Às pressas

 

O prato de doces

restou intocado sobre a mesa

as rolinhas amavam-se

sobre o mato que se alastrava

pelo jardim

bicavam-se e trepavam-se

como se sorrissem do descaso

as cortinas empoeiradas

sussurradas pelo vento por entre

as frestas das janelas fechadas

às pressas

a torneira da pia do banheiro

pingava a cada dois segundos

num eterno conta-gotas

do abandono até secar

a caixa d’água

os gatos debandaram ao passo

da fome lá pelo terceiro dia

viraram latas pela rua

ainda esperavam entre cochilos

e perseverança

as lâmpadas acesas da varanda

esquecidas na manhã do desespero

levadas à exaustão das horas de vida

escureceram de vez a fachada

da casa

um silêncio frio dormitava

sobre o piso escuro

e amparava as manchas

da desgraça

um travesseiro caído ao lado

da mesa da sala de jantar

murchava os sonhos ali

travados em batalhas solitárias

paredes brancas testemunharam

o fim

 

Era meados de Outono.

(nada dura até o fim de um Inverno)

o teto ruirá junto ao Verão

seus restos confusos

invisíveis serão pelo alto muro

– de pé, permanecerá um poço profundo.

As coisas não caem do céu

Quem dera fosse a chuva miúda

a lamber nossas noites amareladas

 

Não seria o dinheiro que não dá

em árvore nem cai do céu

(diria meu pai)

Nem todas as conquistas que eu

sonhei para este ano passageiro

Nem as respostas que você me pediu

naquele dia de vento forte e quente

diante do mar agitado

 

As coisas não caem do céu, assim

 

As coisas não caem do céu

assim, do nada

a resolver nossos problemas

a dar chances mesquinhas

a encurtar distâncias

e expandir possibilidades

 

Quem dera fosse uma neve inédita

a embranquecer nosso Natal tropical

 

Não seriam doses de paciência

ou feriados prolongados

nem morar num barco a vida inteira

nem preocupar-se com a hora

Não seriam as alegrias a despeito

das frustrações doentias

nem os medos que carrego aqui

a burlarem-me as veias

 

As coisas não caem do céu, meu bem

 

As coisas não caem do céu

como queremos

a nos dar tardes quentes

a nos presentear noites frias

a nos deleitar com temporais

e nos banhar: no mar e na chuva

 

Quem dera fosse o sol escaldante

a atear fogo na tua cama de lençóis laranjas

 

Não seriam sete dias

ou os cem quilômetros

nem um navio a te levar

nem eu a me olhar sem espelho

Seriam nossos sorrisos

a inspirar-nos poesia

e a julgar as decepções da vida

numa tábua desmedida

 

As coisas não caem do céu, dizem

 

As coisas não caem do céu

por acaso

a erigir abraços de confiança

a sufocar o momento errado

a ondear esperanças

e caminharmos juntos.

Faltava-lhe teu amor

 

Medo de perder as chaves

de casa

e de cobras escondidas

no jardim

 

Fechava cedo as cortinas

de casa

e deixava vasos vazios

no jardim

 

Sobressaltava-se: era a campainha

nas tardes

e a brincadeira dos cachorros

na sala

 

Gozava os banhos quentes

nas tardes

e as noites envolta em cobertas

na sala

 

Temia descontrolar-se com a fila

no supermercado

e no estacionamento lotado

da igreja

 

Esquivava-se de encontrar um amor

no supermercado

e nos olhos de um moço

da igreja

 

Faltava-lhe teu amor

a escorrer pelas madrugadas

a enviar-lhe mensagens

a destacar-lhe o sorriso

a preencher-lhe a cama pequena

a acordar-lhe os sentidos

a dar-lhe esperanças alaranjadas

a fazê-la suspirar todo sábado ao ler o jornal.

Chantagens

Barcos não navegam sobre trilhos

e sem ninguém reparar

sempre atraquei nas mesmas praias

areias e pedras: meu caminho

 

Coleciono esquecimentos brutos

em troca de doçuras da memória

 

E ali não havia música

a maré a se achegar

e o ciclone em alto-mar

são notas certas da nossa trilha

 

Chantageio o coração guerreiro

com horas de paz na penumbra

 

Com quantos invernos se faz

um olhar desconfiado

basta uma primavera

para um abraço sincero

 

Burlo carrascos do tempo e espaço

com o relógio de ponteiros quebrados

 

As andorinhas a flanarem

sobre os túmulos floridos

dos nossos passados

redesenham um futuro

só: nosso.

