Vô centenário

Ao meu avô, Abib Cury, pelo seu centenário em 4 de junho de 2015.

Ele entrou pela porta e sorriu. “Ô, seu Cury, como vai?” era mais um amigo, um cliente que volta e meia aparecia com uma máquina de escrever Remington, meio velha, que engatava o R quando bem entendia. Ele entrava já dizendo, “A safada me judia, seu Cury. É eu precisar dela pra dar nisso.” e era recebido por um sorriso sem mostrar os dentes, o sorriso mais tranquilizador do mundo.

Se me perguntassem, eu diria que meu avô tranquilizava as pessoas. Pois eu não via viva alma ali entrar que não fosse em profundo desespero com suas máquinas travadas, sem fita, letra quebrada, debaixo do braço. E meu avô, ali do balcão em frente à porta sorria. Se eu fosse um pouco mais velha pensaria que ele era dessas pessoas que já viram tudo na vida e, por isso, a todo o mal, apenas sorri. As máquinas, sendo máquinas, enfim estragavam. E ele era esse herói que salvava a todos. Se eu via desespero nos olhos deles, a angústia é que dominava quando vinha com a minha máquina – primeiro as de conta, um tempo depois as de escrever – emperrada. E ele? Ele sorria e consertava, sem deixar de me mostrar o que tinha acontecido e como resolver. Com ele aprendi a aprender. Era assim, eu ficava ali e observava tudo. O torno, o esmeril, as bancadas, as enormes luminárias, eram os personagens das minhas histórias infantis.

E o movimento quase não parava. Entrava um, logo outro, era raro o nosso oficina ficar vazio. De vez em quando estacionava um carro e desciam várias máquinas, eram de alguma escola, comércio ou escritório. E lá iam elas para a prateleira preta no fundo do corredor, cada uma com o nome e o telefone do dono, anotadas num pedaço de papel de bobina de máquina. Ali elas dividiam o espaço com os garrafões de vinho. Ah! Se você fechar os olhos agora e imaginar o cheiro de graxa misturado com o cheiro do vinho conseguirá se transportar pra lá. Era gente da cidade inteira que parava ali. E tinha quem nem vinha arrumar máquina, aparecia só para conversar com o seu Cury, que debruçado no balcão sobre alguma revista ou jornal, falava de tudo do mundo todo – foi com ele que aprendi a ouvir.

Eu fui criada ali, entrava correndo por uma porta, me atirava voando pela outra, pedia uma ferramenta, sumia e voltava pra chamar para o café. A vó me mandava chamá-lo e eu voltava dizendo, “Vó, é o seu fulano que tá lá.” e ela já suspirava: era daqueles que a conversa ia longe. Eu participava como de um evento solene quando ele ligava o esmeril e quando ele ia até a cobertura do lado de fora pintar alguma peça com o jato de tinta. Com ele aprendi a me fascinar. Eu? Eu sabia onde ficava tudo ali, era só me pedir. Aquela tesoura preta gigante era minha obsessão, eu sempre queria cortar qualquer coisa só para poder usá-la.

Meu avô sorria e resolvia todos os problemas de todos, sempre. Naquela época as máquinas elétricas já tomavam o lugar das prateleiras. Hoje, com seus 100 anos, meu avô não teria máquinas de escrever para arrumar. E aqui do nosso oficina eu me imagino estragando de propósito a minha Olympia só para que ele, como um Aureliano Buendía, a arrumasse com suas mãos que são tão iguais às minhas – e eu a estragaria de novo. E assim passaríamos imunes ao tempo e ao mundo.

Foi na primeira máquina de escrever portátil que tive, presente dele, que escrevi meus primeiros versos. Daqui do oficina penso nas palavras como tranquilizadoras da saudade e necessárias à manutenção da alma – e me invade aquele cheiro de graxa e vinho. Pois sei que há famílias condenadas a cem anos de solidão, mas a nossa está condenada a morrer de tristeza.

Texto publicado no jornal Notícias do Dia, Caderno Plural – Confraria do Escritor. Joinville, 22 de junho de 2015.

Os sugadores de almas

Por uma dessas coincidências da vida, que de coincidência não têm nada, neste sábado pela manhã eu pude, depois de dias e dias tumultuados, voltar à leitura. As silenciosas manhãs de sábado sempre rendem bem, na leitura e na escrita. As coisas que, definitivamente, eu gosto de fazer desde cedo.

Lá estava eu, num dos últimos contos do livro, com um sol que já tinha deixado saudade, ao ar livre, bem acompanhada com um quatro patas. E eis que Balzac me surpreende com um conto que me tocou o coração – “tocou o coração”, daqui a pouco começarei a escrever rebuscado como ele e que ninguém me xingue, pois que lindo que é. Eu ria, sublinhava, sorria, anotava impressões nos cantos das páginas, conversava com o cachorro. Era um belo texto sobre quem adentra as almas que lhe são estranhas; sobre nós que andamos por aí a nos consumirmos nos outros. Não tanto pela história de vida mirabolante do veneziano, mas por construir a visão de como somos escritores.

