Fui ao FAÇA e só me restou um delicioso “Ballet das Coisas”, de Bruna Granucci

Já faz um tempo eu, por motivos diversos, estive no FAÇA – Festival Audiovisual Catarinense (qualquer semelhança com o “Catavídeo” não é só mera impressão), na sua edição em Fpolis.

A primeira impressão que eu tive do evento foi “mais um festival”. Mas o que parecia ser o “lado bom” é que seria em três cidades catarinenses: Lages, Blumenau e Florianópolis – o que, de certa forma, poderia ser positivo porque finalmente descentralizariam este tipo de evento. Só não entendi, num primeiro momento, o fato da escolha das cidades e por que Joinville não estaria na lista – afinal, por lá não há curso de Cinema, como nas outras, mas ainda é uma grande cidade e teve, nos últimos anos, produções de destaque.

Enfim, em se tratando de audiovisual catarinense, a primeira impressão provavelmente será uma furada. Nada é tão inocente e puro como poderá parecer.

Eis que fui num dia assistir a todos do primeiro horário e depois alguns do segundo horário. Foi a primeira vez que eu pisei no “novo” CIC que, aliás, de novo não tem quase nada. Aviso aos navegantes: a entrada pela rua da Penitenciária não está aberta e é preciso dar uma volta linda para entrar pela frente. Lá dentro não há nenhum bar ou restaurante (vulgo lugar que venda qualquer coisa de comida ou bebida) e no dia nem água tinha. No “velho” CIC havia bebedouro e um cafézinho fuleiro para pseudo-intelectuais, mas que se você fosse emendar uma sessão na outra dava pra rolar um refrigerante e um salgado qualquer para enganar. Porém, não há nada disso atualmente. Já começou mal a noite, pois eu havia saído da aula direto para lá e a fome atacou, obviamente. O lugar mais próximo, segundo o atendente, é o Angeloni. Sem comentários.

Os banheiros realmente foram reformados. Estão maiores. O que me deixou curiosa foram as tampas dos sanitários, velhas, quebradas, sujas pelo tempo. Fiquei me perguntando se com uma obra tão grande e onerosa faltou dinheiro para comprá-las. Enfim…

Comprovado que as paredes do cinema são claras (oh, God!), sentei-me para assistir aos curtas.

Pensei se deveria colocar em ordem, um por um, ou se escreveria só sobre os que gostei ou que, por outros motivos, haviam me despertado a atenção. Enfim, falar de todos talvez seja desnecessário.

O único que me fez, ainda depois de tanto tempo, escrever este post foi o lindíssimo “Ballet das Coisas”, de Bruna Granucci. Dos outros, um comentário aqui, outro acolá, de todos, definitivamente, não tenho o que dizer.

“Ballet das Coisas” tem tudo o que um curta-metragem precisa, e é de encher os olhos. Uma decupagem em nada excessiva, uma trama simples e poética e atuações perfeitas para o mundo audiovisual.

A história é uma fantasia, e nem por isso afasta os críticos mais realistas. Afinal, meus queridos, o cinema é fantástico desde sua origem. Não vou me deter a pormenores da “história”, mas posso resumir que é o amor de uma boneca (ao belo estilo espanhola) pelo garçom do restaurante em frente ao antiquário onde ela mora.

Alguns detalhes fazem deste curta uma jóia rara, principalmente entre os seus concorrentes da noite. E por “detalhe” já começo minha crítica. Num curta metragem, plano detalhe só pode ser usado quando extremamente essencial para o drama. Excesso de planos detalhe sufocam a narrativa e as imagens perdem-se na paciência do espectador. Aliás, pretendo aqui deixar este e outro ponto bem claros – pois nesta noite os curtas que eu assisti me fizeram lembrar dessas questões. Plano detalhe tem um poder dramático, nunca deve ser usado num curta para “matar tempo”, como é, por sinal, usado por filmes longa-metragem (é muito fácil perceber num longa o excesso de planos detalhe para cumprir com um determinado tempo, alguns, inclusive, poderiam ser apenas média metragem). Ele precisa significar (e aí, queridos diretores, vão lá procurar os teóricos, aqui é só o meu blog, não dou aulas). Outra coisa que não é em especial para curtas é uma pontuação sobre a direção de Arte. Muitos filmes pecam pela direção de Arte que acha que é só escolher objetos, figurinos e cores e estar de plantão ali para colocar os objetos certos nos lugares certos em determinada cena. Não é assim. E, novamente, quem precisa saber que é mais que isso deve voltar às salas de aula.

Os objetos de cena, os figurinos, tudo o que compõe a imagem precisa ser estudado a partir de uma escolha de Arte, por isso “direção de Arte”. Quais as influências? Quais cores serão usadas? Quais linhas? Qual a concepção de “tempo” sobre o cenário, os personagens, os figurinos? Infelizmente muito ainda se erra nos filmes (principalmente brasileiros, em destaque os que gostam de uma imagem “retrô-saudosista”). Toda a concepção de Arte precisa ser pensada e arquitetada (aqui já deixo o gancho para um próximo post sobre storyboard, plantas baixa, etc.), planejada, levando-se em conta o roteiro, a construção dos personagens, a intenção dramática. Não é no dia da gravação que se escolhe qual carro será de tal personagem. Para quem não trabalha com cinema, nunca estudou, este tipo de coisa parece não fazer sentido, mas quem é da área deve(ria) entender do que eu estou falando.

Vou usar como exemplo oposto o curta “Qual queijo você quer?”, de Cíntia Bittar, exibido naquela mesma noite. Sobre os dois pontos acima, este curta vai na contra-mão. Ele tem excessivos planos detalhes (às vezes, uma obsessão do diretor/diretora) que, se pretendem servir para alguma coisa, é só para tentar ambientar ou “decorar” o cenário. Vejam bem, o cenário estará presente nas imagens dramáticas para compô-las, não é, necessariamente, um personagem. Transformar cada planos, cada elemento do cenário, em personagem é esvaziar a dramaticidade do enredo. Num curta, não há “tempo” para isso. No caso deste curta, o casal de idosos está em uma sala de TV cercado por um excesso (no sentido de exagero da Produção) de objetos que, juntos, deveriam compor uma longa trajetória a dois. A câmera desfila por vários e vários desses objetos para que eles se tornem personagens do drama ali representado. Contudo, é justo aí que se escancaram alguns problemas de uma direção de Arte, no mínimo, fraca. Vejam o detalhe da Bíblia. Obviamente, este e outros objetos passam pela cabeça de qualquer um que tem/teve avó. Contudo, a Bíblia ali presente é nova. Nova! Sem nenhuma marca de uso! E, detalhe ainda mais importante, ela é de um tipo gráfico bastante recente – eu ganhei uma igual a ela na minha primeira comunhão, cerca de catorze anos atrás, e, notem, a minha tem muito mais marca de uso (e nem sou assim fervorosa) do que a cenográfica. As Bíblias das minhas avós e a dos meus pais são em muito diferentes daquela ali. Pode parecer um detalhe bobo, mas aquilo ali gerou um desconforto em mim. O que, do drama do casal, já tinha me passado a forte impressão de um casal de idosos sendo retratado sob a ótica de uma pessoa jovem diante de um conflito contemporâneo, ali se confirmou. Pareceu um túnel do tempo para o futuro, “como eu me veria daqui a cinquenta anos”. Ao pecar pelo excesso de objetos de cena, o drama perdeu-se em objetividade e conexão temporal. Muitos objetos além da Bíblia cabem na mesma crítica. E da parte do drama, em nada me convenceu como uma história de velhinhos de hoje, mas sim de uma projeção futurística. Aliás, o enredo é bastante pobre pois cultiva o espectador levando-o pela mão e já antevendo quais as próximas falas e ações (muito poucas, por sinal). Clautrofobicamente ambientado em um único cenário (só nos créditos aparece a cozinha), ele perde em dramaticidade (e ganha em economia de gastos e tempo) e se ampara no uso excessivo de planos detalhe para tentar passar algo que seria muito mais “visível” se o apartamento do casal fosse acompanhando o diálogo. Os próprios atores parecem atados (ela teatral em excesso para a tela do cinema, ele intimidado pela atuação esbravejante dela) e precisam apelar também para os objetos além das falas simples e óbvias. O título, por si só, já praticamente conta a história toda. A atriz, que não me recordo o nome, fez recentemente uma ponta numa novela da Globo, numa cena (não acompanho a novela então não sei dizer mais nada sobre o papel dela) em que fazia a mãe de um noivo (havia a Carolina Ferraz em cena). Ali ela consegue ser atriz para a tela pequena, para o audiovisual, sem os excessos dramáticos do palco.

Vale ressaltar um incômodo sobre o curta “Qual queijo você quer?” que eu senti e já ouvi de várias pessoas: o acúmulo de “títulos” e “prêmios” que aparecem elencados antes do curta mesmo começar. São várias as participações e premiações, porém parece que a cada uma dessas são incluídas as nomeações numa nova edição. O que incomoda o público é, citando literalmente alguns comentários que li e ouvi, “se todos esses jurados e públicos elegeram este curta como o melhor, você também deverá gostar”. O “deverá” ali cabe como uma ordem. A sensação para quem vai assistir pela primeira vez é de desconforto, pois ninguém deve me dizer que pela trajetória que ele tem, eu sou obrigada a gostar. Como aqueles filmes que a gente pega na locadora e na capa do DVD vem “palma de outro disso”, “oscar daquilo”. E é por isso que é um excelente filme? É por isso que sou obrigada a gostar dele?

