeitam não devemos nem fazer leis, não é mesmo?

Por isso que eu frisei que a ignorância das pessoas anda de mãos dadas com a negligência do poder público. O Campeche precisa de passarelas (só caminhar sentido sul saindo da Pequeno Príncipe e ver os “caminhos” pavorosos que estriam as dunas e a vegetação, onde inclusive há o vestígio humano mais deplorável: lixo). Jurerê também. Ingleses também. Daniela também. Galheta também. Piçarras também. E muitas e muitas outras praias do nosso litoral. Quanto mais intovado ele estiver, mais e mais rápido é preciso colocar passarelas. Pois senão não sobrará muito depois. Ela “liberdade” e “acessibilidade” que a praia possui no nosso contexto é que autoriza o descaso: qualquer um pode ir à praia; mas pouquíssimos cuidam dela como se deve. Eu cheguei a citar aqui no blog a proibição, em praias estadunidenses, de fumar à beira-mar; pois o toco do cigarro é uma sujeira minúscula e danosa, e foi o que fez Jurerê perder deu selo Azul ano passado. E aí as pessoas contra-atacam levantando as bandeiras da liberdade, do livre-arbítrio e o escambau que nem um pouco me interessa, para justificar que todos podem tudo. Pois não deveriam poder. Se não tem educação, bom senso, princípios básicos de higiene e respeito com o que é coletivo, não deveriam poder sair de casa. Simples assim.

Mas aqui é Brasil. Então devo me conformar com isso? Óbvio que não, deixo o conformismo para os fracos e ignorantes.

Não quero infraestrutura para os turistas. Não quero acessibilidade através de escadinhas para a praia porque eu não quero subir e descer pedras. Quero preservação. Eu cuido dessas belezas sem fim que eu tanto gosto de aproveitar e observar. Eu tenho educação. Eu cuido do meu lixo. Coisas que parecem tão bobas. Uma passarela, coisa que parece tão barato e simples. E são. São coisas bobas, são barato, são simples e infelizmente não vemos por aí!

É fácil reclamar. É fácil ser saudosista e bicho-grilo e querer fazer defesinha naturebóide de pseudo-esquerda infantilizada e sem razão. É fácil. O que parece difícil é ser cidadão, defender, querer cuidar, ser racional, realista e pensar pra frente. Difícil, pra mim, é admitir ignorante. É ver gente suja e irresponsável por aí. Isso pra mim é quase insuportável, porque se eu chego e chamo a atenção de um ser desses posso ir parar num hospital.

Esses dias, estava na praia, saindo do mar, quando vejo duas crianças pequenas brincando de jogar canudos de plástico na beirada do mar pra onda espalhar. Os pais deles estavam lá na areia, sentados e nem aí. Eu parei, chamei a atenção e tive que severamente explicar que aquilo sujaria o mar, que não era brinquedo e esperei até que eles ajuntassem todos os canudinhos e jogassem (não sem uma cara amuada) na lixeira.

Porque a educação está assim, relegada a ninguém. Ninguém se importa mais com nada. Quem vai se preocupar com passarelas, sujeira na areia, esgoto no mar? Quem? Eu me preocupo e faço a minha parte. Mesmo que por vezes seja defrontada (com frequência) pela ignorância e pelo descaso. Até pela ironia. E tudo isso independente do voto no dia da eleição. Nós, brasileiros, temos tanto o costume de discutir eleição porque não temos tudo o que vem antes. Se o povo se preocupasse e cuidasse da educação, da higiene, do respeito ao coletivo e ao próximo, nós não teríamos que nos preocupar com político negligente ou corrupto. Mas é mais fácil colocar a culpa na politicagem. Assim, sentam-se cômodos nas suas poltronas da sala de estar com TV a cabo.

 

Bom exemplo mesmo é o meu amigo que guarda todo cigarro que acabou de fumar (devidamente apagado) no bolso da bermuda, onde quer que ele esteja. E ele não me contou isso, eu o vejo fazendo sempre. Tão simples.

O Big Brother, a novela das 19h, a covardia e os seus julgamentos

 

Essa semana eu pensei várias vezes em escrever um post sobre uma personagem da novela das 19h da Globo. Mas como o assunto passava perto (bem perto) de questões pessoais, eu relutei. Além do mais, alguns torceriam o nariz e diriam “mas você assiste novela?” ou coisas semelhantes. Aí me ocorreu um post um tanto mais descontraído sobre esses rótulos, justamente. Porque coloquei o disco de vinil da Angela Rô-Rô para tocar e pensei: um monte de gente já diria “essa aí é sapatão, ouve Angela Rô-Rô”. Como se o que eu ouço ou o que eu assisto determinam o que eu sou ou até o que eu faço da minha vida sexual.

 

Pois bem, acho que juntei tudo isso neste post que culminou com o Big Brother. Sim, o tal BBB. Se já torceriam o nariz ao me verem falar em novela, imagine em Big Brother, né? Pois é. Isso que eu vou contar para vocês que li a Veja ontem. Sim, podem pensar o que quiser. Li a Veja sentada em frente à TV sem som que passava o Fantástico e parei para assistir o Big Brother. Perdi a sua amizade por isso? Pois então não me fará falta.

 

Porém posso dizer que ouvi Norah Jones e li Stendhal antes de dormir. Nesse meio tempo vi e li muitas coisas. Porque se você me julga por isso, querido, precisa conviver vinte e quatro horas comigo para poder fazer um bom julgamento. E ainda assim este será deficiente. Aliás, você não suportaria esse tempo todo convivendo comigo, ouça o que eu lhe digo, não é fácil.

 

Mas as pessoas gostam de tentar te rotular, de tentar te atacar só porque ele acha que você é pedante porque vai para a aula com uma dúzia de livros debaixo do braço, mas quando chega junto pra que você dê para ele, aí você descarta. E aí chegamos ao assunto do começo.

 

Na novela das 19h da Globo, “Aquele Beijo”, a personagem da Giovana Antonelli, Cláudia, está em processo de separação do seu já ex-esposo (eles já não vivem mais sob o mesmo teto pois Cláudia decidiu separar-se após ver sua mãe ir presa inocentemente por conta de falcatruas do pai do personagem Rubinho, na época esposo de Cláudia e que sabia o que estava acontecendo, mas que não contou para ela). Houve separação de corpos e ela entrou com o pedido formal. Rubinho, no entanto, disse que não aceitava a separação (e aqui eu me pergunto: o que há para aceitar se a separação em si já é um fato?) e que teriam que seguir no litigioso.

