Forasteira

Quando cheguei não vi o mais óbvio. Ou, pior, não quis ver. Chamavam-me forasteira e eu achei bonito – sem atentar ao certo as razões. Pensava num western e seus montes de feno ao vento nas ruas empoeiradas, uma dançarina com a cara (e o corpo e a voz) da Marilyn Monroe sentada sobre o piano do saloon entoando dores de um amor abandonado e à espera do seu happy end nos braços de um bonitão rústico. Forasteira eu sorria. A cidade tinha um quê de western, abandonada, velha, atrasada. Eu tinha tudo de forasteira: não era dali, dali não me sentia, me olhavam de alto a baixo, mantinham-me à distância, não gostavam da minha conversa nem do meu olhar. Novamente, preferi não ver. Eu não pertencia àquele lugar. Pertenceria a algum lugar? Instigava-me este ideal de pertencimento, um útero imperfeito onde, de olhos fechados, as pessoas sentiam-se no “seu lugar”. Existiria tal lugar, no meu caso? Forasteira eu me isolava. A vida ali em meio a cavalos amarrados nas portas dos comércios e mocinhas desocupadas a futricar nas janelas em nada me atraía. Era uma gente de mentalidade mesquinha. No meu rancho eu me retirava com meus livros e palavras. Nem de companhia eu precisava. Raras vezes me viam a circular de botinas grosseiras e pistola na cintura e aos poucos as ruas se esvaziavam. Não queriam conversa – eu nem os olhava. Via aquela gente presa às roupas e convenções dignas de outro século. Ah, o tempo ali não dera as caras! Enquanto ele escorria-me pelo corpo em dias de eterna chuva. Descobri, como se realmente não o soubesse, que naquela cidade os invernos eram longos por demais. E fazia frio até em novembro. Vivi dois invernos inteiros com o coração adormecido e as idéias a cogitarem me acordar daquele sonambulismo pérfido. Queriam-me, as idéias, longe dali a cultivar novos pomares, a plantar novas hortas. O coração ansiava que lhe deixassem quieto, fosse naquele rancho ou em qualquer outro. Sentada na varanda com os pés na amurada nos poucos dias ensolarados, eu ignorava-os todos. Revestia-me da couraça de forasteira, entre os meus e entre os olhares irrepreensíveis da cidade, e mantinha serena minha vida de solidão. Ouvia os cochichos, as perguntas, porém. Permitia-me ignorar todo o meu entorno. Ouvia, ao longe, a voz da cantante do saloon. Talvez ela também uma forasteira. Talvez ela angustiava-se que o seu bruto a levasse para longe dali, onde jamais bêbados fétidos reconheceriam o seu talento. Nem com meu talento eu me importava mais. Nem com o reconhecimento. Importava-me com a cama pronta à noite, o silêncio que me despertava os pensamentos, a ordem das coisas no vazio pelo qual eu – sem saber – havia optado. Não sabia se era passageiro, se forasteira seria, de novo, em algum outro recanto do mundo. Certo é que ali permaneceria. Forasteira eu segui. E em pouco tempo as cavalgadas pela aridez do deserto capturaram meu olhar para outros horizontes. Fui despertada pelo movimento sutil de uma árvore solitária na imensidão, por diligências que traziam notícias de longe. A roda gigante do mundo acordava-me. Talvez impelida pelos pesadelos que agora me acometiam no dia a dia que antes fora tão passadiço. Forasteira eu mirava novas emoções. Ainda que fossem as mesmas de outras vezes. Certo é que nem dois invernos me fizeram querer ficar ali, pertencer àquela terra que fora dos meus antepassados, onde eu deveria sentir-me ligada inefavelmente ao futuro. Aquelas caras que torciam-me o nariz eram apáticas e falsas. Ignoravam o doce lamento da moça do saloon. Forasteira eu sentia o calor na cama a impelir-me a sonhos inauditos. Fazia-me promessas. Ocultava meu desprezo por aquela gente que fingia aceitar-me forasteira nas minhas largas calças jeans e no meu colete puído. Eu sabia as artimanhas deles quando jogava despreocupada o velho chapéu sobre os olhos ao meio-dia de um sol de quebranto. Não arquitetei os próximos movimentos, foi meu erro. Forasteira ali e em qualquer lugar seria. Abandonei-me aos azares da vida, tal qual a cantora do saloon que envelhecia sob a maquiagem escorrida. Todos os dias passava perto da estrada que para outras paisagens, quem sabe um dia, me levaria. O cavalo inquietava-se sob a sela e eu lhe dizia um breve “hoje não” e quando o hoje seria? Acordava cada dia mais tarde, almejando que mais rápidos eles passariam, dormia, sem sonhos, na secura dos finais de madrugada ao ouvir os últimos acordes do piano do saloon ao longe – quando quase rouca e tão triste a voz da dançarina bailava meus desejos mais evidentes. Forasteira eu sorria. Tínhamos, eu e a Marilyn Monroe da cidadezinha pobre, colona e mesquinha, a mala sempre pronta atrás da porta do quarto.