A planificação atenciosa e as escolhas de Arte zelosas fazem de “Ballet das Coisas” um curta fluido, cativante. A câmera não precisa ficar passeando pelo cenário para dar detalhes – nem dramáticos, nem de ambientação – e explicar nada. O “uso” dos objetos falam por si só, a quantidade também. A própria escolha da locação já consegue dirigir adequadamente o drama. Senti-me num pequeno vilarejo do mediterrâneo sem nem ter visto imagens externas ou tido qualquer indicação. O espectador entra na fantasia e consegue acompanhá-la sem esforço e sem ser guiado passo-a-passo. Um elogio à parte para o busto de gesso, personagem excelente e digno, suicida contundente. O movimento das coisas (seu “ballet”) não é óbvio, ao mesmo tempo que o amor da boneca pelo garçom o é. Nem a breve repetição de algumas frases alcançam a monotonia. O “tempo” dos objetos e do velhinho é próprio. Notável também a participação mais do que especial do pequeno gatinho laranja. A presença dele soa tão natural quanto espntânea e cheguei a duvidar de que estivesse no roteiro.

De certa forma, “Ballet das Coisas” prescindia de uma direção de Arte cuidadosa e especial. Contudo, nenhuma obra audiovisual pode abrir mão disso. Seja de qual gênero for. Tomemos como exemplo outro curta da noite (e um dos premiados), o “Vide Verso”, de Cristian de Ciancio. Mesmo se atendo a um cenário simples (exigência dramática) e com um enredo que prevê este espaço, a direção de Arte não cometeu nem excessos nem faltas. Os elementos esseciais para um drama tenso estão ali, o espectador facilmente identifica tudo o que precisa para construir o personagem. Não há nada além do drama e do personagem. O rádio (como produção sonora) é peça fundamental para ambientar (muito mais do que qualquer objeto de cena) a história. Reparem que no casal de idosos no apartamento nós nem temos a referência da TV, muito menos do áudio. Em “Vide Verso”, você não cai na desatenção porque os elementos de composição te prendem enquanto dramaticamente “nada acontece”, além, é claro, do suspense sobre o envelope. O crescente é uma opção de direção que nem sempre funciona, mas que ali é (auxiliado com maestria pela elaboração artística de um elemento essencial: o quebra-cabeças) angustiante e no tempo certo.

Caberiam alguns breves comentários sobre o “Babás”, de Consuelo Lins; “Sentidos”, de Samuel Moreira e Richard Maus e “Das Ocupações Instantâneas”, de La Osnofa.

O primeiro segue os melhores padrões do documentário brasileiro e acredito que é um deleite para os historiadores. O segundo é uma tentativa de dar vistas a quem não vê, mas sinceramente me senti muito desconfortável com um discurso construído previamente e recheado de referências visuais – o que me pareceu muito estranho. O terceiro é um ensaio visual e sonoro despreocupado, mas que captou alguns instantes belos (sonoramente e visualmente) abrindo mão de qualquer narrativa e nos mostrando a presença de uma câmera insuspeita. Não sei quem fez o “documentário” (se é para classificar nos tão discutíveis “gêneros”, eu colocaria como experimental), mas construí mentalmente uma viagem de mochileiros pela América do Sul, captada pelas sensações. Enfim, dos outros não vale a pena falar. Um sobre a perda do pai é chato e sem graça, outro sobre uma Alice assassina é entediante e uma animação boba e interminável que se pretende poética (e, pasmem, ganhou prêmio).

Aliás, aí é que mora o perigo desse tipo de “evento” em Santa Catarina.

Os prêmios foram vergonhosos. Como pode o próprio organizador ganhar prêmio? Como pode, aliás, ser produtor e etc. de obras concorrentes? Achei tudo muito estranho. Só não adentrei demais nisso para não ficar com mais nojo ainda. Uma dica: não misturar, na exibição, documentários, ficção, animação. Isso prejudica muito a obra. E digo com toda a sinceridade que assisti “documentários” muito melhores do que o tal “Fotossensível”, de kike Kriguer. Diante dos dois que eu assisti, este passaria longe de uma premiação – até porque eu também não o enquadraria em “documentário”, afinal é só um vídeo de família.

A velha “nata” (tem gente que adora nata, né? eu tenho ânsia de vômito só de ver!) de um grupinho do audiovisual quase não deve ter saído do palco no dia da premiação.

Não posso falar do eleito pelo júri nem do “melhor ficção” porque não assisti nenhum dos dois. Só sei que são famosos e o primeiro bastante popular. O “melhor ficção” não é produção recente (como o “Manhã”, do Zeca Pires, que é de 1989) e eu não achei muito correto isso, pois produções de épocas diferentes devem ser separadas também. Há muita coisa a ser levada em conta, tanto técnica quanto artística.

Um tal “prêmio estímulo” foi muito bem entregue para o “Vide Verso”. O “prêmio especial do júri” ficou muito esquisito. Pareceu “prêmio consolação para aqueles que nós queríamos que ganhassem, mas o júri popular não quis e tivemos que dar um jeito nisso”, vide a explicação do próprio evento no site “Pela diversidade e qualidade das propostas estéticas e narrativas das obras em competição o Júri Oficial do 1º Faça concede, além dos prêmios de melhor obra por categoria, Prêmio Especial do Júri.”. Engraçado o “pela diversidade e qualidade das propostas estéticas e narrativas”, pois um evento que se pretenda sério leva isso tudo em consideração para definir suas escolhas e as exibições. O que se perdeu no caminho? Se vocês olharem nos “jurados” e na “curadoria” verão uma propagandeação de tantos quesitos e seriedade que não traduz nada disso. Me nego a comentar as “menções honrosas”.

Tire um pouco do seu tempo e vasculhe o site. Veja o nome dos criadores, das produtoras envolvidas, coloque no Google-nosso-de-cada-dia e verá um mundo de conexões. Assim é o pobre audiovisual catarinense.

Por isso, raramente frequento este tipo de evento. E toda vez que eu perco meu tempo indo me decepciono ainda mais – normalmente com a organização, grupinhos, interesses. Mas desta vez “Ballet das Coisas” me fez perceber que há chance de se fazer boas coisas sem financiamentos astronômicos para projetos dialogados em uma única pequena locação, que ainda há quem saiba o que é uma boa Direção e uma boa Direção de Arte, que o curta-metragem tem peculiaridades que devem ser levadas em conta e que a Arte Audiovisual em Santa Catarina produz poucos e bons filhos – mesmo que nem todos rodem o país e o mundo.

(nem sempre o link funciona)

Sobre os pinhões

 

Deixo o carrinho de compras perto dos congelados e caminho até o pinhão. Há um pote para recolher e colocar no saco plástico, mas reparo que eles estão bem novos e, por isso, com muitas “cascas” que saem junto da pinha. Começo a catar com a mão, um por um, e reparo que há uma mulher fazendo o mesmo.

 

Naqueles dias eu experimentava e mostrava para as visitas como o povo manézinho é receptivo. Ao sairmos da missa uma senhora bem velhinha que mora na minha rua havia puxado conversa (ela não se conforma que ninguém mais da nossa rua, em frente à Igreja, vá à missa). Ao sairmos do Curiódromo, num domingo, um homem puxa conversa e diz que no sábado é que é bom ir porque ontem havia mais de trezentos pássaros lá. O manézinho é conversador, é solícito, é amigo.

 

A moça catando pinhão, como não podia deixar de ser, puxa conversa. “bom um pinhão com esse frio, né?” Era mais uma constatação do que uma pergunta. É Outono, mas uma onda de frio abateu nossas gargantas. Logo pra mim ela diz isso? Estou comendo freneticamente pinhão desde final de março. Sim, sou doente por pinhão, sou serrana, faço pinhão assado na chapa e tenho ataques de prazer.

 

E ela continua “mas tem que escolher, tá cheio de cascas”. Ao que eu comento que é o que vem junto na pinha, porque ele está novinho. Logo chega o marido e dois filhos, um casal.

 

Um sorriso de canto de boca me pega desprevinida. Vejo ali uma cena linda: mãe, pai e filhos num domingo de manhã catando pinhão, juntos, conversando “quer pegar um pouco de carne moída pra fazer panqueca, amor?” diz ela, “filha, pegou o refrigerante que você queria?” dia o pai, o menino come uma pipoca bilu, a menina bebe alguma coisa, “ó, mãe, esse tá bonito!” diz o filho ao pegar um pinhão lustroso, enorme, novinho.

