O que as pessoas falam…

As pessoas falam coisas que, sabe Deus porque, nós guardamos lá na lembrança. Ouvi uma vez, de uma criatura que talvez tivesse interesse em me dizer isso (mas eu realmente não percebi!), que deveríamos casar com quem gostamos de conversar, porque quando tudo acabasse (amor, sexo, trabalho, e sei lá mais o quê) só restariam as conversas. Alguns dizem que devemos casar com aquele que nos faz rir. Já ouvi dizer que o mais importante é a estabilidade no relacionamento. São tantas as “sabedorias”!

Mas, pensando nessas concluí que discordo de todas – isso não significa que tenho outra que acredito melhor ou mais “sábia”, o que me faz lembrar da seqüência do Fahrenheit, Truffaut. Eles estão na biblioteca secreta da velhinha e ao andar através de tantos livros (proibidos, na época “futura”) o chefe do Montag comenta sobre a Filosofia, sempre vem um depois do outro a dizer que a sua é a “certa”, é a melhor. Pois bem, deixemos isso para os filósofos.

Casar com quem gostamos de conversar? Não. Nas conversas estamos sempre mais dispostos a ouvir ou falar. Nunca ambos. E vai que acontece que os dois do casal estão na mesma? Dois querendo apenas ouvir fica complicado, pior ainda dois querendo apenas falar. Fica um falando de uma coisa, o outro de outra. Mas quando combina de um querer falar e o outro ouvir? Acredito que precise sempre haver uma intercalação desses papéis. Sejamos sinceros, você casaria com alguma pessoa com a qual gosta de conversar? Conversamos com os familiares, com parentes, com amigos, com inimigos, com desafetos, com o cara da tenda de frutas, com o dono do restaurante, etc.. conversar se faz necessário, principalmente, com as pessoas com as quais não convivemos diariamente sob o mesmo teto. Não sei porque me ocorreu isto, mas fato é que cheguei a esse pensamento. Você não “precisa” conversar com quem está ali do seu lado, sabe o que você pensa, no que acredita, o que detesta. Para quem está ao seu lado, o mais importante é o silêncio. Hoje, depois de alguma “experiência” em relacionamentos interpessoais (bonito isso, né? Só para não parecer outra coisa!), percebo que com as pessoas mais próximas não sinto tanto a necessidade de conversar, mas o que me fez chegar a isso foi sentir que o silêncio entre duas pessoas, se incomoda, é sinal de que não é um bom relacionamento. Se o silêncio é terno, confortável (principalmente), é porque ali há algo muito bom.

Tenho ouvido bastante que sou engraçada. Longe de ser um elogio, penso que se nada der certo, virarei palhaça, que tal? Sou uma pessoa divertida, isso é fato (não com qualquer um, beleza?). Divirto muitas pessoas, como me divirto com tantas outras. A diversão é um quesito diário e importante da vida, mas não sempre. Ao mesmo tempo ouço que sou uma pessoa séria. É, é verdade. “rir de tudo é desespero”, não é mesmo? Ou como diria a Dra. Sônia (filósofa) “vocês estão rindo de nervoso” (ela dizia isso para nós pobres aluninhos de primeira fase). Divertir-se é necessário. Em um relacionamento é muito difícil (principalmente para as mulheres), diante de brincadeiras constantes, saber o que o outro leva a sério ou não. Posso ser um tanto chata nisso (não só nisso, diriam alguns), pois acredito que brincadeira tem hora. No relacionamento, por culpa da convivência, é mais complicado você encontrar essa “hora”. Por favor, não é pra ficar sério o tempo todo! Por isso que casar com quem te faz rir começa com um problema, quando você quiser falar algo sério e importante, aquela qualidade vai virar defeito.

E, finalmente, a estabilidade. Eu começo realmente a acreditar que as pessoas gostam disso, mas tenho certeza que isso não as faz feliz. Se é para ser um relacionamento duradouro, como aguentá-lo na estabilidade? É na instabilidade que descobrimos o outro, descobrimos a nós mesmos, descobrimos do que somos capazes e até onde vão nossos sentimentos e nossa palavra. Não é à toa, né, gente, que todo romance Best seller e água-com-açúcar tem aquele conflito para os personagens se apaixonarem. E por que, como, terminam com um “viveram felizes para sempre”? A estabilidade gera muita coisa (segurança, conforto, blá blá blá), mas não é a mãe da felicidade. As coisas sempre as mesmas não nos deixam sempre feliz. Agora ainda lembrei da teoria de um grande amigo e colega de profissão de que as mulheres é que selecionam e escolhem o seu parceiro. Discordo veementemente disso. Na maioria dos casos é o homem! E o que preocupa os homens para conquistar essa presa? Oferecer conforto, segurança, estabilidade, para mostrar que essa conquista é pelo “melhor”. Bobos, né? Porque a quase totalidade dos homens se preocupa tanto com a conquista, mas nem percebe que conquistar uma mulher é fácil (bobas, né?), o difícil é mantê-las. É sempre preciso oferecer mais a cada dia. Por isso que essa idéia de que “eles têm os mesmos gostos, os mesmos interesses, fazem as mesmas coisas, têm os mesmos amigos” é a pior sobre o “certo” num relacionamento. A estabilidade e a constância acabam com o cotidiano, admirar e gostar do que o outro faz é essencial, mas viver juntos requer a separação, requer a distância para que o sentimento sobreviva. Tenho visto muitas pessoas casando (não entrarei no mérito do casamento pois todos sabem que não sou lá uma pessoa com boas opiniões a respeito), procurando relacionamentos a todo custo, pessoas em situações bem estáveis. Algumas, que já estão nesta situação a algum tempo, mostram sinais de infelicidade. A perfeição pode ser bem monótona. E, como diria o velho sábio, tudo acaba. Algumas coisas pordem reviver, diria eu, mas os sentimentos não.

