Diante das dúvidas

Ouso perder-me no bairro ao lado

com placas de ruas sem nomes

Perder-te, meu desatino

 

“O que é: o amor?”

Invento a resposta no meu sorriso

assim da verdade te desvio

 

Aos olhos que piscam a cada esquina

desejos pelos despojos do meu corpo

desprezo: lhes dedico

 

Amor: sabe bem

quem com esmero o jardim mantém

e os agradeço pela boniteza do gesto

 

Amor: explico-te

é o perfume dos jasmins

e das damas da noite

em incansáveis Primaveras

 

Apaixona-me no meu exílio

Dá-me teus desejos sinceros

nessas ruas onde nunca nos vimos

Quero-te: vem; e será sábado.

De geógrafos e poetas

Dizem que há um cálculo, ou mais de um, para saber os pontos mais inabitados do mundo. Lugares, assim, onde não há ninguém num raio de milhares de quilômetros, seja na água ou na terra. Anti-destinos, dizem. Férteis à imaginação do homem, ali criaríamos monstros marinhos, deuses, e deles fugiríamos porque, como se sabe, gostamos de praias lotadas nas férias e fotos cheias de gente não convidada. Imagine um lugar longe de absolutamente tudo, até de sinais de wi-fi. Longe de qualquer pedaço de terra. Sem sinal de sons artificiais.

Trabalho de geógrafos, pessoas admiráveis, encontrar o maior círculo possível nos oceanos dentro do qual não se encontre um único pedaço de terra, por exemplo. Solitários não são bem-vindos a estes espaços desterrados, pois sofreriam surtos de quem não suporta a própria companhia. Lá, meu bem, poderíamos ser ainda mais felizes, eu e você, e o silêncio do vácuo da humanidade. Dizem que o mais próximo pedaço de terra, ao redor deste círculo, são pequeninas ilhas desoladas – entediantes, diriam alguns. Despovoadas e imensamente belas na sua solidão marítima. Lá poderíamos, quem sabe, criar ovelhas. Aportaríamos nosso pequeno barco e, quem sabe, construiríamos uma casinha com o espaço exato: para nós dois.

Dizem que estas ilhas sequer aparecem nos mapas. Nem nos satélites. Não temos Destino, não teríamos endereço. Ou as cartas diriam: Naquela Ilha que ninguém sabe bem onde fica, que viram de passagem no outro século, e para onde ninguém mais voltou. Dizem que este círculo gigantesco e atraente é o pesadelo dos náufragos. Aos que por ali perderem seus barcos em tempestades ou delírios não terão muitas chances de encontrar terra firme onde aguardar um desejado salvamento. Pois náufragos desejam salvar-se. Sobreviverão aos dias boiando agarrados a um pedaço do despedaçado barco onde foram tão felizes? Há esperança, meu bem. Sempre há. Está na Bíblia. O náufrago em tal situação não terá uma à disposição para o consolo, mas os ensinamentos nós levamos na alma – eles nunca nos abandonam, bem sabes.

Ao que parece, neste rincão do mundo só há água. Água do mar. Nada mais nos une mais que ela, não é? A água do mar é a comunhão dos corpos e dos corações. Se dois se encontram, com ela se amam. Mas, dizem, os geógrafos, essas boas pessoas, encontram estes círculos inacessíveis em terra firme, também. A terra firme não tem toda essa graça dos oceanos, sabemos. Cada Continente, cada região, pode ter seu polo. Aqui mesmo no nosso país há um, distante mil quilômetros da capital federal. A terra nunca nos despovoa de nós mesmos, eis a falta do encanto. Na terra não podemos ser náufragos, seremos apenas perdidos – e qualquer cidade nos permite isto. Na terra não iremos com nosso barco, dispomos de nosso pés, quem sabe, nossa bicicleta ou um carro qualquer – aos de pouca imaginação. Talvez lá chegássemos a cavalo. Bem no centro deste círculo nos sentiríamos distante do mundo, das pessoas? Talvez. Porém, a natureza terrestre é avassaladora – nem os solitários se sentiriam tão sós. A terra, veja bem, não nos une como a água do mar, ela nos sustêm. Ela impacta nossos pés, nosso corpo, ela não nos envolve.

