Machismo não é hereditário

Acontece que não ouço as conversas alheias de propósito, mas gosto muito de ouvi-las. Estava no mar na terça-feira de Carnaval quando me peguei acompanhando a conversa de uma moça com sua tia. A moça mostrava-se muito preocupada com o namoro de um primo. Ao que parece, todos estavam passando o feriadão empilhados na mesma casa e, portanto, as questões de foro íntimo (como acontece nessas situações de convívio forçado) do tal primo caíram na boca do povo (e vieram parar aqui).

Vou comentar de passagem que já observei que as pessoas discutem assuntos os mais pessoais e abrem o coração durante os banhos de mar. Dito isso, explicarei a história do primo da moça. Todos presenciaram as grosserias dele para com a atual namoradinha (e esta, sem entender nada das atitudes dele, abriu o coraçãozinho despedaçado com alguns familiares próximos – a prima, no caso). Ao que parece, o namoro é novo. E esses rompantes de grosseria e mau humor do moço deixaram a moça desestabilizada, porém, a prima não pareceu estranhá-los.

Cheguei ao ponto que eu queria: ao tentar justificar o rapaz, ela e a tia comentaram que as atitudes do moço são iguais às do pai e tios dele. E eu fiquei de fato pasma quando ela disse “é hereditário, não adianta, é genético ele ser assim”. E não foi uma explicação metafórica qualquer, ela realmente acreditava que as atitudes e mentalidade deles eram algo “genético”.

O machismo, creiam, não é genético. A brutalidade, violência e grosseria masculinas não são hereditárias. Em parte podemos creditá-los à educação, porém jamais a algum traço científico que justifique e inocente a ignorância. De tanto conviver com pai e tios, a moça acredita piamente que estupidez, agressividade e atitudes similares são algo que passa “de pai para filho”. Prestei muita atenção na conversa porque tal idéia me parecia não só descabida como impossível de existir – mas existe. Ela insistia que ele deveria procurar algum tipo de tratamento, mas sabia que pelo comportamento explosivo dele era melhor ninguém nem falar disso novamente (de onde se conclui que já haviam falado). Insistia, também, que a moça deveria entender que ele era assim, nesses poucos meses de namoro ela ainda ficaria assustada, mas como as tias e a mãe dela, acabaria se acostumando e sabendo lidar melhor com a situação (ela disse isso com todas as letras). Achou que era até bom a moça conhecê-lo assim logo, para não sentir-se lograda depois e condenada a passar o resto da vida com alguém tão (me faltou um adjetivo).

Ela fez questão de dizer para a tia “você não acha?, se fosse você, que passou o inferno com o tio, se só te contassem ou tivesse ficado sabendo depois de um tempo, não ia ficar revoltada? Melhor ela saber agora”. A prima me pareceu uma pessoa fascinante, com opiniões tiradas de um mundo a parte. Ela contou que a moça ficou surpresa, numa conversa, ao observar que as opiniões do moço eram tão machistas. Ao que a prima disse, para a tia, “ela não viu nada ainda, imagina quando for só os dois em casa” (me pareceu a opinião bem abalizada de alguém que testemunhou atrocidades numa família onde os homens são machistas).

Realmente me enterneceu, porém, a preocupação da prima com o futuro do casal. “Já pensou, tia? Perder o amor da vida porque não sabe se controlar, porque não escuta os outros e fica com esse gênio ruim num dia de festa, porque faz essas coisas bem no começo do namoro”. Eu, por exemplo, se conhecesse a moça, diria: foge, querida. Foge de um cara que te trata assim (seja no começo do namoro ou depois de anos de casado). Porque esse cara não vale nada e não tem DNA que justifique. Eu não entendo como ainda propagamos, entre as mulheres, essa idéia de “aguentar” qualquer coisa por amor, de que homens “são assim mesmo” e nós devemos nos conformar (e baixar a cabeça).

É a cultura machista que se entranha na educação das mulheres. E onde acaba? Nos assassinatos porque “não aceitou o fim do namoro”, em boletins de ocorrência registrados e que não serviram pra nada, em filhos que crescerão em meio a cenas brutais e tristezas que moldarão seus caráteres. Homem violento é um criminoso, simples assim. Infelizmente, em muitos casos a violência não é tão evidente. É comum ouvirmos dizer “ah, ele nem era violento”, porém, desconfio que há uma infinidade de situações das quais podemos, sim, depreender que o cara é agressivo ou não aceita ser contrariado, etc.. É preciso observar, é preciso estar atenta a detalhes. É triste viver sendo mulher e com a atenção sempre ligada…

De volta à conversa, a prima lembrou que a moça disse que sempre ouviu que deve observar como um filho trata a mãe para ver como será tratada como mulher por ele – e, segundo a namoradinha, o modo como o moço trata a mãe deixou-a horrorizada. Eu diria que é sempre bom observar mesmo, pois filho deve amar (nem demais, nem de menos) e respeitar a mãe, e homem que tem problema com a mãe é sempre dor de cabeça na certa. Pelo menos a prima não insinuou que ele deveria tratar a mãe bem só para causar uma impressão melhor na namorada.

Eu fico estupefata com essas coisas que ouço por aí. É a razão de gostar tanto de ouvir conversas alheias. O outro é sempre um mundo estranho e desconhecido – e a gente vive achando que tudo gira em torno dos nossos umbigos e, vê, confia em mim que não é bem assim.

Machismo não é doença, como também não é algo que se carrega no sangue. Não precisamos esperar que o cara abra a porta do carro (apesar de levarmos muito em conta gestos de cortesia e atenção, rapazes), mas se ele bate a porta do quarto ou dos armários no meio de uma discussão ou birra qualquer, desconfie (eles demonstram, com isso, a violência contida que queriam, na verdade, descontar em nós). Um dia ele baterá a porta do quarto. No outro jogará tua bolsa longe. Você não pode esperar para ter certeza que ele não baterá em você num dia depois. É com essas ameaças, com essa demonstração de força e violência, que os homens acuam as suas companheiras. É impelindo-as aceitarem-nos “como são” que eles se sentem fortes na sua agressividade e ignorância.

Mas muito me choca e desgosta ver mulheres reproduzindo a mentalidade de que temos que aceitá-los assim, de que machismo e violência são coisas “naturalmente” masculinas. A submissão começa por querer sentir-se aceita e amada. Nenhum amor vale isso.

No fio do bigode

Falamos disso esses dias. Ou talvez tenhamos falado sempre. Seria uma espécie de contrato, ou, quem sabe, um valor metafísico. Valores, aqueles que devemos ter desde sempre, desde o berço para os que nasceram num, desde o ventre, então, de onde todos viemos. O que não se entende sobre certas coisas é que não devemos fazer pelos outros: mas por um compromisso conosco.

Meu avó dizia que era “no fio do bigode”. Ele era do tempo que os homens (e as mulheres…) se fiavam no fio do bigode. Vê, não precisava nem assinatura em cartório. Ah, sim, claro, sempre houve quem faltasse com a palavra. Mas era vergonhoso, era exceção, os dedos da imensa maioria apontavam: naquele não se podia confiar. Com os outros o fio do bigode funcionava. Meu avô, que tinha bigode, por sinal, era assim. E por algum tempo ouvi minha mãe falar no fio do bigode, que ela nunca teve, é claro, mas é dessas em quem se pode confiar de olhos fechados.

Vejam vocês, era hereditário, naquela época. A ter palavra, meus queridos, a gente aprendia em casa. Como tantas outras coisas. E nem me venham com isso de que “naquela época” as mães (muito mais) e os pais tinham tempo para ensinar aos filhos, que a vida contemporânea exige isso e aquilo. Não, não. O pai aí sentado com o celular grudado nos olhos (nem que seja para ficar fotografando o filho para as redes sociais) tem muito mais tempo do que tinha meu avô – que nunca teve celular.