 

Eu ali catando meus pinhões e acompanhando a cena começo a refletir sobre minhas péssimas considerações acerca do casamento, da tal constituição de família e tal. Penso: não devem ser todas tão ruins. Talvez a tolerância, talvez o amor profundo, talvez algumas coisas consigam fazer um casamento, um relacionamento, durar muitos e muitos anos em harmonia. Talvez o problema seja eu. Talvez eu não seja capaz de nada disso, porque, veja só, afinal essas coisas devem existir para algumas pessoas. Por que diacho eu sempre só vejo o lado ruim das coisas? Quer coisa mais linda que esta cena? Uma família unida num domingo escolhendo pinhão e fazendo compras? E eu aqui na minha vidinha…

 

Foram alguns minutos (comprei alguns quilos de pinhão). Eis que minhas reflexões são quebradas pela frase do pai “dá pipoca pra ela”. Assim, sem mais nem menos. Parece que a menina, do outro lado, ao lado do pai, havia falado alguma coisa. O menino começa “ela não me deu água”. “ela não me deu água” “ela não me deu água” “ela não me deu água” e o pai retruca “taqui a água, toma, agora dá pipoca pra ela”. O menino pára a ladainha da água para responder “agora? agora não quero”. A irmã não deu água, queria pipoca, ele não dá pipoca porque ela não deu água; na contrapartida a irmã, agora por interesse, dá a água; ele nega porque percebe o jogo. Situação óbvia e justa. Foi-se a harmonia.

 

“parem vocês dois” diz a mãe com uma cara cansada, já não há o amor pensando nas panquecas, já não há a alegria da escolha dos pinhões. “vão ficar de castigo os dois”. “eu fiquei de castigo já, mãe, até ontem, lembra?” diz o menino justo e invencível. “vão ficar uma semana sem poder sair” diz a mãe, “sim, só ontem que você foi na casa do Felipe, ficou uma semana… não, mais de uma semana” relembra a mãe agendadora. A menina só fala em voz baixa ao lado do pai, como se ele fosse seu mais fiel tradutor.

 

A cena se desfez… acusações de ambos os lados, erros elevados ao infinito de pais que acham que fazem justiça e apenas colocam-se em lados opostos… a miséria da vida a dois, da familiaridade, do convívio exposto transbordando sobre os tão lindos e novos pinhões.

 

Uma parte de mim sorri triunfante: serviu para refletir, mas quem sabe há situações que só possuem o lado ruim mesmo. Eu pego meu saco cheio de pinhões, antecipo o prazer que será devorá-los e me retiro com um estalo de esquecimento à cena tão grotesca posto que é comum, e tão comum posto que é grotesca.

 

Não preciso que me esfreguem as misérias alheias na cara, nem nos tão deliciosos pinhões.

 

 

palavras e imagens – reflexões

Vejo-as por todos os lugares para onde olho…

 

o quê?

 

palavras transformadas em imagens.

Dj do busão

Quando a gente acha que já viu tudo… frase bem comum de se ouvir, né?

Pois é.

Lá pelo final do ano passado, fez sucesso na internet a divulgação de alguma cidade do Estado de São Paulo que havia sancionado uma lei proibindo o que vulgarmente se chama de “Dj do busão”, ou seja, o não-cidadão que coloca seu celular ou algo semelhante para tocar música sem fone de ouvido dentro do ônibus. Uma certa quantidade de pessoas, que visivelmente se sente incomodada com esta atitude, vibrou e divulgou dizendo que na sua cidade isto também deveria ser feito.

Eis que algumas outras cidades seguiram o tal exemplo.

Vale lembrar que nos ônibus de viagem há um aviso de que é proibido qualquer tipo de som no seu interior desde muito tempo.

E Florianópolis, a cidade da moda e dos modismos, aderiu recentemente ao sucesso e também sancionou uma lei semelhante. Segundo ela, não pode mais (se é que algum dia pôde) ser reproduzido qualquer tipo de som no interior dos ônibus municipais, quem deve fiscalizar isso são os motoristas e cobradores, os quais, sabemos, são os responsáveis pelo trajeto, pela segurança e afins dentro do ônibus. Afinal, não há como ter um fiscal dentro de cada veículo. Contudo, a tal lei não prevê nenhuma sanção grave, apenas diz que se algum passageiro não obedecê-la deverá ser colocado para fora do ônibus.

Eu, como boa cidadã que sou e nem um pouco fã que sou de Dj de qualquer tipo, deveria exultar com tal notícia. E não foi o que aconteceu. Bem pelo contrário.

Então sancionaram mais uma lei? Mais uma lei que precisa dizer às pessoas o que elas devem (ou não) fazer? Então lá vai a prefeitura, a câmara ou sei lá o que dizer ao cidadão e ao não-cidadão como se comportar, ou, no mínimo, que é necessário respeitar os limites: os seus e os dos outros? É isso mesmo?

A decepção foi enorme. Ainda mais desanimador é ver as pessoas discutindo esta lei. Se esse ou aquele deve fiscalizar e blá blá blá. No mesmo dia que vi a notícia presenciei o motorista do ônibus escolar colocar bem alto uma estação de rádio qualquer quando íamos para a escola à noite. As músicas fugiam completamente ao meu mais expansivo gosto musical. Este motorista não é, como motorista, dos melhores – tanto em comportamento quanto na direção. Ao contrário, justamente, do outro motorista da noite que não permite de forma alguma que os alunos ouçam suas músicas sem fone de ouvido dentro do ônibus. Ontem mesmo, ao entrar e ouvir um aluno sentado no fundo do ônibus ouvindo um funk no volume mais alto, ele dirigiu-se até ele e solicitou que desligasse. Enquanto isso não foi feito o ônibus não seguiu viagem.

O primeiro comentário irônico que me ocorreu foi que era uma piada dizer que motoristas e cobradores deveriam cobrar isso dos passageiros, pois perdi a conta de quantas vezes ouvi os sucessos vindos do Dj cobrador com seus mp3/4/5/6/7/8 (etc), celulares e dos motoristas também com seus aparelhinhos eletrônicos ou do próprio ônibus. Um fim de semana antes dessa notícia um motorista do Rio Tavares Direto ligou a rádio para ir do TIRIO ao TICEN e o caminho todo foi ao embalo de algo que chamaram de sertanejo universitário. Minha ignorância nessa área é enorme.

São tantas as contradições que cansam. Porém, o que é mais desprezível é ainda vivermos num mundo – e principalmente neste país paternalistazinho – no qual as leis precisam (será mesmo que precisam?) ser criadas para dar aquela palmadinha nas costas do não-cidadão e dizer, num sussurro “faz isso não, camarada”.

Sei que para quem acompanha o blog posso parecer contraditória, pois a alguns post atrás eu defendia uma lei que proibisse o cigarro e a bebida nas praias. Pois é, posso mudar de opinião. Como posso ter visões diferentes de problemas semelhantes.

Fui a favor da lei que proibiu fumar em locais públicos porque particularmente detesto cigarro. Sei que hoje ela é só mais uma lei – vide os terminais de ônibus de Florianópolis, onde as pessoas vão até a ponta (ainda debaixo do teto e em lugar público) para fumar e acham que estão “respeitando” a placa. Inclusive funcionários dos terminais fazem isso. Mesmo com esta lei em vigor já presenciei inúmeros casos de desrespeito. Um deles na rodoviária de Joinville, um cara fumando ao lado da placa, no meio da plataforma. Fui até o fiscal e ele disse que infelizmente isso ainda acontecia com frequência e, como era de se esperar, não fez absolutamente nada.

Ninguém faz nada. Esse é o povo brasileiro.

E aí você entra em sala de aula e tem que conseguir explicar que, por exemplo, não se pode ser “a favor” ou “contra” o homossexualismo.

Eu queria crer num mundo que não precisasse de leis para dizer o óbvio. Leis que determinam o que podemos ou não fazer sem, necessariamente, dizer o motivo nem como aplicá-las. Temos leis demais. E o povo se acostumou a isso, a ver se tem uma placa, uma lei, uma restrição que diga: “pode”, “não pode”. A tutela que não permite o povo sair da minoridade – como diria o querido Kant (é, acho que fiz as pazes com ele) – gangrena a nossa sociedade. O governo mantém todos sob sua tutela não só para controlá-los, mas para enterrá-los na sua própria ignorância.

Estão tão enterrados que você não vê o povo mesmo reclamar desse tipo de coisa. Reclamam os chatos, os intelectuais, os pseudo um monte de coisa, os metidinhos e afins. O povo curte a música tocada pelo Dj do busão. O povo não se incomoda com a fumaça do cigarro, isso é coisa de gente fresca e chata como eu.

Não seria preciso lei nem que um cobrador peça para colocar os fones se a população realmente reprimisse as atitudes do não-cidadão. Eu já nem dava muita bola para música nos ônibus, porque, né, haja tempo. Eu percebi isso com o advento (!) dos celulares com TV digital, era aquele povo no busão, nos pontos de ônibus, em qualquer lugar, assistindo o Jornal Nacional e a novela das oito. Nesse início eu até me irritava (TV, de um modo geral, tende a me irritar). Depois vieram as músicas (o que, por pior que seja, ainda é menos pior do que TV). E se está longe (no fundão, por exemplo, visto que eu gosto de sentar na frente – atestado de velha chata) eu nem dou bola. Se o barulho está alto e por perto, dou aquela olhada reprovadora com um meneio negativo de cabeça. Eu reprovo. Eu já pedi pra desligar. Pode fazer escândalo, pode ficar fazendo careta. Não me importa. Eu procuro ser cidadã. Mas somos tão poucos que eu realmente não acredito na eficiência nem no caráter generalizador dessa reprovação.

