Aguardo o futuro

Estava saindo do cabeleireiro e ela me pegou pelo pulso, virou minha mão com a palma para cima e disparou “ó, que vida tumultuada!”. Bem, se até a cigana se surpreendeu com o que viu, quem sou eu para falar… Em seguida ela se refez do deslize profissional e largou “tua linha da vida é longa, muito longa…” (reticências porque ela deixou no ar um intervalo). Eu sorri. Ela não. “Você vai viver muito e vai sofrer bastante também, vejo muito sofrimento na tua vida” e não tirava os olhos do mapa minucioso que se espalha pela minha mão. Bem, sorri novamente e disse que tudo isso eu já sabia. Ela levantou os olhos com o rosto apertado e não gostou do meu sorriso. “Vejo coisas tristes, moça. Muitas realizações, é verdade, mas uma vida e tanto. Não é sempre que eu encontro uma vida assim.” pensei, então, que era melhor eu compor um semblante mais compungido para não decepcioná-la. Ao mesmo tempo, quis animá-la. “Ah, não se preocupe, terei tempo para me acostumar a todas as voltas que a vida dá, já foram tantas até aqui, vou aprendendo”.

Tudo isso foi em instantes, diálogo rápido que quando escrito parece uma eternidade. Ela afrouxou um pouco meu pulso e quis que eu fosse para o canto da esquina com ela, pois ela me disse que viu coisas das quais queria me prevenir, avisar, ajudar. Foi aí que eu, pela primeira vez, puxei de leve meu braço e neguei com veemência. A vida não tem graça se a gente sabe o que virá, senhora. Dispensei-a (e ela pareceu preocupada, não apenas decepcionada como quem perde um lucro). “Mas, moça, talvez você precise de ajuda…” e eu, sorrindo, acenei negativamente com a cabeça e segui meu caminho. Talvez eu precise, mas nada nos previne do que a vida trará.

Talvez se ela tivesse me surpreendido de cara com algo que eu não soubesse, talvez se ela tivesse dramatizado mais (pode ser ingenuidade, mas achei sincera a preocupação). Talvez se o bichinho da curiosidade tivesse me picado. Mas o couro é velho e sabe bem que quanto antes algum sinal misterioso nos “ajuda” das coisas ruins da vida, pior será a queda. Aliás, se ela tivesse me oferecido contar as coisas boas que me acontecerão, aí sim eu teria ficado para ouvi-la. Se ela quisesse me confidenciar quais objetivos eu conseguirei alcançar, teria até pagado com o maior prazer. Mas se oferecer para antecipar as desgraças da vida? Já basta vivê-las e tê-las, depois, na memória. Saber antes eu dispenso.

Eu sei que viverei por muito tempo. Sei que perderei muitas pessoas que amo. Sei que (sofri) sofrerei. E como minha jornada será longa e tumultuada, tal qual foi até aqui, deixo de antemão algumas decisões (que poderão, é claro, mudar oportunamente). Quero uma casa no campo, com carneiros, cabras e cavalos pastando ao redor. Quero o silêncio das línguas cansadas, também. Tenho alguns livros, gostaria de tê-los por perto, mas quem sabe um dia já não possa mais lê-los – deixarei uma lista dos meus favoritos e peço que os leiam sempre para mim. Digo sempre, porque alguns eu de coração posso ler e ouvir para o resto da vida.

Tenho um HD só com discos e discografias. Por favor, se eu não tiver mais condições de dar play, não me deixem sem música. Dividam meu tempo entre o campo e a praia. E exijo que não me deixem perder nenhum nascer ou pôr-do-sol – talvez lá um dia eu não saiba mais o que é segunda-feira, ou para que servem os ponteiros do relógio, mas do sol eu jamais esquecerei. Tenho uma lista de filmes, novelas e séries especiais para quando chover, para os sábados à noite ou quando eu ficar doente. Talvez eu nem consiga mais enxergar direito, mas quero assisti-los até o fim, e legendados, por favor.