Talvez a exposição. Quem errava era exposto. Não essa fogueira inquisitória da internet. Os valores, enfim, valiam alguma coisa. Na empresa, no teu meio social, em casa: a falta da palavra era reprovada pelos seus. O mau caráter não se criava – nem se reproduzia. Talvez esse silêncio de hoje que acoberta os casos omissos e de falta de palavra e compromisso: o famoso rabo preso. Se eu não cumpro com a minha palavra, como vou apontar o outro? (tem gente aí muito cara de pau, é certo)

Não dá pra esquecer. Nem deixar passar. Não se pode mais confiar no fio do bigode (logo hoje que ele parece ter voltado à moda). Mas, como eu disse, é hereditário, então está aqui comigo. É uma questão de valores – sou antiquada, me apego a eles. É uma questão de respeito consigo. Não ter palavra é um dos maiores males do caráter – Deus me proteja de quem foge ao fio do bigode. Que humanidade é essa que só (e olhe lá) cumpre seus compromissos baixo assinaturas, multas e processos? Quando foi que ficamos tão incivilizados?

Não há de ser tão fora de propósito falar do fio do bigode. Eu quero crer. Porque quem falta com a palavra segue sua vida com a consciência tranquila (aposto que sim), enquanto quem se fiou neles acumula desgostos – e sequer os expõe. Não devia ser assim. Não mesmo.

O que deixamos de fazer

Talvez eu tivesse acreditado, em algum momento, que não passaríamos a vida comendo fandangos. A vida adulta, eu digo. Eu cheguei a acreditar que, apesar de nos faltar o espírito de “vamos mudar o mundo” – que realmente nunca vi em nós – nós mudaríamos o mundo que, quando nos foi entregue, já era tão velho. As regras eram velhas, as pessoas tinham pensamentos e crenças ultrapassadas, as carteiras da escola de frente para o quadro: tudo era velho. O mundo, naquele tempo, parecia implorar para que nós, justo nós, o aliviássemos daquele fardo de ser tanta coisa ruim, antiquada, rançosa e deprimente. E nós, o que nós fizemos?

Nós nos calamos. Lembro que eu tinha até vergonha de ser católica praticante – não contava pra ninguém que acordava cedo também no domingo, todo santo domingo, para ir à missa -, porque éramos desafiadores com essas coisas de Deus e do que os pais nos impunham (a mãe exigia que fossemos à missa, mas eu vou até hoje porque gosto mesmo). E lá foram muitos de nós, que mal pisavam numa igreja, a casar de véu, grinalda, festança e tudo o que exigem as fotos que ficarão para a posteridade. Lembra aqueles álbuns horríveis, bregas, puídos, cheios de fotos com gente vestida com coisa anos 1970 como os dos nossos pais? Só mudou a moda da época – e ficamos mais bregas porque tem vídeo de ensaio fotográfico de casal. Ah, sim, claro, e agora é tudo digital.

Nós fizemos de conta que não era conosco. Mal estudamos sobre a ditadura, achávamos chato todo professor de História falar disso. Achávamos chato falar de Política, lembram? Nós éramos perfeitos alienados. Por isso eu deveria ter percebido que dessa história de mudar o mundo e fazer dele um lugar melhor nós não faríamos parte. Mas, em algum momento, eu acreditei. Acreditei que faríamos da Política nossa arma contra as injustiças e desmandos de um país tão pobre, tão capenga, tão travado no tempo. O país do futuro, lembram? Do futuro. Este futuro que estamos vivendo agora – e para o qual não fizemos nada de bom.

Nós não demos a devida atenção. Nos preocupávamos com a TV – sim, na nossa época ainda era ela que dominava nosso tempo. Muitas de nós – estou fora desta lista – queriam ser modelos. Muitas queriam vender a alma ao diabo para pagar um book. Vocês lembram que eu sei. As fotos devem estar escondidas aí em alguma caixa na casa dos pais, porque ninguém quer morrer de vergonha. Nós não nos educamos para cuidar do lixo, para reivindicar melhorias no nosso bairro, para que a cidade respeitasse o seu rio poluído, para que a água fosse economizada. Muitos de nós nunca sequer plantaram uma árvore.

Nós não pensamos nos nossos filhos. Nesses mesmos que temos adiado para depois dos trinta porque, afinal, gostamos de curtir a vida e essa coisa de ter uma penca de filhos desde cedo era coisa dos nossos avós e nós somos moderninhos e esclarecidos. Não pensamos que entregaríamos a eles um mundo em vias de autodestruir-se porque nós, justo nós, não cuidamos dele – mas estamos aí todo dia reclamando de alguma coisa nas redes sociais. Saímos do sofá, é verdade. Mas estamos zumbis nas telas de computadores e celulares. Nós não fizemos. E o que esperávamos disso? Que o mundo cuidasse de si mesmo sozinho?

Nós fomos egoístas. Fomos bem bobinhos pensando que a engrenagem seria trocada por algum sistema digital ultraeficiente sem que nós tivéssemos que fazer absolutamente nada. Em cada miojo que nós comemos durante a faculdade estava o tempo de três minutos (nem tão exatos assim) com o qual poderíamos ter feito alguma coisa. Faltou doar o tempo para passar um óleo na engrenagem. Faltou vergonha na cara para questionar as regras. Faltou bater boca para impor mudanças – às vezes, só no grito. Faltou que tivéssemos consciência de que fazemos parte do mundo e de tudo que está – ainda – velho e podre nele. O que foi que fizemos para que ele não estivesse pior do que quando nós tomamos as rédeas?

Porque ainda tem quem pense que as rédeas não estão nas suas mãos. É mais fácil pensar assim – apesar de que “pensar” não se aplica. Lamento pelos que, de fato, combateram aquele mundo que nos foi entregue: estes se foram cedo (e me fazem muita falta). Ficamos nós a falar do mundo como se não fosse conosco. Nem um mea-culpa é encontrado nas redes sociais – nem nos confessionários, eu arriscaria dizer. Faltou lembrar que vinha mais gente depois de nós – e tenho certeza que não cuidamos do que tínhamos. Tenho vergonha – quero dividi-la com vocês, tão culpados quanto eu – de ver tudo que deixamos de fazer. Por nós, também.

Um sorriso muda tudo

Foi diante da moça do pedágio, nem tão moça assim, que a certeza verbalizou-se nos meus pensamentos e ao atravessar a cancela murmurei baixinho para nem eu ouvir, pois a música estava num volume muito alto. Talvez tenha sido o dia. Um dia daqueles que a gente quer correr ler o horóscopo só pra tira-teima se ele havia previsto que tudo seria tão bom. Tudo, não. Teve lá uma coisinha no meio do dia que não deixou-o nos trinques. Mas, uma coisinha? Pois é. Diante desta uma coisinha também a certeza mostrou-se.

Um sorriso, meu bem, muda tudo. Muda a tua atitude diante do mundo – e ele responde, sabia? Um sorriso muda a sorte de alguém. Muda a saúde também. Altera até contas bancárias (tente e verás). Você já sorriu para a pessoa que mais te sacaneia? Funciona, vai por mim. Um sorriso desarma as artilharias mais pesadas. Eu nunca parei para pensar, mas gosto de sorrir – de dizer muito com apenas um sorriso. Talvez seja por conta da paixão pela fotografia – onde não tem textão, não tem declaração, não tem legenda (não deveria, viu…) nem explicação: a fotografia diz tudo naquele instante congelado. E o que diz mais do que um sorriso? Nem mil imagens.

É com o sorriso que você recepciona alguém. Que você pode abrir as portas da tua alma para uma pessoa. E o teu sorriso, meu bem, pode dizer tudo para o outro. Mas, sei lá, as pessoas têm medo de dizer o que lhe vai pelo coração. Um sorriso destranca medos inconfessáveis e arrebenta diques inconscientes. Um sorriso muda tudo. Ele atravessa feito raio as ambições perdidas e as ilusões bem alimentadas. Ele guia os olhares opacos e as mãos nervosas. Um sorriso, apenas, apaixona. Te garanto.

Sorrir para a caixa do supermercado, para quem está limpando as escadas do prédio, para o atendente do drive-thru. Muda tudo. O sorriso a gente dá antes de receber um. Tem que chegar chegando com o sorrisão no rosto: está aqui, querido, meu sorriso e, saiba, ele muda tudo. É meio doação, meio moeda de troca. Feche a carteira, abra o sorriso. Abra a janela do carro e ao sentir o vento que vem do mar, sorria. É o vento, o mar, o final de tarde, é estar vivo. Não precisa de mais nada para sorrir. Por que você não sorri todo dia ao acordar, só pelo fato de estar vivo, vivíssimo, podendo abrir os olhos? Como disse o padre, não dê bobeira. Sorria, digo eu.

