O maldito tele-entrega

 Era pra ser um programa normal. Fui pra casa da amiga num dia à noite e ia rolar uma sessão dos nossos seriados favoritos, comida, bebida, fofoca, causos sobre os amores e desamores da vida. E aí ela quis pedir a comida.

Depois de inúmeras confusões, pedidos demorados, trocados, a dificuldade de pedir comida de madrugada, chega um x-bacon. Quando eu olhei pra ele quase chorei.

Foi assim, a gente namorava. Durante os anos de namoro eu engordei mais do que em qualquer época da minha vida – mais até do que nas crises de depressão da adolescência. Mas o problema era o tele-entrega. O maldito tele-entrega.

O programa para sábado era pedir uma pizza em casa. Qualquer comemoração, quando ele encontrava tempo entre as mil preocupações com o trabalho, era no fast food perto da minha casa. Eu tinha essa coisa de gostar de variar, ele tinha aquela coisa de ser sempre a mesma coisa. Nunca iria dar certo.

Quando a amiga sugeriu uma pizza eu já disparei um sonoro “não”. Era trauma. Quando o sanduíche chegou eu não comi nem metade. Era tão simples ter percebido que o relacionamento não ia dar certo. Eu não sou o tipo de pessoa de pizza aos sábados em casa e comemorações no fast food. Pelo menos, não sempre. Eu olhava para o sanduíche e já não conseguia nem sentir o gosto. Lembrei de todas as vezes que o relacionamento era aquilo de abrir o pacote da entrega, pegar o meu, ele o dele, cada um ali na cama, na mesa, no sofá, comendo o seu. Invariavelmente a TV ligada. Ela falava por nós. Não havia conversa, ela ficava ali falando sozinha enquanto comíamos em silêncio.

Fiquei traumatizada. Fiquei um bom tempo sem comer nenhum sanduíche. Nunca mais esses de lanchonete de bairro. Pizza entregue em casa, então, nem pensar. Além de engordar, me dar uma sede absurda, era um símbolo de tudo que tinha dado errado.

O errado naquele relacionamento foi não ter visto o quanto as coisas nos separavam. O quanto eu calava e aceitava porque eu havia concordado uma vez, mas não tinha sinalizado que aceitaria sempre. O quanto ele era de um jeito, eu o oposto – e aí a coisa não atraía, repelia. A segurança dele em ter o telefone da tele-entrega daquela mesma pizzaria à mão era o meu desespero pelo “mais do mesmo” – do qual eu fujo até na hora de pintar as unhas toda semana. Por um tempo a graça do relacionamento era essa, o encanto que um via no outro era o diferente. Mas não soubemos equilibrar, não soubemos dosar. Ou talvez certas diferenças nunca possam ser equilibradas, a balança sempre vai pesar mais para um lado. E aí o outro precisa se anular, ou aceitar, ou se conformar. Ou tudo isso junto.

Às vezes a gente pode até fazer isso, tem quem faz a vida inteira. Tem quem não consegue. Aí, para esses, o relacionamento precisa ser aquela coisa na qual as semelhanças façam mais sentido. Os dois precisam olhar mais na mesma direção, gostar mais das mesmas coisas. Não dá pra ele ligar a TV todo domingo pra assistir à Fórmula 1 e não assistir aquele filmão do Truffaut contigo. Não dá pra você querer andar de bicicleta numa tarde ensolarada e ele sempre arranjar uma desculpa pra não ir.

Não há a fórmula perfeita, disso todo mundo sabe. Mas a gente pode ir descobrindo um caminho aqui, um problema ali e tentar chegar mais próximo daquele que não vai deixar sobrar nem faltar. Torna-se um problema quando você acaba colocando tantos “poréns” e requisitos que nunca vai encontrar um que caiba em todos eles. Mas, nas linhas gerais é bom confiar.

O fast food, a TV e a pizza de sábado me fizeram entender que há diferenças irreconciliáveis sem a anulação de um dos lados. E eu não topo me anular. Me resta encontrar um que esteja mais perto das semelhanças, dos gostos e dos desejos. 

Sempre vai me restar ser feliz.

(Ps: a noitada foi muito boa, comemos besteiras, filosofamos sobre a vida, vimos um pouco de seriados, tomei um porre e às oito da matina fomos dormir lendo aqueles livrinhos “Amar é…”)

Explicável

 

Ela queria ver as mesmas coisas com outros olhos. A chuva a fazia sentir o corpo mais pulsante. Ela comprava passagens de ida e volta e sempre queria mais ir do que voltar. Encontrava caminhos pelo meio de caminhos e queria pegar desvios. Ela preferia as estradas mais longas, as mais ignoradas – evitava rotas feitas. Ela queria fazer diferente de todo mundo, mas fazia uma coisa ou outra como todos – e aí ela desfazia, fazia, desfazia. Ela pensou em apagar todas as fotos que passava da câmera para o computador, depois de vê-las – assim, como exercício de memória, desapego, amor. Ela queria sentir as histórias que já havia vivido cada vez que passasse em certos lugares. Ela associava músicas à pessoas, estados de espírito e eventos. Variar é a razão da vida dela. Ela coleciona vasos e papéis de viagens. Ela ama pedras preciosas ou semi. Ela sabe que dinheiro garante a felicidade. Ela sempre quer fugir, fugir, fugir. O horizonte sempre a apraz. O sono a contamina, mas é cafajeste. De vez em quando o vento sopra e ela repara na direção dele como se isso influenciasse a sua vida – e, de fato, influencia. Ela anota recados bonitos e motivadores num quadro na sala. Ela faz listas que nunca segue e esquece. Ela convive com seus atrasos e protelações – como se se amassem a não ter mais fim. Ela diz que não vai mais beber e compra um whisky, um rum, uma vodka e uma cachaça. Ela esquece de algumas pessoas que marcaram fundo sua vida em alguns momentos. Ela marca a vida de certas pessoas e nem faz idéia. Ela não resiste à gentileza. Uma menina cantava baixinho, muito bem afinada, ali no ônibus com as roupas sujas e em farrapos apesar das unhas pintadas e do cabelo bem cortado, sorriu e ofereceu a ruffles que comia mansamente – ela não tirava os olhos da menina com um aperto no peito, mil perguntas por fazer e um carinho que nem sabia de onde tinha vindo, mas antes que desse tempo de qualquer coisa a menina desceu no ponto do shopping. Ela aprecia o tempo em doses cavalares. Ela perde o olhar e a consciência de si por alguns minutos. Ela detesta voltar pelo mesmo caminho, mas sempre quer voltar aonde já esteve. Ela ama o colorido e o preto e branco. Ela se desconcentra com o tique-taque do relógio. Ela vive uma realidade de sonho. Ela ficciona os sentimentos. Ela sabe esperar. O amor sempre lhe escapa da razão. Às vezes ela não sabe o que sente. Ela tem certezas vazias que um dia se transformam em realidade. Ela olha o calendário em busca de uma palavra que faltou enquanto escrevia. Ela se esforça em ser simpática. Ela precisa esquecer um pouco dos outros, de vez em quando. Ela não gosta de pensar em si mesma. Às vezes ela quer chorar só pela beleza do ato do pranto. Os suspiros dela dizem mais do que qualquer discurso ou grito. Ela evita repetir certas coisas para banalizar a emoção. Ela tem receio que os animais de estimação esqueçam dela. Ela não sabe demonstrar sentimentos, esconde seus amores em atitudes grosseiras, mas acha lindo um ombro, um telefonema alegre. Ela queria alguém que realmente se importasse com os seus sonhos, que a escutasse de verdade. Ela tem espaços vazios que ninguém nunca preencherá. E, no fundo, ela não se importa. Ela não se importa com nada. Ela toma banho e esquece. Ela sempre pensa em partir para outra. O frio vem chegando, o calor se foi e ela muda de idéia. Ela quer marcar a pele com todas as lembranças boas que tem da vida para equilibrar as cicatrizes que já marcam as memórias ruins. Um dia as boas superarão as ruins. Ela tem a alma sempre para além do entorno dos seus olhos abertos. Ela sorri ao invés de gesticular. E, do nada, ela pode começar a desenhar para passar o tempo.

 

O bem, o mal e dois gatinhos no bueiro

Hoje o dia começou com o seguinte diálogo:

“Ele seria feliz comigo.” (disse eu) “E você, seria feliz com ele?” (a resposta-pergunta veio de sopetão) “Eu sofreria. Mas, eu gosto de sofrer.” (finalizei)

 

E foi o dia para pensar o quão incomensurável são o bem e o mal. Seja na proibição instituída por um governo, seja no caráter de uma pessoa, seja no meu amor passional.

 

Pensando nisso, nessa dificuldade, segui meu caminho. Ia para um lado, acabei, por circunstâncias da vida, indo para outro. Nem tive tempo de me irritar porque não iria para o meu canto favorito da Ilha. Estou pondo fé no Destino.

 

E eis que entre fotografias, pensamentos, longas caminhadas, estava eu ali em algum ponto entre a Caicanga e a Caeira da Barra do Sul. Do nada quatro olhinhos me chamam a atenção.

