passa-se a estação

Céu impaciente

me pede que espere

passa-se a estação

e me entrega

à prestação

os sonhos que tão belo céu

do calor me prometeu

hiberno nas idéias

de tão futuro brilhante

guardo o corpo das alegrias

e a alma das tristezas

Céu impaciente

se fecha em mau humor

não me dá nem noites de lua

e me provoca: lá vem chuva

passa-se a estação

que nada!

Tanto se demora

esconde o sol

meu relógio pára

assim acumulam-se

mais sonhos a cumprir

Céu impaciente

dou-te todo tempo do universo

que ainda quero aprender

sobre o amor

veja lá se há estação

mais própria ao amor

ou começamos as aulas já

te peço nada

te ofereço: meu cúmplice?

meu caro céu,

não sou de conquistar.

Quando eu penso na vaidade, aquela antiga da qual já não se fala mais…

Foi-se o tempo em que falávamos de vaidades. Hoje sobrou só a vaidade dos corpos de academia, unhas e cabelos pintados, roupas de marcas caras e famosas. Aquela vaidade interna, do ego, da alma e de onde mais ela se esconde, essa é coisa da Bíblia e dos velhos filósofos. Pois foi dela que me lembrei nos últimos dias. A vaidade, queridos, a vaidade… a que alimenta ferocidades, erros e estupidezes (sem fim). A vaidade de estar certo; a vaidade de estar com a razão, ser o dono da verdade; a vaidade de sentir-se esclarecido. Tudo aquilo que fazemos para mostrar quem somos (aquele “ser” tão diferente da realidade, mas o “ser” que queremos ser).

Eu tive um namorado, um bom tempo atrás, que me deu presentes caros. Nem tanto coisas que eu, era de conhecimento de todos, queria muito, mas coisas que nem tinham nada a ver comigo. Num aniversário, inclusive, ele me deu uma jóia. A cena foi cômica porque quando ele apareceu com o pacote (jóia é pacote evidente) eu gelei. Fiquei paralisada, não queria pegar porque na hora me ocorreu “é um anel, vai querer noivar, casar, sei lá, como digo que não na frente de todo mundo?”. Isso que o relacionamento ia bem, à época. Nada mais descabido de me presentear. Mas, o detalhe: na frente de todos. Com o tempo percebi que os presentes não eram “pra mim”, eram para que os outros soubessem o que ele havia me dado e para que ele convivesse com a idéia de ter me dado algo caro. Se eu gostei, usei e tal, nem importava. Isso me incomodou muito. Não foi difícil identificar nele (com a convivência e tal) uma pessoa que queria ter uma vida financeira acima da que ele tinha possibilidade – tornou-se uma obsessão e desencadeou, claro, numa frustração. Isso me incomodou muito mais.

Eis aí uma vaidade. Vaidade dessas que destroem, corroem e amargam. Me livrei do namorado. Não é do meu caráter viver uma vida de obsessão por ser outra pessoa, ter outra condição (e é sabido que gosto de namorar os desvalidos, dizem os fatos). É o ego a exigir que você pareça aos outros alguém que você gostaria de ser. Vide aí os inúmeros perfis de redes sociais, tanto os “sobre mim” que são preenchidos quanto as fotos e frases que nos levam a formar uma idéia da vida e da consciência que a pessoa tem. Esmagadora maioria é vida e caráter inventados (não passam no teste do “conhecer a mãe da pessoa” (é como se sabe dos podres e das verdades de alguém) ou do convívio na vida real). É a vaidade de parecer feliz; de ter uma boa vida; de fazer viagens sensacionais; de ser antenado e bem informado de tudo.

Apesar do “fora de moda” das vaidades, uma delas está todos os dias em todos os cantos. A vaidade do estar com a razão. Viraríamos cadáveres à espera de pessoas dizerem “errei”. Eu estou com a razão, como eu penso é a única forma passível de ser aceita e… dane-se. Estar com a razão é estar do lado certo, dos justiceiros e esclarecidos1, de perceber o mundo como os outros, pobres coitados, não conseguem. É algo bem diferente de definir o seu posicionamento: quando eu digo como eu penso, porque penso de tal modo, o que me leva a crer nisso e o que faz com que eu prefira tais conclusões. Os vaidosos são utópicos, acreditam em verdades e certezas. A vaidade impede-os de ver o mundo como ele é, inexato à razão humana.

