Historietas

Dez anos atrás. Não sei ao certo como eu e Elaine – aquela a quem eu chamo de Loira, pois ela era assim de corpo e alma quando a conheci – ficamos amigas. Santo bateu forte. Primeira fase do curso de Filosofia e éramos tão – mas tão – diferentes. Lembrei disso hoje.

Amiga pra toda a vida que viria a partir daqueles dias. Ela me emprestava o caderno dos dias que eu faltava, eu passava cola, vendia trabalhos, ela me convidava pra balada, eu nunca fui, eu chamava pro bar e pra praia, ela ia. Ela me contou a história mais triste – e, pô, é triste pacas – da vida dela. Com ela fiz a minha primeira trilha na Ilha. Com ela passei meu primeiro fim de semana na Ilha. E não havia porre que me derrubasse – bem descobriu o primo dela.

Antes disso tudo, um dia ela apareceu com um baralho cigano. Eu tive que ler as instruções, ela já sabia tirar as cartas. Aí ela tirou pra mim. Uma, duas, três, quatro… em todas as vezes – todinhas – saiu uma conjunção de cartas que provavam meu futuro: união forte (casamento no vocabulário chulo), amor, sentimento avassalador (o adjetivo é perdão de trocadilho, não resisti). Na primeira vez fiquei chocada (já lá, e antes, meu horror ao casamento era estável). Aí pedi uma segunda vez, e pedi a terceira, a quarta. O resultado não mudava.

Sou uma amiga que não se encontra por aí – pode perguntar pra Elaine e para uma dúzia de gente, até para aqueles que decidiram não ser mais meus amigos. Nos relacionamentos que existem entre as pessoas só sou realmente excepcional como amiga. O problema é que sou chata, é o único preço a pagar. E Elaine, com toda classe de uma loira e paciência de uma leonina para com uma pisciana, pagou.

Fomos para a biblioteca do CED e mais de hora passou enquanto ela tirava repetidas vezes as cartas daquele baralho tão querido. O resultado sempre o mesmo. Ela só pediu pra parar quando uma dor de cabeça fulminante a atacou.

Quase não vejo mais Elaine. Ela me abandonou. Mudou-se. Um dia uma prima dela queimou nosso tão estimado baralho e nunca poderei perdoá-la por isso.

Ela quase não usa internet. De vez em quando eu telefono pra ela quando tenho um babado forte ou quando é o ilustre aniversário dela, no nosso querido dia dos solteiros. Até fundamos um clube.

Sobre o resultado das cartas daquela época? Confirmou-se (por um tempo, é claro). Tempos depois as cartas me pregaram mais umas peças que também se realizaram. Diriam os capricornianos que fui influenciada. Talvez. E, ainda bem, pois sou um tanto indecisa e tapada de vez em quando.

Lembrei disso tudo porque encontrei um baralho igualzinho àquele nosso, porém virtual. Aí, quando a lua entra em alguma conjunção que me deixa à beira dos penhascos fazendo rimas ricas e pobres enquanto rio das minhas desgraças, recorro a ele.

________________________________________________________________

Era janeiro. Não sei, talvez início de fevereiro. Frisantes na geladeira, eu sozinha na casa de praia. Havia começado a ler Os Sofrimentos do Jovem Werther dias antes. Tinha uma dissertação para terminar mas saber dosar prazeres e deveres é um dom que eu possuo. A rede do Piauí na varanda. As gatas dormindo no sofá. Um pôr-do-sol lindão se anunciava. Fábio Jr na vitrola.

Tinha certeza que jamais leria Werther. Certeza. Ainda mais que Elaine, a personagem da historieta acima, nos seus dias de busca para as razões e obstáculos do amor havia devorado todos os livros sobre o tema, inclusive ele – e, lembrem, ela tinha aquela história triste. Eu não leria Werther, havia escapado dele na época de minha adolescência quando li muitos e muitos clássicos e, sério, ele suicidava-se no final. Só gosto de saber o final quando eu mesma, lá pelo meio do livro atolada na ansiedade, corro para as últimas páginas.

Eu não leria Werther. Poderia passar a vida sem lê-lo. Tipo, sei lá, Romeu e Julieta. Muito amor e morte no final pro meu gosto. E nunca superei o trauma – aterrador – d´O Sorriso do Lagarto. Nunquinha. Ubaldo que tenha pesadelos de vez em quando por ter escrito aquilo.

aí… ah, aí…

A vida, sabe? Essa graça que começa e termina todos os dias. E eu e essa mania de me desafiar, de gostar de mudanças, de gostar de me desdizer. Me desdigo e seja lá o que for. E às vezes é cada coisa…

Um punhado de coincidências e de atração infernal deram uma rebolada na minha vida. Eu vi. Eu dei um passo. Aí eu chamei desesperada por uma amiga, contei tudo o que (não) havia. Pensei, pensei, pensei… já nem sei direito se paguei pra ver ou se… bem, a vida, apesar de tão bela, tem lá suas regras.

Regras. E não era o momento de eu querer fazer coisas erradas de novo.

Narrei (quase) tudo aqui. Sobre o Werther: juro que não entendi. Me perguntei centenas de vezes se alguém em sã consciência passaria uma espécie de cantada falando dos sofrimentos do Werther. E aí, ah, aí… eu teria que ler para descobrir.

Feira de praia, lá estava o livro bem baratinho. Muito contrariada, comprei. A saudade, a distância, o calor, tudo me atormentava. Era claro que eu não havia entendido algo. Comprei-o. Ou minha burrice é tamanha que eu havia entendido de forma clara e dolorosa demais, só não queria aceitar tanto azar.

Azar no amor, azar no jogo, sorte na vida. Meu lema.

Comprei. Comecei a ler. E foi naquele final de tarde, naquela rede, naquela varanda, com aquela trilha musical e aquele frisante que eu li o Werther.

Como já disse num outro post aqui, eu e Werther temos muito em comum. Engasgava em muitos parágrafos. Foi difícil. Fui aceitando. Fui entendendo. Saí da rede porque os pernilongos haviam me devorado e eu nem tinha percebido. Garrafa vazia era uma nova que era aberta. Da rede pro sofá. Não via nada. Não pensava em nada. Só lia e sentia. Não lembro nem quantas garrafas foram – mas tenho certeza que foi meu recorde. Fábio jr ainda cantava e eu terminei de ler e fui com a última garrafa para debaixo do chuveiro. Sentada no chão do box falei sozinha por mais de hora.

Enrolada na toalha caí no sofá e apaguei. Acho até que chorei.

Finalmente, pela primeira vez na vida, havia tomado um porre homérico. O que ficaria em segundo lugar também fora histórico: não fiz a pior besteira que poderia ter feito (mas por muitas vezes me perguntei o que teria acontecido se eu tivesse apenas esticado o braço naquele determinado momento). O terceiroo foi divertido. Este foi devastador. Fiquei sem beber até semana passada. Já temia meus pensamentos e sentimentos. E eis que voltei ao vinho.

Não me perguntem se foram as cartas que tirei no baralho cigano virtual, ou se as malditas e doces coincidências ou, ainda… o Werther e nossos sofrimentos.

hesitación

“no hesites en me escribir”

es tu mensaje

y yo me ahogo en hesitación

hace frio

y yo no lo siento

llueve

y yo camino

sin paraguas

el perro del 302

llora

y poco me importa

no te busco

porque estás lejos

– estás del otro lado del océano

pero

quería te escribir

me quita el sueño

encontrar palabras

que no te dirán

nada

es que no te veo

en mis sueños

pero tienes

lugar en mi

cama toda

madrugada

bebo té por la tarde

y aguardiente por la noche

no sé si para olvidarte

o solo para calentar

mi cuerpo casi sin

voz

busco razones

para escribirte

una respuesta

y no logro

encontrarme

me preguntaba esos días

si eras tu mi amor

no lo sé

y cómo puedo descubrir?

es que me hacen falta las palabras

para, por nada,

te decir que te quiero

si te pregunto

cómo está el verano allí

es que no supe inventar

otra cosa

pero puedes decir que

vendrás con el verano

y mi deseo no sabrá

esperar

por fin

no tengo nada para decir

sólo quería aquella charla

tranquila, bella, enamorada

y luego tu sabrías

que se pasa

y yo sabría si no pasa nada

antes que el verano – y quién sabe tu – llegue

Velar a saudade

Hábitos e costumes são coisas que não sobrevivem bem ao tempo. No meu apreço pelos seriados ingleses cometo overdoses de vez em quando. Foi o que ocorreu esses dias e fiquei a pensar em como educaria meus filhos – pensamento que volta e meia ocupa meu tempo, sem nenhuma exigência. Admiro a educação à moda antiga, o pedir licença ao sentar-se ao lado de alguém – fiz isso, esses dias, como de costume e me senti um ET -, o cavalheiro levantar-se quando a dama se retira, um respeito aos mais velhos não pela idade, mas pelo reconhecimento. O revoltar-se só com bons e verdadeiros motivos. Não falar muito alto, não fazer cenas em público. Coisas que não sobreviveram, enfim. Há toda uma classe no agir dos personagens dos seriados ingleses que me encanta, independente da classe social. O simples fato de não ter intimidade e chamar por miss ou mister já demarca as relações pessoais. Sobre relações pessoais num assunto que me toca bastante eu escreverei em breve.

Comecei pelo final, de fato. Pois continuarei de trás para frente, então. Não na narrativa, mas na ordem que meus pensamentos surgiram. Falava sobre como educaria meus filhos e cada vez tenho mais certo de que os privaria das maravilhas dos nossos tempos. Não teriam acesso à internet, nem a smartphones ou tablets. Redes sociais: nem pensar. A simples idéia me apavora. Não comeriam, jamais, no McDonald´s, Bob´s, Burguer King ou qualquer primo-irmão. Ah, sim, não beberiam refrigerante. Talvez até pudessem usar o computador para ler, escrever ou até jogar. Seriam, sim, analfabetos tecnológicos. Prefiro-os analfabetos tecnológicos a analfabetos funcionais ou emocionais. Não me imaginem tão tola ao ponto de não perceber a dificuldade que seria criá-los em tempos pós-selfies de Instagram.

