Acerola com laranja

Bebia um acerola com laranja no balcão. Na esquina, via o calçadão a perder de vista. Pensava. Gestava meu tempo. Tempo, tempo, tempo. Finalmente havia encontrado onde acerola com laranja não era de polpa. E a idade, de fato, me deixara ainda mais exigente. Via a esquina. Pensava. Centrava minha vida naquele balcão: fora do teto, sol calor, três vias à disposição. E meu desejo era permanecer naquele balcão. Pensava. O temporal do dia anterior fora pontual: às 18 horas. O calçadão virara uma cachoeira. Os ônibus que dobravam a esquina da rua lá de baixo seguiam uma rua que desaparecera sob a água e faziam ondas. Ondas sempre me lembram o mar. Mar sempre me lembra a vida. A roupa encharcara antes da esquina, eu temia pela integridade dos objetos na bolsa. Sobrevivi sem nem uma bela dor de garganta. Pensava. Se eu não sabia o que fazer com o meu tempo, o que eu estava fazendo com a minha vida? Não era bem assim… pensava. Quantas vidas eu tinha – hoje, só hoje, durante o tempo deste copo de acerola com laranja? Pra que tantas vidas? Eu preferia assim. Eu gosto delas. Quando se escolhe seguir vários caminhos ao mesmo tempo demora mais para chegar onde se quer. Tem quem prefere os caminhos às chegadas. Mais ou menos como é o sexo. Pensava. Calor absurdo para aqueles dias. Absurdos atraem absurdos. É a parte boa da vida. Pensava. O copo quase vazio. Quando era uma só, um desejo, uma casa, uma cidade, não era feliz. Quer dizer, era feliz mas vivia tragada pelo escuro. O escuro em nada se parecia com o céu lá fora – hoje ele exigia ser contemplado. Os paralelepípedos brilhavam. Eu queria seguir os três caminhos que surgiam naquela esquina. Pensava. Não havia mais acerola com laranja. Dizem que é preciso planejar. Não sou boa nisso. Lá iria eu pela direita da esquina. Daria a volta pela rua de cima, desceria pela segunda opção e seguiria pela terceira. Alegremente. Ansiando absurdos. Como ontem durante o temporal, tremendo de frio disse para mim mesma: sorria.

As filas de quatro patas e os rumores

Já havia se espalhado não mais pela rua toda, mas pelo bairro, talvez já por toda a região sul da cidade. Os donos das quatro patas vinham às dúzias, filas dobravam as esquinas. De dia, de madrugada, o tempo todo. De manhã cedo mal abria a porta eu já me deparava com os primeiros da fila. Num começo de tempestade no meio da madrugada, ao levantar para tirar as redes da varanda já encontrava os que guardavam seus lugares na fila. Eram gatos, cachorros… de várias cores, tamanhos, com aqueles olhares doces e compridos.

Não sei se foi fofoca, disse-me-disse, ou se a coisa espalhou-se porque passavam aqui e viam a vida que os nossos levam. Só sei que agora todos sabiam que nossos quatro patas (e duas patas e duas asas) eram muito amados e bem tratados.

Antes da coisa fugir ao controle, foi um gatinho cinza magricelo. Deitou no portão lateral num dia de calor escaldante e ficou. Eu tentei espantá-lo quando vi de longe porque pensei que era mais um pretendente às nossas gatas. Aí reparei que ele mancava da patinha direita da frente. E assim os portões de casa foram abertos. Água, ração, caminha, a garagem toda dele. Em minutos ele já parecia fazer parte dali, liguei para veterinário, vimos tudo o que podia ser feito. E assim eles foram aparecendo. Não havia mais terreno para os nossos cachorros, nem casa para as nossas gatas. Eram latidos e miados exigentes que queriam portas e portões abertos.

A nossa gata mais louca subia presunçosa à janela, olhava para a fila em volta de casa e narrava sua boa vida boa. Sim, elas comiam peixe feito pela melhor cozinheira. Claro, dormiam todas as noites na cama. É verdade, quando faz friozinho ela coloca a coberta grossa de lã no sofá e nós nos refestelamos. Ah, sim, ração com nuggets, sachês de salmão e cordeiro. Também, cenoura, iogurte, milho cozido tiradinho da espiga e dado na boca. É, tem lá seus pontos negativos, aquelas horas de terror no banho quase sempre, as idas ao veterinário que tira a temperatura, limpa as orelhas, dá vacina. Sim, naquele carro ali, passeamos, viajamos e exigimos que não seja na caixinha de transporte. Na rede? De vez em quando. Eles não deixam, mas quando dá vontade a gente pula nas mesas, escrivaninhas, na TV, escala os armários e guarda-roupas. Ah, tem leite condensado também, toda vez que fazem doces! Água fresca é só pedir, dão na hora. Caixinha sempre limpa ou ainda a gente pode passear e fazer pelo jardim. Sim! Subimos em árvores e afiamos nossas unhas nos seus troncos! Não sou muito calorenta, mas quando quero tenho ventilador só pra mim. Tem uma que é friorenta e dorme debaixo da coberta, com a cabeça no travesseiro, como gente! Quando ela chega, me pega no colo, coça minha barriguinha, me aperta, me joga pro alto e pega no ar.

E assim foi se espalhando e as filas crescendo… até a tartaruga, quando não estava de nariz empinado, gostava de ir até a janela e lá de dentro do aquário destilava superioridade. Tenho esse aquário enorme só pra mim, sim. Camarão e ração, todo dia. E agora até consigo enganá-los, porque é só eu pedir comida que todos dão. Antes eu, bobinha, só pedia uma vez por dia para um deles. Aí eu vi que se fizesse meu estardalhaço n´água quando escurece, todos me dão. Isso, passo o dia aqui boiando no meu banho de sol. Eles sempre trocam a água e eu posso nadar e nadar e nadar.

O psicopata, o cão que já é maior que eu, com esvoaçantes orelhas de dumbo corria desvairado de um portão a outro gritando: estão vendo tudo isso?! É meu! Tudo o que tem aqui é meu! Eu corro louco para onde eu quiser, quando eu quiser, posso até perder o sono de madrugada e ficar correndo atrás das sombras latindo alto! Estão vendo as árvores? Pois eu como pitanga, acerola, maracujá, goiaba, jabuticaba, tudo diretamente do pé! E quando quero é só ir na janela da cozinha e fazer a cara que eles acham lindo e ganho banana todo dia! Claro, tem biscrok, ração, baldes e baldes de água fresca. Eu sempre ganho camas enormes (ó o meu tamanho, né, e como não é só pra mim…), sofás, travesseiros e destruo tudo! Só para vê-la chegando com mais presentes pra mim! De vez em quando ela me leva pra dentro: quando está muito quente eu deito no piso de cerâmica da sala e ela me dá gelo na boca, quando está muito frio eu deito no tapete da sala de TV e ganho leitinho quente – como quando eu era pequerrucho! Os outros também ganham tudo, a gente não tem motivo pra brigar. Mas eu fui criado com as gatinhas, com as quais eu adoro brincar, e aprendi a comer milho cozido direto da espiga! Nas férias eu ganho todo dia! Ah, quando faz frio e ficamos aqui fora ela vem e acende o fogão à lenha da varanda fechada, coloca nossas cobertas de lã, deita ali conosco e ficamos no quentinho. Ah, sim, desde quando eu era pequenino ela me chamava para deitar no colo dela e eu só consigo dormir bem quando ela vem e senta na varanda, no chão mesmo, ou no banco, e eu posso deitar no colo dela! Quando não durmo no colo dela, sonho com isso! Eu posso lamber, morder, agarrar a perna dela com as duas patas pra ela não ir embora, pedir companhia para correr pelo quintal todo, que ela não briga comigo e faz tudo o que eu quero! Eu sei que eles não gostam quando eu destruo as plantas e vasos do jardim, mas é que assim eles ficam ainda mais tempo comigo. Eles também não gostam quando os outros cavam buracos sem fim perto das calçadas, mas a gente se diverte. Claro, tem banho que eu adoro! Desde pequeno tomo banho de mangueira com ela e nos divertimos muito! Quando está frio eu tomo banho lá dentro com água bem gostosa. Ela usa dúzias de shampoos e sabonetes pra gente ficar bem limpinho – porque eu me sujo demais, eu sei. Eu gosto tanto de banho que quando os outros estão no banho eu entro e fico olhando. Também adoro ir ao veterinário! Alguns aqui não gostam muito porque tem injeção. Mas eu sou corajoso! Eu adoro passear de carro e na coleira! Quando eles colocam o carro lá perto do portão e bobeiam deixando a porta aberta eu já entrou e vou me refestelando! Sim, também vamos pra praia! Fazemos rodízio! Lá é menor mas é bem gostoso, tem areia pra todo lado!

O passarinho que é meigo, não gosta nem de contar vantagem do seu belo canto, também deu seus gorjeios. Sim, banho, banho de sol… alpiste, espinafre, galinhos verdes todos os dias. Ela leva e traz minha gaiola, protege do vento, dos pernilongos malvados, coloca areia. E me chama de Nelson porque quando vim pra cá era muito boêmio. Agora tenho companhia, fico ali durante o dia conversando com curruíras, pardais, rolinhas, bicos-de-lacre e sabiás que vêm todo dia comer nos comedouros do jardim e do quintal, tomar banho nas bacias. Meus amigos ficaram encantados com a nova vida aqui, me contaram horrores do que já passaram em outras casas.

Eu procurei me conformar. Se fosse um negócio, diria que a propaganda é a alma do negócio. E por mais que meu coração seja ainda maior que os terrenos que tenho, sofro quando não posso dar tudo para todos, acolhendo-os como já fiz com estes – e com tantos outros que já partiram deste mundo mas que vivem aqui nas minhas belas e doces lembranças. Agora é minha vez: eles nunca foram ao cinema comigo, é verdade; também nunca jantaram naquele restaurante caro, ou foram naquela festa. E melhores amigos nunca tive. Sempre atentos ao meu humor, às minhas tristezas, sempre felizes e sorridentes (sim!) com disposição de sobra para me fazer companhia. Me ouvem como ninguém e para eles já contei coisas que viv´alma de duas pernas neste mundo nunca saberá. Não me cobram, não ficam “de mal”, não esquecem de convidar ou de simplesmente ligar para saber como estou – sei que se pudessem, ligariam e eles me ouvem mesmo por telefone. Tardes chuvosas, manhãs ensolaradas, dias longos e cansativos… com eles ficam perfeitos.

Para muitos de duas pernas já dei quase tanto assim de mim, já dei amor, dei cama, dei comida, dei carinho, dei colo, dei meu tempo, levei ao médico, dei minha companhia, meus ouvidos, minha total atenção. Dou pedaços da minha vida. Enquanto os quatro patas (e os de asas!) nunca me abandonaram, nunca deixaram de falar comigo, os de duas pernas viram a cara quando me encontram nas ruas, me bloqueiam nas redes sociais, cortam relações duradouras ou curtas e intensas, ao contrário daqueles, estes espalham pelos quatro ventos coisas ruins a meu respeito. E assim também correm bairros e cidades. Mas as filas de quatro patas me dizem muito mais. Curiosamente, há filas dos de duas pernas também. Eu confio e acredito nos primeiros. Nestes últimos, não vejo porque depositar amor, crenças e esperanças.