As coisas não caem do céu

Quem dera fosse a chuva miúda

a lamber nossas noites amareladas

 

Não seria o dinheiro que não dá

em árvore nem cai do céu

(diria meu pai)

Nem todas as conquistas que eu

sonhei para este ano passageiro

Nem as respostas que você me pediu

naquele dia de vento forte e quente

diante do mar agitado

 

As coisas não caem do céu, assim

 

As coisas não caem do céu

assim, do nada

a resolver nossos problemas

a dar chances mesquinhas

a encurtar distâncias

e expandir possibilidades

 

Quem dera fosse uma neve inédita

a embranquecer nosso Natal tropical

 

Não seriam doses de paciência

ou feriados prolongados

nem morar num barco a vida inteira

nem preocupar-se com a hora

Não seriam as alegrias a despeito

das frustrações doentias

nem os medos que carrego aqui

a burlarem-me as veias

 

As coisas não caem do céu, meu bem

 

As coisas não caem do céu

como queremos

a nos dar tardes quentes

a nos presentear noites frias

a nos deleitar com temporais

e nos banhar: no mar e na chuva

 

Quem dera fosse o sol escaldante

a atear fogo na tua cama de lençóis laranjas

 

Não seriam sete dias

ou os cem quilômetros

nem um navio a te levar

nem eu a me olhar sem espelho

Seriam nossos sorrisos

a inspirar-nos poesia

e a julgar as decepções da vida

numa tábua desmedida

 

As coisas não caem do céu, dizem

 

As coisas não caem do céu

por acaso

a erigir abraços de confiança

a sufocar o momento errado

a ondear esperanças

e caminharmos juntos.

Faltava-lhe teu amor

 

Medo de perder as chaves

de casa

e de cobras escondidas

no jardim

 

Fechava cedo as cortinas

de casa

e deixava vasos vazios

no jardim

 

Sobressaltava-se: era a campainha

nas tardes

e a brincadeira dos cachorros

na sala

 

Gozava os banhos quentes

nas tardes

e as noites envolta em cobertas

na sala

 

Temia descontrolar-se com a fila

no supermercado

e no estacionamento lotado

da igreja

 

Esquivava-se de encontrar um amor

no supermercado

e nos olhos de um moço

da igreja

 

Faltava-lhe teu amor

a escorrer pelas madrugadas

a enviar-lhe mensagens

a destacar-lhe o sorriso

a preencher-lhe a cama pequena

a acordar-lhe os sentidos

a dar-lhe esperanças alaranjadas

a fazê-la suspirar todo sábado ao ler o jornal.