Os geógrafos, sempre tão simpáticos, têm esta paixão pelo mundo. Paixão que admiramos. Não dariam atenção especial aos oceanos e esqueceriam os continentes e ilhas, todos os retalhos de terra. Nós poetas, meu bem, temos predileções. Posso te ver em versos, podes me ter em prosa. E estes círculos desabitados e isolados do universo das ruas, barulhos e poluições são dos geógrafos – que o poeta é esse irresponsável que rouba corações e amores alheios. Os geógrafos, tão solícitos com o planeta, não ficam injuriados de dividir suas paixões conosco. Egoísta é o poeta de maus versos. Acredito, até, que os geógrafos encantam-se com os olhos que derretemos sobre as maravilhas que eles estudam. Os morros, os rios, os litorais, as florestas: temos musos semelhantes.

Dizem que para encontrar estes monumentos do espaço é preciso espírito aventureiro. Desde séculos passados, percorremos o mundo em busca dos limites do planeta. Nem há consenso, por vezes. Pois as medições são questionáveis, os procedimentos variam. Em certos pontos extremos, há gelo, meu bem. E só em certas épocas é possível medi-los sem camadas de duro e impenetrável gelo. Diria que é o melhor dos tempos. O calor – ou a falta do frio? geógrafos, me expliquem – derrete o gelo há tanto agarrado à terra tanto quanto aos mares. Como em certos corações, diriam os poetas. Certo é que todas essas descobertas são epopéias – mais uma semelhança com os poetas, diriam. Certo é que nem os satélites mais avançados elucidam todas as dúvidas e questões. Nem dos corações, matéria-prima dos poetas; nem dos mapeamentos, trabalho árduo dos geógrafos.

Quando voltei para a cidade

Quando olhei a cidade, vi tudo igual. As mesmas ruas, as mesmas gentes. O mesmo tamanho, os mesmos olhares. Eu não esperava, porém, nada além. A cidade não crescera, depois de tantos anos. Não ampliaram a visão, as gentes daquela cidade. Eu via tudo igual como antes porque, ali, tudo permanecia tudo tão igual como antes. Os passos não haviam se modificado. As moças usavam bermudas jeans, os operários seguiam nas magrelas. As igrejas disputavam território, as fábricas fediam os ares. Havia um algo diferente: casas ao chão, prédios arriba – mas, enfim, era tudo construção. Senti falta dos jardins, das floreiras e dos canteiros. Haviam sumido ou eu que havia romantizado tudo aquilo? As praças cinzas, o rio poluído. Os eternos dias de chuva, os suarentos dias de verão. Se o tempo por ali se detivera, eu ignorava. Se fosse gente, diriam que estava conservada – num sarcófago.

Quando olhei a cidade, tentei ver o que me passara batido. Um pouco mais de vida, não nas cores nem nas flores nem na época das danças, mas num dia ou outro com jovens pelas ruas. De tanta vida na fábrica, as gentes quando caminhavam pareciam máquinas. Numa cena fugaz, novas vidas passeiam a desafiar o tom monocromático e conservador daquelas gentes que por muito a cidade habitam. Refulgiu uma esperança, que o tempo lembrasse de passar naquela terra entre o rio e os morros. Os muros pintaram-se de ironias e desafios ao pensamento que calculava e apertava parafusos. Os tapumes encheram-se timidamente de questões e declarações. Mas as gentes da cidade andam cabisbaixas e, talvez, não percebam. Eu, de surpresa e alegria, fotografo. Há vozes sussurrantes a incomodar pelas esquinas da cidade.