Um sorriso, dizem, até salva vidas. Vidas sem esperança, desiludidas, amontoadas de solidões. Um sorriso faz chorar. O inesperado de recebê-lo pode emocionar até os tímpanos. Às vezes você não tem idéia, mas tudo o que precisa é aquele sorriso na porta de casa. Um sorriso muda tudo, seca as roupas no varal, acalma mares revoltos, ilumina varandas escuras, lambuza de chocolate o rosto de uma criança, deixa as folhagens mais vistosas. Há quem não acredite, te garanto. Porque nunca sorriu para alguém. Nunca sorriu com o coração para ninguém. E é este o que mais precisa receber um sorriso – mas um sorriso persistente, renovador, fiel. Não é qualquer sorriso. E aí, verás, um sorriso muda tudo mesmo.

Um sorriso muda tudo. Muda a tua vida, mudando a minha. O sorriso é a agulha que vai cosendo as vidas entre alegrias e tristezas, entre abraços e mãos dadas. Um sorriso é o remédio para doenças incuráveis da alma. Um sorriso aproxima no inverno e une de vez no verão. Um sorriso, meu bem, muda tudo. Muda as Estações do ano, muda a idade nos cantos dos olhos. Muda endereços e praias preferidas. Muda o andar do relógio e a direção dos ventos.

Naquele dia eu me dei conta. Uma epifania daquelas verdades que o coração cala porque tanto já viu na vida que acredita em menos coisas do que pensa capaz. Um sorriso mudou tudo. Um sorriso tem sido minha arma quando a garganta aperta. Um sorriso é o que visto nesse dia a dia que, seja clemente ou inclemente, eu tenho que encarar. De certo modo, meu bem, este sorriso foi tudo o que me sobrou. É com ele que eu conto para toda a vida que ainda virá pela frente. E, podem comprovar: um sorriso muda tudo.

Fraturas e processos

Existe um processo. E processos são sempre fraturas (Deus meu, como detesto esta palavra). Parece contraditório, agora assim escrito. Vê, um processo deve ser algo contínuo, um trecho da vida. E como é, ao mesmo tempo, fratura? Fratura é o que quebra, rompe uma linha, um osso, uma confiança. Quero explicar isso pra mim mesma, dificuldade maior do que para quem quer que seja. O processo é a fratura em meio ao contínuo. As coisas deveriam seguir sempre, o eterno rio, os ponteiros do relógio. Mas você pára ali no meio (ou perto do fim, ou em qualquer ponto) e fica. E é aí que irrompe o processo. O processo fratura o teu seguir, porque precisas deste processo para continuar – melhor ou pior, mais ou menos feliz, com novos olhares ou não. Certeza que já fui mais clara na vida. O processo é a fratura que rompe o devir – que, talvez, por algum motivo, tenha parado (de vir – não é hora pra trocadilhos, Fahya, o assunto é sério).

O processo fratura a tua leve caminhada pela vida. Você está aí, seguro, confiante, cheio de dúvidas, talvez, algumas más decisões, dois ou três arrependimentos, já aprendeu muito na vida, sabe o que faz, com quem caminha, quais os destinos que se te oferecem pela frente. E aí, ah, aí, meu amigo… você se depara com o inesperado. Ou o esperado que você não preveria mais na tua vida, ou que não era tua prioridade, sei lá. É o inesperado (não sei se foi a melhor escolha de palavra). Os que reclamam que sou muito abstrata devem estar exultantes até este segundo parágrafo. Querem exemplos concretos?

Uma gravidez inesperada (foi o melhor que me ocorreu, vejamos se ele se encaixa). Gravidezes não são, em nada, inesperadas para pessoas que praticam sexo (Fahya sendo Fahya). Mas, uma gravidez inesperada. Construirei a situação, namorados há seis meses, um estuda o outro só trabalha, lá pelos vinte. E surge a gravidez. Cada um tinha a sua linha da vida, seus sonhos, seus objetivos a serem cumpridos, um vestibular talvez, uma promoção no trabalho, comprar um carro ou um patins. Nunca se sabe. E ali no meio deste caminho “previsto”, surge a gravidez. Ser pai, ser mãe, ser, talvez, um casal (é, ainda hoje gravidez parece requerer obrigatoriedade para juntar as trouxas – fica quieta, Fahya, o assunto é sério). Ambos terão que passar por processos. Romperão a linha que seguiam para entrar em processo diante das mudanças que virão (e que, neste caso, serão enormes). As famílias de ambos, talvez, também passarão pelo processo – o filho que sairá de casa, quem ficará com o bebê, onde vão morar, sei lá. Eis um exemplo de processo.

O processo é íntimo. Muito íntimo. Por isso minha abstração e dificuldade em vir escrever sobre. Não ficou claro o exemplo? Vejamos outro. Apaixonar-se. É um processo. Até para esses que vivem aí nas pistas da vida (imagino eu), para os que correm atrás do “alguém” (y los hay) a vida inteira. Você está aí de boa na vida, vai pra escola todo dia, dorme a tarde toda, joga videogame e, pronto. Num dia a menininha tímida que senta na carteira ao lado puxa conversa, te dá um bombom de presente, convida para ir ao aniversário dela. E vocês gostam disso. Mas, sei lá (meus exemplos estão adoráveis, acho que sou boa com isso), você vai precisar lembrar da data do primeiro beijinho debaixo da árvore nos fundos da casa dos pais dela. Ela vai querer conversar a tarde toda, no teu tempo dedicado ao sono. E agora? Agora é o processo, mocinho. Tens aí, sei lá, seus doze anos. Você passará por isso algumas vezes pela vida. Esta experiência servirá de base para todas as outras, se fores galã (credo, Fahya, palavra velha, só tu usa) chegará a usá-la e aperfeiçoá-la demais. Você vai saber a diferença de um “não” para um “não sei”, e essas coisas todas. (cuidado para não se confundir diante das repetições, fica o conselho) Você estava preocupado com lembrar de salvar o jogo para recomeçar amanhã do mesmo ponto, não com se apaixonar. E aí é a fratura, rompe teus dias, te empurra para o processo.

E no processo de apaixonar-se há perigos (em todos, não?). Você precisa n e c e s s a r i a m e n t e sair de si mesmo. É horrível, eu sei. Porém, aviso aos incautos, não pode abandonar a si mesmo. Ah, divinas dificuldades. Vejamos o primeiro ponto: precisa, sim, sair do teu casulo, dos teus hobbies, do teu dia a dia, da tua rotina, das tuas visões, das tuas expectativas. Sempre tive problema com este assunto (sempre não, só depois dos 25 HAHAHA), e ano passado numa conversa animada uma pessoa disse algo que eu nunca tinha pensado (posto que burra) e é a resposta. Cada um tem a sua educação, sua experiência familiar, a direção das pequenas coisas: a orientação religiosa, as exigências ou não com limpeza, higiene, organização, as minúcias pavorosas do cotidiano. Também têm, isso lá pra bem depois dos amores dos doze anos, as orientações políticas, os ódios e amores, as experiências traumáticas da vida, os vícios e os prazeres (ambos muito perigosos nesse “processo”). Você tem o que você é – e a outra pessoa, mesmo que creias “alma gêmea”, também. E vai juntar esses dois mundos pra você ver. Uma confusão. Então pessoas que têm mais “coisas em comum” terão mais facilidade no processo? Não necessariamente.

Nem precisa ir para os contos de fada e novelas de TV, quando a mocinha é pobre e o mocinho é rico. Não me ateria à classe social. Mas, claro, questões sociais, raciais, religiosas interferem muito. São muito grandes pra discutir aqui. Quero me ater à personalidade, aos gostos, aos hábitos, talvez. É horrível. Pior do que a mocinha pobre ter que se acostumar a comer lagosta (reparem, cena repetidíssima na ficção para mostrar o processo). Ah, Fahya, mas o amor, a paixão, os sentimentos. Pera, gente, nem chegamos lá. Essas coisas nublam o entendimento. Estou tentando ser prática, objetiva, lógica (se encontrarem esta Fahya por aí, mandem sinal). Apaixonar-se pode vir antes, durante ou depois. Nunca se sabe.