 

Pois bem, situação mais comum do que a gente pensa. Mas, mais comum ainda é a sequência das ações de Rubinho. Citarei três: num capítulo, Cláudia está chegando em casa e ele surge ao lado da porta do seu apartamento, insistindo para entrar e questionando onde ela estava. Cláudia se assusta, barra a entrada da porta e diz que não lhe deve satisfação, afinal não está mais com ele. Bem interpretada por Giovana, a personagem fica visivelmente abalada e assustada, contudo ela, ao entrar (fecha a porta rapidamente para que o ex não entre) e encontrar com a mãe que agora mora com ela, não lhe conta nada; num capítulo seguinte, Cláudia está no primeiro encontro com o engenheiro que ela conheceu numa obra, eles estão num restaurante jantando quando do nada surge o ex, Rubinho, pergunta quem é o “cara”, diz que ela não pode fazer isso e numa primeira atitude agressiva, esfrega a cara do engenheiro no prato de comida, sendo retirado à força pelos seguranças, o engenheiro sai logo em seguida culpando-a por ter um ex assim e ela fica lá jantando sozinha; no capítulo seguinte, após contar para a mãe o que ocorreu (ela tenta erguer-se do fim de um relacionamento que durara anos), a mãe tenta encontrar justificativas para o ex, dizendo que é natural que ele sinta-se como dono de Cláudia pois eles tiveram um longo relacionamento e homens sentem-se assim, Cláudia, porém, não aceita essas palavras e ainda conclui que está sendo seguida por ele. Logo em seguida vemos Cláudia ao telefone, no seu lugar de trabalho que é a obra onde conheceu o engenheiro, o qual pede sua demissão pelo ocorrido. Eis que entra Rubinho e faz as perguntas descabidas sobre quem era o homem que estava com ela, que ela era dele e coisas afins. Cláudia se nega a concordar com ele e ainda tenta mostrar que ele causou um problema profissional para ela, ao que Rubinho a agarra com as duas mãos e diz palavras agressivas, diante do susto e do medo, Cláudia fica paralisada. O escândalo chama a atenção dos operários que se colocam para defender Cláudia, assim Rubinho vai embora.

 

O texto do Miguel Falabella é muito bom e me parece que esta sequência terá ainda um crescente. Um crescente, creio eu, um tanto familiar. Como eu disse, é algo pessoal, já passei por isso. Pensava em escrever aqui pedindo que meus leitores dessem uma atenção especial às notícias diárias sobre exs que matam, sequestram, assediam, agridem as mulheres que ousaram dizer “não, não quero mais”. Não são poucas, tenho certeza. São muitas mais do que podemos imaginar. A situação em si já é grave, mas mais grave ainda é não denunciar. É calar-se. Você cala por vergonha, por susto, por medo. Se você se vê como uma mulher dona do seu nariz, como pode se ver numa delegacia dizendo a um policial que quer fazer um BO porque tem um homem lhe perseguindo? Parece simples, mas não é. Lhes garanto que não e compreendo o silêncio dessas mulheres. Como Cláudia, muitas vão tentando ignorar, sentem medo, esperam que aquilo acabe por si, que o idiota acorde num belo dia e a esqueça para todo sempre. Isso, infelizmente, não acontece em muitos casos. E diriam, como a mãe de Cláudia: homens são assim. Pois então o problema são eles, quem precisa de cura ou de solução são eles: nós não. Mas quem precisa se rebaixar e ir a uma delegacia (onde normalmente nada é feito e só alimenta a frustração) somos nós. Nós?

 

Há a esperança que lhe prende e não lhe permite tomar uma atitude mais severa. Há uma ferida no ego ter que desprender-se de si para rebaixar-se ao nível de que aquilo que o outro faz não é correto nem bom. O homem? Primeiro há o desespero e as atitudes ligadas a isso; depois há a percepção de que a rejeição é real, e aí o pior que há no sexo masculino transborda: a covardia e a agressividade. O homem se ampara na sua “natureza” como disse a mãe da Cláudia para justificar a covarida diante daquilo que não vai mudar e como já não há nada mais a ser feito ele só consegue agir, o que significa violência e agressividade. É o velho “tomar à força”. Homens são repugnantes por isso. Mas, mas, mas… dirão que estou generalizando.

 

Enquanto a mulher sente-se impotente o homem usa de toda a sua “potência”.

 

E aí eu vou ligar diretamente com o Big Brother. Programa da mesma emissora que já faz e ainda faz (para desgosto de muitos) muito sucesso no Brasil. Acho de uma hipocrisia sem tamanho quem hoje tanto critica mas já foi lá seu fã. A esmagadora maioria dos brasileiros já assistiu alguma temporada do Big Brother. No começo, acho que a curiosidade e o estrondo levaram muitos de nós a assistir. Porém, hoje muitos assistem porque querem ver barraco, putaria e coisas afins. A própria produção do programa deixa claro que visa isso. A escolha dos participantes (não é quem quer ganhar um milhão de reais e por consequência aparecer, é quem quer aparecer e por consequência ganhar um carro ou dinheiro), as festas regadas a muito álcool, o número reduzido de camas, as intrigas. O nível moral do Big Brother foi sendo construído ao longo de algumas temporadas, somou-se o que o povo mais gostava de ver com o que os participantes ofereciam. Bem, diante desta equação é óbvio que o resultado foi o mais baixo e constrangedor possível. Se eu estivesse lá, provavelmente não haveria sexo em frente às câmeras; se você estivesse lá, provavelmente não haveria mentiras. Por isso, eu e você não somos escolhidos para o programa. Simples assim.

 

Diante destas colocações, não há boas coisas à espera. Contudo, o ser humano é foda. (desculpem-me pelo palavrão, ele foi necessário)

 

Ontem a internet pulsava frenéticamente acerca de o que foi chamado de “estupro” e aí muita coisa foi exigida (as massas, na internet, exigem alguma coisa?) e escrita. Resumindo: uma participante (catarinense, por sinal, mas que eles chamam de gaúcha porque mora em Porto Alegre, Monique Amin (!)), bebeu, bebeu e bebeu na festa – ou seja, fez seu papel – e caiu na cama apagada. Logo, um rapaz que só sei o nome, Daniel, deitou ao seu lado e nitidamente teve algum tipo de contato sexual com ela (debaixo dos tais edredons). Se foi masturbação, se foi bolinação, se houve ou não penetração (li em algum lugar algo assim “nem houve sexo, os dois estão o tempo todo de lado” – oh, wait! que tipo de vida sexual tem uma pessoa que diz isso?!), não se sabe nem se saberá. O que se sabe é que a tal Monique de nada participou conscientemente. Poderíamos saber a verdade caso o tal Daniel fosse uma pessoa correta e sincera, porém, tudo já demonstra o contrário.