Comício em alto mar

Tudo o que o mar traz. Como a gente, quando está num torvelinho de humor, reviramos a areia do fundo, deixamos a água turva, todos os destroços de outras enseadas e baías vêm parar na nossa praia favorita, na mais bonita, naquela onde amamos tomar os mais doces banhos. O mar, nesses dias, destrói o asfalto das praias mais atraentes, como aviso dos seus desgostos joga impensáveis toneladas de areia na nossa cara, no meio do nosso caminho. A água do mar faz o trajeto inverso, avança pelas ruas, entra em bueiros e sem chance volta a si mesma, numa revolta sem fundamento, sem maiores prejuízos a si mesma.

As correntes marinhas, mais fortes que nós, arrastam enormes galhos e troncos de árvores de outras margens de rios que também têm seus dias de raiva. Restos de embarcações, animais mortos, corpos de náufragos. Não há o que resista a elas, melhor sempre desejar nunca deparar-se com uma, é o que se diz. Somente as ilhas permanecem. As praias mudam suas linhas de areia, sua balneabilidade. As ruas cedem. As árvores têm suas raízes expostas. Os bancos à beira-mar por ele são engolidos. As ilhas não mudam nem se assustam. Elas resistem às mais bravas tempestades, às ventanias regozijam-se, não temem os picos de maré nem as fases da lua. Como a gente, quando sobrevivemos à vida.

O mar não parece importar-se com dias nublados. Nem com ficar menos bonito sem o sol a emoldurá-lo. Talvez só lá naquele ponto onde o mar e o céu se encontram – onde nunca estive – algo de mágico aconteça: tenham alguma discussão acalorada, uma intervenção filosófica. Diante de nós, eles não comunicam suas inquietações. Só o vento abandona-se a revolver a ambos. Encrespa um, limpa o outro. O vento, como se sabe, é um malcriado: levanta as nossas saias, leva a poeira para dentro das casas, despenteia-nos. O vento é como a gente de alma incerta, não gosta das coisas no lugar – por vezes ele fica quieto, na sua, mas logo não consegue se conter e sai revirando a vida da gente. Ninguém gosta do vento, correm fechar portas e janelas, já de cara feia a maldizê-lo.

E tem dias que eles todos se unem num amplo comício. Aguentarão firmes, as ilhas. É preciso estar precavido. Eu diria que é preciso ter sua ilha. Mas de nada adiantará se não souber reconhecer os sinais: o alinhamento dos astros, os horários das marés, os eventos climáticos extraordinários, a direção e intensidade dos ventos, o cheiro do mar a sentir-se ao longe. Sem percebê-los, não chegarás à ilha em tempo de salvar-se. E os danos, por certo que os sentirá. A tua ilha, porém, ficará vazia de ti, lamentando que não tenhas aprendido nada – como a gente que tanto apanha da vida e não sai do ringue antes do último assalto.

Dias depois, voltará a calmaria. As resoluções do encontro, porém, se manterão. Muitos correrão atrás dos prejuízos a limpar e enterrar destroços. Pouco tempo bastará, quem sabe até o final do mês, para que ninguém perceba que por ali passaram todos eles em rebuliço a mostrar que há, sempre, algo mais forte e poderoso que nós. Fingiremos que não ficamos ilhados em meio à água marrom jogada em ondas altas e repletas de mato e areia, galhos e pedras, sobre o asfalto que resistiu somente até dali sairmos com alguma apreensão – e um tanto de frio que nos alcançou pelas frestas. Às ilhas é imprescindível tê-las, mantê-las, cultivá-las, conquistá-las; e lembrar-se que elas são ilhas e não sairão a te buscar – tu é que precisas ir até elas.

Atravessar manguezais

Os morros são os muros da cidade. Parece repleta, ali confinada entre eles, de gente que caminha e pedala num feriado despretensioso – sem pretensão de nos fazer feliz, pois caiu no meio da semana. Há os que dormiram até tarde num almoço preguiçoso às duas da tarde. Há os que buscaram respirar um fio de brisa marinha. Há os que visitaram a família. Há, ainda, os que findaram a tarde na pista de corrida. E eu me dou conta que não conheço esta cidade. Conheço seu confinamento, muito já olhei para esses morros… e mesmo hoje vi outros, nos quais nunca havia, de fato, reparado.