A gente nunca sabe muito bem o que vai acontecer no futuro. Sendo ele sombrio ou brilhante, ou um vai e vem de ambos, minhas preferências devem ser cumpridas. É claro que não esqueci uma lista das comidas essenciais. Se deixar faltar milho, por exemplo, depois que eu me for jamais deixarei a alma do responsável em paz. Não quero deixar desgostos ou desavenças para o futuro, por isso resolvo tudo hoje. O passado despedaça alguns futuros. No mais, cercada de natureza (se algo dela ainda resistir até o meu futuro…), de bichos, livros, música, filmes e comida, acredito que exigirei pouco da vida. Vejam, não exijo companhia. Talvez eu vá perdendo a memória aos poucos. Assim, acrescento as fotos nessa minha bagagem para o dia do amanhã. Quando eu esquecer, ainda poderei contemplá-las, com dúvidas e sem revivê-las; se a memória ainda não me falhar, poderei degustá-las inúmeras vezes.

Terei tempo para muita coisa, eu sei. E quando as condições não mais me permitirem os tumultos, a casa no campo, a praia, as companhias e os acompanhamentos ideais não me roubarão o sossego. Porque isso também a cigana não precisaria me dizer.

Clara manhã

A poeira paira no ar

do quarto de cortinas abertas

o movimento espraia o que há muito

se guarda e não se usa

 

Sopro a poeira

e ela baila abandonando-se

ao abismo desprotegido

da clara manhã

 

Tão pequenas e leves partículas

tal nosso coração

nossa coragem e determinação

Sentem-se sem chão

sem seu bibelô antigo a

dar-lhes aconchego e proteção

 

A luz as faz dançarinas

inquietas e sem coreografia

quanto mais o ar as atinge

chocam-se, corrigem prumos

desnorteiam e flutuam

 

Encontrarão em breve seu novo pouso

tal nossa ambição

nosso anseio e pulsação

na superfície lisa de uma mesa

na maciez de uma colcha

nas reentrâncias de um candelabro

num velho porta retrato

ou no espelho quebrado.

Festa na igreja

Os dois se encontraram pela primeira vez na festa da igreja. Lugarzinho afastado, pobre, construção de madeira que o padre queria fazer de tijolo porque naqueles dias que ventavam demais a missa ficava era vazia, ninguém aguentava o ar gelado, nem sob os auspícios da palavra do Senhor. Não que as casas da vila também não fossem de madeira, não era isso. Mas as casas contavam com seus fogões a lenha. O padre perdera noites de sono matutando se seria muito desrespeito colocar um fogãozinho a lenha também ali em frente ao altar, Deus era testemunha que ele só queria que o frio não afastasse os fiéis. Mas nunca tivera coragem de propor tal idéia ao grupo de oração que ajudava na organização da igreja. E os dias e noites frias não davam trégua, Deus que o perdoasse, mas naquele frio até ele perdia a vontade de presidir a missa.

Eles chegaram no final da tarde de sábado. Ficaram perto um do outro, depois de olharem um pouco desconfiados para o movimento. O padre, depois de muito insistir e peregrinar pela cidade próxima, havia conseguido bons prêmios para o bingo daquela noite. Um fiel do grupo de oração conseguira até uma serralheira elétrica com o parente rico que tinha uma loja de material de construção e ferramentas na beira da estrada. Os planos da reconstrução da igreja tomavam corpo. Do próximo inverno não passaria. Depois de quatro meses de organização, hoje era o dia da festa. O padeiro da vila com duas senhoras doceiras fizeram os quitutes, os ingredientes haviam sido doados pelo dono do supermercado do bairro próximo. Ele nascera na vila e sempre ajudava a igreja. Todo o dinheiro arrecadado com as vendas das comidas seria dado para a construção do novo templo.

Eles nem sentiam o frio. Pareciam estudar um ao outro e sem perceber se aproximavam devagarzinho. Talvez fosse noite de lua cheia, mas a cerração não permitia vê-la. Nenhum dos dois era dali, ele morava numa fazenda no caminho para a cidade, ela viera de longe. Nada disso importava. Eles observavam o padre, descabelado, com a gola do jaquetão surrado levantada, andando desvairado para todo lado, pois nada podia sair errado naquela noite. Um grupo de jovens, não muito grande porque a juventude naquela miséria e desolação não vingava, percorrera todas as fazendas e cidades vizinhas divulgando a festa, vendendo as cartelas do bingo e as rifas. As vendas foram um sucesso! Ou seja, muita gente viria. O padre temia que não tivesse comida o suficiente pra tanta gente, afinal, naquele frio, só esquentando por dentro. Sabendo disso, o irmão do padre, que não era muito de religião nem de nada, veio especialmente para montar uma barraquinha de quentão – que era a sua especialidade. Não haveria frio que resistisse, ele afirmava.