E aí você entra em sala e quer discutir assuntos graves como um de menor que dirige sem carteira alcoolizado e mata com alguns alunos que defendem a idade de dezesseis anos para tirar carteira de motorista.

E, sim, a educação está aí gritante em todos estes assuntos. Ah, a Política também, porque meu coração Liberal não me permite assistir a esse paternalismo tutelar calada.

E vou aqui esperar uma lei que proíba a idiota da vizinha de lavar a calçada e molhar a rua dia sim, dia não. Uma outra que proíba as pessoas de conversarem – pessoalmente ou pelo celular – dentro do ônibus de viagem quando eu quero dormir. Uma outra também que exija que montadores de móveis trabalhem aos sábados. Uma ainda que não permita as folhas do pé de maracujá de caírem na varanda. Simples assim. E a gente nem viu tudo.

Pasmem

 

Discutir relacionamento, as famosas DRs, deveria ser proibido em lugares públicos. Aliás, deveria ser proibido em lugares públicos, na presença de outras pessoas além do casal e também na internet.

 

Coisa das mais desagradáveis é ser testemunha involuntária de uma choradeira, de um barraco, de uma discussãozinha qualquer de casal. Eu que já não gosto nem no meu “casal” esse tipo de coisa – e, sim, pasmem, evito a todo custo e consigo, felizmente – acho ainda mais indigesto ter que presenciar as picuinhas de pessoas que (normalmente) demonstram que estão infelizes juntas.

 

A infelicidade, a mesquinhez, a mente pequena, o ciúme inútil, a cobrança excessiva – tudo isso destrói e afasta. Discutir sobre essas coisas (e sob o efeito delas) é ainda mais devastador. Só não percebe quem não quer.

 

A intimidade de um casal deveria dizer respeito somente a ele, mas não é isso que eu vejo por aí. Vejo vidas expostas para os melhores amigos e amigas, para parentes próximos, para colegas de trabalho e até, pasmem, para os amantes. A partir do momento que uma intimidade torna-se pública, ela já evidenciou a impossibilidade da existência de um casal.

 

E eu, queridos, não preciso ouvir a sujeira da lavação de roupas de vocês. Tenho estado irritada com o saudosismo, mas principalmente não tenho tolerado ser vítima dos respingos do mal relacionamento dos outros.

 

Sei que às vezes as circunstâncias levam a uma discussão inesperada em algum lugar público (a ânsia por criticar o outro, apontar o dedo em riste jogando acusações nobres do presente mas sempre temperadas com as mágoas do passado) ou na frente de alguém. Porém, além desses lapsos, imperdoável é colocar a própria intimidade em pauta na internet. E, pasmem, eu já vi muito isso.

 

Casais que atiram contra si mesmos negações e culpas, relatam passo a passo da derrocada sentimental que vivem nas suas páginas pessoais na internet deveriam ser punidos severamente. Claro, não falo em mais alguma lei sem sentido que poderia ser feita pelos nossos nada nobres políticos. Deveria haver uma “etiqueta” com sanções. Assim, comportamentos em desacordo poderiam ser facilmente puníveis.

 

Viver em “casal” não é fácil na maior parte do tempo, mas se a pessoa escolheu isso para si, ela deveria enquadrar-se nas limitações da situação – e poupar meus ouvidos.

 

Sim, pasmem, tudo isso para dizer: poupem meus ouvidos (e, de certa forma, meus olhos)!

 

 

Os bons e os maus exemplos do nosso Litoral

Tem quem frequenta o litoral apenas no verão. Eu não.

Moro na Ilha, frequento o litoral inclusive no inverno, quando ele se mostra tão introspectivo e prazeroso.

Santa Catarina tem um belo e diversificado litoral. Infelizmente uma parte dele é negligenciada pelo poder público; e, sabemos, a ignorância popular tão imensamente difundida no nosso país faz com que todos os lugares, cidades ou praias, sejam negligenciados pela população.

E é fácil ouvir turista e veranista reclamar da infraestrutura. É fácil. É fácil todo dezembro os jornais fazerem as mesmas reportagens sobre os problemas que o nosso litoral enfrenta.

Falta infraestrutura em todo lugar.

É com pesar que eu observo muitas coisas no nosso litoral (frequento e viajo por uma parte dele). Mesmo assim, podemos encontrar bons exemplos. No entanto, alguns bons exemplos, alguns cuidados básicos, podem ser barrados pela ignorância da população e pelo descaso público. Leviano é você que quer culpar o governo por tudo de ruim que acontece e existe; foi assim que a História Política ressurgiu: colocou-se sobre a Política a responsabilidade de tudo. Não se exclui da culpa o cidadão – e não o digo pelo senso comum “quem elegeu os políticos fomos nós, portanto somos também culpados”. Tanto na ação quanto na omissão está a culpa e a responsabilidade.

Considero tentador dar algumas alfinetadas sobre esse assunto naqueles que se consideram totens do bom mocismo e do cuidado com tudo e todos. Vejamos se conseguirei me controlar.

Um exemplo que eu lamento muito é a Penha. Uma pérola natural do nosso litoral norte, com uma vegetação ainda preservada e bem provida pela natureza que lhe deu encantos sem fim com praias de todos os tipos. Penha hoje está com a quase totalidade das suas praias com água imprópria para banho. E não é de hoje. A Praia Alegre, que já sofreu com a perda da orla e foi “reformada”, com águas pacatas, tranquilas, típica “praia para crianças” – onde, aliás, passei muitos verões – está podre. O cheiro fétido é nauseante e não permite nem que se fique na areia. Não há nenhum ponto próprio para banho atualmente na sua faixa de areia. Ano passado fui, desavisada, tomar banho lá. Em poucos minutos dentro da água comentamos sobre um cheiro ruim, de podre, no ar. Percebemos que a água sob nosso nariz é que fedia. Ela está assim há mais de um ano! Nada foi feito! Naquele mesmo dia pudemos perceber cerca de mais de dez cães na areia. A praia conta com banheiros químicos e chuveiros, o que deveria contrariar a tal qualidade da água. Aliás, todas as praias da Penha, inclusive a afastada Praia Vermelha, possuem chuveiros.

A Praia da Armação, inclusive a do Trapiche, e a Praia de São Miguel estão totalmente impróprias. Não é raro ver construções irregulares, cães, lixo, tudo que se posso imaginar. A Praia de São Miguel é linda, mas já sofre com essa sujeira a muitos anos, pois quando lá estivemos uma vez até tivemos casos de problemas na pele. É fácil se perguntar: mas cadê a Prefeitura?! E eu observo e digo: e por que cães na areia? por que todo esse lixo espalhado? por que você que tem casa aí não cuida do seu esgoto?!

Casos assim também ocorrem na Ilha. Sabidos são os pontos onde é impossível entrar na água do mar. Nos Ingleses tem um esgotão que sai no meio da praia, a lagoinha do norte é parcialmente suja, Canasvieiras, então! E o Sambaqui, Santo Antônio e Cacupé, área nobilíssima da Ilha? Por que as casas nobres e caras não cuidam do seu esgoto para que possamos ter uma orla (que já não tem areia como uma praia) ao menos limpa? Uma vez por lá, observei uma cena: no caminho do Sambaqui, numa entrada que dava acesso à areia, um carro estacionado em cima da vegetação. Olho mais adiante, uma criatura do sexo feminino sentada em direção ao sol nessas posições de meditação ridículas, com seu cachorrinho-pelúcia andando e defecando pela areia. Quão estúpida é essa cena? A criatura visivelmente alternática, com roupinhas pseudo-hippie e carrão importado. O que adianta um ser desses meditar e bater palmas para o sol? Se o sol pudesse, garanto que a teria fuzilado.

Eu defendi aqui, num post anterior, a construção da passarela do Essence na praia do Campeche. Justifiquei e houve até tentativas de pessoas ignorantes de ridicularizar a idéia. Pois bem, alguém que tenha o mínimo de conhecimento e percepção de mundo consegue concordar na construção de passarelas de acesso à praias como a do Campeche, com a quase totalidade da vegetação natural e até dunas preservadas. Não é preciso ir longe! A belíssima e extensa orla de Navegantes, aqui no nosso litoral, é um exemplo ate clássico disso. Em toda a sua extensão há passarelas que passam, sem prejudicar, sobre a vegetação e a areia e permitem o acesso à praia e a preservação. As duas coisas andam juntas. A ignorância, ali, é coibida o tempo todo e praticamente não se vê pessoas desconsiderando as passarelas e se embrenhando no meio da vegetação. Houve até uma tentativa de argumento de que na Ilha (Ingleses e Jurerê) as passarelas não eram usadas pelos cidadãos, o que ocasionava, do mesmo modo, a destruição da vegetação. Mas, vejam bem, então não vamos colocar passarelas porque as pessoas ignorantes não vão usá-las?! As passarelas deveriam existir em mais uma dúzia de praias, no mínimo! Como as trilhas da Ilha deveriam ter, pelo menos, uma estrutura básica de placas e territórios de parques e afins delimitados! Então porque as pessoas não respeitam não devemos nem fazer leis, não é mesmo?