E o Inverno?

Ouvindo rádio pensei nessas coisas que acontecem no Inverno. Muitas pessoas dizem que o mau humor corre solto nessa época. Tem aqueles que dizem que adoram o Inverno (porque não passam necessidade, é óbvio) e tem os que odeiam o frio. Tem as melhores receitas para passá-lo sem lamentar muito como tem a quase unanimidade que o Inverno engorda!

Pois eu gosto do Inverno. Cada uma das Estações tem suas maravilhas. Conheço mais gente que não gosta, a maioria mora em cidades nas quais realmente faz frio.

Mas, vejamos as maravilhas do Inverno. Fondue? Uma delícia, sempre em família ou com boa companhia (não qualquer um), com um vinho branco fresco. Cobertas! Gosto tanto que daqui a pouco farei como as botas, comprarei uma por ano! Botas! Lindas, lindas, pelo menos uma por ano. Mas não uso botas só no frio, gosto demais do modelo para isso, me sinto mais “poderosa” com uma bota nos pés!

Fogão à lenha lá da mami na varanda, cozinhando, assando pinhão, milho! Ah, festas juninas! Pé de moleque, pipoca, pinhão, batata doce, paçoca! (por essas e outras que Inverno engorda!) Assistir um bom filme sob as cobertas! Uma noite especial a dois de queijos e vinhos! Essa é uma das melhores, sem dúvida! Uma viagem pra Serra, vendo o tempo cinza e frio por aí pelas estradas!

Sim, tem muitas maravilhas. Mas devo dizer o que não gosto: a quantidade de roupa que temos que usar! Eu definitivamente não gosto de usar roupas e no Inverno é ainda pior porque a quantidade é terrível! E sempre tudo muito preto! Não gosto dos Invernos chuvosos… além do frio aqueles dias depressivos e intermináveis. E a gordura esquenta, também, o que faz com que desanimemos com mais vontade. O que me motivaria a pegar a bicicleta agora para dar uma volta na beira-mar? O dia está nublado, com um vento gelado persistente. Não tenho ânimo nem para trocar de roupa desse jeito!

Ah, lembrei de mais uma coisa boa do Inverno! Os banhos com água bem quente, quase escaldante! Faz mal pra pele e para os cabelos, mas isso é frescura, hein! Aquela água quentinha e deliciosa faz é muito bem pra alma!

Dessas e outras coisas que gosto e desgosto no Inverno a mais terna é uma praia tranqüila com um pôr do sol lindo para ver, sentir e fotografar. O sol do Inverno marca para sempre qualquer espírito.

Se tudo lá fora está tão cinzento e frio, cabe a nós colocarmos alguma cor, seja nas roupas, nas bolsas ou nas unhas! E vamos aproveitar mais uma estação, com uma pizza quentinha acompanhada de um bom vinho tinto no calor da sala de jantar, com risadas e conversas interessantes porque daqui a pouco já estaremos na Primavera! Ah, a Primavera…

tempo de sentir

Tem dias que são curtos demais para tudo que queremos sentir.

Não falarei do meu dia de hoje, nem do de ontem ou de algum outro. Nem escreverei minhas ficções (seriam ficções?).

Escrevo para vocês que me lêem e que me fazem tão bem, sei que vocês existem e sinto-me feliz com isso. Escrevo sobre esses sentimentos que nos transbordam e que parece que não cabem na vida.

Queremos amar mais. Passear mais. Ver, ver mais. Não queremos que escureça às 18 horas e que não possamos continuar naquela trilha linda pelo costão da Ilha. Queremos que as decisões de um instante não afetem nossa vida inteira.

Porque um dia temos que tomar decisões. Sejam quais forem. E elas se resumem em assumir quem somos, o que queremos, o que sabemos fazer; e o que é necessário, o que tornaria as coisas mais “fáceis”.

Um dia é pouco para pararmos ali sentados num banco da beira-mar, ou numa fila no supermercado e admirar o andar incerto e claudicante de uma criança agarrada ao seu urso de pelúcia, em volta da sua mãe, ou aquela menina de cabelos nem loiros nem ruivos, volumosos, longos, lindos, ao lado da mãe com o irmãozinho no colo dentro do ônibus.

Não cabe num dia a quantidade de sol que queremos na pele, ali, deitados… no calor suave e delicioso. O sol que vai secando, esquentando… que traz a promessa de que a chuva vai demorar a voltar.

Um dia, de poucas ou muitas palavras, no telefone, nas conversas pessoalmente, na internet. As palavras em centenas de anotações pelos cantos, nos quadros de avisos.

O tempo que temos, tão curto, para ensaboar o corpo todo com aquele sabonete cheiroso na bucha mais gostosa. Um banho pra um dia. Dois banhos.