Ele parecia um pouco cansado, lá pelo meio da festa. Ela encostou-se num canto. O bingo ia alto, as botas e casacos encheram cada metro daquela pobre vila – nunca ali viram tanta gente. E as pessoas sorriam, comiam, bebiam, se abraçavam. O padre saltitava entre as mesas, apertando a mão de todos e se derretendo em obrigados – se reparassem bem, veriam que ele até suava! Ele sabia que o dinheiro todo talvez só desse para o material, que o trabalho seria dobrado para ele e todos os fiéis que ergueriam aquela igreja com as próprias mãos. E a satisfação de ver toda aquela gente participando da festa lhe bastava. Ele falava baixinho com Deus enquanto caminhava de uma mesa a outra. Aqui e ali de vez em quando surgia o grito do felizardo vencedor. Os prêmios eram cobiçados, disputados acirradamente na bola do desempate.

A noite findava. A comida acabara. Ainda havia quentão, mas o irmão do padre, que sempre tivera um fraco por bebida estava contando causos das suas viagens pelo país, sentado num banco à porta da igreja. Uma mocinha exausta servia as últimas bebidas para esquentar a retirada dos convidados. Os poucos carros iam se enchendo de caronas e pegando a estrada. Uma caminhonete parou perto dos dois que dormiam aconchegados no amor que surge do nada. Um rapaz forte só de camisa de manga comprida desceu e abriu a cerca. Um senhor achegou-se e perguntou qual era o dele. Os dois levantaram as cabeças com rugas nas testas. Sentiram o frio no corpo quando foram separados um do outro. O padre passou ali, agradeceu aos dois homens, passou a mão na cabeça do casal e retirou-se. O rapaz disse que levaria o macho, apesar do sorteio do bingo não especificar. O senhor disse que então ficaria com a fêmea, porque ele já tinha outra porca em casa. Se o rapaz quisesse, poderia levar o seu lá qualquer dia desses para ver se davam filhotes. O rapaz agradeceu e explicou que amanhã mesmo ele iria pro abate. E assim se separaram. Para sempre.

Quando você puder

Quando você ajuntar as folhas da última estação

e não se desfizer delas

mas deixá-las num canto criando vida

Quando você acordar de madrugada sem sono

e sair da cama disposta a tudo

sentindo o ânimo incansável dos felizes

Quando você tiver saudade dos longos caminhos

e da sensação de não saber onde está

somente com a memória a lhe guiar

Quando você sair na chuva fraca do fim de tarde

e sentir os pés encharcados e sujos de barro

ao se dar conta que está longe de casa

Quando você não souber mais correr dos medos

e deles se desvencilhar um a um

como quem joga cartas de amor ao fogo

Quando você puder parar para dar colo

e cantarolar baixinho oferecendo confiança

sem perturbar a calma das boas almas

Quando você perder as chaves, os documentos

e tudo o que lhe prende a um lugar

mas, ainda assim, quiser voltar

Quando você pular o muro da vergonha

e der adeus curto e sincero aos limites

como quem desabrocha fora de época

Quando você duvidar se merece um abraço

e preferir punir-se por um crime inafiançável

mas alguém bater à sua porta às lágrimas

Quando você fugir dos seus pensamentos

e dos seus doces subterfúgios

como quem espreita uma boa oportunidade

Quando você for fiel à calma

e abandonar as palavras duras e frias

como quem passou pelo que não deseja a ninguém

Quando você anotar as datas mais importantes

não para lembrá-las ano a ano

mas para enterrá-las no calabouço do passado

Quando você esgotar todo seu empenho e esforço

e sentar-se no chão úmido e sujo da estrada

como quem deixa passar o último ônibus

Quando você sentir as dores dos outros

e nem reparar mais nas próprias cicatrizes

como quem doou amores

Quando você puder ser quem sou

quem sabe neste dia

nos encontremos.