Por isso que eu frisei que a ignorância das pessoas anda de mãos dadas com a negligência do poder público. O Campeche precisa de passarelas (só caminhar sentido sul saindo da Pequeno Príncipe e ver os “caminhos” pavorosos que estriam as dunas e a vegetação, onde inclusive há o vestígio humano mais deplorável: lixo). Jurerê também. Ingleses também. Daniela também. Galheta também. Piçarras também. E muitas e muitas outras praias do nosso litoral. Quanto mais intovado ele estiver, mais e mais rápido é preciso colocar passarelas. Pois senão não sobrará muito depois. Ela “liberdade” e “acessibilidade” que a praia possui no nosso contexto é que autoriza o descaso: qualquer um pode ir à praia; mas pouquíssimos cuidam dela como se deve. Eu cheguei a citar aqui no blog a proibição, em praias estadunidenses, de fumar à beira-mar; pois o toco do cigarro é uma sujeira minúscula e danosa, e foi o que fez Jurerê perder deu selo Azul ano passado. E aí as pessoas contra-atacam levantando as bandeiras da liberdade, do livre-arbítrio e o escambau que nem um pouco me interessa, para justificar que todos podem tudo. Pois não deveriam poder. Se não tem educação, bom senso, princípios básicos de higiene e respeito com o que é coletivo, não deveriam poder sair de casa. Simples assim.

Mas aqui é Brasil. Então devo me conformar com isso? Óbvio que não, deixo o conformismo para os fracos e ignorantes.

Não quero infraestrutura para os turistas. Não quero acessibilidade através de escadinhas para a praia porque eu não quero subir e descer pedras. Quero preservação. Eu cuido dessas belezas sem fim que eu tanto gosto de aproveitar e observar. Eu tenho educação. Eu cuido do meu lixo. Coisas que parecem tão bobas. Uma passarela, coisa que parece tão barato e simples. E são. São coisas bobas, são barato, são simples e infelizmente não vemos por aí!

É fácil reclamar. É fácil ser saudosista e bicho-grilo e querer fazer defesinha naturebóide de pseudo-esquerda infantilizada e sem razão. É fácil. O que parece difícil é ser cidadão, defender, querer cuidar, ser racional, realista e pensar pra frente. Difícil, pra mim, é admitir ignorante. É ver gente suja e irresponsável por aí. Isso pra mim é quase insuportável, porque se eu chego e chamo a atenção de um ser desses posso ir parar num hospital.

Esses dias, estava na praia, saindo do mar, quando vejo duas crianças pequenas brincando de jogar canudos de plástico na beirada do mar pra onda espalhar. Os pais deles estavam lá na areia, sentados e nem aí. Eu parei, chamei a atenção e tive que severamente explicar que aquilo sujaria o mar, que não era brinquedo e esperei até que eles ajuntassem todos os canudinhos e jogassem (não sem uma cara amuada) na lixeira.

Porque a educação está assim, relegada a ninguém. Ninguém se importa mais com nada. Quem vai se preocupar com passarelas, sujeira na areia, esgoto no mar? Quem? Eu me preocupo e faço a minha parte. Mesmo que por vezes seja defrontada (com frequência) pela ignorância e pelo descaso. Até pela ironia. E tudo isso independente do voto no dia da eleição. Nós, brasileiros, temos tanto o costume de discutir eleição porque não temos tudo o que vem antes. Se o povo se preocupasse e cuidasse da educação, da higiene, do respeito ao coletivo e ao próximo, nós não teríamos que nos preocupar com político negligente ou corrupto. Mas é mais fácil colocar a culpa na politicagem. Assim, sentam-se cômodos nas suas poltronas da sala de estar com TV a cabo.

 

Bom exemplo mesmo é o meu amigo que guarda todo cigarro que acabou de fumar (devidamente apagado) no bolso da bermuda, onde quer que ele esteja. E ele não me contou isso, eu o vejo fazendo sempre. Tão simples.

Os corpos da consciência

 

Eu sei, eu sei. Ando pensando demais. Sei que não sou jornalista (e longe de mim isso). Sei que falar no Rio de Janeiro depois do último post parece insensato. Mas…

 

Eu estava assistindo (sem som, só dando aquela olhada no SAP) o jornal da Record no dia e no horário que caíram os prédios no Rio de Janeiro. Primeiras informações um tanto desencontradas (primeiramente era apenas um prédio), asneiras de jornalistas e repórteres à parte, um desespero latente e o povo urubu acampado em volta.

 

Eis que surgem algumas declarações. A primeira que chamou a atenção e “acalmou” o público informou que os prédios eram comerciais, ou seja, naquele horário não teria ninguém. A outra foi da Defesa Civil do Rio que afirmou que não havia chance de sobreviventes.

 

Como? Se houvesse alguém nos prédios, não teriam chance de sobreviver.

 

Eis que a preocupação era com o cheiro de gás, perigo de incêndio e explosões. E lá estavam bombeiros e Defesa Civil percorrendo os entulhos. E aí, logo em seguida, surgem parentes e pessoas afirmando que, sim, haviam vítimas.

 

Então, o óbvio às vezes precisa ser dito aos jornalistas (logo eles tão especialistas nisso), e as pessoas trabalham até às nove, dez da noite. Cerca de vinte e tantas pessoas estariam sob os escombros.

 

Eu acompanhei um bom tempo a cobertura da Record e o que surgia no Twitter sobre o fato.

 

Em pouco tempo surgiram feridos.

 

No dia seguinte o drama nos telejornais e afins foi grande. E eu fui pega de surpresa pelas máquinas e tratores tirando os entulhos. Hein? Como assim? E o resgate?! E a busca desenfreada e urgente pelos sobreviventes?!

 

Nesse meio do caminho eu me pronunciei ironicamente no twitter: afinal, pensem nesses prédios e na Copa, na Olimpíada. Não é só falta de aeroporto, o problema é bem mais embaixo.

 

E põe “embaixo” nisso.

 

Não teve um único meio de comunicação que condenasse o que estava sendo feito lá. Não houve resgate! Consideraram todos mortos e nem se deram ao trabalho de procurar corpos para devolverem aos familiares. A preocupação era retomar o trânsito e o tráfego normal da região no Rio. Eu já desconfiava disso quando ontem vi a primeira notícia de que um corpo foi encontrado no entulho que já havia sido retirado e jogado no aterro para onde foi levado. Hoje vi uma notícia obscura de partes de corpos terem sido encontrados neste mesmo aterro no meio do entulho. Partes de corpos. Ao que constava faltavam ainda cerca de onze pessoas desaparecidas. Onze corpos e já mais de noventa por cento do entulho havia sido retirado para poder trazer a normalidade ao caos que havia se instalado na região.

 

Que país de bosta é esse que preza e se preocupa com o tráfego, com a “normalidade” e nem se preocupa em encontrar sobreviventes, vidas?! Ou mesmo corpos!

 

Todos ouviram falar dos inúmeros casos de sobreviventes encontrados dias e dias depois em meio à devastação de acidentes naturais, como o terremoto do Haiti, o tsunami no Japão, e aqui nas nossas tragédias de Santa Catarina e no próprio Rio de Janeiro. Como, neste caso, quiseram antes de tudo limpar o local e tirar da mente das pessoas a imagem de que há uma irresponsabilidade indigna que ronda o nosso país, e nem se preocuparam com vidas? Será porque o número de mortos é baixo? Tipo, nem trinta pessoas. A tragédia na região serrana do Rio, ano passado, quase chegou aos mil mortos. Mil. Esses dias ainda eu me perguntava aqui se as centenas (e hoje já milhares) de mortes não significavam nada. Pelo visto não significam, não só não significam que nem querem contá-las.

 

Tirar a imagem da cabeça das pessoas (e da imprensa internacional, obviamente – o óbvio, tão caro aos jornalistas) é urgente, porque as pessoas tem memória curta. Amanhã já é outra notícia que “comove” o povo, como tudo sempre e sempre. Ninguém quer lembrar. Os únicos que vão lembrar (e que neste momento choram desesperados por não terem nem um corpo para velar e enterrar) são os poucos familiares que perderam alguém ali. E quem se importa com isso?

 

Eu? Você? O governador? A presidente?

 

A vida, além de não encontrar valor que a resignifique diante de uma prevenção que salve vidas, hoje não vale nem o gesto simbólico de vitimização – seja da imprudência, do descaso, da irregularidade, da corrupção que assolam o país.

 

Se não há mais a imagem catastrófica do entulho caído ao chão, criem mentalmente a imagem de partes de corpos espalhados no meio do entulho de um aterro qualquer. Para ajudar na criação, imagine que essas partes são os braços, ou as pernas, ou a cabeça do seu pai, da sua irmã, do seu namorado. Imagine um pedaço de um braço destruído por uma retroescavadeira com um anel que você reconhece. Para ilustrar, imagine um lugar fétido e cheio de urubus. Grotesco, não? Triste, diriam uns. Arrepiante. Sei que a maioria não vai nem imaginar. Porque com os outros é sempre mais fácil. O popular “não é comigo” é o fraco exame de consciência que professamos ao ouvirmos uma notícia como essa.

 

Se o exame é fraco, a consciência, então, é covarde.