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Vejo, fotografo, paro e penso. Não, de novo não. Não, não posso deixá-los aqui. O risco deles serem atropelados era gritante. Estavam na beira do trecho onde é mangue. Ninguém por perto. Penso. Começo a chamá-los, tento atraí-los e o laranja já estica a pata com as unhas e abre o bocão. Não, gatos não gostam de mim. O cinza ensaia sair e o laranja parece o protetor, não deixa e ainda quer defendê-lo de mim. Chamo, tento atraí-los, penso. Eles se enfiam mais no buraco, estão muito assustados. Dou uns passos adiante e olho para trás: os dois estão com metade do corpo pra fora me espiando. Impossível ir embora e deixá-los ali.

 

Volto e continuo minha saga. Carros passam e buzinam reclamando de eu estar ali na rua tentando tirar os dois teimosos. Aí aparecem três meninos de bicicleta. Perguntas. Eu mostro os gatinhos e a operação de resgate começa.

 

Um deles, um pouco mais velho, com um cabelo laranja lindíssimo e sardas, assume a liderança. Eu pergunto se algum mora perto, nem que seja para ficar por uns dias, eu daria um jeito de encontrar quem pudesse adotá-los. Eu, antes deles aparecerem, já havia resolvido colocá-los na mochila e trazer pra casa. Ia dar um jeito. Não poderia ficar com eles, mas encontraria quem pudesse. O menino ruivo, Eli, diz que vai ficar com eles, que já tem uns e pronto. Os bichinhos é que não queriam sair por nada. Nós quatro em volta da tampa do bueiro, o cinza, mais amigável, sai mais fácil. O outro se joga mais para baixo. Aí aparece uma mulher e resolve ajudar. Eu digo que o melhor – talvez único – jeito é tirar a tampa. Você já ergueu uma tampa dessas? Pois é.

 

Enquanto isso, passa um casal. Sabe aquele tipo de pessoa que sempre tem palpite pra tudo? Pois é. A mulher começa o discurso “ah, acharam um ninho de gato?” (gato faz ninho, vai ver) O laranja, quando ouvia o outro, ensaiava sair. Mas não esquecia das unhas. Aí o cara deita na tampa e começa a enfiar o braço no buraco “ah, não adianta, agora ele caiu lá, já foi”. Confesso que meu auto-controle é um lindo. A mulher insistia “Larga esse aí, deixa ele ir lá com o irmão, ele não quer sair”. Eli levanta a voz naquela confusão e diz “Não, eu vou levar pra casa. Não vou deixar aqui, podem ser atropelados, qualquer coisa.”, a mulher faz careta e solta “Ah, que bom, que coisa boa, né?” e, felizmente, vão embora. Sabe o tipo de pessoa que não ajuda, que tem uma mentalidade infeliz? Pois é.

 

Não dava pra deixar de perceber o bem e o mal dançando…

 

Nos juntamos e depois de umas tentativas eis que conseguimos levantar a tampa. O gatinho se assustou e se jogou na água, sumiu. Momento mais desesperador. Resolvemos então jogar a tampa para o lado. Erguemos de novo e felizmente lá estava ele, tinha conseguido nadar de volta. Confesso que meu coração, apesar das vozes até negativas na nossa tentativa de salvamento, deu um nó quando ele se assustou e sumiu na água. Não poderia causar mal a ele enquanto tentava salvá-lo.

 

Um deles pegou-o e ele abriu o berreiro e pulou. Fui eu pegá-lo. Fui arranhada e abocanhada. Sim, duas mordidas daquela boquinha minúscula e meu dedo começou a sangrar. (Seguiu latejando e agora está inchado com as marcas dos dentes – se não der febre nas próximas horas, beleza, sem infecção. Não se preocupem, a UPA é aqui do lado.)

 

Agora a dúvida era como levá-los, tirei o casaco e a bolsa da câmera da mochila e colocamos os dois ali. Havíamos decidido, ele não morava muito longe, eles me acompanhariam de bicicleta e eu iria à pé com os bichinhos na mochila.

 

Devo abrir um parênteses para contar minha relação com os gatos. Nunca gostei deles. Ou eles nunca gostaram de mim. Sempre tivemos cachorros, então gatos eram os chatos que passavam nos muros fazendo com que eles latissem muito. A primeira vez que peguei um foi quando caminhava à beira de uma estrada do interior debaixo de uma chuva torrencial. Era um laranja também, minúsculo, que pulou na minha frente. É claro que peguei-o (com toda a dificuldade do mundo e muitas unhadas) e não poderia deixá-lo ali. Caminhei alguns quilômetros com ele e deixei-o seguro no banheiro de um restaurante na estrada. Não tinha como levá-lo. Ele, em agradecimento, fez xixi em mim. Coisas da vida. Eu tinha uns vinte anos. Depois eu adotei uma gatinha para dar de presente. Atravessei a Lagoa com ela na mão, até o Canto da Lagoa. Ela também queria me enfiar as unhas. Enfim, depois eu peguei-a de volta de quem eu havia presenteado. Um dia, voltei pra casa e tinha uma laranja deitada nos degraus da porta. Essa me adotou. Entrou em casa e ficou. Nada arisca, uma loira-louca. E, enfim, as amo. Mas gatos, no geral, ainda não gostam de mim. E se você me encontrar andando com um gatinho na mão por aí, não estranhe.

 

Não sei o que há nisso de encontrar gatos em beiras de estrada. Enquanto caminhava (a casa do Eli nem era tão perto assim), pensava na discrepância entre as pessoas. Eli, além de lindo, é um menino inteligente, voluntarioso, decidido. Olhava pra ele e pensava que quero ter um filho assim – ruivo e tudo. Eles criticaram um babaca que fez um racha com ultrapassagem perigosa na nossa frente. Eu pensava “então a humanidade não está perdida”! Eles me acharam uma louca por estar lá caminhando. Quando eu disse que morava no Campeche ainda perguntaram “mas você vai à pé até lá?!” com olhos esbugalhados. Não, não iria. Só ia caminhando até a casa da senhorinha que faz picolés iguais aos que a minha avó fazia, ali no Ribeirão, perto dos restaurantes.

 

O bem e o mal são mesmo incomensuráveis. Enquanto existem pessoas tão más a ponto de abandonar dois gatinhos à beira de uma estrada, existem pessoas de coração tão bom como o Eli, para levá-los para casa. O bem e o mal podem ser incomensuráveis, mas as pessoas não. Pessoas são boas, ou são más. Eu achava que fazer o bem era normal, obrigação até. Fiquei pensando que não sou o tipo de pessoa que anda por aí arrotando suas boas ações, mas as pratico. Não vou elencá-las aqui. Mas é um hábito, realmente. Quando criança eu achava que doar roupas, remédios, comida e utensílios, várias vezes ao ano era normal. Eu realmente achava que todo mundo fazia. Sim, foi um choque descobrir que não. Minha mãe me mostrou, talvez até sem querer, a importância de fazer o bem.

Também minha mãe me fez amar animais. Que tipo de pessoa faz mal a um animal indefeso? Ainda o tipo de covarde que não matou os gatinhos, deixou-os ali para serem atropelados. Sim, porque a idéia de que alguém os encontraria era só para acalentar sua consciência putrefata ao deitar no travesseiro.

 

Não sou daquelas que vive publicando fotos de animais para adotar, nem que faz campanha contra venda de filhotes, nem nada. Porque acredito em atitudes. Se certas pessoas tivessem salvado tantos animais quanto fotos deles que compartilham no Facebook, não existiriam animais nas ruas.

 

Eu estava precisando disso. Foi o complemento perfeito para as últimas reflexões. Ando cercada por pessoas egoístas, pessoas ruins, pessoas oportunistas. E comecei a pensar o pior (mais do que normalmente faço) de todas. Nem levei a sério o flerte do taxista para virarmos a madrugada passeando porque pensei que ele só queria o meu dinheiro. Não tenho visto ninguém com bons olhos, sempre espero (más) intenções, interesses. Do nada vejo Eli, minha esperança na humanidade, sendo aquilo que, sim, muitas pessoas ainda são. Eu não sou uma pessoa (completamente) ruim, mas a maldade que já me fizeram criaram essa casca grossa de auto-defesa. Só sou ruim porque a vida me ensinou a ser. Mas nem sou tanto assim, vai. Tenho esse lado passional-sofredora, mas é por esporte. Não é bom perder o hábito de se machucar com a vida. Quando você acha que ela não vai te dar mais nenhuma rasteira é que a coisa dói mais. Tento ver esse lado bom da vida, mas sempre com os olhos atentos. Olhos atentos (tanto me perguntaram como eu tinha visto os gatinhos no bueiro) que andam por aí observando… é um hábito.

 

Os gatinhos conheceram seus irmãos, estavam mortos de fome, o laranja continuou arisco (nem quis sair da mochila) e chegaram na casa do Eli dormindo agarradinhos. Só quem já viu dois gatinhos dormindo juntos sabe quão lindo é isso. A maldade das pessoas é que não permite que vejam. Eli tem mais três filhotes, um foi atropelado na frente dele e ele tratou e adotou e os outros dois foram abandonados na estrada perto da casa dele. Só muito coração para isso. Enquanto há pelo menos três pessoas ruins o bastante para abandonar cinco gatinhos, há um Eli para adotá-los. Estou ou não estou certa em admitir que há, ainda, bondade e pessoas boas no mundo, mas sempre com uma pitada de desconfiança? Um Eli para cada três criaturas que nem chamo de “ser humano”.