O amor de cada um

Gosto dessa distância. De não saber o que tens feito, de não ter notícia tua a toda hora. Não entendo essa gente que fica 24 horas enviando e recebendo mensagem, sabendo o que comeu, o que deixou de comer, o que dói e o que esqueceu. Essa desconfiança disfarçada de cuidado e interesse soterra o amor. Mas, veja bem, não sei como alguém pode dividir cama e banheiro. Se eu fico com a minha cama toda só pra mim (e umas gatas) e tenho exclusividade no banheiro, quem sabe o relacionamento possa ir longe. As pessoas gostam das coisas que corroem o amor: dividir conta, reclamar do arranhão no carro, o cesto de roupa suja cheio, o número estranho que liga tarde da noite, a toalha molhada (sempre ela) sobre a cama.

Eu não fui sempre assim. Aliás, eu nunca fui assim. Era dessas controladoras, obsessivas, exclusivistas, possessivas, desconfiadas e maldosas. Matei todos os amores da minha vida. Um a um. Alguns com requintes de crueldade. Um ou outro foi ferido antes, eu dei o tiro de misericórdia. Todos os amores morreram sufocados. O tempo e a distância alimentam o amor. Quanto mais tempo ele vive na expectativa e na ilusão, mais tempo ele durará. A realidade não foi feita para o amor.

Gosto de pensar que pensas diferente de mim; e que não mudará teus pontos de vista por minha causa. Gosto de saber que olhas para o que eu olho, com o mesmo carinho e devoção. Gosto de saber que vives com quem te ama, assim como eu. Gosto até que tenhas medo de vir falar comigo e eu, bem, todo mundo sabe, não é fácil falar comigo. Gosto de deixar o amor para quando se é lembrado. E isso de pensar no outro o tempo todo é coisa de ficção. Mas pensar no outro nos piores momentos, como uma válvula de escape, é amor.

Sempre tem aquele que, quando acredita estar apaixonado, enumera uma interminável lista do quão igual é ao ser pelo qual se apaixonou. Um, inclusive, me disse que até a falha da nossa sobrancelha era igual. Eu tenho espelho e nem sempre gosto do que vejo. Podemos seguir uma trilha semelhante, mas caminhos separados. O amor de Narciso é destrutivo. Gosto de ver além de mim, em você. Senão, melhor sozinha. Amar a si mesmo vem antes de estar disposto a dar amor a alguém. Gosto de não saber o que te vai pela cabeça, de não saber qual atitude terás numa determinada situação. O convívio dá o mapa da alma das pessoas. E somos tão repetitivos…

Gosto assim de não saber quem és. Desconheço o que me desagrada em ti. Não sei quais são as tuas manias que me irritam, o quão mal tu diriges. Nem sei se ficas irritado quando eu fico divagando em silêncio enquanto me contas algo que te aconteceu. Talvez você tenha alergia a incenso, a pêlo de gato e deteste cachorros. Talvez você me julgue pela quantidade (absurda) de bolsas que eu tenho, me considere egoísta, metida e chata. Quem sabe te desgoste eu ter religião. Ou, ainda, você jamais entenderá alguém que só dorme com o ventilador ligado. Não saber tem um gosto especial quando qualquer coisinha pode colocar tudo a perder. O amor não gosta de detalhes (desculpe-me, Roberto).

Gosto de saber que um dia não estarás roncando ao meu lado. E, também, que não terei vontade de matá-lo quando você quebrar minha louça de estimação. Nem ficarei vigiando teu telefone, entrando escondido no teu e-mail. Não me preocuparei, jamais, se demorares para chegar. Seja por medo de algum mal que te tenha acontecido ou que estejas fazendo a mim. O amor prevê tragédias. O amor não foi feito pra ser enjaulado. Ele resiste à saudade. Deixo-o correr livre, sem pressa, distraído. (por isso, às vezes ele cai em alguma armadilha) O amor é bicho selvagem que sabe sobreviver, sabe se defender, sabe lamber as feridas. Gosto que tenhas o teu e eu tenha o meu.

Hoje não terei “boa noite” com beijo na testa. E folgo em saber que nada de dormir de conchinha. Nem meus últimos pensamentos antes de dormir serão seus (nessa hora prefiro pensar em algum astro de cinema, pois a indução rende bons sonhos). Amanhã pularei da cama sem tempo para pensar em ti antes de começar meu ritual matutino. Se uma bobagem nos meus pensamentos ou um texto no jornal me fizer lembrar de ti, o sorriso aflorará. Quem sabe eu procure saber, ou acabe não tendo tempo. Ou me distraia com outro assunto.