Por onde eu andei tantos anos? Fiz-me tantas perguntas que preferi esquecer. Tenho esta vontade de olhar pela primeira vez, mesmo que para tudo aquilo que meus olhos já conhecem tão bem. É como ter decorado o corpo da pessoa que se ama, de tanto percorrê-la com as mãos e a boca, e sabê-la no escuro – e dia ou outro reencontrar-se com alguma novidade pelo meio do caminho. Olhos cansados deve ser algum tipo de morte. O ar da cidade é pesado, muito pesado. Por vezes pesa-me na alma – e como. Libertar-se desse peso não é possível nem com alguns tantos de pingos de chuva que caem nos lábios e ali ficam a esvair-se em ar em poucos segundos. A chuva, porém, é garantida. É sempre confiável, sempre bem-vinda, sempre certa.

Mas a chuva veio meio sem vontade. Veio sem arco-íris. Minha vida há tempo que não se permeia de arcos-íris. Talvez muitos dias nublados – eu quis falar deles semana passada, deixei pra lá. Há dias nublados que não precisam ser mencionados. E a cidade engolida por fábricas. Em frente a elas é mais fácil atravessar, há sinaleiros para pedestres, limites de velocidade, faixas de pedestre. O ar, contudo, é mais difícil de respirar – pelo cheiro fétido e pelo ranço do encarceramento em salas de produção. Facilitam que você chegue e saia delas. Mas se passares desatento, teu nariz acusará que este monumento ao trabalho e ao dinheiro é a base de todo o pensamento de uma cidade – tão grande e tão mesquinha na sua pequenez.

Os morros, sem saber, é claro, costumam dar um espetáculo a parte. Este sim, sempre reparei. Eles aprisionam as nuvens – como o amante que aprisiona teus pés indefesos nos pés dele. As mantêm reféns do mormaço de um sol que acusa não querer partir. Reparem nos tons das nuvens, nos formatos, na densidade – às vezes esfumaçadas, por vezes etéreas, quem sabe pesadas ou azuladas. E jazem entre os morros, abraçam-se, amarram-se – amordaçadas? Lembram os amantes na hora da despedida diante de um quê de violência e gotas de desespero. No tempo que eu não sei por onde eu andava, não via horizonte na cidade. Eu queria ver por sobre os morros. Queria ver através daquelas nuvens subjugadas. Eu queria era seguir a brisa que vinha do fim do rio que atravessa a cidade. Meus olhos eram outros?

Para chegar ali eu precisei cruzar os manguezais. Cenário sem bordados, sem enfeites dourados, mangue não fica bem nem nas melhores fotos. E desde outros tempos eu aprendi a gostar de cruzar manguezais. Depois que você se familiariza com a secura dos galhos, com a luz soturna, você entende que ali é o berço da vida, que há minúsculos corpinhos crescendo e se reproduzindo, que ali vão ter os que querem dar continuidade a si mesmos. Dos manguezais saímos mais fortes, regenerados. E podemos, então, enfrentar o mar ou a terra firme. Ou ambos, dependendo da coragem que nos resta. Porque é sempre imprescindível ter coragem extra na bagagem. Deixe-a ali pela bolsinha de zíper acessível sem precisar abrir as grandes ou pequenas malas: quanto mais à mão, melhor. Nunca se sabe quando ela será necessária.