 

A Globo, que não é boba nem nada e sabe que internet só é para poucos, ainda, fez seu procedimento normal, chamou a Monique, fez suas perguntas e, não pasmem, continuou como se nada tivesse acontecido. Não houve estupro (e a discussão jurídica acerca da coisa foi enfadonha), tudo continua como antes, a moça disse que sabia o que estava acontecendo. Aham… sabia. Sabia tanto que foi perguntar para o tal Daniel e questionou uma colega “será que eu fiz?”. Ah, o Daniel… a resposta dele: você fez alguma coisa que não queria? Ela: não! Então está tudo bem, diz o rapaz.

 

Homens, não é mesmo? Eu assisti o programa à noite curiosa por como a Globo apresentaria a questão. Uns seis segundos da cena do edredon, um “o amor é lindo” dito pelo velho ridículo Bial, as perguntas de uma Monique que demonstra estar completamente alheia ao que aconteceu e uma cena em particular: o tal Daniel agarra com força uma moça (que eu obviamente não sei dizer quem é) durante a festa, puxando-a ao encontro do seu corpo e forçando um beijo, ela não gosta, tenta se afastar, nega, vira o rosto e diz “me deixa ir, pode me largar?” algo assim.

 

Esse Daniel não é bonito. Ele é feio. Não que isso importe para a maioria dessas mulheres que vão para a balada. Ele demonstra claramente que está no Big Brother com a cara dizendo “aqui vou pegar muitas, afinal o programa quer isso: todos se pegando”. Somente pela atitude dele com a moça durante a festa já diz quem ele é: mais um homem idiota, desses não faltam no mundo. Ele é um homem idiota que acha que toda mulher deve lhe dar. Sim, “dar” no sentido sexual. Porque os homens são assim. Eles cresceram assim, você os educou assim. Você, pai e mãe ausentes e irresponsáveis, nunca chegou para ele e mostrou que não era assim.

 

Eu tenho fatos pessoais sobre essas questões, e você, mulher, que me lê, pare um instante e puxe pela memória, certamente também encontrará alguns. Eu disse “não” a alguns homens. E vi a cara que não compreendia isso, como se para eles as mulheres fossem feitas para simplesmente obedecê-los. Bem, tenho um histórico ruim porque nem aos meus pais eu obedecia. Não seria a um marmanjo que acha que eu tenho que dar pra ele que eu obedeceria.

 

O Rubinho, lá da novela, é um personagem. O Daniel é um cara aí, normal. Poderia ser seu filho, seu namorado, seu pai.

 

Daniel foi rejeitado. Por beleza física ele está abaixo de muitos ali e talvez as mulheres (que também não são lá muito bonitas) não lhe dessem chance. O que ele fez? Seguiu o processo e agiu – com covardia e uma dose de agressividade. Agressão não é unicamente dar um murro na cara do outro, a agressão vem de muitas formas, pois se ela se apresenta até em palavras, por que não seria agressão manipular o órgão sexual de outra pessoa enquanto ela dorme? O covarde utiliza-se da agressão para sanar sua nulidade, e aí podem ser palavras, perseguições, o uso da força, a manipulação, a chantagem física e psicológica, etc..

 

Eu poderia contar uma dúzia de fatos para vocês, assim tornaria mais íntimo e pessoal o post, porém, não adentrarei neste nível de relato porque o ego fala mais alto. Bastam estes exemplos, de uma mesma emissora que usa suas novelas para condenar abusos e educar a população (os autores mesmos gostam de dizer que incentivam doadores de medula, que incentivam mulheres a denunciar casos de agressão familiar, etc.) e ao mesmo tempo dá ao povo aquilo que ele gosta, no nível que ele gosta.

 

Foi inevitável que ontem, ao tirar a colcha da cama, ainda um tanto chocada pela edição do programa do Big Brother, com o Stendhal debaixo do braço, eu lembrasse carinhosamente de Nelson Rodrigues já citado aqui no blog: se todos soubessem da vida sexual de cada um, ninguém falaria com ninguém. Nelson tem outras grandes análises do ser humano (o complexo de vira-lata, a burrice da unanimidade, dentre textos que relatam com detalhes sórdidos personagens nesses níveis que, caso fossem pessoas do nosso conhecimento, não teríamos coragem de falar com elas). E você tenta descobrir minhas opções sexuais através da música que eu ouço. Francamente! Você passa longe, bem longe, do Nelson Rodrigues.

 

Você tenta julgar meu caráter pelos programas de TV que eu assisto. Minha cultura e nível de conhecimento avaliando se eu leio Sidney Sheldon ou assisto Godard. Você aí que pode ser um homem dos mais clássicos, um Daniel. Ou você que está com a aliança no dedo, namorando ou noiva, de um… Daniel. (talvez você já desconfie que ele é um Daniel, ou ainda não tenha a menor idéia disso e provavelmente só vai descobrir tarde demais)

 

Confesso que a primeira coisa que me ocorreu sobre o caso do Big Brother foi que não havia nada de mais na situação, pois isto acontece todos os dias, em baladas e festinhas no mundo inteiro, todos os dias. Você mesmo talvez já tenha participado de uma dessas (eu nunca participei de festas ou baladas, por isso nunca vi com meus belos olhos castanhos, mas, né, felizmente tem coisas na vida que não precisamos ver para crer). Moças bêbadas (beber até perder os sentidos é um atestado de “você é boazuda/o” no mundo) que caem inconscientes no meio da festa e rapazes que (muitas vezes também bêbados) abusam delas é tão comum, só não saem nos noticiários como as mulheres assassinadas pelos seus exs. E o que é comum, já se sabe, toma para si uma garantia de “normal”.

 

Não gosto do que é normal. Nem do que é comum. Não gosto. Por que haveria de gostar, não é mesmo?

 

Bem, aos que julgam, eu poderia citar o caso de amor da Campireali pelo Banciforte do Stendhal, onde há, nitidamente, mais um Daniel de outros tempos, que a corteja, a exije e a humilha para mostrar que é seu dono. Os Daniéis e as Moniques têm origens muito antigas e nem por isso estão certos. Porém, preferi citar o Big Brother e a novela das 19h. Suas condenações não me dizem respeito.

