Chantagens

Barcos não navegam sobre trilhos

e sem ninguém reparar

sempre atraquei nas mesmas praias

areias e pedras: meu caminho

 

Coleciono esquecimentos brutos

em troca de doçuras da memória

 

E ali não havia música

a maré a se achegar

e o ciclone em alto-mar

são notas certas da nossa trilha

 

Chantageio o coração guerreiro

com horas de paz na penumbra

 

Com quantos invernos se faz

um olhar desconfiado

basta uma primavera

para um abraço sincero

 

Burlo carrascos do tempo e espaço

com o relógio de ponteiros quebrados

 

As andorinhas a flanarem

sobre os túmulos floridos

dos nossos passados

redesenham um futuro

só: nosso.

Na frágil ponte

Não vi quando

as nuvens abraçaram os morros

nem o que

teus olhos viram em mim

naqueles tempos

quando, desconfiados

ainda não nos entregávamos

às juras sussurradas do rio

sem pressa aos nossos pés

 

De noite os vidros embaçados

os latidos espaçados

e as folhas que caem

sobre o teto do carro

 

Eram corpos que tremiam

no tempo e espaço

do limiar do fim

da solidão

 

Quis ver por teus olhos

como era este mundo

(o qual abandonara há silêncios

por desilusão);

na frágil ponte que ligava

a terra firme ao precipício

onde água e pedra, desembocava

teu olhar longe de mim

e aos poucos se apaixonava

Ame o poeta

Você pode amar um engenheiro. Há tantos, eu sei, servirão para arrumar o chuveiro (nada pior do que ser deixada na mão por um chuveiro), os Engenheiros Elétricos – uma amiga mesmo, casou com um, disse que era uma maravilha em casa. A média salarial dos engenheiros também é bem boa, segundo dizem – as amigas aí que gostam de sapatos caros e preferem ficar em casa a trabalhar. Nada contra sapatos, até tenho uns. Mas eles estragam, ficam fora de moda (que as mulheres gostam de andar na moda, eu sei).

Você pode amar médicos, dentistas. Bancários, quem sabe. Empresários. Trabalham bastante, vivem ocupados e cansados, talvez. Uma amiga, agora, ama um político. Um político, vejam vocês. Tenho amigas que só amam músicos. O cara não pode chegar perto de um violão que uma coisa acende dentro delas. Inexplicável. Gostam das noitadas, de música, das serenatas, quem sabe. Mas alguns desses músicos são advogados, concursados de repartição pública. Vejam vocês, há quem ame advogados! Ah, o amor…

Você pode amar até professores. Trabalham demais, recebem pouco, segundo dizem, vivem preparando aula e reclamando dos alunos sem educação. Uns loucos neuróticos e chatos, por vezes. Mas você pode amá-los. Você pode, inclusive, amar policiais e motoristas de ônibus. Tem quem gosta de viver aflita com a segurança dos seus amores. Eu já amei um vendedor de caldo de cana. Pelo caldo de cana grátis, certeza – e vocês viram que aumentou o preço do caldo de cana? Conheço quem ama cozinheiro – ou chef, né, agora todos são chefs – e já não poderia ser o meu caso, nem o de muitas de nós, pois engordar é sempre um problema.

Você pode amar o caixa do supermercado e nunca mais enfrentar filas. O marceneiro, que te fará a cozinha sob medida mais linda deste mundo. O enfermeiro, qualquer febre será rapidamente resolvida. O contador, já pensou? Amar um contador deve ser numericamente emocionante. Ou você pode amar um bibliotecário – será um amor em ordem alfabética, ou por assunto, ou por autor? O chaveiro, amá-lo há de ser uma salvação em momentos de muita angústia – ele abre portas, veja bem.