Depois dos manguezais, tudo estará ao alcance dos olhos. É como apaixonar-se por quem você já conhecia, povoava teus dias, e num impulso entregar-se às evidências do que não querias ver. Ao atravessar manguezais, o olhar atento é curto, perscruta os tons marrons acinzentados para não errar o passo, para resguardar as pequeninas vidas – e, até, para saber por onde voltar, o verdadeiro desafio da região. É a grande lição do manguezal. No mar ou em terra firme, quem aprendeu com manguezal tira de letra a vastidão e vê o que olhos embaçados de sol ou embolorados de chuva jamais perceberiam. Pra quem sai do manguezal, um dia de sol é como estar sobre as nuvens de uma longa e duradoura noite de prazeres. A gente até se distrai, sente o corpo leve e o sorriso baila no rosto.

A cidade persistirá sem seus horizontes. Ou eu que não os vejo, dirão. Não vejo-os por entre a fumaça invisível das fábricas e o cinturão de morros – de onde deságuam rios saborosos aos domingos. Ignorarão, eu sei, o mangue que a circunda. Porque dos mangues ninguém quer falar. Os mangues são para poucos – e nem falo dos poucos que têm um caiaque para desbravá-los. Dali da pista de corrida, posso falar porque lá também já estive, não dá pra ver sequer os morros limítrofes da grande cidade – quiçá um solitário garapuvu florido na Primavera, mas certeza que nem ele é observado, os olhos que por ali rondeiam são inundados de sol. Quero descobrir, ainda – pois agora sou outra mas os olhos permanecem os mesmos -, qual a sensação de chegar aos pés desses morros ditadores. Terei a sensação de aproximar-me da liberdade? Ou eles desafiam as almas a atravessá-los jurando-as de morte? O que eu sei, apesar de não conhecer a cidade, é que há uma saída – e nem é pelo mar.

Chantagens

Barcos não navegam sobre trilhos

e sem ninguém reparar

sempre atraquei nas mesmas praias

areias e pedras: meu caminho

 

Coleciono esquecimentos brutos

em troca de doçuras da memória

 

E ali não havia música

a maré a se achegar

e o ciclone em alto-mar

são notas certas da nossa trilha

 

Chantageio o coração guerreiro

com horas de paz na penumbra

 

Com quantos invernos se faz

um olhar desconfiado

basta uma primavera

para um abraço sincero

 

Burlo carrascos do tempo e espaço

com o relógio de ponteiros quebrados

 

As andorinhas a flanarem

sobre os túmulos floridos

dos nossos passados

redesenham um futuro

só: nosso.

Na frágil ponte

Não vi quando

as nuvens abraçaram os morros

nem o que

teus olhos viram em mim

naqueles tempos

quando, desconfiados

ainda não nos entregávamos

às juras sussurradas do rio

sem pressa aos nossos pés

 

De noite os vidros embaçados

os latidos espaçados

e as folhas que caem

sobre o teto do carro

 

Eram corpos que tremiam

no tempo e espaço

do limiar do fim

da solidão

 

Quis ver por teus olhos

como era este mundo

(o qual abandonara há silêncios

por desilusão);

na frágil ponte que ligava

a terra firme ao precipício

onde água e pedra, desembocava

teu olhar longe de mim

e aos poucos se apaixonava

Ame o poeta

Você pode amar um engenheiro. Há tantos, eu sei, servirão para arrumar o chuveiro (nada pior do que ser deixada na mão por um chuveiro), os Engenheiros Elétricos – uma amiga mesmo, casou com um, disse que era uma maravilha em casa. A média salarial dos engenheiros também é bem boa, segundo dizem – as amigas aí que gostam de sapatos caros e preferem ficar em casa a trabalhar. Nada contra sapatos, até tenho uns. Mas eles estragam, ficam fora de moda (que as mulheres gostam de andar na moda, eu sei).