 

Depois fui caminhando até a senhorinha do picolé. Já estava fechado. Quase chorei. Depois de tudo, eu só queria um picolé. A lojinha onde eu queria ir também estava fechando. Lá se iam muitos quilômetros…

 

Nada é por acaso. E, sim, tenho essa mania de refletir, pensar e repensar em tudo. Andava tão desconfiada das pessoas e das suas intenções, tão blasé para os sentimentos sinceros dos outros, que não percebia certas delicadezas da vida. Eli, espero que o mundo não destrua essas coisas boas que você tem na cabeça e no coração. E, se destruir, espero que você tenha a mesma capacidade que eu de sempre conseguir revê-las. O bem e o mal são incomensuráveis, mas as pessoas não. Independente da proporção, ainda há pessoas boas e ruins por aí… só resta estar atento para saber decifrá-las. Eu diria que nem é tão difícil, mas tem que estar disposto.

 

 

Borboletas, o covarde do tempo e a solidão de quem acredita

 

E é abril. E é outono. Eu sei, o mundo real bate na porta. A vida deve voltar ao seu curso.

 

Abril é a ressaca de março (e de janeiro e fevereiro, que são três dos melhores meses do ano) e o outono é a ressaca do Verão, ah! o verão! Meu bronzeado já deu adeus. Já voltei à cidade, passou o Carnaval, as festas…

 

Abril chega assim chutando a porta e exigindo respostas em forma de decisões e escolhas. Hein? Escolhas? Me mande comer bucho, mas não me mande fazer escolhas. Não, calma, não é para tanto. Sei lá, me mande gostar de futebol, mas não me mande fazer escolhas. 365 dias no ano e as coisas resolvem cair no mesmo dia. Caramba, Destino, já entendi. Não força a barra.

 

Então o humor se altera. A paciência diz que não vai dar as caras, como sempre. A rebeldia sacode o corpo. Para piorar tudo, instaura-se uma crise profunda de solidão. Aquela que não tolera o outro, que não quer ver gente, não quer falar com gente, que quer ficar só consigo, com os pensamentos, com a ficção, com as idéias e ideais. Talvez a mais grave desde aquela crise feia de muitos anos atrás. Pior que aquela impossível. Ou não.

 

E aí a solidão quer canto, casa. E a vida batendo na porta e na caixa de entrada do e-mail mandando ir pra lá e pra cá. Obrigações… e a rebeldia dando saltos mortais aqui dentro – e sobrevive a eles.

 

Eis que era para limpar a casa, arrumar e continuar a sessão desapego. Computador ainda para faz refaz desfaz backup, formata, instala, desinstala. Louça na pia, supermercado para ir. Filmes para assistir, coisas para escrever, contas para pagar. Ufa! Uma lista interminavelmente horrenda em vulgaridade.

 

Pra quê? Eu estava mal, ninguém sabia. Ninguém perceberia.

 

Me sacanearam e ainda me deram “bom dia”. Quem se importaria?

 

Crise de solidão. Sol. Dia lindo.

 

Joguei fora os planos para o dia (era uma ida solitária à Costa da Lagoa – aí penso, mas ali é para o leste, sem sol no final de tarde, não vale) e o cronograma oficial. Não faço planos, não sei seguir cronogramas.

 

 

Fui. Daria um jeito. Chegaria lá.

 

 

O caminho parecia querer provar alguma teoria escabrosa. Só provei que sou, além de tudo, muito persistente.

 

Ali diante do mar, ondas calmas, sol lindo… sorrio. Tenho esbanjado sorrisos, como nunca (lá se vai um ano assim). Nem quando estive apaixonada das maiores paixões (que nem foram poucas até hoje) – não estou apaixonada por ninguém, vale ressaltar. Esbanjo sorrisos ao ver algo incrível, ao pensar em algo ou alguém, quando ouço uma música no mp3. Se me vir sorrindo por aí, lembre que tenho todos os motivos do mundo.

 

Mas a vida não havia mudado só porque diante de mim estava o divino mar e um pôr-do-sol digníssimo. Não. Eu só me encontrava mais em mim, assim envolta cegamente em pensamentos.

 

Eis que caminho ao longo da praia, pé na água… pra lá, pra cá… observo uma coisa ou outra e na verdade não estou observando nada. Até que me dou conta do que era aquilo que eu observava. Borboletas. Borboletas no mar.

 

(quando já ia embora da praia pensei que ver aquelas borboletas tão inusitadas me lembrou Cem Anos de Solidão, há alguma cena de borboletas saindo do banheiro ou algo assim – e de como foi difícil o começo da leitura dele, como sofri com a tal literatura fantástica que só vim nomeá-la depois, e quando simplesmente acreditei nela é que tudo fez sentido)

 

Talvez haja uma explicação científica. Talvez algum fato comprove a presença delas ali. Só posso dizer-lhes que em tantos anos de praia e de vida (dá no mesmo) eu nunca tinha visto aquilo, nem ouvido falar. Eram dezenas de borboletas mortas boiandos nas ondas. Dezenas. Ou mais. Eu olhava sem vê-las até me dar conta do fantástico daquilo. Olhei em volta buscando uma explicação que eu nem queria. Praia que traz coisas de alto mar por conta das correntes, mas borboletas não vêm do alto mar. Borboletas não se suicidam. Borboletas e mar, nada a ver.

 

 

Foi isso que fez, então, todo sentido. Eu acreditava, borboletas boiando no mar aos meus pés. Fiquei mais de hora ali com elas. Até resolvi fotografar algumas para que não me chamassem de louca. Agora até provas tenho.

 

Acreditar é o que faz sentido na minha vida. Só isso. Eu já sabia. Mas em meio à crise eu precisava ser lembrada disso. Nada mais lindo, fantástico, louco e inusitado para me lembrar disso do que aquelas borboletas surgindo aos borbotões a cada onda. Eu já não vivia aquela vida vulgar de obrigações e mês de abril de mais um outono.

 

Outono, o sol se pôs mais cedo (horário de verão, I miss you so much!) e atrás do morro mais alto. Abril, você também vai passar, deixando saudade ou não. Duvido que superes março, mas podes tentar.

 

Eu poderia ter ficado em casa. Poderia ter sofrido com a minha crise. Poderia ter limpado a casa. Poderia estar, agora, com tudo em dia. Não teria visto borboletas no mar. Aliás, eu jamais teria perdido a chance de ver borboletas no mar.

 

“Mira como corre, qué cobarde es el tiempo” pois que corra, eu não tenho pressa em acompanhá-lo. E como diz a outra canção, “eu vou sair nessas horas de confusão” porque confusão não se cura sufocando-a nem alimentando-a. Confusões e crises são curadas com o ar. Ou com borboletas ao mar, mas aí não é pra qualquer um.

 

(na hora do sol se pôr também surgiu um objeto não identificado à esquerda dele, ao sul, brilhante, pequeno, durou uns minutos e sumiu – sério que ninguém mais viu? as fotos não ficaram tão boas.)

 

Me demoro à beira-mar… volto aos pensamentos, fotografo pouco, redescubro certos cantos e olhares. Lasco o dedo do pé numa pedra e só vou me dar conta disso horas depois. Já tarde vou seguindo meu caminho. Sentam ao meu lado duas mulheres e um menino uruguaios. Querendo me deleitar com a fala deles tiro o fone de ouvido. “Tus amigos saben hacer el amor?!” eis que uma pergunta. Engulo uma gargalhada engasgada daquelas e me esforço por manter o rosto sem nenhuma expressão – finjo que não entendo o idioma. Presto atenção para entender o descabido da declaração e o menino, coitado, se esforça para explicar que já ensinaram na escola essa coisa de espermatozóide e óvulo e tal. Ao que a mulher quer detalhes se já falaram de pintos e vaginas, o coitado ri e diz que sim, mas que isso já sabiam. O diálogo prossegue com as duas indignadas de meninos de oito anos aprenderem isso enquanto elas só aprenderam aos doze, treze anos. Elas ainda insistem para que ele diga a reação dos colegas ao assunto tão interessante e motivo de piadas para aqueles que não o conhecem.

 

O ar tinha o perfume da Dama da Noite. O Rei começava seu show a uma ponte de distância de mim, as pessoas se arrumavam para ir para a balada, eu sorria volta e meia ao lembrar de alguma coisa ou ao ouvir alguma canção do mp3. Me deixem sem dinheiro, sem amigos, mas não me deixem sem mp3. Cantava Cazuza que queria alguém pois o cachorro já não o lambia, os pais não o entendiam e os amigos eram chatos: dispenso o alguém, amigo, mas no resto estamos na mesma.

 

Aliás, dispenso qualquer alguém na minha vida. Não sei até quando, já não entendo o motivo, mas acredito no meu coração quando ele me pede isso. Posso não estar na idade para paixonites (essas realmente dispenso), mas também não passei da idade para grandes amores.

 

Borboletas. Acreditar. O tempo, esse covarde. Crise (profunda) de solidão. Abril e outono. Ressacas. Era para juntar tudo isso e dar em alguma coisa. E deu. Se tiverem explicação para alguma dessas coisas, por favor, não me contem. Dispenso explicações. Eu sempre prefiro acreditar. Sem isso não sou nada além do nada que dizem que a gente já é.