Eu, porém, diria para amar o poeta. O poeta arquiteta as palavras, mas o melhor poeta redesenha emoções. Ele não conversa contigo, ele te leva por longas caminhadas. Ele verá em você tudo o que foge aos olhos alheios. O poeta tem uma visão perspicaz do mundo a te surpreender todo instante. Os sapatos ficam velhos em pouco tempo, saem de moda, mas os versos são eternos – no papel, no coração e nas lembranças, mesmo que você não seja de decorar versos, como eu. O poeta dá sentido aos mais ínfimos detalhes da vida – e a vida, em si, só assim torna-se vida. Talvez o poeta não saiba arrumar o teu chuveiro – certeza que pode lavar a louça e recolher a roupa do varal – nem fazer a massagem que você precisa depois de um dia exaustivo, mas só ele pode te entregar as belezas e doçuras da vida na cadência do sussurro ao pé do ouvido. Ou por escrito, pra você guardar e ler a toda hora do dia seguinte. O poeta é o único que poderá te curar das doenças e tristezas da alma, creiam-me. Ame o poeta. Amá-lo é ver o mundo mais laranja no entardecer de uma quinta-feira de temporal no final de tarde, enquanto sonhas com a sexta-feira – porque hoje ainda não é sábado.

Roupas no varal

Deixei as roupas no varal

esqueci as roupas no varal

os olhos trêmulos de cansaço

do céu só a chuva cai

 

e as roupas no varal

vítimas daquele temporal

não era ainda época

de tempestades sem aviso

 

as roupas encharcadas no varal

tirá-las de nada mais adiantaria

eu via o caminho sem volta

de não tê-las mais secas

 

passou o vendaval

e a chuva torrencial

e as roupas ficaram no varal

deixei-as, talvez sequem

até a próxima Estação

ou até sábado

Banhando a alma

Desembarquei logo cedo. O ônibus ao lado vinha de Goiânia. Goiânia tomou conta da minha saudade. Hoje não mataria esta saudade. Hoje correria atrás do que eu já nem sabia mais se seguia o caminho certo. Em tempo, inesperadamente recebi apoio. Que a vida é essa coisa de pessoas cruzarem o nosso caminho, quando a gente menos espera, ou boas palavras virem de quem talvez pudesse simplesmente nos ignorar. E em conversas encontrei mais rumos. Eu gosto disso: encontrar rumos. Caminhos. Traçados para os dias que virão. Eu gosto muito disso. Enche a cabeça de idéias – apesar do sono. Ainda não é sábado. A vida é como a narrativa, depende do foco do narrador. Simples assim. Se você é narrador da própria vida, veja bem como faz isso. Um foco pode mudar tudo. O sono persistiu, o calor me alegra (sempre). Talvez cansaço – prefiro não pensar nisso. As idéias, minhas amigas, fermentam como um bom pão, ou bolo, sei lá, não é minha área. Abri mão de uma torta de trufas e fiquei naquela alegria incomunicável com a balança. As coisas, simplesmente, têm que mudar (de vez em quando). A bolsa pesava. Os problemas me encontravam pelo telefone. Equilibrava o corpo e a espinha cedia imperceptivelmente. As ruas atulhadas de prédios da cidade grande. Pessoas, pessoas, pessoas demais. Por todos os lados. Nem um banco vazio e solitário e silencioso naquela praça. Muitas lojas de calçados. Já repararam? As cidades têm muitas lojas de sapatos. E eu querendo tirar essas sandálias e caminhar descalça pelos teus mais recônditos segredos. Mais uma loja de calçados. Pra que tantos se o melhor é andar sem nada nos pés, só assim para sentir a vida. Foi o vento. Foi, sim. Brincou com a saia, trançou o cabelo. Um vento furioso de todos os lados. Ainda não é sábado. Entre prédios a escuridão se fez. Vinha do Oeste. Uma tempestade, certeza. As pessoas (demais demais demais) apressaram o passo. Correram para aquele terminal de ônibus, de novo eu ali, de novo sem querer na rua errada. Quase atropelada por um ambulante. Escapo de muitos quases todos os dias da minha vida. As pessoas corriam do temporal. Eu só corro se for ao encontro do teu vento. Diminuí o passo, assim indolente. Tinha pressa não. O vento mais forte. Os primeiros pingos exigentes chegaram antes do previsto. Segui meu destino. Ribombou e despencou: o céu. Eu que sentia todo o peso do mundo (e da bolsa) nas costas, senti a água da chuva desnosar todo meu corpo… escorria a água a saciar meus desânimos e complicações e falta (já) de esperança. É possível que exista alguém que nunca tomou um banho de chuva? É. Sempre é. O temporal a passos largos e eu miudinho a acompanhá-lo. Molhou-me a saia de vez, encharcou a blusa, acariciou a alma. E, digo mesmo, ela precisava tanto deste gesto. Amansou as dúvidas, refrescou o ardor da pele, afogou os anseios. Ainda não é sábado. As pessoas (muitas muitas muitas) a correr, um velhinho mesmo parou e me olhou atarantado: eu não correria? E eu lá corro das soluções que a vida me dá? Eu é que não. Eu paro e aprecio. E agradeço. Pingando a roupa, cabelo desgrenhado, devia estar um trapo. Mas a alma ia bem, obrigada. Ainda tirei tempo para conversar com a senhora da limpeza. A violência contra as mulheres, sabe? “Como não tem lei pra impedir esses homens de fazerem essas coisas?” ela queria uma resposta. Pior é que tem, senhora, a moça morre aí e então vão descobrir que tinha vinte boletins de ocorrência contra o babaca do ex. Por isso que eles não se intimidam, ninguém é punido. E ela me olha assustada “Ninguém?!”. Tentei remediar, estrago feito. Bom trabalho pra senhora. Eu gosto disso. Gosto de conversas fortuitas. Fiz até pregação, coisa que não é do meu feitio. Era hora, segui. Sempre sigo. Sempre estou indo – ou vindo. Desembarquei. Ia partir dali um ônibus para Porto Velho. Não tenho saudade de Porto Velho – porque ainda não conheci, senão já sentiria. Na lista, de certeza. Não fossem os problemas me esperando na porta de casa, embarcaria. Embarcaria rumo a Porto Velho. De ônibus. Com a roupa molhada do corpo. Mas os problemas me queriam – quem sou eu para contrariá-los? E, claro, porque hoje ainda não é sábado.