O olhar. Olhar quem amamos. Perder-se a só olhar. Olhar a decorar cada traço, cada peculiaridade.

As músicas que podemos ouvir num dia mas que o coração queria tanto ouvir mais e mais.

Aquelas fotos e vídeos que ansiamos por fazer todos os dias, como eternizar até o momento da mãe na cozinha preparando um prato especial.

Como o eterno não cabe num dia. Nem em uma vida.

Como um dia especial que dedicamos a uma pessoa se torna tão triste quando ela já não está mais aqui. O dia continuará sendo dela, mas esses que se vão persistem todos os dias para os que ficam.

A sobrevivência das flores que em poucas horas nascem, vivem e morrem. Assim, como se a vida não fosse mais que isso.

Quantos beijos cabem num dia?

Quantos sorrisos? Cada um deles conta. Até os que negamos. Até os que esquecemos. Até os que escondemos.

Porque o relógio caminha para a meia noite e o coração se aflige de não ter sentido tudo. Talvez, hoje, não tenha dado tempo só de telefonar pro pai e dizer “e aí, velho, beleza?”. Talvez tenhas faltado aquele “bom dia” pra vizinha sempre triste. Ou um “obrigada” por um pequeno presente do dia.

Não sentimos tudo e já temos que partir para o sono, para o “amanhã”. Posso não querer ir porque não terminei o “hoje”? Porque não quero sentir amanhã que o hoje vai se repetir. Porque as decisões e as minhas omissões me lembram de sentir mais amanhã.

E nada compensará. Sentirei menos, sentirei mais. Nunca sentirei tudo.

E acordarei sentindo que não me entreguei por completo naquele sonho.

Realmente sinto se decepcionei vocês, meus leitores. Mas hoje o coração falava aqui que o meu olhar queria ter ficado mais tempo detido naquela cor azul petróleo do mar, naquele brilho do sol no metal, naquela gatinha dormindo de boca aberta, naquela lua bem alta no céu, naquele olhar congestionado de quem amo, naquela conversa de telefone com quem está longe, no dia de ontem que era para dar tempo de lembrar de todos os dias 20 de julho dos anos passados, naquela água caindo do chuveiro, naqueles passos tortos de uma mulher com um sapato feio de salto. Meu coração fala aqui que o dia já passou, a meia noite já veio me fazer sentir que todo o tempo ainda é pouco.

interior

Eu vagava pela casa arrumando as prateleiras, as gavetas, dobrando roupas. A vida resumia-se a isso, agora. O fogão era um grande amigo, passávamos horas e horas conversando, trocando intimidades e receitas. A pia era uma inimiga fofoqueira, nem eu ainda conseguia gostar dela, apesar da convivência forçada (ou talvez por isso mesmo), nem ela simpatizava comigo, meio louca, aprontava umas de vez em quando. O telefone tocava, volta e meia, se não era eu respondendo que ele não estava, era minha mãe, sem fé que eu estivesse bem. O jardim ficava largado, nunca consegui gostar de colocar as mãos na terra e o frio que aqui faz deixam-no como um quadro triste daqueles que alguma tia pinta e colocamos na parede quando ganhamos em algum aniversário. Ali da janela fico olhando para ele, entre uma vassoura e a máquina de lavar roupa, por alguns minutos. Só alguns… parar lembra que ainda posso pensar. No final do dia sinto-me exausta, com a janta pronta e a mesa arrumada, como se eu tivesse corrido uma maratona, ou quebrado pedras o dia inteiro. Não lembro mais porque vou deitar na cama de casal fria e dura. Ouço a TV e os comentários dele, faço que “sim” ou que “não” com a cabeça algumas vezes, sorrio quando ele diz que me ama. Durmo cedo, com as galinhas como dizia minha avó. O frio dentro de casa fica mais suportável com o aquecedor elétrico que ele trouxe semana passada, mas durmo sempre com três blusas e três calças. Sinto um nó no estômago quando sinto minha pele gelada, ou a dele. Pele gelada me lembra os mortos. Nem neles penso mais. Meu cabelo está pela cintura, sempre amarrado num coque ou coisa assim. Os shampoos que vendem aqui são muito caros e de poucas opções. Me diziam, antes de me mudar, que a vida na capital era cara. Mal sabem eles que aqui, longe de tudo, nada é barato. E pouco se tem a comprar. Nem isso faço, compras. Não saio mais de casa, ele até tentou me incentivar a fazer amizades aqui pela vizinhança. Mas essas velhas mal arrumadas, feias e gordas me olham com malícia e inveja. Não suportaria nem falar com elas. Enquanto o fogão assa e a máquina trabalha fico sentada no sofá, debaixo da manta, folheando uma revista qualquer que ele sempre traz da rua. Quando ouço a máquina parar já levanto, com um certa alegria e resignação, para estender as roupas. Às vezes, acho que lavo demais as roupas. E que não tenho comido muito bem, já perdi muitos quilos, tem dias que nem almoço, só a janta para ele, que é sagrada. Encontrei um espanador esses dias, numa caixa da mudança, fico com ele o dia inteiro na cintura. Poeira não tem mais em canto algum. Quando chove quase entristeço, bate uma vontade de chorar por horas a fio, até secar os olhos… os pássaros se abrigam no telhado e nas árvores do quintal. Só ouço os passinhos deles pelo forro e imagino como devem lutar pelas suas vidas e de seus filhotes neste frio. A máquina de lavar roupa parou novamente. O devaneio se foi.