A vaidade cega. Meu ex-namorado, vocês podem perguntar, nem vai saber dizer o que me levou a terminar com ele. Com algumas perguntas vocês talvez descubram que ele ainda age do mesmo modo nos relacionamentos. A vaidade não nos permite dizer que o outro também pode estar certo (o que nem invalidaria a nossa posição). Perspectivas diferentes, de certo que dão visões diferentes (que o digam os fotógrafos). As outras namoradas do meu ex provavelmente jamais pensaram como eu (vocês não vão achar uma que tenha tido o piripaque diante de uma caixinha de jóias!). Somos vítimas de vaidades diversas. Com alguma observação atenta é fácil identificar quais as nossas vaidades e as dos que nos cercam. Há até aqueles que têm vaidades “negativas”, os que se esforçam por desmerecer a si mesmos, os que se metem em situações das quais sabem que sairão faíscas e danos, etc. (também muitos desses povoam o mundo virtual).

A vaidade nos impede de conviver com os outros. Haja vaidade! Se mal sabemos quais as nossas, não vamos perceber as dos outros e o inferno é o que se vê. Eu estou certo; todos que pensam como eu, portanto, estão certos. Logo, os que pensam diferente de mim estão errados. É tão simples. Também eu que não me considero dona da verdade, ao me deparar com alguém que pensa algo que eu considero muito errado, terei a vaidade de, em vez de impor a minha (falta) de verdade, julgar o outro na sua (falta) de esclarecimento. Eu mesma pratico muito esta. É a vaidade da isenção, “não vejo como você, mas sei que o seu olhar está enganado”.

As vaidades não estão nos nossos olhos, por isso não as vemos no espelho. Elas estão entranhadas na alma. Só surgem quando somos nós mesmos (em ligações telefônicas, por exemplo, em atitudes precipitadas, entre as quatro paredes de casa, com quem confiamos) diante daquilo que tentamos parecer ser (em público, diante dos que nos amam, diante de desconhecidos). A vaidade é tão sanguessuga que ela não se dá conta de quando está dando bandeira, torna-se redundante, exibicionista e repetitiva: e é aí que tudo se esvai. Meu ex não me deu um ou dois presentes caros, foram alguns tantos e nenhum que não tenha sido anunciado aos quatro ventos; enquanto eu sabia da penúria dele em muitos daqueles dias.

Nada escapa a uma boa observação. Para isso é preciso ter olhos limpos e abertos. Enquanto adormecidos nas nossas vaidades e sujos da lama que dela prolifera, jamais saberemos dizer de quais vaidades padecemos. Pelo mesmo motivo também é difícil enxergar com quais vaidades os outros estão contaminados. Assim, atualizamos a vaidade conceitualmente e esquecemos no tempo aquilo que ela significava. Mas quem hoje viveria sem esconder-se nas suas vaidades?

1Ver Kant, sério. É o sentido mais exato ao qual me refiro.

O indiferente

O indiferente não ama nem odeia. Ele é aquele namorado que no cinema diz “tanto faz” para qual filme o casal assistirá. É o pai que nem sabe a nota do filho em Biologia. O indiferente não faz, nem desfaz. É a moça no salão pintando a unha enquanto a república cai. O indiferente, também, não questiona – nem a si mesmo.

Conviver com o indiferente, porém, não é fácil. Erra quem pensa que ele não tem paixões – tem-nas as mais violentas. Ele não se importa com você, o indiferente; ele importa-se em demasia consigo mesmo. O indiferente não buzina. O indiferente não cospe. Mal e mal o indiferente vomita.

O indiferente é aquele cara do grupo no trabalho que chega atrasado quando o chefe que exige pontualidade já está na sala – ele entra com o cafezinho na mão, dá “bom dia” nem aí e leva uma eternidade para sentar e sossegar, enquanto todos prendem a respiração. O indiferente não sonha. O indiferente não grita, nem sussurra. É a esposa que compra um vestido caro no mês que as contas extrapolaram. O indiferente não tem marca favorita de desodorante. Nem de sabão para a lava-roupas.