 

Tudo, ali, foi covarde. Foi vil.

 

 

O Big Brother, a novela das 19h, a covardia e os seus julgamentos

 

Essa semana eu pensei várias vezes em escrever um post sobre uma personagem da novela das 19h da Globo. Mas como o assunto passava perto (bem perto) de questões pessoais, eu relutei. Além do mais, alguns torceriam o nariz e diriam “mas você assiste novela?” ou coisas semelhantes. Aí me ocorreu um post um tanto mais descontraído sobre esses rótulos, justamente. Porque coloquei o disco de vinil da Angela Rô-Rô para tocar e pensei: um monte de gente já diria “essa aí é sapatão, ouve Angela Rô-Rô”. Como se o que eu ouço ou o que eu assisto determinam o que eu sou ou até o que eu faço da minha vida sexual.

 

Pois bem, acho que juntei tudo isso neste post que culminou com o Big Brother. Sim, o tal BBB. Se já torceriam o nariz ao me verem falar em novela, imagine em Big Brother, né? Pois é. Isso que eu vou contar para vocês que li a Veja ontem. Sim, podem pensar o que quiser. Li a Veja sentada em frente à TV sem som que passava o Fantástico e parei para assistir o Big Brother. Perdi a sua amizade por isso? Pois então não me fará falta.

 

Porém posso dizer que ouvi Norah Jones e li Stendhal antes de dormir. Nesse meio tempo vi e li muitas coisas. Porque se você me julga por isso, querido, precisa conviver vinte e quatro horas comigo para poder fazer um bom julgamento. E ainda assim este será deficiente. Aliás, você não suportaria esse tempo todo convivendo comigo, ouça o que eu lhe digo, não é fácil.

 

Mas as pessoas gostam de tentar te rotular, de tentar te atacar só porque ele acha que você é pedante porque vai para a aula com uma dúzia de livros debaixo do braço, mas quando chega junto pra que você dê para ele, aí você descarta. E aí chegamos ao assunto do começo.

 

Na novela das 19h da Globo, “Aquele Beijo”, a personagem da Giovana Antonelli, Cláudia, está em processo de separação do seu já ex-esposo (eles já não vivem mais sob o mesmo teto pois Cláudia decidiu separar-se após ver sua mãe ir presa inocentemente por conta de falcatruas do pai do personagem Rubinho, na época esposo de Cláudia e que sabia o que estava acontecendo, mas que não contou para ela). Houve separação de corpos e ela entrou com o pedido formal. Rubinho, no entanto, disse que não aceitava a separação (e aqui eu me pergunto: o que há para aceitar se a separação em si já é um fato?) e que teriam que seguir no litigioso.

 

Pois bem, situação mais comum do que a gente pensa. Mas, mais comum ainda é a sequência das ações de Rubinho. Citarei três: num capítulo, Cláudia está chegando em casa e ele surge ao lado da porta do seu apartamento, insistindo para entrar e questionando onde ela estava. Cláudia se assusta, barra a entrada da porta e diz que não lhe deve satisfação, afinal não está mais com ele. Bem interpretada por Giovana, a personagem fica visivelmente abalada e assustada, contudo ela, ao entrar (fecha a porta rapidamente para que o ex não entre) e encontrar com a mãe que agora mora com ela, não lhe conta nada; num capítulo seguinte, Cláudia está no primeiro encontro com o engenheiro que ela conheceu numa obra, eles estão num restaurante jantando quando do nada surge o ex, Rubinho, pergunta quem é o “cara”, diz que ela não pode fazer isso e numa primeira atitude agressiva, esfrega a cara do engenheiro no prato de comida, sendo retirado à força pelos seguranças, o engenheiro sai logo em seguida culpando-a por ter um ex assim e ela fica lá jantando sozinha; no capítulo seguinte, após contar para a mãe o que ocorreu (ela tenta erguer-se do fim de um relacionamento que durara anos), a mãe tenta encontrar justificativas para o ex, dizendo que é natural que ele sinta-se como dono de Cláudia pois eles tiveram um longo relacionamento e homens sentem-se assim, Cláudia, porém, não aceita essas palavras e ainda conclui que está sendo seguida por ele. Logo em seguida vemos Cláudia ao telefone, no seu lugar de trabalho que é a obra onde conheceu o engenheiro, o qual pede sua demissão pelo ocorrido. Eis que entra Rubinho e faz as perguntas descabidas sobre quem era o homem que estava com ela, que ela era dele e coisas afins. Cláudia se nega a concordar com ele e ainda tenta mostrar que ele causou um problema profissional para ela, ao que Rubinho a agarra com as duas mãos e diz palavras agressivas, diante do susto e do medo, Cláudia fica paralisada. O escândalo chama a atenção dos operários que se colocam para defender Cláudia, assim Rubinho vai embora.

 

O texto do Miguel Falabella é muito bom e me parece que esta sequência terá ainda um crescente. Um crescente, creio eu, um tanto familiar. Como eu disse, é algo pessoal, já passei por isso. Pensava em escrever aqui pedindo que meus leitores dessem uma atenção especial às notícias diárias sobre exs que matam, sequestram, assediam, agridem as mulheres que ousaram dizer “não, não quero mais”. Não são poucas, tenho certeza. São muitas mais do que podemos imaginar. A situação em si já é grave, mas mais grave ainda é não denunciar. É calar-se. Você cala por vergonha, por susto, por medo. Se você se vê como uma mulher dona do seu nariz, como pode se ver numa delegacia dizendo a um policial que quer fazer um BO porque tem um homem lhe perseguindo? Parece simples, mas não é. Lhes garanto que não e compreendo o silêncio dessas mulheres. Como Cláudia, muitas vão tentando ignorar, sentem medo, esperam que aquilo acabe por si, que o idiota acorde num belo dia e a esqueça para todo sempre. Isso, infelizmente, não acontece em muitos casos. E diriam, como a mãe de Cláudia: homens são assim. Pois então o problema são eles, quem precisa de cura ou de solução são eles: nós não. Mas quem precisa se rebaixar e ir a uma delegacia (onde normalmente nada é feito e só alimenta a frustração) somos nós. Nós?

 

Há a esperança que lhe prende e não lhe permite tomar uma atitude mais severa. Há uma ferida no ego ter que desprender-se de si para rebaixar-se ao nível de que aquilo que o outro faz não é correto nem bom. O homem? Primeiro há o desespero e as atitudes ligadas a isso; depois há a percepção de que a rejeição é real, e aí o pior que há no sexo masculino transborda: a covardia e a agressividade. O homem se ampara na sua “natureza” como disse a mãe da Cláudia para justificar a covarida diante daquilo que não vai mudar e como já não há nada mais a ser feito ele só consegue agir, o que significa violência e agressividade. É o velho “tomar à força”. Homens são repugnantes por isso. Mas, mas, mas… dirão que estou generalizando.

 

Enquanto a mulher sente-se impotente o homem usa de toda a sua “potência”.

 

E aí eu vou ligar diretamente com o Big Brother. Programa da mesma emissora que já faz e ainda faz (para desgosto de muitos) muito sucesso no Brasil. Acho de uma hipocrisia sem tamanho quem hoje tanto critica mas já foi lá seu fã. A esmagadora maioria dos brasileiros já assistiu alguma temporada do Big Brother. No começo, acho que a curiosidade e o estrondo levaram muitos de nós a assistir. Porém, hoje muitos assistem porque querem ver barraco, putaria e coisas afins. A própria produção do programa deixa claro que visa isso. A escolha dos participantes (não é quem quer ganhar um milhão de reais e por consequência aparecer, é quem quer aparecer e por consequência ganhar um carro ou dinheiro), as festas regadas a muito álcool, o número reduzido de camas, as intrigas. O nível moral do Big Brother foi sendo construído ao longo de algumas temporadas, somou-se o que o povo mais gostava de ver com o que os participantes ofereciam. Bem, diante desta equação é óbvio que o resultado foi o mais baixo e constrangedor possível. Se eu estivesse lá, provavelmente não haveria sexo em frente às câmeras; se você estivesse lá, provavelmente não haveria mentiras. Por isso, eu e você não somos escolhidos para o programa. Simples assim.

 

Diante destas colocações, não há boas coisas à espera. Contudo, o ser humano é foda. (desculpem-me pelo palavrão, ele foi necessário)

 

Ontem a internet pulsava frenéticamente acerca de o que foi chamado de “estupro” e aí muita coisa foi exigida (as massas, na internet, exigem alguma coisa?) e escrita. Resumindo: uma participante (catarinense, por sinal, mas que eles chamam de gaúcha porque mora em Porto Alegre, Monique Amin (!)), bebeu, bebeu e bebeu na festa – ou seja, fez seu papel – e caiu na cama apagada. Logo, um rapaz que só sei o nome, Daniel, deitou ao seu lado e nitidamente teve algum tipo de contato sexual com ela (debaixo dos tais edredons). Se foi masturbação, se foi bolinação, se houve ou não penetração (li em algum lugar algo assim “nem houve sexo, os dois estão o tempo todo de lado” – oh, wait! que tipo de vida sexual tem uma pessoa que diz isso?!), não se sabe nem se saberá. O que se sabe é que a tal Monique de nada participou conscientemente. Poderíamos saber a verdade caso o tal Daniel fosse uma pessoa correta e sincera, porém, tudo já demonstra o contrário.