 

(Nota: eu tento assistir a novela das 19h do Falabella porque eu gosto do texto, mas como todo programa de TV que eu tento assistir tem o problema de eu lembrar quando passa e tal, porque o relógio e eu não nos entendemos; não assistirei ao Big Brother, podem ficar tranquilos, e acho que quem ficou “de cara” com a atitude da Globo deveria simplesmente parar de assistir, afinal, para ver pornô (muito mais interessante do que o que eles oferecem) tem tantos outros meios. Assiste quem quer e só. Ainda não terminei de ler o Stendhal. Ouvi Ultraje a Rigor também ontem. E eu ainda me apego MUITO ao Nelson Rodrigues porque, como eu sempre digo, quero continuar falando com vocês, meus queridos.)

 

 

Se ela pudesse me escutar

Você só vai conhecer um homem, aquele a quem você ama, quando ele souber que você deixou de amá-lo.

Os amigos só serão amigos quando estiverem ao seu lado na sua maior alegria, sem invejá-lo.

Seus pais serão sempre seus pais e, para o bem ou para o mal, você sempre pensará neles.

As pessoas ruins sempre se encontrarão na vida, como que atraídas pelo cheiro da maldade. Porém, elas, de tanto praticarem o mal, não o verão quando forem vítimas dele. Assim, a surpresa e o espanto serão desproporcionais – muito maior do que a reação que causam nas pessoas que recebem as suas maldades, visto que essas já as esperam. Há um sopro de justiça e vingança em cada ato desses.

As pessoas que se dizem “muito boas” querem na verdade dizer que patologicamente sofrem do complexo de vitimização. Não podem causar mal algum, a não ser a si mesmas, como diz a música. Para isso, deixam-se vitimar pela maldade alheia.

A mulher que se permite continuar ao lado de um homem que diz “você é MINHA mulher” está fadada à insignificância. Homem que diz isso é um covarde.

Os homens, em geral, encontram desculpas: arranjam desculpas para tudo o que fizeram, que deixaram de fazer e que ainda farão. Simples assim. Não são espertos, nem inteligentes. Contudo, ainda há mulheres bem mais estúpidas que eles.

As lembranças acometerão somente aqueles que viveram um passado com o coração pleno, e assim não haverá arrependimento, dor, lamentações de qualquer tipo. As lembranças serão seu tesouro. Quem sofre, lamenta ou pensa que poderia ter sido diferente não tem lembranças, é apenas um incauto que vaga vazio pelos seus dias até que eles acabem. Este fim estará sempre distante para lembrá-lo, a cada instante, em cada lugar, que ele nunca conseguirá ter lembranças.

O sangue nunca determinará seu ciúme, sua inveja, sua admiração nem sua paixão. Para os desavisados isso será sempre um perigo à espreita.

O amor, ah! o amor, nunca estará no mesmo lugar que você no momento certo. Você tenderá a pensar que sim, fatalmente. A maioria passa a vida acreditando nisso, porém, o amor mesmo você deixou passar despercebido quando faltou a ele apenas um pequeno gesto seu – que você não fez porque achava já tê-lo encontrado.

O coração lhe pregará peças. Muitas. O corpo, se você for das pessoas carnais, lhe pregará muito menos peças. Este lhe será mais verdadeiro e fiável, enquanto que aquele se iludirá até com palavras.

Muitas pessoas te dirão “não”. Algumas te dirão “sim”. Respeite as primeiras e desconfie das segundas.

As portas e as janelas se abrirão e se fecharão ao sabor daquele ou daquilo que só lhe resta duas saídas: acreditar e tornar tudo mais difícil; ou duvidar e tornar tudo mais fácil. Porém, só descobrirás teus sentimentos reais sobre isso na hora da morte ou quando te sentires diante dela. Antes, serão apenas elocubrações.

A vida, sendo breve ou não, não lhe será mãe nem madrasta. Será um espelho. Mas demorarás a descobrir isso, e quando descobrires terás o espanto de um índio na época do descobrimento. Cuidado, pois ficarás tentado a trocar este espelho por qualquer coisa – algo que não parecerá ter valor para ti no momento – somente para tentar possuí-la. E assim serás enganado e a culpa será toda tua.

Nem só de beleza vive o turismo de um Estado

Estava eu na tal sala VIP quando entram duas senhoras (lá pelos finais dos quarenta). Fiquei observando curiosa, não eram, definitivamente, frequentadoras do local.

Uma delas vai até o balcão e num português afrancesado e dificultoso solta algumas perguntas. A atendente se bate para responder e logo aparece um incrivelmente solícito fiscal. Eles estavam tentando explicar para ela (em um português razoável) que os bilhetes de passagem continham um horário, é verdade, mas que na prática pouco importava. Num primeiro momento ela parecia incrédula. Agora já não era mais um problema de comunicação: ela havia entendido, só não acreditava. De incrédula ela passou para indignada e ao relatar a conversa com a sua companheira de viagem soltou alguns impropérios: aquilo era inadmissível!

Eu ali me divertia com a cena, afinal na França e em vários lugares do mundo, quando um ônibus ou trem tem um horário determinado no seu bilhete deve ser por algum motivo.

O fiscal (figura que surgiu do nada neste dia) ficou saltitante de um lado ao outro da rodoviária. Logo veio ele com uma turista americana e num inglês pífio tentou entender as dúvidas dela. Enquanto isso, o ônibus (Joinville – Florianópolis, na verdade a linha é Curitiba – Florianópolis) que nem tinha horário não aparecia.

Quando já estavam todos embarcando, finalmente, as turistas francesas deram o bilhete ao motorista que soltou um “merci” ao devolvê-lo. Eu ali, observando. Nisso, vem o fiscal (que passava instruções aos que atendiam a moça que falava inglês) solícito e pergunta ao motorista: tu vai além do merci? (visivelmente empolgado) E antes mesmo da resposta: porque eu só sei dizer que não sei falar francês. E disse uma frase incompreensível em algum idioma imaginário.

Sim, eu ali me divertia e embarquei no ônibus.

Passou um tempo fui até lá atrás pegar uma água e ir ao banheiro. Quando estou voltando vejo a francesa semi-letrada em português em pé no corredor sobre a outra e falando com um moço (com uma camisa amarela de doer os olhos) que lhes mostrava o mapa da Ilha no celular. Bem, eu fiquei ali parada me divertindo um pouco mais.