Quando olhei a cidade, entendi que eu também ainda era a mesma. E não combinávamos nem no gosto musical. Não nos entendíamos nas prioridades. Não aceitávamos uma a outra. A cidade agora tinha mais ruas paradas com filas de carros, um novo mirante, um novo shopping. Eu agora trazia um pequeno caminhão de mudança, muitos cabelos brancos, mais algumas cicatrizes. Os buracos nas ruas e as minhas rugas. A cidade, porém, empoeirada, meu coração brotava novos sonhos. As gentes envelheceram e os jovens ainda sem horizonte. As costas decididamente voltadas para o mar. As ambições a entupir os bueiros. Os descolados no miolo da cidade, os ignorados a comê-la pelas bordas. E eu, como sempre, a vê-la com lupa. As estrias surgiam debaixo dos cremes das propagandas. As suas fissuras entreviam erros antigos.

Quando olhei a cidade, decidi que não havia amizade. Nem nunca houve, talvez. Nos despedíamos sem abraços. Não nos mandávamos postais. Nem sequer um telefonema protocolar. Jamais iríamos ao cinema juntas. Nem sequer comentaríamos o último jogo da seleção. Vivíamos como as gentes que casam mal. Com as gentes dali eu ainda travava bons enlaces. Perdera, será, a crença de que o pensamento daquele lugar um dia ultrapassaria seu passado? Quando olhei a cidade, vi-a mais feia. Vi-me mais desiludida. Quando olhei a cidade, não encontrei sua alma. Tentei ignorar nossas diferenças. Quando olhei a cidade, quis encantar-me com seus mistérios rurais. Senti sopros, em intervalos. Quando olhei, assim calma e detidamente, o que a cidade diz nas suas veias e as gentes da cidade dizem com seus olhares… as palavras soavam distantes da verdade.

Mesmo fôlego

 

Riscos de giz na calçada

e a noite que trouxe consigo

as folhas em rodopio

de um limoeiro antigo

a valsa sem par inunda a sala

a recordar o marulho

de um dia que tanto amei

 

É o ar exausto que expiro

pelo futuro de tons doces

almejo-o como ao amor

como tê-lo ao lado

no mesmo fôlego

 

Tantos nãos, fiz coleção

desamores e decepção

dias sem riso

noites sem prazer

hoje olho tanto onde piso

dou limites ao que sinto

rastros deixou o furacão

 

É a alma a arrombar

os grilhões enfurecidos

à porta, as surpresas

um soluço em “sim”

e doses de confiança

Às minhas favoritas

Era a nossa hora. Desde às duas da tarde eu ansiava os segundos. Imprescindível a luz apagada a réstia da lâmpada de um corredor distante. Queria o teu perfume que me trazia tão boas lembranças de coisas boas. Nunca soube comparar usando as melhores figuras de linguagem o torpor do primeiro contato – nosso primeiro contato, que se repetia sempre, como o primeiro. Uma gota tua revelava meu infinito. A nuca. Essa obsessão pela nuca. Teu efeito começa pela nuca. O veneno do teu prazer acende o calor da nuca e espalha-se por todo o corpo – nem um milímetro é ignorado. Depende da dose. Mas sinto-me toda tomada pelo calor e, mais que isso, a expansão da alma a níveis sempre mais altos.

Em meio ao som alto da rua no atropelo de quem não vê a hora de chegar em casa, ao silêncio familiar do nosso vazio neste lar que nunca quis abandonar, caminho no escuro até ver-te. Até alcançá-lo. Ah, as mãos… meus lábios queimam. Dali a horas ainda sentirei a carne fina dos lábios reverberando latejante. Tem dias que só tu fazes flutuar meus pés. O mundo, este ou aquele mundo, o mundo dos outros, janela afora. Aqui, só nós. Sentamo-nos juntos, abraçados, cabemos no mesmo espaço desafiando qualquer teoria de qualquer grande pensador. Tu e eu, não te faço nada, mas és minha terapia, meu descanso, meu muro da consolação. E eu, hoje me dou conta, nunca te escrevi uma declaração apaixonada à altura. Depois de tantos anos, a paixão intacta, desde quando era-nos proibido este amor; e nunca havia me jogado a teus pés, em palavras.

