Adormeço II

Vem o frio

o tempo se desmancha

em janelas abertas

 

É férias

trouxeste malas

e um casaco

 

O trem

deixou a estação

rumo ao nosso coração

 

Peço ao ponteiro

“pare!” feito

chuva congelada

 

Na serra há geada

e na segunda

nós no sofá

quando, por fim

eu adormeço

no teu colo

A vida na cidade

Eu sentia a cidade diferente. Faltava algo por ali. Vida. Havia pessoas, sem dúvida. Havia árvores, também. Mas algo faltava… no ar, quem sabe, não era Primavera, as flores não perfumavam as esquinas. Ainda não era isso. A cidade nem crescera, nem chovia menos. Prometo não entrar naquele papo de “quem mudou fui eu”. O cheiro ruim das fábricas também era velho conhecido – desconfio que jamais mudaria. Lojas que fecharam e outras que abriram no seu lugar. Era outra coisa…

Eu vinha do interior. As cidades tinham vida, os olhares se cruzavam pelas ruas. Acenos de cabeça a desconhecidos. A lanchonete oferecendo sopa àquela hora da noite, única de portas abertas no frio que arrasava esta terra. Um velhinho tarrafeava próximo ao píer, num repetir de gesto e vazios entre fios. Nada de peixes. As igrejas e seus sinos. Os alambiques no silêncio abençoado. O vento arrebatava os topos das árvores. Nós parávamos para contemplar o entardecer.

Agora eu percebia a diferença. Os cachorros e gatos pelas ruas. Eles se espreguiçavam pelas praças, nos seguiam abanando o rabo com aquele olhar cobiçoso ao nosso sanduíche. Os gatos, nas manhãs de domingo, preguiçosamente lambiam as patas sobre os muros. As crianças, nos dias de calor, gargalhavam entre guapecas e mangueiras esfuziantes de água fria. Era essa vida.

A cidade grande civilizara-se. Agora preocupávamos com tudo – e todos, claro. Todas as nossas mazelas deveriam ser superadas – ou devidamente escondidas das nossas vistas. Os cães agora dormiam em caminhas confortáveis, cheios de cobertas e brinquedos, e comiam sentados às mesas com seus tutores. Tutores, pois dono é quem possui algo ou alguém, o que não é o caso, agora os seres humanos civilizados apenas tutoram a vida dos animais. Me perguntei: se o cachorro quisesse partir, então seu tutor deveria deixá-lo. Certo?

Na cidade grande ainda havia outro tipo de vida. Eram essas pessoas que vagavam pelas ruas e dormiam sobre papelões. Era uma vida que não precisava de tutoria. E era uma vida que mortificava a vista do entorno. Não dava vida.

Eu sentia a cidade sem a vida que se criava ao rés das possibilidades. Observava como havia poucos cães e gatos a olhar pelos portões – mas muitas janelas de prédios com redes. Eu passava pelas casas ansiando vê-los agora bem alimentados, felizes, de banho tomado (toda semana no pet shop, é claro), e atrás dos muros e grades e portões a correr pelos gramados. Eu imaginava como era perder a liberdade. Sair da rua direto para um apartamento de um quarto espremido entre milhares de outros apartamentos assim diminutos. Ou, quem sabe, para o canteiro minúsculo de um geminado. Eu ouvia latidos e choramingos de segunda a sexta, das oito da manhã às seis e meia da tarde.

A vida da cidade agora residia sob roupinhas engraçadas e lacinhos dourados a dormitar sobre sofás, estressada a correr atrás do próprio rabo e condenados a dermatites sem cura.

O minuto

Era um minuto. Aquele um minuto que não faria diferença nenhuma. Mas, você sabe, é o minuto que transforma a pontualidade no atraso. E atrasos são mal vistos. Atrasos são descontados. Eu tinha me tornado aquela pessoa que vivia de contar minutos, na minha vida eles faziam toda a diferença. Comprovei, naquele instante, que eu era agora essa pessoa que xinga no trânsito porque saiu dois minutos atrasada e se perder um sinal aberto parecerá o fim do mundo. Eu, eu tinha me transformado em quem eu nunca quis ser. Tinha alguns minutos para resolver: ou me odiaria para o resto da vida ou mudaria tudo agora.

O tempo e eu sempre fomos amigos, bons amigos. O transcorrer diário dele, inicialmente, era um problema. Mas até nisso consegui me dar bem. Eu não me importava com ele. Vivíamos bem. E começamos a ser escravos um do outro. Comecei a vender meu tempo. Comecei a ficar sem tempo. As linhas da agenda sempre escassas para tanto compromisso marcado, remarcado e acumulados. De amigos passamos àquelas duas pessoas que convivem próximas diariamente e não se suportam. Nem nos olhamos direito. É evidente, me odiarei para o resto da vida caso não faça nada a respeito, caso não façamos as pazes.