Ou, quem sabe, a vida me surpreenda. Porque ela e o amor são amigos inseparáveis. E gostam de surpresas.

riso armado

A madrugada

e os carros na contramão

de quem busca o consolo

da falsa paixão

Nem o verso preciso

do Moinho de Cartola

alçou-me ao oposto do riso

diante do asfalto molhado

Na cadeia de emoções

eu vivo

sou forte e dura e cruel

E ninguém comigo

Só Deus me pede

com Ele posso cair

E eu quis chorar

quis a cena linda

do instante em que

o mundo destruía

meus sonhos tão mesquinhos

– lágrima não vi

choro não senti

Insisti

persegui os trilhos sem trens

a fé que contraria

as almas asquerosas

eu ri – diriam que dancei e cantei

era Paulinho, que timoneiro nunca foi

e esse amor pelos mares

a devoção

essa vida que nega a prosa

Eu quis chorar

e não consegui

Se fez dia

e era eu de novo

sobre os pés

a dar cara a tapa

e peito firme

abraço dores

e não distingo

traidores.

Era eu, que ninguém

conhece direito

e nem desconfiam

que esse riso armado

diz menos do que queria.

Palhaços

Queria chegar e segurar tua mão. Mas não sou boa com essas coisas. Mais fácil eu chegar fazendo uma piadinha sem graça, ou infame. Queria parecer genial, como tanta gente tenta ser, pra te fazer cair o queixo. Mas acho que só sei fazer rir. Um dia meu pai disse que sou muito palhaça, se eu não der em nada na vida, já tenho uma opção – eu, que tenho pavor de palhaços. Detesto palhaços num nível de querer matá-los, tipo vaca. Sim, também tenho pavor de vacas. Sabe aquelas moças todas cheias de si, com as palavras certas, as melhores selfies? Não sou dessas. Um dia publiquei uma foto minha com uma panela na cabeça – sim, tipo Menino Maluquinho. É que volta e meia faço isso na cozinha e minha mãe se ataca de rir, achei que a foto ficaria boa.

Minha mãe é muito indulgente comigo, eu sei. E não se preocupou em criar uma mocinha certinha e delicada – nem sei se alguma insistência dela serviria de algo. Minha mãe ri das minhas palhaçadas – e cai nas minhas pegadinhas, o que mantém nosso cotidiano num divertimento sem fim. Não sou nem de passar rímel, blush e batom (difícil saber o nome de mais alguma coisa dessas de maquiagem). Sou cara lavada pra vida. Sou cara lavada para os sentimentos. Nunca precisei de intermediário nessa coisa de encarar os outros e as situações. E, até o momento, tenho me dado bem. Considero toda fraqueza alienável. Fraqueza a gente só deve assumir para as paredes do quarto, a portas fechadas.

Num Natal, ganhei de amigo secreto do namorado uma furadeira. E era o que eu tinha pedido. Esses dias quebrei a serra-copo. Quando contei pro meu pai, ele disse que serra-copo nunca quebra. Pois é. Respondi que essas peças são feitas para homens, e homem não usa força, né. Meu pai riu. Gosto de fazer os outros rirem. Talvez seja uma missão na vida. Queria te fazer rir, mas isso eu nem preciso querer. Queria sentar bonitinha, com ar de mistério, olhar inteligente. Mas ficar parada me dá tédio. Um banho de chuva parece mais interessante, não?

Queria ter respostas sempre certas. Ser aquela que impressiona à primeira vista. Mas o que eu gosto mesmo é de passar despercebida. Entrar muda e sair calada. Ficar cá com meus pensamentos. A gente escolhe ser anti-social. A gente escolhe ser sozinha. A gente prefere não dividir o fardo. A gente não quer dar sem receber. Ontem o cara me perguntou “Você é arquiteta? Porque arquiteto que gosta tudo diferente, que não é só de chegar e copiar, fazer igual ao que todo mundo faz e exige que o trabalho fique perfeito nos mínimos detalhes.” – pois, não, não sou arquiteta, minha irmã é. Ah, fazer igual a todo mundo… que grande perda de tempo na vida. Sabe, quando criança tive dois apelidos: “a diferente” e Faísca (este foi meu avô que deu porque, bem, eu falei do tédio de ficar parada…).