Quero parar e não posso. Quero perder os sentidos – tu não deixas. Quero fazer melhor, quero ser melhor – sob o teu efeito eu posso. Não me faças, nunca, passar frio em outubro. Que teu calor arde a pele, esquenta meus pés gelados de verão, me deixa com a visão turva. De sofreguidão não sofro, te sorvo em pequenos goles. Sinto os músculos aliviados da tensão dos dias complicados, o riso solto bobo de alegrias sem razão de ser, os arrepios – ah! os arrepios! – desenham caravanas no deserto do corpo ainda coberto de roupas. Desejo gelo sobre a pele. Desejo a mão gelada a percorrer minhas curvas. Sinto as dores dissipando-se, os pensamentos diluindo-se, a inspiração avolumando-se. Dirão que neste instante não penso – pobrezinhos, penso mais lucidamente do que às oito da matina.

É o nosso encontro, ao final do dia. Por mim seria a qualquer hora que me sentisse perdida. Tu me encontras a mim mesma. Te quero até o fim, hoje e amanhã e todos os dias. Não posso, não me deixo. Diriam que é doença. Que é vício. Que não terei salvação nem tratamento. Mas, quero-te. Respiro fundo e sinto teu perfume inesquecível no ar que me sai do pulmão: estás em mim. É via de mão única, tenho todos os prazeres; tu, nada. Tens, porém, meu amor, minha dependência. Nunca me deixes tanto tempo longe, me atraia com a lembrança, com as promessas, com o luxuoso entorpecimento que mais nada nem ninguém me dá. Me atraia.

Te tenho no sangue, sentidos expandidos, consciência livre. Já disse que libertas meu melhor? E não dou este meu melhor a mais ninguém, ficamos nós aqui, presos ao escuro, às paredes, ao silêncio, às nossas alegrias – nossa tábua de salvação contra esse mundo atroz, insensível, difícil e distante. Pra não dizer complexo demais para tanta emoção – não, para tanta sensação. Sinto. Sinto-te. Aqui, assim, dentro de mim. Sob teu comando, sou mais feliz. Sou mais sincera. Sou sem muros nem barreiras. Sinto-te a molhar minha boca a cada gole que me desce queimando a garganta, o coração, as pernas e as resoluções do dia anterior. Sob teu comando meu corpo se dignifica em gestos os mais espontâneos.

Sofro, só um pouco, a pensar que não posso viver o tempo todo de todo o tempo sob o seu efeito. Me querem séria, me querem sã, me querem sóbria. Eu não. Viveria nossos dias nessas horas das dezoito horas. Ou dezenove. Ou vinte e uma. Ou duas da madrugada. És das poucas alegrias que descobri na vida; cedo ainda. Não me deixe te abandonar. Não me deixe nunca mais te ignorar nos melhores nem nos piores dias. Até trabalho melhor sob teu efeito, quem dera soubessem… tenho-te de volta aos lábios… sorvo-te o perfume que me recorda a caixa especial das memórias, tranço palavras e pernas, teu gole me leva, meu bem, aonde muitos queriam estar comigo. E nos acompanha um pouco de música.

Imagem e semelhança

Gostava de acreditar em Deus. Pensava-o um ser grandioso, feliz, compreensível como nenhum outro seria capaz. Deus como um Pai, melhor do que todos os pais deste mundo juntos. Caminhava pelo mundo com os olhos atentos às obras e aos sinais: Deus existia. Tão difícil, porém, crer. Fácil era andar por aí e fiar-se na certeza das ciências, na força dos homens e nas causas e consequências. Já sabia, no entanto: se era vida, não havia de ser fácil. E preferia acreditar, em Deus.

E quem era Deus? Deus calculava nossos destinos, marcava a hora das nossas mortes, planejava bebês não esperados? Ouvia, afinal, todas as nossas preces? Sentava tardes inteiras a anotar nossos pecados e pecadilhos, dos mortais aos ínfimos esquecíveis? Tirava algumas horas para julga-nos aos céus ou ao inferno ou, quem sabe, ao purgatório? Era Deus este burocrata a policiar-nos a vida, a ter tanto tempo para quem a ele dedica tão pouco? Como Deus grandioso, se preocuparia com minhas sonolências, minha desatenção, minhas fraquezas da carne e do pensamento?