O rapaz, para mostrar serviço, falava em espanhol. Uma francesa que não entende nada nem de espanhol nem de português, um rapaz com um espanhol doloroso e um português talvez ainda pior e outra francesa que de espanhol não sabia nada mas arranhava no português. Ou seja, o diálogo era interessante. Ele falava da praia Mole (ih, moço…) e discorria sobre as maravilhas da “uma cidade pequeña dentro de la cidade”, ou seja, a Lagoa da Conceição. A francesa a perguntar sobre distâncias e a afirmar que não tinha problema porque elas caminhavam bastante.

Tenho dificuldade em reproduzir as falas do moço solícito que achava que estava falando espanhol. mas garanto que me diverti muito. Sobre os atrativos da Ilha, então… Ah, melhor ainda quando ele tentou explicar a relação “Estado de Santa Catarina”, “Ilha de Santa Catarina”, províncias e sabe mais Deus o quê.

Sim, pessoas, eu fiquei ali em pé admirando a cena.

Ao que a francesa que estava em pé disse um “merci” e mexeu-se para sentar. O moço ainda pergunta já meio esgoelado “e o que eu respondo quando você diz merci?!” (quase que eu respondo, “diz que vai se matricular num curso de francês, oras!”). E, claro, lá vem o enjôo apocalíptico do francês: très bien!

Mas o choque foi a aproximação da francesa… oh, God! Na França não faz calor, não? A fama tem justificativa! Sério, eu fiquei enjoada com o fudum que vinha daquela mulher. Uma náusea tomou conta de mim e pela cara de algumas pessoas em volta eu não era a única a passar mal!

Tranquei a respiração e me dirigi ao meu banco.

Fiquei pensando nas notícias e estatísticas que tenho visto por aí: 1. Santa Catarina será o segundo Estado a receber mais turistas estrangeiros; 2. Santa Catarina foi eleito o melhor Estado para Turismo do País, pelo quinto ano consecutivo; 3. Receberemos cerca de 5,5 milhões de turistas, 1 milhão só na Ilha.

Então, é para ficar orgulhoso, alegre ou temer?

São questões tão simples: não é so título, não é só número. Tem que receber bem, ter estrutura (palavra inexistente no dicionário do brasileiro), estar preparado.

Eu já trabalhei com turista estrangeiro na Ilha e digo: são explorados e sofrem com a falta de comunicação e desinformação. Não gostam da maioria dos nossos serviços, enquanto os donos de hotéis, restaurantes e afins aqui aproveitam para cobrar muito, muito mais caro deles!

É lamentável ter poucos profissionais que dominem (eu disse dominar, não arranhar) outros idiomas (para além do espanhol e do inglês então…) e tanto descaso com o turista que é visto apenas como o que mais gasta. Hoje mesmo encontrei turistas sul-americanos numa loja de calçados que eu frequento. Todo ano eles aparecem, muitos ficam deslumbrados com o nosso comércio. E eu sempre observo como são tratados mal, como não são compreendidos e como são vergonhosamente explorados.

E não pensem que é descaso ou mal profissionalismo (tema para um próximo post) do funcionário! Isso vem de cima, vem dos donos dos comércios, hotéis, etc.. Uma vez eu recebi um casal inglês que foi parar numa pousada que não era onde eles deveriam ter ido, erro do motorista do táxi. Mas eles só perceberam isso depois porque uns amigos haviam combinado de ficarem todos no mesmo hotel e quando chegaram no correto entraram em contato com eles. O casal então tentou cancelar o check in (cerca de vinte minutos depois) com uma funcionária, mas veio a ordem da dona do hotel em não permitir. O valor, inclusive, deste hotel era absurdamente mais alto. O que aconteceu? Eles ficaram no hotel errado, pagaram muito caro, tiveram gastos a mais de deslocamento, e ainda faltou luz a noite toda. Mosquitos, calor… Uma imagem linda para uma diária acima de quinhentos reais.

Conheci outros casos. Alguns realmente não se importam em pagar caro. É até triste ver que eles esperam não encontrar alguém que consiga se comunicar com eles!

Eu gosto muito de Santa Catarina. Tenho orgulho de ver o Estado merecidamente destacado no turismo. Mas lamento tudo isso. Lamento a falta de um “a mais” nos profissionais da área. Turismo não é exploração. Não sei o que tem sido ensinado nas muitas (hoje são inúmeras, quando eu fiz vestibular até cogitei pois estava em voga) escolas e faculdades de turismo por aqui.

Achei, inclusive, uma afronta do governo federal levar a Copa mais para o nordeste do que para cá. Todos sabem que o nordeste perdeu o seu posto de pai do turismo no Brasil. Lá foi assim: uma dúzia de investidores estrangeiros, muita estratégia de marketing, preços altíssimos, badalação e jogaram a pobreza pro lado. Os pacotes CVC da vida sugaram o que puderam (a estratégia é simples: você investe aqui, constrói seu hotel, a CVC manda quantidades absurdas de turistas) e hoje os preços despencaram porque está tudo sucateado. Rio de Janeiro e São Paulo já são auto-sustentáveis, mas também vêem Santa Catarina como uma ameaça. Como pode um estadinho lá do Sul querer desbancar os grandes nomes do turismo do país? E aí já começou a retaliação, a ignorância. O governo federal nunca foi por Santa Catarina. Nem os políticos do Estado. Volto a dizer: não temos representatividade a nível federal (e não vejo perspectiva de termos, mas sinto que é essencial). O Estado por si, por suas belezas e seu povo, pelo trabalho desse povo, conquista o que pode. Mas sofrerá sempre com o descaso.

Agora, o que não pode é perder a oportunidade que alcançou. O turismo é só mais uma vocação do Estado. Sempre fizemos muito mais e chegamos àquilo que não era tão explorado e visado até pouco tempo. Belezas nunca nos faltaram. Mas ainda nos faltam muitas coisas!

Pobre humilhado nas novelas. E pra ele ser feliz precisa ser rico!

 

 

Esses dias sentei no sofá e assisti algumas partes das novelas que passam atualmente.

 

Fiquei particularmente assustada com a das 21h quando uma personagem maltratava ferozmente uma empregada doméstica e ainda somava o comentário “vou colocar no tronco pra ver se aprende”, citando literalmente o castigo físico que era dado aos escravos negros.

 

A tal personagem era rica, dessas ricas riquíssimas que proliferam nas novelas brasileiras. Já fui noveleira. Mas confesso que perdi o interesse. Fui fã de novelas “fantásticas” como Fera Ferida, Que Rei sou eu?, Pedra sobre Pedra, e algumas outras.