Minha maior vitória, por vezes, é num dia ter este tempo sagrado para duelar idéias. É ter o tempo sagrado de algumas páginas à luz do abajur no silêncio das cobertas antes de dormir – que nem o sono mais tem sido meu refúgio. Essa inimizade tem me custado horas de sonhos. Eu trocaria alegremente alguns dias inteiros por meia hora dos meus sonhos. Eu não queria ser a pessoa em quem eu me transformei.

Foi, então, naquele minuto, que decidi que precisava fazer alguma coisa – por mim. O tempo era meu amigo, continuaria sendo. Precisava dar um jeito. E foi quando me dei conta que eu tinha me transformado naquela pessoa que diz “pelo preço deste creme só se me deixar com a pele da Elisabeth Taylor”. Foi assim mesmo, na sequência. Eu era a pessoa que eu odiava. Que nunca tinha tempo e achava tudo caro. A vida, enfim, desse tal capitalismo selvagem resume-se à falta de tempo e ao dinheiro contado. Tudo resume-se a tempo e dinheiro. Eu sou quem eu odiaria pro resto da vida: em busca de tempo e dinheiro.

Estou presa neste instante. Seguirei sendo quem odiarei para o resto da vida ou há alguma saída, algum caminho que não me faça ser quem eu nunca quis ser? Há, ainda, ao meu alcance uma decisão que mude as consequências dos fatos? Posso viver com tempo e sem dinheiro?

Estou presa neste instante. No momento só odeio quem eu sou. Vejo no horizonte: ou ficarei indiferente ou a revolução se fará.

Adormeço

Enlevo se dá

na alma do

bem-te-vi

ao acordar

 

prevenidas

formigas

carregam folhas

ao ninho

 

Chovia

pela manhã

e na minha janela

o sol se estendia

 

O gato

desesperado

cantarola

o seu miado

 

Lua cheia

no sábado

quando, por fim

eu adormeço

no teu ombro

Arrumarei a mala

Hoje eu arrumarei a mala. Já é tarde, veja, a noite desceu seus braços gélidos sobre nós e nos arrasta na escuridão. É bom andar pelas ruas no inverno, eu gosto. Mas, hoje, eu queria ir ao inferno. Dizem que lá faz calor. Arrumarei a mala para ir ao teu encontro. O dia pesa, o cansaço mortifica, a rotina sangra e os problemas perfilam-se diante da porta. Deixarei, prometo, tudo isso fora da bagagem. Irei leve. Arrumarei a mala com meu sorriso e uns vestidos: se fizer frio, terás que me esquentar.

Arrumarei a mala. Está decidido. Pegarei o rumo das nossas alegrias. Quero tanto te ver sorrir. Me dividirei em três – quatro, quem sabe – para mandar cada uma de mim a todos os compromissos e obrigações e pegarei a estrada rumo ao teu endereço. Quero estar junto. Quero te dizer saltitante “olha a lua!” no meio da tarde. Quero suspirar ao pé do teu ouvido “que luz linda tem o sol do inverno…”. Quero, porém, ir longe. Quero aprofundar os nós que nos unem e desatar as nódoas com que a distância nos surpreendeu. Quero encher a mala com lembranças de cumplicidades à beira-mar e gargalhadas no sofá – me prometa que nada disso faltará e irei ainda mais cedo. Levarei num cantinho da mala um bilhete laranja para esconder sob a dobra da colcha no dia da despedida – porque, inevitavelmente, ela chegará. Viver sem teu abraço é um desperdício de dias… nossos “até breve” contêm a imensidão de um amor que conta dias, horas, tardes e sábados.

Arrumarei a mala agora e chegarei assim de surpresa. Eu sei que você gosta. Arrumarei a mala com as certezas de uma vida inteira e dúvidas de um dia sem sol. Arrumarei a mala com a ânsia de quem sequer precisa dela, é vontade e partir e te ver. Arrumarei com a pressa de quem tardou em dizer que não quer mais o tempo entre nós. Quem sabe eu leve um livro para ler em voz alta nos nossos momentos só nossos. Arrumarei a mala com dezenas de angústias do passado que quero afogá-las no rio que margeia o porto, que a maré as leve para nunca mais.