Maratona Oscar – Her

Falar em injustiça na lista dos indicados ao Oscar é clichê. Parece uma coisa de sorte mesmo. Tom Hanks, Robert Redford, Joaquin Phoenix, Emma Thompson são alguns deste ano. Mas a mais injustiçada foi a Scarlett Johansson. É uma situação complexa, a academia não indicaria a melhor atriz uma atuação que é só a voz da atriz o filme inteiro, ao mesmo tempo, não é qualquer atriz que aceita um papel desses e que, sinceramente, faz um trabalho excepcional.

Sim, estou falando de Her. É mera coincidência que os dois últimos filmes que me arrebataram são com a Scarlett. Ela é quase uma Marilyn em alguns sentidos. E talvez por isso eu goste tanto dela. Os dois papéis, em Her e Don Jon, são papéis que a maioria esmagadora das atrizes (principalmente as de primeiro escalão) dispensaria na hora. Scarlett não tem medo dos riscos da profissão. Scarlett é Scarlett, já fez seu nome, faz personagens que usam e abusam das suas melhores qualidades e adora um desafio. Ah, e dá entrevista dizendo que come um hamburguer daqueles cheio de ketchup. Ah, e tem fotos suas divulgadas na internet através de um hacker de celular e se sai com “Conheço meus melhores ângulos”. Scarlett é das minhas. Bem, chega de babação pela Scarlett, né?

Her foi amor – e não foi à primeira vista. Acompanhei algumas coisas que saíram na mídia antes do lançamento, mas quando fui assistir só lembrava que era com o Joaquin Phoenix (aiai…) e com a Scarlett (só isso já bastava para me convencer de muita coisa). Nem lembrava, como eu prefiro, da sinopse nem nada. E foi um baque.

Joaquin dando inveja em nós pobres mortais com um computador que digita o que ele fala (meu sonho de consumo há anos!). A humanidade não é assim tão esperta, ainda não inventou isso. E dando mais inveja ainda com o seu OS. Eu queria ambos.

É futurista. É melancólico (tudo que segue este padrão de futurismo tem isso, né?). É lindo. É uma fábula. E foi lá quase pela metade do filme que eu me senti arrebatada. Como não lembrar de Fahrenheit 451, o do Truffaut, aquele que bate e rebate com Teorema, do Pasolini, como meu filme favorito? Fahrenheit 451 é baseado na obra do Ray Bradbury, a qual eu ainda não tive a oportunidade de ler. Mas sempre quis muito ler qualquer coisa do Ray e eis que mês passado encontrei Os Frutos Dourados do Sol (numa edição do Círculo do Livro) na prateleira dos baratinhos do sebo. Her concorre com Melhor Roteiro Original, mas a concepção do futuro dele lembra e muito as obras do Ray – e Fahrenheit, é claro.

A melancolia, a solidão das pessoas, a relação com a palavra escrita, os avanços da tecnologia, o futuro sem localização temporal, em tudo isso há semelhança. Entre os filmes a fotografia e a direção de arte comungam também (e Her não foi indicado à fotografia, vejam só). Aliás, Her concorre em Direção de Arte e já é meu favorito (por mais que digam que O Grande Gatsby vai levar). E talvez por isso o filme não arrebate de cara. Joaquin está ótimo em mais uma escolha a dedo na sua tumultuada carreira.

Apaixonar-se por um OS num futuro próximo. Por aquele ser que faz praticamente tudo por você, via voz, que está ali quando você precisa, e que ainda é genial, compõe, lê Física, manda teu livro para um editor. Sexo? Também tem. E é sexo que não precisa mão aqui e ali, suor, roupas jogadas, posição X ou Y, mas, felizmente, não dispensa os gemidos e suspiros. Até do sexo “futurista” eu gostei. Aliás, gostei até do videogame realmente interativo. Lembram da TV interativa em Fahrenheit? Então, a proposta é a mesma, só visualmente que a realização é diferente. Fiquei pensando que, para além de uma tecnologia de ponta, pensam a interatividade com a tecnologia como algo a se concretizar no futuro. Ray já pensava na interatividade com a TV, em Her é com o videogame (e com os OS). Provavelmente será a mais frustrada das previsões para o nosso futuro, pois o máximo que conseguimos de interatividade hoje é telefonar para o Fala que eu te escuto e os comentários (infames) em posts e reportagens na internet. Ou seja, para chegar aonde a ficção (literária e cinematográfica) almeja, levará muito mais tempo.

Ontem ainda lia um conto do Ray que se passava em 2003 e as personagens estavam de mudança para Marte. Mas nos contos do Ray, e em Her, o futuro guarda muita semelhança com o nosso tempo. E a principal é com os sentimentos. O bombeiro que ateia fogo em Fahrenheit apaixona-se por uma moça subversiva e sente-se impelido pela curiosidade pelos livros, objetos proibidos. O personagem de Joaquin sente-se só, também apaixona-se (pelo OS-Scarlett), e tem todos os sentimentos contraditórios que só as boas pessoas têm num relacionamento. A moça do conto pretende viajar a Marte para se casar. Independente do futuro, o que move os personagens são os sentimentos.

Her é mais um ótimo filme com um roteiro pouco provável de fazer sucesso protagonizado pelo Joaquin. O cinema sempre conta tantas histórias de amor, às vezes precisa dar um fôlego novo para elas. E, de lambuja, fazer uma crítica ao mundo cada vez mais com os olhos (e o coração?) enfiados nos OSs da vida.

Só um comentário sobre Don Jon: é divertido! Levitt conseguiu realizar um trabalho de primeira. Só tem uma coisa ali que eu achei que poderia ser diferente. Não é futurista, Scarlett está em carne (e que carne!) e osso numa personagem das que mais se encontram aqui pelo nosso mundo, e é tão crítico sobre as relações pessoais quanto Her. Num papel relativamente pequeno mas muito forte, Julianne Moore, honra uma pequena parcela de mulheres (que nem sempre se encontram só numa “idade madura”) que ainda se encontram neste mundo. Se têm alguma coisa em comum? São ambos super sensíveis às coisas que se passam aqui dentro de muitos de nós. Porém, não se iludam, filmes não fazem as pessoas voltarem os olhos para aquilo que escolheram ignorar.

 

(ps: comecei este texto mais de uma semana antes da data de publicação, tive que interrompê-lo (coisa que detesto) por motivos de força muito maior; eis que tinha que publicá-lo e confesso que Dallas Buyers Club juntou-se à American Hustle – não passei dos primeiros minutos – e já assisti Save Mr. Banks e Prisioners (o primeiro sem muitos comentários, pelo segundo eu não dava nada mas valeu a pena, principalmente pelas atuações)

As vidas atrás do balcão

 

Lia agora Os Sofrimentos do Jovem Werther (nem eu imaginava que um dia leria, mas, enfim, tenho motivos para tal e este fato com os pensamentos e atos de ontem renderão um post) e encontrei, entre tantas frases e parágrafos contundentes: “Aliás, nesse mundo, não é fácil compreendermos uns aos outros.” e já antes de começar a ler o clássico eu havia colocado na pauta do blog o post de hoje (que foi atropelado pelo do Capitão Phillips).

O jovem Werther, pasmem, e eu somos muito – muito – parecidos. Pensamos e nos sentimos da mesma forma sobre tantas e tantas coisas. Tenho no sangue a tendência às fortes emoções e a sofrer mais dos males do coração do que do corpo. Já muitos atestados de óbitos da família poderiam vir com “tristeza” como causa mortis. Quando Werther descreve o encanto pelo lugar que ele escolheu para viver consigo compreendê-lo perfeitamente. Neste lugar ele encontra pessoas “simples”, pessoas que trabalham, que não têm sobrenomes pomposos nem títulos, nem instrução. A cena do irmão de quatro anos que segura um bebê enquanto esperam a mãe, assim como a conversa com o moço que conserta o arado são exemplos disso. Sim, poderia ser apontado como a superioridade de alguém que olha para um desvalido – mas não me parece o caso.

Queria falar disso… de olhar os outros. Tenho colecionado histórias, fatos, tenho observado há um longo tempo na minha vida as pessoas que me cercam. Não falo das pessoas que conheço – muitas vezes dessas não quero nem saber se continuam vivas. Falo dessas pessoas das quais não sabemos os nomes, pessoas que nos servem, nos atendem, fazem serviços que garantem nossa segurança e a limpeza dos lugares que frequentamos. Não me venha dizer que você sabe o nome da moça que limpa o andar do prédio onde você trabalha. Não sei se é coisa “dos dias de hoje”, se é o individualismo capitalista ou qualquer bobagem semelhante – duvido que seja. As pessoas não olham umas as outras, não é mesmo?

Em muitos casos me sinto constrangida. Não sei, por exemplo, mandar nas pessoas, dar ordens, exigir. Quantas vezes você já foi grosso com a atendente de telemarketing da tua empresa de telefonia? Quantas e quantas vezes vejo pessoas reclamando de terem sido mal atendidas nesta ou naquela loja? Em contrapartida, quantas vezes você já fez mal o seu serviço?

Para ser mais clara, vou citar umas cenas que já presenciei.

Vinha caminhando pela avenida mais movimentada da cidade, numa viagem, final de tarde. Em frente a um banco, um moço e uma moça uniformizados varriam a larga calçada.

– Ó só isso. Ó. – ela fala e aponta com a vassoura para que o rapaz veja do que ela fala.

Eu me viro para olhar também.

– Isso aí é porque a mãe dele não varre, né. – responde o rapaz ao ver um bom punhado de papel picadinho bem picadinho espalhado pela calçada.

Fiquei ali pensando… nem sei se a mãe dele (ou dela) ou ele mesmo não varre. Mas, definitivamente, ele ou ela não pensou que alguém teria que varrer aquilo que ele poderia simplesmente ter jogado no lixo.

Estava na beira do mar, já há dias procurando um vendedor de algodão doce e barquilha quando finalmente naquele dia surge um. Ele faz propaganda, diz que foi feita na hora pois havia vendido tudo de manhã, voltara para fazer mais e poder voltar para a praia para vender.

Conversa vai, conversa vem, eis a história dele: ele mora em Curitiba, vende barquilha lá pelo Jardim Botânico, e há dez anos aluga uma meia água em Barra Velha para vir vender na praia durante dois meses. Lá vende a quatro reais, aqui a dois. Só de imposto para a prefeitura para conseguir a licença (ele mostra a camiseta) são duzentos reais. Explica como elas são feitas, num processo que dura três horas. A pele tostada de sol. Diz que vale a pena, mas que é cansativo, ficam longe da família e tal.

Sim, eu converso com as pessoas. Tenho, ainda, uma baita dificuldade com isso. Contudo, umas idas e vindas me fizeram até apreciar e desejar isso. Se eu não falasse com ele, teria apenas tirado uma nota de dez reais, escolhido minhas barquilhas e nem olhado na cara dele. E não é assim que acontece quase sempre?