O mundo logo ali

Era sexta-feira, saí cedo (mas bem cedo) de casa para enfrentar uma viagem até a minha terrinha lá na Serra, com escala em Joinvilândia para levar mami junto. Resolvi ir cedo porque era dia de jogo da Seleção, nas quartas de final da Copa, às 11h e minha mãe queria assistir ao jogo, eu viajaria durante sem problemas, até acho que a estrada estaria mais tranqüila. Mas, enfim, mami queria…

Lá fomos nós. Chegamos já havia começado o jogo. Encontramos papi e fomos almoçar. Confusão básica de sempre para decidir algo e numa cidade até que bem vazia, pois o jogo é justificativa para parar tudo.

Lá perto da praça do Japão (não, esta viagem não teve fotos… infelizmente) encontramos dois restaurantes abertos, um em frente ao outro. O do outro lado da rua era nitidamente chinês, coisa que é bem comum por lá. Bem, resolvemos ficar no chinês mesmo.

Lugar admiravelmente limpo e organizado. Com um Buffet de dar água na boca! Comida típica mesmo, os melhores e mais conhecidos pratos da culinária chinesa. Já fui em alguns restaurantes chineses lá e o Buffet era uma mistura indecifrável de comida típica com comida brasileira e massas e carnes, confuso mesmo.

Eu sou uma entusiasta da comida chinesa, faço bons yakissobas! Mas os pratos estavam com uma aparência linda! E lá rolava o jogo do Brasil (nesse momento 1×0 para “nós”) numa TV, todos com a atenção voltada para ela. Eu não gosto de assistir jogo da seleção em lugares públicos, porque o povo se exalta e na maioria das vezes é bem desagradável. Mas ali até que eles estavam comportados. Só duas (mulheres…) que ficavam dando gritinhos contidos em alguma bola que passava bem longe do gol.

Fui algumas vezes até o Buffet me servir (tinha um bife de bacon… ah!) e reparei na cena: um jogo de futebol do Brasil com uma dúzia de pessoas (brasileiros) ali assistindo, comendo comida chinesa, ao lado do dono e de seus filhos que falavam chinês entre eles! Me senti mais cosmopolita e globalizada do que nunca!

Eu e papi comentando negativamente o jogo, afinal foi um vexame sem tamanho e sem precedentes! O que foi aquilo, grosseria, desespero, perderam a cabeça, expulsão, sem raça, sem paixão, sem vontade! Papi não torce (Itália e Inglaterra já tinham saído mais cedo e ele ficou chateado!) mas analisa e é bem realista. Eu não torço, entendo demais de futebol (aprendi, sem opção de não aprender, tudo sobre futebol com o meu irmão e com os programas de TV que ele assistia) e meto o pau na “nossa” seleção que me decepcionou sem volta na Copa de 98. Pra mim, basta me decepcionar uma vez, daí acabou mesmo.

O chinês dono do restaurante torcia para o Brasil. O pessoal começava a caminhar para os seus respectivos trabalhos, muitos com camisetas verde e amarela e com olhares desanimados. Bem, não teríamos mais folga na próxima terça-feira.

Depois dos compromissos burocráticos resolvidos, fomos passear em Curitiba, agora com maninha. Eu ainda queria vasculhar algumas lojas de cosméticos e de equipamentos de camping e pesca. Lá fomos nós para o calçadão da XV, ah, paraíso de compras. Fiquei muito contente em encontrar esmaltes diferentes e outras coisinhas e com o atendimento excepcional no setor especializado de pesca da Az de Espadas. Lugar muito bom para comprar roupa de inverno, apesar do calor maravilhoso que fazia (nem usei meu casaco nessa viagem!).

Por ali, lá pelas 18h, resolvendo algumas compras, encontramos um telão no calçadão. Lá estava o jogo Uruguai e Gana. Jogaço!! Com direito a prorrogação, defesa de mão do uruguaio, expulsão, pênalti perdido… ufa!! E o povo vibrando! Jogo de verdade! E vieram os pênaltis. Foi emocionante ver centenas de pessoas ali torcendo, alguns para Gana, alguns para o Uruguai, vibrando a cada lance! Até eu me emocionei! Todos olhavam para o telão, esquecendo por um momento que o “país do futebol” dera um vexame sem precedentes no maior evento de futebol do mundo.  Porque futebol é raça, é vontade, é paixão, não é, para nós torcedores, um simples “negócio”.

Realmente esta viagem de passagem em Curitiba me fez sentir no “meio do mundo”, com minha mãe já fazendo planos para a próxima Copa, quais jogos vamos assistir. Desejo que a Bolívia passe das eliminatórias, que o México venha, o Uruguai, o Paraguai.

Aliás, no sábado (ou foi no domingo?) o jogo Espanha e Paraguai foi sensacional! Fiquei até nervosa! Assisti em Joinvilândia mesmo, com o povo reclamando das minhas intervenções. Jogo de fé, surpreendente, com a Espanha chegando e levando uma surra de tática e vontade do Paraguai. O gol? Foi no momento da única falha do goleiro do Paraguai, que se adiantou. Mas, futebol é assim.