Amar o indiferente é falta de autoestima – mas dizem que é doação de si mesmo. Porque é amar alguém que nem sabe que você existe, tem necessidades, alegrias e tristezas. O indiferente não pede, nem dá. O indiferente não faz serenatas. O indiferente não sua. O indiferente mal pisca.

O indiferente é quem solta o pum no elevador e nem ri – nem disfarça. É que ele não ri nem de si mesmo. O indiferente não gargalha, nem chora. É a guria que passa diante dos olhares mais cobiçosos e nem disso se dá conta. O indiferente é, vejam só, indiferente até a admiração. É indiferente até aos elogios.

O indiferente nem conta quantas fatias sobraram da pizza. Ele toma coca-cola ou pepsi e nem percebe qual é qual. O indiferente não pede a carne no ponto, mal ou bem passada. O indiferente nem lembra em quem votou nas últimas eleições – ou nem procura lembrar. O indiferente declara tudo corretamente no imposto de renda. O indiferente anda no ponto morto – mas não para economizar gasolina. O indiferente parece ter opinião, que ele só diz se solicitado. O indiferente nunca sabe quando estão falando dele…

O indiferente é amado pelos seus amigos – fácil entender porquê. Ele é sempre convidado para todas as festas. Muitos amigos tem, o indiferente. Na vida on line ele é sempre admirado, o indiferente. Nas discussões políticas também. Na hora de votar, então, mais ainda. Há até quem admire o indiferente em cargos de chefia. O indiferente é aquele cara que nunca pisa no pé dos outros. Nem lembra do aniversário de ninguém. O indiferente não fica em cima do muro. Ele pula para qualquer lado e nem percebe quem ele leva junto.

O indiferente não é meu amigo. Porque o indiferente é sempre amigo da onça.

Atire a primeira pedra

Atire a primeira pedra

Carregue consigo um saco grande, cheio delas

atire, também, as segundas e as terceiras pedras

atire a primeira pedra com gosto.

Infle-se de vontade

e atire-a com toda a força;

atire a primeira pedra.

Diante de pecadores

traidores e fornicadores

atire, claro, a primeira pedra.

Leve um caminhão cheio delas

empunhe uma a uma

e atire-as todas nos maus governantes.

Atire a primeira pedra

no teu pai, no teu avô

na tua irmã

quando descobrires que não são santos.

Atire a primeira pedra

na tua esposa

quando ela sorrir lábios carnudos vermelhos

para o moço da mesa ao lado.

Como bom pai que és

atire a primeira pedra

no teu filho com zero em Português

com as mãos sujas no almoço

que escondeu revista de mulher pelada

que respondeu pra professora

que bateu no vizinho pequeno

que chegou tarde da balada

que bebeu até cair

que engravidou a filha da costureira

atire, uma a uma.

Atire pela janela

a primeira pedra

no cara que estacionou no teu portão.

Guarde sempre algumas pedras

para algum caso de emergência

e não correr o risco

de ficar de mãos vazias.

Tenha pedrinhas guardadas

debaixo do teu leito

debaixo do banco da igreja

na gaveta do escritório

e, quem sabe, na cueca.

Atire a primeira pedra

e, em alguns casos, atire mais

todas que tiveres.

Não esqueça de ir ao riacho

pegar mais pedras

de todos os tamanhos.

Ao se deparar com larápios

assassinos, sonegadores

maus professores, vagabundos

e até alguns inúteis

não economize:

atire tuas pedras.

Quando elas acabarem

e deres as costas

sozinho então

estarás

e a dura lição

aprenderás

“vá e não peques mais”.

As goiabas

Por esses dias revelei uma daquelas verdades que temos para nós mesmos, mas que parece que existem só quando são formuladas em palavras para outrem – antes disso nem nós as conhecemos. Minha fruta favorita é a goiaba. A velha piada sobre encontrar meio ou um bichinho de goiaba inteiro é das filosofias para a vida. Gosto mesmo de goiaba. Sou louca por melancia, é verdade – e todo mundo sabe. Talvez, se perguntassem qual a minha fruta favorita, para as poucas pessoas que me conhecem, a resposta seria melancia. Sou doida por acerola, também. Dou um dedo por suco de maracujá. Mas a favorita é, certeza, a goiaba.