E é aí que o processo pode pôr tudo a perder – até os grandes amores imortais. Você começa a sair com o garoto e toda vez que ele chega na tua casa liga a TV. E a TV fica ligada o tempo t o d o. Você começa a namorar a mocinha, mas na casa dela tem que tirar os sapatos na porta (diz lá a sabedoria milenar asiática) e você é daqueles machos que se sentem menos machos sem sapatos fechados e ela passa aspirador de pó no chão a cada refeição que faz. Você pode ser a garota que detesta TV ligada o tempo todo. E o mocinho que além da segurança masculina ferida, se irrita com barulho de aspirador. Fui para questões muito práticas. Mas, vão por mim, essenciais.

É o processo. O processo de sair de si. De deixar tuas manias e desgostos, pelo outro. Ah, vendo assim, apaixonar-se é sublime esforço humano. Ou você pode optar por ficar na tua bolha – quentinha, ou fresca, confortável, calculada, segura e certa. É certo, para você, ter a pia sempre limpa e seca. É a tua segurança. Pro outro, talvez não. Talvez ele seja meio preguiçoso, ou meio nem aí para isso, ou meio sujinho. E sair da bolha nos leva para o segundo ponto (para alguns, assustadoramente mais difícil do que este), não abandonar a si mesmo. Amigo, você precisa ajustar os ponteiros com o outro, mas teu relógio (de novo?) não pode correr os ponteiros para seguir os dele. Talvez uma das questões femininas mais pesadas de todos os séculos (e pouco abordada), quando as mulheres ainda (como hoje) largavam seus sonhos e desejos para seguir os maridos, cuidar dos filhos. Tivemos sucessivas gerações de mulheres aos quarenta desiludidas, decepcionadas, infelizes com o que haviam “deixado para trás”. Citei só pela questão social, mas não se refere só às mulheres. Abandonar a si mesmo acomete a ambos. Quantos homens deixam de ser caras divertidos, animados, brincalhões quando começam a namorar porque ela (provavelmente ariana – Fahya, pára) vê traição e suspeita em tudo? Quanto deixamos de nós, pelo outro? É o processo.

Ao ajustar os ponteiros acontecerá isso, fatalmente. Você deixará de ser um pouco do que era. Depois de sair de si para encarar o outro, você verá que algumas partes do teu eu não conviverão bem (de jeito nenhum) com o eu dele. Ninguém escapa disso. É o processo que fratura a tua vida estabelecida, dentro dos eixos, que seguia na boa. Sair de si é escolha, normalmente. Você pode ser a gata aí na pista, aberta às possibilidades e opções – está praticamente fora de si (sem trocadilhos), disposta a “conhecer novas pessoas” (eu morro com algumas expressões). Abandonar a si mesmo é menos escolha, parece que a gente vai perdendo aos poucos, vai se deixando levar (pelos sentimentos, e tal, aquelas coisas), mesmo quando toma certas decisões (ele não quer que você trabalhe e deixe o recém-nascido com um estranho, “não tem problema, amor, em uns dois anos você volta pra tua carreira”, e na hora você acha isso também).

Somos melhores juízes na hora de sair de si. Você pode ser um solteirão convicto (existe algum depois que o George Clooney casou?), nunca ter se interessado pelos descaminhos do amor. Ou você pode ter tido tua dose dessas coisas na vida e preferiu ficar quieta na tua. Sair de si em direção ao outro, repito, é horrível. (tem que estar muito cego de paixão louca pra não pensar assim – e depois que a cegueira passar hão de concordar comigo) Somos péssimos juízes entorpecidos quando se trata de abandonar a si mesmos. Dependendo da personalidade ou do caráter da pessoa a coisa pode ficar bem crítica (e perigosa). Tomem cuidado. É o processo.

Como deixamos os sentimentos de lado, na hora de escolher sair ou não de si mesmo é mais fácil pensar “ah, esse aí tem coisas que me agradam, bons costumes e tal, vale tentar”. Mas aí, minha amiga, esse aí pode não te satisfazer em quase nada. Nem te dar tesão, sei lá. Coisas a se levar em conta, sabe? A teoria está incompleta, obviamente. Ou você pode toda felizinha escolher sair de si mesma na direção de um cara que você já sabe que não vai ajustar ponteiro nenhum. Os sentimentos que te ajudem! Porque, o que eu sei, é que em todos os casos, se não pensar nisso antes, a vida te obrigará a dar de cara com os fatos. E os fatos são dolorosos em todos os amores. Eles não nos deixam passar incólumes.

Se você estiver disposto a apaixonar-se, pronto para esticar o braço para fora da bolha do teu mundinho, boa sorte. Não deixe, porém, a cabeça por último na bolha. Às vezes vale mesmo a pena, sou testemunha (o texto não prometeu ser imparcial). Se algo começar a puxar tua mão para fora da bolha e você “mas eu quero ficar aqui, escolhi isso”, o dilema é maior. Serão duas escolhas numa só. Quando eu descobrir mais sobre isso, prometo contar-lhes. Mas, por último, eu diria que nunca, jamais, em hipótese alguma, abandone a si mesmo. Por nada. Não tem amor digno que valha isso – por pior que você seja, inclusive.

A moça da história incompleta

Eu não sei bem as razões que nos levam a querer tantas explicações. Natural do ser humano, diriam. De uns tempos pra cá talvez eu tenha deixado de ser tão humana, então. Saber é um vício, ou um simples exercício, ou, ainda, problema de ególatras. Fui deixando de querer saber… Nem sei quando isso começou. Nem o “curiosidade mata” me impediu de ser uma criança que perguntava tudo, que queria saber de tudo, e que incomodava muito. Eu lia a Barsa da casa dos meus avós e a dos meus pais, por exemplo. Não tinha Google e era divertido. Lembro de me admirar “nossa, a Barsa tem tudo!”. E quem é que dá bola pra Barsa, Fahya?

Não sei porque sempre queremos saber – estaria eu, agora, querendo saber? Tivemos um colega na graduação de Filosofia, aluno mediano, envolveu-se com o mais morto que vivo centro acadêmico do curso (que, aliás, sempre me lembra de outra história – quem dera eu nem lembrasse mais), frequentava as festinhas do CFH. Não era amigo próximo, mas vez ou outra conversávamos entre a roda de amigos. Eis que um dia uma moça (não lembro se era caloura da Filosofia ou de outro curso) morreu no Campus no meio da madrugada. Digamos que foi uma história chocante na época. Nós sabíamos que os dois estavam juntos de vê-los pelos corredores (ah, se aqueles corredores falassem! – Deus queira que eu nunca os ouça) e o burburinho correu solto. Uma moça foi encontrada morta e os fatos eram nebulosos.

Lembro de ter visto na TV as imagens das câmeras. Foi depois de uma festinha no campus, um prédio novo em construção (da Química, se não me engano, atrás do estacionamento do centro de Direito e Sociais), os dois subiram as escadas – as câmeras mostraram tudo – e no alto, meio que num impulso, ela sobe o parapeito e cai – ou se joga. Além da comoção, lembro de ter ficado bem próxima da convicção de que ela havia se jogado, talvez um pouco inconsciente (sob efeito, talvez, sei lá do quê) das suas ações. Ele sumiu por algum tempo, nem sei se terminou o curso. Acho que fiquei, à época, um pouco obcecada pela história. Surgiram boatos de que eles haviam brigado e como os jornais gostam, deram o prato cheio da tragédia, não deram muita bola para as consequências e exposição dos envolvidos.

Até hoje eu não sei como terminou a história. Os amigos mais próximos dele também não tiveram muito contato, muitos de nós não queríamos julgá-lo. Ou seja, é uma história incompleta. E eu me descobri obcecada por histórias incompletas. Por isso mesmo que, esses dias, lembrei desta história e fiquei me perguntando o que teriam pensado ou sentido os pais da moça (não lembro o nome dela por nada deste mundo). Se o nosso colega, afinal, era culpado ou não. Ou, ainda, se existem culpados numa situação dessas.

Minha obsessão por histórias incompletas se vê até nos filmes e livros que abandono. Só semana passada foram uns quatro. Fiquei uns minutos imaginando como seriam os finais daquelas histórias – umas, aliás, de tão óbvias e quadradinhas, estou certa que não errei (redundante isso, não?). Quando alguém conta uma história, nós queremos ouvi-la toda. Se a pessoa interrompe a narrativa, ou se termina de contar sem ter um final, nos frustramos (ou ficamos revoltados). É essa sensação de completude sobre os fatos, os eventos e as narrativas que sacia as pessoas. E eu não sei bem quando foi que perdi isso…

O caso desta moça foi pouquíssimo tempo depois do meu irmão ter se suicidado. E foi bem naqueles dias que todo filme que eu ia assistir tinha, obviamente, um suicida. E foi quando eu não sabia mais se saber de tudo é tanto assim da natureza humana. E foram essas experiências que me fizeram mudar – apesar de ter, por algum tempo, me incomodado com histórias incompletas, se não por mim, pelos outros. Talvez as pessoas realmente precisem de explicações. Talvez elas precisem saber porquês, comos, quandos e ondes. Eu já sei que a vida é muito curta para perder tempo com filmes ruins e livros chatos. Ou com pessoas que não trazem alegrias pra tua vida – ou que você não pode fazê-las felizes.