E aí, horas depois, entro no Facebook e vejo que hoje é o dia nacional do escritor. Pensei, primeiro, que não recebi nenhum parabéns pelo dia – enfim, nada de incomum. Aí, pensei que era algo digno de escrever sobre para o blog (que determinei, dias atrás, que se chamará site daqui pra frente – mas, costumes, sabe como é). Pensei, pensei… talvez escrever sobre os meus autores favoritos, fazer uma homenagem pobre, é claro. Aí, pela origem da data, pensei que deveria escrever só sobre meus autores brasileiros favoritos – facilitava muito. Como cada um, em cada época da minha vida, me fez ser quem sou e ver o mundo como vejo. Mas, enfim, seria pobre diante de tudo o que vivi – as palavras, até elas, falham.

Então, lembrei do conto do Balzac. Havia terminado, na noite anterior, um conto que já havia mexido com essas questões de quem, diante de um talento (ou da falta dele), do apreço por alguma arte, se divide entre prosseguir (penosamente) na carreira ou assumir sua mediocridade e fazer um concurso público ou abrir uma loja. Pedro Grassou foi este, o do pintor medíocre que copia e copia e enfim ganha dinheiro e, atraído por mais dinheiro, casa. E foi deste que tirei uma idéia para escrever um conto que preciso – amparada na frase do próprio Balzac: Inventar em todas as coisas é querer morrer a fogo lento; copiar é viver.

O conto de hoje foi Facino Cane, e ele narra em primeira pessoa como a miséria o faz misturar-se às pessoas pelo prazer de senti-las, vivê-las, aprofundar-se nas suas almas e pensamentos, riquezas e misérias. É andar pelas ruas, ônibus, supermercados, sem fones de ouvido, olhos atentos e a alma invadindo as almas que permeiam o caminho. Eu jamais insistiria em ser escritora se não pudesse mais arrombar os corações e mentes alheios. O material humano é imprescindível para criar.

E foi assim. Ser escritor não é só para quem tem seu livro exposto na vitrine das grandes redes de livrarias e vivem com o dinheiro que recebem disso. Nós também somos escritores – os que vivem como Balzac viveu. A história dele é bem interessante e com detalhes pitorescos – é errado falarmos mal dele como fazemos hoje em dia, coitado. Adoro como ele cria frases feitas inteligentes e descrições concisas, mas se eu fizer isso, já antecipo os narizes torcidos das mentalidades pós-modernas. Sou do século passado, sou romântica incorrigível, não há o que fazer.

Pois bem, por que escrevo? Por que decidi ainda não assumir minha mediocridade e me assumir como escritora? Bem, acredito que devo estas explicações para encerrar o texto. Numa auto-análise (a pratico há muito tempo), escrevo porque sinto e penso demais (sempre fui assim e não é nada bom em vários momentos). E sinto com a cabeça, não se enganem. De tanto pensar, comecei a escrever para não, digamos, desperdiçá-los. E como não sou constante, escrever é um bom exercício para saber quem fui. Escrevo porque aprecio deveras o material humano e animal e vegetal do mundo – não saberia viver sem admirá-lo. Mas, acima de tudo, escrevo porque tenho medo de esquecer. Esquecer como eu era quando criança, esquecer a voz e o sorriso da minha avó, esquecer o amor incondicional que um dos meus cachorros me dedicou a vida inteira dele, esquecer como sou igual à minha mãe, esquecer como me decepcionei com os relacionamentos amorosos, esquecer como é descobrir certas coisas pela primeira vez. Tenho medo de esquecer. Por isso mesmo, às vezes escrevo vários textos, em épocas diferentes, sobre a mesma coisa. Que as lembranças nunca são iguais.

Ainda não assumi minha mediocridade porque, apesar do espírito velho, tenho ainda muito tempo pela frente. E não quero ser daqueles que aos quarenta ou sessenta anos se satisfazem em “agora eu vou fazer o que eu gosto na vida”. Não. Se perto dos trinta as coisas já começam a ficar difíceis, imagina lá na frente. Viver sempre é agora – jamais depois.

Tem um preço? E as escolhas que a gente faz? Blábláblá e já escrevi textinhos de quase auto-ajuda sobre isso aqui no site (rá!). Faço tudo de caso pensado e sem plano nenhum.