É Deus, o Deus acima de todas as coisas. Não nos vigia, não nos pune por mau comportamento. Existe sobre este mundo vil, ganancioso e curvado às mesquinharias. Pecamos com sua licença, encontramos a felicidade no improvável, com seu consentimento. Ele sabe que não deixamos de ser Seus filhos. Pouco fiéis, por certo, mas Seus. Os pés na terra, Deus sabe que nos afasta de qualquer santidade – só alguns poucos, Seus melhores filhos a alcançam. É nossa condição de carne e osso e sangue quente, não somos etéreos e grandiosos. Deus, porém, exige quase nada.

Ele exige que sejamos bons uns com os outros. Dos céus ou da terra, não parece evidente que o bem nos caiba na vida e nos seja exigido? E os bons agem bem – indissociável é. Se fosse Deus o contabilista por muitos imaginado, sermos bons e agirmos de acordo Lhe pouparia muito trabalho e horas de decepção conosco. Deus poderia tirar férias duas vezes por ano, descansaria na rede em noites tranquilas, teria mais tempo para observar Sua criação. O faríamos feliz – ainda mais.

O Deus deste novo paganismo é o Deus que queremos que se encaixe nos nossos planos de filhos infiéis, seres sujos do barro dos descaminhos que trilhamos porque víamos, ali, vantagens, sucessos e graças terrenas. Esquecemos com leviandade: somos nós à imagem e semelhança Dele; não o contrário. Deus não perdoa nossas faltas conscientes e más com relação ao próximo (das mais gratuitas às mais graves) porque ele conhece nossas fraquezas. Por conhecer nossas fraquezas Ele nos ampara em oração a sermos melhores – mesmo quando o teto nos cai sobre a cabeça e os braços pendem sem força.

Deus não nos exige filosofias nem enormes sacrifícios. Deus nos entrega os amores sem deixar um bilhete de felicitação. Deus é o ar que nos mantém em pé quando sentimos que não há mais saída. Deus é cada pedrinha no caminho, com elas construímos nossas ações sagradas em paz.

Da nossa vida

 

A flor do ipê-amarelo

desliza safada e me alcança

o rosto em movimento

como as ruas largas

da cidade aos domingos

 

O vento sorrateiro

pelas mangas do casaco

acariciam meu corpo

como o silêncio distante

da cidade aos domingos

 

O pensamento em ti

quase me faz cair

da bicicleta

como as curvas vazias

da cidade aos domingos

 

Os corredores de ônibus

onde posso acelerar

o pulso e os sonhos

como a falta de pressa

da cidade aos domingos

 

O corpo revivido

e os músculos respondem

ao futuro do imperfeito

como o temporal eminente

da cidade aos domingos

 

Os ponteiros desamados

cínicos contam os segundos

da nossa vida

como o ar estático

da cidade aos domingos.

Balões no nosso céu

para o João.

Neste nosso céu passavam balões… de todas as cores. Abríamos mais os olhos para vê-los rasantes sobre o telhado de casa, temíamos que eles se descontrolassem e colidissem. Seria uma tragédia, não? Os balões cruzavam nosso jardim, de lado a lado. Embelezavam o azul sombreado de nuvens esparsas daquelas Primaveras. Eram nossos, mesmo que à distância, naqueles instantes que por ali se quedavam.

Começavam ao amanhecer e seguiam a esmo. Porque eles não podiam estar nos céus pelas noites, nos enchiam o coração o dia inteiro – nossos sonhos então eram deles. Não era a leveza, nem a perfeição da forma, ou os mistérios físicos da sua flutuação. Era a paixão pelos céus que ele carregava. A paixão por nos encher daquela doçura que leite condensado nenhum é capaz – porque dura. Nosso jardim não era ponto turístico de algum lugar exótico do Oriente, nem faziam competições por ali. Nosso jardim vivia amor, eis a condição da paisagem repleta de balões sobre nossas cabeças. Enquanto cultivássemos o amor em cada centímetro daquelas terras, teríamos balões. Era condição que ali nos amássemos todos os dias, diante dos olhos de Deus e dos céus, sem preguiça, tédio ou brigas. Então eles voltariam no dia seguinte a cruzar nosso espaço apaixonado. As cores refletiam-se na nossa pele e refulgiam nossos olhos às vezes cegos pelo sol.