Naquele espírito genealógico de investigação subjetiva das razões obscuras do ser (rá! Abusei, né?) eu diria que é porque sempre vivi com um pé de goiaba em casa. A mais antiga, a maior, a que ainda vive (mas adoeceu e deu pouco nos últimos anos) foi meu paraíso por muito tempo. Nela eu subia, imaginava mundos inesquecíveis e insondáveis aos outros, e comia os frutos enquanto sonhava. A goiaba não é para frescos, tem que ter bons dentes e trincar as sementes (vai dizer que você tira a semente da goiaba?!). Na casa do meu avô havia uma bonita, nova, que vi crescer e, mesmo pequena, me aventurava para comparar os mundos inimagináveis dali.

Elucidado o motivo do meu favoritismo, passei a analisar a goiabeira. Ô coisa fácil de se criar, dá em qualquer lugar, dá frutos em pouco tempo (algumas frutíferas exigem tempo e a doce paciência), tem boas safras. Qualquer semente jogada num terreno baldio já pega (reparei hoje que num terreno baldio da vizinhança tem um pé bonito e já quero pegá-lo antes que o cara venha cortar o mato). Os cachorros também adoram – e nem digam que eles puxaram a dona porque é a mais pura verdade. O tronco é lindo, de madeira clara que descasca e tão divertido tirar suas casquetas. Também é boa de subir.

Acho que só comprei goiaba no supermercado umas duas vezes na vida – e nem de longe tinha o mesmo gosto. E foi a goiabeira aqui de casa, que fica bem rente à cerca, que me levou a todas essas reflexões. A da frente é mais rara, é a branca, a de trás é mais nova e é vermelha. Ambas deram bem neste verão, mas da frente, curiosamente, colhi poucas. Sim, as pessoas passam na rua e roubam, os vizinhos (esses queridos) aproveitam quando não estou e fazem a limpa. Vejam vocês, uma árvore tão fácil de ter e os marmanjos preferem pegar dos outros, claro. Se tem vizinho que pula o muro e faz a limpa no limoeiro de outro vizinho, não é de se admirar.

Por que as pessoas fazem isso? Eu me pergunto. Sei que não é fácil cultivar – minha mãe, como aquele personagem, sempre diz “plantando, dá”. Eu pego na enxada sem frescura, tenho paixão por plantar, claro que não espero isso de todo mundo. Mas se a pessoa não cultiva, então que vá até a feira da rua de cima todas às sextas, né? A terra é tão boa, mas as pessoas…

Numa semana do verão o vizinho emprestou a casa para um casal e dois meninotes. E não é que choveu a semana inteira? Os meninos, coitados, tiraram coelho da cartola para aproveitar o tempo sem poder ir para o mar. A mãe entediou-se às tampas e volta e meia se agarrava no celular, o pai aproveitou a rede. Uma vez ou outra divertiam-se juntos jogando cartas. Os meninos pareciam de apartamento, tudo era encanto para eles. Um dia vieram à cerca e perguntaram se podiam pegar as goiabas da frente, dissemos que sim. Precisavam ver! Os meninos nunca haviam tirado uma fruta do pé. Era um desafio, planejaram quais pegar, o que precisavam fazer em conjunto para chegar aos galhos mais altos, tudo com uma seriedade e uma fantasia incomparáveis. Admirei a cena como a um espelho. As crianças sabem pedir, coisa que os adultos preferem ignorar. As crianças sabem transformar um pequeno gesto numa aventura.

O horário de verão se foi. Daqui a pouco as goiabeiras irão se preparar para o frio. Já me entrego à melancolia de não ver mais o sol às oito da noite, logo encerrarei a colheita. Em breve será tempo de se recolher, sem goiabas, mas alimentando as aventuras. Verão deixa saudades, pensamentos e paixões que, ao contrário do que vovó dizia, sobem a Serra, sim.

Lá no começo do mundo

Lá no começo do mundo não existia asfalto; porque não existia carro e nem o homem tinha pressa. Bem que já havia um ou outro com espírito desbravador, mas eles apreciavam bem mais o trajeto do que a chegada. Lá bem no comecinho, pra onde se olhasse havia comida em abundância e sobrava entre os bichos e as gentes; ainda ninguém sabia o que era fome. Tinha também aquelas pessoas que trocavam o que lhe sobrava com o que sobrava ao próximo; e todo mundo ajudava quem estava em falta. Eram outros tempos, lá no começo do mundo.