Você pode amar médicos, dentistas. Bancários, quem sabe. Empresários. Trabalham bastante, vivem ocupados e cansados, talvez. Uma amiga, agora, ama um político. Um político, vejam vocês. Tenho amigas que só amam músicos. O cara não pode chegar perto de um violão que uma coisa acende dentro delas. Inexplicável. Gostam das noitadas, de música, das serenatas, quem sabe. Mas alguns desses músicos são advogados, concursados de repartição pública. Vejam vocês, há quem ame advogados! Ah, o amor…

Você pode amar até professores. Trabalham demais, recebem pouco, segundo dizem, vivem preparando aula e reclamando dos alunos sem educação. Uns loucos neuróticos e chatos, por vezes. Mas você pode amá-los. Você pode, inclusive, amar policiais e motoristas de ônibus. Tem quem gosta de viver aflita com a segurança dos seus amores. Eu já amei um vendedor de caldo de cana. Pelo caldo de cana grátis, certeza – e vocês viram que aumentou o preço do caldo de cana? Conheço quem ama cozinheiro – ou chef, né, agora todos são chefs – e já não poderia ser o meu caso, nem o de muitas de nós, pois engordar é sempre um problema.

Você pode amar o caixa do supermercado e nunca mais enfrentar filas. O marceneiro, que te fará a cozinha sob medida mais linda deste mundo. O enfermeiro, qualquer febre será rapidamente resolvida. O contador, já pensou? Amar um contador deve ser numericamente emocionante. Ou você pode amar um bibliotecário – será um amor em ordem alfabética, ou por assunto, ou por autor? O chaveiro, amá-lo há de ser uma salvação em momentos de muita angústia – ele abre portas, veja bem.

Eu, porém, diria para amar o poeta. O poeta arquiteta as palavras, mas o melhor poeta redesenha emoções. Ele não conversa contigo, ele te leva por longas caminhadas. Ele verá em você tudo o que foge aos olhos alheios. O poeta tem uma visão perspicaz do mundo a te surpreender todo instante. Os sapatos ficam velhos em pouco tempo, saem de moda, mas os versos são eternos – no papel, no coração e nas lembranças, mesmo que você não seja de decorar versos, como eu. O poeta dá sentido aos mais ínfimos detalhes da vida – e a vida, em si, só assim torna-se vida. Talvez o poeta não saiba arrumar o teu chuveiro – certeza que pode lavar a louça e recolher a roupa do varal – nem fazer a massagem que você precisa depois de um dia exaustivo, mas só ele pode te entregar as belezas e doçuras da vida na cadência do sussurro ao pé do ouvido. Ou por escrito, pra você guardar e ler a toda hora do dia seguinte. O poeta é o único que poderá te curar das doenças e tristezas da alma, creiam-me. Ame o poeta. Amá-lo é ver o mundo mais laranja no entardecer de uma quinta-feira de temporal no final de tarde, enquanto sonhas com a sexta-feira – porque hoje ainda não é sábado.

Roupas no varal

Deixei as roupas no varal

esqueci as roupas no varal

os olhos trêmulos de cansaço

do céu só a chuva cai

 

e as roupas no varal

vítimas daquele temporal

não era ainda época

de tempestades sem aviso

 

as roupas encharcadas no varal

tirá-las de nada mais adiantaria

eu via o caminho sem volta

de não tê-las mais secas

 