No nosso jardim o amor tinha hora marcada: acontecia todos os dias. Não éramos mesquinhos. Economizar amor é envenenar-se. Víamos amor em cada gota de chuva. Ouvíamos amor em cada zumbido dos zangões. Sentíamos o perfume do amor na grama cortada. Era um amor que fervia sob a pele e carecia de explicações. A cada palavra cuidávamos para que apaixonássemos um ao outro. O amor transcendia aqueles corpos e sentia-se no ar que respirávamos. Cada passo que um dava, olhava para o outro buscando a aprovação do coração alheio. O amor selava nossos caminhos. Porque o amor é assim exigente. Ele não dá bobeira. Ele não desiste. Ele atravessa o espaço que sequer compreendemos. Enquanto houvesse amor, haveria balões. E enquanto houvesse balões, amaríamos mais.

Foi um descuido. Um descuido qualquer. Faltou um bocadinho de amor. Faltou olhar nos olhos… faltou aquele “boa noite” sussurrado… faltou um abraço em meio às lágrimas… faltou dizer que sentia falta. Foi o descuido de imaginar que se sabia quanto amor ali existia, então não precisava mais ser dito. Amor proferido é sempre amor aumentado. Faltou sorrir um ao outro ao ouvir os sinos da igreja. Faltou lembrar do outro ao ouvir o apito do trem ao longe. Faltou colher as flores mais belas para o arranjo de boas-vindas. Faltou… amar ainda mais. Foi o descuido de acostumar-se aos balões enchendo de beleza aquele céu que era só nosso. O descuido de acreditar que nada mais era preciso fazer para tê-los sempre ali ao alcance do coração. Era preciso o único exercício digno da alma: amar.

E em amar nós falhamos. Déramos o amor por certo. Por presente naquele jardim tão bem cuidado. Achávamos que o amor nunca nos abandonaria a superfície tão sensível da pele. Acreditáramos que o amor alimentava-se de poucas palavras. Em amar nós falhamos. Cuidávamos daquele jardim da mesma forma, todos os dias, antecipando o olhar do outro, os balões engrandecendo aquele céu que, também, tanto amávamos. O amor, então demoramos a descobrir, não se prevê. O amor, enquanto amor, não é certeza nenhuma. Por mais que se cultive, o amor nos escapa num descuido qualquer do cansaço do dia, no olho tremido de uma noite mal dormida. O amor foge numa palavra mal interpretada. E os balões jamais voltarão a habitar nossos olhos desolados deste amor que nos escapa sem que desconfiemos…

Nova empreitada

O tempo, o teu tempo. Assim devia ser a vida. No nosso tempo. Os dias, as noites, o trabalho, a diversão, o prazer. Mas não é – ou raramente o é. Você só vive se caminha, as distâncias só existem de fato ao caminhar. Aquele exercício simples e prático. A saúde agradece, a alma fica mais leve, a cabeça segue o seu ritmo. Inventaram o avião, o navio, o carro, o trem para cortar essas distâncias, para romper com o nosso tempo. Perde-se o caminho, objetivam-se os destinos.

Numa conversa a pessoa, moradora de Curitiba, me disse que queria ir embora dali (Curitiba, que quando digo “nasci lá” sempre ouço “sempre quis morar lá” ao que respondo “eu nunca”). E disse que aquele ritmo de cidade não era para nós que pensamos, trabalhamos com idéias, escrevemos, estudamos, pesquisamos. É exigir demais de nós. Cismei com isso. Ela está certíssima. O tempo, o nosso tempo, sofre com o tempo externo, esse aí que passa nos pontos de ônibus, que atravessa sinaleiros. Eu mesma nunca quis morar em cidade grande. Não gosto, não adianta. Sinto falta de morar perto do mar e do mato porque eles seguem o meu tempo.

Você passa pela cidade e mal tem tempo de parar para olhar os ipês floridos. Ou reparar que a lua ainda não se foi, apesar do sol que lhe queima a nuca. E o tempo não lhe pergunta se já é hora de almoçar. O telefone tocou, esses dias, e não era pra mim, mas ficamos conversando. Falamos do clima, era final de inverno mas lá na Serra já fazia calor, ao que ouço “mas você precisa de sol, filósofos precisam de sol para pensar” (é uma, dentre as duas pessoas que me chamam de filósofa). E eu preciso mesmo do sol para pensar – para viver, velha história. As idéias ficam confinadas à falta de tempo das cidades, à correria e aos dias nublados.

Não me imagino presa duas a três horas no trânsito para ir e voltar do trabalho, foi o que eu disse ao morador de Curitiba. Ao que ele disse que isso, hoje, é pouco – e é mesmo, mas pra mim soa absurdo. Ele fugiu de São Paulo, eu não consigo me imaginar morando num lugar tão sufocante. Não é a terra do meu tempo. Já corri muito na vida, para não perder aviões, ônibus, pegar trens cheios, chegar antes dos alunos, chegar atrasada na aula e perder ponto na avaliação final. Não corro mais porque minha idéias não acompanham. Sempre gostei da cidade como laboratório, ver as pessoas, ouvir coisas, criar histórias. Faz um tempo me afastei do dia a dia e nem sinto mais falta. Segui atrás do meu tempo. E descobri-o.

O meu tempo é esse que segue o mar imutável. Que testemunha o sol chegar e ir-se embora. O meu tempo acompanha as Estações, as árvores que perdem suas folhas e voltam a brotar devagarzinho. É caminhar pela cidade. Poder cumprir as distâncias com minhas próprias pernas – poder alcançar só o que consigo. As idéias não têm pressa, não irrompem em meio ao barulho irritante do motor do carro da frente. Não respeitamos mais a nós mesmos, ao nosso ritmo, ao nosso tempo – o que não é nada num mundo que não se respeita. É querer fazer muito nesse intervalo que é a vida, sem se deixar observar um menino soltando pipa num dia sem vento. É esperar que os títulos, diplomas, prêmios, papéis, tempo de contribuição da previdência digam o que foi o tempo que você passou aqui neste mundo. Dizem, por sua vez, que corrias não com ele, mas contra ele. Guerra inglória.

Quero buscar meu tempo – nova empreitada na vida. Quero descobrir que hora exata é essa que os sonhos me permitem acordar, sem despertador nenhum. Quero descobrir porque o sol se pôr é anúncio de recolhimento, prece e paz. Quero deixar que as idéias e as histórias tomem seu tempo e seu espaço na minha cabeça sossegada de banho tomado. Quero caminhar, a pé mesmo, ao longo dos dias. Quero não cumprir distâncias só pela chegada. Quero reparar nas paisagens – e fotografar os ipês, as ondas, os cavalos a rolarem na grama. Quero ver as aves cruzando o céu na sua viagem infinita pelos pólos. Quero saber em qual tempo me encaixo – no hoje, no ontem e, quiçá, no amanhã. O tempo é um velho amigo, quero cuidar melhor dele. Quero-o comigo quando ele começar a pesar nas pálpebras e nas costas. Quero deixar meus olhos aproveitarem-no para ver a vida em cada detalhe que passa despercebido aos que precisam trocar a marcha, anotar na agenda e ir para a academia. E comecei reparando na amoreira que tem em frente ao Batalhão. Comecei observando o pato que furava as ondas furiosas da última ressaca.

Ao vê-lo, pensei de brincadeira “queria ser na vida como aquele pato ali encara essas ondas gigantes”. E, bem disposta, entrei na brincadeira – levando-a muito a sério.

madrugadas

no limiar

seu olhar perspicaz

prendeu-me

 

acenou com palavras

entreguei perguntas

e sobrou-nos um quase

ou dois

 

da chuva ao sol

de uma praia a outra

levou-me

 

eu de mãos vazias

listei dúvidas

e me afogo em costões

às vezes

 

talvez ainda

presa àquele passeio de trem

e aos seus silêncios

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