 

A Globo, que não é boba nem nada e sabe que internet só é para poucos, ainda, fez seu procedimento normal, chamou a Monique, fez suas perguntas e, não pasmem, continuou como se nada tivesse acontecido. Não houve estupro (e a discussão jurídica acerca da coisa foi enfadonha), tudo continua como antes, a moça disse que sabia o que estava acontecendo. Aham… sabia. Sabia tanto que foi perguntar para o tal Daniel e questionou uma colega “será que eu fiz?”. Ah, o Daniel… a resposta dele: você fez alguma coisa que não queria? Ela: não! Então está tudo bem, diz o rapaz.

 

Homens, não é mesmo? Eu assisti o programa à noite curiosa por como a Globo apresentaria a questão. Uns seis segundos da cena do edredon, um “o amor é lindo” dito pelo velho ridículo Bial, as perguntas de uma Monique que demonstra estar completamente alheia ao que aconteceu e uma cena em particular: o tal Daniel agarra com força uma moça (que eu obviamente não sei dizer quem é) durante a festa, puxando-a ao encontro do seu corpo e forçando um beijo, ela não gosta, tenta se afastar, nega, vira o rosto e diz “me deixa ir, pode me largar?” algo assim.

 

Esse Daniel não é bonito. Ele é feio. Não que isso importe para a maioria dessas mulheres que vão para a balada. Ele demonstra claramente que está no Big Brother com a cara dizendo “aqui vou pegar muitas, afinal o programa quer isso: todos se pegando”. Somente pela atitude dele com a moça durante a festa já diz quem ele é: mais um homem idiota, desses não faltam no mundo. Ele é um homem idiota que acha que toda mulher deve lhe dar. Sim, “dar” no sentido sexual. Porque os homens são assim. Eles cresceram assim, você os educou assim. Você, pai e mãe ausentes e irresponsáveis, nunca chegou para ele e mostrou que não era assim.

 

Eu tenho fatos pessoais sobre essas questões, e você, mulher, que me lê, pare um instante e puxe pela memória, certamente também encontrará alguns. Eu disse “não” a alguns homens. E vi a cara que não compreendia isso, como se para eles as mulheres fossem feitas para simplesmente obedecê-los. Bem, tenho um histórico ruim porque nem aos meus pais eu obedecia. Não seria a um marmanjo que acha que eu tenho que dar pra ele que eu obedeceria.

 

O Rubinho, lá da novela, é um personagem. O Daniel é um cara aí, normal. Poderia ser seu filho, seu namorado, seu pai.

 

Daniel foi rejeitado. Por beleza física ele está abaixo de muitos ali e talvez as mulheres (que também não são lá muito bonitas) não lhe dessem chance. O que ele fez? Seguiu o processo e agiu – com covardia e uma dose de agressividade. Agressão não é unicamente dar um murro na cara do outro, a agressão vem de muitas formas, pois se ela se apresenta até em palavras, por que não seria agressão manipular o órgão sexual de outra pessoa enquanto ela dorme? O covarde utiliza-se da agressão para sanar sua nulidade, e aí podem ser palavras, perseguições, o uso da força, a manipulação, a chantagem física e psicológica, etc..

 

Eu poderia contar uma dúzia de fatos para vocês, assim tornaria mais íntimo e pessoal o post, porém, não adentrarei neste nível de relato porque o ego fala mais alto. Bastam estes exemplos, de uma mesma emissora que usa suas novelas para condenar abusos e educar a população (os autores mesmos gostam de dizer que incentivam doadores de medula, que incentivam mulheres a denunciar casos de agressão familiar, etc.) e ao mesmo tempo dá ao povo aquilo que ele gosta, no nível que ele gosta.

 

Foi inevitável que ontem, ao tirar a colcha da cama, ainda um tanto chocada pela edição do programa do Big Brother, com o Stendhal debaixo do braço, eu lembrasse carinhosamente de Nelson Rodrigues já citado aqui no blog: se todos soubessem da vida sexual de cada um, ninguém falaria com ninguém. Nelson tem outras grandes análises do ser humano (o complexo de vira-lata, a burrice da unanimidade, dentre textos que relatam com detalhes sórdidos personagens nesses níveis que, caso fossem pessoas do nosso conhecimento, não teríamos coragem de falar com elas). E você tenta descobrir minhas opções sexuais através da música que eu ouço. Francamente! Você passa longe, bem longe, do Nelson Rodrigues.

 

Você tenta julgar meu caráter pelos programas de TV que eu assisto. Minha cultura e nível de conhecimento avaliando se eu leio Sidney Sheldon ou assisto Godard. Você aí que pode ser um homem dos mais clássicos, um Daniel. Ou você que está com a aliança no dedo, namorando ou noiva, de um… Daniel. (talvez você já desconfie que ele é um Daniel, ou ainda não tenha a menor idéia disso e provavelmente só vai descobrir tarde demais)

 

Confesso que a primeira coisa que me ocorreu sobre o caso do Big Brother foi que não havia nada de mais na situação, pois isto acontece todos os dias, em baladas e festinhas no mundo inteiro, todos os dias. Você mesmo talvez já tenha participado de uma dessas (eu nunca participei de festas ou baladas, por isso nunca vi com meus belos olhos castanhos, mas, né, felizmente tem coisas na vida que não precisamos ver para crer). Moças bêbadas (beber até perder os sentidos é um atestado de “você é boazuda/o” no mundo) que caem inconscientes no meio da festa e rapazes que (muitas vezes também bêbados) abusam delas é tão comum, só não saem nos noticiários como as mulheres assassinadas pelos seus exs. E o que é comum, já se sabe, toma para si uma garantia de “normal”.

 

Não gosto do que é normal. Nem do que é comum. Não gosto. Por que haveria de gostar, não é mesmo?

 

Bem, aos que julgam, eu poderia citar o caso de amor da Campireali pelo Banciforte do Stendhal, onde há, nitidamente, mais um Daniel de outros tempos, que a corteja, a exije e a humilha para mostrar que é seu dono. Os Daniéis e as Moniques têm origens muito antigas e nem por isso estão certos. Porém, preferi citar o Big Brother e a novela das 19h. Suas condenações não me dizem respeito.

 

(Nota: eu tento assistir a novela das 19h do Falabella porque eu gosto do texto, mas como todo programa de TV que eu tento assistir tem o problema de eu lembrar quando passa e tal, porque o relógio e eu não nos entendemos; não assistirei ao Big Brother, podem ficar tranquilos, e acho que quem ficou “de cara” com a atitude da Globo deveria simplesmente parar de assistir, afinal, para ver pornô (muito mais interessante do que o que eles oferecem) tem tantos outros meios. Assiste quem quer e só. Ainda não terminei de ler o Stendhal. Ouvi Ultraje a Rigor também ontem. E eu ainda me apego MUITO ao Nelson Rodrigues porque, como eu sempre digo, quero continuar falando com vocês, meus queridos.)

 

 

Nem só de beleza vive o turismo de um Estado

Estava eu na tal sala VIP quando entram duas senhoras (lá pelos finais dos quarenta). Fiquei observando curiosa, não eram, definitivamente, frequentadoras do local.

Uma delas vai até o balcão e num português afrancesado e dificultoso solta algumas perguntas. A atendente se bate para responder e logo aparece um incrivelmente solícito fiscal. Eles estavam tentando explicar para ela (em um português razoável) que os bilhetes de passagem continham um horário, é verdade, mas que na prática pouco importava. Num primeiro momento ela parecia incrédula. Agora já não era mais um problema de comunicação: ela havia entendido, só não acreditava. De incrédula ela passou para indignada e ao relatar a conversa com a sua companheira de viagem soltou alguns impropérios: aquilo era inadmissível!

Eu ali me divertia com a cena, afinal na França e em vários lugares do mundo, quando um ônibus ou trem tem um horário determinado no seu bilhete deve ser por algum motivo.

O fiscal (figura que surgiu do nada neste dia) ficou saltitante de um lado ao outro da rodoviária. Logo veio ele com uma turista americana e num inglês pífio tentou entender as dúvidas dela. Enquanto isso, o ônibus (Joinville – Florianópolis, na verdade a linha é Curitiba – Florianópolis) que nem tinha horário não aparecia.

Quando já estavam todos embarcando, finalmente, as turistas francesas deram o bilhete ao motorista que soltou um “merci” ao devolvê-lo. Eu ali, observando. Nisso, vem o fiscal (que passava instruções aos que atendiam a moça que falava inglês) solícito e pergunta ao motorista: tu vai além do merci? (visivelmente empolgado) E antes mesmo da resposta: porque eu só sei dizer que não sei falar francês. E disse uma frase incompreensível em algum idioma imaginário.

Sim, eu ali me divertia e embarquei no ônibus.

Passou um tempo fui até lá atrás pegar uma água e ir ao banheiro. Quando estou voltando vejo a francesa semi-letrada em português em pé no corredor sobre a outra e falando com um moço (com uma camisa amarela de doer os olhos) que lhes mostrava o mapa da Ilha no celular. Bem, eu fiquei ali parada me divertindo um pouco mais.