O jogo do Uruguai, depois, também foi bonito. Com direito a gol nos 47 do segundo tempo. Lutou até os últimos momentos. Um 3×2 com a Holanda, de encher de orgulho qualquer um. Como a Argentina. Chutando a gol, correndo, jogando. Não passaram vexame.

Agora só resta esperar que venham para cá. E que provavelmente eu irei assistir algum jogo. Talvez não do Brasil. E talvez não com as condições mínimas de estrutura. Ainda acho que não deveria vir pra cá, nem a Copa nem as Olimpíadas. Mas, enfim, dizem que não sou patriótica. Será? Eu defendo o meu país, mas na educação, na saúde, principalmente. No futebol? Só se mostrarem competência, né? Ou nem por isso.

E como comentou meu namorado: onde estão as bandeiras do Brasil? Acabou a Copa, tiraram. Só vejo bandeira do Brasil em casa de estudante de intercâmbio no exterior e nos jogos da Copa. E como disse um amigo: o Brasil ficou em oitavo na Copa, mas é 85 no ranking da educação e ninguém se importa. O que faz diferença?

Durante a Copa ouvi muitos torcendo pelos países da América Latina, dizendo que essa era a “nossa” Copa. Claro, os países ricos, desenvolvidos, investem e se preocupam com coisas mais importantes. Pouca importa para eles perder no futebol. Eis o pão para o povo. Em muitos outros esportes, países como os EUA e a China tem destaque e ganham muitas medalhas. Um dos principais motivos é que lá eles dão bolsas nas universidades e escolas de qualidade para quem pratica esportes, com disciplina e responsabilidade. Um bom filme é o que a Sandra Bullock ganhou o último Oscar de melhor atriz. Neste filme ela adota um negro que tem dificuldades na escola, mas se empenha em estudar para ir para a faculdade e entrar no time de futebol americano (acho) de lá.

É preciso conquistar. Conquistar mais. Crescer, desenvolver.

Não basta sentirmos que estamos no meio do mundo. Precisamos estar no mundo, de verdade.

amor e vinho

Quando o amor perde medidas

Quando o vinho está por todos os lados

Quando as roupas viajam

Quando os sentidos perdem espaço e loucura para o amor

Quando as palavras voam pelo espaço

Quando a TV ligada não quer dizer nada

Quando o chocolate é atacado pelas formigas

Ou deixado pela metade sobre a mesa

Quando os sons fluem pelas narinas

Quando a loucura atravessa feito punhal a alegria

Quando a comemoração é despedida

Quando o tudo não é mais nada

Quando o não não significa não, mas sim

Quando o álcool não permite pensar, mas deixa falar e falar

Quando o tempo não passa

Quando a vida lá fora continua

Quando os olhos estão estuporados

Quando os dedos não obedecem

Quando a mesa ficou solitária

Quando o copo ficar vazio

Quando a vontade é correr atrás do amor e trazer para ninar

Quando os beijos são de fogo

Quando se perde a noção do seguro e do inseguro

Quando as coisas fora do lugar fazem sentido

Quando as nuvens estão ao alcance

Quando a felicidade não é nome, é carne

Quando o tempo nunca basta

Quando a vida tem duas partes

Quando as partes se unem

E não se separam, nem de espírito nem de mente

Mas se separam de corpos, de vez em quando

Quando esse desespero é de um bêbado

Quando se é deixado

Quando a vida lá fora continua

Quando nada mais importa

Quando amar é o que te faz sentir viva

Quando amar é te livrar das amarras da vida

Quando amar é o vinho no sangue

Quando amar é a cama desarrumada

Quando amar é o silêncio dos gritos e declarações

Quando amar é romper tudo

Quando amar é querer sem ver

Quando amar é ter palavras demais

Quando amar é amar amar amar amar amar amar amar amar amar amar amar amar amar

Me restam essas palavras e um olhar no portão

Eu, pra variar II

Aquilo que faz sucesso, a gente reprisa! (coisa que não acontece com os erros de arbitragem na Copa!)

Já que recebi tantos comentários sobre algumas coisas que escrevi aqui, retomo o narcisismo! Aproveitem!

Me dou bem com leoninos, geminianos e aquarianos (necessariamente nesta ordem), piscianos é complicado, depende muito (tem uns que são muito fora da realidade, né!). Não me dou nem um pouco bem com cancerianos, arianos e capricornianos (necessariamente nesta ordem).

Sou supersticiosa.

Comigo o santo bate de cara, na hora. Não tem essa de ir “construindo” uma relação.

Sou cruel. Muito cruel.

Sou viciada em pintar as unhas! (desde os doze anos, só dei uma parada nos cinco de graduação, prioridades…)

Não dou satisfações, não peço autorização.

Tenho pavor que me peçam “desculpa”. Não faz, fez, não adianta pedir desculpa.

Sempre fui desobediente.

Me divirto e gosto de soltar pum! (essas declarações estão indo longe demais!)

Um bacardi com soda, geladinho, me deixa nas nuvens!

Adoro dar e receber presentes!

Me irrito comigo mesma.

Adoro coleções! Bolsas e esmaltes são os favoritos.

Não me peçam para fazer escolhas. Entre “a” e “b” sempre peço a opção a e b!