Contudo, eu fui criada num mundo um tanto a parte e sei que não é de todo ruim nem impossível. Lá se vão alguns anos, eu criança acreditava que o mundo para além do portão de casa era igualzinho o meu mundo ali dentro. Pai, mãe, irmãos, avós, casa, comida, bichos, choradeiras e alegrias. E foi essa mesma criança que aos olhos muito atentos e preocupados de todos sumia de casa e ia passear pelas redondezas – queria, talvez, descobrir o mundo, sem ao menos duvidar que ele não era igual ao seu.

Conto isso porque foi quando criança que comecei a compreender que os hábitos e costumes não são os mesmos em tempos e lugares e pessoas diferentes. Com os colegas filhos de mães solteiras ou separadas descobri que as famílias não eram todas como a minha. Nas casas de colegas descobri que as regras e os ambientes também não eram os mesmos. Era, sempre, tudo muito estranho. Deve ter sido aí que meu estranhamento, em relação aos lugares e pessoas, começou – e, ó vida, nunca me abandonou. Era difícil entender a vida. As pessoas. Mas eu fui tentando – eu acho.

Já frequentei casas sem portas ou sem maçanetas, casas onde não se usam toalhas sobre as mesas, já conheci pessoas que não jogam o próprio lixo na lixeira, pessoas que não tomam banho todo dia, casas onde a TV fica ligada o dia inteiro, pessoas que passam a ferro até cuecas e lençóis, casas onde dormem todos no mesmo quarto, pessoas que só bebem coca-cola, casas onde os banheiros são imundos, pessoas que proíbem você de entrar de sapato na casa delas, casas onde não há TV, pessoas que nunca estudaram nenhum outro idioma. De um choque inicial bem marcante, cheguei a um modo zen de não julgar e me interessar deveras por tudo que observo.

Hábitos e costumes não mudam de uma região para outra, de um Estado para outro ou de um país a outro. O que pode causar transtornos nos relacionamentos e alegrias para espíritos curiosos. Tinha pra mim, por um tempo, que eu devia, então, ter os melhores hábitos e costumes – que fossem racionais e corretos. Tentei. De vez em quando implanto algo novo sempre prezando alguma racionalidade. Vivo tentando. Se não é algo exato, deve ser sempre perseguido.

Mas eis que um hábito meu nunca encontrei em ninguém. As visitas ao cemitério. Não conheço ninguém que frequente cemitérios – bem, frequento um em especial e mais dois ocasionalmente, porém, tenho um gosto especial em conhecer os cemitérios das cidades para onde viajo. Frequento cemitérios desde bem pequenina. Sempre gostei deles, nunca os temi por nada. Uma vez lá ouvi que medo de cemitério era bobagem, pois os mortos não podem nos fazer mal – os vivos sim (e farão, esteja certo).

Enfim, no começo de tudo estava minha constatação de que hoje, quando as pessoas morrem, os vivos livram-se dela muito rapidamente. Sim, foi observando notícias de mortes seguidas de enterros em poucas horas que percebi isso. Os vivos não velam mais seus mortos. Há pressa em jogar aquele corpo, que começa a apodrecer, ao fogo ou à terra. Antes os velórios eram dignos das saudades latentes no porvir. Hoje eles se aproximam desta ausência das pessoas nos cemitérios, das pessoas que fogem dos seus mortos – tenham eles, em vida, feito-lhes bem ou mal.

Continuo observando as notícias de fulano que morreu ontem à noite e hoje cedo já foi enterrado. Não, manter o falecido por horas aqui não diminuirá a dor. Mas, me parece, no mínimo, mais digno. Também não considero que o mausoléu seja a presença eterna aqui na Terra. São os nossos monumentos ao amor e à saudade. E, bem, não tenho problema algum com nenhum dos dois.

Foi esses dias que me surpreendi, imersa nessas considerações, com uma família que desceu do carro perto de onde eu estava, num cemitério fazendo minha visita habitual. Pai, mãe e três filhos – dois adolescentes e uma criança. Confesso que achei a cena muito estranha. Fiquei observando e eles foram até um túmulo que nem é muito novo na vizinhança. O pai falou, falou, a mãe ficou mexendo no celular o tempo todo. O menino pequeno olhava, olhava para os lados, cruzava as mãozinhas. O rapaz mais velho ficou o tempo todo parado. A moça parecia emocionada. Conversaram um pouco, o pai acendeu uma vela, ficou uns instantes em silêncio e saiu seguido pela mãe que não largava o celular. O pequeno acompanhou-os. O rapaz ficou uns minutos com os olhos fechados e a moça sentou-se na beirada e começou a chorar com vontade. Ficaram ali algum tempo até que ela levantou-se e viu que estava sozinha, o irmão tinha saído em silêncio. Ela enxugou os olhos na manga do moletom e foi embora.

Meu respeito duelou com minha mania de curiosidade e observação, por isso não sei ao certo qual foi a conversa, qual era o elo entre o falecido/a e os presentes (mas, tenham certeza que formulei minhas teorias). Eu poderia ver mais cenas assim. Já fui protagonista e testemunha delas algumas inúmeras vezes. Mas, pelo que aprendi ao longo dos anos, as pessoas têm hábitos diferentes – até para chorar pelos seus mortos, pelas suas dores e saudades.

Enfim, sem saber como terminar, posto que vim parar no começo, me assusta que estejam livrando-se dos mortos assim com tanta pressa. Se um dia eu vier a morrer, daqui muito muito tempo, por favor, encerrem meus belos dias aqui na Terra com um longo velório oferecendo as coisas que eu mais aprecio em vida – e, claro, não esqueçam do sol. Jamais me enterrem num dia de chuva.

Condição e Situação

Passei algumas semanas montando uma teoria. Vocês sabem, tenho mania de fazer isso – para justificar ou explicar as coisas que vivo, penso e vejo. Pensava sobre condição e situação. Tentava me justificar num assunto quando encontrei estes dois termos que poderiam ajudar.

Condição é aquilo que não muda (ou que muda em raras exceções, já explico, alterando uma condição por outra) e situação é um estado que foi alterado mas que pode ser alterado novamente a qualquer momento. Exemplos sempre ajudam. Ser homem ou mulher é uma condição – e aí entra a mudança de sexo como a exceção – você nasce mulher e será mulher, não se altera. Um exemplo melhor sobre a exceção é uma pessoa que possui pernas, braços, tronco e cabeça e ao sofrer um acidente tem sua perna amputada, ela terá sua condição alterada. São exceções e casos mais extremos que podem alterar uma condição.

Situação é fácil de entender e vou usar meu exemplo favorito. Um homem é casado, eis uma situação, jamais uma condição. Estar casado é algo que não existia antes, foi alterado e pode ser alterado novamente a qualquer momento. É como pintar o cabelo de castanho para loiro – ser loira é uma situação, no caso, não uma condição. Ou usar lentes de contato. São atos que alteram momentaneamente (mesmo que, em alguns casos, “para sempre”, como aquele que morre sem jamais ter se divorciado ou aquela que pintará o cabelo de loiro até morrer) estado civil, aparência, estado emocional, situação econômica (desempregado, ou até o caso de “estudante”, etc.).

Como eu disse, foi uma teoria nada aprofundada (demorei para perceber que mesmo em condição haveria casos de alteração) que formulei nas horas vagas por conta de uma questão pessoal. Mas aí…

Caminhava eu pelo centro de Porto Alegre quando me deparei com uma manifestação em frente a prefeitura. Segui meu volteio quando me deparei com outra manifestação na Salgado Filho (rua parada, fila de ônibus atrás, pontos de ônibus lotados, pessoas observando). Logo mais outro grupo barulhento caminhava em frente ao Museu de Arte. Ouvi coisas do tipo “não é só pela educação” e “Fortunatti, cadê você?! Eu vim aqui só pra te ver!” e “você aí que está no ponto de ônibus”. Fiquei com a impressão de que a população no geral (tanto quanto eu) assistia sem sentir-se impressionada num clima que não era nem de aprovação nem de desaprovação. Aliás, em alguns cantos até ouvi pérolas do bom humor gaúcho.

Ver manifestação, em Porto Alegre, não é novidade. Reparar nos cartazes colados pela cidade fazendo alusões políticas também não. (juro que lamento muito não ter fotografado um que aparece o Tio Sam com a cara (mais feia) da Dilma e a frase “Mostra a tua cara Dilma!”, quem sabe em alguns dias eu consiga) Sempre admirei a politização do povo gaúcho. Nem sei porque demorei tanto tempo para me apaixonar por Porto Alegre (uma outra história). Semanas antes eu havia me deparado com uma tenda com os dizeres “Dúvidas sobre a Copa? #ogovernoresponde” e meia dúzia de gente sem fazer nada entre mesinhas de plástico e folders ali na famosa volta da Borges de Medeiros. Quando vi a tenda vazia pensei cá com meus botões que o povo não parece ter dúvidas quanto a Copa.

Sim, a Copa. É só sobre o que se fala, não? Anos atrás quando ouvi pelo rádio que elegeram o país como sede (tenho duas testemunhas) fui contra – aliás, fui contra desde o vídeo absurdo que fizeram para “convencer” a Fifa. Era tudo manipulação politiqueira (do Lula, é claro, mas se eu escrever isso aqui serei apedrejada). A vergonhosa escolha de tantas cidades-sede e os interesses politiqueiros também nesta escolha já eram ruins o suficiente para não me fazer apoiar o evento. Mas o povo gostou. O povo apoiou. E Lula ainda não era Dilma (ele sabia que não estaria no governo hoje e que seria meses antes da eleição, já pensaram nisso?).

Mas nem quero falar disso. Hoje até os lulistas estão insatisfeitos. Até os dilmistas, aqueles que compraram a história do poste que Lula colocou como candidata, estão insatisfeitos. Eu juro que tentei dar uma chance pra Dilma. Gostava do jeito durona dela. Mas não foi dessa vez.

Via aquelas manifestações e já bem menos iludida do que estive em junho do ano passado em relação a elas (e, vamos e venhamos, Santa Catarina é um zero à esquerda nessas movimentações) fiquei a pensar sobre a condição e a situação. O problema não é a Copa. Nem o Lula ou a Dilma. Nem, sei lá, os salários. O problema é o brasileiro. É uma questão de condição.

Peralá! Não, não sou mais uma daquelas que só fala mal do Brasil, que adora citar exemplos do exterior porque tem a idéia idiota de que tudo lá fora é lindo e aqui é ruim. Não sou idiota nem ingênua. Gosto muito do Brasil. Acho realmente difícil me ver morando, estudando ou trabalhando, fora dele. Já pensei, é claro, mas em seguida penso certas coisas e desisto. Eu quero viver bem aqui. Já é um custo me fazer pensar em morar fora de Santa Catarina, imagine em outro país. Sou uma garota do Sul, é verdade. Aliás, sobre isso me veio a nada brilhante declaração do Wagner Moura, nosso Pelé do cinema brasileiro, aquele que “calado é um poeta”. Sim, porque Wagner é mais um que deu declarações de que irá morar fora do país e sente que isso até é bom “porque aqui não dá mais”. Wagner que fez umas novelas fuleiras na Globo, foi alçado ao sucesso e agora virou ator cult. Não discuto. Não é o único que vem a público demonstrar sua desilusão com Lula-Dilma e sem querer colocar-se numa posição além da “simpatizo com a Marina, mas com o Campos não dá” prefere dizer que falta educação, saúde e o país está horrível.

Essas pessoas fazem muito mal ao país. Por favor, exilem-se voluntariamente. Queria ver se tirassem os milhões das pastas da Cultura para colocar na educação e na saúde (que sabemos não é frequentada por esses que falam tanto). Sinceramente? Por mim podem fazer. País que não tem educação e saúde não precisa de teatro, cinema e música – ainda mais se dermos uma boa olhada na maioria dos projetos aprovados em editais e apoios.

Aliás, um megafone daqueles em Porto Alegre falava na educação. No salário ruim dos professores, é claro. Tudo se resume a dinheiro. Sobre professores muito ruins ninguém quer falar, né? Professores que faltam, que vivem de atestado, que vivem de favores políticos, que chegam em sala e só sabem mandar os alunos fazerem resumo do livro didático, que não dão atenção nenhuma aos alunos… desses não querem falar? Se há problemas na educação, é certo que não se trata só de investimentos e salários.

Eu mesma já aderi ao discurso da falta de educação. E aí é uma questão de condição. A condição do brasileiro é não valorizar nem se importar com educação. Os que o fazem são exceção. Não é de encher o saco ver tanta manifestação, tanto “falta educação” e o povo não respeitar nem uma fila de ônibus? Pior, de avião, onde todo mundo vai sentadinho no lugar marcado e o qual só sairá quando estiverem todos a bordo. Tem coisa mais irracional?

Por isso me ocorreu que é um problema de condição. A condição do brasileiro não o permite alcançar níveis melhores. No Brasil não existe a idéia do coletivo, de se pensar e agir pelo bem de todos, há o individualismo. Esses dias ainda comentava com uma amiga como a política havia sido reduzida ao particular, ao “o que é bom pra mim”. Em como decidimos nosso voto pelos nossos interesses pessoais e só. Sob uma condição individualista não há como chegar a um país “bom para todos”.

Não é uma questão política. Não importa Dilma, Marina, Campos, Aécio, Serra. Essa é só a cortina de fumaça. Ser um vermelho que perdeu a noção do tempo ou um contra-cotas-e-contra-o-bolsa-família é a burrice que tomou conta de nós. Pensa-se no eu. E política, meus queridos, não se faz com interesses particulares (nem privados, diga-se de passagem). Claro que lembro de Aristóteles e Hannah Arendt nessas horas. Politicagem é que se faz com interesses (escusos) particulares (e privados). Não adianta nada entoar o discurso vazio do “contra tudo e contra todos” dessas manifestações que tenho visto. Nos jornais estrangeiros hoje muito se falou sobre o povo nas ruas, ontem, há menos de um mês da Copa. Na maioria não havia lista de reivindicações, no máximo a citação ao aumento de salários. Sobre os mortos nas construções do estádios, ou sobre as desapropriações que foram feitas nunca vi cartaz. Tem coisa mais egoísta do que sair às ruas porque meu salário é baixo? É bem diferente do que sair às ruas porque há uma política econômica deficiente que causa problemas para todos (exceto aquela meia dúzia) conseguirem consumir os produtos mais básicos. E voltamos ao preço do tomate.

Acredito que as ruas serão cada vez mais tomadas por pessoas que parecem não saber direito o que querem. E as manifestações serão invalidadas politicamente, de novo. A condição do brasileiro não será alterada, viverá ainda sob a individualidade, sob o discurso vazio e incoerente com seus atos enquanto a nossa miséria poderá ser vista por qualquer um com boas doses de sensibilidade e razão. Reclamarão da militarização da polícia porque não percebem que sua condição de criminosos em maior ou menor grau não permite que a polícia seja de outro jeito (furamos fila, nos apadrinhamos politicamente, burlamos o imposto de renda, roubamos aqui ou ali, sou profissionais preguiçosos, professores relapsos, alunos desinteressados). Não farão nada pelo bem comum, não olharão para suas belezas naturais, não preservarão o meio ambiente, não deixarão de jogar lixo no chão, nem de lavar a calçada com mangueira dia sim, dia não. Em algum momento acalorado gritarão “falta educação”. E não se educarão.

Enquanto isso veremos notícias lamentáveis durante a Copa. Tenho até receio de fazer previsões. Talvez, enfim, ao ver tantos olhos voltados para nós, como nunca antes em mais de quinhentos anos aconteceu, sentiremos vergonha e não assaltaremos os turistas, trataremos bem os repórteres de fora e faremos a torcida mais bonita do mundo. Talvez. Porque os preços das diárias dos hotéis já reservados não voltarão aos valores normais, nem os restaurantes cobrarão os preços justos. E a Copa acontecerá para poucos, pois mesmo nós aqui em Santa Catarina sentiremos pouco do seu vento (um ou outro turista de passagem, o grupo que se hospedará em Balneário Camboriú).

Só ficaremos felizes com os feriados. Eu programei cardápios especiais, para a abertura festa junina, para BrasilXMéxico comida mexicana, ItáliaXInglaterra lasanha, paella valenciana para o jogo da Espanha. Claro que não deixaremos de comentar os jogos no twitter (comprar ingresso no site da Fifa não deu certo) e a babar pela seleção da Espanha, pelo Balotelli, pelo Eto´O e pela bunda do Fred. Provavelmente morrerei sem ter pisado em nenhum desses estádios. E minha aposta (podem rir, quem ri por último…) é na Holanda campeã. (cadê minha havaiana?!)

Menos de um mês e as propagandas para nos injetar fervor positivo pela Copa entulham os canais de TV. As ruas se enchem. E parece que o sensato, como aquele seriado que você começa a assistir e não sabe direito se gosta ou não, é aguardar os próximos capítulos. Ah, em junho estarei em Porto Alegre com minha camiseta da seleção da Argentina (se eu fosse maledicente diria que os hermanos pagaram para ter os adversários da primeira e segunda fase e, por isso, são fortes candidatos) observando aeroportos e ruas em situações mais calamitosas do que as de ontem, com certeza. O melhor é que depois que a Argentina perder e voltar para um país em situação tão ruim quanto a nossa, depois que a Holanda sagrar-se campeã, depois que os turistas tiverem embarcado com suas garrafas de cachaça e impressões conflitantes sobre nosso povo, voltaremos à vida individualista e politiqueira que consagra nossa condição. Porque a Copa será só uma situação. Peraí, eu disse “o melhor”?

Sobre pessoas e personagens

Tenho pensado muito nas pessoas (é mais um mal que eu tenho). Na verdade, queria um personagem. Foi assim que escrevi ali no meu mural. E no meio do caminho fui pensando nas pessoas.

Conheci e tenho convivido (mesmo que das formas menos banais) com pessoas interessantíssimas. Algumas têm feito minha alegria diária. São as trocas de pensamentos, os comentários espirituosos, a presença esperada, o humor variável. Sim, porque gosto de encontrar nas pessoas algo que me possui tanto como a variação de humor. Me encantam em especial as pessoas que pensam (não, não são todas), que levantam a voz para criticar, que fazem perguntas, que se indignam, que não querem fazer voz ao coro das opiniões, aquelas que não precisam mostrar nada porque o são de verdade.

Acima de tudo são pessoas que aprendem com a vida. São pessoas que não são óbvias. Ah, quanto amor meu por isso! Vou abrir um breve parênteses e comentar que todos os meus relacionamentos (algo) amorosos tiveram seu fim por causa da obviedade que nos corrói. Em alguns meses eu já sabia o que irritava-o, como provocá-lo (principalmente), como contrariá-lo, o que e quando perguntar, como ele agiria em determinadas situações, do que seria capaz. E assim perdia a graça. E as pessoas, meus queridos, precisam manter a graça. Desinteresso-me num piscar de olhos se a previsibilidade torna-se rotina. Aliás, sobre amor e tédio, já escrevi aqui, né?

Sobre aprender com a vida, pensava nisso antes de ontem no banho. Aí ontem, conversando com uma amiga, voltei às idéias. Como há pessoas que já passaram por tanta coisa na vida, já leram tantos livros, já assistiram tantos filmes, já trabalharam, já perderam pessoas que amavam (e que as amava, veja bem), que já choraram sem ver nada à frente, já bateram e já apanharam… enfim, pessoas que têm histórias boas e ruins na vida e que têm algum conhecimento do mundo e, ainda assim, são umas – me falta a palavra – umas bestas, umas portas. São pessoas que não sabem viver. Não sabem aprender. Não sabem olhar para os outros. Não sabem preservar as melhores coisas que têm. Não sabem apreciar este ir e vir dos dias.

Aí fiquei lá matutando sobre o meu personagem. Queria que ele fosse uma mistura dessas coisas. Queria-o óbvio, mas intrigante. Queria-o uma anta que não aprende com a vida, mas que tem sonhos.

Na literatura contemporânea o que não falta são narrativas auto-referentes. É um mundo de narradores que olham o mundo sob uma fração que o seu umbigo o permita. Personagens com tantas dúvidas vazias e dores inexistentes que enchem páginas sem fim.

Enquanto ainda pensava nas doces pessoas e fui escrever mais um pedaço do meu personagem me dei conta de que escrevia a história de uma pessoa que eu conheço pouco. Na verdade eu sei uma coisa ou outra da vida dela, e ao escrever eu escrevia a história dela preenchendo tudo o que eu não sei (que é bastante coisa) com a minha imaginação. E é assim que eu faço a minha vida mais bonita. Sempre faço isso, se eu conheço alguma coisa de você, pode ter certeza que já fui preenchendo as lacunas, fazendo deduções e criando a minha (tua) história. De fato, até abro mão da tua história e prefiro ficar com a que eu criei.

Queria um personagem assim. E queria-o difícil, real, abominável. Um autor uma vez me disse (talvez já tenha comentado aqui) que a coisa mais fácil de se fazer, ao escrever uma história, é matar seu personagem (até quando ele é o protagonista? Fiquei me perguntando. Fica pra outra hora.). E hoje me irritei tanto com os filmes que tenho visto que pensei que mais fácil ainda do que matar um personagem é criá-lo rico. Pronto, você matou-o de outro jeito, destruiu a maior parte dos conflitos que ele poderia gerar. O que, aliás, torna a maioria esmagadora das histórias atuais extremamente entediantes.Não é que faltem conflitos nos personagens milionários. Mas eles são vazios, chatos e vulgares.(as duas últimas frases foram twittes meus e segue um comentário em reply a quem me disse que sempre preferiu os personagens pobres) São mais profundos, têm mais dramas. Qualquer viagem (até um passe de ônibus) é um conflito pra eles. Perfeito.

Filmes ou livros (mais aqueles que estes) e, principalmente, novelas, nos quais os personagens são riquíssimos. Me deparei com muitos deles ultimamente. Novela é quase sempre assim, tipo as do Manoel Carlos. Agora o público não gosta mais tanto, pelo jeito, porque prefere aquelas nas quais os pobres… ficam ricos. Já escrevi sobre isso por aqui também. Essa idéia maniqueísta de que pra ser feliz é obrigatório ser rico. Li um texto de uma menina esses dias e ela dizia que todo mundo queria ser rico, mas que ela não queria dinheiro. Simpatizei tanto. E por conhecer a história dela foi totalmente compreensível o comentário.

Pessoas que viajam pra lá e pra cá com toda facilidade do mundo, nos seus jatinhos ou chegam no aeroporto e sempre tem avião pra onde querem e eles sempre têm dinheiro, é claro. Aquele filme super entediante do Walter Mitty, por exemplo, que era pra ser encantador em como ele via o mundo na imaginação dele. Aí ele do nada precisa ir pra Groenlândia e puf! lá está ele. Ou O Capital, aquele francês. O dinheiro supera conflitos nada dramáticos no cinema. É tão entediante. Tudo se resolve. Há os que colocam o dinheiro e o fetiche que ele carrega como o conflito, alguns, ainda assim, não conseguem fugir da facilidade e do tédio.

Assisti a um filme no qual uma mulher rica entrava num táxi e mandava o cara (pobre, pobre, pobre, como aquela música lindíssima que a Ângela Maria canta) rodar sem destino. Horas e muitos quilômetros depois ele a questiona sobre o destino porque o valor já está muito alto, ela joga notas de dólares em resposta. Eis que eles seguem viagem para atravessar os EUA de leste a oeste e no meio do caminho ela perde a bolsa. Ou seja, criou-se um conflito porque eles precisavam seguir ou voltar e para tanto era preciso dinheiro. Eles encontraram formas criativas de seguir. Aí o dinheiro é usado dramaticamente.

E são esses filmes com personagens vazios e bolsos cheios de dinheiro que têm me entediado deveras. Sobre as pessoas, o mesmo. Sobre a auto-literatura tão praticada hoje em dia, também. Gosto de um pobre com drama porque a vida é mais vida assim. A imensidão de conflitos que há, desde conseguir colocar comida na mesa, de um personagem que não vive com o saldo positivo na conta e tem cartões de crédito com limites nas alturas é, como comentei naquele reply no twitter, riquíssima. Some-se a isso dramas internos alimentados por estes conflitos. É uma teia interessante demais. E foi assim que fui olhando para o meu personagem.

Não era pra ser um desabafo sobre tantos filmes e livros entediantes com os quais tenho me deparado. E vocês também talvez não se interessem pelos meus personagens. Mas só cheguei a tudo isso pensando nas pessoas… ah, essas criaturinhas que cruzam meu caminho. Saibam que sempre e sempre penso muito em vocês. E vocês nem fazem idéia, eu garanto.

Queria ver sentir falta do que nunca teve

Falar sobre o que não sabe é fácil, qualquer um pode fazê-lo. Queria ver sentir falta do que nunca teve. Ela ouvia o advogado ao lado ruminar suas sabedorias sem fim sobre coisas das quais ele não tinha idéia. Tentava ser simpática, concordava, fazia um comentário ou outro. Educação, sabe? Não confundam. Eram os problemas do mundo e todas aquelas banalidades. Ela estava com sono, mas ainda assim ouvia o homem com um relógio enorme, engravatado e usando um perfume forte. Ele falava dos condomínios em Miami, sobre os fingers do Brasil, sobre os gastos com a Copa, as maravilhas da tecnologia em celulares, os problemas de assistência às pessoas com deficiência e mais alguma dúzia de coisas que ela não saberia listar.

As pessoas são assim. Insistem. Querem atenção. Acham que seduzem. Se vêem obrigadas a serem sociáveis, a conversarem com os outros. Não sei de onde vem estas obrigações – ela também não sabia. Na verdade, ela não estava pensando nisso. Pensava apenas no sono e em como gostava de aproveitar aquele momento de despegar da terra. Ela gostava de voar. Mas, é claro, por vezes ela não entendia esta necessidade de ser sociável que as pessoas sentiam – e mesmo assim se via ali, conversando… não, conversando não, era só um monólogo do advogado com breves comentários dela.

Ele falava sobre tudo, o que tão facilmente leva ao nada. Não bastasse todo o barulho de fora e de dentro, ele ali tagarelando e ela só pensando no sono – doce sono. Ela não se considerava, enfim, mais um boi deste mundo e foi por isso que quando ele quis, mais uma vez, demonstrar sua gigantesca sabedoria comentando que o barulho da turbina era anormal por falta de manutenção e que eles não faziam overall, ela silenciou, fechou os olhos e ignorou-o até o fim – quando ele ainda (por essas obrigações descabidas do social) virou-se para ela e disse “tchau, querida”.

Ele é um bom exemplo. Uma criatura dessas jamais entenderia o que é sentir falta do que nunca teve. Jamais. Talvez o mundo todo possa ser dividido entre as pessoas que falam sobre o que não sabem e as que são capazes de sentir falta do que nunca tiveram. Porque, vamos e venhamos, generalizações são perfeitas para um mundo como o nosso. Se não isso, coloquemos uma mesinha com um atendente para anotar todos os entremeios de cada indivíduo deste mundão.

E pouco importa o certo. Quem sente falta do que nunca teve não compreende o certo e o errado, como um cachorro que revira o lixo para comer papel higiênico usado. E, também, é algo sobre o que nunca se fala – nem aqui deveria estar constando. É uma das poucas coisas que não deve constar nos autos do mundo – já que falávamos de advogados, vale citá-los: se não está nos autos, não está no mundo.

Opa. Então… perceberam a relação? Se você nunca teve é porque nunca esteve nos autos da sua vida. Ou seja, não existe – deixemos de lado o “não lhe pertence” porque a discussão seria por outra vereda. Há metafísica demais nisso. Não acham? Ela não achava. Com um olhar de quem viu um mosquitinho flutuando na panela de sopa fervente, ela acompanhava o vazio da tela do computador, da tela do celular e com um ouvido irritado pelas mesmas palavras de sempre, ela acompanhava o celular que não tocava, o recado que não era dado, a mensagem que não chegava.

Talvez as más línguas dirão que ela sonhava (dormindo ou acordada, já se fez muita poesia sobre isso, não cabe repetir). Pois não era bem o caso. Ela desejava, isso sim. Seu desejo não desejava controlá-lo. Deu para entender? Os desejos, muito mais que os sonhos, tratam daquilo que não temos. Sonhar é, de alguma forma, ter. Então sentir falta de algo com o que já se sonhou não é sentir falta do que nunca se teve. Ela desejava apenas e por isso sentia aquela falta.

Ela que me desculpe, mas há metafísica demais nisso. A tal falta em nada insinua-se na vida, nas relações, no dia a dia, nesse passar tão indecifrável do tempo – que me desculpem, também, os relógios. Seria interessante tentar dividir a humanidade entre os que falam sobre o que não sabem e os que sentem falta do que nunca tiveram porque os primeiros são facilmente identificáveis, enquanto os segundos não dão sinal da provação pela qual passam. Bem, se há mesmo metafísica nisso tudo, vocês também não deixaram de perceber que em ambos os casos há negação. E quem dera que para além do mundo dos matemáticos de duas negações surgisse uma afirmação.

E se alguém do primeiro grupo a interpelasse depois do advogado e ela quase lhe abrisse o coração (coisa que os que sentem falta do que nunca tiveram nunca o fazem) e ele fosse desses que falam sobre o que não sabem acerca da metafísica, dos livros, dos pensadores, ele lhe diria compungido “a vida é negação”. E se ela estivesse já com o sono a embotar-lhe o humor, ela levantaria e diria “se fosse negação, não terias nascido porque tua mãe teria tido o mínimo de respeito com a humanidade e teria dito um belo ‘não’ ao teu pai – evitando o ato de te fazerem” (eu disse que ela não era muito chegada nessas coisas sociáveis).

Não há conceitos nem definições aqui. Lamento se decepcionei vocês. “sentir falta” é ausência, “nunca teve” também é ausência. Como definir o que não há? Sobre “sentir falta” talvez muitos de bom coração tentem abraçar a idéia. A única coisa, não sei se vocês perceberam, é que existe uma presença ali que muda tudo: “do que”. Há um que, um quem (talvez). Eis a charada. Nunca existiu nem existe no momento (posto que faz falta) mas existe – há. É presença. Tão presente quanto ela naquela poltrona com aquele advogado ao lado. Tão presente quanto o sono que ela sente. Tão presente quanto o som que vem da turbina.

E, com metafísica ou não, é a presença que sempre altera tudo. Há o desejo que concretiza esta presença, simples assim. Quem tem desejo é que pode sentir falta do que nunca teve. Quem não o tem, fala sobre o que não sabe – não há desejo, há necessidades (as piores, se é que entre necessidades há alguma que não seja ruim) palpáveis. Sim, para a metafísica as necessidades inexistem. E ficamos assim, vendo-a sentada diante daquele chocolate quente, com um cheiro forte de esgoto que vem lá da rua apinhada de ônibus e gente em êxtase, esperando um pastel do qual já se arrependeu, com os olhos desenhando um quadro mental daquelas cadeiras de ferro, do dono anotando os pedidos, da moça gorda na mesa ao lado e dos cantos sujos. Falo dos olhos, mas não posso falar do que lhe vai por trás deles.

Imaginemos, então. Ela pensa, é claro. Sente, também. Posso contar-lhes com sinceridade que aquela tarde foi das mais marcantes da vida dela. Pensou até em anotar numa agenda ou algo assim. Ela leu e releu o recado que havia recebido. Como há muito não acontecia, emocionou-se. Do jeito dela, é claro. E felizmente sem advogados nem pessoas que falam sobre o que não sabem por perto. Pôde ser feliz como lhe convém. O sono ela nem lembra que sentiu. Não sei, talvez não pense. Talvez apenas agradeça e sinta. Sei que foi um tanto depois desta cena que ela veio a sentir falta do que nunca teve. Sentiu-o assim como o céu ensolarado que vai nublando. Estava diante de dois nadas com um todo no meio. E era aquele todo que agora levava-a a suspirar, a retrair-se, a desejar, é claro.

Se falhei em explicar-lhe o que é sentir falta do que nunca se teve, logrei meu intento. Fico feliz. Só sei que o dia que você sentir isso, lembrará desta pobre anunciação metafísica. Pra mim basta. Quem sou eu para falar sobre o que não sei?

Gabriel

 

– Quem é Lídia?

– Todo poema precisa de uma heroína.

– E você, como não tem uma, inventa.

– Baseado naquilo que vivo.”

Queria ter mais precisão na transcrição do diálogo acima. Talvez as duas últimas frases precisem de uma ou outra palavra. Sou péssima com citações, já disse. Enfim, acima da angústia, permanece o desejo de que as intenções das palavras tenham permanecido nesta breve adaptação.

E seriam os escritores algo além de criaturas que escolhem palavras com intenções (as intenções, bem entendido, das palavras, não dos escritores)? (vejam só, acabei de escrever uma frase curta na qual aparecia duas vezes a palavra “tentei” – ou seja, foi sumariamente eliminada, coisa fácil num teclado de computador) (mas tenho relutado e tido dificuldades para voltar a escrever direto nesta tela, não sei o que há, ela tem me repelido – as folhas parecem mais confortáveis)

Longe do meu desejo diante desta tela em branco falar, novamente, sobre narrativas, sobre o ato de escrever. Este desejo tem me acompanhado os pensamentos e os estudos. Resolvi escrever assim sem saber onde chegar e decidi começar por tal diálogo que me assombra pelas últimas horas.

Também não me parece digno de longas linhas o drama do filme. Na verdade não o acompanhei muito, estava em dúvida entre ele e um em outro canal e fiquei trocando entre os dois sem perceber que não estava dando bola para nenhum dos dois – e brincava com os bebês e curtia um momento obscuro.

Porém, ali havia algo, como no diálogo, que me toca os pensamentos dos últimos meses. Já não sabia mais o que fazer com um amor irrealizado e seus sintomas absurdos quando me dei conta, entre tanto trabalho, que deveria, então, escrever sobre. Com mais um livro de contos eróticos (não é bem isso, mas, deixa pra lá…) em vias de produção, decidi furar a fila dos trabalhos e escrever um sobre amores não realizados. Talvez também tenha sido influência das séries e filmes ingleses (e aquele com o Andy Garcia), nos quais encontrei alento sem fim.

E é isso. Amores não realizados. Há algo mais sublime no mundo amorístico? Há algo mais perfeito? Diriam que não há nada mais triste. Pois discordo. Triste é ver o fim real de um amor que concretizou-se, viveu, reviveu e foi, pelas esquinas da vida, destruído. Amores destruídos são tristes. A canção diz “todo o meu prédio já sabe que eu tenho um amor” e eu posso afirmar que todo meu minúsculo círculo de convivência já sabe que eu tenho um amor não realizado. Ah, eu falo sobre isso sem problemas. Cultivei o veneno das expectativas.

Escrever não é uma terapia. Criar mundos é abster-se de si. Não é a Fahya que rola no tapete da sala de TV com os bebês, ensinando e brincando, a mesma que se debruça horas a fio sobre telas e folhas em branco – ou que matuta dias sem fim por todos os cantos por onde anda. Não decidi ser escritora nem assim me intitulo. Tenho tentado assumir que escrevo. Como disse no post anterior, foi lendo, descobrindo aqueles mundos imaginários que quis criar meus mundos imaginários para além da minha cabeça atribulada.

Por esses dias acordei e me disse “quero um personagem”. Não estava contente com o que eu havia criado, ele parecia incerto. Escreverei sobre ele.

E García Márquez nos deixou. Já escrevi aqui sobre ele. A doença que o acometeu me fez pensar em como a vida pode ser cruel com o nosso corpo que nasce e cresce para apenas desintegrar-se. O primeiro livro que li dele foi Cem Anos de Solidão –lá se vão tantos anos... Na época nunca tinha ouvido falar em “literatura fantástica” e quase desisti dele nas primeiras páginas. E dali surgiram personagens, cenas, borboletas, bananas, peixes de ouro, nós no coração que me acompanham até hoje. Doze Contos Peregrinos me empurrou para esta guerra que é escolher palavras com intenções. Como o poeta do filme, crio meus heróis e heroínas… Gabriel me fez acreditar que um mundo inventado é sempre mais belo e lá atrás optei por ele – porque este aqui é tão desinteressante.

Por esses dias quis escrever que descobri em mim uma ânsia de interferir na vida das pessoas. De todos os sentimentos do mundo, tenho pra mim que o mais valioso é quando você interfere na vida de alguém – seja mostrando a ela algo que ela desconhecia, seja ensinando, seja lá como for. É o que eu sinto quando olhinhos se arregalam, me encaram e dizem “é mesmo! Eu nunca tinha pensado nisso!”. Conviver com os bebês me fez perceber mais isso. O mundo vai se descortinando aos olhos de outros… e você ser o responsável por isto é a melhor sensação da vida.

Não faz uma semana pensei, novamente, que insistia à toa em duelar com as palavras. E eis que a vida me respondeu. A cada leitor novo que se declara, ou que eu descubro, o sentimento aflora. Descubro-os mesmo naqueles completamente inesperados. E sentir que faço um pouco que seja pela vida de alguém já é tanto para mim.

Precisava dizer isso ao Gabriel. Ele fez muito pela minha vida (e não estou falando no caso de querer escrever). Como dizem os teóricos da literatura, as pessoas lêem para apreender a vida, para tentar entendê-la, para crescer como pessoa, ou até para fugir dela. Com Gabriel, tive tudo isso. Aqueles bilhetes, aquela chuva interminável, aquela rede com um gigante, aquele coronel, aquele impossível, todos eles mudaram meu olhar sobre o mundo, me fizeram ter 87 muito antes do tempo e nos piores (e como foram horríveis…) momentos me fizeram escapar deste mundo. Digo, a desrespeito de todos os amigos, de pais e irmãos, de namorados e casos, os mundos imaginários foram a melhor companhia – e, claro, somem a eles os seres de quatro patas.

A responsabilidade me sufoca. Ter leitores é angustiante – é como não saber se estou fazendo “certo”. Mas, como também já disse aqui, escrevo por mim, para vocês. Estudar sobre o ato de escrever é a soma: angustiante e sufocante. Tenho tentado lidar com tudo isso. E as histórias de amores não realizados surgem numa contemplação não de mim, mas das vidas nas quais poderei tocar com elas.

Um dos sonhos é conhecer a origem de Macondo. Um dia irei lá. Quem sabe meu filho, além do Sinfrônio José e do Zoroastro Artiaga, se chame Aureliano. E é a segunda vez, este ano, que fico com uma pontinha de tristeza por ter sido omissa em me declarar: a primeira foi ao Eduardo Coutinho, agora ao Gabriel. Porque eu já descobri como é forte ouvir uma declaração dessas. Não sinto pela morte do Gabriel, o tempo, a carcaça, as doenças. A morte do Coutinho foi mais traumatizante. Enfim, já faz tempo que a morte não é novidade pra mim. É impossível não ficar feliz com o fato de que eles, como tantos outros, estarão para sempre por aí fazendo muito pela vida de tantos de nós. Que nós saibamos fazer algo de bom com o que eles nos proporcionam, para nós e para os outros.

Valesca, Chico Buarque e, enfim, Kant

Estava eu ali, primeira aula. Começar pelo começo, o que é Filosofia? Ouço lá no fundo “Professora, Valesca é?”, sobre quem são os pensadores. Em seguida, “Clarice Lispector é?”.

Diria eu que não, meus queridos, filósofos são somente aqueles nomes estranhos ali no quadro. Turma de primeiro ano, primeira aula de Filosofia. E que diacho é essa tal Filosofia? E por que diacho aquelas crianças trancafiadas numa escola precisam aprendê-la?

Eu? Eu respondo assim: Filosofia é tudo. E vou tentando explicar, gosto das respostas explicadas. Deparei-me com uma das maiores dificuldades da minha vida: mostrar àquelas crianças que elas pensam. Elas não sabem disso. Não se ensina a pensar, infelizmente. Só o que se pode fazer é mostrar que todos nós pensamos. E aquela tal Filosofia poderia, então, fazer parte da vida deles. Na idade deles foi que comecei a escrever, porque eu lia e imaginava e comecei a achar que poderia fazer como os autores que eu amava: escrever aquilo que minha imaginação ditava. E foi assim que continuamos a aula que comigo é toda feita de perguntas (eu) e respostas (eles), “então o filósofo é alguém que tem uma idéia? Mas nós também não temos idéias o tempo todo?”. Segundo as respostas, eles pensam, têm idéias, são inteligentes, estudam, têm conhecimento sobre alguma coisa. E eu perguntava: e nós não? Já via os nós atados nos olhos de alguns.

Sim, tem a História da Filosofia, a História das Idéias, as áreas da Filosofia, as grandes obras. Nós não escrevemos livros mirabolantes como os filósofos, mas tirando isso, fazemos as mesmas coisas.

E aí foi complicando. Tirando alguns poucos, aquelas cabecinhas não demonstravam consciência de que sabem que pensam. Meu choque diante desta constatação foi tal que me levou à irritação. Chegou a me faltar meios interativos para mostrar a eles que eles pensam. Ninguém quer que eles pensem, ninguém nunca quis. Alguns deles desconfiam que sabem pensar, mas não querem. Escolhas não se discutem. Tenho que encontrar truques, novos truques, que me permitam mostrar a eles que eles pensam.

Saía às dez da noite da escola, cidade pequena do interior, e na minha frente três rapazes iam ouvindo algum rap no celular. Não entendia o que era falado. Comecei a matutar o que levava-os a ver que há idéias numa letra de rap, como nos versos do Charlie Brown Jr rabiscados nas carteiras da sala de aula, mas que eles não conseguiam perceber nas aulas de Filosofia. Lá e cá são idéias – eles precisam me ajudar. Por que o rap está no fone de ouvido e a Filosofia na escola? Vamos e venhamos, já eu, anos atrás, me sentia oprimida pela escola, sinônimo de enclausuramento, obrigação, tédio e quantas mais coisas ruins. Não mudaram muito, as escolas. Rap, no meu gosto, não é música, é intervenção poética. E aí ficarei apenas na opinião mesmo, pois não conheço o suficiente para emitir uma crítica.

E eu que me orgulho de conseguir falar de igual para igual com crianças e adolescentes – já disse que se não sou uma eterna criança, definitivamente sou uma eterna adolescente – estava ali sem conseguir me fazer compreender por eles em coisas tão simples. Quando perguntaram minha idade, afirmando que eu não tinha mais que dezoito, e ao verem meu sorriso de orelha a orelha balançando negativamente a cabeça, “tá, impossível mais que 22”. (cara de dezoito, corpitcho de 20 – e garanto pra vocês que o corpo dos 20 era bem melhor que o dos 18) E é assim, não posso irritar-me, não temos culpa se há séculos induzem estas crianças a não perceberem que pensam.

Aí esses dias consagraram a Valesca como pensadora contemporânea. Minha primeira reação foi rechaçar uma prova – literalmente – de Filosofia, com múltipla escolha. Desconsidero totalmente. E aí estava lá o professor confirmando sua hipótese, se colocasse Valesca na prova, a escola viraria notícia. E dizem que virar notícia ajudou ainda mais na compreensão do assunto tratado em sala de aula. E aí o professor falou sobre a escola pública, o pessoal caiu matando – coisas deste mundo maravilhoso da internet – no professor. Pelo que li, e nem foi muito (já explico), o conteúdo da prova era bem aprofundado, tema pertinente, teoria boa – e não é em qualquer escola (muito menos pública) que um professor tem condições de lograr êxito ou sequer trabalhar assim. É aquele velho mito, porque há escolas públicas excelentes – como particulares muito ruins. Educação é uma soma complexa, estrutura, meios, material didático, professores, diretores e pedagogos, alunos (com todos seus pormenores individualizantes de classe social, formação e estrutura familiar, níveis de interesse, estímulo e conhecimento, problemas pessoais e psicológicos, a lista vai longe). E aí a gente sempre quer enxugar esta lista.

Voltarei lá, todos nós pensamos. Nem todo pensamento é válido – e eis que chegamos à Filosofia. Dos pensamentos para os pensamentos válidos há um salto, e de ter idéias, expressá-las e elas serem relevantes, há outro. Não li muito sobre o ocorrido pelo simples motivo de que era mais uma “velha novidade de internet”, porque foi intencional (detesto as coisas intencionais, de verdade – só a espontaneidade me vale). O professor fez questão de dizer lá sei eu quantas vezes que ele não tem Facebook, mas sabia que ia cair “na rede” (ninguém mais usa essa expressão, né?).

Porque tem isso. Ele foi lá e disse que não tem preconceito, mas que não ouve Valesca, não é o tipo de música que ele colocaria no carro. Pra mim, quem diz “não tenho preconceito” já está querendo se defender de alguma coisa. Digo procêis, de todo coração, eu tenho um balaio de preconceitos. Ainda não ouvi a tal música do recalque (palavra brega, hein?). Fiquei aqui matutando: ouço ou não ouço, pelo menos para escrever sobre. Já vi doutorandos postarem a tal música na TL do Facebook. Decidi que terei que ouvir, dos meus alunos, o que eles ouvem, o que eles querem que eu entenda que, para o mundo deles, é um pensador. Mas eles também terão que me ouvir, aqueles nomes estranhos ali no quadro são pessoas que fizeram o que nós, só com nossas idéias e nossa preguiça, não faremos.

Não se ensina a pensar. Foi minha maior frustração na universidade, já contei? Eu esperava da universidade algo nobre, elevado, uma verdadeira “busca pelo conhecimento”. Não foi. E cedo me desiludi. E teve professor que fez muita prova de Filosofia. Até com múltipla escolha. E aquela Filosofia da sala de aula da UFSC (aquela dos maconheiros, lembram?) não tangia nem de longe o mundo real (ai, Platão!). Para a maioria dos professores nem o contexto da vida e das obras estudadas merecia atenção. Era abrir a porta, entrar, fechar a porta e isolar-se deste pobre mundo real para ir para algo inatingível (com um cheirinho de maconha dia sim, dia não)– inclusive, como eles deixavam claro, por muitos de nós, alunos. E aí a Filosofia fica assim, distante até de quem deve ensiná-la – o que, aliás, não era prioridade no curso que frequentei.

No fim e por fim, não ouvi a tal música. Porque fala em recalque… e eu tenho trauma de inveja, de todo coração. Inveja faz mal – para quem é invejado. Faz muito mal. E recalque me lembra inveja. Eu já nem quero mais saber quem não gosta de mim, quem fala mal de mim por aí. Não me contem. Tenho uma prioridade na vida: me afastar do que me faz mal. Para poder mandar o tal beijinho no ombro eu teria que saber quem me inveja ou é recalcado. Tô dispensando, de todo coração.

E o professor, bem, ele não quis quebrar um preconceito. Ele não quis dizer realmente que a Valesca é uma grande pensadora contemporânea. Ele só quis provar (precisava?) o poder das avalanches vazias de internet. A Valesca, coitada, ainda agradeceu, não percebeu a ironia ridicularizante do professor. Não posso levar a sério. Ah, e só queria deixar claro, adoro exemplos na Filosofia. Ensinar a pensar é bem complicado – impossível talvez – mas aí a gente pode mostrar um caminho ali, despertar uma idéia numa cabecinha acolá, transmitir aquilo que a gente já leu, já viu, já aprendeu. Fazer piada, burburinho ou “cair na rede” não sei se ajuda, sinceramente.

Não vejo diferença, como citou o professor, entre usar como exemplo o Chico Buarque ou a Valesca. Junta aí o rap. Não acho algo discutível. Porque o professor lá deve lembrar do Kant e de como a apreciação estética é subjetiva. Aí procuro lá no meu balaio de preconceito, porque julgar o gosto de estético de alguém é muito over. E, sério, escrever over é over demais, hein?

Tipos brasileiros: o insatisfeito

Quem dera eu rompesse meu silêncio para escrever sobre filmes ou sobre livros ou sobre narrativas ou sobre qualquer dessas coisas lindas do mundo da ficção. Quem dera. Relutei muito em escrever, mas o motivo me pareceu interessante – nobre não. Ando à procura dos motivos nobres – tenho vivido alguns. Foi uma portuguesa que me levou a uma avalanche de pensamentos e me motivou a escrever. Uma portuguesa que olhou para o Brasil como poucos brasileiros fazem e senti como que acolhida nas suas palavras – sabe quando alguém fala ou escreve algo no que você se sente aconchegado?

Eis: http://www.cartacapital.com.br/cultura/o-brasil-nao-e-alegre-e-triste-diz-escritora-portuguesa-2178.html

O Brasil não conhece o Brasil. O brasileiro vive de ilusões nas quais ele mesmo decidiu acreditar. Como contei aqui, em uma semana estive nas três capitais do Sul e na cidade mais populosa de Santa Catarina. O que vi foi muita gente nas ruas, eram professores em frente a prefeitura de Curitiba, o pessoal da saúde fazendo barulho no Palácio Farroupilha e estudantes fechando ruas, os trabalhadores e agentes carcerários em Florianópolis e até, pasmem, os atingidos pelas cheias em Joinville. Era pela manhã, pela tarde e até pela noite, andando por essas cidades, a pé principalmente, e lá estava algum grupo e suas vozes alçadas aos ouvidos da maior quantidade de pessoas possível.

Tive tempo para observar, para pensar, para andar por ruas com tapumes e muros pichados e com cartazes colados anunciando paralisação de hospitais, falta de professores em sala de aula, ameaças aos serviços básicos. Além, é claro, de curiosas intervenções artístico-reflexivas sobre o corpo feminino, a Copa, o uso dos animais pelos humanos. As idéias, então, estão nas ruas – através, principalmente das palavras (faladas ou escritas) e das imagens. Andar por essas ruas me despertou a sensação de opressão. Os gritos, em geral, me oprimem.

Pelas ruas de Porto Alegre
Pelas ruas de Porto Alegre

Pensei, pensei, pensei. Alguma coisa todo este rebu queria dizer. Não fui longe… o brasileiro está insatisfeito. Segundo estatísticas, os governos e as declarações do próprio brasileiro, ele tem tudo (e mais muito), mas está insatisfeito. Como qualquer criança ou animal mimado. O brasileiro tem emprego, uma parcela gigantesca tem emprego-sonho público, tem escola, tem casa (que segundo diz o slogan é sua vida), tem bolsa-isso-e-aquilo, tem a sua cansada e velha Democracia, tem um governo popular de Esquerda, tem iPhones, tem internet, tem carro na garagem! (e faz questão de trocá-lo constantemente), leva o cachorrinho para tomar banho no pet shop, tem bolsas e tênis Nike… e não está satisfeito.

Abandonei o mundo da internet por questões muito pessoais. Sou uma atrasada na questão, nunca tive mIrc, durei pouco (uns dois anos) no msn e só comecei quase quando ele estava acabando, fui um suplício no Orkut. Abraço o mundo maravilhoso dos downloads. Acho fantástico o meio, porém muito mal usado. Entediei-me com as TLs tão repetitivas (pessoas são repetitivas e entediantes), com as vidas mirabolantes não-vividas, com as idéias geniais, com as fotografias desfocadas. Irritei-me com aviões desaparecidos, com maconha no campus, com fraude na estatal, com pesquisa que só diz o óbvio e depois desdiz o que disse, com reclamações dos sistemas públicos de transporte, de empresas aéreas e de internet/telefonia – este eterno, enfim, rodízio do prato do dia no mundo virtual.

Uma das melhores atitudes que se pode ter na vida é afastar de si o que – ou quem – te faz mal. Fui afastando aqui, afastando ali. Calo-me. Mantenho um olho atento, é claro. Há algumas TLs divertidas, há pessoas com boas coisas a dizer – mesmo que sejam a minoria – e da diversão e dessas pessoas eu não abro mão.

O brasileiro está insatisfeito. Ele nunca teve tanto e nunca reclamou tanto. Vi alusões ingenuamente doces daqueles que dizem que lugar de aula também é na rua, protestando, reivindicando (ocupando reitorias, talvez). Bem, eu nunca fui às ruas, e desde do ensino fundamental fiz abaixo-assinados, reivindiquei qualidade no ensino (será que sabem o que é isso?), protestei contra arbitrariedades dos professores, apontei faltas graves deles. Do ensino fundamental ao mestrado, sempre e sempre. Dei de cara com o corporativismo fétido dos professores de universidades (federais, privadas e estaduais). Enojei-me com o corporativismo arrogante e puxa-saco dos alunos em todos os níveis. De tudo, a cegueira, principalmente a ideológica, foi a que mais me horrorizou. Na escola, nem na universidade, não há interesse em ensinar a pensar – e aí saem doutores que se dizem politizados, cientes, esclarecidos. Pobrezinhos.

Nunca fui às ruas. Não sou melhor nem pior que ninguém. Mas nunca me calei. Não preciso gritar em frente a uma prefeitura para me fazer ouvir. Diriam alguns que sempre fui uma insatisfeita (ah! Eles se surpreenderiam com uma Fahya renovada e tão profundamente diferente), disse uma vez uma professora de português (eu não tinha nada contra ela nem a aula dela, mas como era uma boa leitora e um tanto à frente nos estudos à época, era um tanto blasé em sala) “o que a Fahya já está protestando lá atrás?!” (voz esganiçada, grosseira) – e eu, bem, eu tinha acabado de contar uma piada para um colega. Não foi a primeira nem a última vez que um professor se sentiu, de alguma forma, ameaçado por mim. Deus há de saber porquê.

Eu sou caxias, bem caxias, e chata. Só gosto das coisas como elas devem ser. Não sou nem nunca fui uma insatisfeita. Insatisfação é como a depressão dos dias de hoje. As pessoas não vivem as vidas que elas tinham em mente, elas não veem projetados na realidade os anseios e desejos que alimentaram nas suas cabecinhas quase vazias. Se eu não consigo o que quero, pelo meu esforço, pelo meu empenho, depois de quebrar muito a cabeça, agir e esperar – sim, na vida é fundamental – eu logo corro postar nas redes sociais um selfie depressive way of life, marco hora no psiquiatra, pego atestado, e continuo a vida normalmente. Vejam bem, depressão é uma doença (e séria) e assim deve ser tratada, acuso aqui os que dela não sofrem e a usam, indevidamente, como subterfúgio para suas vidas infelizes, suas covardias, suas incapacidades, suas preguiças e sua fuga da vida real que não é igual aos sonhos cor-de-rosa.

O insatisfeito brasileiro é esta pessoa que não encara a vida. Que foi mimadinho nos bancos de escola e nos sofás das suas casas. É o que sempre reclama de alguma coisa – ou o que só reclama mesmo. Entre as TLs repetitivas estava lá algo como uma comemoração (e não falo dos militares) sobre o Golpe de 1964 (só de citar me dá vontade de parar). Sim, era tanta, mas tanta, gente escrevendo e falando sobre que parecia algum tipo de comemoração. Eram os saudosos da ditadura. E não digo saudosos os que dela gostavam, não. A ditadura dava um sentido à vida de muitos brasileiros. Havia algo pelo que lutar (a liberdade, talvez, a democracia, quem sabe, nunca entendi direito se eles sabiam pelo que lutavam). Desde cedo aprendi o tesão com o qual as pessoas falavam sobre a ditadura. Até embarquei nele. Era uma paixão, tesão mesmo, quando eles citavam tempos idos (há pouco tempo, é verdade, visto que falo aí de 1993 a 2000 mais ou menos). E nem era o povo adepto das idéias da caserna. Eram os esquerdistas, o pessoal das humanas, os intelectuais do povo. Era tesão. Aí neste meio tempo eu fui lendo, pensando… já não aguentava mais ouvir sempre a mesma ladainha sobre a ditadura. Para pensar é sempre preciso ouvir mais, ver mais, escrever mais, torcer o pescoço para todos os lados. Quem ainda aguenta ver filme brasileiro sobre a ditadura? Aliás, como falar sobre filmes é sempre gostoso, me arrisco a afirmar que os filmes argentinos sobre a ditadura são imensamente melhores do que os nossos.

Sabe por quê? Porque há uma dor latejante, há um sofrimento, há a vitimização (sempre tão ruim e complicada para a construção ficcional) nos filmes deles. Nos nossos há este incômodo saudosismo. Este incômodo e eterno “nós tínhamos pelo que lutar” (acaba aí porque, como eu disse, não tenho bem certo se eles tinham clareza quanto a isso) que arrasta o brasileiro para uma relação anacrônica consigo mesmo.

O brasileiro… ah, o difícil e complexo “o brasileiro”. É aí que a portuguesa me aconchegou nas suas palavras. O Brasil não conhece o Brasil. O brasileiro não está nem aí para o brasileiro ali ao lado dele. Não vou me deter nos intelectuais do nosso país, nesta nata de classe social abastada, com suas salas com ar condicionado, com seus cargos públicos ou em mídias de qualquer tipo. Como eram os intelectuais e os artistas dos tempos da ditadura (parece que atualmente os artistas largaram o osso, podemos discutir imensamente sobre isso – eu adoraria). Eu sou burguês Mas eu sou artista Estou do lado do povo Do povo! O “cara que pensa”, o “cara que conduz a opinião pública”. Ou aquele carinha ali das humanas ou sociais que é todo de esquerda, brada vivas à Cuba, enfrenta PMs para salvaguardar a nossa Democracia, tem uma vida incerta, nem sabe se leu Marx, anda meio esfarrapado e fala em revolução. Felizmente, nem o IPEA vai dizer que estes são a maioria do povo brasileiro.

Pichação num muro n Armação, Florianópolis - pichar pode, assistir à Globo não.
Pichação num muro na Armação, Florianópolis – pichar pode, assistir à Globo não, me dizem os arautos do esclarecimento contemporâneo.

Contou-se um conto ao brasileiro: vamos dizer que zeramos a fome, vamos dar juros para que todos possam dizer que têm carro, vamos dar casas-vidas precárias para serem pagas em parcelas a perder de vista, vamos fazer mais e mais concursos públicos, vamos dar cotas por uma questão histórica, vamos projetar universidades fuleiras em uma meia dúzia de lugares onde não há nenhuma e… vamos fazer que está tudo bem. Sem revolução. Sem soluções reais. Com muita propaganda. Com o sorriso pelo qual o brasileiro é tão conhecido até no Instagram. Brasil, não mostre a tua cara.

O brasileiro quis acreditar no conto que ele mesmo conta por aí. E como o Brasil desconhece o Brasil, reclama da “mobilidade urbana” (só eu já criei antipatia absurda pelo termo que substituiu o bom e velho “trânsito”?), mas gosta de achar que está tudo tão bem. E torna-se um insatisfeito. Como a portuguesa tão bem falou, ao ver as realidades brasileiras para longe do nosso nariz de sul-sudeste, ou de grandes centros, civilizado com acesso a tudo e mais um pouco, ninguém cometeria o despautério de afirmar que está tudo bem. Para deixar claro: não falo dos mimadinhos que já têm tudo e estão ali fora a gritar por alguma coisa, procurando razões para a sua existência, secretamente desejando ditaduras para terem “pelo que lutar”. Falo daqueles que não têm. Dos que estão ao nosso redor e os quais fazemos questão de ignorar. Há uma passagem muito bonita da oração de Nossa Senhora do Desterro da qual falarei num próximo texto que trata disso: de pedir por quem tem menos do que eu.

Não, não é no sentido paternalista da coisa. É uma questão de consciência. Há méritos em dar dinheiro para quem não tem, através de programas sociais, para que possam, ao menos, comer. Mas isto não pode camuflar a realidade de não ter ônibus, não ter água encanada, não ter esgoto. E nem pode ser aproveitado por quem tem como comer, tem onde morar, tem boas condições e, cabendo nos parâmetros burocráticos, vai lá todo mês sacar seu dinheiro “porque tem direito”. O brasileiro insatisfeito e triste mascara sua realidade e ignora sua consciência.

Não vejo pessoas que pensam em como o seu trabalho, o seu estudo e o seu empenho na vida, podem mudar e ajudar a vida dos outros. As pessoas trabalham para elas, para adquirir bens, principalmente. Como disse a portuguesa, o Brasil é capitalista – ao extremo. Nem crianças mais sentem medo dos nossos comunistinhas. Ah, se elas descobrissem o sentimento deliciosamente inenarrável que é saber que você faz a diferença, com o teu conhecimento e com as tuas atitudes, na vida de outras pessoas! Ah, se elas soubessem! Mas o mimado-selfie-depressivo-insatisfeito não tem bases mínimas para iniciar qualquer coisa que o leve a alcançar este sentimento. O Brasil de Rondônia e Acre debaixo d´água, isolados, sem comida não comove o atribulado trabalho-estudo-pego-ônibus-cheio-tenho-smartphone-e-como-no-McDonald´s.

O brasileiro insatisfeito tem me causado aversão como há tempos não sentia por algo. E como eles são assíduos usuários da internet (e são os que pensam que todo mundo tem internet), tenho me afastado comedidamente dela. A portuguesa, ao falar do sentimento de culpa dos portugueses, me fez pensar que um pouco de culpa na cabeça destes brasileiros insatisfeitos não faria nenhum mal. Talvez assim eles tivessem real motivo para uma depressão.

Nunca vi ninguém que não tivesse nada que se mostrasse insatisfeito. Ninguém.

Quando há adolescentes que não sabem o que é um partido político (fato real) ou na narrativa da portuguesa sobre não ser entendida no Brasil mesmo falando a mesma língua, não posso acreditar na propaganda, nem nas fachadas, nem no crédito fácil para eu ter um carro. Não posso. Para uma caxias como eu, é quase “agir conforme o dever”. Só posso discordar da portuguesa quando ela afirma que esse povo que está nas redes sociais é mais politizado. Ser politizado está além dos posts enjoativamente compartilhados – sobre qualquer coisa. E não há ninguém fazendo nada por isso. Nos meus tempos de escola, uma vez ouvi que educação nunca foi prioridade para nenhum governo porque a massa ignara é mais governável. Dói saber que isso ainda é verdade. E não me venham com índices de alunos nas universidades, de bolsistas do PRONATEC, etc.. Pois quem tenta responder com isso desconhece, de antemão, o que significa Educação.

Que um dia estudem esta patologia coletiva do saudosismo da ditadura e possam curar parcela da população – parcela que, curiosamente, cresce devido aos professores e opinadores públicos que proliferam seu tesão por aí. Que o brasileiro aceite sua tristeza, sua realidade e suas vidas, a falsidade das propagandas – aceitar dói menos, não é mesmo? Aquela outra parcela da população, a que não sai às ruas insatisfeita, é a que tem me interessado. Aquele que tem menos do que eu, que precisa mais do que eu seja lá do que for, é que desperta meu coração.

Não é preciso ser portuguesa para não ser otimista sobre o futuro do país, me basta ver, de perto, realidades diferentes da minha (uma dica: nem precisa ir até a Amazônia ou ao Pará). O “país do futuro” encontrou seu presente e não gostou de tudo o que ganhou porque quer… quer o que mesmo?

Os começos, os fins e os finais

Talvez seja a primeira vez que eu cumpro com a promessa de um post. Foi num texto sobre os filmes do Oscar que citei o desejo de escrever sobre narrativas. Tenho, desde então, me apegado a pensar sobre elas – e em mais um meia dúzia de coisas. Tenho, felizmente, pensado muito muito muito sobre poucas coisas.
Talvez, enfim, não seja somente sobre narrativas. Comecei me perguntando se havia uma crise nas narrativas – principalmente audiovisuais – ao tentar assistir ao Trapaça (American Hustle). Era mais um daqueles filmes que começa num ponto da história (ah! como eu sinto falta de poder escrever estória!), depois a história volta a um ponto antes daquele (ou ao ponto inicial “de verdade”). Sabemos que em vários casos há um impacto na alteração da ordem cronológica dos fatos. Nem estou falando em filmes como 21 Gramas e Babel que trabalham com a edição acima da narrativa. Eis que nem lembrava onde havia começado minha cisma com essa possível crise quando, ontem, assisti The Fifth Estate. Ele também começa numa sequência (ah! que saudade do trema!) e volta a um passado pouco distante para “começar” a história. A primeira sequência, no seu devido ponto cronológico, aparece depois na íntegra. Sobre o filme? Benedict fez um trabalho sensacional. O Matthew (do Downton, que eu nunca lembro o nome) também dá o ar da graça. Julian Assange é um personagem e tanto, vale pelo filme.
Mas não é hora de falar sobre personagens.
Na semana passada estive nas três capitais do Sul do país e na cidade mais populosa de Santa Catarina. Viajei de carro, ônibus e avião. Andei muito a pé. Fotografei muito. Pensei ainda mais. E eis que uma pessoa muito conceituada no mundo da criação disse algo que me acompanhou por dias e que fiz questão de colocar em prática no meu último compromisso da semana (que adentrou esta semana, pois já era domingo).
Dizia ele: se você vai fazer algo que é clichê, melhor não fazê-lo. Uma frase simples. Uma idéia simples. Mas de muita sabedoria e essencial para quem cria. Não vem ao caso sobre qual área das artes ele se referia. Eu mesma pude aplicá-la em outra área dias depois. Em qualquer área da criação, não fazer o clichê é muito melhor do que fazê-lo. Se nada inovador (outra expressão bastante presente na última semana) ou criativo lhe ocorrer, resista a recorrer ao clichê. Aliás, pode até ser expandido para áreas que consideramos menos criativas – o mundo acadêmico, por exemplo.
Ficou evidente que o recurso de começar por um ponto para depois retomá-lo é realmente uma crise, ou, ainda, a demonstração de insegurança. Se há uma boa história, comece pelo começo (ouvi algo assim esses dias, talvez tenha sido no Fifth Estate). Agora, se você acha que pode não ser uma boa história… tente não demonstrar criando firulas narrativas.
Depois da frase sobre o clichê lembrei de duas expressões que eu gosto de contrapor. Tem quem diga que tudo o que é demais enjoa (ou expressões semelhantes). Pois eu discordo. Tenho cá pra mim que certas coisas até quando são demais continuam deliciosas. Porém, aquela máxima “menos é mais” me convence. Tenho implantado muitas e profundas mudanças na minha vida e o “menos é mais” ganhou um espaço importante. Nas histórias, menos também é mais. Numa das viagens comecei a ler o Drácula, do Bram Stoker. Era um livro que eu via nas prateleiras da minha mãe, desde criança. Eu via e desanimava com a quantidade de páginas. Também nunca fui fã de histórias de vampiros (apesar de ter ficado impressionada com um filme de suspense, que assisti quando criança, que tinha vampiros mas nem lembro qual era). Achava que era um daqueles livros ostentação, que as pessoas dizem que leram só para todo mundo dizer “óóó” pela quantidade de páginas (o que, anos depois, vi acontecer). Como levar um livro daqueles na bolsa? Só para ler em casa. Mas encontrei-o gratuitamente na Amazon. Aí sim teria a oportunidade de lê-lo.
Por que citei o Drácula? Porque esses dias ouvi uma crítica às apresentações de personagens. Juntando-se a isso o “menos é mais” teria todo sentido. Mas Bram Stoker descreve cada detalhe da paisagem, não economiza adjetivos para descrever as ações, detém-se nas roupas dos personagens. Ali, mais é mais. E a história começa do começo. Talvez, enfim, as histórias não precisem de menos nem de mais. Talvez as histórias precisem apenas ser contadas. Sem clichês – afinal a vida já está cheia deles -, com começo, meio e fim – mesmo que os fins não sejam finais.

Aliás, estou em busca de histórias sobre as impossibilidades (do coração, de preferência). Nestas, os fins que não são finais são indispensáveis.

 

(ps: não estranhem os sumiços e matem a saudade lendo os textos mais antigos; prometo voltar a escrever com frequência e sobre essas coisas bobas da vida – me aguardem)

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

Acima ↑