passou o vendaval

e a chuva torrencial

e as roupas ficaram no varal

deixei-as, talvez sequem

até a próxima Estação

ou até sábado

Banhando a alma

Desembarquei logo cedo. O ônibus ao lado vinha de Goiânia. Goiânia tomou conta da minha saudade. Hoje não mataria esta saudade. Hoje correria atrás do que eu já nem sabia mais se seguia o caminho certo. Em tempo, inesperadamente recebi apoio. Que a vida é essa coisa de pessoas cruzarem o nosso caminho, quando a gente menos espera, ou boas palavras virem de quem talvez pudesse simplesmente nos ignorar. E em conversas encontrei mais rumos. Eu gosto disso: encontrar rumos. Caminhos. Traçados para os dias que virão. Eu gosto muito disso. Enche a cabeça de idéias – apesar do sono. Ainda não é sábado. A vida é como a narrativa, depende do foco do narrador. Simples assim. Se você é narrador da própria vida, veja bem como faz isso. Um foco pode mudar tudo. O sono persistiu, o calor me alegra (sempre). Talvez cansaço – prefiro não pensar nisso. As idéias, minhas amigas, fermentam como um bom pão, ou bolo, sei lá, não é minha área. Abri mão de uma torta de trufas e fiquei naquela alegria incomunicável com a balança. As coisas, simplesmente, têm que mudar (de vez em quando). A bolsa pesava. Os problemas me encontravam pelo telefone. Equilibrava o corpo e a espinha cedia imperceptivelmente. As ruas atulhadas de prédios da cidade grande. Pessoas, pessoas, pessoas demais. Por todos os lados. Nem um banco vazio e solitário e silencioso naquela praça. Muitas lojas de calçados. Já repararam? As cidades têm muitas lojas de sapatos. E eu querendo tirar essas sandálias e caminhar descalça pelos teus mais recônditos segredos. Mais uma loja de calçados. Pra que tantos se o melhor é andar sem nada nos pés, só assim para sentir a vida. Foi o vento. Foi, sim. Brincou com a saia, trançou o cabelo. Um vento furioso de todos os lados. Ainda não é sábado. Entre prédios a escuridão se fez. Vinha do Oeste. Uma tempestade, certeza. As pessoas (demais demais demais) apressaram o passo. Correram para aquele terminal de ônibus, de novo eu ali, de novo sem querer na rua errada. Quase atropelada por um ambulante. Escapo de muitos quases todos os dias da minha vida. As pessoas corriam do temporal. Eu só corro se for ao encontro do teu vento. Diminuí o passo, assim indolente. Tinha pressa não. O vento mais forte. Os primeiros pingos exigentes chegaram antes do previsto. Segui meu destino. Ribombou e despencou: o céu. Eu que sentia todo o peso do mundo (e da bolsa) nas costas, senti a água da chuva desnosar todo meu corpo… escorria a água a saciar meus desânimos e complicações e falta (já) de esperança. É possível que exista alguém que nunca tomou um banho de chuva? É. Sempre é. O temporal a passos largos e eu miudinho a acompanhá-lo. Molhou-me a saia de vez, encharcou a blusa, acariciou a alma. E, digo mesmo, ela precisava tanto deste gesto. Amansou as dúvidas, refrescou o ardor da pele, afogou os anseios. Ainda não é sábado. As pessoas (muitas muitas muitas) a correr, um velhinho mesmo parou e me olhou atarantado: eu não correria? E eu lá corro das soluções que a vida me dá? Eu é que não. Eu paro e aprecio. E agradeço. Pingando a roupa, cabelo desgrenhado, devia estar um trapo. Mas a alma ia bem, obrigada. Ainda tirei tempo para conversar com a senhora da limpeza. A violência contra as mulheres, sabe? “Como não tem lei pra impedir esses homens de fazerem essas coisas?” ela queria uma resposta. Pior é que tem, senhora, a moça morre aí e então vão descobrir que tinha vinte boletins de ocorrência contra o babaca do ex. Por isso que eles não se intimidam, ninguém é punido. E ela me olha assustada “Ninguém?!”. Tentei remediar, estrago feito. Bom trabalho pra senhora. Eu gosto disso. Gosto de conversas fortuitas. Fiz até pregação, coisa que não é do meu feitio. Era hora, segui. Sempre sigo. Sempre estou indo – ou vindo. Desembarquei. Ia partir dali um ônibus para Porto Velho. Não tenho saudade de Porto Velho – porque ainda não conheci, senão já sentiria. Na lista, de certeza. Não fossem os problemas me esperando na porta de casa, embarcaria. Embarcaria rumo a Porto Velho. De ônibus. Com a roupa molhada do corpo. Mas os problemas me queriam – quem sou eu para contrariá-los? E, claro, porque hoje ainda não é sábado.

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