Parei num desses lugares da Penha onde tem caldo de cana, toalhas, artesanato e muito mais. Entramos, pedimos caldo e começamos a ver as coisas. Eu me apaixonei de cara por umas bolsas e do nada surge uma menina ao meu lado. Uns dez anos mais ou menos, pergunta se pode me ajudar. Eu solto a clássica “estou só olhando”. Aí em seguida ela diz que tem mais modelos numa prateleira. Escolho duas e uma delas peço para embrulhar. Vou olhar as almofadas enquanto quem está comigo olha uns bancos de madeira, a menina é solícita, mostra esse, aquele – o que imediatamente irrita quem está comigo que não gosta do tipo de vendedor “que fica em cima”. Como sei disso, chamo a menina para me mostrar outras coisas. Ela pergunta de onde sou, conta da tia, conta que mora ali na Penha e estuda em Navegantes.

Desde o primeiro instante a menina chama a minha atenção. Muita gente não sabe, mas comecei a trabalhar mais ou menos com a idade dela. Cumpria horário e era a melhor funcionária que minha mãe já teve. Como a menina, sabia os preços de cor. Me orgulhava muito do que fazia. Não pensem que porque a loja era da minha mãe que aquilo não era a sério. Era a única a ficar sozinha em determinados horários. Ainda me orgulho muito de por muitos e muitos anos (até a graduação nos dias que estava lá e nas férias, inclusive nos horários estendidos de final de ano) ter trabalhado como atendente, caixa, balconista.

Um dia no Mercadorama da Praça Osório, em Curitiba, fui passar no caixa e a moça me diz “Bonita as tuas unhas”. Eu sorrio e “Obrigada. As tuas também.” (pois fazia uns minutos eu estava reparando nelas). “Como você faz esse efeito?” eu pergunto e ela sorridente me explica como faz o efeito craquelado com um palito de laranjeira. Não havia, ainda, na época os esmaltes que já fazem este efeito. Não recordo direito o nome dela, acho que era Marlene – realmente não sou boa com nomes.

Fui até o Imperatriz do Beira-Mar, em Fpolis, para comprar guloseimas enquanto esperava minha companhia para o cinema chegar. No caixa, a moça diz “Bonita a tua bolsa.” eu agradeço e ela pede para vê-la, pois faz crochê. Conversa vai, conversa vem, ela me conta que só fazia isso, pois adora fazer crochê, faz toalhas, chinelos, bolsas, mas que como teve que pegar o emprego não sobrava mais muito tempo. Semanas depois fui lá e fiz questão de ir no caixa dela e ainda apresentei para quem me acompanhava. Disse que volta e meia passarei lá para saber se ela já tem alguma bolsa pronta para eu ver.

Eu poderia elencar mais umas dúzias de exemplos. Além da loja da minha mãe já trabalhei em outros empregos que lidam diretamente com o público: é, sem sombra de dúvida, o mais difícil. As pessoas não te vêem. As pessoas esperam ser servidas porque estão pagando, simples assim. E usei as histórias acima para mostrar o que muita gente sequer pensa: por trás de cada pessoa há uma história de vida, há desejos e frustrações, há necessidades, dons, alegrias e tristezas. Contando com você, quantas pessoas você conhece que fazem exatamente o que queriam estar fazendo profissionalmente? Ou devemos pensar que pessoas nascem com vocação para serem caixas de banco, de supermercado, atendentes de padaria, frentistas? Felizmente a maioria ainda tenta de todo jeito fazer o seu melhor. Liguei hoje para a operadora para tentar resolver um problema da minha internet, levei semanas para me dispor a isso. A atendente ficou meio sem paciência depois de tantas tentativas para solucionar, via telefone, algo tão complexo. Eu a compreendo, minha relutância em telefonar era justamente por isso. Por que eu a culparia? Eu não a conheço, nem sei se o filho dela acordou hoje com febre ou se o namorado não respondeu aquela sms ontem à noite.

Não olhamos os outros… pior ainda, não conversamos uns com os outros. Assim, Werther, fica ainda mais complicado compreendermos uns aos outros. Cada pessoa é um acúmulo de histórias e fatos, e tem quem anda por aí achando que uma balconista é muito diferente de si – só porque é balconista. Eu disse para quem me acompanhava que também não gosto de atendente que fica em cima da gente, mas eu via a menina orgulhosa de estar ali, queria mostrar “serviço”, como entendo muitos atendentes que correm quando você entra na loja porque no comércio há dias que não há ninguém e o tédio é um saco. Eu imagino que muito caixa de supermercado não está ali porque quer mas porque é uma área que tem muita oferta de vaga – e sei que por isso pagam muito mal.

Sempre fui muito quieta e fechada e por isso as pessoas podem estranhar este assunto aqui. Mas faz tempo que mudo meu jeito de ver o mundo e, como Werther, observo essas coisas e pessoas que passam pela minha vida. De jeito nenhum aceitarei a acusação que há superioridade em olhá-las dessa maneira. E sei que devo muito disso à minha mãe que sempre tratou com respeito e de igual pra igual todas as pessoas que cruzaram e cruzam a vida dela. Aliás, ela adora uma conversa também, o que ajuda muito. Foi assim que comecei a ouvir e a olhar para as pessoas. Na loja, ela conversava e sabia as histórias de todos que por lá passavam. Devemos, ambas, isso ao meu avô, pai dela, que fazia do balcão da oficina dele um recanto de conversas com estranhos e conhecidos. É assim que se aprende o que é respeito. Eu poderia escrever páginas e páginas sobre os maus tratos aos animais, mas, sabe, tratar bem animais, plantas, pessoas pra mim é tudo a mesma coisa. Porém, vejo tanto em defesa disso e daquilo, e muitas dessas defesas vêm de pessoas que não olham nem na cara do frentista e vivem nas redes sociais falando mal deste ou daquele.

Minha mãe é amiga da senhora que ajuda a cuidar da casa. É amiga mesmo. Eu sei tudo sobre a família dela, temos conversas animadas e minha mãe até se desespera quando eu pego e começo a ajudá-la na limpeza quando estou na casa dela. Minha mãe só tem este auxílio por questões de saúde e eu nunca, jamais, me neguei ou deixei de fazer o serviço de casa. Não é raro me ver neste tipo de situação e, sim, as pessoas estranham muito. Como diz o imã da minha geladeira, gentileza gera gentileza.

Talvez seja a educação, talvez o respeito e provavelmente tudo isso tenha despertado meu contínuo interesse em personagens, mesmo que esses da vida real. Que o diga a cabeleireira com quem cortei o cabelo semana passada: será a protagonista do meu próximo livro. Vidas… vidas. Gigantescamente assim: vidas. E, ah!, a vida muito me interessa. Mesmo que vá para a ficção.

Maratona Oscar: Capitão Phillips e o negro africano contemporâneo que rompe territórios

Talvez seja apenas um desfilar de clichês numa fórmula pronta e de fácil utilização a qual conhecemos tão bem por ser exaustivamente exposta aos nossos olhos. Talvez seja, enfim, Hollywood. E pergunto novamente, o que seria do mundo sem os clichês?

Tentei assistir American Hustle. Juro que tentei. Não foi desta vez. Talvez eu consiga terminar de assisti-lo algum dia e, tendo conseguido ou não, prometo escrever algo sobre o que os primeiros trinta minutos do filme me fizeram pensar sobre narrativas. Prometo. Já havia previsto este tema para o blog quando fui surpreendida positivamente pelo filme seguinte (do qual misteriosamente eu falava no parágrafo anterior): Capitão Phillips.

Eis então que aquele acúmulo de clichês e talvez mais um filme bobobuster entre tantos me fez encontrar coisas sobre o que escrever. Eu não dava nada pelo filme. Tanto que no dia anterior havia escolhido American Hustle entre os dois. Eu sabia algo da sinopse, Tom Hanks, o bom americano por excelência, era capitão de um barco sequestrado no mar por piratas da Somália, daquela história real (não disse que repete-se a sina do ano passado sobre histórias “reais” na concorrência ao Oscar?). Eu não havia acompanhado as notícias da época (bem recente) – afinal não sou boa em acompanhar notícias, felizmente – mas sabia um pouco do que se tratava.

Ele não se destaca pela fotografia. A direção não tem nada de mais, nem de menos, fora um detalhe ou outro (como a carta que ele escreve para a família e da qual não temos mais do que vislumbres) que nos diz que o diretor é competente – e, sinceramente, nos dias de hoje ser competente em algo, principalmente quando este algo é dirigir um longa-metragem, é já bastante louvável. Ele talvez exceda uns vinte minutos no tempo sem prejudicar tanto o drama – parece que para concorrer ao Oscar é preciso passar das duas longas horas. Dizer que Tom Hanks está num dos seus melhores papéis parece redundante, mas tudo o que normalmente pode incomodar na atuação dele em outros papéis misteriosamente desapareceram neste filme, ou seja, ele está extraordinariamente bem. Ser o típico americano em tantos papéis não conseguiram alcançar o ordinário que ele preenche tão bem como o capitão Phillips. O filme é baseado no livro de autoria do próprio Richard Phillips, “A Captain’s Duty : Somali Pirates, Navy SEALs, and Dangerous Days at Sea” que pelo título já dá elementos do quão raso é o personagem. Os piratas como atores coadjuvantes são um mérito a parte, tão bem construídos e interpretados. Mas o que tem, afinal, Capitão Phillips além de clichês, diálogos esperados, ação previsível e algumas boas interpretações?

Eu diria que este filme alcançou algo que 12 Years a Slave talvez pretendesse e não conseguiu. Num dos diálogos, o ordinário e quase estúpido capitão do Tom Hanks pergunta ao Muse (Barkhad Abdi), capitão dos piratas, se não há outra opção (além de sequestrar navios de carga). Muse o olha e diz que ali não é a América. Ao ouvir a pergunta eu mesma respondi (sim, eu falo durante os filmes) que ali não era assim – quase a mesma resposta do Muse. Eis a obviedade do filme, até eu conseguia antever diálogos. E não é por ser tão óbvio que ele deixa de ser excepcional.

Depois de escalonar os assuntos que pretendia abordar sobre o filme, fiquei pensando hoje cedo o quanto esta visibilidade que se quer dar aos negros, à História e cultura deles, dando-se ênfase na guerra ao preconceito pode estar, também, errada. Porque aqui no Brasil muito se ouve sobre os negros que foram escravizados e para cá vieram. Tenta-se resgatar um passado de forma, como sempre, lúdica e romantizada. Não querem mais ser “negros” e querem que substituamos por “afro-descendentes”. Talvez numa tentativa de guerra pacífica aos que se dizem descendentes de europeus neste país. Brasileiro, ao que parece, ninguém quer ser. Enfim, fiquei me perguntando se passou a moda de falar da África. Na minha época de ensino fundamental a África estava na moda, na TV, nos jornais, na sala de aula, muito se falava da miséria do continente, pululavam fotografias de crianças negras esquálidas, lamentavam-se as guerras tribais, os números da fome e de como o calor castigava a população. Hoje não vemos mais este drama fraturadamente exposto. Não sei se o Ocidente encontrou em si tantos problemas tão ou mais graves que acabou esquecendo de importar imagens e fatos das desgraças africanas. Fato é que não é mais moda. Pois passada a moda de voltarmos nossos olhos para a África, surgiu a moda de orgulhar-se de ser “afro-descendente”… mantendo, contudo, os olhos aqui pelos continentes americanos mesmo. Não desmereço nenhum orgulho nem nenhuma cor de pele, só considerei irônico que o cinema, de uma hora para outra, tenha voltado os olhos para uma condição africana que não parece mais interessar ao mundo ocidental.