Eu não lembro mesmo o nome da moça. Não sei se o nosso colega falou com os pais dela, quais foram as últimas palavras dela – para os pais faz diferença. Eu nunca dei meu apoio explícito a ele (ainda tenho cá guardada a convicção de que não houve culpados), mas lembro que deixei claro que não fiz julgamentos – e, naqueles (como em tantos outros) corredores, isso é raro. A história, vocês me desculpem, fica assim incompleta. (talvez um google aí os ajude, as Barsas certeza que não se atêm a essas minúcias da vida mundana – não somos nenhum Napoleão)

Ficções incompletas

Recentemente li Uma página de amor, do Zola. Que eu lembre, foi o meu primeiro Zola. Um crime, certamente, dirão os literatos. É engraçado isso, quando as pessoas esperam que eu já tenha assistido a todos os filmes do mundo, assim como lido todos os clássicos. Não. E sei que alguns desses só quando eu estiver velhinha, antes disso, sem chance (Joyce, estou falando com você). Fiquei muito apaixonada, mas mais ainda impressionada pela destreza do autor. Fico especialmente deleitada quando encontro um livro de literatura de ficção que ocupe meus pensamentos mais do que qualquer realidade. Lembro de uma época que, dentre mil leituras obrigatórias e nada ficcionais, perdi o interesse por obras de ficção, cada um que eu começava achava-o desinteressante. Lembro, inclusive, qual foi que me resgatou para a velha leitora de ficção que eu sempre havia sido: Areia Pesada, do Anatoli Ribakov, num distante Verão quando eu ainda virava noites insones (na cama, lendo, é claro).

Sábado à noite? Sempre virei a noite. Lendo. Ou assistindo filme, sozinha. Eu sei, as pessoas saem, vão pra balada e tal. Nunca me atraiu. E por um período, quando acordava de madrugada para estudar Kant (não consigo imaginar nada mais solitário, pois ele um solitário), quase abri mão da literatura de ficção. Mas como uma criatura como eu viveu sem a ficção? Desconfio da resposta, mas jamais saberemos.

Conheço pessoas que nunca leram um livro de ficção. E vivem bem, podem ter certeza. Com a minha dificuldade para viver no mundo real, por muito tempo não sabia como essas criaturas viviam. Morei muitos anos sozinha e não tinha percebido como, da porta de casa pra dentro, o meu mundo era ficção e só ficção. Eu chegava, tirava sapato e roupa, pegava comida e mergulhava na ficção. Telefone no silencioso e e-mail fechado, aliás. Quando deixei de morar sozinha percebi a diferença. Entro no quarto, fecho a porta, ligo a TV ou abro o livro (e ai de quem me interromper).

Conheço (muitas mais) pessoas que nunca leram um livro de Filosofia. E vivem melhor ainda, é certo que sim. Há quem diga que Filosofia é um outro tipo de ficção – inimigos até ela tem. Sempre impliquei com o uso que as outras áreas (do conhecimento) fazem da Filosofia. E vejo de perto como muita gente sequer teve boas aulas de Filosofia. Aos meus alunos eu frisava que era essencial que eles dominassem a sua Língua, soubessem escrever, ler e falar bem e corretamente. Defendia que desde cartas de amor até entrevistas de emprego dependem e muito do quanto você consegue se comunicar, expressar, compreender. Na sala de aula tive contato com casos assustadores do tal analfabetismo funcional (e também vi isso na graduação, colegas que mal sabiam ler e escrever). E como uma professora de Filosofia se faz entender e entende os seus alunos sem o uso correto e pertinente da Língua? Expus isso para algumas turmas e tornei-me uma professora de Português também, pois corrigia e ensinava. Uma das coisas mais tristes que já vivenciei: o aluno inteligente que sabia se expressar, mas tinha uma escrita péssima.

Um exemplo simples: assisti a um capítulo do X-Factor Brasil. A maioria esmagadora cantou em inglês (por vezes sofrível, por vezes incompreensível, todos covers de sotaques e entonações). E um ou dois falavam corretamente o Português. Acompanho o X-Factor UK e é muito raro você encontrar participante, mesmo que de recônditos do país, que fale errado. Uma amiga esses dias comentou sobre um rapaz bonitão da academia que mandou mensagem de Whatsapp pra ela (que quase o considerava o príncipe encantado): não havia uma única frase compreensível. E o cara é graduado em Engenharia (engenheiros, os eternos sonhos de consumo da mulherada), faz isso e aquilo, tem tal carro. Ela desanimou consideravelmente.

Eu sei, todo mundo comete erros. Errar é uma coisa, não dominar é outra. Estou quase terminando de lapidar a idéia de que na escola básica deveríamos aprender só Filosofia e Português. É o que basta para entender o mundo. Sem partido, obviamente, mas só no plano ideal, pois a escola é feita por seres humanos e, sim, somos incapazes de imparcialidade. Dominar Filosofia e o nosso idioma faria do mundo um lugar melhor – que mundo o que, se fizer o nosso país melhor está de bom tamanho. E o que a ficção tem a ver com isso?

Quando lemos um livro de literatura de ficção sabemos que é ficção, certo? Deixemos a discussão para o pessoal dos Estudos Literários. Mas, sim. Não precisamos comprovar a veracidade dos fatos. E, contra fatos não há argumentos. Fatos são fatos, mas nem jornalistas nem advogados conseguem ser fiéis a eles. Porque, como disse acima, são seres humanos. Esperar imparcialidade de um jornal é como esperar que eu saia para a balada, queridos. E talvez eu devesse ter começado o texto falando de como sinto falta de um crítico do nosso tempo. Alguém que pondere sobre pessoas que tiram dez selfies por dia (passo mal quando vejo a “selfie no carro”) e, sim, a publicam em redes sociais. Alguém que traga a discussão da ficção X realidade para as timelines do nosso dia a dia. Por que hoje construímos quem somos através de posts tão bem (ou nada) calculados? Por que eu preciso dizer onde estou, com quem e quando? Ou, pior, por que preciso publicar uma foto de um determinado lugar, quando não estou lá, mas para que pensem que estou? São tantos os casos… Ah, mas tem gente pensando sobre essas coisas. Tem, sim. Mas não se fazem mais filósofos como os dos séculos passados.

Os filósofos foram aquelas pessoas que pensavam o seu tempo. Quando você pega um texto atual sobre algum assunto e o cara desenterra um filósofo que se referia a um outro momento da humanidade, há alguns problemas evidentes. Muitos são os problemas, aliás. Enfim, a discussão é longa e, bem, se ainda hoje defendemos com unhas e dentes a Democracia, é sinal de que a poeira do tempo desceu sobre nossos olhos.

Na Literatura, criticam muito os Naturalistas. Como se fossem autores de “obras menores”. E não sei de onde eu gosto tanto deles – apesar de, confesso, já ter pulado ou lido distraída as eternas páginas descritivas de paisagens. Neste livro do Zola, por exemplo, eu me transportava para Paris vista da janela da protagonista – nunca pisei em Paris e tenho uma memória imagética fraca da cidade, pois além da Torre Eiffel são poucas as referências. Um dia quero ir a Paris e não fotografar a Torre. Pois bem, poucos livros de ficção que eu li alcançaram uma veracidade em sensações como A Carne, do Julio Ribeiro. (pulei algumas páginas eternas das cartas, se não me engano? Sim.) A ficção vai mudando seus padrões e convenções, coitado do escritor que hoje se debruçar a esmiuçar o vôo de uma borboleta. Ou um diretor que esculpa o tempo como Tarkovski. E todos têm suas políticas a exibir mascaradamente.