 

 

Todos os motivos do mundo

 

Devo pedir desde já desculpa pelos longos períodos de ausêcia e pelo silêncio repentino que se farão por aqui (e em outros lugares e meios) este ano. Eis que é uma dissertação, é a volta ao estudo, o trabalho, as viagens, mas, acima de tudo porque devo acrescentar um in/m ao que 2013 me reserva: indescritível. E é por isso que não consigo vir aqui dizer quais foram as coisas das últimas semanas que mudaram minha vida. É por isso que não consigo vir aqui dizer o que foi a sensação de trancar a garganta e não chorar até o dia seguinte, a sensação de “não quero que acabe” que tomou conta de mim uma noite dessas. Não consigo hoje, ainda, escrever ou descrever ou sequer contar certas coisas como porque fiquei sem voz e sem ouvir direito dia desses.

 

Entreguei de vez minha vida nas mãos do Destino. Sim, já fiz isso algumas vezes antes. Dá medo. Dá uma puta ansiedade. Dá uma certeza absurda. Aliás, sempre fui muito nervosa e ansiosa, aí criei mecanismos para controlar isso e há anos tem dado certo. Explodi o mecanismo e voltei a sentir ansiedade. Que saudade que eu estava disso! Todos os sintomas de ansiedade me assaltaram e fiquei feliz pra caramba! Ansiedade me faz um bem danado! O medo? Necessário, mas eu nunca fui medrosa, então passo por ele com facilidade. O segredo é não deixá-lo me congelar. E a certeza… ah! a certeza! Eu acredito. Tenho esse dom da fé e isso me basta. Quem manda aqui, agora, é o Destino. E nada mais me importa.

 

Se 2012 foi tão definitivo e profundo, mas eu ainda com as rédeas às cegas, agora as rédeas não estão mais comigo.

 

E foi assim que saí hoje para caminhar, pensando na vida. Obviamente com o fone de ouvido, viro a primeira esquina e toca uma música muito (muito!) emblemática na minha vida e eu lembro de alguns episódios ligados a ela: um sorriso fica ali dançando no meu rosto. Fui caminhando assim sorrindo… distraída, como sou e como a marca do Destino no meu nome já previa. Meio sem entender reparo que um senhor, um velhinho alto e magro, vem caminhando no sentido contrário retribuindo o meu sorriso e faz um meneio de cabeça. Distraída estava a ponto de não ter me dado conta que eu andava sorrindo pela rua… sorrio de volta, engasgo um meneio em resposta e ele passa adiante. Seria um conhecido? Não. Algum amigo do vô ou da mãe? Talvez. Mas aquele sorriso era uma resposta ao meu sorriso. Comecei, então, não mais a sorrir, mas quase rir da situação. Voltei a sorrir mais algumas vezes, conforme o random do mp3 mandava.

 

Enquanto caminhava lembrei de uma frase dos muros do Canto da Lagoa que dizia algo que expressava a situação com o velhinho. Não lembro exatamente a frase, mas lembro onde ela se encontra. Era isso de dar ao mundo o que você quer de volta. Ou como diz lá a canção do mundo que lhe sorri e você não sorri de volta. Ficarei devendo a frase (quando passar por lá vou lembrar).

 

E é assim que o Destino faz viver… na certeza mais inescrutável, com sorrisos que lhe brotam dos lábios e que geram sorrisos de volta. Talvez eu nunca mais veja aquele velhinho, talvez ele nem pense no que aconteceu hoje. Mas eu recebi um sorriso de volta sem explicação, sem motivo, pelo simples fato de ser uma resposta ao que eu dou ao mundo.

 

Por um mundo com mais sorrisos contra sorrisos pelas ruas. Ou só eu ando sorrindo por aí? Cheguei a pensar que o velhinho talvez estivesse tão acostumado com pessoas carrancudas pelas ruas e só por isso retribuiu um sorriso que nem era diretamente para ele. Talvez.

 

Eu poderia começar um papo muito zen aqui sobre coisas boas que só vêm para quem está de bem ou coisa que o valha. Mas, não.

 

Se você me encontrar sorrindo por aí, saiba que tenho todos os motivos do mundo… e, se quiser, retribua. É sempre bom.

 

 

Joinville, o mirante, o descaso, os amores, o risco e as fugas. Escrevo porque posso.

Eu poderia passar sem essa. Não, eu não poderia. Não suporto sofrer auto-censura baseada em opiniões e julgamentos que os outros fazem a meu respeito. Já tive que ouvir até um “você não pode falar porque mora em Fpolis, não aqui”. Acho tão lindo que alguém saiba mais onde eu moro do que eu mesma. Nem eu sei onde eu “moro”. E aí me pergunto, então, se tenho endereço (rá! querem saber? eu tenho endereço em quatro cidades! então posso falar de todas, certo?!) em Fpolis não posso falar do Rio, nem de Mafra ou de Joinville? Pois bem, falo de onde eu bem entender. Falo quando eu penso que tenho algo a falar. Se os dignos “moradores” (muita gente só tem um endereço, tadinhas) de um lugar não sabem ser críticos acerca do seu entorno, entendam: o problema não é meu. Podem dizer que curitibano é bairrista, e somos mesmo! Digam, também, que o típico joinvilense tem características bem definidas e uma delas é você não poder criticar a cidade deles. Meu irmão era desses. Antes de qualquer consciência sobre o “típico joinvilense” eu já discutia horrores com ele (vê lá, não é a maior cidade do Estado, é só a mais populosa, a maior em território é Lages – nunca entendi porque os joinvilenses se agarram ao número populacional e ao título, enfim…), como volta e meia vejo a careta que minha mãe (nem tão típica, mas joinvilense) faz quando eu critico alguma coisa.

Quem me acusou de nem morar aqui foi a amiga virginiana que deixou de falar comigo por discussão política na última eleição. Ela defendia o candidato da igreja, vejam só, aquele que prometia meia dúzia de elevados e que nunca sequer fez uma proposta para o ridículo terminal de ônibus do centro. Essa amiga só anda de ônibus a vida toda dela aqui em Joinville. E eu perguntei pra ela: como tu pode votar em alguém assim? Ela teve que concordar! O terminal de ônibus (não só do centro, mas alguns dos bairros são, pelo menos, mais novos) do centro é a coisa mais ultrapassada que eu posso imaginar, desde que me entendo por gente é o mesmo! Trocaram o telhado ali faz alguns anos, mas não mudou nada! Esse é só um exemplo, não é o principal para hoje.

Sobre eu morar “aqui” ou “ali”, lhes digo que nos últimos dois anos, por motivos pessoais e avessos à minha vontade, tenho passado bastante tempo por aqui (sim, encontro-me faz alguns dias em Joinville). Nos anos anteriores estive mais afastada, mas sempre presente.

Sei que Carlito ganhou, novamente, destaque na imprensa por conta dos seus “últimos dias” como prefeito. Criticá-lo parece bater em cachorro morto, é verdade. Ele será para sempre, pra mim, o babaca que deixou retirarem as azáleas dos canteiros da JK. Sim, aquelas azáleas lindas, sempre floridas no inverno, barreira natural para pedestres afobados, que existiam lá desde que eu era criança. Foi ele também que deixou colocarem aquelas cercas dentro da rodoviária (esta abandonada desde a última reforma feita pelo Luiz Henrique) que não servem para nada. Foi durante o mandato dele que vi as ruas da cidade virarem mato.

Ontem tive que fugir de casa. Pois é, fugi mas tinha que voltar. Enfim, isso não vem ao caso. Saí andando rápido sem destino (por aqui posso andar de olhos fechados, como, aliás, eu fazia ao voltar da escola). Para onde ir quando se quer fugir de tudo e todos aqui? É difícil. Não tem praia. Tá, eu sei, tem. Mas eu não iria à pé até a Vigorelli ou ao Morro do Meio. Ah, sim! O zoobotânico! Lugar com mato, lago, bichos, pouca gente. Ou, quem sabe, o mirante? Para quem não sabe, sou apaixonada pelo mirante de Joinville. Claro, ninguém sabe disso. Mas, dizem, o mirante está interditado… desde quando? Desde sempre.

A missão era ir até o mirante. Na volta uma passada pelo zoobotânico (sempre me dá vontade de ir às segundas, coincidentemente, e nesse dia não abre). Eis que desacelero o passo ali pela Casa da Cultura, um dos lugares que mais tive o prazer de frequentar na vida. Me bate uma tristeza enorme toda vez que passo ali e a vejo fechada, abandonada. Ela foi interditada já faz algum tempo e nada de reabrir. Sigo e vejo mais movimento de pessoas do que eu gostaria. Lembro minha mãe dizendo que tomava banho ali naquela pequena barragem um pouco antes do zoobotânico. E eis a surpresa (ou não): pessoas chegando no portão do zôo e voltando. Alguém ali dizia o motivo de estar fechado. Eu nem ouvi, segui em frente. Já estava posto a tônica do governo Carlito: fechado. Foram escolas, Casa da Cultura, Museus, zoobotânico… tudo fechado por falta de manutenção, interditado, abandonado. Outro exemplo: o cemitério dos Imigrantes. Perdi a conta de quantas vezes fui lá e o portão fechado (apesar da placa com o “horário de funcionamento”), hoje pensei em ir lá, mas não sei se tenho vontade de dar com a cara no portão novamente. Ah, Museu Fritz Alt, que a maioria esmagadora do povo dessa cidade sequer conhece: fechado. A última vez que fui lá saí com o coração apertado. É um crime não conhecer. E está lá “em reforma” e abandonado. Mas se as pessoas nem conhecem, como poderiam condenar o abandono?!