Queria ser essas coisas que é o que todos esperam de mim. Só por um dia. Aí, o horror me provaria que eu jamais poderia ser essa outra pessoa. Não direi o que se espera de mim. Não serei querida e simpática. Não pegarei na tua mão. Só quando eu tiver quintas intenções. Na verdade, se quiser me domar, nem perto eu passarei de ti. Outros já tiveram essa esperança – até hoje lambem as feridas. Não se brinca com fogo. Mas eu já incendiei meu pijama de seda ao fazer pipoca de madrugada e semana passada queimei meu roupão ao esquentar a sopa da janta. Eu, que só uso fogo por necessidade – mas não temos uma boa relação.

Acho bonita essa gente que anda por aí sendo tudo o que esperam delas. Acho bonito até aqueles que precisam ser, para os outros, quem não são. Deve ser alguma necessidade psicológica, alguma consciência pesada. A gente aprende a apreciar como os outros se auto enganam. Pena que disso eu não consigo fazer piada. (talvez só disso) Fiz piada até do choque que levei antes de ontem ao desligar o aquecedor da tomada. Detesto energia elétrica, também. Mas a vida é assim, a gente às vezes tem que conviver com o que detesta – tipo eu com a energia elétrica, as vacas, os palhaços e o fogo.

Difícil mesmo nessa vida é ser quem se é. Nada mais o é – quem diz o contrário, é pura encenação, não dêem crédito. Às vezes eu fico sem assunto, faço cara de abobalhada, fico divagando quando deveria prestar atenção, cruzo e descruzo as pernas por descontração. Toda noite deito minha cabeça em paz no travesseiro. Nunca entro numa calça que já não me serve mais. Mas só vou largar tudo na vida pra virar palhaça quando os palhaços deixarem de ser… palhaços.

Mimada

Saudosista eu sou e não é nenhuma novidade. Mas não estou mesmo sabendo lidar com o Outono. Li esses dias uma entrevista de um escritor e ex-professor meu na qual ele fazia elegias à estação do sol ameno. Alguns fotógrafos elogiam o dourado do sol. E o frio invernal que fez neste final de Outono só me deixou uma saudade dolorosa do mar.

Lembra quando fez dias de calor absurdo, justo no meio do Outono? Ah! Foi numa terça-feira, cheguei na praia e corri pro mar. O mar em dias de impaciência, a lua nascendo naquele final de tarde. Foi meu último banho de mar deste ano. Do lado esquerdo, um pouco distante na pequena praia, um grupo de adolescentes. Um casal de idosos caminhava na areia. Do lado direito um homem. Evitei-o pelo instinto feminino de auto-proteção. Fiquei ali a rolar-me na água feliz feito qualquer um que é feliz por estar onde quer.

O homem volta e meia olhava pra mim. E eu também olhava disfarçadamente pra não ser levada pela correnteza que ia em direção a ele: se bobeasse cairia nos braços dele, desses micos não morro. Fiquei pensando, por um instante, que desenvolvi essa auto-proteção em demasia. Preciso baixar a guarda, mas, queridos, experiências ruins não nos deixam de um dia para o outro. Eis que ele saiu nadando e eu admirei as boas braçadas dele. Há três coisas que gosto num homem: saber nadar, saber dançar e ser alto. E é saber nadar, não é espanar a água. Sou exigente, claro. Saber dançar, não zumba e axé (há traumas que jamais nos deixam!), como antigamente, lembra a cena da Aurora em Senhora? Coisa de amores do século passado, como diria Glauber. E, bem, ser alto não deve ter explicação (e é só uma constatação). O moço nadava bem. A cada volta que ele dava eu observava, quando ele descansava eu fazia de conta que não o via. Também observava o casal idoso a conversar tão entretido enquanto sorriam para o mar e caminhavam. E o grupo de adolescentes barulhentos me fez lamentar não ter vivido o ano inteiro dos meus tempos de adolescência à beira-mar. Foi uma belíssima terça-feira.

Diante daquelas tão bem executadas braçadas decidi que poderia, quem sabe, até apaixonar-me novamente. Talvez nem precise esperar a Primavera. Aquele calor foi embora. Um frio intenso, desanimador, infernal (pois o inferno há de ser gélido – e cheio de crianças mal educadas) chegou e não quis mais ir embora. Apesar de tão feliz, não dessas felicidades de ganhar na mega, comprar carro, apartamento, noivar ou casar, engravidar, sinto uma falta tão grande do calor. Depois daquele dia voltei algumas vezes à praia, mas não encontrei mais o nadador. O frio nos afasta do mar, deve ser meu maior desgosto com ele.