Lá no começo do mundo as pessoas viviam lado a lado nas redes e taperas, e não umas sobre as outras sufocando falta de espaço entre grades, paredes e muros. É que, também, nem tinha tanta gente assim. Bem, mas já lá no começo do mundo cortavam árvores e destruíam a natureza, eram menos e o dano era menor. Lá no começo do mundo ninguém se importava muito em registrar o que fazia, onde ia, o que comia, com quem estava – e só de vez em quando faziam uns rabiscos nas paredes das cavernas que era mais pra se entreter em dias de tédio e chuva. Lá no começo do mundo chovia, uns poucos – sempre esses loucos – tomavam banho de chuva, e a chuva dormia o ânimo em todo resto. Nem tudo era tão diferente assim, lá no começo do mundo.

Lá no começo do mundo rolavam umas drogas, uma folha amassada aqui, uma casca de árvore fervida ali, não tinha contraindicação nem foto de doença pra assustar quem consumia – e todo mundo ria, caía na folia e, talvez, de vez em quando alguém morria. Lá no comecinho tudo começou com o veneno e aí o mundo caiu em pecado – que ainda não há quem não goste. Pelos primeiros dias do começo do mundo, Deus deitou na rede, olhou o nascer do sol sobre o mar e pensou “vou ali criar o leite condensado que é pra fechar com chave de ouro esse Meu mundo” e aí o mundo foi mais feliz e mais gordo e assim será. Já era tudo tão bom, lá no começo do mundo.

Lá, lá no começo do mundo nem se ouvia falar em dinheiro; porque todo mundo era esperto e pra que estragar o paraíso? Quem sabe se lá no começo do mundo o mais rico e invejado era quem mais sorrisse? Mas isso era lá no começo do mundo… Lá no começo do mundo as cobras sobre duas pernas plantavam seus rumores e tumores pelos quatro cantos – talvez isso não tenha existido lá bem, bem, bem, no comecinho. Sabe como é começo, ninguém sabia direito o que fazer e as consequências, então o povo abusou de uma bobajada que deu no que deu – as más práticas são mais fáceis de serem copiadas. Nem tudo eram flores, lá no começo do mundo.

Lá no começo do mundo não tinha luz nem água encanada – nem dá pra pensar como viviam sem isso. Nada que uma fogueira, uma moita e um riacho não dessem jeito. Lá no começo do mundo era mais fácil se esquentar com peles de animais e os corpos uns dos outros do que se refrescar no calor dos infernos – nem é preciso lembrar que não tinha ventilador, quem dirá ar-condicionado. É que lá no começo do mundo se resolviam as coisas da forma mais simples. Bem lá no comecinho a vida era difícil, mas com o mundo diante dos olhos os problemas foram se resolvendo aos poucos. O peso era leve, lá no começo do mundo.

Lá no começo do mundo ninguém vivia sozinho. A experiência era pouca, ainda, e os perigos (até os mais bobos como cair num buraco e não existir corda para o resgate) muitos, então todo mundo sabia que era melhor viver junto, uns dependendo dos outros, todos ajudando todos; e o principal eram as noites à beira da fogueira, quando uns narravam aos outros como estavam conhecendo o mundo. Aprender era questão de vida ou morte até em saber o que podia comer daquele mundaréu de folhas e plantas e frutos e o que se aprendia guardava na memória, que não tinha bloco de anotação. Se apreciava a sabedoria, lá no começo do mundo.

Lá no começo do mundo também as gentes morriam. Desde então tudo já tinha começo, meio e fim. Ou, às vezes, não tem muito meio, só começo e fim, isso é certo. As gentes adoeciam, as gentes eram abandonadas, as gentes brigavam e se matavam ou morriam. Os que ficavam choravam, lamentavam, sofriam e lhes restava a saudade. Desde o começo, quem diria, havia fim. De todo o resto o homem foi evoluindo, foi piorando, foi lutando pra ser dono do que não lhe pertencia; mas no começo e no fim ele nunca meteu o dedo. Deus, ali da rede, diria “mas o mundo é Meu, filho” e os homens já não ouviam. Lá no começo do mundo se sabia que não haveria chance para outro começo. Lá no começo do mundo ninguém se arriscava a olhar para trás. O fim havia, lá no começo do mundo.