Cheguei a estes pensamentos depois de ter, durante o Capitão Phillips, lembrado de um filme pungente que assisti no ano passado. Vi no cinema e tive o prazer de ver novamente quando passou na TV a cabo (em dezembro quando estive na casa dos meus pais estava passando, talvez ainda esteja). Terraferma, um filme italiano que tem méritos enormes e entre outras coisas geniais que ele aborda surge a questão dos imigrantes africanos que tentam chegar à Itália pelo oceano. Terraferma e Capitão Phillips tratam da condição africana contemporânea sem carinho, firulas ou passadas de mão na cabeça. Eles também não cruzam mares para tentar representar nas telas com atuações, figurinos e adereços a situação real deles. Talvez seja um ponto fraco de ambos mostrar o negro africano somente quando este rompe mares e fronteiras e aporta ao lado de nós, ocidentais. Porém, talvez o ponto fraco seja mais um mérito, pois delicadamente colocam o dedo na ferida do nosso esquecimento, depois da miséria africana sair de moda, ao dizer que eles ainda estão lá – e, pior ou melhor, estão vindo para cá.

Ambos também fogem do fantasma que descredita 12 Years a Slave ao abortar a idéia da representação da violência. Sim, há controvérsias, reconheço. Pois os SEALs matarem à queima-roupa os piratas que estavam no bote salva-vidas é algo violento da pior espécie (posto que autorizado e não-criminalizado) e a atitude do jovem pescador italiano de bater com o remo para evitar que eles subam no barco também não é nada anti-violência. Porém, a violência aqui difere em muitos graus da violência de donos de escravo que violam o corpo dos negros para dobrarem suas convicções e almas. Aqui há implícita uma auto-defesa do seu território (espontânea no caso do italiano e calculada e militarizada no caso do americano) – e, sim, trata-se o tempo todo de territorialidade. Outro porém: a violência não é inserida para deleite e degustação do espectador, como ocorre em 12 Years, ela surge como elemento do drama sem recorrer à espetacularização.

Vemos poucos minutos do que seriam as terras da Somália de onde saem os piratas que pagam para poder ir em busca de uma boa vítima nos mares. Vemos logo de cara que ali há somente vítimas que se vitimizam entre si. Está colocado o argumento: a miséria não une. A miséria nunca uniu. Entre quem não tem absolutamente nada, não ter continua sendo desvantagem. Os negros não se vêem como irmãos – ao contrário do que se vê hoje em dia. Aliás, dizem os especialistas que nem os negros que para cá vieram escravizados se viam como iguais e irmãos – outra coisa que curiosamente tentam evitar de contar. O que, aliás, também ocorreu com os judeus. Nós brancos não somos todos iguais, nem temos as mesmas crenças, origens e valores, nem nos reconhecemos como irmãos – nem os negros, nem os índios, nem os orientais nem os africanos se vêem assim. E talvez esta idéia faça muita falta nos discursos. Os piratas contemporâneos que em nada lembram as histórias dos romances são desunidos, mantêm-se mascando “khat” e buscam milhões de dólares do seguro de seus sequestrados para pagar seus chefes. Como diz Phillips uma hora, “todos nós temos chefes”. Ali estão as arraias miúdas sem ganhar nada e correndo risco de vida enquanto seus chefes assistem aos jornais e guardam seus dólares.

Os capitães ali, Muse e Phillips, na verdade não mandam em nada. Chega a ser constrangedor quando percebemos que Tom Hanks não está ali como nenhum herói – o que era de se esperar, visto que ele dá, inclusive, nome ao título do filme. Quem seria o herói, então? Afinal entre os clichês hollywoodianos é preciso haver um herói. Seriam os SEALs, armas humanas de matar que vão até lá no último momento realizar um serviço? (é dolorosa a cena na qual eles, depois de matarem os piratas dentro do bote a uma certa distância, parecem relaxados e começam a trocar de roupa como o final de um turno qualquer numa indústria qualquer) Seria o presidente dos EUA? Seria Muse, condenado a realizar o sonho de ir para a América? Para entender um herói é preciso pensar no que foi salvo. A vida do capitão Phillips foi salva, é claro – e pelo SEALs às ordens do governo americano. Porém, foram, na verdade, salvos o barco e o dinheiro da seguradora – quem salvou o primeiro foi o capitão Phillips, enquanto o segundo também foi salvo pela Marinha e pelo SEALs. E as vidas dos piratas que foram perdidas? Não valiam nada, como desde o começo do filme parece ser evidenciado? Mas, claro também ficou que a vida do capitão americano não valia nada para ninguém (além da família dele).

Como boa ação e um tanto de suspense o filme cumpre bem suas intenções. Eu não esperava nada dele porque justamente não acreditava que ele me levaria tão longe nos pensamentos. Os diálogos entre os capitães podem parecer previsíveis e piegas quando tratam da realidade dos diferentes mundos, mas não resvalam (como eu esperava que fosse) para a velha superioridade americana com sua moral inquebrantável. Uma idéia que vem me perseguindo a dias tocou os pensamentos sobre o filme: não percebemos o luxo que temos na vida. Sabe aquela história da zona de conforto? Pois é mais ou menos isso, falta sermos críticos da nossa própria situação. Perguntar-se, de vez em quando, “eu poderia viver com menos?” é um bom exercício. Não precisamos ter nosso barco sequestrado por piratas somalianos para ver que estamos deitados num berço esplêndido de luxos. Talvez eu sempre tenha sido uma crítica ferrenha do luxo – e nem pensem que falo de carrões importados, coberturas em Copacabana ou hospedagens em castelos da França – e tenho piorado. O que o luxo tem a ver com o filme? Não sei ao certo, mas quando a Marinha americana oferece comida e água aos piratas que estão no bote e eles nem se importam algo em mim se acendeu… eles mascam khat o tempo todo não porque são drogados, uns viciados idiotas, mas porque comida e água não fazem parte da vida deles. Eles querem dólares, milhões de dólares, dos quais mal verão a cor e que, em breve, terão que voltar ao mar para buscar mais e mais. São vítimas, das vítimas, das vítimas. E estas vítimas, me diz Terraferma e Capitão Phillips, estão ao mar entrando à força em territórios que não se importam mais com eles porque não está mais na moda e porque os do lado de lá já têm desgraças demais para cuidar sob o próprio nariz – vide a crise que se instaurou na ilha paradisíaca italiana que perde seus pescadores por falta de peixe e apela para um turismo da pior espécie, em pessoas e hábitos.

Tom Hanks não foi indicado ao Oscar, lamentavelmente. Por que ainda insistem nessa separação entre “melhor atriz” e “melhor ator” nas premiações? O trabalho de atuar não é, em si, o mesmo? Ou é só para fazer aquelas cerimônias intermináveis durarem mais? Cate Blanchett está sendo aclamada pelo seu trabalho em Blue Jasmine (quem sou eu para dizer algo contra), porém o trabalho de Tom Hanks aqui é muitos graus acima. Todo trabalho de personagem que contém excessos é mais fácil de encontrar boas saídas do que os trabalhos que exigem o ordinário, o medíocre. Sou suspeita, não achei Blue jasmine extraordinário, nem a personagem – Cate merecia mais. Resolvi comparar um ator com uma atriz porque não considero que separar por sexo até nisso seja válido. Depois verei com os outros concorrentes “entre si”.

Uma última consideração: Capitão Phillips é um filme de 2013, baseado em fatos reais amplamente divulgados pela mídia internacional em 2009. É uma obra de ficção cinematográfica da história do presente. Um ótimo exercício para quem gosta de História e principalmente para o pessoal da área de História do Tempo Presente (aqueles que conseguem trabalhar com o audiovisual como fonte e objeto e tem o mínimo de conhecimento para isso). Eu particularmente aprecio quando o cinema faz suas próprias histórias, porém tem ocorrido de forma mais frequente que fatos reais corram para as telas em tempo cada vez mais curto – vide o filme dos mineiros chilenos que sairá em breve. Seria uma crise do cinema? Seria a vida a mostrar-se mais inédita do que as mentes dos roteiristas? Qual o interesse de assistir a um filme sobre algo que li e vi repetidas e incansáveis vezes nas redes de notícias? Não saberíamos mais dos fatos e detalhes do que um filme poderia jamais me mostrar? Seria algum desejo de eternizar nossa história antes que as gerações futuras as reinterpretem? Pois bem, algo a se pensar.

Maratona Oscar: 12 Years a Slave e a “selvageria”

 

E ficou mesmo a pergunta: quem falará mal de 12 Years a Slave? Confesso que fiquei incomodada com o filme. Talvez não tenha assistido com a devida atenção. Talvez tenha criado expectativas demais desde o dia que vi, ano passado, o trailer antes de algum filme no cinema – e só anotei o nome dele na wish list por conta do Benedict. Uma das pessoas que assistia comigo saiu na cena em que Patsy era golpeada no tronco. E é este o ponto.

Ontem mesmo, tendo assistido-o no domingo, me deparo com um texto do Escorel (sou sua fã, um dia ainda vou mandar um e-mail me declarando) que perpassa as dúvidas sobre 12 Years e cita um crítico americano que teve a audácia de criticar o filme. Havia, então, encontrado o incômodo que senti. Primeiramente, o protagonista não está nos seus melhores trabalhos. O personagem também parece não ajudar, pois titubeia demais e não se percebe no mundo no qual foi inserido à força – sim, é complicado criticar isso, pois trata-se de uma história real (aliás, veremos este ano também a enxurrada de “histórias reais” na corrida ao Oscar como foi ano passado?). O olhar estabanado e a testa franzida em quase todas as cenas perdem e muito a carga dramática necessária para a história.

O enredo é espetacular. Quando você se dá conta do que está acontecendo, fica de queixo caído – eu não fazia idéia dos fatos que a história conta. (não, eu não leio sinopses e este caso é um bom exemplo de como isso é bem melhor) Nas primeiras imagens que vi do filme pensei que seria meu candidato favorito disparado para fotografia. As cenas nos campos de algodão são lindíssimas, porém como parece ser uma constante nos longas-metragens que exploram boas fotografias, há aqueles planos que valem só e somente pela fotografia e desmerecem o drama – não sou fã deles de jeito nenhum. Momentos como o da passagem de tempo no qual vemos o gazebo pronto e os segundos durante os quais a câmera fica fixa em Solomon nos contando que ele aguarda a resposta à sua carta salvadora e a ida e vinda ao ponto do corte de cana merecem destaque e elogios à direção que parece lembrar que faz cinema.