Fiquei mal acostumada. Mimada pelo sol e calor. Mimada pelos banhos de mar. Mesmerizada pelo horizonte. Mimada pelas manhãs silenciosas lendo na varanda. Mal acostumada em ver os corpos à beira-mar, o nascer do sol e os barcos de pesca voltando cedo cheios de sororocas e camarões frescos para o almoço. Me diz como voltar às quatro cobertas na cama, ao aquecedor ligado dia e noite, às pantufas, às blusas de lã, ao secador de cabelo, aos banhos escaldantes, ao fondue e ao nescau quente pela manhã?

Sou saudosista, bem se vê. Sou mimada por tudo aquilo que aquece o coração. Sou feliz por ter quem eu quero, onde eu quero – e por lutar pra dar conta de tudo sem reclamar. Faltou alguma coisa, alguma leve transição pra eu aceitar que o Verão acabou. Talvez porque ele nunca acaba nos meus olhos. Dizem que lá vem o Inverno… eu não consegui nem chegar ao Outono, que sol me aquecerá, que mar me embalará? Não há saudade que baste.

As certezas dos outros

Eu estranho quem tem muitas certezas. Quem tem todas as certezas, então, me assusta. A pessoa tem certeza que ama o cônjuge. O cara tem certeza de que está na profissão certa. Os pais têm certeza que deram a melhor educação para os filhos. Não sei o que há de errado com as dúvidas. Parece uma fraqueza, uma inconsistência na vida, tê-las. Eu as tenho em enorme quantidade, queria lhes dizer.

Por isso mesmo sempre usei muito o “será?”. O que, aliás, me rendeu desastres em relacionamentos interpessoais. Quando alguém afirmava alguma coisa, bradava suas certezas, suas hipóteses, eu – por preguiça de discutir o assunto, ou por vontade de (precisando ou não) instigar a pessoa a refletir, ou por questionamento puro e simples (bom não perder a prática) – lançava um solícito “será?”. Deixei-o cair em desuso porque as pessoas tornaram-se agressivas, irritavam-se com a expressão da minha dúvida. As pessoas não sabem viver com dúvidas. Elas precisam das certezas mentirosas para acreditar na vida que levam.

Senão, vejam vocês, por que continuar casada com alguém que você não tem certeza que ama? Por que continuar crendo no Deus e nas doutrinas que você não tem certeza que existem? Parece sem sentido. Parece inútil ou inseguro. E as pessoas precisam de segurança. Mais vale uma certeza vazia do que uma dúvida bem construída. Pois eu prefiro, ainda, as dúvidas.

Depois de abandonar o “será?”, adotei recentemente o “talvez”. Nada mais divertido e apaixonante para instigar as dúvidas. As pessoas, diante de um “talvez” jogado na cara, calam-se. Fica fácil, assim, ver qualquer certeza precária desmoronar diante dos nossos olhos. É mais angustiante do que o “você está certo disso?” do Show do Milhão. Falando assim parece abstrato, mas quando alguém aparecer com alguma certeza, diga-lhe um mero “talvez você não saiba do que está falando”. Se der tempo, você verá os olhos arregalados, a boca aberta, aprecie o silêncio. As certezas são falantes e fofoqueiras. Ah, as dúvidas calam! (eu, particularmente, que já não sou grande fã de pessoas, admiro quando ficam em silêncio)

Pode ser que seja influência da Filosofia, admito. Porém, vejam só, a Filosofia constrói-se sobre dúvidas. Você só alcança algum conhecimento porque questionou ou duvidou de algo. No entanto, fato triste da realidade, o estudo da Filosofia descaracteriza as pessoas que nela entraram, por ela se apaixonaram. Em pouco tempo o academicismo dominante as faz ter todas as certezas do mundo. Elas têm certeza do que Heidegger quis dizer, o que Sartre pensou e até o que Schopenhauer sentiu. E ai de você se duvidar de alguma das certezas delas. Chega um ponto na vida dos amantes da Filosofia que eles esquecem o que foi que ensejou aquele amor – como acontece nos casamentos. Eu poderia criticar muita coisa sobre o academicismo, mas a ausência de dúvidas é, em si, o suficiente para desmoralizá-lo. E, sabemos, não é só na Filosofia. Isso acontece na maior parte (em todas, será?) das áreas. O mais conceituado exponencial da sua área é aquele cara que tem todas as certezas do mundo, convidado para palestras, eventos, plateias concorridíssimas. Nunca vi um cara desses chegar dizendo “não sei” ou “talvez não seja assim”. A dúvida, meus queridos, não faz sucesso. Garanto-lhes.