Diante das dúvidas

Ouso perder-me no bairro ao lado

com placas de ruas sem nomes

Perder-te, meu desatino

 

“O que é: o amor?”

Invento a resposta no meu sorriso

assim da verdade te desvio

 

Aos olhos que piscam a cada esquina

desejos pelos despojos do meu corpo

desprezo: lhes dedico

 

Amor: sabe bem

quem com esmero o jardim mantém

e os agradeço pela boniteza do gesto

 

Amor: explico-te

é o perfume dos jasmins

e das damas da noite

em incansáveis Primaveras

 

Apaixona-me no meu exílio

Dá-me teus desejos sinceros

nessas ruas onde nunca nos vimos

Quero-te: vem; e será sábado.

De geógrafos e poetas

Dizem que há um cálculo, ou mais de um, para saber os pontos mais inabitados do mundo. Lugares, assim, onde não há ninguém num raio de milhares de quilômetros, seja na água ou na terra. Anti-destinos, dizem. Férteis à imaginação do homem, ali criaríamos monstros marinhos, deuses, e deles fugiríamos porque, como se sabe, gostamos de praias lotadas nas férias e fotos cheias de gente não convidada. Imagine um lugar longe de absolutamente tudo, até de sinais de wi-fi. Longe de qualquer pedaço de terra. Sem sinal de sons artificiais.

Trabalho de geógrafos, pessoas admiráveis, encontrar o maior círculo possível nos oceanos dentro do qual não se encontre um único pedaço de terra, por exemplo. Solitários não são bem-vindos a estes espaços desterrados, pois sofreriam surtos de quem não suporta a própria companhia. Lá, meu bem, poderíamos ser ainda mais felizes, eu e você, e o silêncio do vácuo da humanidade. Dizem que o mais próximo pedaço de terra, ao redor deste círculo, são pequeninas ilhas desoladas – entediantes, diriam alguns. Despovoadas e imensamente belas na sua solidão marítima. Lá poderíamos, quem sabe, criar ovelhas. Aportaríamos nosso pequeno barco e, quem sabe, construiríamos uma casinha com o espaço exato: para nós dois.