Sigo e passo pela placa “perigo em obras” “acesso restrito”. Eu só paro diante de placas assim quando acompanhada por pessoas chatas, bundões em geral. Como, aliás, foi o caso da penúltima vez que estive no zoobotânico. Enfim, segui. A mudança foi drástica. O caminho que leva até o mirante era de terra na maior parte, até encontrar a antena lá em cima. Agora é toda ela iluminada (pelo menos há lâmpadas, desci já passava das 19h e não vi nenhuma acesa) e com paver na calçada e via. Ah, é uma “trilha” um pouco urbana no meio do mato. Minha alegria: não havia ninguém. Só perto de uma casa que tem ali havia dois meninos. E ela sobe, sobe… tão vazia que tirei a blusa ensopada de suor e segui só de sutiã em meio ao mato com vento refrescante.

Quando eu estava pensando em fazer isso novamente (tinha uma foto em mente para fazer), lá na última subida, quase chegando, vem um ciclista. Tiro uma foto aqui, outra ali e sigo. Lá em cima há o pedaço de uma placa onde se lê “perigo” e “acesso aos funcionários da obra”. Chego, o cara da bicicleta (ele tinha uma garrafa d´água!) faz a volta e desce, fotos para cá e para lá, relembro desde a primeira vez que lá estive e chega um carro. Um homem e uma mulher. Os dois de cara sobem no mirante. Penso cá com meus botões: eles são reforçados, espero aqui e vejo se vai cair, se não cair eu subo. E eu subo. Relembro cada vez que subi ali. Lá em cima aproveito um sol lindo, uma vista maravilhosa, vejo o quanto a cidade cresceu para a parte “de trás”, sim, o lugar mais lindo da cidade. Logo, mais um casalzinho, de carro. Depois eu desço e começo a me divertir. Sento ali no banco que pode cair a qualquer momento e resolvo observar as pessoas. Todo mundo sabe que tem bons e baratos motéis em Joinville. Mas uma fugidinha para um lugar êrmo deve fazer a cabeça das pessoas. Toda vez que vou para lá encontro os vestígios desses amores fugitivos. E dá-lhe chegar casal, dar uma volta, e ir embora. Já era lá pelas 18h, então o movimento tinha razão de aumentar. Além de observar as pessoas, reparei na sujeira que predomina, num portão ridículo que estava aberto sem impedir o acesso, em cercas de plástico há muito arrancadas, em grades que já não existem e oferecem risco real. Lá em cima, com um vento leste forte, reparei que o mirante mantinha-se firme – muito mais firme do que das últimas vezes. Ele resiste.

Logo chega um uno, um homem e umas cinco crianças pequenas (a maior não devia ter dez anos). Ele liga o som, toca Raul Seixas, abre uma cerveja (e eu me derretendo por um copo d´água!) e as crianças sobem e descem correndo, descem ali atrás do banco, sobem e correm por tudo. Ele nem aí. Pelo que entendi nem era o pai delas. Acende seu cigarro e fica ali, urina do lado de lá do carro. uma criança corre até onde não tem mais cerca de proteção e diz “se eu cair daqui será que eu morro?!” ao que uma um pouco maior forja empurrá-la. Ao observar tudo isso me lembrei daquelas grandes tragédias que a imprensa cobre de vez em quando. “Criança morre ao cair do mirante em Joinville” e aí viria todo o drama de um lugar da cidade supostamente em obras estar abandonado e gerando risco para as pessoas. Bem, quando subi no mirante tuitei: se eu morrer, não haverá indenização. Eu estava lá por minha conta e risco, ciente da situação. Como sou um tanto cética quanto ao mirante estar prestes a desabar (como disse, sempre ouvi isso), subi. E, também, ontem estava com a frase “quando eu morrer” desde quando acordei, ou seja, um tanto mórbida. Como poderiam responsabilizar alguma coisa ou alguém quando um babaca daqueles permite que crianças sob a sua responsabilidade façam o que não pode? Volta e meia é esse tipo de situação que gera as notícias dramáticas, mas aí só vale explorar a dor. Desse babaca só agradeço pela trilha, fazia tempo que eu não ouvia Raul e Maluco Beleza caiu como uma luva para o meu dia.

Nesse meio tempo cerca de cinco ou seis pessoas subiram até ali e desceram, pessoas que só estavam fazendo exercícios. Alguns carros e seus casais, duas motos. Logo chega um homem de carro alugado, tira foto daqui, dali e sobe. Eis que surge uma moto. O cara desce e me diz “Não pode ficar aqui, moça. É um perigo, tá tudo fechado, tem placa, não pode subir.”. Eu levanto para sair, né. Ele “Está sozinha, não é pra subir!”. Eu “Eu só estou aqui sentada, estou sozinha. Tem um cara lá em cima.”, ele “Ah, então desculpa, moça. Pode ficar. Só não pode subir. Só pode vir aqui pra fazer caminhada, subir é que não pode.”, eu “Mas eu passei lá embaixo e o cara não falou nada.”. Ali depois do zoobotânico há uma corda barrando a entrada de carros e uma guarita, onde havia um homem que não me impediu de subir.

Eis que ele chama o cara lá de cima, ele desce, diz que “não viu placa nenhuma” (aham…), só tirou fotos, pede desculpa. O guardinha da moto diz que o portão ali foi arrombado ontem (aham, sei…) e que não pode subir, que é um perigo, que está pra cair. O cara do carro vai embora, o guardinha sobe e chama o casalzinho que está lá. Aí chega um carro com placa de outro Estado cheio de gente e uma moto com dois. O guardinha desce e diz que não podem subir, que está interditado. Olha pra mim e diz que vai fechar o portão, eu levanto e vou saindo. Só ouço a voz alta dizer para os turistas “Não pode, não, pessoal. Está fechado. Vou fechar o portão, vocês precisam sair.”. Achei uma abordagem linda para turistas, né? Já passei por coisas semelhantes em certas cidades e é o que a gente sempre lembra ao associar o lugar. Quando eu estava ali perto da antena passou o carro, um ciclista e a moto. Logo o guardinha (que me esperou um pouco mais adiante), me senti escoltada.

Pouco tempo sobe um carro com mais um casal, e lá vem o guardinha atrás! Achei as cenas hilárias. Logo, desce o carro escoltado pelo guardinha. Na descida ainda encontrei dois maratonistas (uhuhu) e três adolescentes subindo. Nada mais do guardinha.

No final da rua pavimentada há uma placa onde constam os planos para o mirante “janela”, a pavimentação da via, etc.. Segundo a placa (sem data) a pavimentação estava concluída e as outras duas etapas em “fase de licitação”. Licitação eterna. Por que não começou pelo mirante, depois a pavimentação?! Eu nunca deixei de ir no mirante porque a rua era de barro. Aliás, havia alguma rua ali que dava acesso aos fundos da prefeitura, onde ela foi parar?

Na volta, sigo à pé pela beira-rio e me irrito com aquele asfalto jogado às pressas e sem nenhuma noção onde havia o belíssimo mosaico português. E dizer que teve quem elogiou aquilo ali! Carlito se resumiu, bem resumidamente, àquilo: pavimentação. Ou nem isso. Porque aquele cimento grosso, mal acabado e feio não é pavimentação. Eu caminho com certa frequência pela beira-rio. Então eu posso falar, certo? Aliás, ninguém tem idéia da minha revolta, durante a campanha para prefeito, quando tive que passar por ali e ver os caras arrancando e jogando fora o mosaico português enquanto o caminhão despejava o cimento. Por que não cimentam o Cachoeira duma vez?!

Por que não fecham tudo, duma vez?! O mirante não recebe sequer manutenção desde, no mínimo, o primeiro mandato do Luiz Henrique. Ele teve dois, mais um do Tebaldi e um do Carlito. Calculem o tempo. Antes disso minha memória política não alcança. Posso, sem orgulho mas com razão, dizer que sou mais joinvilense que muitos “daqui” que eu conheço. Não vou, por nada nem ninguém, fechar os olhos ao que eu vejo seja onde for. Porque, segundo dizem, até parece que eu não critico Fpolis, por exemplo. Não critico Curitiba. Vejam só, cheguei ao desparate de criticar o tão babado Rio de Janeiro! E, quando tenho os melhores motivos, me derreto em elogios…

Assumam o risco, subam ao mirante de Joinville. É inesquecível, lindíssimo. Você vê a Baía da Babitonga, a cidade toda, os morros. E quando subirem a Serra do Mar, numa determinada curva lá depois da Santa, olhem para traz e vejam uma pedacinho disso ali. É lindo. É, sim, emocionante. Não esperem que algum prefeito arrume o mirante, acho que infelizmente ele cai antes disso (e olha que acho bem difícil que ele caia tão cedo!).