 

Hoje, por exemplo, uma que escapou um pouco a esse excesso “ricosXpobres-num-mundo-urbano-contemporâneo-porque-daí-pode-fazer-um-monte-de-merchan” foi a Cordel Encantado. Eu gostava muito daquelas novelas que eram em cidades fictícias do nordeste. Cordel Encantado soube levar a fantasia, o popular, para uma novela que primou pela qualidade da fotografia e da direção de arte. Fora isso, algumas atuações foram muito boas do elenco jovem da Globo, coisa rara de se ver (mas algum dia a Regina Duarte não vai mais estar aí para ser protagonista, nem o Antônio Fagundes).

 

Assisti um capítulo aqui, outro ali, acompanhei alguns da Cordel Encantado com a minha mãe e me peguei pensando duas coisas: a primeira foi sobre as novelas sempre mostrarem que só a riqueza permite a felicidade (e como o povo “vê” isso?); a segunda foi justamente sobre o tratamento dado aos “empregados” nas novelas.

 

Reparem bem nas atuais novelas e lembrem daquelas que vocês mais gostaram. Vou dar exemplos: Na novela das 19h, Morde e Assopra, Guilherme, personagem de Klebber Machado (acho que é isso), filho da personagem da Cássia Kiss, sempre renegou a mãe e a sua miséria (enganou a mãe dizendo que estudava medicina na capital só para manter-se com o dinheiro suado dela em festas e farras); ao final da novela ressurge seu pai e ele é rico, assim Guilherme fica rico – casa com a menina rica (que no meio da novela descobriu que era filha adotiva e os pais biológicos eram pobres) e vive feliz para sempre. Em Cordel Encantado, Jesuíno, para poder ficar com Açucena, teve que descobrir que, na verdade, apesar de filho de cangaceiro, era descendente do rei de Seráfia – assim, sendo princípe (leia-se rico), pôde, enfim, casar-se com a princesa. Na atual das 21h, a Griselda é pobre, feia, largada, trabalhadora. Qual será sua reviravolta na qual encontrará o amor, a felicidade? Ganhará o prêmio da mega-sena.

 

Essa teoria não é “nova” nas novelas, mas confesso que me incomoda. Porque sabemos, afinal, que o povo assiste, eu assisto, você assiste, e que isso mexe com o imaginário popular. Estão me vendendo que só posso ser feliz e encontrar o amor se minha conta bancária estiver em alta? É isso? Voltamos, então, àquele tempo que o povo pobre, sofrido, miserável não podia se ver nas telas? Me pergunto isso pensando já no cinema também, afinal, colocar a miséria, a pobreza, nas telas – nas pequenas e nas grandes – não foi fácil! É um retrocesso?

 

Em contrapartida, sempre há e haverá o ricos X pobres. Há algum tempo o núcleo pobre não se contenta mais em ser só os empregados e afins, mas dialogam entre protagonistas e antagonistas. Contudo, percebe-se sempre a mocinha pobre que se apaixona pelo moço rico – ou ao contrário – e que a felicidade é a família rica aceitar o núcleo pobre da novela. Quantas moças pobres andam por aí acreditando nisso? Eu mesma conheço algumas. Você também deve conhecer. E no meio desse caminho, muito sofrimento, muitas barrigas grávidas em tentativas de golpes e até coisas piores.

 

Então não são mais núcleos ricos entre os protagonistas e antagonistas, mas há um núcleo que às vezes é a ligação de um núcleo com o outro que é o dos secundários do elenco e que fazem secretárias, diaristas, balconistas, empregados, babás e etc.. Aí é que entra o segundo ponto. Não foi só naquele momento de uma megera podre de rica destratar de forma vil uma empregada ameaçando com o “tronco”. Há vários momentos em todas elas nos quais homens e mulheres são humilhados, destratados e desrespeitados pela sua condição de pobre e trabalhador.

 

Não penso que isso é apenas de mal gosto. Essa humilhação presente nas cenas entre ricos e seus empregados é o dia a dia de muitos (muitos mesmo) trabalhadores do Brasil afora, esses que são ainda a maior parte da audiência das novelas. É ultrajante e um desaforo cenas assim serem mostradas sem nenhum remorso, sem nenhuma aparente expiação. Pois, não vi discussão nenhuma por aí sobre essa cena e suas semelhantes, nem vejo que o “patrão” que humilha tem alguma punição severa dentro do universo da novela. Não vejo algum desses empregados ir à delegacia prestar queixa do seu patrão. Ah! Mas isso não acontece na vida real também, porque eles têm medo de perder o emprego. Seria, então, a novela uma imitação da vida real? (porém, na primeira questão que eu comentei, a novela não imita a vida)

 

Como ficamos? Assistindo sentados a uma agressão ao próprio público fiel das novelas? Eu me senti ultrajada. Não tenho empregada. Minha mãe tem e a trata muito bem, como trata a todos.

Eu pensei nesse segundo ponto porque vi nas últimas semanas frases desrespeitosas sobre empregadas domésticas no Twitter e em comentários no meio de conversas. Um deles foi a respeito do “uni-neurônio” que uma delas teria. Uau… sério, pensei em denunciar a criatura por dizer uma coisa dessas. Fazer comentários sobre o trabalho da pessoa é uma coisa. Agora, sobre qualquer outra questão é perigoso. E sabe o que eu pensei? Se a pessoa que faz um comentário desrespeitoso e ofensivo da sua empregada é tão boa, tão inteligente, tão superior, por que ela não tem capacidade de limpar a própria sujeira? Essa é minha opinião sobre pessoas que têm empregadas, não têm capacidade de limpar a própria sujeira. Uma pessoa assim, a meu ver, está alguns níveis abaixo de muitos seres humanos. Inclusive daqueles que “ganham a vida honestamente”. Há exceções para pessoas que possuem empregados por questões de saúde e etc..

 

Tenho repulsa por personagens como a da Cristiane Torloni nessa atual novela. É tão falso, tão superficial, tão nojento e tão infeliz que não me motiva nada assistir.

 

Infelizmente não vejo mais novelas como quando era pequena e ficava as tardes em frente à TV com minha avó. E hoje é tão grande a necessidade em fazer novelas que se vendam e que vendam (carros, produtos de beleza, roupas, esmaltes, sapatos, etc.) que aquelas novelas fantásticas não têm mais tanto espaço. (repararam na calça jeans de vanguarda que o Jesuíno usava em Cordel Encantado? então, é preciso muita criatividade ou licença poética para tal)

 

Conhecemos o poder da TV sobre o comportamento das pessoas. E é esse ponto que me preocupa e assusta quando vendem essa agressão, essa fissura entre ricos e pobres, essa humilhação que compramos como comum, correta, cotidiana. Não pode ser assim. Mas quem é humilhado todo dia no trabalho aceita e percebe uma novela “realista” na humilhação da perua rica.