Aprendi a costurar e bordar com a minha avó. Só tenho o problema da dificuldade de atenção para levar alguma coisa adiante.

Não suporto ficar sentada em sofá, vou logo me espichando.

Sinto falta de alguém para cuidar das coisas práticas da vida. (isso vale um post)

Amo mudanças. De tudo, sempre. Mudo móveis constantemente (desde criança!). (isso também vale um post!)

Fui uma criança muito “dada”, super carinhosa. Hoje mal consigo dar um abraço nas pessoas. Coisas da vida.

Amo sentir o corpo cansado e suado. É uma sensação de vida!

Tenho uma admiração especial pela Marilyn Monroe. Meu vestido de formatura é uma réplica do dela do filme “the seven years itch”, aquela cena que a saia levanta com o vento do metrô.

Descobri quando pequena que amo ler. Eram os livros me fazendo companhia. Mas na graduação li menos do que queria, muita coisa por obrigação e acabei perdendo um pouco o prazer de ler.

Disso acho que veio minha paixão por escrever.

Falo demais, sempre. As pessoas param de me ouvir sem querer! Escrevo demais, falo demais…

Amo excessos!

Não gosto de paulistas, no geral. Tenho aí umas duas, três exceções.

Sou chata.

Atraio pessoas “malas”. Indiscutivelmente. Eu tinha a piada que devia ter cara de bagageiro, pra atrair tanta mala.

De vez em quando me saio com o: coisas da vida.

Não sei guardar segredos! Me conte um… mas me queimo pra repassar!

Sou uma pessoa confiável! (hehe)

Sou o tipo de pessoa “pau pra toda obra”. O que me acarreta problemas incríveis. Culpa minha, é claro.

Não sei dizer não para um convite que me leve “além”.

Adoro comer! Tenho que me cuidar pra não engordar demais. Por mim nem me preocupava com isso. Mas, né, taí a saúde que pede atenção.

Tenho vários relógios e calendários pela casa. Mas sou a pessoa mais desligada! Não sei que dia é hoje. Não me importo com horários, sempre chego atrasada!

E tem uma coisa que quem me conhece mais de perto diz de mim (e eu sei que é verdade): penso, sempre, o pior das pessoas (e das coisas). Tenho uma mente mais cruel que eu para isso e muito eficiente.

(a mente cruel aqui começou a trabalhar, então vou me entreter com os esmaltes e o MSN antes de me estirar para mais um filme, beeeem romântico! Ah, não falei que adoro filmes românticos com homens interessantes? Pois é… nessa noite até sonhei com o Benício Del Toro… depois de ter assistido “Things we lost in the fire” prometi pra mim mesma que no meu longa de estréia, do qual já tenho roteiro, ele será protagonista!)

Eu, pra variar!

Resolvi falar um pouco de mim. Veremos se vai dar certo.

Gosto de pia seca, sem uma gota de água. Fico ali, enxugando quantas vezes for preciso.

Me realizo ao lavar qualquer coisa. Adoro água, é verdade, mas ainda mais a sensação de ver a coisa limpa depois.

Adoro papel. Faço coleção. Guardo panfleto que tem um lado em branco pra usar o outro em anotações. Tenho pilhas e pilhas de papel em branco pela casa. Sou fissurada em blocos de anotações.

Não gosto de telefone tocando. Tenho verdadeiro trauma. Já recebi algumas das piores notícias da minha vida por telefone. E sempre acho que o telefone toca no momento impróprio, em relação ao meu humor para falar com a pessoa do outro lado da linha.

Tenho verdadeira e enorme paixão por fotos. Desde criança. Depois desenvolvi paixão pelas imagens em geral. Crio na fotografia por brincadeira e com o coração.

Não suporto paredes vazias (nem as brancas nem as de outras cores). Vou logo colando bilhetes com frases e fotos e imagens e calendários. Ou escrevo nas paredes.

Não suporto, de modo geral, o vazio. Tudo a minha volta sofre de excesso. Coisas e mais coisas.

O silêncio me perturba, me incomoda, não me deixa dormir. Mas alguns barulhos, principalmente os repetitivos, me deixam louca, completamente fora de mim.

Tenho um problema super sério de dificuldade de concentração. Uma das causas de eu faltar tanto às aulas. Não consigo sentar e prestar atenção por muito tempo, normalmente nem por pouco tempo. Aprendi a fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo para conseguir ficar mais centrada. (como agora, TV ligada sem som, música tocando, twhirl aberto) Comer, ler alguma outra coisa, falar, pensar, essas coisas me distraem para que eu consiga me concentrar. Difícil, bem difícil. Ainda mais se tiver uma janela por perto.

Adoro olhar pela janela. Seja esta qual for.

Não gosto de futebol. De esportes em geral. Acho um gasto de dinheiro à toa. Tive discussões intermináveis com meu irmão sobre isso. A facilidade de ter um campo de futebol num bairro e a falta de uma biblioteca no mesmo lugar.

Eu não me dava muito bem com meu irmão. Segundo minha mãe éramos tão iguais. Mas eu sempre achei que éramos opostos. Vai entender.

Não posso viver sem ver o horizonte ao longe.

Tenho uma relação de cumplicidade com o mar. Nos sonhos e na vida real.

Tenho sonhos loucos (doidos, como diria um amigo que me chama de doida). Loucos mesmo, de mil e uma maneiras.