Dizem que estas ilhas sequer aparecem nos mapas. Nem nos satélites. Não temos Destino, não teríamos endereço. Ou as cartas diriam: Naquela Ilha que ninguém sabe bem onde fica, que viram de passagem no outro século, e para onde ninguém mais voltou. Dizem que este círculo gigantesco e atraente é o pesadelo dos náufragos. Aos que por ali perderem seus barcos em tempestades ou delírios não terão muitas chances de encontrar terra firme onde aguardar um desejado salvamento. Pois náufragos desejam salvar-se. Sobreviverão aos dias boiando agarrados a um pedaço do despedaçado barco onde foram tão felizes? Há esperança, meu bem. Sempre há. Está na Bíblia. O náufrago em tal situação não terá uma à disposição para o consolo, mas os ensinamentos nós levamos na alma – eles nunca nos abandonam, bem sabes.

Ao que parece, neste rincão do mundo só há água. Água do mar. Nada mais nos une mais que ela, não é? A água do mar é a comunhão dos corpos e dos corações. Se dois se encontram, com ela se amam. Mas, dizem, os geógrafos, essas boas pessoas, encontram estes círculos inacessíveis em terra firme, também. A terra firme não tem toda essa graça dos oceanos, sabemos. Cada Continente, cada região, pode ter seu polo. Aqui mesmo no nosso país há um, distante mil quilômetros da capital federal. A terra nunca nos despovoa de nós mesmos, eis a falta do encanto. Na terra não podemos ser náufragos, seremos apenas perdidos – e qualquer cidade nos permite isto. Na terra não iremos com nosso barco, dispomos de nosso pés, quem sabe, nossa bicicleta ou um carro qualquer – aos de pouca imaginação. Talvez lá chegássemos a cavalo. Bem no centro deste círculo nos sentiríamos distante do mundo, das pessoas? Talvez. Porém, a natureza terrestre é avassaladora – nem os solitários se sentiriam tão sós. A terra, veja bem, não nos une como a água do mar, ela nos sustêm. Ela impacta nossos pés, nosso corpo, ela não nos envolve.

Os geógrafos, sempre tão simpáticos, têm esta paixão pelo mundo. Paixão que admiramos. Não dariam atenção especial aos oceanos e esqueceriam os continentes e ilhas, todos os retalhos de terra. Nós poetas, meu bem, temos predileções. Posso te ver em versos, podes me ter em prosa. E estes círculos desabitados e isolados do universo das ruas, barulhos e poluições são dos geógrafos – que o poeta é esse irresponsável que rouba corações e amores alheios. Os geógrafos, tão solícitos com o planeta, não ficam injuriados de dividir suas paixões conosco. Egoísta é o poeta de maus versos. Acredito, até, que os geógrafos encantam-se com os olhos que derretemos sobre as maravilhas que eles estudam. Os morros, os rios, os litorais, as florestas: temos musos semelhantes.

Dizem que para encontrar estes monumentos do espaço é preciso espírito aventureiro. Desde séculos passados, percorremos o mundo em busca dos limites do planeta. Nem há consenso, por vezes. Pois as medições são questionáveis, os procedimentos variam. Em certos pontos extremos, há gelo, meu bem. E só em certas épocas é possível medi-los sem camadas de duro e impenetrável gelo. Diria que é o melhor dos tempos. O calor – ou a falta do frio? geógrafos, me expliquem – derrete o gelo há tanto agarrado à terra tanto quanto aos mares. Como em certos corações, diriam os poetas. Certo é que todas essas descobertas são epopéias – mais uma semelhança com os poetas, diriam. Certo é que nem os satélites mais avançados elucidam todas as dúvidas e questões. Nem dos corações, matéria-prima dos poetas; nem dos mapeamentos, trabalho árduo dos geógrafos.

Quando voltei para a cidade

Quando olhei a cidade, vi tudo igual. As mesmas ruas, as mesmas gentes. O mesmo tamanho, os mesmos olhares. Eu não esperava, porém, nada além. A cidade não crescera, depois de tantos anos. Não ampliaram a visão, as gentes daquela cidade. Eu via tudo igual como antes porque, ali, tudo permanecia tudo tão igual como antes. Os passos não haviam se modificado. As moças usavam bermudas jeans, os operários seguiam nas magrelas. As igrejas disputavam território, as fábricas fediam os ares. Havia um algo diferente: casas ao chão, prédios arriba – mas, enfim, era tudo construção. Senti falta dos jardins, das floreiras e dos canteiros. Haviam sumido ou eu que havia romantizado tudo aquilo? As praças cinzas, o rio poluído. Os eternos dias de chuva, os suarentos dias de verão. Se o tempo por ali se detivera, eu ignorava. Se fosse gente, diriam que estava conservada – num sarcófago.