 

Não deveria ser assim.

 

 

Muamba na Mostra Premium de Joinville

Em julho vi um anúncio de uma tal Mostra Premium patrocinada pela Petrobrás (sempre ela) que exibiria filmes e curtas nacionais gratuitamente em Joinville, no Shopping Müeller. Consultando a programação vi que os horários dos dois longas catarinenses que seriam exibidos não era convidativo: 10h. Os longas escolhidos foram os mais recentes, Muamba, de Chico Faganello e A Antropóloga, de Zeca Pires. Os curtas nacionais seriam exibidos em horário mais interessante, 19h, sábado e domingo. Pensei em ir assistir aos longas catarinenses, apesar do horário ingrato. Porém, me confundi e achei que o da sexta-feira seria o A Antropóloga, que na verdade seria exibido na segunda-feira. Com muito custo consegui chegar ao Müeller às 10h e lá estavam salgadinhos (eu sempre me pergunto como as pessoas conseguem comer fritura de manhã!) e as figurinhas de praxe do audiovisual catarinense. Fui a primeira a entrar na sala vazia e o filme começou atrasado.

 

Não recordo agora o nome do responsável pela Mostra. Ele foi lá no microfone, anunciou o filme (chamando o diretor errado), vi meu engano de ter trocado o dia dos filmes e tentei me resignar a assistir Muamba. Eu realmente não tinha interesse em assistir este filme, tanto que ele foi exibido no FAM ali pertinho de casa e eu não fui.

 

Em relação à Mostra tenho dois comentários: o horário dos longas foi muito infeliz, e a quase inexistência de platéia confirmou isso; o outro comentário é sobre a época da Mostra, julho, durante o Festival de Dança. A cidade fica realmente muito voltada à dança e eventos paralelos não terão nenhum destaque, talvez alguma época ou lugar onde possa ser melhor aproveitado pelo público seja mais interessante. Sei das implicações para organizar um evento como esse, mas precisamos desses eventos que levem as obras ao público.

Em relação a isso tive um infeliz momento com um que se diz jornalista aqui da cidade, Osny Martins, que na verdade tem um programa de variedades na rádio. Ele comentou no twitter que um vereador propunha propaganda pública nas salas de cinema. Eu respondi dizendo que mais valia eles proporem obrigatoriedade de exibição gratuita de obras como curtas metragens produzidos aqui – até porque Joinville começa a correr atrás do tempo perdido nesta área. E questionei a colocação dele de que “povão” assiste TV e “povão” não vai às salas de cinema. Bem, primeiramente devo colocar que o tal “jornalista” confunde “sala de cinema” com “cinema”, mas, enfim, ele não deve conhecer muita coisa. Em segundo lugar, um elitista como ele citar “povão” é vigorosamente discriminatório. Eu afirmei, e afirmo, que “povão” no modo discriminatório, assiste tanto TV quanto cinema. Infelizmente o dito jornalista não tem educação nem parece sair da sua arrogância antes de enviar mensagens privadas de desacato e agressão ao profissionalismo de pessoas que ele sequer conhece! Pois bem, eu discuto e sei que há outros lados, pessoas assim baixas não conseguem esta proeza.

Contudo, com mais algumas palavras dele percebi que “povão” pra ele é só “número”. Ele fez alguma relação de que, em número, a quantidade de pessoas que vai às salas de cinema na cidade de Joinville é menor do que a que assiste TV num dia. Bem, não lido com números. Outra questão é o “consumo” do cinema que não se restringe de modo algum às salas de cinema. Porém, discutir com um arrogante ignorante sobre o assunto tratado é em vão e ele, como um coelho assustado, fugiu do assunto. Realmente, o público dele é quem corre atrás de sorteio de torta e notícias sobre ibope da A Fazenda. Sobre cinema ele precisa ficar bem calado.

 

Voltando à Mostra, a iniciativa é louvável. Pois, como vemos, cinema ainda é elitizado pela elite! Ainda acham que ir assistir um filme é mais nobre do que ver a novela das 21h. Ainda há quem pense que o mundo é o seu umbigo e diga que “cinema é caro, eu só assisto o que “baixo””. Ó, santa ignorância! Fiz meu juramento de libertar da ignorância e faço questão de renegá-lo ao me deparar com seres como esses.

 

Minha decepção maior foi acabar assistindo Muamba, do Chico Faganello. Ele, aliás, estava lá e fez um breve discurso antes do filme. Lembro de duas coisas que ele disse: sobre a dificuldade de produção na época de 2008 durante as grandes enxurradas que o Estado sofreu (lembro bem, gravei um curta nesta época) – recordando sempre o Paredes numa aula da primeira fase: cinema é a arte de resolver problemas – e que a qualidade técnica dos profissionais envolvidos que eram aqui do Estado era excelente. Sobre a primeira, penso que nada justifica pois o que o Paredes disse é correto. Sobre a segunda, fiquei matutando que é verdade. Temos muito bons técnicos aqui no Estado. Porém, técnica nenhuma superará, na obra, a criatividade. E é aí que situa-se a minha implicação.

 

Sobre o filme? Cheguei a pensar em não escrever nada sobre o filme porque confesso que há pouco (ou nada mesmo) a ser dito. Sabe quando você assiste um filme tão ruim, mas tão dolorosamente ruim, que não consegue parar de falar dele? Pois é, Muamba não é ruim, porque nem isso dá pra dizer dele.

 

Durante a exibição, automaticamente pensei que o diretor tem alguma fixação por pernas femininas. Sim, elas, de algum modo, são protagonistas até o ponto de você preferir ver o antagonista, que, neste caso, acho que era uma coleção de aberrações. Roteiro difícil, truncado, sem ritmo – como normalmente acontece. Atuações instáveis. A tal qualidade técnica é exacerbada em imagens macro de insetos e afins, porém sem encontrar seu lugar nem na narrativa nem no próprio fluxo de imagens. Entre as aberrações estavam um anão, um muambeiro fajuto, um interior perdido no tempo e cenários ridículos. Aliás, acredito que só pode ter sido proposital a ausência de contexto temporal e a escolha dos cenários e objetos de cena. Algo que me lembrou e muito o próprio “estilo” do Chico Faganello quando professor, pois hoje ele aparenta ter um jeito meio “descolado”.