Ineditismos, sobre signos e amizade

 

Eu havia prometido atualizar a lista dos ineditismos de 2012. Aí, passei dias pensando e reparei que tenho a tendência a só querer atualizá-la com as coisas boas (ok, a queimadura de água-viva e a picada de abelha não foram assim das dez mais). 2012 foi (está sendo, diz o calendário) um ano especialíssimo, delicioso (só eu sei o peso desse adjetivo pra mim) e eu não desejaria contaminá-lo com coisas ruins. Porém (ah! porém!), é óbvio que algumas coisas ruins (esperadas ou inesperadas) também deram as caras.

 

Posso começar dizendo que fiz mais tatuagens. Sim, a coisa vicia e passei meses apaixonada pela primeira tatuagem, até que fui lá e fiz… mais três! Ah, usei esmaltes Channel. Inclusive limpei banheiro usando esmalte Channel. Ele descascou todo, é claro, porque não é feito para quem limpa banheiro. Então não é pra mim, porque um dia posso estar lá de roupa de festa, no outro posso estar esfregando o chão. Nem esmaltes nem as pessoas conseguem acompanhar minha inconstância. Ah! Tomei banho de chuva completamente nua! Pelo que me lembre nunca havia feito isso… já tomei banho de chuva em inúmeras circunstâncias, e inclusive com quase nada de roupa, mas sem nada foi a primeira vez! Deixando de lado os ineditismos, fiz várias vezes algumas daquelas coisas que já prometi pra mim mesma nunca mais fazer… pois é, dar murro em ponta de faca é especialidade.

 

Infelizmente, devo dizer que perdi amigos este ano… e, sim, lamento muito isso. Para escrever sobre isso, vou falar de signos. Aí vem aquele que torce o nariz (sempre tem). Minha resposta definitiva: tem quem fala de futebol, tem quem é viciado em chiclete, tem aquele que comenta a novela das nove e tem quem fala da sua cólica. Eu aprecio as miudezas do zodíaco. Voltando… o perdi, ainda mais infelizmente, não se deveu à única coisa que não tem volta. Nenhum morreu, só sumiram da minha vida, com ou sem motivo.

 

Tenho uma paixão muito grande pelos virginianos. Adoro vê-los, perfeccionistas, perdidos com meu jeito meio louco de ser. E eles me amam (será que foi aí o problema?). Sério, meus amigos mais próximos são virginianos. Me dou muito bem com eles e sempre foi assim. Aí, este ano, por motivos diferentes, dois amigos virginianos me abandonaram. Um eu posso até dizer que sofri… o outro eu fiquei meio p da vida mesmo. Os motivos dos dois é que me desanimaram em relação a toda a humanidade. Então não posso ter amigo que tenha namorada?! Então não podemos conviver com nossas diferenças?!?! Sejam sexuais, religiosas, políticas?! O que posso dizer é que não esperava isso deles. Desses dois não.

Não gosto de dizer que fiquei triste. Mas realmente senti falta, uma baita falta, de um desses. E mesmo que ele me leia aqui não será nenhuma revelação porque eu disse isso com todas as letras… e fui ignorada.

Ah, ah! Anotem aí! Ineditismos de 2012, fui ignorada por amigo e rejeitada como mulher! Nunca tinha passado por isso! Aliás, experiências ótimas! Estou ainda aprendendo a lidar com elas porque realmente não gostei de me ver em tal situação. Mas coisas novas sempre me atraem. Mesmo as ruins.

 

Aí os leoninos me cansaram com o drama infinito de se fazerem de vítimas e me tratarem como criança. Os arianos se mostraram traiçoeiros (nenhuma novidade). E sempre pensei que tentei minha vida inteira entender os cancerianos… e nunca consegui. Aí hoje fiquei me perguntando se realmente tentei. Vale tentar de novo?! Diz lá o zodíaco que piscianos e cancerianos são perfeitos juntos, minha mãe sempre disse que eu era igualzinha a um canceriano. Será?! Será esse o problema? Ah, 2012 só confirmou também que adoro os geminianos! E começo a descobrir alguns novos signos do zodíaco, sagitarianos, escorpianos… ampliar horizontes é sempre bom!

Nunca pensei que me daria bem com sagitarianos. A vida é uma surpresa…

 

Perdi amizades que valiam muito pra mim. Mas ganhei algumas que não esquecerei jamais, mesmo que não sejam daquelas de conversar e se ver todo dia. Ah, e descobri uma baita amizade numa pisciana! Isso sim é novidade e tanto! Sempre tinha alguma coisa que não batia com as piscianas. Ah, e os piscianos?! Desde de que sejam curitibanos… mas, deixa pra lá! A seara é das mais indizíveis e até eu me calo em certas coisas!

 

Já contei que fui até a Parnaíba? Ao Delta? Que fui ao teatro municipal de São Paulo? Que fui ao MON, em Curitiba? Ah, sim, sim, que andei por Curitiba durante uma semana, completamente sozinha? Pois é, tantos anos na cara e eu não havia feito isso. Aliás, Curitiba é daquelas cidades deliciosas para andar à pé (ou de ônibus as distâncias mais longas), não recomendo carro de jeito nenhum! Alguns ineditismos realmente não posso contar aqui, mas garanto que já tem até sementes para 2013.

 

Nunca disse algo como “ex-amigo” ou “melhor amigo”, porque, de fato, amigo é amigo. Eu sou muito leal aos meus. Eu sou aquela amiga que faz tudo, se doa pra caramba. Aliás, a lista de coisas que fiz para esses dois virginianos que me abandonaram é enorme. Passei horas da minha vida ajudando, fazendo companhia, conversando, me desloquei daqui pra lá pra dar aquela mão na hora que me ligaram “pode me ajudar?”. Eu tenho isso… eu faço. E não cobro, não jogo na cara. Eu faço porque acho que amizade é isso. Não tenho muito isso de falar das minhas qualidades, mas um ineditismo desse ano foi receber alguns elogios. E é verdade, sou leal, sou companheira, sou daquelas para todas as horas. Por isso quando alguém me liga para ir a um velório, eu largo tudo e vou na hora. Nem que seja alcoolizada (viu só? ineditismos…), mas vou.

 

Aliás, para terminar, vou colocar em ordem a lista dos maiores elogios que já recebi na vida (a maioria deles foi esse ano). Em primeiro lugar, auto-suficiente (obrigada, meu irmão, por ter me dado isso aí, eu sei que querias me xingar, mas o efeito foi ao contrário e trago pra sempre!). Sim, gosto de ser auto-suficiente. Desde lá antes da adolescência peguei essa nóia de não depender de ninguém, de não esperar que me ajudem ou que façam as coisas. Ontem ainda a moral do dia foi: quem quer, faz. Em primeiro lugar, de honra, inteligente (minha mãe sempre disse: ela é muito inteligente. Eu sei que é elogio de mãe, mas vale.). Dois vieram de alguém que é melhor não citar, “otimista” e “anti-convencional”. Terceiro e segundo lugares. Sim, depois de tanta coisa na vida e de tanto ser chamada de pessimista (tentando me defender com o “sou realista”) alguém finalmente percebeu a grande mudança que se fez em mim este ano, sou uma otimista incorrigível! E nem vou perder meu tempo em dizer o quanto eu adorei o “anti-convencional”. Minha vontade, ao ouvir, foi de dizer: não tens idéia o quanto! Sim, poucas pessoas sabem o quanto eu sou realmente anti-convencional. Em muita coisa. E em quarto lugar, mais uma amiga (geminiana) que percebeu as grandes mudanças por aqui: prática. Aí a amiga leonina, ao lado, disse que não concordava. Claro que ela não concorda, é só mais uma leonina que se vitimiza e olha para mim como se eu tivesse dez anos. Sim, sou prática com muita coisa. Posso ainda ser a sonhadora romântica (já diz lá o nome…) incorrigível, mas a vida me ensinou a ser prática com tudo aquilo que preciso.

 

O que dizer de um ano que me trouxe tanta, mas tanta, coisa boa? Sobre as amizades, é claro que eu sinto falta, mas tenho certeza que eles estão perdendo muito mais do que eu. Não é todo dia que se encontra uma amiga assim. (ah, anotem aí, assumi uma certa arrogância esse ano também… foi necessário.) E tenho certeza que eles sabem que perderam uma amiga sem igual por motivos tão banais.

 

 

Não consegui pensar em nada além de corredores de supermercados

Tenho essa fascinação em, de vez em quando, criar a expectativa de encontrar o amor da minha vida pelos corredores de um supermercado. Antes de ontem me senti assim.

Essas minhas fascinações, as paixões e tantos ões podem me fazer parecer uma pessoa incompreensível. Não só incompreensível porque fica feliz feito criança pequena ao encontrar milho cozido a R$1,50 no centro e poder vir caminhando para o apartamento, de chinelo, me sentindo um pouco em casa depois de mais uma semana sem explicações. As pessoas me olhavam (reparei que por aqui não usam chinelo) como se houvesse algo… de errado? Pois eu creio que há tudo de muito certo.

 

Minha vida é uma inexatidão que constrói caminhos tortuosos, vertiginosos, confusos.

 

E hoje tive mais um ponto culminante dessa inexatidão tão perfeita que eu amo. Eu não conseguiria descrever (ah, Merleau-Ponty!), eu não saberia transliterá-lo, de nada adiantaria citar fatos e frases em sequências. Eu sei porque eu acredito, e isso sempre me bastou.