Então, entendemos que o mundo é real (Platão discordaria) e o resto é ficção. Ficção mesmo, queridos, são meus sonhos dormindo. Todo o resto pode ser bem real. Mas, a falha que há ao compreendermos o mundo (a falta da Filosofia, do domínio da Língua) nos afasta do mundo da ficção que nos faria, por sua vez, compreender melhor as relações humanas, o mundo e suas traquinagens. Eis aí o megassucesso de filmes de super-heróis e afins, inclusive (argumento em processo). Mesmo na ficção há “níveis”, pois há a ficção engajada, a que traduz visões e sensações e sentimentos, há a ficção de puro entretenimento, etc.. Passei muito tempo abraçada à certeza de que a ficção era meu “mundo paralelo”. E de fato é quando leio A Carícia do Vento ou A Máquina do Amor (sim, foi ontem que me corroí de vontade de lê-lo novamente de novo mais uma vez e RESISTI bravamente pois ocupadíssima com coisas importantes – não sei se resistirei na próxima vez). Porém, sempre cito aqui filmes e séries, por exemplo, que desencadeiam reflexões e críticas, que fazem pensar sobre nosso modo de agir e tal. Não são exclusivamente um mundo paralelo para onde fujo. Esta, aliás, minha grande briga sobre as novelas de televisão, sempre desprezadas como obra artística e social, são grandes intérpretes de sociedades e pensamentos (brigarei toda vez que alguém quiser falar mal de novela).

Julgo que a ficção nos diz muito mais do que a realidade. Pobre daquele que vive na veracidade dos fatos. O documentário que acompanhou o impeachment da Dilma nos dirá mais ou menos do que se uma farsa fosse escrita, cheia de metáforas e hipérboles? (está aí essa febre chata de memes que apoia meu argumento) Saí do convívio com os historiadores ainda mais (muito mais…) crente de que as narrativas, as imagens, os discursos ficcionais servem mais à humanidade do que o sempre incompleto cientificismo deles. Sem jamais ignorar: somos seres humanos, com visões restritas, interpretações limitadas, e não lemos todos os livros do mundo, né?

O que, afinal, eu queria dizer? Nada, necessariamente. São pensamentos incompletos de quem está imersa num mundinho paralelo de novas e deliciosas reflexões. De quem está com um filme desenho animado de animais que falam e pensam e se pergunta: por que eu vou assistir isso? (desenvolvi uma dificuldade com filmes de bichos humanizados, desculpa) De quem tem pouco tempo para fazer muita coisa, daquelas importantes para a tal vida real, mas prefere parar para pensar e escrever – e depois se torturar que tem coisas por fazer. Tenho tempo pra tudo. Talvez até para reler A Máquina do Amor. Amanhã à noite, quem sabe.

* não quero usar mais a palavra “selfie”; usei-a para otimizar a compreensão do texto.

* não citei os filmes catárticos com a Keira Knightley nem as duas séries que assisti de uma vez só e me fizeram crer que o mundo “real” nem existia – sempre uma dificuldade e inconformidade a parte voltar destes mundos. Assunto mal resolvido por aqui. (rindo muito)

* talvez, apenas talvez, na próxima eu me atenha a refletir sobre o mundo da veracidade, porque enquanto ele for essa coisa que vocês pensam que é una, que existe A verdade, e o pessoal deveria ser imparcial está difícil.

* talvez, apenas talvez, eu ainda fale dessa coisa de achar que escritor escreve o que lhe vai pelo coração, acreditar em dom e inspiração e tals; pensei nisso antes de escrever, mas ficou de fora; como eu disse, pensamentos incompletos (ainda). Era isso, aliás, que eu queria usar para justificar a mudança de blog para site. Fica para uma próxima. Apenas uma preocupação conceitual.

:)
🙂

Ao pesar a bagagem

Todo mundo tem uma bagagem. Talvez importe mais, quando a gente olha pra si mesmo, o que deixamos fora da bagagem. É bem bonito o sentimento pequeno príncipe de ir leve e alegremente, mas quem vive não consegue. Tem a bagagem material e a sentimental. Acumular demais pode ser um problema para a primeira, e pode tornar-se um caos para a segunda. Adolescente já quer ter todos os sentimentos do mundo. Depois aprendemos que não é bem assim. Tem aqueles que chegam aos sessenta e nem sentiram nada do tudo que há para sentir. Viver não é para qualquer um, é preciso dar a cara a tapa.

Foi num diálogo simplório de uma série, o pai aconselhava a filha sobre o cara com quem ela estava saindo. O pai questionava o que ela sabia sobre o cara, qual era “a bagagem” dele. E não é sempre um mistério? Eu me agarro à idéia de que é melhor não conhecer as bagagens alheias. Todo mundo é sempre tão complicado – e aí basta a nossa bagagem complicada. Quando alguém chega na tua vida, ele não precisa ir abrindo as malas, espalhando a bagagem pela tua sala de visita. A idéia parece assustadora. E ali pelo meio da bagunça tem uma coisa ou outra que vão te dando pistas sobre toda aquela bagagem que ele preferiu não colocar dentro dos baús e das malas. (sim, porque tem baús também, é o que acontece, às vezes…) Leva mais tempo para descobrir o que ficou de fora. Porque só carregamos conosco aquilo que queremos que os outros saibam que temos. O resto a gente esconde. E tem coisas que é melhor esconder muito bem.

Desconfie de quem traz consigo pouco ou quase nada. Ou não viveu, ou esconde tanta coisa que decidiu seguir assim, à la principito. Sabe quando você faz uma viagem sozinha? E, claro, compra mil coisas, malas enormes, ao entrar e sair de avião, ônibus, táxi, se quebra toda pra colocar e tirar tudo, carregar carrinhos e tal? Então, dá trabalho. Se você for eu, paga mico, certeza. Conta com a colaboração, auxílio e presteza de pessoas maravilhosas que encontra pelo caminho – porque pessoas de bom coração vêem que você não consegue carregar tudo sozinha. Mas você não esmorece, não joga os bibelôs fora, não abandona aquela bolsa maravilhosa, não deixa a camiseta de lembrancinha pro teu pai. Às vezes você terá a sorte linda de poder contar com alguém para aliviar o peso, na maior parte do tempo, não. Porque você sabe que aquela é a tua bagagem – e cada um tem a sua.

Quem vai deixando as lembrancinhas pelo caminho é um fraco. Prefere o vazio (aqui vos fala quem não suporta nem paredes vazias). Quem leva o tanto de bagagem que consegue suportar no limite do esforço é um medroso – não confia nem no próprio taco para arcar com a própria vida. Porém, quem carrega excesso de bagagem (paga aquela taxa absurda das companhias aéreas: sempre lembrar, Fahya) morre soterrado sob ela – o ar não renova e vai sufocando, sufocando… É preciso carregar aquela bagagem que você precisa curvar um pouquinho a coluna, sentir os músculos do braço um tantinho estirados, fazer uma força extra ao agachar e levantá-la. E é preciso, também, saber que há dias que a vida pede só uma mochila – e nada, nada, nada mais.

Foi esses dias que o mp3 tocou três vezes My Way. Tenho algumas canções do Frank Sinatra, evidente. Juro que quando tocou a terceira vez eu pensei: é hoje que eu morro, só pode, And now, the end is near And so I face the final curtain, tanto a cigana quanto meus pressentimentos estavam errados, morrerei jovem antes de fazer tudo o que quero. Ela foi a primeira música (o correto é canção, mas não perco velhos hábitos) do dia, assim que saí pelo portão na manhã fria e ensolarada. Ia a caminho de uma coisa muito boa, daquelas que enchem a bagagem, a cabeça, a alma. E mais um passo nessa sinuosa tempestade que é cumprir os sonhos. Caminhei pensando que era um bom começo de dia (que se mostrava promissor), lembrei, como sempre, do Coutinho.

E ela tocou novamente pela hora do almoço. Ia seguindo alegremente, contente comigo mesma (essa mania nunca perderei). Porque podem dizer que eu penso demais, mas que eu acerto naquilo que quero, ah!, acerto!. Talvez nessa hora eu não tenha dado muita atenção. Andava distraída (esqueci quatro coisas, nunca me acontece, estava totalmente no mundo da lua), observando as pessoas, as construções, os sons, o mundo. Sem rumo, com horário. Quando me decidi pelo cachorro quente me satisfiz com a lanchonete quase vazia, a moça iniciante no trabalho, os ônibus que passavam na rua, repensava as últimas besteiras que tinha feito. Estava feliz e queria comemorar. Então comemorei.