Arrumarei a mala, com cuidado enrolarei num cachecol meu coração, vívido de esperanças coloridas a querer dar-se a quem o aceitou. Arrumarei a mala para ir ao teu encontro. Arrumarei a mala nas últimas horas que me restam do dia. Que dias sem ti vazios se esvaem em friezas.

Infinita bondade

Afago o olhar

de tua infinita bondade

sobre nossas almas

 

Resplandece o mar

em desabitar

meus pensamentos

 

Encharcam-se teus pés

de dúvidas e lamentos

após a dolorosa oração

 

Ao fim do dia

pronuncias em ladainha

a correr-te os dedos

pelo terço

 

A noite sequestra

parcas esperanças

doces alegrias

e tantas confianças

 

Brilha o céu sob cerração

corto caminho

a tatear lembranças

 

Gorjeiam o dia

atiçando volúpias

amarradas em minhas mãos

 

Lava-te os temores

na chuva intensa

de um fim de semana

Reclamar é um vício

Com licença, tudo bem? Desculpe-me por incomodar. Eu vim só reclamar de quem reclama. É que não aguento mais. Como vocês conseguem – reclamar de tudo, o tempo todo? Reclamadores de plantão. Ganham dindin pra isso? Porque, só pode. Não quero crer que reclamam de graça, estariam ricos! Mas eu não aguento mais. Primeiro tentei ignorar, assim, de boa, com meu sorriso de sempre no rosto e um comentário ou outro a fugir do assunto. Depois, mantive o sorriso, preferi deixar passar, fiz que não ouvi. Agora não tem mais condições.

Primeiro achei que a pessoa estava num dia ruim, sei lá, aquela dor de cabeça, uma noite mal dormida, alguém doente na família. Mas, aí, como explicar tanta gente tendo o mesmo dia ruim? Todos do mesmo signo, quem sabe. Depois achei que era o ambiente, pô, ninguém quer trabalhar sábado à tarde, ou, sei lá, a pessoa está nessa profissão mas não queria estar. Por último, já meio pelas tampas de revolta, desconfiei que são todos infelizes. Mas, Deus do céu, tanta – mas tanta – gente infeliz assim a minha volta? Será se?

Eu queria dizer isso mesmo: não dá. É o tempo todo. Todo mundo. Dá pra ser infeliz e não reclamar o tempo todo também, tá? Dá pra estar com baita azar e problema e ainda sorrir e fomentar um ambiente agradável (minimamente respirável) ao redor. Confiem em mim, dá sim. E, ó, vale ouro (se não, ao menos vale mais do que reclamar): reclamar e reclamar e só reclamar NÃO muda absolutamente nada. Nada. Nadinha. Nadica de nada. Vão por mim. Não muda. Reclamar é totalmente inútil. No máximo, você consegue se tornar um chato e ganhar algumas doenças (porque, sério, tanta coisa ruim da boca pra fora só pode ir contaminando por dentro). Reclamar não faz diferença nenhuma. Repitam comigo: n e n h u m a.

Eu estou aqui, eu sei, reclamando. Mas, eu sei que vocês não podem ver, eu estou sorrindo. É aquela coisa de querer abrir o coração, sabe? Então. Vocês me expliquem como é que pode esse povo todo reclamando de tudo, de qualquer coisinha, o tempo todo? Desanima a gente – e não pode. Ou eu que estou numa onda de azar, me relaciono mal, estou frequentando ambientes nocivos. Quem sabe. Eu levo a vida numa boa, sabe? Com esse sorriso no rosto. Se o dia vai mal, coloco umas músicas aí num volume meio alto, que é pra silenciar os pensamentos ruins e deixar a vida no prumo. Ou peço colo. Ou leio. Sei lá, pode comer também. Uma conversa boa, ajuda, viu? Só não pode ficar ressecando os ouvidos alheios com suas infelicidades.

Aliás, dia desses quis xingar uma criatura e me saiu um “ô, seu infeliz!”. Eu não sei nem xingar. Infeliz, pra mim, seria um xingamento monumental. Mas, vejam meu azar, o cara era desses que sequer sabem o que é felicidade. Daí xingar de infeliz é tiro no pé, né. Vai que esse povo todo reclamando, sei lá, só uma hipótese, nem percebe que só reclama? Posso gravá-los falando e daí mandar o áudio para uma avaliação consciente? Ajudará?