 

Talvez eu quisesse alguém para ouvir meus sonhos, meus delírios (que não passam nem perto de Becky Bloom), alguém que não apenas me ouvisse, mas lesse meu olhar, meus gestos incontidos, minha euforia, ao falar sem nexo nem sentido sobre todas as impressões (ões, ões…) que me fazem acreditar e pensar como penso. Talvez a ventania absurda que ouço aqui do sétimo andar me tenha chamado para ir lá para fora, sentar num meio-fio qualquer e ter conversas intermináveis com gosto de paixão pura, sem pensar na hora, sem se preocupar com assaltos, enrolada numa jaqueta (ou seria japona?) tiritando de frio… Talvez. Mas não há ninguém para ir lá comigo, nem para me ouvir. Não lamento nem sofro por isso. Alguém que só me ouvisse como uma coisa a mais, ou alguém que acha que me ouvir faz parte do preço para ter sexo, ou alguém que do trabalho só saberia em pouco tempo falar em cansaço, esses alguéns não me interessam. Não quero mais muita coisa e sei bem o que me espera. Tenha dessas, de saber o futuro.

 

Por falar em sétimo andar, confirmei que não posso viver em apartamento (nunca gostei!). A louca pode cair da janela ao tentar fotografar a lua linda, como fiz ontem e antes de ontem, lá entre outros prédios porque é Primavera e no Inverno ela fica numa posição mais fácil e menos perigosa de fotografar.

 

Talvez eu fique aqui, podendo alongar minha madrugada depois de semanas tendo que acordar com horário, pensando que não estou lá fora aproveitando a ventania (mais uma paixão), a noite, o frio, uma conversa desregrada… Talvez eu aproveite mais umas horas de solidão como as que tanto me fizeram falta na última semana. Talvez eu escreva, já antevendo aquilo tudo que prometi.

 

2013 começou. Começou terno, descortinando os louros de longas batalhas. Já me apresentou as certezas que sempre tive porque, na verdade, nunca deixei de acreditar.

 

Sobre 2012 posso dizer que havia aí umas dezenas de coisas para completar na lista de ineditismo, porém, sinto que a maioria delas é impublicável. Umas por censura como a dos filmes adultos mesmo, outras porque, enfim, amo meus leitores, mas devo me preservar em algumas coisas.

 

Em 2013 vou completar a lista, além de ineditismo, completarei aquela lista das coisas que sempre busquei, que construí, e agora é a hora de investir no acabamento para poder me mudar de vez. É aquela mudança de alma que vai se completar.

 

Nem antes de ontem nem hoje encontrei o amor da minha vida pelos corredores dos supermercados. Por outro lado, tenho o prazer indescritível de reencontrar as minhas paixões todos os dias. Esse amor virá. Mas amores vêm e vão… as minhas paixões, o que eu sou permanecem.

 

Escrevo para dizer que não há como escrever o que foi esta semana, de onde ela, ao longo dos anos, se formou, de onde surgiram tantas pontas, detalhes, frestas que formaram o ponto culminante de hoje e de muita coisa que virá. Mesmo se eu tivesse alguém com quem ir ver a ventania, teria escrito. Porque já contei e recontei para as pessoas que me cercam e ainda assim preciso ficar tagarelando. A euforia me permite. Não verbalizar até aquilo que não é possível dizer é para os poderosos da síntese. Eu dispenso.

 

 

Pra você que só reclama: há dor e delícia

 

Não é novidade alguma para ninguém que gosto muito de Florianópolis.

Vim pra cá praticamente sem conhecer a cidade, com uma mala com roupas e uma caixa com livros. Dezoito anos na cara, matriculada em duas graduações e sozinha. Não me faltou coragem, não me assustaram nem a solidão nem as responsabilidades e decisões. O pouco que eu conhecia da Ilha tinham deixado uma impressão forte de quando menina: a beleza natural. E, bem, já um pouco mais velha, eu pensava que se num lugar tão lindo (isso só do pouco que eu conhecia) ainda havia a oportunidade daquilo tudo que na época eu sonhava e traçava meu destino, melhor ainda.

Também não é novidade alguma que eu gosto muito de praia, talvez pelo costume de frequentá-la desde antes de fazer um ano, talvez pela alma que se encontra à beira-mar. Gosto da natureza, de cachoeiras, de morros altos com vistas lindas, do meio do mato, de árvores e flores. Isso sempre foi assim, me sentia criada no meio do mato quando abria a janela do quarto e via a goiabeira e um pé de fruta do conde, lá embaixo as galinhas e patos livres pelo quintal. Vivi sempre num mundinho a parte, com meus brinquedos e as histórias e personagens que eu criava. O elo com a realidade era a mãe, sempre por ali, e que tem papel definitivo em quase tudo o que sou, e em muita coisa que gosto, como esse apreço pela natureza.

Bicho do mato como me sinto, não nego ter nascido onde nasci e sempre gostei de cidade com opções. Naquela época eu olhava para a Ilha e via isso, um deleite natural com cara de cidade grande. E aí, me senti em “casa”. Eu sei, não sou só uma e não vivo em um só lugar. Por isso vivo para lá e para cá, com aqueles meses sagrados no meu reduto (que de cidade grande não tem nada).

Eis que estava na Ilha sem ter sido ela nunca um objetivo em si, sonhada ou idealizada. Mas ali estava e ali eu vivia. Viver, no sentido mais doce e amplo. Soube aproveitar tudo o que ela me oferecia. Quantas vezes, ao chegar no CFH e ter uma notícia de falta de professor não olhei para as amigas e disse: vamos pra praia? Quantas vezes num dia de folga de aula ou faltando aula não subi um morro desses aqui em volta? Quantas vezes não fui ensandecida a um bazar de shopping fazer compras como se não houvesse amanhã? Foi tudo e foi muito.

Não sou daqui e nem me sinto de lugar nenhum. Posso, amanhã, ir para qualquer lugar. Ainda não fui porque me sinto contrariada em sair de onde gosto tanto e de estar nas proximidades de quem é importante pra mim. Afinal, a BR 101 é aqui ao lado. Sei que é bom ampliar horizontes e blábláblá. Nunca me neguei a isso. Nem me nego. Mas ao chegar aqui tão sem planos concretos, hoje vejo traçados para o futuro coisas das quais não posso fugir pelo traçado que já vivi até agora. E assim se faz.

Tudo isso convive conscientemente comigo. Nas últimas semanas, certos eventos fizeram tudo ficar à flor da pele. Já conheci algumas características da Ilha e de quem vive aqui. Já escrevi sobre isso inúmeras vezes. Sei que é impossível impedir o crescimento, mas acredito possível impedir muitas das suas nefastas consequências. Sei que sempre pareço saudosista. Não acho, porém, que seja o caso.

Há uma canção da Shakira que diz que para falar de dois é melhor começar por si mesmo. E acredito que para poder falar sobre qualquer coisa, preciso dizer de onde estou falando (coisas que a academia fazem você perceber ainda mais) e por isso começo sempre por dizer quem escreve aqui, de onde, por quais olhos.

Meu discurso representa aquilo que eu estou o tempo todo formando como “eu”. Não nego isso e prefiro deixar bem claro.

Fazia algum tempo que não explorava uma determinada região do Campeche. Sabia que numa rua havia acesso para uma trilha, como há tantas pela Ilha. Resolvi, naquele dia, ir até lá. Quanto tempo havia passado? Uns três anos, provavelmente. Mas sou frequentadora da região e fui direto por onde eu achava (resquícios da memória, obviamente) que era a entrada para a tal trilha. Eis que logo na estrada de uma rua comecei a reparar nas mudanças. Mudanças drásticas. Há, agora, pelo menos mais cinco novas “servidões” (nada mais característico da urbanidade da Ilha) ali atrás da tal rua que eu conhecia. O mix indescrítivel que é a população e os tipos de moradia da Ilha (um dia aquele documentário sai do papel) tinham ali um belo exemplo – certo, não tão belo assim. Ao mesmo tempo que sempre me fascinei por essa multi-qualquer-coisa que são os moradores da Ilha e suas habitações, sempre fiquei horrorizada. Ali naquelas servidões há um novo condomínio fechado com casas de alto padrão com suas piscinas, sem muros nem cercas, as casas de metragem razoável com carro simples na garagem e terreno padrão, as velhas casinhas que parecem existir desde que a Ilha é Ilha, um puxadinhos pra lá e pra cá que pelo número de portas diz que o aluguel ali come solto, aquela casinha de madeira caindo aos pedaços com um sedã caríssimo na garagem, as inúmeras e intermináveis casas em construção… Um churrasco pra cá, um cachorro pra lá, um fogão a lenha ali, um som alto de carro acolá. Diante de mim estava o melhor exemplo do que é a Ilha. Há bairros com características predominantes, mas essa mistureba é a cara da Ilha. Como toda cidade, tem seus bairros “ricos” e os “pobres”, mas estes convivem numa babel econômica bastante peculiar por aqui.

Como viajante da Ilha, já encontrei um tipo bem específico que é aquela pessoa que constrói sua casa ao lado do paraíso (uma praia, um morro, o início de uma trilha) e desrespeitosamente coloca cachorros, cercas ou qualquer outra coisa para impedir o acesso dos outros ao que é de todos. Esse tipinho é o que mais me irrita. E neste dia me irritou muito, quase desisti de tudo e resolvi voltar para casa. Porém, caso eu tivesse feito isso, teria voltado com uma péssima sensação e seria mais uma a olhar a Ilha pelo ângulo tão desfavorável ao qual é tão fácil recorrer nessas horas por quem mora aqui.