Ah, mas as certezas são necessárias, inclusive nas Ciências. Sim. Mas não se chega a nenhuma certeza a partir de outra, na raiz há sempre as dúvidas. A pessoa que tem dúvidas é considerada incapaz, fraca, titubeante, mas só pelo senso comum – para o qual não há espaço aqui. Em muitas discussões eu já lancei “ó, não sei”. Eu posso até agir, tomar uma decisão, mas deixo claro que, porém, não há uma certeza na correção ou exatidão daquilo. A pessoa que duvida não necessariamente é uma pessoa sem atitudes. Ocorre que ela as toma ciente da incerteza do que faz. Eu temo quem só toma atitudes das quais tem plena certeza.

Ninguém gosta de que duvidem de si. Eu, como não acredito nem confio em ninguém, tenho meu salvo-conduto. Eu vou duvidar de você, sempre. Você pode se declarar, vou achar bonitinho e tal, mas ali no canto estará presente o “será?”. Eu não tenho problema com isso, mas os outros têm. Você só pode ser alguém muito arrogante para achar impossível que duvidem de você. Deixe que duvidem, corra o risco de acharem alguém muito melhor do que você mesmo acredita que é. Vai por mim.

A dúvida aguça os sentidos. Duvidar de tudo e de todos o tempo todo mantém a atenção alerta. A dúvida amortece a queda. Duvidar, nos piores momentos, te conforta. Quando aquele cara que te amava tanto bater a porta e nunca mais voltar, você vai lembrar daquelas vezes que duvidou de tanto amor, tanta foto postada nas redes sociais, tantas declarações em público e dos buquês de flores – e vai dizer pra si mesma, “bem que eu duvidei”. Porque duvidar não é o mesmo que não acreditar. Vocês sabem, é claro.

Não importa a estratégia que eu use ou que eu tente amenizar as expressões de dúvida, ninguém gosta que eu duvide ou questione as suas certezas. Ninguém. E eu acho a dúvida tão bonita! Ela é tão construtiva. Ela mantém o coração batendo forte. Ela faz olhar pra vida com mais paixão. Porque com dúvidas você encontra mil possibilidades mundo afora, as certezas te limitam. As pessoas gostam mesmo de ter certeza que estão certas, que suas pregações são as corretas, que suas vidas estão no caminho certo. Elas esmorecerão se duvidarem disso. Simples assim. A dúvida, meus queridos, é para os fortes. Acho curioso, não estranho, quem cospe a certeza de ter votado no melhor candidato das últimas eleições, de ter feito as melhores escolhas, de ter os princípios mais coerentes. Sabe aquela pessoa que tem em si a certeza de só professar e praticar verdades absolutas? Jamais as entenderei. Acho curioso porque me pergunto se ninguém nunca lhes jogou um “será?” na cara. Caso fosse feito, talvez (rá!) estivessem sentadas no meio-fio até agora, banhadas em arrependimento. Repito: jamais as entenderei. Porque quem não percebe o quão sedutora é uma dúvida, não terá minha empatia. Jamais.

Mudança de sonhos

Sonhos mudam

não muda quem os têm só na fumaça

Naquele dia ela era outra

com novos sonhos

pois os antigos já não valiam

já não lhe cabiam.

Há quem sonha

E há os que planejam

e, também, há quem não se conheça.

O sonhador sonha

em sonhar novos sonhos

o burro tem só os mesmos

sonhos

e senta à espera

– enquanto se engana.

Ao sonhador a vida lhe tira o chão

é a primeira lição

para aprender a voar.

Naquele dia ela desejou

de novo, o novo

revisou sonhos passados

arejou o guarda-roupa

das pretensões

das dificuldades

dos desafios.

Sonhar lhe custa a vida

todos os dias

lhe custa as horas passadas

em admirar o caminho tortuoso

em abrir e fechar portas

em chegadas e despedidas.

Naquele dia ela quis ir adiante

e retomou seus sonhos

fez promessas a si mesma

e a ninguém mais. Jamais.

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