Eis que estou na estrada quando ela tocou pela terceira vez. Bem, aí me ocorreu a idéia da morte e I’ve lived a live that’s full I’ve traveled each and every highway And more, much more than this I did it my way. Parece coisa de arrogante o tal I did it my way. E é. Precisa ser teimoso e arrogante para decidir o que quer colocar na bagagem. Não cabe discussão. Não há tempo para ouvir o outro. E, muito menos, colocar as cartas na mesa. Nem todos os dias são floridos, nem toda chuva é suspirante.

Pensei comigo que não seria um bom dia para morrer. Pô, logo agora! Tenho umas datas aí para esperar, uns compromissos para cumprir, umas mensagens para responder. Se fosse agora, fazer o quê. Mas, né, bem no meio dessas alegrias e tensões onde me meti? Medo da morte?, pois: I faced it all and I stood tall And did it my way. Já encarei coisas piores. Ali no meio da estrada, com uma bolsa apenas de bagagem, a alma transbordando e talvez até disposta a dividir o peso (dá vontade, mas passa), Regrets I’ve had a few But then again, to few to mention que a vida é longa e sempre tive esse orgulho besta de não me arrepender de nada – talvez alguns pequenos, bobos e insinceros, ou apenas um: que me valeria a vida inteira. Não, não seria o meu dia.

Não terminei ainda de encher os baús. A coluna me dói um pouco – por isso sei que estou certa. Dói dia sim, dia não. E talvez eu fale disso um dia, o mais provável é que eu nunca chegue aqui, ou na tua sala de visita, abrindo as malas e baús – porque os outros olham pra nossa bagagem com a cara de “hein?”. Parece que estou na estrada há tão pouco tempo e pasmo ao lembrar que já tive que me livrar de algumas bagagens pelo caminho. Hoje não conseguiria mais carregá-las todas. O que eu trago comigo é tudo aquilo que preciso para ser quem sou (e quem serei?) For what is a man, what has he got? If not himself, then he has naught.

Sem alarme, sobrevivi. Quem sabe foi alguma pane no mp3. Ou uma mensagem para que eu parasse e pensasse na vida. Ou não foi nada, Fahya, deixa de bobagem. Bem, me deixa que eu gosto das bobagens da vida. Não pesam em nada na bagagem.

Olhos abertos de tanto amar

Dizem lá a sabedoria popular e as canções que o amor é cego, que quando a gente ama esquece que já sofreu um dia, e afins. Amar é não ver, mesmo. Aí vem aquele pessoal mais romântico (no sentido teórico) e não nos deixa esquecer que o ato de amar e a ilusão não se desgrudam. Poderia até acrescentar os da turma do “amar é sofrer” (porque, é claro, tem a ilusão e a cegueira aí no meio).

Diria que estão todos corretos – sabedoria popular, amor coisa milenar, quem sou eu para discordar ou querer dar aval. Eu amo meus bichos, a despeito de um destruir tudo o que vê, o outro revirar o lixo reciclável, a outra fazer xixi em qualquer lugar e tal. A gente ama e não quer saber dos defeitos, do quão as atitudes do outro nos incomodam, do trabalho e irritação que o convívio traz. Porque, enfim, “amor igual não há”. Ou algum outro verso semelhante. E dá pra amar e ser realista ao mesmo tempo (ou de vez em quando)? Não deve dar, pelo que sei. A realidade vai conspurcando o amor, vai por mim. A ilusão deve ser mantida, alimentada, exaltada. Iludir-se faz bem, é mais recomendado, aliás, para o bem viver do que a poesia.

É assim que o povo prefere viver, com doses cavalares de ilusão. E quem seria eu para discordar dos não dependentes de drogas (de todos os tipos)? Uma chata, porque eu discordo, obviamente. (senão não teria motivo para escrever estas linhas) Então digamos que o amor e a realidade não podem conviver pacificamente. Porque a realidade demanda olhos abertos, coração forte e pulso firme. Ou seja, dá trabalho. E é como falam da TV, depois de um dia excruciante no trabalho, de engolir sapo no trânsito e do patrão, a gente quer é sentar no sofá e esquecer o mundo (vale a abertura pirotécnica e vazia de uma Olimpíada, a novela das nove com mocinha chorosa, a série sensacional enlatada – em doses cavalares de ilusão, como diriam desde Adorno até os intelectuais de quinto mundo). A gente assiste a tudo isso como faz de conta que não se incomoda com descobrir que o cônjuge está bisbilhotando nossas conversas de Whatsapp.

Sempre fui muito criticada por ser… muito crítica. Um disparate evidente! (não o fato de eu ser crítica, mas de me criticarem por isso) Mas o texto não é sobre a Fahya. É sobre essa gente que ama, o que ou quem, e não quer abrir os olhos aos problemas e defeitos do objeto amado. Eu não me importo com o que/quem vocês amam (apesar de ter muita dificuldade em compreender alguns casos), mas fico, às vezes, estarrecida com a cegueira (aquela do começo do texto).

Eu amo praia e entendo quando os que não a amam se referem ao desconforto da areia comentário censurado e como a pele fica pegajosa depois do banho de mar. Ao contrário de quem ama cerveja e não reconhece que ela é azeda. Como existem pessoas que não gostam de praia, existem pessoas que não gostam de cerveja (três frases advogando em causa própria). Talvez amar seja uma balança onde a gente vai pesando e sobrepesando os prazeres e desgostos – cheguei agora a essa conclusão, e, quem sabe, poderia terminar o texto aqui. Porém, essencial é que tenhamos consciência dos prazeres e desgostos, não?

Vejamos um exemplo que muito me agrada. O cidadão joinvilense. Se você (o que eu duvido muito, então o exemplo seria “eu”) faz alguma crítica à cidade (ou Colônia, que fica mais próximo da realidade) dirão que é “falar mal” dela. O cidadão que exige e crítica, aponta incoerências e defeitos, deixa, imediatamente, de ser cidadão e torna-se alguém infeliz, insatisfeito, que só sabe falar mal de tudo (como se precisasse ser assim para arrepiar-se com a cidade). Repare, inclusive, nos jornais locais. Não há uma página de cobrança ou crítica, justo o contrário, muito fazem propaganda explícita para tentar convencer os cidadãos de que as merdas comentário não censurado são perfeitamente justificáveis e boas para a cidade. A despeito do que o cidadão vive, vivencia, sente na pele, ele precisa ser convencido de que aquilo é bom, para o bem dele. E ai de quem disser o contrário – esse aí é só um infeliz, nem joinvilense é, está de mal com a vida.

Cidades têm problemas. Cidades são bem ou mal geridas – em vários graus. Pessoas têm defeitos, agem bem ou mal, têm qualidades. Você pode amá-las, daí a querer fechar os olhos para a parte ruim, imagino que “todo amor que houver nessa vida” não bastará. Talvez a mediocridade (uma das minhas críticas, inclusive, à cidade) não perceba a diferença entre “criticar” e “falar mal” – sei bem como é difícil enfiar isso nas cabecinhas numa sala de aula de Filosofia. O senso comum é pai da mediocridade. Mais medíocre ainda é quem, com a capa falsa da crítica, diz que se você fala mal (rá!), então que faça melhor.

Você pode preferir amar cegamente – quem sou eu para impedir quem quer que seja de fazer o que bem entende – e exigirá que respeitem este amor. Na mesma mão eu vou continuar criticando. Porque não há amor maior no mundo do que o meu por analisar e criticar. Jogo até o argumento invencível do “nasci assim”. Pode perguntar por aí, ninguém nunca soube da Fahya sem ser assim. Então toda esta página e pouco foi para me justificar?

Não. Talvez eu quisesse apenas refletir sobre o amor. Ou sobre a realidade, quem sabe. Porque eu acredito muito que é preciso ter consciência sobre o que fazemos, sentimos, pensamos, queremos. E a ilusão é a serpente do paraíso que nos fisga a não adentrarmos às portas da consciência. Você pode amar o seu marido, daí a querer defender que ele não é um cafajeste e mau-caráter é outra coisa. Você pode amar e defender até a morte a sua mãe, daí a não reconhecer que ela é uma pilantra e mentirosa é outra coisa. (até a mãe entra nessa, viu?) é como ver um filmão, daqueles lindos, emocionantes e que são vazios.