Sofro de claustrofobia assustadora. Não consigo nem colocar uma blusa com gola mais justa que começo a entrar em parafuso.

Minha memória é cinematográfica. Excepcional e detalhadíssima.

Meu pai não colocava fé em mim. Mas faz uns dois, três anos, que ele começou a colocar e eu estou adorando isso! Virou meu fã!

Eu “fugia” de casa quando criança. Saía assim, caminhando.

Aprendi que quem mais te conhece, que está mais próximo de ti é quem pode te destruir com mais facilidade. Descobri isso bem cedo na vida. (não pensem que com essas declarações aqui estarão me “conhecendo melhor”, a coisa vai mais além)

Me alegro sem sentido com as palavras. Cantadas ou faladas apenas.

Tenho uma enorme dificuldade de lidar com as pessoas. Enorme mesmo. Sem razão, sem solução. Convivo com elas por necessidade, obrigação e com algumas bem poucas por prazer!

Tenho desejos. Desejos de grávida! (como dizem, afinal não sei como é!) Do nada, os mais insensatos, impossíveis, estranhos ou doidos (já que sou doida, né). E deixo algumas pessoas de cabelo em pé para realizá-los (ou por não realizá-los).

Não sei deixar nada para depois.

Tenho um excelente humor. O único problema é que ele muda constantemente. Isso também desespera as pessoas à minha volta!

Eu me divirto com coisas à toa!

Não gosto de notícias.

Tenho vontades inconfessáveis! (como a de matar por prazer! Ih, confessei…)

Mania de organização é comigo mesma, nem consigo sair de casa sem que esteja tudo no lugar.

Moro sozinha porque gosto, porque tenho dificuldade de conviver com os outros e por algum outro motivo que não me ocorre agora.

Adoro funcionalidades, modernidades, praticidades!

(já estou me distraindo, tomei banho enquanto escrevia este texto, pensando no que mais escrever, metade deixei debaixo do chuveiro)

Já perdi tantas pessoas que aprendi a me desapegar, mas aprendi ainda mais que valor se dá pra quem merece.

Sou sincera. Conheço apenas uma pessoa que admira essa minha sinceridade excessiva.

Não faço uso de meias palavras. Prefiro não perder tempo descobrindo se a pessoa é boa entendedora, já dou de sola com as palavras inteiras mesmo.

Vivo melhor com flores, bem coloridas. Rosas acima de todas. Mas tulipas e gérberas estão na lista.

Gosto de todas as estações do ano. Carinho especial pela Primavera (pelas flores e pela luz) e pelo Verão (sol! praia! férias!). O Outono não tem personalidade, não sou fã de nada que não tenha personalidade. Mas, acima das preferências, adoro variar! Gosto das estações bem definidas!

Mudar é essencial na vida.

Sei cozinhar muito bem. Salgados. Doces não. Tenho uma teoria, cabeças exatas cozinham bem doces, cabeças passionais cozinham bem salgados. Doces necessitam de “ponto”, salgados são mais intuitivos.

Adoro uma bobagem! Detesto besteiras!

(agora vou fazer alguma outra coisa porque já passei uns dez minutos só escrevendo e minha cabeça começou a ir para outros lugares, o corpo precisa acompanhá-la! Prometo continuar!)

Ah, uma última… sempre cumpro minhas promessas!

E sei falar muito bem de mim. Fiz auto-análise na adolescência, culpa dos livros de Psicologia de papi.

Colonos do Novo Mundo

Tem uma piada que fala dos japoneses. Um deles viaja e quando volta alguém pergunta: e aí, como foi a viagem? Ao que ele responde: não sei, ainda não vi as fotos. (ou “revelei”, lembrando das analógicas)

Isso me levou a pensar nas pessoas que hoje em dia viajam e passam um tempão postando fotos nas redes sociais da vida. Quando voltam, da experiência sublime que é ver o outro pouco sabem dizer.

E o que mais me choca é o anseio pelo “velho” mundo! Ó colonialismo que nunca nos abandonará! Dá-lhe Europa. As pessoas mais críticas, as mais estudadas, o povo das universidades… não podem deixar de fazer mestrados, doutorados e viagens de folga, onde? Europa, é claro. E a Europa mais óbvia, sim, Londres (parece que só existe isso na Inglaterra toda), Itália, França. Nem ao Leste Europeu chegam.

E são essas pessoas que aqui, ali no intelectualismo das nossas esquinas, pregam a valorização da cultura brasileira, dos nossos autores, do nosso povo, e blá blá blá. Babacas, isso sim.

Velha ignorância brasileira. Povinho medíocre. O que vem de fora é melhor, lá fora é sempre melhor que aqui. Não entendo porque continuam aqui. Além de vermos as fotos, já reparou o papinho chato desse povo quando volta? Ah, quinto mundo… Ah, educação…

Está aí a Copa que não nos deixa fugir. Os times europeus é que são os melhores. Quando Paraguai, Uruguai, Argentina ganham, aí é surpresa, zebra. Itália? Fiasco. França? Escândalos. Inglaterra? Ausente. Alemanha? Vergonha.

Mas, enquanto esse povinho aqui preferir ir aos EUA pra fazer cursinho de inglês e ser garçonete nas férias ou ir “pras oropa” tirar foto da Torre Eiffel ou do Big Ben, o país continua na velha e má colonização.