Na frágil ponte

Não vi quando

as nuvens abraçaram os morros

nem o que

teus olhos viram em mim

naqueles tempos

quando, desconfiados

ainda não nos entregávamos

às juras sussurradas do rio

sem pressa aos nossos pés

 

De noite os vidros embaçados

os latidos espaçados

e as folhas que caem

sobre o teto do carro

 

Eram corpos que tremiam

no tempo e espaço

do limiar do fim

da solidão

 

Quis ver por teus olhos

como era este mundo

(o qual abandonara há silêncios

por desilusão);

na frágil ponte que ligava

a terra firme ao precipício

onde água e pedra, desembocava

teu olhar longe de mim

e aos poucos se apaixonava

Roupas no varal

Deixei as roupas no varal

esqueci as roupas no varal

os olhos trêmulos de cansaço

do céu só a chuva cai

 

e as roupas no varal

vítimas daquele temporal

não era ainda época

de tempestades sem aviso

 

as roupas encharcadas no varal

tirá-las de nada mais adiantaria

eu via o caminho sem volta

de não tê-las mais secas

 

passou o vendaval

e a chuva torrencial

e as roupas ficaram no varal

deixei-as, talvez sequem

até a próxima Estação

ou até sábado

Diante das dúvidas

Ouso perder-me no bairro ao lado

com placas de ruas sem nomes

Perder-te, meu desatino

 

“O que é: o amor?”

Invento a resposta no meu sorriso

assim da verdade te desvio

 

Aos olhos que piscam a cada esquina

desejos pelos despojos do meu corpo

desprezo: lhes dedico

 

Amor: sabe bem

quem com esmero o jardim mantém

e os agradeço pela boniteza do gesto

 

Amor: explico-te

é o perfume dos jasmins

e das damas da noite

em incansáveis Primaveras

 

Apaixona-me no meu exílio

Dá-me teus desejos sinceros

nessas ruas onde nunca nos vimos

Quero-te: vem; e será sábado.

Mesmo fôlego

 

Riscos de giz na calçada

e a noite que trouxe consigo

as folhas em rodopio

de um limoeiro antigo

a valsa sem par inunda a sala

a recordar o marulho

de um dia que tanto amei

 

É o ar exausto que expiro

pelo futuro de tons doces

almejo-o como ao amor

como tê-lo ao lado

no mesmo fôlego

 

Tantos nãos, fiz coleção

desamores e decepção

dias sem riso

noites sem prazer

hoje olho tanto onde piso

dou limites ao que sinto

rastros deixou o furacão

 

É a alma a arrombar

os grilhões enfurecidos

à porta, as surpresas

um soluço em “sim”

e doses de confiança

Da nossa vida

 

A flor do ipê-amarelo

desliza safada e me alcança

o rosto em movimento

como as ruas largas

da cidade aos domingos

 

O vento sorrateiro

pelas mangas do casaco

acariciam meu corpo

como o silêncio distante

da cidade aos domingos

 

O pensamento em ti

quase me faz cair

da bicicleta

como as curvas vazias

da cidade aos domingos

 

Os corredores de ônibus

onde posso acelerar

o pulso e os sonhos

como a falta de pressa

da cidade aos domingos

 

O corpo revivido

e os músculos respondem

ao futuro do imperfeito

como o temporal eminente

da cidade aos domingos

 

Os ponteiros desamados

cínicos contam os segundos

da nossa vida

como o ar estático

da cidade aos domingos.

madrugadas

no limiar

seu olhar perspicaz

prendeu-me

 

acenou com palavras

entreguei perguntas

e sobrou-nos um quase

ou dois

 

da chuva ao sol

de uma praia a outra

levou-me

 

eu de mãos vazias

listei dúvidas

e me afogo em costões

às vezes

 

talvez ainda

presa àquele passeio de trem

e aos seus silêncios

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