Entrei em uma servidão, perguntei na penúltima casa, a mulher disse que achava que era ali o acesso à trilha, senão seria na rua detrás. Na última casa desta rua, uma casa que a melhor descrição que me ocorre é “improvisada”, dois cachorros enormes dominavam a área que pensavam ser deles, o cara lá na casa fez de conta que não me viu e eu voltei. Voltei bufando. O cara não tem o direito de jogar sua casa onde bem entender, fazer que aquilo é dele e ignorar quem deseja ter acesso ao que não é dele. Fui até a rua de trás, subi um morro, tentei achar a trilha e nada. Um morador da última casa desta rua me observava. Nessas horas os moradores daqui não são tão queridos. Voltei, vi uma mulher na casa desse observador e perguntei sobre a tal trilha. “Ah, não é nessa rua. Pega a principal e entra na próxima.” Pois bem, ou ela queria me dispensar de vez (o que acontece muito nesses casos) ou a minha memória realmente tinha dado uns pulinhos. Eu lembrava de toda aquela entrada da rua principal, exceto pelas novas servidões. Voltei, segui, entrei na outra e, sim, era lá. Eu havia errado (e minha memória me alertou que da outra vez eu também tinha errado) a entrada. Subi, subi, subi, lavei e sequei a alma, lamentei o mato alegre com o calor que fez no nosso inverno e que me tirava uma parte da vista, tive aquele momento que só eu sei o que é e voltei.

 

Nos últimos meses tenho acompanhado a campanha política para prefeito. Não só de Florianópolis, mas de Joinville e de outras cidades. Um dia, em casa na Ilha, ouço a propaganda do Cesar Souza Jr falando sobre as liberações em excesso para construção de imóveis na Ilha. Esse é um lema da campanha dele desde o começo. Achei um risco grande tocar nisso, mas ao mesmo tempo um trunfo. Este é um grande problema da Ilha, é verdade. Mas a nata da cidade administra a construção civil (Político posicionar-se contra a elite? Nem Lula fez isso… o perigo é grande demais e não garante votos.) e o povo quer morar em Florianópolis, é imagem, é demonstrar poder, posição, sei lá o quê. Aí quem se posiciona contra a ocupação desenfreada é tachado de saudosista, atrasado, mané. Fiquei pensando se o Cesar faria uma placa com a famigerada frase “fora haole” e colocaria nas pontes. Porque é disso que acusam quando se tenta abordar o problema. As pessoas, no geral, não percebem que construir um prédio como aqueles ao lado do Paula Ramos, na Trindade, é um atentado ao que já está tão ruim. O cara reclama do trânsito parado, mas só usa o seu carro (e como 90% das pessoas nessa cidade, anda sozinho no seu carro). A pessoa olha para um prédio e não entende que cada apartamento daquele vai ter entre duas a quatro pessoas, que essas pessoas vão andar nas ruas, vão ter carros (a maioria dos prédios por ali tem pelo menos duas vagas na garagem), vão precisar de serviços na região, etc.. O problema por aqui é realmente grave. Porém, se você critica as cidades do entorno que são “dormitório” e não absorvem a mão-de-obra dos seus habitantes, levando à exaustão as pontes e a região central (aquela pessoa que mora em Palhoça e vem todo dia trabalhar num shopping qualquer) você é preconceituosa e sabe-se lá mais o quê.

 

Fiquei curiosa pela declaração do Cesar Jr., mas achei ainda mais curioso quando ele, num programa na TV, disse que a cidade não aguentava mais elevados. Segundo ele, a gestão anterior havia construído elevados pela cidade e não havia resolvido o problema do trânsito, havia, inclusive, piorado a situação. Cesar Jr. é candidato pelo PSD, mesmo partido de Kennedy Nunes, candidato de Joinville. E aí eu lembrei da questão do “horizonte” que citei ali acima.

 

Kennedy Nunes tem por principal promessa de campanha a construção de seis elevados e um túnel em Joinville. Como toda cidade brasileira de médio e grande porte, Joinville hoje também só sabe reclamar do trânsito. (Parênteses necessário: o “trânsito”, ou “mobilidade” que acham mais bonito chamar, é um problema nacional. É sabido o incentivo para a compra de automóveis, a isenção de impostos, o crédito fácil e o consequente endividamento da população para que, num ideal golpe de mestre, o governo não entre na crise mundial e possa dizer aos quatro ventos que aqui, agora, a população não é mais pobre e compra, compra, compra, tem acesso a tudo e mais um pouco. Um golpe de mestre, sim, senhores presidentes, que joga para o indivíduo, com a querida intervenção federal, mais problemas – endividamento, trânsito, poluição, doenças – e nenhuma crítica.) Eis que pensei, então, que Florianópolis, anos atrás com a maior frota proporcional do país quis solucionar o tal “problema do trânsito” e construiu suas dúzias de elevados. Em pouco tempo, agora aquela solução politiqueira e de aparências tornou-se um problema maior ainda porque em nenhum momento tocaram na raíz do problema – e ganharam a colaboração de grego do governo federal. Joinville, com o candidato do mesmo partido de Cesar Jr, deveria ter este alerta da experiência. Florianópolis, que é mais desenvolvida que Joinville (alguns joinvilenses me odeiam por declarações assim), enfrenta problemas por ter sido ludibriada com as soluções de fachada, e Joinville segue o mesmo caminho. Não cobro a previsão, mas daqui poucos anos estaremos ouvindo em Joinville a mesma ladainha do “novo”, da “mudança” que a cidade precisa com este ou aquele candidato que vai finalmente resolver o problema do trânsito em Joinville, coisa que o prefeito anterior não conseguiu e só gastou dinheiro em obras faraônicas.

 

Tenho profundo desprezo pelos que “passam” pela Ilha. Aqueles que vêm morar aqui porque foi onde encontraram as oportunidades que não tiveram nas suas terras e só sabem explorar (no pior sentido) e criticar muito a cidade. Essa babaquice de “Beverly Hills catarinense” só demonstra isso. Por que a chacota? Todas as cidades têm todo tipo de gente, não é só aqui que encontraremos idiotas que fazem declarações idiotas. Não é só aqui que há pessoas com muito dinheiro e pouca coisa na cabeça. E sabe o que as páginas do Facebook de Diário de Classe, Beverly Hills catarinense e afins demonstra? Uma outra característica forte do povo de Florianópolis: a vocação por seguir modismos rasos. Sai qualquer bobagem, lá estão todos achando lindo. Quem se ancora aqui e fica só dizendo o quão desprezível a cidade é, a mentalidade das pessoas, merece, sim, um “fora haole”. Volta pra onde veio e vê se lá vão te dar a vaga na universidade que você queria, o emprego que você precisa. Difícil?

Não dou crédito ao discurso “ah, mas acha que é fácil largar tudo”. Não é fácil. Eu não gostava de morar em Joinville, não via minha vida lá, e só eu sei o que passei para resolver isso. Vire-se, eu diria. Agora, quem vem com o discurso, ao morar poucos meses em Florianópolis, de que aqui não é paraíso nenhum, que a cidade é elitizada, excludente, que tudo aqui é ruim, que é só propaganda a tal “ilha da magia”, precisa sair da Trindade, abrir os olhos de verdade, pegar umas dúzias de ônibus, estudar algumas coisas e pensar antes de falar. Acho bem simples. Se, mesmo assim, continuar na rabungentice, saiba que as pontes ainda estão abertas, pra quem chega e pra quem sai.

 

Quem gosta de verdade de alguém ou alguma coisa aprende a ver seus defeitos. E, melhor ainda, se preocupa com eles, tenta fazer alguma coisa. Seja aqui, em Joinville ou onde for. Uma amiga ainda me disse “Bom saber que o Campeche ainda resiste.”, infelizmente não sei se posso dizer que o Campeche, ou a Ilha, estejam resistindo. Não sei dizer se Joinville com suas tão mais frequentes enchentes (com exceção de umas três citações durante a campanha, foi o tema mais grave e mais esquecido) está resistindo, seja ao avanço ou aos péssimos políticos. Ou, ainda, à própria ignorância de suas populações.

 

Sei que Florianópolis não é nenhuma perfeição. Nunca chamei-a de “ilha da magia” ou “floripa” porque discordo do que vem embutido nisso. Me preocupo muito com os problemas que me parecem os mais graves da cidade. Mas sei olhar aquilo que é bom, sei aproveitá-la e não deixo de criticar. Eu poderia ter voltado pra casa quando tropecei nos malditos moradores com seus cachorros. (E, só para constar, há um caminho dali até onde eu queria sem precisar ir para a outra rua, pude constatar isso lá numa das curvas do morro, onde começa a trilha que vai para a casa das servidões, mas os moradores devem achar que é acesso “particular”.) Mas, não, eu insisti e fui lá ver, ouvir e sentir o que eu precisava, com vistas maravilhosas, silêncio, paz e alma lavada. Eu poderia ter ficado com medo e não ter pegado aquela mala e aquela caixa com livros para vir pra cá. Reclamar e desistir são cânceres da alma, meus queridos.

 

 

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