Mas, viu, já estou terminando. Passei só pra dizer isso mesmo e mais uma coisa: coloca esse sorriso no rosto (tem a canção, lembra?). Experimenta não reclamar. Um dia. Depois dois, três, quatro… Experimenta reclamar só sobre o que realmente importa, para os órgãos ou pessoas responsáveis. Não fica na ladainha chata. Toma atitude, quando estiver mais seguro de si. Aí fará diferença. E se o dia começar mal, se você odiar o que faz, se tua vida é uma lambança (estou evitando palavrões), se tem amor não correspondido ou é mal-amado, se o dinheiro ainda não caiu na conta (ou quando cai não dá conta), se chegou a fatura do cartão de crédito, se está tendo que trabalhar mais e quase não descansa, se a pia está vazando ou o chuveiro queimou e teve que tomar aquele banho gelado no inverno: sorria. Ria. Se divirta. Sei lá, pede ajuda. Conta uma piada. Deixa pra amanhã. Repensa a vida. Mas, eu queria pedir, não reclame, tá? Posso confiar? Obrigada.

Eu andava por aí pensando nisso e ó o que encontrei.

Os fracos e covardes

O som – os romancistas diriam metálico – dos tipos a baterem contra o papel ecoou pela primeira vez depois de tantos – e muitos – anos aqui pelas paredes do Oficina, de onde vos escrevo. Tirei a capa protetora da minha Olympia e testei com dedos desacostumados. Ela, como uma amiga encantada pela lembrança, se não fosse tão pesada saltitaria na mesa. Respondeu-me como de costume, a ranhurar o sensível papel-jornal. Queria agradar-me, por certo. Tive que acertar-me com ela, pois o prelúdio fora de fato muito extenso. Lembrei-me dela, que jaz aqui ao meu lado todos os dias, como algo útil e belo – não apenas como um monumento. O monumento que refaz um trajeto da minha vida, que insinua a origem de todas as coisas. É sempre bom lembrar disso.

Era o Typewriter Day, 23 de junho. É curioso que sejamos instados a tirá-las do ostracismo para rememorar o que o seu som provoca interiormente. Não é curioso que exista um dia dedicado a elas. Alguns sites relembram que muitos dos grandes clássicos da literatura foram escritos nelas. Poucos dias antes eu comentava como é impossível o surgimento de um novo Machado de Assis. Vejam, ninguém mais tem tempo para dedicar-se à pena (literalmente). Nos formamos esses escritores mimados e incertos, artistas capengas da letra que mal pensada corre nessas telas digitais e em segundos são apagadas e reescritas. Vivemos do erro. Escrever, hoje, é um erro. Mais erramos do que acertamos. Há escritores que catam milho – expressão digníssima da Era das máquinas de escrever. “Máquinas de escrever”, que nome gordo de responsabilidade: uma máquina que comete o ato de escrever. Não é o ser humano que escreve, é a máquina diante dele que o faz. Hoje, aqui sentada diante do computador, com as idéias a correrem mais rápidas do que minha capacidade de digitar (que veio depois do aprendizado com a datilografia), a máquina apaga, corrige, colore, insere parágrafos, aumenta ou diminui letra. Faz-tudo.

O escritor, hoje, é uma farsa. Há uma máquina que faz tudo por ele. Há escritores que mal sabem escrever. A máquina, por sinal, inclui buscadores na internet, ao qual, não digam que eu contei para vocês, muitos escritores recorrem para escreverem seus livros (Deus há de perdoá-los). O escritor não imprime seus erros, escondidos num rápido ou lento ou reescritos em arquivos salvos sucessivas vezes ou deletados. Nós somos uma farsa. Jamais teremos um outro Machadão. A arte da escrita exige a entrega corajosa do esforço (quem já datilografou ou escreveu bastante a caneta sabe a que me refiro) contíguo ao corpo do escritor. Somos frívolos massageadores de leves teclados suaves e ergonômicos. Escrever não vem só da alma, as criaturas de hoje não entendem isso.

Ficamos mansos e amaciados. Somos vermes a mendigar temas cruciais à nossa época para escrever a próxima nulidade literária. Vejam que li esses dias sobre um romance qualquer que “retratava o vazio do nosso tempo” (imaginei um livro de páginas em branco, mas pelo tamanho da resenha duvido que seja). Outro se passava nas manifestações populares de 2013 (e nem era História do Tempo Presente). Outro, ainda, obviamente, falava de escritores nos dias de hoje e, obviamente, fazia uma crítica às críticas e ao consumo literário e aos escritores performáticos atrás de sucesso e incluía, antes que me esqueça, hashtags e a popularidade das redes sociais. Talvez não tenhamos nenhum Bruxo, em uma nova edição, pois esses assuntos da pauta da contemporaneidade são fugazes e reles diante de um olhar – aquele, famosíssimo (aliás, sempre que escrevo um superlativo também me recordo dele), que nos deixará com a eterna dúvida.