 

O excesso de objetos de cena incoerentes e a atenção que se dá a eles é cansativa. Os figurinos transitam no espasmo da ausência de contexto temporal e distancia definitivamente os personagens. Tudo ali parece ter sido escolhido para fugir de algo – dos clichês, talvez? – e obteve sucesso: fugiu tanto que se perdeu.

 

Num roteiro de clichê, não será a direção de arte que mudará o rumo. Nem a qualidade técnica dos equipamentos e dos profissionais. O pior é não poder nem dizer que o filme é no sense porque ele tem um roteiro presente (apesar de frouxo) que impede isso. Também não é “cinema do absurdo” (como um amigo classifica) porque não há absurdo, há só o ridículo.

 

Como eu disse, infelizmente nem a excelência técnica supera a criatividade. A sensação ao final é de aquilo andou, andou, querendo chegar além e foi muito longe que caiu em algum vácuo.

 

Quando o filme acabou eu e mais uns quatro adolescentes saímos da sala antes dos créditos finais, mas nos deparamos com a porta de trás fechada ao que que um deles diz: como se não bastasse tudo, ainda isso! Eu sorri.

Como se não bastasse aquele filme ainda queriam nos manter presos ali? Mas a tortura era completa! Logo, ouço aplausos. Porque elite que é elite fica até o final dos créditos e ainda aplaude!

 

E porque o cúmulo do cinema no Brasil é aplaudir o enorme esforço que é conseguir exibir um filme numa sala de cinema, independente de qualidade e de qualquer coisa! Sei lá, tem gente que aplaude o sol, né?

Policiais Voluntários

Quando eu era criança achava que político servia ao país, que era um carreira, não recebia salário, tinha apenas sua moradia e comida paga pelo governo enquanto servisse ao povo. Um dia eu descobri que isso não era verdade.

 

 

Descobri que além de terem suas muitas despesas pagas ainda recebiam salário e, claro, depois descobri que roubavam. Para alguém que era pequena na época do impeachment do Collor, tudo isso era bem tumultuado.

 

Mas, enfim, cresci. Já faz algum tempo que eu acredito que aquele mundo idílico que eu imaginava quando criança, políticos servindo ao país, seria o ideal. Sim, sou contra político ser “emprego”, receber salário. Tenho a convicção de que este mundo seria bem melhor se isso fosse praticado.

 

Por várias vezes, caminhando por aí, vejo inúmeras infrações de trânsito. Esses dias mesmo, em menos de dez minutos vi muitas infrações de pessoas sem cinto de segurança, falando ao celular enquanto dirigem (esta é comum, infelizmente), etc..

 

Foi aí que lembrei do meu “ideal de servir ao país”. Eu me ofereço voluntariamente para integrar algo que seria um projeto inovador. O projeto se trata de treinar nós, cidadãos, que desejamos ser “policiais” voluntários para poder autuar pequenas e médias infrações que vemos no dia a dia. Sabemos que temos poucos policiais nesse país, eles não conseguem estar em todo lugar o tempo todo, e os crimes mais graves e violentos aumentam a cada dia e são, obviamente, prioridade.

 

No meu mundo ideal isto seria perfeitamente praticável. Mas, também, levem em consideração que sou Liberal na Política, pisciana, e idealista. Não é pouco. É muito distante da realidade.

 

No meu mundo ideal os políticos serviriam ao país.

 

Contudo, acredito que apesar dos meus poréns idealísticos, o projeto seria muito interessante se colocado em prática. Porque, infelizmente, as pessoas não agem corretamente por consciência, somente por coação e punição.

 

 

 

Água oxigenada

Entro na loja de cosméticos aqui perto de casa para dar aquela olhada básica. Um alvoroço vem logo atrás de mim.

Entra uma perua velha. Não há outro modo de descrevê-la. Loira com laquê, estampa de oncinha e sei lá mais quais animais pela figura toda, aquele dourado nos dedos, batom vermelhão, bolsa de alguma marca cara demais.

 

“Olha, aqui não dá pra estacionar. Eu quero estacionar!”

 

A moça do caixa olha sem entender nada.

 

“Eu deixei meu carro ali, atravessado, estou com medo que alguém bata! Metade dele está na rua! Aquele homem ali, ó, parou no estacionamento da loja só pra falar ao celular!”

 

(Gente, todo mundo acha um absurdo, né? Imagina! O cara parou o carro para falar ao celular e, assim, não matar ninguém! Ó!)

 

“Você vai lá dizer pra ele sair?”

 

Eu já com muita pena da moça do caixa.

 

“Porque eu preciso comprar isso aqui, ó.”

 

Água oxigenada.

 

“Mas talvez ele já saia. A senhora quer ver mais alguma coisa? Ou eu posso cobrar?”

 

“Ai, olha, estou com medo! Podem bater no meu carro! Metade dele está na rua. Como que esse homem pára ali pra falar no celular? Hein? Pode cobrar, então. Ai, ele já está saindo!”

 

“Ah, mas é rapidinho, a senhora pode pegar o troco aqui, pode ser?”

 

“Ah, pode, isso. Obrigada, querida! Vou lá tirar o carro, olha o risco que eu corri!”

 

E eu ali parada, saio da loja e vejo um sedan atravessado, não na rua, mas na calçada impedindo qualquer pedestre de passar. É, absurdo para a água oxigenada é parar para falar no celular. Absurdo é a quantidade de gente que eu ainda vejo dirigindo e falando ao celular. E, claro, estacionar na calçada é perfeitamente normal, só o carro corre risco.

“os mais branquinhos, por favor”

Hoje eu fui ao supermercado.

Passei na padaria para comprar aqueles pães de fibra que só tem lá e dei aquela olhada nos doces.

Pedi 200gr de mini sonho e frisei que queria os mais branquinhos, pois havia muitos queimados espalhados por cima. Aliás, toda vez que peço pão digo isso. “os mais branquinhos, por favor”

Quando me dei conta que o atendente era negro. Aí olhei assustada para os lados. Ele sorrio e concordou que estavam muito queimados hoje. Um homem me olhou sem expressão. Naquele momento fiquei com real temor de ser acusada de alguma coisa, sei lá, racismo?

Sabe, né, hoje o mundo está tão chato, tão chato, que pode acontecer cada coisa.

Enfim, ninguém me condenou verbalmente ali, mas, quem sabe…

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