Eu gosto muito do exemplo do cidadão joinvilense (pra você que me lê e não o conhece, não perca a oportunidade). Porque ele fica feliz com vinte minutos a menos no trajeto de ônibus pra casa, enquanto não está nem aí que fizeram mudanças absurdas em prol de ninguém menos que os empresários do transporte público. Porque ele não acha ruim a vocação industrial da cidade, enquanto tantas outras iniciativas e idéias são soterradas. Aliás, o pensamento, de modo geral, é soterrado numa cidade que nunca deu prioridade à educação. E, vocês lembram daquela máxima, se o povo não é educado, não conhecerá seus direitos, não será crítico (!) e não fará cobranças. Mas eles amam Joinville, com o Cachoeira podre, o JEC jogando mal, as enchentes periódicas, o asfalto ruim, a precariedade das universidades, a falta de acesso e valorização da cultura e formação de público, o pensamento limitado, o descaso com o meio-ambiente, a falta de leitos, a dependência pelas capitais próximas, o abandono dos espaços públicos, etc etc etc porque a consideram o melhor dos mundos. E trocam o sofá pelo banquinho desconfortável do bar da moda com um caneco de chope na mão. Porque todos temos direito às ilusões que quisermos.

Talvez eu já tenha dito aqui que jamais serei uma cidadã joinvilense (o que agradaria a muitos). Talvez exista um obstáculo intransponível, pois Joinville virou as costas para o mar e voltou seus olhos para a cerveja (uma piscadinha marota). Mas não é só o cidadão joinvilense que ama, viu? É só porque eu amo o exemplo. Repare bem e verá inúmeros amantes cegos ao seu redor. Amar de olhos abertos é uma experiência para poucos. Enquanto durar a vida, eu aconselharia maneirar nas pílulas de ilusão – mas quem sou eu para dar conselhos?! “Porque el amor cuando no muere mata” e as ilusões envenenam. Quando quiser abrir os olhos, talvez seja tarde demais…

As certezas dos outros

Eu estranho quem tem muitas certezas. Quem tem todas as certezas, então, me assusta. A pessoa tem certeza que ama o cônjuge. O cara tem certeza de que está na profissão certa. Os pais têm certeza que deram a melhor educação para os filhos. Não sei o que há de errado com as dúvidas. Parece uma fraqueza, uma inconsistência na vida, tê-las. Eu as tenho em enorme quantidade, queria lhes dizer.

Por isso mesmo sempre usei muito o “será?”. O que, aliás, me rendeu desastres em relacionamentos interpessoais. Quando alguém afirmava alguma coisa, bradava suas certezas, suas hipóteses, eu – por preguiça de discutir o assunto, ou por vontade de (precisando ou não) instigar a pessoa a refletir, ou por questionamento puro e simples (bom não perder a prática) – lançava um solícito “será?”. Deixei-o cair em desuso porque as pessoas tornaram-se agressivas, irritavam-se com a expressão da minha dúvida. As pessoas não sabem viver com dúvidas. Elas precisam das certezas mentirosas para acreditar na vida que levam.

Senão, vejam vocês, por que continuar casada com alguém que você não tem certeza que ama? Por que continuar crendo no Deus e nas doutrinas que você não tem certeza que existem? Parece sem sentido. Parece inútil ou inseguro. E as pessoas precisam de segurança. Mais vale uma certeza vazia do que uma dúvida bem construída. Pois eu prefiro, ainda, as dúvidas.

Depois de abandonar o “será?”, adotei recentemente o “talvez”. Nada mais divertido e apaixonante para instigar as dúvidas. As pessoas, diante de um “talvez” jogado na cara, calam-se. Fica fácil, assim, ver qualquer certeza precária desmoronar diante dos nossos olhos. É mais angustiante do que o “você está certo disso?” do Show do Milhão. Falando assim parece abstrato, mas quando alguém aparecer com alguma certeza, diga-lhe um mero “talvez você não saiba do que está falando”. Se der tempo, você verá os olhos arregalados, a boca aberta, aprecie o silêncio. As certezas são falantes e fofoqueiras. Ah, as dúvidas calam! (eu, particularmente, que já não sou grande fã de pessoas, admiro quando ficam em silêncio)

Pode ser que seja influência da Filosofia, admito. Porém, vejam só, a Filosofia constrói-se sobre dúvidas. Você só alcança algum conhecimento porque questionou ou duvidou de algo. No entanto, fato triste da realidade, o estudo da Filosofia descaracteriza as pessoas que nela entraram, por ela se apaixonaram. Em pouco tempo o academicismo dominante as faz ter todas as certezas do mundo. Elas têm certeza do que Heidegger quis dizer, o que Sartre pensou e até o que Schopenhauer sentiu. E ai de você se duvidar de alguma das certezas delas. Chega um ponto na vida dos amantes da Filosofia que eles esquecem o que foi que ensejou aquele amor – como acontece nos casamentos. Eu poderia criticar muita coisa sobre o academicismo, mas a ausência de dúvidas é, em si, o suficiente para desmoralizá-lo. E, sabemos, não é só na Filosofia. Isso acontece na maior parte (em todas, será?) das áreas. O mais conceituado exponencial da sua área é aquele cara que tem todas as certezas do mundo, convidado para palestras, eventos, plateias concorridíssimas. Nunca vi um cara desses chegar dizendo “não sei” ou “talvez não seja assim”. A dúvida, meus queridos, não faz sucesso. Garanto-lhes.

Ah, mas as certezas são necessárias, inclusive nas Ciências. Sim. Mas não se chega a nenhuma certeza a partir de outra, na raiz há sempre as dúvidas. A pessoa que tem dúvidas é considerada incapaz, fraca, titubeante, mas só pelo senso comum – para o qual não há espaço aqui. Em muitas discussões eu já lancei “ó, não sei”. Eu posso até agir, tomar uma decisão, mas deixo claro que, porém, não há uma certeza na correção ou exatidão daquilo. A pessoa que duvida não necessariamente é uma pessoa sem atitudes. Ocorre que ela as toma ciente da incerteza do que faz. Eu temo quem só toma atitudes das quais tem plena certeza.

Ninguém gosta de que duvidem de si. Eu, como não acredito nem confio em ninguém, tenho meu salvo-conduto. Eu vou duvidar de você, sempre. Você pode se declarar, vou achar bonitinho e tal, mas ali no canto estará presente o “será?”. Eu não tenho problema com isso, mas os outros têm. Você só pode ser alguém muito arrogante para achar impossível que duvidem de você. Deixe que duvidem, corra o risco de acharem alguém muito melhor do que você mesmo acredita que é. Vai por mim.

A dúvida aguça os sentidos. Duvidar de tudo e de todos o tempo todo mantém a atenção alerta. A dúvida amortece a queda. Duvidar, nos piores momentos, te conforta. Quando aquele cara que te amava tanto bater a porta e nunca mais voltar, você vai lembrar daquelas vezes que duvidou de tanto amor, tanta foto postada nas redes sociais, tantas declarações em público e dos buquês de flores – e vai dizer pra si mesma, “bem que eu duvidei”. Porque duvidar não é o mesmo que não acreditar. Vocês sabem, é claro.

Não importa a estratégia que eu use ou que eu tente amenizar as expressões de dúvida, ninguém gosta que eu duvide ou questione as suas certezas. Ninguém. E eu acho a dúvida tão bonita! Ela é tão construtiva. Ela mantém o coração batendo forte. Ela faz olhar pra vida com mais paixão. Porque com dúvidas você encontra mil possibilidades mundo afora, as certezas te limitam. As pessoas gostam mesmo de ter certeza que estão certas, que suas pregações são as corretas, que suas vidas estão no caminho certo. Elas esmorecerão se duvidarem disso. Simples assim. A dúvida, meus queridos, é para os fortes. Acho curioso, não estranho, quem cospe a certeza de ter votado no melhor candidato das últimas eleições, de ter feito as melhores escolhas, de ter os princípios mais coerentes. Sabe aquela pessoa que tem em si a certeza de só professar e praticar verdades absolutas? Jamais as entenderei. Acho curioso porque me pergunto se ninguém nunca lhes jogou um “será?” na cara. Caso fosse feito, talvez (rá!) estivessem sentadas no meio-fio até agora, banhadas em arrependimento. Repito: jamais as entenderei. Porque quem não percebe o quão sedutora é uma dúvida, não terá minha empatia. Jamais.

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