A culpa, talvez, não seja nossa. Talvez. A culpa talvez seja, justamente, da contemporaneidade. Deste mundo atroz que não nos sensibiliza nem nos torna seus amantes. O mundo nos repulsa, nos expele, nos atira de precipícios. Talvez, deste ponto de vista, não sejamos assim tão fracos e covardes, nós, os escritores. Talvez sejamos múmias a soltarmos a poeira da eternidade num caminhos pavimentado de word e pdf. E é o caminho que nos impede a fruição e um lugar aos pés dos grandes.

Faz um tempo eu dizia, quando as coisas do mundo pareciam tão fora de propósito, que chegaria o dia no qual eu abandonaria tudo e iria plantar batatas no alto do Maciço da Costeira. O lugar é desabitado (mas, obviamente surgiu alguém com a brilhante idéia de lá construir casas populares) e tem uma das vistas mais belas que já vi. Lembro de quando lá estive, os sons da humanidade no eco da distância, era como estar a parte dela. E foi esse o motivo que me fez recorrer à fuga imaginária de, um dia, fincar minhas idéias por lá, plantando batatas. Poderia, é claro, plantar tantas outras coisas, pois muito me agrada.

O mundo parece algo muito fora de propósito. Ele exige de nós consequências de escolhas que não fizemos. Nos cobra tanta coisa inútil. E mal temos tempo de remodelar nossa existência. Não existe, pois, depois da máquina de escrever, como existir um verdadeiro escritor. Ele está sujeito às condições da sua existência, do seu tempo, das distâncias e da falta de assunto que nos una – e não dure apenas um dia num trending topics.

Gracias

Gracias por la gratitud

por los sueños que me diste tú

gracias por la compañía

por todos los días

cuando estuvieras aquí

gracias por no dejarme

hasta cuando yo te pedí

y fuiste mi salvación

Gracias por las dudas

que nunca tuviste

y por las dádivas

de las noches a oscuras

gracias por aquellos besos

pendientes de mi amor

y por querer-te más

sin trazos de rebeldías

ni deseos de sufrir

Gracias y no te pido

ningún perdón

por lo que he hecho

en el pasado ni siquiera

por lo que hago hoy

a tus espaldas

Agradezco

no es devoción ni perdición

gracias, te digo

es que viniste sin culpa ni razón

llegaste sin esperanza y ilusión

deshacemos llamas de encarnación

y lloras en las despedidas

tan lejos quedó mi corazón

Benção aos amores

Ele vem recheado de tainhas e de narizes a escorrer. Irrompe nossas casas com o cheiro do guardado das cobertas e casacos. Traz, em si, um amor próximo, solícito e silencioso diante de fondues e chocolates quentes. É possível amar mais no frio. É imprescindível despir-se de si no frio, para que os outros nos vejam melhor. Não seria hora de esconder-se sob pesados sobretudo a amordaçarem nossas vontades. É no Inverno que o bem germina nos corações.

Como num vagar invisível, o frio aparentemente sem vida nos brinda com o crescente amor que florescerá na Primavera. É sob as crostas de preguiça e gordura acumulada (ninguém é de ferro e dizem mesmo que comemos mais nesse período, vide as guloseimas das festas juninas – porém, há quem não goste) que vamos projetando os dias de mais disposição e vida ao ar livre. Enquanto isso, olhamos pela janela a admirar um sol fraco que cruza valente o ar gélido dos dias.

Precisamos, agora mais do que nunca, de calor humano. Ou dos animais, é claro (quem tem gato que o diga). Precisamos nos aconchegar num abraço. Precisamos de companhia para debaixo das cobertas, no sofá, a comer pipoca e assistir a um filme (que seja bom ou ruim, tanto faz). Precisamos de viagens em companhia. Precisamos de pés juntos perto da lareira – ou do aquecedor. O vinho é mais saboroso quando dividido em mais de uma taça. A cama fria não é convidativa. Sopa é momento de celebração à vida: nunca a tome sozinho. Até mesmo a paçoca, vocês sabem que dividi-la é símbolo do mais puro e doce amor. Aquece algum recanto da alma doar moletons, meias, calças e cobertores a quem sente o frio sorrateiro a invadir-lhe a esperança.

É Inverno, recebo-o de braços abertos (e sopa de feijão no fogão). Agora eu gosto dele, dizem as boas línguas. Que ele nos proteja das almas frias e não nos prive dos desejos. Que ele nos abençoe os amores e nos prepare para sentir mais – mais calor, mais sintonia, mais cumplicidade.

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