O rapaz, para mostrar serviço, falava em espanhol. Uma francesa que não entende nada nem de espanhol nem de português, um rapaz com um espanhol doloroso e um português talvez ainda pior e outra francesa que de espanhol não sabia nada mas arranhava no português. Ou seja, o diálogo era interessante. Ele falava da praia Mole (ih, moço…) e discorria sobre as maravilhas da “uma cidade pequeña dentro de la cidade”, ou seja, a Lagoa da Conceição. A francesa a perguntar sobre distâncias e a afirmar que não tinha problema porque elas caminhavam bastante.

Tenho dificuldade em reproduzir as falas do moço solícito que achava que estava falando espanhol. mas garanto que me diverti muito. Sobre os atrativos da Ilha, então… Ah, melhor ainda quando ele tentou explicar a relação “Estado de Santa Catarina”, “Ilha de Santa Catarina”, províncias e sabe mais Deus o quê.

Sim, pessoas, eu fiquei ali em pé admirando a cena.

Ao que a francesa que estava em pé disse um “merci” e mexeu-se para sentar. O moço ainda pergunta já meio esgoelado “e o que eu respondo quando você diz merci?!” (quase que eu respondo, “diz que vai se matricular num curso de francês, oras!”). E, claro, lá vem o enjôo apocalíptico do francês: très bien!

Mas o choque foi a aproximação da francesa… oh, God! Na França não faz calor, não? A fama tem justificativa! Sério, eu fiquei enjoada com o fudum que vinha daquela mulher. Uma náusea tomou conta de mim e pela cara de algumas pessoas em volta eu não era a única a passar mal!

Tranquei a respiração e me dirigi ao meu banco.

Fiquei pensando nas notícias e estatísticas que tenho visto por aí: 1. Santa Catarina será o segundo Estado a receber mais turistas estrangeiros; 2. Santa Catarina foi eleito o melhor Estado para Turismo do País, pelo quinto ano consecutivo; 3. Receberemos cerca de 5,5 milhões de turistas, 1 milhão só na Ilha.

Então, é para ficar orgulhoso, alegre ou temer?

São questões tão simples: não é so título, não é só número. Tem que receber bem, ter estrutura (palavra inexistente no dicionário do brasileiro), estar preparado.

Eu já trabalhei com turista estrangeiro na Ilha e digo: são explorados e sofrem com a falta de comunicação e desinformação. Não gostam da maioria dos nossos serviços, enquanto os donos de hotéis, restaurantes e afins aqui aproveitam para cobrar muito, muito mais caro deles!

É lamentável ter poucos profissionais que dominem (eu disse dominar, não arranhar) outros idiomas (para além do espanhol e do inglês então…) e tanto descaso com o turista que é visto apenas como o que mais gasta. Hoje mesmo encontrei turistas sul-americanos numa loja de calçados que eu frequento. Todo ano eles aparecem, muitos ficam deslumbrados com o nosso comércio. E eu sempre observo como são tratados mal, como não são compreendidos e como são vergonhosamente explorados.

E não pensem que é descaso ou mal profissionalismo (tema para um próximo post) do funcionário! Isso vem de cima, vem dos donos dos comércios, hotéis, etc.. Uma vez eu recebi um casal inglês que foi parar numa pousada que não era onde eles deveriam ter ido, erro do motorista do táxi. Mas eles só perceberam isso depois porque uns amigos haviam combinado de ficarem todos no mesmo hotel e quando chegaram no correto entraram em contato com eles. O casal então tentou cancelar o check in (cerca de vinte minutos depois) com uma funcionária, mas veio a ordem da dona do hotel em não permitir. O valor, inclusive, deste hotel era absurdamente mais alto. O que aconteceu? Eles ficaram no hotel errado, pagaram muito caro, tiveram gastos a mais de deslocamento, e ainda faltou luz a noite toda. Mosquitos, calor… Uma imagem linda para uma diária acima de quinhentos reais.

Conheci outros casos. Alguns realmente não se importam em pagar caro. É até triste ver que eles esperam não encontrar alguém que consiga se comunicar com eles!

Eu gosto muito de Santa Catarina. Tenho orgulho de ver o Estado merecidamente destacado no turismo. Mas lamento tudo isso. Lamento a falta de um “a mais” nos profissionais da área. Turismo não é exploração. Não sei o que tem sido ensinado nas muitas (hoje são inúmeras, quando eu fiz vestibular até cogitei pois estava em voga) escolas e faculdades de turismo por aqui.

Achei, inclusive, uma afronta do governo federal levar a Copa mais para o nordeste do que para cá. Todos sabem que o nordeste perdeu o seu posto de pai do turismo no Brasil. Lá foi assim: uma dúzia de investidores estrangeiros, muita estratégia de marketing, preços altíssimos, badalação e jogaram a pobreza pro lado. Os pacotes CVC da vida sugaram o que puderam (a estratégia é simples: você investe aqui, constrói seu hotel, a CVC manda quantidades absurdas de turistas) e hoje os preços despencaram porque está tudo sucateado. Rio de Janeiro e São Paulo já são auto-sustentáveis, mas também vêem Santa Catarina como uma ameaça. Como pode um estadinho lá do Sul querer desbancar os grandes nomes do turismo do país? E aí já começou a retaliação, a ignorância. O governo federal nunca foi por Santa Catarina. Nem os políticos do Estado. Volto a dizer: não temos representatividade a nível federal (e não vejo perspectiva de termos, mas sinto que é essencial). O Estado por si, por suas belezas e seu povo, pelo trabalho desse povo, conquista o que pode. Mas sofrerá sempre com o descaso.

Agora, o que não pode é perder a oportunidade que alcançou. O turismo é só mais uma vocação do Estado. Sempre fizemos muito mais e chegamos àquilo que não era tão explorado e visado até pouco tempo. Belezas nunca nos faltaram. Mas ainda nos faltam muitas coisas!

O médico-escritor sincero

 

Ontem à noite eu lia um livro no sofá da sala, escrito por um médico. Antes dos contos propriamente ditos havia uma ou duas apresentações sobre o escritor estreante.

Foi quando me deparei com elogios rasgados à sinceridade dele, do autor.

 

Não conheço pessoalmente o médico-escritor para fazer comentários acerca da sinceridade dele, mas duvidei um tanto disso.

 

Realmente não imagino alguém receber elogios por ser sincero.

 

Sou adepta da sinceridade sem limites. Não sou a pessoa afável que encontra inúmeros eufemismos para as palavras duras ou que ao ser simpática com todos engole os pensamentos mais genuínos. Não sou assim dentro de casa, nem fora, nem com o companheiro, nem com os amigos, nem com estranhos.

 

Raramente ouvi sinceros (vejam só!) elogios à sinceridade que pratico. Raramente. E alguns deles não eram exatamente elogios, mas apenas constatações (com um tanto de reprovação) “você é muito sincera”.

 

Eis que me peguei pensando sobre isso durante a madrugada, efeito do tal médico sincero que recebia elogios de um amigo por isso! Sim, porque pensei, meus amigos não elogiam isso!

 

Tenho pensado nisso nas últimas semanas e o tal médico me fez matutar ainda mais.

 

Ninguém pode esperar de mim uma falsidade ou consentimento que burlem minha sinceridade. Então como meus amigos, os que já me conhecem a tempos, podem ficar insatisfeitos comigo justamente por isso?!

 

Eu, como boa pisciana, choro junto, como dou gargalhada junto e fico revoltada junto. Me junto aos sentimentos de quem está perto de mim. Não vejo um amigo bem e fico com inveja, na mesma hora fico bem junto, me alegro por ele e com ele.

 

Mas não me peçam para ser cúmplice das merdas que fazem. Nem me peçam para passar a mão na cabeça quando fizerem alguma coisa idiota (ainda mais quando eu insistentemente tentei ajudar evitando que a coisa fosse feita). Aí serei sincera e não acho isso ruim, nem doloroso.

 

Mas meus amigos (alguns deles), ultimamente, tem achado ruim a sinceridade. Acham que devo só ouvir e ficar calada, aceitar seus erros e ser cúmplice deles. Não farei isso. E isso não é demonstração de amizade. Nem nunca foi. Amigo não é só aquele que passa a mão na cabeça, esse está só esperando para te dar o bote na primeira oportunidade.

 

Porque é fácil encontrar um colega, um conhecido, um colega de trabalho – esses relacionamentos fortuitos e passageiros – que te apóie (supostamente) em tudo, que te incentive a fazer merda. Ele não se importa em te ver na pior. Nem vai te ajudar de verdade quando tudo der errado, esse será o primeiro a abandonar o barco.

 

Sinceridade não é fácil de praticar. E, eu sei, não é fácil ouvir. Não rende elogios nem abraços efusivos. Porém, tenha a certeza, só vem daquele que realmente quer o teu bem.

 

Enfim, talvez as pessoas não se preocupem com isso. Fiquei me perguntando se o tal médico-escritor era realmente sincero ou se era apenas um elogio falso. Acredito que ele pode ser, sim, uma pessoa sincera. Feliz dele que tem amigos que reconhecem o valor da sinceridade, acima do simpático tapinha nas costas.

 

 

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