O teu segredo

Tem um segredo

escondido no teu quarto

a cada hora que cai

se derrete mais o teu peito

segredo que não contas

ao veneno do vento

que tens envolto

num lenço de quatro pontas

teu segredo deixa o ar frio

te consome em chamas

de medo e apreensão

te afoga no denso rio

Eu sei onde escondes

o teu segredo.

Na luz apagada

na porta fechada

no silêncio estático

a alma acesa

os olhos abertos

a pele trêmula.

A partir de hoje

Agora é a vez do tempo. É declarar Carnaval o ano inteiro até o fim do milênio. É rever o mapa da vida, revivê-la todinha e jogar os dados, apostar na roleta e seguir caminho sem volta. É carregar o único peso da mala entulhada de sonhos – aqueles tão antigos, os novinhos em folha e os favoritos: os impossíveis. É rebater sorriso no espelho, encontrar manchas na pele, nem lembrar do que foi uma ou outra cicatriz.

Agora é a vez do tempo. É pedir a benção e agradecer e afirmar “eu creio”. O passado começa agora: e é tão mais fácil viver. É nunca mais não querer ter por medo de perder. É perscrutar cada canto em busca do que deixou pra trás. É conhecer o gosto do veneno do demais e a anemia do de menos. É abusar do risco – mas só os pequenos. É ansiar, tremer, chorar, insoniar, resmungar só se for charme.

Agora… agora digo que é a vez do tempo. A partir de hoje, se eu quiser, ele passará voando. Se for do meu gosto, ele cairá feito garoa. Se me der vontade, num estalo poderei pará-lo. Só se chega aqui sem esquecer de si. A gente é o que é, não a carcaça, o mundo de fora, é o que tem lá onde a alma aflora. Pra quem chega até aqui e tem coisa diferente para dizer de si, perde o trem e nunca será a vez do tempo.

Agora a viagem é no e com o tempo. Posso mudar de fantasia todos os dias. Darei a roupa do corpo se perder no jogo, atirarei as moedas aos céus se quebrar a banca. Que venha o tempo, nele eu confio que cuidará de mim com zelo.

Ovelha negra na sala

Laços se desatam

de lembranças vivas à flor da pele

desisto.

Fico a contemplar o vazio

que se espelha no futuro

do abandono.

É o pequeno pássaro que caiu do ninho

o peixe fora d’água

a ovelha negra na sala.

O biscoito da sorte lhe diz

“tudo o que poderia ter sido e não foi”

azar maior não há.

Se ainda haverá, não há quem diga.

Como se tivesse capinado

o Mato Grosso inteiro

se tivesse colhido o milho

de toda América Latina

ou se medisse todas as linhas férreas

dos Estados Unidos.

Poucos futuros sobrevivem

ao peso do passado.

Ah, se deixassem!

Se permitissem o descanse em paz

sete palmos acima.

E preparo-me para mais uma noite

de sono.

Duas graças

No fim de tarde diante do mar, aquela pequena praia escondida e tão familiar, chega o vento sul rasgando-se por entre a proteção de rochas e morros e traz consigo ondas tão grandes como raras vezes são vistas por ali. Duas meninas, mas, o que digo eu? Já não são meninas, meninas moças, talvez, como dizia minha avó. Também minha avó que já se foi parece tanto tempo… Moças, então, quem sabe. Não é pra tanto, ainda não levam este troféu. Jovens prediz muita responsabilidade – que elas ainda não têm. Adolescentes, então, que a vida hoje prefere termos clínicos para determinar os vivos.

Duas adolescentes, como ia eu dizendo, vêm desabaladas a dar na areia. No cantinho junto à restinga, tiram alguns pertences e os amontoam. Riem. Riem desenxabidamente. Riem – e é aí que penso que retratam a adolescência, os jovens, as moças e as meninas: tudo ao mesmo tempo com um único gesto. Arrumam-se a fazer uma da outra de espelho de si; puxam as cabeleiras, ajeitam o biquíni, ajustam o shorts (que uma delas só usa). Correm, ainda rindo, em direção ao mar de ondas, para o padrão da praia, altas. Entram como se não sentissem a água gelada do início – imagino eu que não sintam posto que ainda riem. Uma delas mantém o braço esticado (bem esticado) para cima, a fugir da água. É que ela segura um celular, não desses smartphones que nos obrigam a todos a ter, é um mais simples, mais usado, menos complicado.