O explicável para os porcos

Uma mulher, magra, gestos tensos contidos e os olhos sempre para o chão. Um homem, doce, cadenciado, sorridente.

– O amor é inexplicável… – diz o homem com um sorriso tímido.

– Ora, não fale essas bobagens. – a mulher responde imediatamente em tom quase inaudível.

– Bobagens, minha cara, minha mais bela do mundo…

– Shiii! Não fale assim, já disse que não gosto! Por favor! – interrompe a mulher olhando para os lados.

– Acreditas, pelo menos, que me apaixonei por ti quando te vi pela primeira vez, naquela festa?

– Apaixonou, apaixonou… isso não é amor.

– Não? – o homem pula de onde estava, encostado na varanda – Não?! Ora, se apaixonar-se não é amor! É a forma mais cálida e deliciosa do amor! A mais verdadeira!

– Paixão, paixão… é disso que falas! – ela se exalta, o tom de voz fica estridente – Amor é algo digno! É da alma, não dessas… dessas… dessas coisas… dessas coisas que as pessoas fazem.

– Mas tudo isso é amor, minha bela! Tudo… nossos olhares, nossos sorrisos, nossos sonhos, nossos carinhos… – a voz doce e calma atravessa a penumbra que os separa.

– Não me chame assim! Você não sabe o que é o amor. Você pensa que as coisas mundanas e sujas são sublimes! Como pode desejo, essa coisa irresponsável e desenfreada, ser um alimento para a alma? Para duas almas! Nunca! Desejo, vontades, beijos, mãos, pés, suor… – ela estremece e baixa a cabeça tremendo.

– Você sabe que eu estou certo. – a voz agora é metálica, seca, prudente – Você nega o que lhe convém. Nega o que mais lhe atrai, o que você não consegue é fazer seu corpo negar. – a voz é um desapontamento cristalino.

O silêncio se abate na varanda. Nem o vento, nem o mar, nem vozes ao longe. Ele vira de costas para ela e lança um olhar para a escuridão. Ela, ereta, encosta-se à parede e suspira.

– Você sabe que eu te amo. Desde aquele dia eu sabia que você seria minha, e você sabe. Você viu como eu olhava pra você. Lembra quando todos íamos embora? Eu caminhava ao seu lado, ajudei você a descer a escadaria. Quando ficamos sozinhos, antes da despedida, eu segurei a sua mão. E hoje… hoje estamos aqui. Você não acredita em mim. Você reprova meus ímpetos.

– Não fale mais! Por favor! Por favor! – o rosto tenso, uma lágrima ferve.

– Eu não falarei… – a voz é dolorida, presa.

– O amor é explicável. Para vocês, que atam o amor ao que o corpo e os sentidos dizem. Para os escritores e compositores que o reduzem a “olhares” – ela coloca desprezo na voz e no rosto – e toques e essas “coisas”. É explicável o amor de vocês como o “amor” dos porcos. Cheiros, posições, contatos, corpos. Isso é bem explicável! – ela levanta a cabeça, altiva, olhos de um desprezo congelante, e sacode a cadeira com seu movimento intempestivo.

– Não me admira. – ele volta o rosto para ela e lentamente vai girando o corpo de volta, com a serenidade nos olhos – Agora até porco eu sou. Nunca mereci nada de você. Meus sentimentos não são tangíveis para você. Ninguém os ignora, além de você. Gostaria de saber o segredo para destruir essa escuridão na qual você vive.

– Não há escuridão. – interrupção abrupta.

– Por que você não tem sentimentos? – duro e certeiro.

– Cale-se! Sentimentos! Eu os tenho! Superiores aos seus! Seu… seu… Você fala assim porque eu não sou só mais umazinha que cai nos braços de qualquer homem inteligente, interessante, bonito e de boa conversa que aparece! Eu sei dos meus sentimentos! E eles não são isso que você, como qualquer porco, tem! – os olhos vermelhos saltam, as mãos brancas e finas tremem, os lábios contraídos.

– E agora o porco aqui vai voltar para a sala… fazer de conta, novamente, que não ouviu nada dessa conversa e sorrir para os outros. Estarei lá, tentando esquecê-la. Até… até… Até você voltar a sorrir para mim. Chegar com alguma conversa inocente e boba e me pedir para buscar alguma coisa na cozinha. Ver seu rosto iluminado e alegre enquanto as crianças apresentam a peça. Mas, claro, sem encostar em você, pois se eu tentar segurar a sua mão para descer a escada você me olhará rancorosa e puxará a mão com asco. Esse é o seu amor… Eu não estarei ali naquela sala à sua espera dessa vez. Por isso esse meu “amor de porco” é tão melhor que o seu, eu me apaixono, e do mesmo modo desapaixono. O amor só pode ser compartilhado com quem consegue se desvencilhar dele tão bem quanto a ele se entrega. – palavras pausadas, indiferentes, o oposto do inexplicável.

– Isso não é amor! Viu?! Bem como eu previa, hoje uma, amanhã outra… – a partida dele, para sempre, cala suas acusações desalmadas e insinceras; golpes que não machucam, destroem o que o outro construiu com os próprios sentimentos e com as esperanças que lhe deram.

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