E aí voltamos ao problema. O tal crítico americano parece até que foi banido depois dos seus comentários sobre o filme. Quando convidei uma pessoa para assisti-lo, disse o título e comentei que era um dos favoritos ao Oscar, já premiado, ouvi “ah, sim, por causa do Obama, né.”. E, sim, pois é. Há uma onda Oba-Obama. Há quem queira dizer que o filme não tem nada a ver com isso, mas considero difícil não ligá-lo a uma nova auto-imagem do público estadunidense. São raros os filmes que retratam a escravidão estadunidense de forma mais próxima e contundente. Aliás, acho até que nós temos mais novelas e minisséries que retratam isso do que eles têm filmes sobre. Acho justo comparar nosso produto mais vendável com o deles. Estaria a maior e melhor nação do mundo reconhecendo suas mazelas?

Eu cá pra mim nunca botei fé nessa onda Oba-Obama. Não, não acho que um presidente negro (ou um ex-operário e sindicalista ou uma mulher) vá mudar a mentalidade e atitudes das pessoas. Não, não acho que os racistas estadunidenses deixaram de sê-lo ou deixarão porque alguns tantos elegeram o Obama. E, sinceramente, nem acho isso nenhuma vitória política. Pra mim, investem-se em fachadas.

Então, e o filme? É preciso (re)contar a história dos negros nos Estados Unidos. O enredo é cinematográfico (aliás, há pouco tempo eu reclamava que não tenho sido surpreendida pelos roteiros), originário do livro que o protagonista escreveu. As atuações têm altos e baixos. Esperava mais do Benedict (talvez, como o George em Gravidade, esperava vê-los mais tempo na tela), todos os méritos vão para Patsy (Lupita Nyong´o, trabalho brilhante) e Edwin Epps (Michael Fassbender, um personagem difícil, às vezes pouco crível, mas com boas nuances) e o Brad Pitt (mais feio do que ele é, com cabelo e barba desgrenhados) numa ponta que pareceu só “sou o produtor e vim aqui fazer um discurso lindo sobre a liberdade (o personagem é canadense e acima do bem e do mal, ao que parece) e essa coisa toda de multiculturalismo e blábláblá que, vejam vocês, pratico na minha vida pagando por um filme desses e adotando crianças de quase todos os continentes”.

Dizia lá o crítico que o filme era quase sadomasoquista. E é esse o problema. A violência. Há uma linha tênue, no cinema, ao representar a violência para ser o mais próximo do real possível para aproximar o espectador da dor sofrida pelo personagem, fazê-lo quase sentir as atrocidades ali estampadas, e a violência que gera o prazer catártico do espectador – vide aí o exemplo de Tropa De Elite. Há quem saia do cinema dizendo que sentiu na pele as dores do Solomon e da Patsy ao serem violentamente agredidos (lembrando que o castigo físico, em ambos os casos, é para dobrar as almas deles, não é para eles sentirem “dor”). Porém, eu me pergunto, seria essa a dor pretendida? Quando o algoz chega a quebrar a madeira com a qual espanca Solomon nós sabemos que ele está batendo muito forte e que está lanhando gravemente as costas dele enquanto ele precisa submeter-se à perda da identidade, pois agora ele é Platt. Há, provavelmente, quem saia do cinema com a alma lavada por ver violência, pois vai até lá justamente por isso, para ver aquilo que ele gostaria de fazer nas ruas, mas por tantos motivos não o faz.

Foi aí que lembrei do Glauber Rocha. Violência no cinema sempre me faz voltar a ele – enquanto eu não me deparar com mais ninguém que fale tão bem sobre isso. O cinema precisa oferecer este menu que tanto oferece e nunca satisfaz o espectador? Sim, isso é Adorno e Horkheimer. O que 12 Years a Slave faz é oferecer violência. Tenho que concordar com o crítico, é violência e não é história ou História. Mas a violência que este tipo de filme oferece é aquela que não satisfaz, é a pura indústria cultural, porque o espectador vai continuar sentindo falta dela na sua vida. E por isso que simplesmente prefiro Glauber com a violência da percepção, com a violência da câmera, pois é algo específico ao cinema – senão, posso simplesmente assistir aos MMA da vida.

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Antes mesmo do filme, dois episódios me chamaram a atenção para uma questão de termos. Duas notícias de alcance nacional (e até internacional), a “briga” entre torcidas em Joinville e a matança dentro e fora dos presídios no Maranhão. Tenho praticado o afastamento das notícias, retirei todos os portais de notícias do meu feed do Facebook e instaurei outras práticas desde fins do ano passado. Tenho vivido melhor (inclusive com outras práticas que adotei, mas não vem ao caso). Contudo, em ambas as notícias uma palavra foi muito usada quando queriam descrever o que houve: selvageria. Discuti com uma pessoa quando ela usou esta palavra sobre o primeiro caso. Selvageria? Usamos “selvagem” para o animal que como naquela canção “só briga por comida e sexo”, os animais, dizem as más-línguas, são irracionais e agem por instinto (o qual, dizem, também possuímos). O animal selvagem, a natureza selvagem, são assim chamados porque não são domesticados ou tocados pelos humanos. Não vou arriscar a dizer que os humanos são os seres civilizados do planeta. O animal busca comida, briga por uma fêmea, não precisa de quatro paredes para fazer suas necessidades, mata outros animais para sobreviver. O animal selvagem não mata outro só porque ele prefere um galho diferente do dele, ou porque ele torce para outro time, ou porque ele tem um gosto diferente e prefere cruzar com um animal do mesmo sexo que o dele, aliás, animais não fazem guerras, vejam só. Sinceramente, seres humanos que fizeram o que fizeram naquele estádio e no Maranhão são só e somente seres humanos – não são selvagens, não são animais. Seres humanos são os únicos capazes disso no planeta. Faz um tempo comecei a deixar de usar termos pejorativos de animais aplicados aos seres humanos, pois os animais dos quais eu gosto tanto não merecem isso. É vagabunda, não é vaca. É sujo e não tem boa higiene, não é porco. É estúpido, ignorante, não é burro nem anta (eis o mais difícil de deixar de usar, pois costumo me chamar assim algumas vezes). É puta, não é galinha. Nem vou falar do “veado” e “macaco”. Vamos deixar disso de usar animais para tentar reduzir seres humanos ao que eles são: seres humanos. E, sim, a “selvageria” parece ser o argumento de 12 Years a Slave neste mundo entre brancos e negros.

Cartas de Viagem – Santana do Cariri

 

Santana do Cariri, Primavera de um dos melhores anos de nossas vidas.

Não havia ônibus para lá. O costume – ou a saída – era andar de topic. Ou van, como o povo lá do sul pode preferir. Não havia horários de saída e chegada. Não há, por sinal, tabelas com horários regulares. Região da Chapada do Araripe, semiárido brando, Ceará, Nordeste brasileiro, terra de Padre Cícero e Lampião, de História, histórias, estórias e guerras. O São Francisco passa longe. Semiárido brando (o que a constante leve brisa confirma) por conta da Chapada que circunda a região. De um lado de lá dela, é o pé da serra, aquela dos Gonzagas. (Não é “sertão” como chamam aleatoriamente, este lugar imagético tão usado e abusado que torna tudo uma massa geográfica informe e desconhecida, sem personalidade, o sertão dos filmes, novelas e seriados que não localizam, não nomeiam, não identificam – é como o “sul” para tudo isto que há para cá da Bahia – que jogam num mesmo tacho sotaques, costumes, paisagens, tradições, crenças e muito mais. Como dizem das Gerais, elas são muitas – o “sertão” também.) Enfim, não há nem topic que saia de Juazeiro do Norte, a mais populosa e desenvolvida da região, para Santana. Há que se pegar um ônibus, topic ou metrô de superfície (algo muito semelhante a um trem, insisto) até Crato, sua vizinha, e de lá, na sorte, encontrar uma topic para Santana. Na sorte, principalmente, para quem, como eu, não é daquelas bandas. Para quem lá vive, parece que é só no azar mesmo. Na sorte, topic do centro de Juazeiro até Crato antes da ponte, em seguida uma espera e algumas informações para pegar uma topic para Santana. Não havia ônibus, não havia horários, havia muita educação e pessoas extremamente prestativas. Naqueles dias eu já quase me acostumara e previa que sofreria um choque ao voltar para o sul.

Santana do Cariri. Terra de dinossauros, de fósseis, de paleontologia, da ponte de pedra, do pontal da Santa Cruz, da imagem de Sant´Ana Mestra na entrada da cidade. Por que ir para Santana? Por quê? Por tudo, por amor, por Destino, por aventura.

E a topic sai ali ao lado da ponte do “rio” de Crato e segue. Pessoas cheias de compras. Debaixo dos bancos há cebolas, tomates, trigo, arroz. Sento na terceira fila, ao lado uma mocinha e uma senhora. Fardos de comida entulham os cantos. Uma senhora no banco da frente segura uma bacia com uma bandeja de iogurte barato, manteiga e alguma outra coisa de geladeira. A viagem segue. No primeiro trevo uma família acena. Avó, mãe, um mocinho e três meninas pequenas entram depois de dúvidas sobre o itinerário incerto. A topic está cheia. A viagem se dividirá em três partes: da estrada principal até o segundo trevo, subida de serra com vista para Crato e vegetação de caatinga; do segundo trevo até Nova Olinda, paisagem menos árida, árvores mais altas, há verde para onde se olha, já no parque da Chapada, plano; e de Nova Olinda até Santana, surgem “pedreiras”, intercalam o verde e o árido na vegetação, a estrada sobe e desce. Descortinam-se, a todo momento, paisagens inesquecíveis. As cores são vivas e deslumbrantes numa combinação pouco comum. Em volta, a placa maciça verde e em tons de marrom, da Chapada – aquela mesma que é possível avistar da estátua de Padre Cícero em Juazeiro, onde Lampião ficou entrincheirado.

Meus olhos e meu coração se enchem com tudo o que vêem pelas frestas de janela que conseguem alcançar na topic. Mal mexo os pés, pois há coisas por todos os lados. Faz um sol lindo. Sinto-me, como todos os dias por aqui, estranha diante daquelas pessoas. Elas me olham. Elas me estranham. Meu vestido branco simples e uma sandália não chamam tanta atenção. Fica claro que não sou dali. E a pieguice é já amar tanto aqueles lugares. A avó da família que entrou por último está sentada ao meu lado, de costas para a frente da van, num banquinho de plástico. No último banco, de frente para ela, o mocinho. A avó sorri, conversam sobre o pai dele (com quem, pelo que entendi, ele mora em outra cidade), sobre os estudos. Ele foi para a cidade, morar com o pai para poder estudar. A avó conta como as irmãs sentem falta dele, a mais nova acorda chorando à noite. Ele está com ela no colo e faz brincadeiras. A avó e a mãe comentam sobre dinheiro, a mãe conta que vai pegar o bolsa-família semana que vem para pagar as prestações. A avó então insiste com o mocinho que ele deveria usar óculos, pois, nas palavras dela “acho tão bonito moço que estuda e usa óculos”. Toda aquela conversa é pungente demais. Cada palavra que me leva na realidade deles. Observo aquela senhorinha, os olhos, as mãos, o sorriso de orgulho pelo neto. Ela me olha, faz um gesto com o queixo apontando para mim e pergunta “quanto é?”. Fico confusa, eu acompanhava a conversa pensando que ninguém percebia. “Ahn?”, nunca sou boa nessas horas. “Quanto é?” ela repete o gesto e a pergunta. Na hora imagino que ela me pergunta o valor da passagem da topic e responde “Oito reais, eu acho.”. Ela sorri condescendente. Sinto que não era isso. Sigo a conversa e ela conta que perguntou lá na cidade quanto era para pôr aparelho, pois ele agora “precisa” disso – segundo a dentista é cinquenta reais por mês, mas só pode colocar se não tiver nada para fazer nos dentes. Eu uso aparelho, e então percebo que era isso que ela me perguntou. Me sinto uma idiota. Penso que a dentista também é uma idiota. Eu quero entrar na vida daquela senhora. Quero ver a felicidade que é para ela ver um neto, talvez o primeiro da família, estudar. Quero ver o que se passa na cabeça dela para querer que ele use óculos (que é um “remédio” só para quem tem algum tipo de problema) e aparelho porque projeta a imagem dele como alguém que está numa situação melhor. A estrada segue. Há um longo trecho de vegetação seca, nenhum verde, nenhuma sombra. Uma entradinha ou outra, distantes umas das outras, anunciam sítios em meio à seca.

E lá no meio da estrada a mãe avisa ao motorista onde querem descer. Quase não há pontos de referência porque quase não há nada na estrada. E é ali meio que no meio do nada, uma “esquina” com os restos do que era um bar, onde a topic pára. A poeira levanta, eles descem, arrebanham sacolas, vão pela estradinha.

As casas, as paisagens, a chapada, tudo me encanta. Já é Santana. Agora as pessoas já sabem que não sou dali e que quero ir até o Pontal da Santa Cruz. A topic não irá até ela, mas até o começo da estradinha que sobe para lá. A senhora do iogurte pergunta de onde sou. Digo que de Santa Catarina, a menina ao lado dela pula no banco “De onde de lá?!”, respondo e ela “Minha mãe mora em Itajaí, em dezembro eu vou para lá visitar.”. Pergunta vai, pergunta vem. A mãe foi para lá tentar a vida. Faz um ano que elas não se vêem, ela ficou com a tia e nas férias poderá visitá-la pela primeira vez. Falo sobre o mar, ela não parece interessada – aliás, sinto que toda vez que falo no mar, por aqui, eles não dão bola. A tia, a senhora do iogurte, diz para o motorista da topic me levar até o Pontal, pois ele irá até quase lá. Ela me convida para conhecer, na volta, as rendas e redes de bilro que ela faz. Pergunto curiosa pelas compras “Ah, tem que ir pra Juazeiro comprar. A compra que se faz aqui pra uma semana, compra o do mês lá.”. A topic pára na praça para ela descer, na esquina em frente há uma venda. Fico pensando naquelas pessoas que saem dali para ir fazer as compras, num sábado, dependendo daqueles horários misteriosos das topics. A topic ainda pára em umas três casas, o motorista entrega pedidos de compras. A topic vai esvaziando. Agora já estico melhor a perna. Perguntam o que eu quero fazer no Pontal, digo que quero conhecer. Eles dizem que há o museu ali na praça, digo que meu plano é vê-lo na volta.

Aos pés do morro do Pontal uma outra senhora com quem eu havia conversado desce. Ela me contou que dali, exatamente dali dos pés do Pontal da Santa Cruz em Santana do Cariri, já saíram várias pessoas para ir morar em Joinville. Umas para Itajaí também, mas todos ali têm alguém da família que foi para Joinville. “Um vai, diz que é bom, chama o outro. Aí outro vai visitar, gosta do lugar, resolve voltar pra ficar.” me explica. E assim sinto que o meu mundo é do tamanho de tudo isso.

Se pudesse eu descreveria o Pontal, a ladeira de subida, a vista lá de cima, o restaurante com comida deliciosa, a igrejinha, a trilha pelas pedras, os meus amados ticos. Santana cravou-se no meu coração naquele instante. Se pudesse eu descreveria e tomada pela emoção fotografei feito louca e deixei meu olhar perdido no horizonte como se quisesse – e como se pudesse – fincar tudo aquilo no peito e na alma.

Santana, terra da menina Benigna, de comida boa, de uma das paisagens mais belas do mundo. Desço de lá sendo outra pessoa. E nem a ameaça real de que sábado naquele horário não há mais transporte de nenhum tipo de volta para Crato me demove das profundezas do que sinto. Caminho pela pequena cidade, vou ao museu. Museu de Paleontologia. Vou, novamente, para outro mundo. Fósseis, fósseis, fósseis, ossos petrificados, histórias, dados, descobertas. Foi ali que encontraram o dinossauro brasileiro. Há um vídeo que passa ininterruptamente com o orgulho máximo de todos por ali, é citado pelos jovens guias do museu, aqui foi encontrado um dinossauro. Eis que no meio do museu há um dinossauro falso. Pergunto, ansiosa, sobre o dinossauro encontrado. Jurassic Park toma conta de mim. O dinossauro? Foi levado para o Museu Nacional no Rio de Janeiro. Sinto-me tão petrificada quanto aqueles fósseis. Rio de Janeiro? Um dinossauro no Rio? E eis que acredito que agora sim cabe muito bem a pergunta que poderiam me fazer quando decidi viajar até Santana: Por que Rio de Janeiro?! A revolta me toma em goles largos. Santana não é o primeiro recôndito encantador e belíssimo que encontro neste país que sofre com o desleixo da ignorância do povo e dos governos. Formulo revoltas. Formulo xingamentos sem fim. Não há dinossauros no Rio de Janeiro. Já havia sentido essas revoltas quando, numa maravilhosa conversa com o paleontólogo do museu de Crato, soube das agruras pelas quais eles passam para pesquisar e preservar os sítios, pois a maioria está em terras privadas e são usados para extração de materiais e quase impossíveis de serem visitados. Entre isso, há o contrabando, o comércio ilegal, o desprezo que todo ano leva milhares de peças a serem destruídas pela ganância. O coração que havia se expandido lá no Pontal sai dali engruvinhado.

Vou até a senhora das redes e rendas de bilro. Trabalho trabalhoso, lindo, ela me oferece suco, conversamos, pego o contato pois ela envia pelo correio. A menina timidamente ensaia perguntas sobre Itajaí, o sul… parece que ela se sente próxima da mãe ao falar comigo sobre um lugar tão distante e desconhecido. São elos que nascem e me deixam irriquieta. Na praça vazia, sento e queimo as coxas no banco escaldante. Tento desembaralhar todas as emoções do dia. Dia que vai findando e eu ainda não tenho como sair de Santana. Sinto que nem quero. Há em mim a vontade de ficar ali sentada naquela praça, esticar o pescoço para olhar para o Pontal, ver a chapada em volta, as casas… como se pudesse gravar cada detalhe, cada frase que cortou meu coração, cada pessoa que cruzou meu caminho. É preciso ir, porém. E, ao olhar a paisagem no caminho de volta, tenho a convicção de que é preciso, um dia, voltar.

Itajuba, do meu quintal à sombra de um sombreiro, no Verão de um ano que se desvelará.

Pessoas comuns acreditavam que tinham vidas publicáveis

 

Era pleno domingo. Caía aquele temporal cheio de trovoadas, relâmpagos, ribombavam as paredes, pessoas se persignavam, desavisados corriam para os tetos. Eu tinha saído fazia pouco tempo, mais uma daquelas compras esquisitas (guarde esta palavra, ela dará um livro), desvio pela praia porque, bem, eu sabia que o temporal da madrugada se repetiria. Ali, pés na areia afundados pela água do mar, o horizonte trovejante e barulhento. Muitos teriam medo. Vi de onde ele vinha, para onde ele iria que não sou boba nem nada e não vou morrer – pelo menos não por agora. Fiz minha rota só para ver aquele horizonte. Neste pedaço sedutoramente curvado de longos metros do litoral a vista é ainda mais bonita. De madrugada, bem, não saí para vê-lo – e, por isso, agora ele se repetia só para que eu pudesse vê-lo.

Era pleno domingo. Pessoas respiravam.

Ali, pés na areia encharcada de chuva e mar, escuros da noite e claros do relampejar. Não tinha celular com câmera nem bobos smartphones nem câmera. Havia saído com um macacão curto, uma nota de dez reais no bolso e chinelo. Ah, e brincos. E mp3. Via o horizonte. Não tem jpg nem nada que confirme o que estou dizendo. Nenhum HD misteriosamente guarda esta prova.

Era pleno domingo. Pessoas postavam nisso que chamam redes sociais – procuro outro nome para elas, “nós anti-sociais”, talvez – todo o azar de imagens, links e frases.

Era pleno domingo. Pessoas comuns acreditavam que tinham vidas publicáveis. E, como se não bastasse, publicavam-nas.

Quem sabe eu corresse descrever a cena, quem sabe estragasse a câmera só tentando uma foto, quem sabe louvasse meu desprendimento, coragem e vida livre de pés na areia sob temporal. Quem sabe entulhasse TLs alheias com links sobre coisas geniais, pessoas fazendo o bem ou só aquela música (“Pela primeira vez sozinha Pela primeira vez sem dono Pela primeira vez sem você” caso fosse ontem) adorável daquele dia num vídeo tosco de imagens de powerpoint no youtube. Quem sabe eu respondesse mensagens. Quem sabe uma imagem cool com uma frase cute. Quem sabe um selfie com uma frase interminável de algum livro de auto-ajuda (com a referência devidamente suprimida). Quem sabe um link sobre alguma atrocidade contra os animais, as matas, a água, os pobres, os negros, os eus branquelos, contra o patrimônio, com um texto de punho (ou pulso, ou dedos, já que somos homodigitadores) alvoroçado em palavras indignadas. Quem sabe alguma piada sem graça. Ou quem sabe eu reclamasse da minha operadora de celular e internet. Ou ainda indiretas entre esses e aqueles e aqueles outros. Talvez umas três frases aparentemente sem nexo que ninguém entenderá mas acharão que tenho uma vida sensacional. Ou fotos de cerveja, garrafas, copos, taças. Ou, ainda, da cama revirada de um hotel ou motel. Quem sabe eu reclamasse das crianças que cantam galinha pintadinha ou das pessoas que não dão pisca ao dirigir. Ou, sei lá, colocasse fotos minha na praia só pra esfregar na cara das pessoas. Ou, talvez, aquela foto semanal do meu cachorro que só eu acho que faz caras e bocas diferentes a cada clique. Ah, sim, não deixaria de dar check-in no aeroporto ou em qualquer lugar invejável onde eu estivesse. Se me faltasse imaginação – não é tão raro assim acontecer isso com quem respira – ou me faltasse vida – ainda menos raro –, postaria a foto do almoço ou do prato vazio para querer parecer genial. Ou da panela com alguma coisa que ninguém saberia dizer o que é não fosse pela minha legenda. Ou, ainda, uma frase, bonitinha ou reflexiva, de algum livro só para mostrar que eu leio.

Era pleno domingo. Pessoas respiravam. Era pleno domingo. Pessoas comuns acreditavam que tinham vidas publicáveis.

Cine Holliúdy e um ano cinematograficamente brasileiro

Não é novidade e muito foi alardeado, no final do ano passado, sobre o crescimento de público (e também de número de produções) do cinema brasileiro em 2013. Devo dizer que fui uma das responsáveis por tal façanha. Foi, definitivamente, o ano no qual mais fui ao cinema para assistir às produções nacionais. E só não fui para assistir a O Som ao Redor e Cine Holliúdy porque não passaram na cidade onde eu estava – e Ensaio porque perdi a data. Aliás, entrei em campanhas na internet para que passassem Cine aqui pelo Sul – e, por favor, quando digo Sul estou me referindo a Santa Catarina ou Paraná. Fiz minha redenção ao ir assistir a um argentino e pegar sessão dupla com um brasileiro – Flores Raras, provavelmente o qual eu considero o melhor do ano. Já assisti mais filmes argentinos no cinema do que brasileiros. Era hora de rever isso.

Também escrevi e discuti e ouvi muito sobre cinema em 2013 (vai dizer, dos melhores anos da minha vida, não poderia faltar isso). Num evento do qual participei, tive o desprazer de ouvir uma apresentação de uma criatura, formada em jornalismo mas que se diz estudiosa em cinema, mestre e no momento doutoranda (na Literatura da UFSC, claro), sobre a nova lei da TV paga que “obriga” os canais a cabo a passarem produtos brasileiros. Entre a discussão, já bem batida, de que a lei aumentará a produção e blábláblá (aquela velha máxima brasileira: cria a lei para “incentivar”, sem dar condições e infraestrutura antes) veio a ultrajante falsa argumentação sobre a falta de “qualidade” do público. Não sei se essas pessoas ainda vivem no mundo dos cinemanovistas que queriam esclarecer as massas, ou realmente acreditam que o problema é o público brasileiro que não sabe o que é bom. Vejam só, o problema do nosso cinema é esse povo ignorante. Era uma mestre e atual doutoranda falando. Pasmem, ao falar de séries de TV, ela ainda disse “Já viram tal série? É muito boa, mas as pessoas não gostaram.” – ela é esclarecida, sabe o que é “muito bom”, nós (sim, eu me incluo) é que não.

A discussão também se fez presente nos blogs do Eduardo Escorel e do Bernardet, inclusive em eventos. Muito se discutiu, e não é nada novo, sobre a rivalidade que há entre os filmes “cabeça” (cult, para pensar, de autor, ensaístico, ou seja lá como quiserem chamar) e as comédias populares. É só avaliar a quantidade de público de O Som ao Redor e De Pernas Pro Ar 2 (foi o exemplo mais usado). Mas aí surgiu uma outra questão, o fato de que filmes como O Som ao Redor não conseguem espaço na distribuição e na exibição, enquanto filmes como De Pernas… têm espaço garantido – pois leva-se em conta o peso de uma Globo Filmes no marketing, na produção e exibição em relação a produções ditas independentes, mesmo que muitas vezes dependentes do dinheiro público (aquele outro velho problema dos editais que garantem a produção mas não exigem nem garantem espaço para exibição – ou “os filmes que nunca vimos”). Porque, como bem assinalou o Bernardet num dos seus livros, o que vale no Brasil é produzir, se alguém vai ver ou não, parece não importar muito.

Mas chamei a atenção para tudo isso porque queria escrever alguns comentários sobre Cine Holliúdy, talvez o que mais me chamou a atenção até porque soube fazer um bom marketing usando a idéia de primeiro filme falado em cearês (ou cearensês, não sei ao certo). Estive no Ceará e me apaixonei. Lamentei que a estréia do filme tenha sido logo após minha estada por lá. O filme, quando estreou no nordeste, lotou as salas e teve sessões extras. Foi literalmente um fenômeno. No começo do ano eu fiquei louca para assistir a O Som ao Redor e quando estive em São Paulo soube que teria uma exibição por lá – centro cultural do país, afinal, infelizmente – mas não tive tempo de ir assistir. Em dezembro vi que já estava passando na TV a cabo, vi somente uns trechos e não posso falar, ainda, sobre. Mas eis que em dezembro tive a surpresa de ver a propaganda, na Globo, de que passaria Cine Holliúdy. Seria num sábado e eu, lá pelo horário da novela, me aconcheguei no sofá depois de um dia árduo de trabalho. Acaba a novela e começa Zorra Total (uma das coisas mais ignóbeis que o humor brasileiro já produziu). Eis que penso que seria, então, depois de Zorra Total. Resolvo assistir um outro filme que já havia visto, para passar o tempo. Acaba Zorra e começa (putz, esqueci o nome do programa) o Groismann (de quem nunca gostei desde o sucesso que ele fez em outro canal). Eu, como não conheço a programação de sábado, fiquei de cara. Aí aparece a propaganda dizendo que o filme seria depois do Groismann. Ou seja, madrugada. Ah, lembrei, o nome do programa é Altas Horas (o que já diz muito). Bem, eu havia ficado acordada até aquela hora, o filme que eu estava assistindo para matar tempo era bom, ou seja, resolvi resistir porque pensei “quando terei a oportunidade de assistir Cine Holliúdy novamente?”.

O primeiro choque foi a escolha por exibir o filme legendado, depois do letreiro anunciando que era o primeiro filme falado em cearês. Vi numa entrevista ou li em algum lugar sobre alguns produtores nordestinos já terem sofrido a abordagem, de exibidores, que “sugeriam” que os filmes fossem legendados para poderem passar no resto do país (sudeste, que fique claro). Aí inicialmente fiquei pensando sobre isso. Tive a experiência de ter ido para o nordeste ano passado e presenciei um sulista conversando com um piauiense: o segundo não entendia nada do que o primeiro falava. Eu mesma, quando estive no Ceará, reparei no meu modo de falar, me senti um brucutu. O nordestino, com as diferenças cabíveis, tem melodia, fala de um jeito agradável aos ouvidos. Essas considerações sobre o sotaque dos nordestinos (como se paulista, gaúcho, paranaense e até os chiados intermináveis dos cariocas não tivessem) nada mais são do que preconceito – ah, mas tudo hoje em dia é preconceito: não, não é. Porque eu me pergunto se eles criticam e falam dos nossos sotaques como nós falamos dos deles. E sulistas e sudestinos são especialistas em preconceitos. Os exibidores do nordeste também “sugerem” que os filmes daqui sejam legendados? Vejam o trabalho muito bem realizado do Thiago Lacerda em O Tempo e o Vento em relação a um falar “gaúcho”, precisou de legenda?Comentei isso no Facebook e um amigo, cearense, disse que a escolha por legendar poderia ser uma crítica satírica do próprio diretor – não sei, realmente não sei, percebe-se que o filme é crítico e satírico, mas aí não sei o quanto isso pesou na escolha pela legendagem.

Mesmo que tenha sido uma crítica – ou o reverso da crítica pelo nosso preconceito com o sotaque deles – nós, bons sulistas e sudestinos, jamais entenderíamos. Devo dizer que desatentei para as legendas e, claro, uma palavra ou outra, mas não pelo sotaque e sim pelo regionalismo, não entendi. Mas isso, meus queridos, até ali em Curitiba, minha terra natal, acontece comigo.

Tinha lido algumas críticas não muito positivas sobre o filme (o que não aconteceu com O Som ao Redor, e devo dizer que o pouco que vi deste arrefeceram minha animação de vê-lo). Realmente ele não é nenhuma obra-prima. Porém, o mais louvável é que ele constrói uma crítica contundente sobre a condição de exibição de cinema no Brasil de forma lúdica. Confesso que aquela parte das artes marciais e dos filmes exibidos eu achei um tanto enfadonhas, porém é uma questão de gosto pessoal. Mas considero genial a utilização de produções “próprias” dentro do filme e não aquelas já desgastadas referências a clássicos do cinema. As atuações são excelentes, a diversão é garantida. A apresentação dos personagens, a brincadeira com a linguagem cinematográfica e o final são sensacionais. Em quase tudo há leveza, o riso sutil, a malícia na medida, sem precisar descambar para o humor fácil e para a apelação sexual. Falcão é uma participação especialíssima e impagável, enquanto meu personagem favorito é aquele que fica repetindo as coisas – adorei. A direção, porém, me pareceu errar na mão ao alongar muitas cenas que poderiam imprimir um outro ritmo a um roteiro e atuações tão esmeradas.

O letreiro final, contudo, é ácido: no Ceará, dos 184 municípios, somente cinco têm cinema. E a pungência deste dado me fez, na hora, lembrar uma notícia que eu tinha lido há pouco tempo sobre o Ceará estar com 174 municípios, do seu total de 184, em situação de emergência por falta d´água. Claro que na hora também lembrei do filme gaúcho Saneamento Básico. Finca no coração a questão crucial: como discutir cultura, mais especificamente cinema, num país que não tem esgoto nem consegue levar água ao seu povo? Lembrei até dos cinemanovistas. Será que eu preciso – ou posso – conscientizar essas pessoas? O cearense que, no meio do semi-árido, não tem água em casa para seus filhos não tem consciência disso? Ou cineastas seriam pretensiosos por natureza? (tenho um relato sobre esta questão da água de uma experiência pela qual passei durante a viagem que, de tão contundente, fica difícil expressar em palavras)

Não se pode tirar o mérito do filme de mexer em vespeiros do cinema brasileiro com tanta lucidez e fabulação. Talvez um dia tenhamos um filme brasileiro que se enfie por estes caminhos espinhentos sem humor, sem fábulas, sem açúcar e de forma inteiramente crua. Acredito que seria muito interessante, mas careceria de público e seus realizadores seriam execrados pelos seus “colegas” de profissão. Seria muito interessante inclusive para o público, para que ele – vejam só, não gostamos de esclarecer o tal público ignorante? – entendesse quais as agruras pelas quais passam os que trabalham com audiovisual no Brasil (e, claro, como eles mesmos colaboram e muito com isso).

O fato de Cine Holliúdy ser nordestino é notável. Durante a final do The Voice Brasil vi o comentário irritado de um amigo, no Twitter, sobre esse senso comum de associar o que é nordestino ao “brasileiro legítimo” e coisas semelhantes (era sobre aquela participante que era nordestina e tocava sanfona). Tenho lidado com a questão porque é parte dos meus estudos e fazia pouco tempo tinha lido, num excelente livro sobre o cinema rural no Brasil, a relação que no próprio cinema se percebe sobre buscar um legítimo “brasileiro” no sertão com o sertanejo, no rural com o caipira, na favela com o favelado (negro, invariavelmente migrante). Este é um dado mais que evidente da nossa história cinematográfica – e que é, como bem assinalou meu amigo, expansível para outras áreas, principalmente na cultura. Algumas características do “bom nordestino” estão presentes no filme, como a força de quem, mesmo diante de toda a desesperança, é perseverante, a inerente alegria e o traquejo com as forças políticas usurpadoras locais. Sem querer expandir em considerações acadêmicas, estas características são, em determinados momentos, “autorizadas” para serem levadas às telas, pois há conflitos diante de preconceitos e ideais utópicos. Só para esclarecer, darei um exemplo sobre o caipira que era criticado e renegado nas décadas de antes de 1940 porque representava, nas telas, um país ignorante, atrasado, inculto, enquanto nossas elites queriam avançar com a modernidade – somente depois que nos afirmamos como país rico, industrializado, é que foi autorizado ao caipira estar nas telas como um bom exemplo humano de trabalhador e sonhador brasileiro. Não sei se o filme evidenciou isto porque são, enfim, características do povo nordestino ou se simplesmente caiu no senso comum. Eu voltei de lá com impressões ainda mais fortes sobre estas características. Aliás, gostaria de acrescentar uma (sem medo de cair no senso comum mais raso) qualidade a essas características: o colorido. Reparem, no filme, nas cores das casas, do cinema, dos figurinos. Voltei do nordeste com os olhos mais coloridos. E como sou uma apaixonada pelo excesso de cores, isto aqueceu meu coração.

Enfim, o último filme brasileiro que assisti no cinema, depois de um razoável Serra Pelada, foi Meu Passado me Condena. Comentei brevemente sobre ele por aqui e confesso que pouco tenho a dizer. Assistam ao trailler, é o suficiente – e vocês vão rir mais do que com o filme. Infelizmente ainda levaremos muito tempo para encontrar um caminho entre os filmes “cabeça” e as comédias populares. Ainda acho que a vocação brasileira é pela comédia (até eu comecei a me arriscar neste “gênero”). Meu constrangimento (e, vejam só, a platéia pareceu concordar comigo) ao assistir Meu Passado me Condena, mais um sucesso estrondoso de bilheteria do ano, me fez pensar que o caminho para um tempo áureo na comédia, como já tivemos, será árduo e longo. Porém, porém, porém… Cine Holliúdy aliviou um pouco o peso de toda esta discussão e deu um passo considerável neste possível avanço.

De resto, não me cansarei de ler, ouvir, discutir e escrever sobre tudo isso. Já diria o querido Paulo Emílio sobre a importância dos filmes brasileiros acima de todos os outros, para nós brasileiros. Irei mais ao cinema para assistir a filmes brasileiros, espero que sem ter que sacrificar um Darín. Porque discutir rivalidade entre cinemas nacionais, a força da TV e o fim das salas de cinema se extinguem com a já célebre frase presente em Cine Holliúdy: Enquanto houver vida, haverá cinema.

 

Ps.1: Ficou faltando Tatuagem ali na lista dos que eu queria assistir e não consegui.

Ps.2: O livro que mencionei é O Rural no Cinema Brasileiro, edição esgotada de 2001, o qual eu adoraria ter mas só há disponível no Estante Virtual por R$150 – se alguém quiser me dar, ganha um beijo e minha eterna gratidão. Sim, estudar no Brasil é caríssimo. Sim, sebos exploradores não são algo incomum. E 2013 também foi o ano no qual mais comprei livros novos.

Eleitos do Ano

Resolvi, neste clima de despedida de 2013, fazer uma lista. Não sou fã de listas. Meu mundo não é assim organizado. Fiz uma, ao meu gosto, dos eleitos do ano.

Sorte e Azar eleita a música do ano. Na versão ao vivo com a qual me deleitei no show delicioso e inebriante do Barão. Foi a trilha do ano com “Tudo é questão de obedecer ao instinto Que o coração ensina a ter O resto é sorte e azar!” e eleito o mantra da sorte!

Arrested Development foi eleita a série do ano para os momentos “vou rir que o mundo tá sombrio”.

– Buster eleito o personagem “queria ter escrito um assim”.

– Thiago Lacerda, no cinema e na TV, eleito o “quero um pra mim” do ano.

– Purefoy, no The Following, eleito o “suspiros” do ano.

– “Oh, Jack!” eleita a minha frase no escuro do ano.

– Telepatia com mami a 160km de distância eleita o “é muito amor” do ano.

– Torta de legumes da mami eleita o “quero mais” do ano.

– Tomar sorvete depois de longas caminhadas aventureiras pela Ilha sob sol forte foi eleito o “puta que pariu, por que eu fiz isso?!” do ano.

– Vestido 38 eleito facilmente o “YES!” do ano.

– Ir ao cinema sozinha impulsivamente foi eleito o “o mundo não é lugar pra mim, tchau!” do ano.

– E-mails não respondidos foram os “expectativa é um saco” do ano.

– Santana do Cariri eleita a “preciso voltar”.

– Dar um fim num caso de quase amor tumultuado foi o “você pode superar isso” do ano.

– Discutir em redes sociais foi eleito disparado o “não vou mais fazer isso” do ano.

– Belo Horizonte foi eleita o caso mal resolvido do ano.

– Março, novembro e setembro (nesta ordem) eleitos os meses do ano.

O Prisioneiro eleito o livro do ano.

– O passado foi eleito o “sempre bom te ver” do ano.

– Escrever foi eleita a paixão do ano – agora definitivamente correspondida.

– Santo Elias e São João Nepomuceno, aquele que não tira os olhos de mim, foram eleitos os santos do ano.

– Lagoa do Peri foi eleita o “ali no meu quintal” do ano.

– Frequentar academia foi eleito o “quem diria” do ano.

– Twittar, por incrível que pareça, foi eleito o “preciso maneirar” do ano.

– Cachaça (a mineira e a do Sertão do Ribeirão) foi eleita o momento “fazendo festinha em mim mesma”.

– Só beber sozinha e em casa foi eleita a melhor decisão do ano.

– Falar verdades para pessoas próximas foi eleita o “deixa pra lá” do ano.

– Belchior foi eleito o “só ele me entende” do ano.

– Perder o show do Benito de Paula em São Francisco do Sul foi eleito o “as pessoas são muito fdp” do ano.

– Sagitário foi eleito o signo do ano.

– Pais solteiros e mãos foram eleitas as obsessões do ano.

– Veloster foi eleito (sem tirar o troféu da Dodge Dakota vermelha, mas juntando-se a ela) o carro que me dá tesão.

– Festa da firma em fotos postadas afú nas redes sociais foi eleito o “sério? As pessoas realmente gostam disso ou tá todo mundo fingindo?”.

– Editar foi eleito o “olha, eu ainda sei fazer isso!”.

– Minas Gerais, as minhas Gerais, foi eleito o “eu quero, eu posso, eu consigo” do ano.

Parade´s End foi eleita a minissérie do ano.

– Piscianos (sim, mais de um) foram eleitos os “não era pra ser”.

– Vitor, Seu Napoleão, aquela senhora na topic, o Eli e o Elias foram eleitos com louvores o “certas pessoas mudam a vida da gente, vocês mudaram a minha”.

– Dar tudo errado foi eleito o “dá tudo sempre tão certo” do ano.

– Conversas com taxistas foram eleitas o “vê só!” do ano.

– “O coração está vazio e ausente. Os negócios vão bem.” foi a frase do ano da agenda.

– Por falar em agenda, conflito de datas e prazos foram eleitos o “te vira!” do ano.

– As duas estrelas cadentes que vi este ano (uma no Campeche e outra sobre o Rio Paraná) foram o “só me falta uma coisa na vida”.

– O Destino foi meu companheiro fiel com quem caminhei o ano inteiro de mãos dadas.

– Colher milho perdida no meio do milharal foi o momento “alegria de quem parece ter cinco anos” do ano.

– Sinais foram eleitos o “eu sempre acreditei” do ano.

– Querer seguir e o sentimento de não ter voltado foram eleitas as dores do coração.

– Decidir ter um filho foi eleita a coragem do ano.

– A chuva (tipo a de hoje) foi eleita a “de novo?!” do ano.

– Desejar tanto aquelas conversas no quarto de costura foi eleita a prova de que o impossível existe.

– Elogios foram eleitos a desconfiança do ano.

– Pessoas recém chegadas ao Instagram foram eleitas as “tua vida não é fotográfica, sorry” do ano.

– Eu nunca conseguir dizer o que devo foi eleito o “tu é uma anta” do ano.

– Sadok foi eleito o “finalmente um esmalte que não lasca no primeiro dia”.

Meu Passado Me Condena foi eleito o “vi o trailer, ri, gostei, fui assistir para entender o fenômeno das comédias no cinema brasileiro contemporâneo e achei constrangedor”.

– Os Gonzagas e Milton Nascimento foram eleitas as trilhas das viagens e sentimentos redescobertos do ano.

– A morte foi eleita (depois de tantas visitas frequentes) a “não fez falta nenhuma!” deste ano.

The Deep Blue Sea foi eleito o filme terapia do ano.

– Ver a lua cheia nascer atrás da Ilha do Campeche foi eleito o “corre, olha a onda!” do ano.

– Tomar banho de mar geladíssimo nos Ingleses com um pinguim foi eleito o “depois não sabem porque eu moro na Ilha” do ano.

– Ter que dar respostas que eu não tinha foi eleito o desafio intelectual do ano.

– Passar pelo risco de vida dentro de casa e saber que ninguém me socorreria e que nem dariam pela minha falta tão cedo foi o momento “a vida pode ser engraçada” (ironicamente) do ano.

– “Força, fé e cabeça no lugar” foi eleito o mantra de quando os astros estavam desalinhados.

– Minha boca maldita foi eleita, como sempre, a praga do ano.

– Minha fé foi eleita a “Deus tira até vaca do meu caminho” do ano.

– Sonhos escancarando as portas da realidade foi eleito o “vem, gostoso!” do ano.

– Os sonhos, aqueles dormindo, foram eleitos a hiper realidade do ano.

– O luar do sertão foi eleito… bem, a canção diz tudo.

– Excessos e desperdícios foram eleitos os “preciso mudar” do ano.

– Paisagens inesquecíveis foram eleitas “a vida é isso, não há mil palavras nem dez mil imagens que dêem conta”.

– As pessoas confiarem em mim e se abrirem tanto comigo foi eleito (novamente) o “não entendo isso” do ano.

– Homens casados e ocupados foram eleitos o “mundo triste este” do ano.

– A loucura do ano (nem as suas nobres concorrentes) infelizmente não pode ser anunciada aqui.

– Zoroastro Artiaga e Sinfrônio José (João Sinfrônio não dá) foram eleitos os nomes do ano.

– Ter escrito um livro de contos eróticos foi o trabalho mais divertido do ano.

– Decidir escrever mais um livro de contos foi o “trabalhar vicia”.

– Amores inventados foram eleitos o passatempo fútil do ano.

– As idéias geniais foram eleitas o “ufa!” do ano.

– Pensar em uma certa pessoa cogitando se ela também pensa em mim foi eleito o “já vi esse filme antes”.

Enfim, ainda tenho alguns dias para atualizar a lista. Alguns eleitos talvez não figurem aqui porque não valiam a pena. E este ano valeu muito a pena.

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