Quando olhei a cidade, tentei ver o que me passara batido. Um pouco mais de vida, não nas cores nem nas flores nem na época das danças, mas num dia ou outro com jovens pelas ruas. De tanta vida na fábrica, as gentes quando caminhavam pareciam máquinas. Numa cena fugaz, novas vidas passeiam a desafiar o tom monocromático e conservador daquelas gentes que por muito a cidade habitam. Refulgiu uma esperança, que o tempo lembrasse de passar naquela terra entre o rio e os morros. Os muros pintaram-se de ironias e desafios ao pensamento que calculava e apertava parafusos. Os tapumes encheram-se timidamente de questões e declarações. Mas as gentes da cidade andam cabisbaixas e, talvez, não percebam. Eu, de surpresa e alegria, fotografo. Há vozes sussurrantes a incomodar pelas esquinas da cidade.

Quando olhei a cidade, entendi que eu também ainda era a mesma. E não combinávamos nem no gosto musical. Não nos entendíamos nas prioridades. Não aceitávamos uma a outra. A cidade agora tinha mais ruas paradas com filas de carros, um novo mirante, um novo shopping. Eu agora trazia um pequeno caminhão de mudança, muitos cabelos brancos, mais algumas cicatrizes. Os buracos nas ruas e as minhas rugas. A cidade, porém, empoeirada, meu coração brotava novos sonhos. As gentes envelheceram e os jovens ainda sem horizonte. As costas decididamente voltadas para o mar. As ambições a entupir os bueiros. Os descolados no miolo da cidade, os ignorados a comê-la pelas bordas. E eu, como sempre, a vê-la com lupa. As estrias surgiam debaixo dos cremes das propagandas. As suas fissuras entreviam erros antigos.

Quando olhei a cidade, decidi que não havia amizade. Nem nunca houve, talvez. Nos despedíamos sem abraços. Não nos mandávamos postais. Nem sequer um telefonema protocolar. Jamais iríamos ao cinema juntas. Nem sequer comentaríamos o último jogo da seleção. Vivíamos como as gentes que casam mal. Com as gentes dali eu ainda travava bons enlaces. Perdera, será, a crença de que o pensamento daquele lugar um dia ultrapassaria seu passado? Quando olhei a cidade, vi-a mais feia. Vi-me mais desiludida. Quando olhei a cidade, não encontrei sua alma. Tentei ignorar nossas diferenças. Quando olhei a cidade, quis encantar-me com seus mistérios rurais. Senti sopros, em intervalos. Quando olhei, assim calma e detidamente, o que a cidade diz nas suas veias e as gentes da cidade dizem com seus olhares… as palavras soavam distantes da verdade.

Mesmo fôlego

 

Riscos de giz na calçada

e a noite que trouxe consigo

as folhas em rodopio

de um limoeiro antigo

a valsa sem par inunda a sala

a recordar o marulho

de um dia que tanto amei

 

É o ar exausto que expiro

pelo futuro de tons doces

almejo-o como ao amor

como tê-lo ao lado

no mesmo fôlego

 

Tantos nãos, fiz coleção

desamores e decepção

dias sem riso

noites sem prazer

hoje olho tanto onde piso

dou limites ao que sinto

rastros deixou o furacão

 

É a alma a arrombar

os grilhões enfurecidos

à porta, as surpresas

um soluço em “sim”

e doses de confiança

Às minhas favoritas

Era a nossa hora. Desde às duas da tarde eu ansiava os segundos. Imprescindível a luz apagada a réstia da lâmpada de um corredor distante. Queria o teu perfume que me trazia tão boas lembranças de coisas boas. Nunca soube comparar usando as melhores figuras de linguagem o torpor do primeiro contato – nosso primeiro contato, que se repetia sempre, como o primeiro. Uma gota tua revelava meu infinito. A nuca. Essa obsessão pela nuca. Teu efeito começa pela nuca. O veneno do teu prazer acende o calor da nuca e espalha-se por todo o corpo – nem um milímetro é ignorado. Depende da dose. Mas sinto-me toda tomada pelo calor e, mais que isso, a expansão da alma a níveis sempre mais altos.