E quando eu for famosa, vocês lerão minhas entrevistas falando sobre meu processo criativo. Como gosto (descrevo a cena do momento) de escrever no final de tarde, numa poltrona de estimação que me custou meses de desejo e uma boa parte de um salário, sob as luzes de dois abajures (amo) com lâmpadas incandescentes (adoro a luz amarela e o calor delas), com uma gata laranja dormindo gostosamente no meu colo enquanto eu equilibro o computador nos joelhos e tomo meu Twinings com mel. Só pra manter a fama de escritor, essa gente fresca cheia de minuciosidades e não-me-toques. Ah, e tempos depois serei lembrada sobre o amor pelos bichos como um Hemingway, quem sabe. Fotos minhas com gatos não faltarão. Poderia, também, dizer que aprendi que só seria uma escritora quando me rendi à disciplina. E serei da turma dos que acordam cedo e tomam chá, como bons velhos, e não dos que varam a madrugada (“ó, melhor momento para a inspiração e tal” já fui dessas) e tomam whisky (está guardado aqui do lado).

Vejam só, escritores são personagens de si mesmos. Não se enganem. E enquanto isso, deixo minha memória aí guardada no site e nos HDs. Que lembrar é preciosidade das mais valiosas para quem sente demais a vida. Mesmo que jamais eu seja digna de receber os parabéns pelo dia de hoje, mesmo que o dia de assumir minha mediocridade chegue logo, sei que nunca deixarei de escrever.

amor de sueños

En mis sueños

tu y yo

y toda una realidad

que de los males no quedaba nada

tu y tu vida

yo y mis defectos, miedos y todo lo comprensiva que soy

esperaba los ángeles y los santos en la escena

a endulzaren nuestro amor que hace tanto

había de ser amado

y repartido en noches y días de problemas y desilusiones

el amor no pide finales felices

ni contratos y casamientos

ni que le des tu juventud y deseos

ni certezas ni planes

Nuestro amor solo pidió

un sueño

una invitación para cenar

un postre que me hizo suspirar

y lo sabía que tu

tenía hijos y trabajo y descreencias

y me pidiera que nunca lo dejara solo

por primera vez sentí que sería yo

sin disfraces ni negaciones

y ahora teníamos la mitad de nuestras vidas

para darle uno al otro

Teníamos ahora este amor

que no es esclavo ni amo

ni secreto ni anuncio de jornal

ni para siempre ni hasta mañana

ni de una dosis ni de resaca

ni de mentiras ni de verdades

ni de soledad ni de placer

teníamos ahora

este nuestro amor que es de sueño.

Adestrados

Os amores são ironicamente selvagens. Quanto mais domesticado o amante, menos ele entende de amar. Leia quantos livros você quiser, não aprenderá a amar seguindo as mais belas e certeiras regras. Essas pessoas que sabem respeitar e obedecer jamais amaram ou amarão. Se esse amor que te acalma o peito nunca foi a sensação de pular do precipício, deve ser alguma outra coisa que os psicólogos bem podem explicar, mas não é amor. Em todo amor há guerra, há conflito e por isso o amor rende tão bem à ficção. Não há amor na paz. Não há amor na civilidade. Amores se perdem em construir uma vida inteira juntos quando a realidade selvagem do amor é sobreviver a cada dia. Em caçar a comida, em encontrar um lugar quente pra passar a noite, em matar para viver. Passar a vida inteira se protegendo não é amor, é covardia. Os fracos não amam, eles se reconhecem. Se estabelecem e se reproduzem. O amor em si é estéril, abandona seus frutos ao Destino. Que filhos do amor crescem livres. Amores não existem para serem vividos, mas perdidos. Quem vive de garantias e de certezas não sabe perder – por isso não ama. Domesticam-se e sorrirão quando o outro chega, mas jamais amarão. Há ironia em amar. Há uma intrínseca ironia no ato de amar.

Com seu pêlo loiro alaranjado ela impulsiona o corpo com uma pequena saliência no abdômen e alcança, de uma vez, a mesa. Senta, de frente para a janela, e com desdém lambe a patinha direita.

Pelo sinal dos deuses ou do cupido, ele de imediato surge do outro lado do vidro. Cenho franzido, longas orelhas cinzas de Dumbo e a cabeça um pouco inclinada denunciam o que lhe passa pelo coração.

– Acordou tarde hoje. – ele diz ansioso.

Os olhos amarelos seguem da patinha para a janela sem nenhuma pressa.

– Eles ainda estão dormindo. – a fala arrastada.

A pata grande e forte, com grossas unhas, grava mais arranhões no vidro. Ele chora manhoso para só o cupido ouvir. A estátua de pêlos laranja não tira os olhos da janela. Num impulso, numa nada rara exibição de carinho, ouve-se um longo e exigente miado. Ela levanta e se espreguiça como se a vida fosse um eterno dolce far niente. Dele ouve-se um latido estridente.

– Já vai?! Mas já?!

– