Pretensões

Eu aqui nessa pressa e nessa angústia de escrever algo tão inteligente, com aquelas frases bonitas que dão vontade de publicar nas redes sociais porque, a gente sabe, como é pretensioso todo ser que acha que tem algo a contar. Vejam a fila do supermercado: não anda. Aqueles dois a falarem de tudo de ruim, “Sabe o preço da cebola? Então, e o gás, rapaz! A conta de luz tá mais que o dobro do mês passado e o dólar passou de quatro reais!” como se alguém ainda não soubesse, eles tagarelam interminavelmente. E a fila não anda. Agora até eu sei que a filha de um deles vai casar – mas ama outro que não o noivo. Não entendo muito da vida, mas sei que na ficção isso acontece bastante.

E eu aqui, nessa pretensão de contar alguma coisa. Como a recepcionista daquele prédio, disse pra colega que vai comprar quatro peças de roupa – vocês sabem como é, não dá pra ser só recepcionista, tem que fazer uns bicos, já viram quanto que tá o Omo? E a moça pegou uma blusinha rosa que não esconde quase nada por cento e quinze reais. Cento e quinze, meu amigo? Imagino aquele senhor do supermercado, se a visse, certeza que perguntaria “e a crise?”. Mas a colega disse que parcela em até quatro vezes. Chega natal e nada da blusinha estar paga.

E eu aqui vendo uma formiga atravessar o estacionamento, daquele tamaninho e contra o vento forte e frio. Como o senhor da fila do supermercado que cortou a sagrada cerveja com alcatra de domingo – agora só uma macarronada ou, no máximo, um frango assado, sem álcool – e quase chorou quando, baixinho, confessou ao amigo que vai pagar sozinho toda a festa de casamento da filha. Insistiria, quem sabe, na metáfora “as formiguinhas somos nós”. Mas, coitadas das formigas, ou felizes delas, sei lá. O escritor é quem não as deixa em paz.

E eu aqui, pois escritor não deixa ninguém em paz – nem a si mesmo. Fui dormir e as histórias não deixaram, enquanto você não as coloca no papel e põe o bendito ponto final, elas ficam aí nesse ego inflado achando que têm tudo a nos dizer. E eu querendo pensar “deixa a moça comprar a blusa e não deixa a tua filha casar”. Mas o que eu tenho com isso? Quero mais meu sofá com um bom filme de amor do século passado que amanhã eu tento de novo.

Você talvez não saiba

Meu avô dizia: a ocasião faz o ladrão. Faz tempo que não escrevo coisas do meu cotidiano (tenho evitado), porém, por motivos nobres, abrirei uma exceção.

Quais os motivos? Sei que não sou a única (nem de longe) que passa por isso. Sei que o ser mulher é muito diferente de qualquer outro ser (no sentido ontológico mesmo) e não, o mundo ainda não atentou o suficiente para isso. Sendo do sexo feminino, não importa a idade, estar acima, abaixo ou no peso, estar com tudo em cima ou desleixada, ter cabelo curto, comprido, médio, loiro, ruivo, pintado ou branco. Não importa. Você é do sexo feminino e será vítima de situações de violência, de opressão, de intimidação. Por ser mulher. Antes: não sou feminista. Tomo todo o cuidado, por princípios, de me manter distante de bandeiras de lutas (sociais, ideológicas, sei lá) – exceto minha predileção política e econômica pelo Liberalismo, mas é outra história. Tenho pra mim que determinadas coisas, quanto mais hasteadas as bandeiras, mais elas de afastam de ser dizimada das atitudes das pessoas. Posso estar errada. As cisões sociais e afins tendem a aumentar, a tornarem-se mais radicais, quando são expostas – enquanto eu sonho que possam ser diluídas até não mais existirem. Contudo, é preciso que sejam relatadas, expostas, esfregadas na cara dessa gente que tem a mentalidade e, pior, a atitude de quem vê o mundo com olhos estúpidos.

Era cedo, mas não muito, quase oito da manhã. Saí de casa para caminhar até uma parte da praia. Muitas, muitas e muitas vezes fiz e farei o mesmo caminho. No Verão, muitas vezes o fiz realmente cedo, lá pelas seis, para ver o sol nascer. Estava com a câmera fotográfica no estojo dela e o mp3 (não ouço música no celular), só. Calça comprida, camiseta, casaco de moletom, tênis, cabelo preso. Mais comum, impossível. Fiz meu velho conhecido caminho e desci até uma ponta de pedras. À direita, uma longa praia de mar aberto, esta curta ponta emenda um caminho de pedras que leva a outra praia ao lado, menor e de mar fechado pela enseada. Caminho muito comum, todo mundo conhece, parte de cimento, inclusive. Dia nublado, praia vazia. Sentei ali nas pedras e fiquei algum tempo.

Eu gosto do mar. Uma parte de mim só existe porque eu aprecio ficar muito tempo observando o mar, fotografando ou não, ouvindo música ou não, pensando ou não. Dos meus vinte e tantos anos, uma parte foi passada assim.

Depois de um tempo, vi um homem que vinha da praia de mar aberto em direção às pedras. Não fiz nenhum contato em nenhum momento. Fiquei ali sentada como estava até então. Ele veio até perto de onde eu estava. Ficou um pouco ali e seguiu para o caminho entre as praias. Nessas horas, eu macaca velha, já tinha ligado aquele alerta que, sendo mulher, nunca desliga. Fiquei na minha, mas sem “dar na cara” não deixei de observar onde ele estava. Um tempo depois, sentei em outra pedra ali ao lado. Ao levantar, vi que ele fazia de conta que examinava as folhas de um mato que crescia no caminho pelas pedras. Da curva onde ele estava “distraidamente” parado dava para me observar. Fiquei ainda um tempo lá (minha intenção era, na volta, ir pelo caminho e passar pela outra praia) esperando que ele tivesse ido para eu poder seguir pelo mesmo caminho, de preferência sem encontrá-lo novamente.

Até o momento, claro, além do olhar insistente na aproximação de onde eu estava nas pedras e ele ter ido e voltado “para ver o mato”, nada me dizia que ele era um perigo real. Como eu disse, são vinte e tantos anos de vida muito bem vivida – e eu não deixo escapar nada. É assim que a gente se cria, olhando tudo, vendo os possíveis suspeitos, sabendo quando está ou não vulnerável. A praia estava realmente deserta, apesar de eu saber quais casas ali perto têm moradores. Ser do sexo feminino é, o quanto antes na vida, estar ciente de ter que cuidar de si mesma – o tempo todo. E eu sempre fui sozinha, sempre andei sozinha. Ele era um estuprador? Um galanteador barato? Um tarado? Tinha se apaixonado fulminantemente à primeira vista por mim? Não sei. E nunca, em nenhum caso, eu tenho desejo ou interesse de descobrir.

A gente aprende que homens são assim. Eles são conquistadores, eles tentarão qualquer coisa, eles, é óbvio, não precisam estar apaixonados por você, mas podem até dizer isso – nem que seja num encontro na rua. Homens são uma ameaça. É isso o que a experiência nos diz. Se nós temos que viver em alerta, vocês têm que viver provando que não são uma ameaça. Falem o que quiser de mim, que sou traumatizada, rancorosa, o escambau. Eu sei que aprendo com a vida – e sou uma baita observadora.

Eis que vi quando ele voltou um pedaço e ficou fingindo qualquer coisa só para me observar. Cancelei a volta pela outra praia. Fiquei mais um pouco ali, até que ele sumiu de vista. Talvez tivesse seguido o caminho. Esperei mais um pouco para garantir a distância e levantei para vir embora. Quando desci das pedras fiz questão de olhar para trás. Lá estava ele, esgueirando-se pelo caminho entre o mato, procurando por mim nas pedras onde eu estive antes. Até que, de longe, viu que eu já estava no caminho que seguia para o outro lado. Ele nunca seguiu o caminho das pedras para a outra praia. Ao me ver voltando, também voltou. Não apressei o passo, ele estava longe. Voltei pra casa com algumas bonitas fotos, com pensamentos bons embalados pela trilha do mp3: como eu amo tanto, mas tanto, e jamais deixarei de fazer. No entanto, neste dia, voltou comigo uma espécie de desalento.

Frequento esta região há muito tempo. Não sou de ir à praia só no Verão – Deus me livre! Sou sozinha. Ainda hoje, desde meus doze anos, ouço conhecidos e gente da família estupefatos porque fico sozinha, saio sozinha e tal. Porque há um silêncio sobre o conhecimento de que o perigo ronda qualquer criatura do sexo feminino. Não sou medrosa, nem temerária, com o tempo a gente vai aprendendo, mas meus dez anos já sabiam muito do que eu sei hoje sobre os perigos que rondam. É um fardo que a gente carrega a vida inteira.

As palavras do meu sábio avô me vieram aos pensamentos, pois não sei nem posso acusar aquele homem de algum crime. Talvez seja um cara comum. Como você. Como o seu pai, como o seu tio, como o seu filho um dia será. E talvez os homens não entendam que mesmo uma abordagem assim supostamente sem violência ou violação explícita é marcante. É traumatizante. Eu que sou até que, sei lá, forte (não é bem essa a palavra). Mas muitas mulheres sucumbem. Muitas ficam atemorizadas – com razão. É que a vida já me ensinou a duras penas que não posso guiar a minha vida pelo mal que os outros me fazem.

E esse cara comum que estava passando ali numa praia vazia e viu uma mulher com quem, sei lá, ele pensou que poderia entabular um papo legal é um babaca. É um babaca que intimidou, que cerceou, que vigiou, que certamente não teve as melhores das intenções. Talvez tenha voltado pra casa, sentado à mesa com a esposa e filhos, tomado seu café – e jamais voltou a pensar sobre. Mas certeza que em qualquer outra oportunidade que aparecer, agirá do mesmo modo.

Não foi a primeira vez que passei por isso. Sei, infelizmente, que passarei por isso o resto da vida. Como eu disse, não importa peso, idade, nada. Estava ali, largada (meu normal, viu), feliz da vida, quieta com meus pensamentos, com sobrepeso, roupa fuleira, naquela alegria de pensar que o mundo não existe e que ele não sabe que eu existo. E aparece um babaca desses.

Desta vez não houve abordagem. Mas e aquela vez na praia do Campeche, o mineiro bêbado? E o cara no trem de Porto Alegre? E tantas, tantas, tantas, outras vezes? E, claro, meu interesse em especial, os conquistadores on line? Aquele que elogia tuas pernas nas fotos do Instagram, o que te persegue no Twitter, o que manda fotos obscenas no Facebook? Não bastava o mundo real? No mundo virtual chega a ser muito pior na questão de invasão e quantidade. Qualquer um te encontra, mesmo você estando quietinha escondida em casa.

A real campanha contra essa mentalidade idiota, machista, superior, estúpida dos homens que praticam a violência (de todo tipo) e violação contra as mulheres só se dará pelos próprios homens. Vocês precisam assumir o que fazem e condenar isso. Não basta o cara que se diz feminista, respeita as mulheres e blábláblá – conheço muitos desses, que praticam coisas inomináveis. Tem que assumir a culpa. Assumir diante de todos: eu assobiei quando uma gostosa passou, eu dei em cima de uma no bar por causa do decote dela, eu fiquei obcecado por fulana e fiz da vida dela um inferno, eu fiquei observando fulana no trabalho. Não vem com o papo “não fiz nenhum mal” porque certeza que tudo isso que vocês fazem, nós sabemos, nós percebemos, nós sentimos. Na maioria esmagadora dos casos, a gente faz de conta que não sabe de nada.

Eu lamento que esses babacas, que hoje fazem isso, têm filhos. E filhas. E eu sei, não é difícil prever, que eles serão criados à imagem e semelhança – pois filhos aprendem muito observando seus pais. E elas crescerão ouvindo e recebendo instruções silenciosas de que “precisam se cuidar”. Deve ser complexo ser homem, também, sabendo que é uma espécie que ameaça, com a simples existência, seus iguais. Não são as mulheres, denunciando e contando (como fiz) que mudarão isso. Somente os homens, assumindo que são o problema e que devem corrigi-lo, podem fazer algo – assumir a culpa diante dos outros é o primeiro passo, o segundo é ser um fiscal dos outros homens, deixando de vez a posição de cúmplice e comparsa. Enquanto isso, teremos leis Maria da Penha, do Feminicídio, etc.. Até quando vocês farão leis para nos proteger de vocês – nos proteger do simples fato de que somos do sexo feminino?

Você talvez não saiba, mas não vai encontrar o amor da tua vida num encontro casual à beira-mar.

Os sugadores de almas

Por uma dessas coincidências da vida, que de coincidência não têm nada, neste sábado pela manhã eu pude, depois de dias e dias tumultuados, voltar à leitura. As silenciosas manhãs de sábado sempre rendem bem, na leitura e na escrita. As coisas que, definitivamente, eu gosto de fazer desde cedo.

Lá estava eu, num dos últimos contos do livro, com um sol que já tinha deixado saudade, ao ar livre, bem acompanhada com um quatro patas. E eis que Balzac me surpreende com um conto que me tocou o coração – “tocou o coração”, daqui a pouco começarei a escrever rebuscado como ele e que ninguém me xingue, pois que lindo que é. Eu ria, sublinhava, sorria, anotava impressões nos cantos das páginas, conversava com o cachorro. Era um belo texto sobre quem adentra as almas que lhe são estranhas; sobre nós que andamos por aí a nos consumirmos nos outros. Não tanto pela história de vida mirabolante do veneziano, mas por construir a visão de como somos escritores.

E aí, horas depois, entro no Facebook e vejo que hoje é o dia nacional do escritor. Pensei, primeiro, que não recebi nenhum parabéns pelo dia – enfim, nada de incomum. Aí, pensei que era algo digno de escrever sobre para o blog (que determinei, dias atrás, que se chamará site daqui pra frente – mas, costumes, sabe como é). Pensei, pensei… talvez escrever sobre os meus autores favoritos, fazer uma homenagem pobre, é claro. Aí, pela origem da data, pensei que deveria escrever só sobre meus autores brasileiros favoritos – facilitava muito. Como cada um, em cada época da minha vida, me fez ser quem sou e ver o mundo como vejo. Mas, enfim, seria pobre diante de tudo o que vivi – as palavras, até elas, falham.

Então, lembrei do conto do Balzac. Havia terminado, na noite anterior, um conto que já havia mexido com essas questões de quem, diante de um talento (ou da falta dele), do apreço por alguma arte, se divide entre prosseguir (penosamente) na carreira ou assumir sua mediocridade e fazer um concurso público ou abrir uma loja. Pedro Grassou foi este, o do pintor medíocre que copia e copia e enfim ganha dinheiro e, atraído por mais dinheiro, casa. E foi deste que tirei uma idéia para escrever um conto que preciso – amparada na frase do próprio Balzac: Inventar em todas as coisas é querer morrer a fogo lento; copiar é viver.

O conto de hoje foi Facino Cane, e ele narra em primeira pessoa como a miséria o faz misturar-se às pessoas pelo prazer de senti-las, vivê-las, aprofundar-se nas suas almas e pensamentos, riquezas e misérias. É andar pelas ruas, ônibus, supermercados, sem fones de ouvido, olhos atentos e a alma invadindo as almas que permeiam o caminho. Eu jamais insistiria em ser escritora se não pudesse mais arrombar os corações e mentes alheios. O material humano é imprescindível para criar.

E foi assim. Ser escritor não é só para quem tem seu livro exposto na vitrine das grandes redes de livrarias e vivem com o dinheiro que recebem disso. Nós também somos escritores – os que vivem como Balzac viveu. A história dele é bem interessante e com detalhes pitorescos – é errado falarmos mal dele como fazemos hoje em dia, coitado. Adoro como ele cria frases feitas inteligentes e descrições concisas, mas se eu fizer isso, já antecipo os narizes torcidos das mentalidades pós-modernas. Sou do século passado, sou romântica incorrigível, não há o que fazer.

Pois bem, por que escrevo? Por que decidi ainda não assumir minha mediocridade e me assumir como escritora? Bem, acredito que devo estas explicações para encerrar o texto. Numa auto-análise (a pratico há muito tempo), escrevo porque sinto e penso demais (sempre fui assim e não é nada bom em vários momentos). E sinto com a cabeça, não se enganem. De tanto pensar, comecei a escrever para não, digamos, desperdiçá-los. E como não sou constante, escrever é um bom exercício para saber quem fui. Escrevo porque aprecio deveras o material humano e animal e vegetal do mundo – não saberia viver sem admirá-lo. Mas, acima de tudo, escrevo porque tenho medo de esquecer. Esquecer como eu era quando criança, esquecer a voz e o sorriso da minha avó, esquecer o amor incondicional que um dos meus cachorros me dedicou a vida inteira dele, esquecer como sou igual à minha mãe, esquecer como me decepcionei com os relacionamentos amorosos, esquecer como é descobrir certas coisas pela primeira vez. Tenho medo de esquecer. Por isso mesmo, às vezes escrevo vários textos, em épocas diferentes, sobre a mesma coisa. Que as lembranças nunca são iguais.

Ainda não assumi minha mediocridade porque, apesar do espírito velho, tenho ainda muito tempo pela frente. E não quero ser daqueles que aos quarenta ou sessenta anos se satisfazem em “agora eu vou fazer o que eu gosto na vida”. Não. Se perto dos trinta as coisas já começam a ficar difíceis, imagina lá na frente. Viver sempre é agora – jamais depois.

Tem um preço? E as escolhas que a gente faz? Blábláblá e já escrevi textinhos de quase auto-ajuda sobre isso aqui no site (rá!). Faço tudo de caso pensado e sem plano nenhum.

E quando eu for famosa, vocês lerão minhas entrevistas falando sobre meu processo criativo. Como gosto (descrevo a cena do momento) de escrever no final de tarde, numa poltrona de estimação que me custou meses de desejo e uma boa parte de um salário, sob as luzes de dois abajures (amo) com lâmpadas incandescentes (adoro a luz amarela e o calor delas), com uma gata laranja dormindo gostosamente no meu colo enquanto eu equilibro o computador nos joelhos e tomo meu Twinings com mel. Só pra manter a fama de escritor, essa gente fresca cheia de minuciosidades e não-me-toques. Ah, e tempos depois serei lembrada sobre o amor pelos bichos como um Hemingway, quem sabe. Fotos minhas com gatos não faltarão. Poderia, também, dizer que aprendi que só seria uma escritora quando me rendi à disciplina. E serei da turma dos que acordam cedo e tomam chá, como bons velhos, e não dos que varam a madrugada (“ó, melhor momento para a inspiração e tal” já fui dessas) e tomam whisky (está guardado aqui do lado).

Vejam só, escritores são personagens de si mesmos. Não se enganem. E enquanto isso, deixo minha memória aí guardada no site e nos HDs. Que lembrar é preciosidade das mais valiosas para quem sente demais a vida. Mesmo que jamais eu seja digna de receber os parabéns pelo dia de hoje, mesmo que o dia de assumir minha mediocridade chegue logo, sei que nunca deixarei de escrever.

Instruções para o bem acordar

Pule da cama. Mas que seja antes do sol nascer. Contra todos os conselhos dos ortopedistas, pule num salto perfeito ou desajeitado, tanto faz, mas pule. Sorria. Veja que acordou cercado por quem ama – e que te ama também. Jogue o edredom para o lado. Dê os breves adeus matutinos. Vá até o jardim, mate um pernilongo. Ouça os sons aterradores do que se passa lá longe pois aqui nem os passarinhos acordaram. Num impulso – nada mais que um impulso – tire a camisola, coloque o primeiro vestido leve que você encontrar no escuro, pegue a câmera fotográfica e vá ver o sol nascer – tamborilando mentalmente aquele verso teu velho conhecido e protagonista de tantas risadas: “hoje eu acordei querendo ver o mar”. Caminhe com uma dose de ansiedade, não querendo perder a hora exata dele nascer, mas sem relógio, nem celular, nem app para dizer se você está atrasada. Saia sem lavar o rosto. O cabelo? Passe a mão de leve naquele redemoinho que você conhece bem e continue caminhando. Escova pra quê? A chave da casa na mão direita, a câmera no ombro – e nada além de um vestido e um chinelo de dedo. Sem escovar os dentes, é claro. Sem ter tomado aquele copo de água irrepreensível de todos os despertares. Caminhe pensando em nada, repare em como a rua principal está vazia, em como as luzes dos postes ainda estão acesas. Suba um morro, dois morros. Pense em coisas desconexas como quem folheia um livro do qual já sabe o enredo mas pouco interessam as cenas. Sinta o conforto das coisas que conhecemos tão bem e das quais nos afastamos por um tempo, só para voltar a vê-las todas no mesmo lugar e do mesmo jeito. E então pare lá no alto e… veja o mar. Sorria. Repare no quadro pronto, todos os elementos tão perfeitamente dispostos. Não é preciso muito, tire a câmera e fotografe. Por quê? Porque é preciso alimentar a alma. Trata-se disso: acorde e vá alimentar a alma, sem ter alimentado o corpo, nem a vaidade, nem os sentimentos, nem as tristezas, nem os remorsos. E porque você acredita que as coisas estarão sempre ali esperando por você, mas o mundo pode, em algum momento, não se importar com as coisas que lhe são caras. E aí, ao menos, você talvez tenha as fotografias para sorrir num dia distante. Deixe-se contemplar o mar calmo na maré alta, repare nos postes à beira-mar que não estavam ali da última vez, sorria para aquela ponta com pedras onde você sempre foi feliz, estenda o olhar para aqueles morros ao longo de quilômetros, morros e mar, que fazem parte da tua vida. Todo aquele mundo é seu – sendo você dele. “Eu vim correndo na frente do sol” mas não pare ali a rever a vida inteira. Jogue a vida inteira do alto do morro naquele mar que de tão manso, certeza tão traiçoeiro. Desça uns degraus e sente. Agora perceba aquilo que não é óbvio no quadro. Busque o que outros olhos não veriam. Repare nas cores. Ah! As cores! As cores recém-descobertas dos amanheceres. De toda vida, pense somente no ano que findou há pouco, quando você viu mais o sol nascer do que se pôr. A amante do pôr-do-sol agora o trai com o nascer. E vivem todos felizes. Sorria ao ver aqueles barcos de pesca a cruzarem lentamente o mar, divirta-se com a idéia de pedir a um deles que te leve lá longe para ver mais de perto o sol, algum dia, nascer. Se não fosse hoje, você xingaria o fio de luz dos novos postes que agora te atrapalham as boas fotografias. Mas, hoje, você vai fotografar aquele passarinho com a minhoca de café-da-manhã contra o vermelhão de um sol que começa a gritar. Busque, sempre, aquilo que parece estar oculto aos olhos, aquilo que olhos ligeiros nunca veriam, aquilo que quem ali passa todo dia jamais teria percebido. Descubra como olhar o que qualquer um diria que é tão belo. Cartões de memória gigantes são para isso. Sentada ali no degrau, frisa fresca, mato alto, mar ao pés. Sorria. E então fotografe cada segundo do sol que se anuncia. Não há nada tão belo que não possa ficar ainda mais. A beleza da natureza é a única que sempre se supera. O sol veio, as nuvens protagonizaram belezas sem fim, o mar nunca lhe deixará viver sem ele. Sorria. E caminhe de volta cumprimentando os quatro gatos da senhora que mora na casa branca com azul. Desça os morros, abra o portão, deite-se e fique a pensar naquele amor que foi tão lindo e acabou-se – e em como fazia tanto tempo que você não pensava nele – no frescor que entra pela veneziana, em como os peludos dormem tranquilamente na cama ao lado. Pense na vida, coisa boa ou ruim, pouco importa pois um sono leve lhe toma e os sonhos desencontrados de nada valerão. Alimente os desejos do corpo – sempre depois dos da alma. Levante de novo! Deixe a cama desarrumada, abra portas, janelas, solte os peludos, sorria, coloque a gaiola para fora. Sorria ao ver o varal cheio de roupas encharcadas – pois você saiu ontem à noite e deixou-as ao léu, e voltou só depois do temporal. Lembre como o céu tem te dado tantas belezas. Coloque um disco na vitrola. Faça um nescau gelado – alimentar o corpo, nunca esqueça. Deixa a lata fora do armário, deixe as portas dos armários abertas. Passe as fotos para o computador e por onde for passando deixe tudo fora do lugar: a escrivaninha, o sofá – aquele que você, em qualquer outro dia, aos berros xinga quem deixou desarrumado – a mesa da cozinha, os quartos alheios, o banheiro. Não coloque nada no lugar! Enquanto isso, pense no que você teria para fazer hoje e, sorrindo, decida deixar tudo para amanhã. Tudo! Invente coisas para fazer hoje – mas só aquelas que você não precisa ou nem deve fazer. Liste: fazer alguma receita com o siri da geladeira, mandar uma mensagem avisando que aqueles filmes que queremos assistir acabaram de chegar – que as coisas feitas em companhia têm um gosto diferente -, lembrar de baixar os episódios do Poirot, trocar o colchão, ir à praia à tarde, telefonar para quem precisa ouvir tua voz hoje. Desista de pensar nas pessoas ruins: hoje nada vai lhe apagar o sorriso do rosto que, você reparou agora no espelho, tem o traçado da boca um pouco torto. Não faça nada pela manhã, deixe tudo para o resto do dia. Jogue umas roupas na máquina, deixe as molhadas no varal, sim, de propósito, observe os peludos, dê um galho verde para o passarinho, coloque a rede na varanda, procure a sombra. E sorria. Veja qual o santo do dia, qual o melhor dia da semana para pescar. Pegue o livro de receitas daquele cozinheiro que você é fã, sente onde o vento bate mais forte. Sorria. E deixe a vida vir como quem foi ver o mar.

O conservadorismo em Joinville

Dizem que a imprensa é o quarto poder. Ouvi muito isso até que pouco mais de mês atrás eu e algumas pessoas sentimos na pele o poder que ela tem. De destruição, inclusive. Liberdade, pra mim, não tem poréns e sou daquelas que preza a liberdade de imprensa inclusive. O problema não é a liberdade da imprensa de publicar as asneiras, manipulações, mentiras e o que mais for, o problema é que as pessoas, dentro dos seus graus de instrução, culturais, valores religiosos, éticos e etc., têm níveis de compreensão diversos. Eu me sinto à vontade para ler todo e qualquer jornal, revista, assistir este ou aquele canal. Aliás, prezo muito isso porque considero enriquecedor. Analisar como, porque e o que está sendo veiculado é fundamental e é o que eu busco fazer. Por isso, desprezo quem me vem com o “ah, leu na Veja” e em seguida publica um link, sei lá, do Idelber Avelar – e se considera genial. Aliás, já devo ter escrito sobre isso.

Há quem seja oportunista e mal intencionado sem nem mesmo precisar da imprensa (a internet permite isso melhor do que em qualquer outra época). Oportunistas, pessoas mal intencionadas e maus profissionais há em todo canto – como comentei no último post. Há médicos bons e médicos ruins, há arquitetos bons e arquitetos ruins, há gerentes bons e gerentes ruins – e isso em todo lugar. Desejo aqui fazer uma análise (mesmo que longa) e usar tão somente a observação, sem recorrer muito a qualquer área específica do conhecimento ou a dados. Em um ou dois momentos talvez use coisas que a Filosofia conhece bem, mas que qualquer um pode saber – e usarei para fazer uma ironia deliciosa. Antes de começar, devo dizer que conheço pessoas que são professores em Joinville e não são profissionais ruins (para dizer algo além eu precisaria assistir às aulas deles, ouvir alguns alunos e tal). De outros tantos, porém, que conheci já não posso dizer o mesmo.

Dito tudo isto, vou ao que me motivou a escrever nesta tarde chuvosa de um típico sábado joinvilense. Algum dia na vida cogitei fazer a graduação em Jornalismo e até hoje agradeço não tê-la feito – não sei o que ensinam nesses cursos, mas o que vejo me apavora. Até fiz uma disciplina do curso na UFSC, mas, como sempre, foi com o professor banido do departamento. Ótimas aulas, aliás, e um belo dia encontrei-o no twitter. Quando você conhece um ex-esquerdista radical que por considerações práticas e intelectuais abandonou o esquerdismo você se sente menos só no mundo. Pense numa reportagem, num texto jornalístico. Leia vários e vá reparando nas semelhanças e tal. Não é difícil perceber as intenções e o formato. Como nos maus documentários, quando quem escreve/dirige quer dar status aos dados apresentados, ou uma mera interpretação gabaritada, convoca um estudioso, um “doutor”, um sabichão da área. Eles querem, simplesmente, colocar alguém para dizer aquilo que eles desejam, mas pelas palavras de alguém “entendido”, pois eles são meros jornalistas – não podem sair por aí falando de doenças, guerras e educação, seriam, pobrezinhos, acusados de dar a opinião. Às vezes penso que jornalistas ficariam melhor apenas com suas opiniões.

Agora, leia o seguinte texto: http://anoticia.clicrbs.com.br/sc/politica/noticia/2014/09/saiba-como-joinville-vota-para-presidente-da-republica-4608517.html

Li isto hoje pela manhã e confesso que uma revolta de várias ordens tomou conta de mim. Tuitei freneticamente, pensei, repensei, voltei a ler. Não conheço pessoalmente nenhuma das pessoas envolvidas. Fui ler porque desconfiei que o joinvilense vota sempre ao contrário do país, e vi, só na minha hipótese, uma confirmação para a idéia que tenho de que a nossa democracia, como prevista, não funciona. Pois ela foi pensada para uma cidade não muito grande onde o “todos” era apenas uma parcela não muito grande da população – e, neste caso, talvez ela funcionasse. Desconfio que tentar adaptá-la para um país de milhões de pessoas num espaço enorme é uma furada – mas é só mais uma das minhas teorias. E fiquei curiosa, também, porque ontem tive o prazer de conhecer um morador de Joinville que é daqueles que acredita que caminhamos (o Brasil) para uma ditadura cubana. Já tinha ouvido falar dessas pessoas, mas nunca tinha conhecido pessoalmente. Elas existem – e, apesar de serem hoje motivo de chacota, prefiro manter minhas dúvidas. Pensei, antes de ler o texto, “aí estão pessoas como esta”.

Mas me surpreendi com o texto da tal reportagem. Diz ele que em apenas duas vezes o eleitorado joinvilense não acompanhou o resto do país. Porém, o mais surpreendente veio depois. O “argumento da autoridade” (sim, é intencional para remeter às falácias – não sabe o que é? Dá uma googlada rápida) foi o que me deixou abismada. Foram, então, convocados dois especialistas, dois profissionais que entendem de… (algo) para analisar o dado que a reportagem expõe: o joinvilense, por duas vezes não acompanhou a votação para presidente. Os dados são: em 2006 e 2010, os candidatos do PSDB superaram, em votos, os candidatos do PT – o que, como sabemos, não ocorreu na contagem geral dos votos.

Eis que, então, após dois parágrafos de dados, é dada a palavra ao, devidamente apresentado e já, só por isso, gabaritado, “professor de Sociologia e Ciência Sociais da Univille”. Temos alguém com formação e, tentou-se deixar bem claro, currículo – dizer de qual universidade não foi à toa. Como eu disse, não conheço pessoalmente o tal professor. O conheço, porém, do twitter. Comecei a segui-lo meses atrás. Foi difícil. Ele mesmo parecia gostar da pretensão dos títulos e currículo que possui. Depois de ler alguns absurdos, intelectuais e ideológicos, deixei de segui-lo – Twitter, te amo, queria que o mundo fosse como você. Tive meus motivos e pronto, era uma pessoa que eu não desejo conviver nem na ágora virtual que é o twitter.

O tal professor afirma que Joinville é constituída por conservadores, que quando alguém aparece com “idéias e propostas incomuns” não é bem aceito. Segundo ele, ainda, baseado em algum conhecimento histórico, a cidade não era conservadora e tenta usar como fato o dado de uma greve geral da indústria e comércio em 1917. Vamos analisar: os cidadãos legitimamente joinvilenses é que não são conservadores, pois ele afirma que “antes não era assim”, conservador é aquele que torce o nariz para o novo, e como consequência dos dados que a reportagem quer interpretar, quem vota PT não é conservador, este é quem vota no PSDB: um dualismo simples. Outra coisa que podemos perceber: quem participa de greve não é conservador. Pois se os cidadãos participaram de uma greve geral em 1917, então não são conservadores: eis o argumento da autoridade.

Mas agora vem o melhor: ele afirma categoricamente a origem do conservadorismo na cidade. A leva de pessoas do campo, do interior de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná, a partir das décadas de 1940 e 1950 é que tornou a cidade conservadora. Eu preciso copiar as palavras dele (pelo menos a ele atribuídas pela reportagem) literalmente porque não há como explicar um argumento desses:

“— Foram essas pessoas que deram a Joinville uma característica conservadora. A gente costuma dizer: você pode até sair do campo, mas o campo não sai de você. Quem mora no campo sempre vê a mesma paisagem, o mesmo rio, tem a mesma rotina. As pessoas de cidades grandes estão mais abertas a mudanças — argumenta.”

Ele sentencia que “essas pessoas” é que tornaram Joinville uma cidade conservadora (vejam que ele não usa sequer o termo “predominante”). Analisemos: todas as pessoas que moram no campo vêem sempre a mesma paisagem, o mesmo rio e têm a mesma rotina. E, por isso, (como se fosse uma consequência óbvia) não conservadoras. Já que o convocado diz ter formação na Filosofia, eu lembraria do próprio Heráclito, filósofo até que bastante conhecido pela famosa idéia de que nunca entramos duas vezes no mesmo rio. Pois o rio, professor, nunca é o mesmo. Mas o seu camponês olha sempre para o mesmo rio? A paisagem do campo, exposta às intempéries, às estações do ano, aos períodos de plantio e colheita, é sempre a mesma, professor? O que há de mais mutável do que a natureza em si? Sobre a rotina: uma pessoa que mora no campo tem uma rotina mais excruciante e repetitiva do que o assalariado dos grandes centros urbanos (maioria da população destas regiões) que trabalha das 8h ao meio-dia e das 13h30 às 18h, pensando no trajeto casa-trabalho e trabalho-casa (de ônibus ou de carro ou de trem – sempre os mesmos), nos colegas, no ambiente, no trabalho repetitivo de um caixa de banco ou de um cirurgião, sempre no mesmo horário, passando pelos mesmos lugares, tendo o mesmo tempo para as mesmas coisas (refeições, família, etc.)? E há, ainda, uma contradição absurda. Pois se pessoas de grandes cidades “estão mais abertas a mudanças”, o que dizer do joinvilense hoje? Porque ele se refere a um suposto conservadorismo de pessoas que para cá vieram nas décadas de 1940 e 1950. Mas a “maior cidade do Estado” se orgulha tanto – mas tanto – de ser “cidade grande”. E os joinvilenses nascidos de 1970 e 1980 pra cá, na tal “cidade grande”, não têm, então, como serem conservadores porque não vêem sempre a mesma paisagem e o mesmo rio (Sim! Sim! Sim! Entendam aqui a ironia pesada que estou fazendo, você que conhece a paisagem da cidade desde esta época e conhece nosso velho Cachoeira). Que contradição feia, professor!

Há uma regra básica da Lógica (e nem precisaríamos recorrer a ela, pois qualquer pessoa com um raciocínio razoável compreende) que afirma que, se encontramos um único caso que negue uma afirmação, esta é falsa. Ou seja, se ele afirma que “todo morador do campo que veio do interior de SC, PR e RS é conservador” eu afirmo que conheço um – e nos basta um só – desses que não é conservador. Ou seja, o argumento todo dele cai por terra. Um exemplo para ficar bem claro: alguém afirma “todos os cisnes são brancos” (pois ele só havia visto cisnes brancos) e existe um, mesmo que só um, cisne negro, portanto a afirmação é falsa.

Afirmações generalizantes são, por excelência, comprometedoras – mas aqui temos afirmações categóricas. Mas, depois de seguir o tal professor no twitter, não me admira que ele tenha dado essas declarações. A reportagem, contudo, continua pois o jornalismo é uma prática imparcial, como todos sabemos. Nos é apresentada uma outra autoridade, também professora e cientista social da mesma universidade, que diz que Joinville não é tão conservadora assim e justifica: elegeu, anos atrás, um prefeito do PT. Lembram do ovo e da galinha que citei no último texto? E voltamos ao dualismo que para estes dois cientistas sociais (que devem ter algum renome na cidade…) é claro e evidente: votou no PT é “progressista” (nas palavras da professora temos, finalmente, um adjetivo para aqueles que não são conservadores), votou no PSDB é conservador. Você aí, meu amigo, que já votou nos dois… abrace uma crise existencial, a gente deixa.

Como se não bastasse, a professora diz que os cidadãos são progressistas quando se trata da economia (mas não argumenta) e interpreta as diferenças nas duas eleições ao apoio do senador Luiz Henrique da Silveira. Algo mais ou menos assim: o joinvilense vota em quem o atual senador mandar (para quem não sabe, LHS já foi prefeito da cidade por duas vezes e foi governador do Estado). Além de conservador, o joinvilense é boi mandado do Luiz Henrique da Silveira.

Há tantas coisas que se auto-evidenciam no discurso destes professores e justificam minha revolta. Os “joinvilenses”, na fala do professor, são os que fundaram a cidade, e estes têm valores e princípios louváveis – pois não são conservadores. Sim, o conservadorismo aqui é implicitamente negativo e ponto final. Todas as pessoas que moram em Joinville sem terem seu vínculo familiar (e de sobrenome, coisa que é, ainda hoje, praticada na cidade) ou de origem com os primórdios da cidade, não é joinvilense. Aí há xenofobia explícita – de dar inveja ao parodiante “fora haole” da Ilha de Santa Catarina. Há uma parcela da sociedade joinvilense que não considera “joinvilense” aqueles que para cá vieram, como meu avô. Sim, meu avô é nascido no interior do Paraná (vê só, não era do campo, era da cidade e não gostava do lugar onde vivia) e veio para Joinville exatamente entre as décadas referidas pelo professor. Tenho cá pra mim, tomando meu avô como exemplo, que uma pessoa que se sente insatisfeita com o lugar onde vive, que está no interior e se arrisca, arrisca tudo o que tem, expõe a si e a sua família aos dissabores de uma mudança tão radical (ainda mais naquela época em que as distâncias não eram suprimidas como hoje) em busca de um emprego melhor, de condições melhores de vida, de estudo, de possibilidades, não é alguém que se possa, imediatamente, ser considerada “conservadora”. E meu avô se considerava, com muito orgulho, joinvilense. Casos de xenofobia em Joinville não são raros. O próprio prefeito do PT que foi citado referiu-se a um residente de Joinville que se considera joinvilense como se assim não o fosse e que não deveria intervir na cidade – o vídeo foi divulgado na internet. Por isso fiz questão de dizer, linhas acima que conheci um morador de Joinville que acredita na que viveremo uma ditatura cubana em breve – morador porque ele não é nascido aqui, mesmo que aqui trabalhe e tenha sua família há anos que se perdem no tempo. Meses atrás eu tive o desprazer de conhecer uma pessoa no twitter – um machista e ignorante da pior espécie – que morava em Joinville e se considerava tão joinvilense, apesar de manter o orgulho de ser um gaúcho do interior, que me xingou pacas (inclusive me acusou de “manezinha” – para relembrar a rixa chata -, gente, sou curitibana, tá? Quando forem xingar, xinguem direito) porque acompanhou uma conversa minha com um outro joinvilense (nascido em Tubarão!) sobre os problemas da cidade. O tal joinvilense-gaúcho era daqueles que não aceita que falem qualquer coisa da cidade-exemplo do Estado. Volta e meia me deparo, na minha TL, com menções a essa criatura e dá deprê porque me lembro que pessoas assim existem.

Alguém já se perguntou o que seria de Joinville sem aqueles que vieram de outros Estados e até de outros países? Sei lá, o único joinvilense ilustre que conheço que é daqui mesmo é o Juarez Machado, eu acho. Vejam só que curioso, Carlito Merss, o prefeito do PT, é de Porto União (interior de SC). Luiz Henrique da Silveira é de Blumenau. Ambos, então, são conservadores! Está explicado porque o joinvilense elegeu, extraordinariamente uma vez, um candidato do PT, não foi a tal “parcela progressista” da cidade – deve ser lenda, professora. E o Luiz Henrique, evidentemente, é conservador porque não apoiou o Lula em 2006 nem a Dilma em 2010. Mas, pera, o PMDB é o vice da Dilma. Será que entre o dualismo do ovo/PSDB e da galinha/PT há um meio, a casca talvez, que é o PMDB nas relações políticas?

A imprensa está aí, prestando cada vez mais desserviço ao público. Na contramão, temos que estar cada vez mais com as orelhas em pé. Porém, o que me revolta é ver análises rasas e até preconceituosas como essas feitas por professores que se gabam (e como se gabam, no caso do professor) de terem os diplomas e currículos que têm. E, pior, estão em sala de aula. Estão influenciando e manipulando (sim, num sentido muito negativo) as mentes dos alunos que estão ainda em formação intelectual. Muitos alunos, como eu comentava no post anterior, não têm boa formação em casa, não fazem boas leituras, e são cada vez mais desincentivados a ter consciência crítica das coisas. Os professores não ensinam ou estimulam, doutrinam. E aí, presidente Dilma, vamos desmoralizar as Ciências Humanas e Sociais mesmo – nem que seja para espantar um perigo.

Para alunos do Ensino Médio, na disciplina de Filosofia no segundo ano, eu sempre digo que vamos desenvolver a crítica e que, para isso, temos que superar o senso comum e nossas prisões (religiosas, familiares, ideológicas, etc.). O primeiro ano serve como um primeiro momento de contato dos alunos com a Filosofia, contato este difícil, pois eles só vêem Filosofia depois de oito ou nove anos na escola – qual é, então, a importância dela agora que eles estão quase saindo? Despojar-se de preconceitos, princípios, dogmas e do senso comum é um exercício árduo que brinda com um descortinar de novas impressões e sensações – é mágico. É um processo. Causa um alvoroço, é verdade. Mas faz pensar – e não vejo a Filosofia com outra “finalidade”.

Sei que não é, de modo algum, o objetivo de um texto do A Notícia de poucas e pobres linhas provocar a reflexão das pessoas. É, no mínimo, tendenciosa ao querer explorar a relação do eleitorado joinvilense com o partido que ele elege. Não quer nem ao menos levantar a discussão sobre como vivemos numa democracia que uma cidade inteira elege um presidente que não é aquele que vai governar por quatro anos. Que esses não são os objetivos da imprensa a gente entende. Mas ver dois professores das Ciências Sociais partirem para teses preconceituosas, limitadas e estúpidas é lamentável e, sim, revoltante. Não foi a primeira vez que conheci legítimos joinvilenses das Sociais com mentalidades que alimentam dualismos, preconceitos e xenofobia. Eu sempre disse que o problema de Joinville (vejam, falo da cidade) é a mentalidade dos joinvilenses (e, pelos exemplos, joinvilense é um termo que pode ser bastante expansível, né?). Diante de um texto de jornal corroborado por professores locais e relembrando certas coisas e discursos, tenho um vislumbre de onde vem esta tal mentalidade à qual me refiro.

Desejo, por último, dizer que conheço joinvilenses da melhor espécie. Na minha família a maioria é joinvilense. Meu irmão era um legítimo joinvilense. Meu avô e minha avó que para cá vieram há tanto tempo se consideravam joinvilenses. E eu sei que foram pessoas como eles que fizeram desta a tal maior cidade de que tantos se orgulham. Como se orgulham das suas origens alemãs. Orgulho, se bem pensado, não faz mal. As mentes pequenas é que fazem mal, principalmente quando permeadas por intenções da pior espécie. Xenofobia e preconceitos fazem mal. Dualismos categóricos fazem mal.

Eu imagino que bem estaríamos se joinvilenses considerassem e respeitassem os joinvilenses. Até eu, que não tenho nada com isso, ficaria feliz – nem que fosse pelos meus avós.

Ps: obrigada aos meus alunos queridos por eu nunca mais conseguir falar em “senso comum” sem dar umas gargalhadas.

Soco no estômago

Numa geração tinder, quando descartamos pra direita ou pra esquerda aquele que achamos bonito ou feio, pouca coisa deveria nos assustar. Deveria. Quem dera fosse assim simples.

O tempo tem sido escasso para tanta coisa por aqui, mas nunca deixo de manter olhos, ouvidos e mente abertos. Assim, testemunho algumas muitas coisas que, sim, assustam.

Sentei-me para almoçar, cidade pequena, de frente para a janela num dia de semana. Levanto os olhos e congelo. Dois meninos, entre treze e quinze anos, do outro lado da rua, parados ao lado de um carro são atacados por dois policiais militares. Os meninos levam tapas, são jogados contra o capô do carro. Um policial se posiciona atrás deles enquanto o outro observa alguma coisa perto da abertura do tanque de combustível do carro (onde os meninos foram abordados). Eles falam mas eu não ouço nada. A abordagem é agressiva, não há dúvida. O policial começa ostensivamente a revistá-los, joga o boné sobre o capô, revista o moletom, demora-se demais na região genital, e num instante (sem parar de falar ao pé do ouvido do menino, que é o mais novo, por sinal) dá um soco no estômago dele. O outro policial se aproxima, chama um colega (na região há vários pois o batalhão é na mesma rua e eles almoçam todos no mesmo restaurante) que está perto. A revista do outro menino é mais comedida, os outros policiais estão perto. Os três policiais conversam, o que fez a revista ri, o que chegou depois faz um sinal com a mão. São liberados e o que fez a revista passa carinhosamente a mão na cabeça do menino mais novo antes de colocar o boné dele de volta.

Não houve acusação. Não havia indício de nada. Deixei a comida quase intocada no prato. Assisti a tudo paralisada e com o estômago revirado. Mais pessoas viram, ninguém deu bola. Dois meninos, não-brancos, como qualquer menino que vemos pelas ruas. Me dei conta, naquele instante, que fora da realidade sou eu. Aquilo ali é real. Não, nunca vivi na periferia. Não uso-a como discurso. Sempre vivi em cidade grande e região central. As histórias que já li e ouvi e vi (nos filmes) iguais a qual eu acabara de presenciar eram idênticas e, segundo insistem em nos dizer, ocorrem aos montes todos os dias.

Ao ouvir uma palestra de um especialista em drogas, e no seu combate, que conta histórias e mais histórias sobre desgraças que o uso de drogas causa na vida das pessoas (mas tudo a partir de uma narrativa, digamos, “informal”) fiquei convencida de que há pessoas (uma gigantesca maioria) que não se sensibilizam com as dores e sofrimentos alheios. No mesmo dia que testemunhei a cena tive mais provas de que as pessoas pouco se importam com o sofrimento alheio e, pior, não tomam sequer como exemplo. Senti-me, ao ver aqueles meninos, justamente ao contrário. Nem serei piegas e direi “imaginei um filho meu ali” (meu irmão, inclusive, já passou por coisas semelhantes). Vi-os ali, passando por aquilo, vi os rostos deles. Depois daquilo, pouca coisa tem me passado levemente na vida mesquinha de cretinos que insistem em se aproximar de mim.

Resolvi, sem consultar ninguém, resgatar as discussões políticas ao final dos almoços de domingo. A época, inclusive, é propícia. E, sim, gosto muito de discussões – com quem, de fato, sabe discutir. Os ignorantes eu deixo porta afora, como bem frisei ontem. Baixei de vez meu nível de tolerância. Já tentei e discursei sobre tolerar “o outro” e tal, mas criei critérios excludentes pois não tenho porque ouvir certos absurdos.

Discutíamos, então, posicionamentos políticos e afins quando eu informei (tudo começou com a minha pergunta, “entre a Dilma e Marina, você corre pra onde?”) a um dos mais convictos da mesa: nenhum (candidato) fará milagre. O silêncio pairou. E um outro disse “não, isso óbvio”. Por isso não sou ferrenha de nenhum candidato ou partido. Tenho, inclusive, desconsiderado pessoas que eu, até então, considerava que tinham o mínimo de formação e cabeça. As baixas estão em alta, com o perdão do trocadilho.

Ontem cheguei bem tarde em casa e só vi uns comentários no twitter sobre o debate (eu nem sabia que seria na terça, ando por fora de TV e tal e me disseram que seria na quinta – aí, talvez, eu conseguisse assistir). Já comentei muito debate no twitter e o meu favorito é sempre o da Band. Mas fiquei ali lendo os tweets e meu estômago revisou-se quase do mesmo jeito quando vi a cena com os meninos. Além das pessoas que eu sigo, foram muitos RTs (ou seja, “ouvi” outras vozes e até acompanhei alguns replies. Não sei se o debate dos presidenciáveis foi indigesto (minha TV mal funciona e a Band de jeito nenhum), mas garanto que tudo o que li o foi, talvez até revoltante.

Era engraçado comentar só os trejeitos, falhas e aparência dos candidatos. Sobre a Marina em específico, já se pode observar uma rispidez a mais (além da ira dos partidos polarizados que vêem na sorte dela – na medida que a morte de alguém pode ser sorte para outro – o azar deles) pelo fato de não ser o padrão “bonita” de vocês, não-branca, cabelo não-liso, usar óculos e roupas fora do padrão “revista de moda” de vocês. Virou a chacota da noite. A Luciana Genro também foi achincalhada pela sua aparência e expressões faciais. Dilma, ao que parece, ficou ofuscada ou já estamos cansados de rir da imagem dela. Ah, claro, sobre a aparência dos candidatos homens não vi quase nenhum comentário. Porque rir de mulheres que não são a loira gostosa que os homens desejam secretamente a portas de banheiros fechadas, pode. O que vi foi uma espécie de tinder eleitoral. Como me senti? No mínimo, bem no mínimo, nauseada.

Não adianta, penso eu, estar em sala de aula tentando abrir cabeças a machadadas quando o mundo aqui ensina tão bem coisas tão ruins. Não adianta. Continuem reiterando preconceitos e ignorâncias, parece que lhes faz bem. E, claro, continuaremos a ignorar os meninos violados em revistas no meio da rua e ao sol do meio-dia.

Não se pode levar mais nada a sério com a presença irrestrita da internet? Memes e babaquices afins dominam até manchetes de revistas e jornais. Sim, porque quando vejo a quantidade de memes e sei lá que nome dão para essas coisas que entopem as redes sociais imagino que ser humano tem tempo na vida pra ficar montando e editando essas coisas. Não pude, no sentido político, tirar nada do debate pela minha TL. Nada. Nem daqueles que nunca aparecem no twitter e só apareceram ontem pra dizer solenemente que não temos em quem votar, “ó, desgraça”.

Dizia eu, lá na mesa do almoço de domingo, que não vejo saída na política., ao contrário do que percebo na nossa sociedade tão superficialmente politizada (hoje todo mundo discute a campanha em todos os cantos). O Estado, vejam só, não é responsável nem culpado por tudo. Há uma crença cega coletiva de que nós não somos responsáveis por nada. Não vejo (nem nunca vi) alguém criticar a educação confessando que é ou foi um péssimo e irresponsável aluno – ou professor. E quem adora criticar a corrupção mas corre atrás de político pra pedir “favores” ou sonega ou engana o chefe? E o médico que estudou mal e é negligente com o paciente que na conversa de bar diz que a culpa toda é do sistema de saúde?

Culpas existem aos montes. Porém, o que está fora de moda é consciência moral dos próprios atos. Controlei-me, ontem, numa crise de desespero ao imaginar a humanidade não usando sua racionalidade. Quiseram meus pensamentos do banho que eu analisasse apaixonadamente tudo o que tenho visto e lido… e eles me diziam que a única conclusão é que não temos sido racionais – nem nas coisas mais simples. E, sim, isso me parece desesperador. Nem o simples fato de que somos racionais e devemos usá-la, a razão, tenho conseguido enfiar a machadadas em algumas cabeças.

Não estamos cuidando das nossas responsabilidades. Não temos feito exames de consciência. E nem de longe temos sido racionais. E assim seguimos euforicamente. A euforia coletiva sempre me indica maus presságios.

Enquanto tento controlar crises de pânico (tenho desejos de me desligar das pessoas e do mundo) o soco no estômago daquele menino sinto-o na cabeça.

Os homens da minha vida – o fora

Demorei, demorei demais para entender. Então, pela primeira vez eu levei um fora. Era isso, era assim. Não estava com dó de mim. Minha larga experiência em dar o fora não havia me prevenido. Precisei de tanto tempo para saber que fora um fora (perdão pelo trocadilho) e mais um tempo para poder verbalizar e vivenciar isso. O tempo, ah!, o tempo!, fora (!) tão cruel conosco. Coisa de dias, de semanas, nem chegou a meses – e tudo, t u d o, teria jeito. Mas, não. A vida a me trollar (na falta de termo melhor) ad infinitum desde então. E aí chegou esta semana, meses depois, em que abracei a vida e comecei a rir (de mim) junto com ela. Eu não tinha mais saída. Fui passear por caminhos onde tantas vezes pensei em você, onde tantas e tantas vezes pensei e repensei nos dias que passamos juntos, onde tantas vezes sonhei. Ali fiz minha penitência logo que vi um rosto e senti aquele sobressalto. Não posso mais. Não posso mais encontrar teu rosto por aí e sentir o coração pular. Que, o coração que me perdoe, mas isso não é coisa que se faça. Não posso mais ter receio imenso de voltar a frequentar certos lugares porque temo – com todo o temor que me é possível – encontrá-lo. Porque já não sei o que faria se te visse. E, em verdade, não quero saber. Foi ali, diante do mar verde da cor dos teus olhos, um vento norte frio e inimigo, entre o mar e a Ilha do Campeche, que afoguei o nosso amor. Gosto de rituais e não tinha lugar (nem trilha, aliás, porque é claro que até o mp3 me trolla) melhor para o nosso amor descansar em paz. Volta e meia irei visitá-lo e te garanto que todo ano ele receberá flores em fevereiro. Vou rezar pra Deus, nosso Senhor, para nunca mais te ver. Ah! Nunca mais. Que dessas coisas de fim entendo bem. E guardo a esperança, que nunca morre, para todo o resto. Naquele dia a sinceridade foi tanta que nenhum propôs “amigos?” porque amizade é outra coisa. Agora, tudo vira história. Quando me perguntaram, meses atrás, se depois de fulano eu não tinha mais me apaixonado, menti. Menti porque se eu contasse que, sim, havia me apaixonado (de novo, como sempre) mas que no único momento de sensatez da minha vida – porque, e só porque, você foi sensato como lhe é de costume – eu levei um fora com meu consentimento. Diriam aquelas almas bobas “você deveria ter lutado por ele”. Tadinhas, não sabem que luta travei de verdade. Se sofri, se doeu, nem sei. É aquela coisa dos 28 de que fala Stendhal. Só sei que agora sou bem mais cuidadosa quando digo meus “nãos” e saio (por hábito) pela querida tangente. Um dia contarei como fui abordada no trem semana passada. Não esperem, porém, a falsidade de um “estou pronta pra próxima” (nem pra levar um fora nem pra me apaixonar). Nunca estou, não é mesmo? Nunca espero nem procuro – e, às vezes, nem quero. Porque de você só me restou aquela foto que escondi em algum lugar pra bem depois achar – e aí sorrir ou jogar fora. E como não podíamos deixar rastros, sei que tens algo que nunca te deixará esquecer de mim. E foi assim, o que me fez demorar tanto a entender é que tuas palavras não diziam o mesmo que os teus olhos. Não foi não querer, era questão de não poder. Vou aproveitar este ano e rezar pra Santo Antônio. Pois que ele me manda os melhores sempre com os mesmos problemas. Errar é humano, não é coisa pra santo. Até santo me trolla. E aí tenho achado o amor essa coisa que fica bem nos filmes e nos livros – nem do amor na vida dos outros tenho achado graça. Porque hoje ainda pensava a minha vida como uma estação de trem e o filme da tarde, um daqueles que me tira do eixo, terminava sobre trilhos. “O caminho mais reto é o mais curto” disse a moça (entre outros diálogos potentes). E eu que só tenho curvas na vida?

Condição e Situação

Passei algumas semanas montando uma teoria. Vocês sabem, tenho mania de fazer isso – para justificar ou explicar as coisas que vivo, penso e vejo. Pensava sobre condição e situação. Tentava me justificar num assunto quando encontrei estes dois termos que poderiam ajudar.

Condição é aquilo que não muda (ou que muda em raras exceções, já explico, alterando uma condição por outra) e situação é um estado que foi alterado mas que pode ser alterado novamente a qualquer momento. Exemplos sempre ajudam. Ser homem ou mulher é uma condição – e aí entra a mudança de sexo como a exceção – você nasce mulher e será mulher, não se altera. Um exemplo melhor sobre a exceção é uma pessoa que possui pernas, braços, tronco e cabeça e ao sofrer um acidente tem sua perna amputada, ela terá sua condição alterada. São exceções e casos mais extremos que podem alterar uma condição.

Situação é fácil de entender e vou usar meu exemplo favorito. Um homem é casado, eis uma situação, jamais uma condição. Estar casado é algo que não existia antes, foi alterado e pode ser alterado novamente a qualquer momento. É como pintar o cabelo de castanho para loiro – ser loira é uma situação, no caso, não uma condição. Ou usar lentes de contato. São atos que alteram momentaneamente (mesmo que, em alguns casos, “para sempre”, como aquele que morre sem jamais ter se divorciado ou aquela que pintará o cabelo de loiro até morrer) estado civil, aparência, estado emocional, situação econômica (desempregado, ou até o caso de “estudante”, etc.).

Como eu disse, foi uma teoria nada aprofundada (demorei para perceber que mesmo em condição haveria casos de alteração) que formulei nas horas vagas por conta de uma questão pessoal. Mas aí…

Caminhava eu pelo centro de Porto Alegre quando me deparei com uma manifestação em frente a prefeitura. Segui meu volteio quando me deparei com outra manifestação na Salgado Filho (rua parada, fila de ônibus atrás, pontos de ônibus lotados, pessoas observando). Logo mais outro grupo barulhento caminhava em frente ao Museu de Arte. Ouvi coisas do tipo “não é só pela educação” e “Fortunatti, cadê você?! Eu vim aqui só pra te ver!” e “você aí que está no ponto de ônibus”. Fiquei com a impressão de que a população no geral (tanto quanto eu) assistia sem sentir-se impressionada num clima que não era nem de aprovação nem de desaprovação. Aliás, em alguns cantos até ouvi pérolas do bom humor gaúcho.

Ver manifestação, em Porto Alegre, não é novidade. Reparar nos cartazes colados pela cidade fazendo alusões políticas também não. (juro que lamento muito não ter fotografado um que aparece o Tio Sam com a cara (mais feia) da Dilma e a frase “Mostra a tua cara Dilma!”, quem sabe em alguns dias eu consiga) Sempre admirei a politização do povo gaúcho. Nem sei porque demorei tanto tempo para me apaixonar por Porto Alegre (uma outra história). Semanas antes eu havia me deparado com uma tenda com os dizeres “Dúvidas sobre a Copa? #ogovernoresponde” e meia dúzia de gente sem fazer nada entre mesinhas de plástico e folders ali na famosa volta da Borges de Medeiros. Quando vi a tenda vazia pensei cá com meus botões que o povo não parece ter dúvidas quanto a Copa.

Sim, a Copa. É só sobre o que se fala, não? Anos atrás quando ouvi pelo rádio que elegeram o país como sede (tenho duas testemunhas) fui contra – aliás, fui contra desde o vídeo absurdo que fizeram para “convencer” a Fifa. Era tudo manipulação politiqueira (do Lula, é claro, mas se eu escrever isso aqui serei apedrejada). A vergonhosa escolha de tantas cidades-sede e os interesses politiqueiros também nesta escolha já eram ruins o suficiente para não me fazer apoiar o evento. Mas o povo gostou. O povo apoiou. E Lula ainda não era Dilma (ele sabia que não estaria no governo hoje e que seria meses antes da eleição, já pensaram nisso?).

Mas nem quero falar disso. Hoje até os lulistas estão insatisfeitos. Até os dilmistas, aqueles que compraram a história do poste que Lula colocou como candidata, estão insatisfeitos. Eu juro que tentei dar uma chance pra Dilma. Gostava do jeito durona dela. Mas não foi dessa vez.

Via aquelas manifestações e já bem menos iludida do que estive em junho do ano passado em relação a elas (e, vamos e venhamos, Santa Catarina é um zero à esquerda nessas movimentações) fiquei a pensar sobre a condição e a situação. O problema não é a Copa. Nem o Lula ou a Dilma. Nem, sei lá, os salários. O problema é o brasileiro. É uma questão de condição.

Peralá! Não, não sou mais uma daquelas que só fala mal do Brasil, que adora citar exemplos do exterior porque tem a idéia idiota de que tudo lá fora é lindo e aqui é ruim. Não sou idiota nem ingênua. Gosto muito do Brasil. Acho realmente difícil me ver morando, estudando ou trabalhando, fora dele. Já pensei, é claro, mas em seguida penso certas coisas e desisto. Eu quero viver bem aqui. Já é um custo me fazer pensar em morar fora de Santa Catarina, imagine em outro país. Sou uma garota do Sul, é verdade. Aliás, sobre isso me veio a nada brilhante declaração do Wagner Moura, nosso Pelé do cinema brasileiro, aquele que “calado é um poeta”. Sim, porque Wagner é mais um que deu declarações de que irá morar fora do país e sente que isso até é bom “porque aqui não dá mais”. Wagner que fez umas novelas fuleiras na Globo, foi alçado ao sucesso e agora virou ator cult. Não discuto. Não é o único que vem a público demonstrar sua desilusão com Lula-Dilma e sem querer colocar-se numa posição além da “simpatizo com a Marina, mas com o Campos não dá” prefere dizer que falta educação, saúde e o país está horrível.

Essas pessoas fazem muito mal ao país. Por favor, exilem-se voluntariamente. Queria ver se tirassem os milhões das pastas da Cultura para colocar na educação e na saúde (que sabemos não é frequentada por esses que falam tanto). Sinceramente? Por mim podem fazer. País que não tem educação e saúde não precisa de teatro, cinema e música – ainda mais se dermos uma boa olhada na maioria dos projetos aprovados em editais e apoios.

Aliás, um megafone daqueles em Porto Alegre falava na educação. No salário ruim dos professores, é claro. Tudo se resume a dinheiro. Sobre professores muito ruins ninguém quer falar, né? Professores que faltam, que vivem de atestado, que vivem de favores políticos, que chegam em sala e só sabem mandar os alunos fazerem resumo do livro didático, que não dão atenção nenhuma aos alunos… desses não querem falar? Se há problemas na educação, é certo que não se trata só de investimentos e salários.

Eu mesma já aderi ao discurso da falta de educação. E aí é uma questão de condição. A condição do brasileiro é não valorizar nem se importar com educação. Os que o fazem são exceção. Não é de encher o saco ver tanta manifestação, tanto “falta educação” e o povo não respeitar nem uma fila de ônibus? Pior, de avião, onde todo mundo vai sentadinho no lugar marcado e o qual só sairá quando estiverem todos a bordo. Tem coisa mais irracional?

Por isso me ocorreu que é um problema de condição. A condição do brasileiro não o permite alcançar níveis melhores. No Brasil não existe a idéia do coletivo, de se pensar e agir pelo bem de todos, há o individualismo. Esses dias ainda comentava com uma amiga como a política havia sido reduzida ao particular, ao “o que é bom pra mim”. Em como decidimos nosso voto pelos nossos interesses pessoais e só. Sob uma condição individualista não há como chegar a um país “bom para todos”.

Não é uma questão política. Não importa Dilma, Marina, Campos, Aécio, Serra. Essa é só a cortina de fumaça. Ser um vermelho que perdeu a noção do tempo ou um contra-cotas-e-contra-o-bolsa-família é a burrice que tomou conta de nós. Pensa-se no eu. E política, meus queridos, não se faz com interesses particulares (nem privados, diga-se de passagem). Claro que lembro de Aristóteles e Hannah Arendt nessas horas. Politicagem é que se faz com interesses (escusos) particulares (e privados). Não adianta nada entoar o discurso vazio do “contra tudo e contra todos” dessas manifestações que tenho visto. Nos jornais estrangeiros hoje muito se falou sobre o povo nas ruas, ontem, há menos de um mês da Copa. Na maioria não havia lista de reivindicações, no máximo a citação ao aumento de salários. Sobre os mortos nas construções do estádios, ou sobre as desapropriações que foram feitas nunca vi cartaz. Tem coisa mais egoísta do que sair às ruas porque meu salário é baixo? É bem diferente do que sair às ruas porque há uma política econômica deficiente que causa problemas para todos (exceto aquela meia dúzia) conseguirem consumir os produtos mais básicos. E voltamos ao preço do tomate.

Acredito que as ruas serão cada vez mais tomadas por pessoas que parecem não saber direito o que querem. E as manifestações serão invalidadas politicamente, de novo. A condição do brasileiro não será alterada, viverá ainda sob a individualidade, sob o discurso vazio e incoerente com seus atos enquanto a nossa miséria poderá ser vista por qualquer um com boas doses de sensibilidade e razão. Reclamarão da militarização da polícia porque não percebem que sua condição de criminosos em maior ou menor grau não permite que a polícia seja de outro jeito (furamos fila, nos apadrinhamos politicamente, burlamos o imposto de renda, roubamos aqui ou ali, sou profissionais preguiçosos, professores relapsos, alunos desinteressados). Não farão nada pelo bem comum, não olharão para suas belezas naturais, não preservarão o meio ambiente, não deixarão de jogar lixo no chão, nem de lavar a calçada com mangueira dia sim, dia não. Em algum momento acalorado gritarão “falta educação”. E não se educarão.

Enquanto isso veremos notícias lamentáveis durante a Copa. Tenho até receio de fazer previsões. Talvez, enfim, ao ver tantos olhos voltados para nós, como nunca antes em mais de quinhentos anos aconteceu, sentiremos vergonha e não assaltaremos os turistas, trataremos bem os repórteres de fora e faremos a torcida mais bonita do mundo. Talvez. Porque os preços das diárias dos hotéis já reservados não voltarão aos valores normais, nem os restaurantes cobrarão os preços justos. E a Copa acontecerá para poucos, pois mesmo nós aqui em Santa Catarina sentiremos pouco do seu vento (um ou outro turista de passagem, o grupo que se hospedará em Balneário Camboriú).

Só ficaremos felizes com os feriados. Eu programei cardápios especiais, para a abertura festa junina, para BrasilXMéxico comida mexicana, ItáliaXInglaterra lasanha, paella valenciana para o jogo da Espanha. Claro que não deixaremos de comentar os jogos no twitter (comprar ingresso no site da Fifa não deu certo) e a babar pela seleção da Espanha, pelo Balotelli, pelo Eto´O e pela bunda do Fred. Provavelmente morrerei sem ter pisado em nenhum desses estádios. E minha aposta (podem rir, quem ri por último…) é na Holanda campeã. (cadê minha havaiana?!)

Menos de um mês e as propagandas para nos injetar fervor positivo pela Copa entulham os canais de TV. As ruas se enchem. E parece que o sensato, como aquele seriado que você começa a assistir e não sabe direito se gosta ou não, é aguardar os próximos capítulos. Ah, em junho estarei em Porto Alegre com minha camiseta da seleção da Argentina (se eu fosse maledicente diria que os hermanos pagaram para ter os adversários da primeira e segunda fase e, por isso, são fortes candidatos) observando aeroportos e ruas em situações mais calamitosas do que as de ontem, com certeza. O melhor é que depois que a Argentina perder e voltar para um país em situação tão ruim quanto a nossa, depois que a Holanda sagrar-se campeã, depois que os turistas tiverem embarcado com suas garrafas de cachaça e impressões conflitantes sobre nosso povo, voltaremos à vida individualista e politiqueira que consagra nossa condição. Porque a Copa será só uma situação. Peraí, eu disse “o melhor”?

As vidas atrás do balcão

 

Lia agora Os Sofrimentos do Jovem Werther (nem eu imaginava que um dia leria, mas, enfim, tenho motivos para tal e este fato com os pensamentos e atos de ontem renderão um post) e encontrei, entre tantas frases e parágrafos contundentes: “Aliás, nesse mundo, não é fácil compreendermos uns aos outros.” e já antes de começar a ler o clássico eu havia colocado na pauta do blog o post de hoje (que foi atropelado pelo do Capitão Phillips).

O jovem Werther, pasmem, e eu somos muito – muito – parecidos. Pensamos e nos sentimos da mesma forma sobre tantas e tantas coisas. Tenho no sangue a tendência às fortes emoções e a sofrer mais dos males do coração do que do corpo. Já muitos atestados de óbitos da família poderiam vir com “tristeza” como causa mortis. Quando Werther descreve o encanto pelo lugar que ele escolheu para viver consigo compreendê-lo perfeitamente. Neste lugar ele encontra pessoas “simples”, pessoas que trabalham, que não têm sobrenomes pomposos nem títulos, nem instrução. A cena do irmão de quatro anos que segura um bebê enquanto esperam a mãe, assim como a conversa com o moço que conserta o arado são exemplos disso. Sim, poderia ser apontado como a superioridade de alguém que olha para um desvalido – mas não me parece o caso.

Queria falar disso… de olhar os outros. Tenho colecionado histórias, fatos, tenho observado há um longo tempo na minha vida as pessoas que me cercam. Não falo das pessoas que conheço – muitas vezes dessas não quero nem saber se continuam vivas. Falo dessas pessoas das quais não sabemos os nomes, pessoas que nos servem, nos atendem, fazem serviços que garantem nossa segurança e a limpeza dos lugares que frequentamos. Não me venha dizer que você sabe o nome da moça que limpa o andar do prédio onde você trabalha. Não sei se é coisa “dos dias de hoje”, se é o individualismo capitalista ou qualquer bobagem semelhante – duvido que seja. As pessoas não olham umas as outras, não é mesmo?

Em muitos casos me sinto constrangida. Não sei, por exemplo, mandar nas pessoas, dar ordens, exigir. Quantas vezes você já foi grosso com a atendente de telemarketing da tua empresa de telefonia? Quantas e quantas vezes vejo pessoas reclamando de terem sido mal atendidas nesta ou naquela loja? Em contrapartida, quantas vezes você já fez mal o seu serviço?

Para ser mais clara, vou citar umas cenas que já presenciei.

Vinha caminhando pela avenida mais movimentada da cidade, numa viagem, final de tarde. Em frente a um banco, um moço e uma moça uniformizados varriam a larga calçada.

– Ó só isso. Ó. – ela fala e aponta com a vassoura para que o rapaz veja do que ela fala.

Eu me viro para olhar também.

– Isso aí é porque a mãe dele não varre, né. – responde o rapaz ao ver um bom punhado de papel picadinho bem picadinho espalhado pela calçada.

Fiquei ali pensando… nem sei se a mãe dele (ou dela) ou ele mesmo não varre. Mas, definitivamente, ele ou ela não pensou que alguém teria que varrer aquilo que ele poderia simplesmente ter jogado no lixo.

Estava na beira do mar, já há dias procurando um vendedor de algodão doce e barquilha quando finalmente naquele dia surge um. Ele faz propaganda, diz que foi feita na hora pois havia vendido tudo de manhã, voltara para fazer mais e poder voltar para a praia para vender.

Conversa vai, conversa vem, eis a história dele: ele mora em Curitiba, vende barquilha lá pelo Jardim Botânico, e há dez anos aluga uma meia água em Barra Velha para vir vender na praia durante dois meses. Lá vende a quatro reais, aqui a dois. Só de imposto para a prefeitura para conseguir a licença (ele mostra a camiseta) são duzentos reais. Explica como elas são feitas, num processo que dura três horas. A pele tostada de sol. Diz que vale a pena, mas que é cansativo, ficam longe da família e tal.

Sim, eu converso com as pessoas. Tenho, ainda, uma baita dificuldade com isso. Contudo, umas idas e vindas me fizeram até apreciar e desejar isso. Se eu não falasse com ele, teria apenas tirado uma nota de dez reais, escolhido minhas barquilhas e nem olhado na cara dele. E não é assim que acontece quase sempre?

Parei num desses lugares da Penha onde tem caldo de cana, toalhas, artesanato e muito mais. Entramos, pedimos caldo e começamos a ver as coisas. Eu me apaixonei de cara por umas bolsas e do nada surge uma menina ao meu lado. Uns dez anos mais ou menos, pergunta se pode me ajudar. Eu solto a clássica “estou só olhando”. Aí em seguida ela diz que tem mais modelos numa prateleira. Escolho duas e uma delas peço para embrulhar. Vou olhar as almofadas enquanto quem está comigo olha uns bancos de madeira, a menina é solícita, mostra esse, aquele – o que imediatamente irrita quem está comigo que não gosta do tipo de vendedor “que fica em cima”. Como sei disso, chamo a menina para me mostrar outras coisas. Ela pergunta de onde sou, conta da tia, conta que mora ali na Penha e estuda em Navegantes.

Desde o primeiro instante a menina chama a minha atenção. Muita gente não sabe, mas comecei a trabalhar mais ou menos com a idade dela. Cumpria horário e era a melhor funcionária que minha mãe já teve. Como a menina, sabia os preços de cor. Me orgulhava muito do que fazia. Não pensem que porque a loja era da minha mãe que aquilo não era a sério. Era a única a ficar sozinha em determinados horários. Ainda me orgulho muito de por muitos e muitos anos (até a graduação nos dias que estava lá e nas férias, inclusive nos horários estendidos de final de ano) ter trabalhado como atendente, caixa, balconista.

Um dia no Mercadorama da Praça Osório, em Curitiba, fui passar no caixa e a moça me diz “Bonita as tuas unhas”. Eu sorrio e “Obrigada. As tuas também.” (pois fazia uns minutos eu estava reparando nelas). “Como você faz esse efeito?” eu pergunto e ela sorridente me explica como faz o efeito craquelado com um palito de laranjeira. Não havia, ainda, na época os esmaltes que já fazem este efeito. Não recordo direito o nome dela, acho que era Marlene – realmente não sou boa com nomes.

Fui até o Imperatriz do Beira-Mar, em Fpolis, para comprar guloseimas enquanto esperava minha companhia para o cinema chegar. No caixa, a moça diz “Bonita a tua bolsa.” eu agradeço e ela pede para vê-la, pois faz crochê. Conversa vai, conversa vem, ela me conta que só fazia isso, pois adora fazer crochê, faz toalhas, chinelos, bolsas, mas que como teve que pegar o emprego não sobrava mais muito tempo. Semanas depois fui lá e fiz questão de ir no caixa dela e ainda apresentei para quem me acompanhava. Disse que volta e meia passarei lá para saber se ela já tem alguma bolsa pronta para eu ver.

Eu poderia elencar mais umas dúzias de exemplos. Além da loja da minha mãe já trabalhei em outros empregos que lidam diretamente com o público: é, sem sombra de dúvida, o mais difícil. As pessoas não te vêem. As pessoas esperam ser servidas porque estão pagando, simples assim. E usei as histórias acima para mostrar o que muita gente sequer pensa: por trás de cada pessoa há uma história de vida, há desejos e frustrações, há necessidades, dons, alegrias e tristezas. Contando com você, quantas pessoas você conhece que fazem exatamente o que queriam estar fazendo profissionalmente? Ou devemos pensar que pessoas nascem com vocação para serem caixas de banco, de supermercado, atendentes de padaria, frentistas? Felizmente a maioria ainda tenta de todo jeito fazer o seu melhor. Liguei hoje para a operadora para tentar resolver um problema da minha internet, levei semanas para me dispor a isso. A atendente ficou meio sem paciência depois de tantas tentativas para solucionar, via telefone, algo tão complexo. Eu a compreendo, minha relutância em telefonar era justamente por isso. Por que eu a culparia? Eu não a conheço, nem sei se o filho dela acordou hoje com febre ou se o namorado não respondeu aquela sms ontem à noite.

Não olhamos os outros… pior ainda, não conversamos uns com os outros. Assim, Werther, fica ainda mais complicado compreendermos uns aos outros. Cada pessoa é um acúmulo de histórias e fatos, e tem quem anda por aí achando que uma balconista é muito diferente de si – só porque é balconista. Eu disse para quem me acompanhava que também não gosto de atendente que fica em cima da gente, mas eu via a menina orgulhosa de estar ali, queria mostrar “serviço”, como entendo muitos atendentes que correm quando você entra na loja porque no comércio há dias que não há ninguém e o tédio é um saco. Eu imagino que muito caixa de supermercado não está ali porque quer mas porque é uma área que tem muita oferta de vaga – e sei que por isso pagam muito mal.

Sempre fui muito quieta e fechada e por isso as pessoas podem estranhar este assunto aqui. Mas faz tempo que mudo meu jeito de ver o mundo e, como Werther, observo essas coisas e pessoas que passam pela minha vida. De jeito nenhum aceitarei a acusação que há superioridade em olhá-las dessa maneira. E sei que devo muito disso à minha mãe que sempre tratou com respeito e de igual pra igual todas as pessoas que cruzaram e cruzam a vida dela. Aliás, ela adora uma conversa também, o que ajuda muito. Foi assim que comecei a ouvir e a olhar para as pessoas. Na loja, ela conversava e sabia as histórias de todos que por lá passavam. Devemos, ambas, isso ao meu avô, pai dela, que fazia do balcão da oficina dele um recanto de conversas com estranhos e conhecidos. É assim que se aprende o que é respeito. Eu poderia escrever páginas e páginas sobre os maus tratos aos animais, mas, sabe, tratar bem animais, plantas, pessoas pra mim é tudo a mesma coisa. Porém, vejo tanto em defesa disso e daquilo, e muitas dessas defesas vêm de pessoas que não olham nem na cara do frentista e vivem nas redes sociais falando mal deste ou daquele.

Minha mãe é amiga da senhora que ajuda a cuidar da casa. É amiga mesmo. Eu sei tudo sobre a família dela, temos conversas animadas e minha mãe até se desespera quando eu pego e começo a ajudá-la na limpeza quando estou na casa dela. Minha mãe só tem este auxílio por questões de saúde e eu nunca, jamais, me neguei ou deixei de fazer o serviço de casa. Não é raro me ver neste tipo de situação e, sim, as pessoas estranham muito. Como diz o imã da minha geladeira, gentileza gera gentileza.

Talvez seja a educação, talvez o respeito e provavelmente tudo isso tenha despertado meu contínuo interesse em personagens, mesmo que esses da vida real. Que o diga a cabeleireira com quem cortei o cabelo semana passada: será a protagonista do meu próximo livro. Vidas… vidas. Gigantescamente assim: vidas. E, ah!, a vida muito me interessa. Mesmo que vá para a ficção.

Maratona Oscar: Capitão Phillips e o negro africano contemporâneo que rompe territórios

Talvez seja apenas um desfilar de clichês numa fórmula pronta e de fácil utilização a qual conhecemos tão bem por ser exaustivamente exposta aos nossos olhos. Talvez seja, enfim, Hollywood. E pergunto novamente, o que seria do mundo sem os clichês?

Tentei assistir American Hustle. Juro que tentei. Não foi desta vez. Talvez eu consiga terminar de assisti-lo algum dia e, tendo conseguido ou não, prometo escrever algo sobre o que os primeiros trinta minutos do filme me fizeram pensar sobre narrativas. Prometo. Já havia previsto este tema para o blog quando fui surpreendida positivamente pelo filme seguinte (do qual misteriosamente eu falava no parágrafo anterior): Capitão Phillips.

Eis então que aquele acúmulo de clichês e talvez mais um filme bobobuster entre tantos me fez encontrar coisas sobre o que escrever. Eu não dava nada pelo filme. Tanto que no dia anterior havia escolhido American Hustle entre os dois. Eu sabia algo da sinopse, Tom Hanks, o bom americano por excelência, era capitão de um barco sequestrado no mar por piratas da Somália, daquela história real (não disse que repete-se a sina do ano passado sobre histórias “reais” na concorrência ao Oscar?). Eu não havia acompanhado as notícias da época (bem recente) – afinal não sou boa em acompanhar notícias, felizmente – mas sabia um pouco do que se tratava.

Ele não se destaca pela fotografia. A direção não tem nada de mais, nem de menos, fora um detalhe ou outro (como a carta que ele escreve para a família e da qual não temos mais do que vislumbres) que nos diz que o diretor é competente – e, sinceramente, nos dias de hoje ser competente em algo, principalmente quando este algo é dirigir um longa-metragem, é já bastante louvável. Ele talvez exceda uns vinte minutos no tempo sem prejudicar tanto o drama – parece que para concorrer ao Oscar é preciso passar das duas longas horas. Dizer que Tom Hanks está num dos seus melhores papéis parece redundante, mas tudo o que normalmente pode incomodar na atuação dele em outros papéis misteriosamente desapareceram neste filme, ou seja, ele está extraordinariamente bem. Ser o típico americano em tantos papéis não conseguiram alcançar o ordinário que ele preenche tão bem como o capitão Phillips. O filme é baseado no livro de autoria do próprio Richard Phillips, “A Captain’s Duty : Somali Pirates, Navy SEALs, and Dangerous Days at Sea” que pelo título já dá elementos do quão raso é o personagem. Os piratas como atores coadjuvantes são um mérito a parte, tão bem construídos e interpretados. Mas o que tem, afinal, Capitão Phillips além de clichês, diálogos esperados, ação previsível e algumas boas interpretações?

Eu diria que este filme alcançou algo que 12 Years a Slave talvez pretendesse e não conseguiu. Num dos diálogos, o ordinário e quase estúpido capitão do Tom Hanks pergunta ao Muse (Barkhad Abdi), capitão dos piratas, se não há outra opção (além de sequestrar navios de carga). Muse o olha e diz que ali não é a América. Ao ouvir a pergunta eu mesma respondi (sim, eu falo durante os filmes) que ali não era assim – quase a mesma resposta do Muse. Eis a obviedade do filme, até eu conseguia antever diálogos. E não é por ser tão óbvio que ele deixa de ser excepcional.

Depois de escalonar os assuntos que pretendia abordar sobre o filme, fiquei pensando hoje cedo o quanto esta visibilidade que se quer dar aos negros, à História e cultura deles, dando-se ênfase na guerra ao preconceito pode estar, também, errada. Porque aqui no Brasil muito se ouve sobre os negros que foram escravizados e para cá vieram. Tenta-se resgatar um passado de forma, como sempre, lúdica e romantizada. Não querem mais ser “negros” e querem que substituamos por “afro-descendentes”. Talvez numa tentativa de guerra pacífica aos que se dizem descendentes de europeus neste país. Brasileiro, ao que parece, ninguém quer ser. Enfim, fiquei me perguntando se passou a moda de falar da África. Na minha época de ensino fundamental a África estava na moda, na TV, nos jornais, na sala de aula, muito se falava da miséria do continente, pululavam fotografias de crianças negras esquálidas, lamentavam-se as guerras tribais, os números da fome e de como o calor castigava a população. Hoje não vemos mais este drama fraturadamente exposto. Não sei se o Ocidente encontrou em si tantos problemas tão ou mais graves que acabou esquecendo de importar imagens e fatos das desgraças africanas. Fato é que não é mais moda. Pois passada a moda de voltarmos nossos olhos para a África, surgiu a moda de orgulhar-se de ser “afro-descendente”… mantendo, contudo, os olhos aqui pelos continentes americanos mesmo. Não desmereço nenhum orgulho nem nenhuma cor de pele, só considerei irônico que o cinema, de uma hora para outra, tenha voltado os olhos para uma condição africana que não parece mais interessar ao mundo ocidental.

Cheguei a estes pensamentos depois de ter, durante o Capitão Phillips, lembrado de um filme pungente que assisti no ano passado. Vi no cinema e tive o prazer de ver novamente quando passou na TV a cabo (em dezembro quando estive na casa dos meus pais estava passando, talvez ainda esteja). Terraferma, um filme italiano que tem méritos enormes e entre outras coisas geniais que ele aborda surge a questão dos imigrantes africanos que tentam chegar à Itália pelo oceano. Terraferma e Capitão Phillips tratam da condição africana contemporânea sem carinho, firulas ou passadas de mão na cabeça. Eles também não cruzam mares para tentar representar nas telas com atuações, figurinos e adereços a situação real deles. Talvez seja um ponto fraco de ambos mostrar o negro africano somente quando este rompe mares e fronteiras e aporta ao lado de nós, ocidentais. Porém, talvez o ponto fraco seja mais um mérito, pois delicadamente colocam o dedo na ferida do nosso esquecimento, depois da miséria africana sair de moda, ao dizer que eles ainda estão lá – e, pior ou melhor, estão vindo para cá.

Ambos também fogem do fantasma que descredita 12 Years a Slave ao abortar a idéia da representação da violência. Sim, há controvérsias, reconheço. Pois os SEALs matarem à queima-roupa os piratas que estavam no bote salva-vidas é algo violento da pior espécie (posto que autorizado e não-criminalizado) e a atitude do jovem pescador italiano de bater com o remo para evitar que eles subam no barco também não é nada anti-violência. Porém, a violência aqui difere em muitos graus da violência de donos de escravo que violam o corpo dos negros para dobrarem suas convicções e almas. Aqui há implícita uma auto-defesa do seu território (espontânea no caso do italiano e calculada e militarizada no caso do americano) – e, sim, trata-se o tempo todo de territorialidade. Outro porém: a violência não é inserida para deleite e degustação do espectador, como ocorre em 12 Years, ela surge como elemento do drama sem recorrer à espetacularização.

Vemos poucos minutos do que seriam as terras da Somália de onde saem os piratas que pagam para poder ir em busca de uma boa vítima nos mares. Vemos logo de cara que ali há somente vítimas que se vitimizam entre si. Está colocado o argumento: a miséria não une. A miséria nunca uniu. Entre quem não tem absolutamente nada, não ter continua sendo desvantagem. Os negros não se vêem como irmãos – ao contrário do que se vê hoje em dia. Aliás, dizem os especialistas que nem os negros que para cá vieram escravizados se viam como iguais e irmãos – outra coisa que curiosamente tentam evitar de contar. O que, aliás, também ocorreu com os judeus. Nós brancos não somos todos iguais, nem temos as mesmas crenças, origens e valores, nem nos reconhecemos como irmãos – nem os negros, nem os índios, nem os orientais nem os africanos se vêem assim. E talvez esta idéia faça muita falta nos discursos. Os piratas contemporâneos que em nada lembram as histórias dos romances são desunidos, mantêm-se mascando “khat” e buscam milhões de dólares do seguro de seus sequestrados para pagar seus chefes. Como diz Phillips uma hora, “todos nós temos chefes”. Ali estão as arraias miúdas sem ganhar nada e correndo risco de vida enquanto seus chefes assistem aos jornais e guardam seus dólares.

Os capitães ali, Muse e Phillips, na verdade não mandam em nada. Chega a ser constrangedor quando percebemos que Tom Hanks não está ali como nenhum herói – o que era de se esperar, visto que ele dá, inclusive, nome ao título do filme. Quem seria o herói, então? Afinal entre os clichês hollywoodianos é preciso haver um herói. Seriam os SEALs, armas humanas de matar que vão até lá no último momento realizar um serviço? (é dolorosa a cena na qual eles, depois de matarem os piratas dentro do bote a uma certa distância, parecem relaxados e começam a trocar de roupa como o final de um turno qualquer numa indústria qualquer) Seria o presidente dos EUA? Seria Muse, condenado a realizar o sonho de ir para a América? Para entender um herói é preciso pensar no que foi salvo. A vida do capitão Phillips foi salva, é claro – e pelo SEALs às ordens do governo americano. Porém, foram, na verdade, salvos o barco e o dinheiro da seguradora – quem salvou o primeiro foi o capitão Phillips, enquanto o segundo também foi salvo pela Marinha e pelo SEALs. E as vidas dos piratas que foram perdidas? Não valiam nada, como desde o começo do filme parece ser evidenciado? Mas, claro também ficou que a vida do capitão americano não valia nada para ninguém (além da família dele).

Como boa ação e um tanto de suspense o filme cumpre bem suas intenções. Eu não esperava nada dele porque justamente não acreditava que ele me levaria tão longe nos pensamentos. Os diálogos entre os capitães podem parecer previsíveis e piegas quando tratam da realidade dos diferentes mundos, mas não resvalam (como eu esperava que fosse) para a velha superioridade americana com sua moral inquebrantável. Uma idéia que vem me perseguindo a dias tocou os pensamentos sobre o filme: não percebemos o luxo que temos na vida. Sabe aquela história da zona de conforto? Pois é mais ou menos isso, falta sermos críticos da nossa própria situação. Perguntar-se, de vez em quando, “eu poderia viver com menos?” é um bom exercício. Não precisamos ter nosso barco sequestrado por piratas somalianos para ver que estamos deitados num berço esplêndido de luxos. Talvez eu sempre tenha sido uma crítica ferrenha do luxo – e nem pensem que falo de carrões importados, coberturas em Copacabana ou hospedagens em castelos da França – e tenho piorado. O que o luxo tem a ver com o filme? Não sei ao certo, mas quando a Marinha americana oferece comida e água aos piratas que estão no bote e eles nem se importam algo em mim se acendeu… eles mascam khat o tempo todo não porque são drogados, uns viciados idiotas, mas porque comida e água não fazem parte da vida deles. Eles querem dólares, milhões de dólares, dos quais mal verão a cor e que, em breve, terão que voltar ao mar para buscar mais e mais. São vítimas, das vítimas, das vítimas. E estas vítimas, me diz Terraferma e Capitão Phillips, estão ao mar entrando à força em territórios que não se importam mais com eles porque não está mais na moda e porque os do lado de lá já têm desgraças demais para cuidar sob o próprio nariz – vide a crise que se instaurou na ilha paradisíaca italiana que perde seus pescadores por falta de peixe e apela para um turismo da pior espécie, em pessoas e hábitos.

Tom Hanks não foi indicado ao Oscar, lamentavelmente. Por que ainda insistem nessa separação entre “melhor atriz” e “melhor ator” nas premiações? O trabalho de atuar não é, em si, o mesmo? Ou é só para fazer aquelas cerimônias intermináveis durarem mais? Cate Blanchett está sendo aclamada pelo seu trabalho em Blue Jasmine (quem sou eu para dizer algo contra), porém o trabalho de Tom Hanks aqui é muitos graus acima. Todo trabalho de personagem que contém excessos é mais fácil de encontrar boas saídas do que os trabalhos que exigem o ordinário, o medíocre. Sou suspeita, não achei Blue jasmine extraordinário, nem a personagem – Cate merecia mais. Resolvi comparar um ator com uma atriz porque não considero que separar por sexo até nisso seja válido. Depois verei com os outros concorrentes “entre si”.

Uma última consideração: Capitão Phillips é um filme de 2013, baseado em fatos reais amplamente divulgados pela mídia internacional em 2009. É uma obra de ficção cinematográfica da história do presente. Um ótimo exercício para quem gosta de História e principalmente para o pessoal da área de História do Tempo Presente (aqueles que conseguem trabalhar com o audiovisual como fonte e objeto e tem o mínimo de conhecimento para isso). Eu particularmente aprecio quando o cinema faz suas próprias histórias, porém tem ocorrido de forma mais frequente que fatos reais corram para as telas em tempo cada vez mais curto – vide o filme dos mineiros chilenos que sairá em breve. Seria uma crise do cinema? Seria a vida a mostrar-se mais inédita do que as mentes dos roteiristas? Qual o interesse de assistir a um filme sobre algo que li e vi repetidas e incansáveis vezes nas redes de notícias? Não saberíamos mais dos fatos e detalhes do que um filme poderia jamais me mostrar? Seria algum desejo de eternizar nossa história antes que as gerações futuras as reinterpretem? Pois bem, algo a se pensar.

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