A cena se desenrola por muito tempo: uma estica-se para salvar o celular da água, de frente para as ondas, enquanto a outra se desmancha em poses e mais poses para a sua fotógrafa. Curiosamente, vejam se vocês não ficam curiosos com isso como eu fiquei, ela (a agora modelo) já não sorri mais. Joga o cabelo para um lado, para o outro, faz biquinho com os lábios, testa um perfil, depois o outro, endireita os braços pra cá, atira-os ao alto, empina os seios – mas não sorri mais. E assim elas revesam o celular (e a mão, não estaria molhada?) e a modelo.

Eu já não tenho mais idade para ser chamada de moça, talvez. Nem de menina ou quiçá adolescente. É sempre possível percebê-los andando por aí: riem desabridamente. Riem. E aquelas duas ali na água a esconder, nas possíveis fotos (as condições não eram das melhores, convenhamos), o cartaz da sua idade e segurança. Não entendi e talvez não venha a entender, pois na minha adolescência eu não tinha essa cobrança social de exibir o tempo todo o que fazia, onde ia, com quem, como me sentia e o que pensava. Ufa! Que adolescência maravilhosa foi a minha. Vivi aqueles tempos com suas sombras, seus desesperos, suas maluquices e loucuras, sem que site nenhum me exigisse recontá-las ao grande público – muito raramente uma carta para alguma amiga. Tomei muitos banhos de mar, sozinha e acompanhada, também tenho algumas fotos (como as tenho de hoje devidamente postadas nas redes), mas vivia tudo aquilo apenas para mim – e era muito bom.

Além de velha devo ser saudosista. Mas isto aqui não é sobre mim, é sobre elas. Sobre a juventude, sobre aquela idade que vai e não volta – nós é que tentamos emulá-la o tempo todo, ou de vez em quando. Talvez o primeiro sinal seja deixarmos de rir por rir, depois deixamos a segurança e passamos às obrigações e responsabilidades. Ah, meninas, ah!, se vocês soubessem o que eu sei! Tão fácil ser magra e ter a carne rija (romancistas adorarão) nessa idade. Tão fácil correr pro mar e nem se preocupar com o que ele nos fará. Tão mais fácil ainda rir-se de tudo e de todos quando os vinte parecem distantes. Tão fácil jogar-se para aprender alguma coisa sem medo de que nossos tombos virem piada para os outros. Tão fácil adentrar um caminho sem pensar e repensar mil vezes nas consequências – e se dará certo, pois não há preocupação com o “tempo a perder”. Tão fácil expor-se ao sol sem protetor solar. Tão fácil perder a hora. Tão fácil pois aquele riso grosseiro e desafiante o tempo todo no rosto.

O tempo pesa, mesmo quando se faz dele seu melhor amigo. E as meninas (não adianta, não perco o costume arrogante de chamar a todos os mais novos que eu de ainda mais novos) deixaram o celular junto ao monte de pertences e ficaram ainda por algum tempo dentro da água, a lutarem bravamente contra aquelas ondas audazes que se esgueiravam entre os barcos, a ilha, as pedras e viraram a praia do avesso. Aquele vento que me tocava a pele ainda pingando de água salgada e nos fazia a todos agradecer pelo refresco de um dia que raiou às beiras do calor do inferno. O tempo virava, as nuvens surgiam, e nenhum ali parecia querer abandonar o paraíso. Eu admiro em especial, diante do mar, ver o frio e o calor trocando de lugar. O mar sempre garante um espetáculo. Aquelas meninas poderiam dizimar num velho qualquer, como eu, a esperança e o ânimo de vida. Alguns a invejariam. Eu as admirava – e sentia vergonha dessa barriguinha flácida que me surgiu nos últimos tempos. A despeito do tempo que corre, também eu gosto de enganá-lo e forjar em mim o riso desavergonhado – mas não todo dia que já passei da idade. A tarde se ia, o friozinho chegava, alguns se retiravam do show, elas lá permaneciam alheias, como lhes é de direito, a tudo. E eu segui para casa, caminhando com os pés na areia – como parece que fiz durante minha vida inteira.

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