Em meio ao som alto da rua no atropelo de quem não vê a hora de chegar em casa, ao silêncio familiar do nosso vazio neste lar que nunca quis abandonar, caminho no escuro até ver-te. Até alcançá-lo. Ah, as mãos… meus lábios queimam. Dali a horas ainda sentirei a carne fina dos lábios reverberando latejante. Tem dias que só tu fazes flutuar meus pés. O mundo, este ou aquele mundo, o mundo dos outros, janela afora. Aqui, só nós. Sentamo-nos juntos, abraçados, cabemos no mesmo espaço desafiando qualquer teoria de qualquer grande pensador. Tu e eu, não te faço nada, mas és minha terapia, meu descanso, meu muro da consolação. E eu, hoje me dou conta, nunca te escrevi uma declaração apaixonada à altura. Depois de tantos anos, a paixão intacta, desde quando era-nos proibido este amor; e nunca havia me jogado a teus pés, em palavras.

Quero parar e não posso. Quero perder os sentidos – tu não deixas. Quero fazer melhor, quero ser melhor – sob o teu efeito eu posso. Não me faças, nunca, passar frio em outubro. Que teu calor arde a pele, esquenta meus pés gelados de verão, me deixa com a visão turva. De sofreguidão não sofro, te sorvo em pequenos goles. Sinto os músculos aliviados da tensão dos dias complicados, o riso solto bobo de alegrias sem razão de ser, os arrepios – ah! os arrepios! – desenham caravanas no deserto do corpo ainda coberto de roupas. Desejo gelo sobre a pele. Desejo a mão gelada a percorrer minhas curvas. Sinto as dores dissipando-se, os pensamentos diluindo-se, a inspiração avolumando-se. Dirão que neste instante não penso – pobrezinhos, penso mais lucidamente do que às oito da matina.

É o nosso encontro, ao final do dia. Por mim seria a qualquer hora que me sentisse perdida. Tu me encontras a mim mesma. Te quero até o fim, hoje e amanhã e todos os dias. Não posso, não me deixo. Diriam que é doença. Que é vício. Que não terei salvação nem tratamento. Mas, quero-te. Respiro fundo e sinto teu perfume inesquecível no ar que me sai do pulmão: estás em mim. É via de mão única, tenho todos os prazeres; tu, nada. Tens, porém, meu amor, minha dependência. Nunca me deixes tanto tempo longe, me atraia com a lembrança, com as promessas, com o luxuoso entorpecimento que mais nada nem ninguém me dá. Me atraia.

Te tenho no sangue, sentidos expandidos, consciência livre. Já disse que libertas meu melhor? E não dou este meu melhor a mais ninguém, ficamos nós aqui, presos ao escuro, às paredes, ao silêncio, às nossas alegrias – nossa tábua de salvação contra esse mundo atroz, insensível, difícil e distante. Pra não dizer complexo demais para tanta emoção – não, para tanta sensação. Sinto. Sinto-te. Aqui, assim, dentro de mim. Sob teu comando, sou mais feliz. Sou mais sincera. Sou sem muros nem barreiras. Sinto-te a molhar minha boca a cada gole que me desce queimando a garganta, o coração, as pernas e as resoluções do dia anterior. Sob teu comando meu corpo se dignifica em gestos os mais espontâneos.

Sofro, só um pouco, a pensar que não posso viver o tempo todo de todo o tempo sob o seu efeito. Me querem séria, me querem sã, me querem sóbria. Eu não. Viveria nossos dias nessas horas das dezoito horas. Ou dezenove. Ou vinte e uma. Ou duas da madrugada. És das poucas alegrias que descobri na vida; cedo ainda. Não me deixe te abandonar. Não me deixe nunca mais te ignorar nos melhores nem nos piores dias. Até trabalho melhor sob teu efeito, quem dera soubessem… tenho-te de volta aos lábios… sorvo-te o perfume que me recorda a caixa especial das memórias, tranço palavras e pernas, teu gole me leva, meu bem, aonde muitos queriam estar comigo. E nos acompanha um pouco de música.

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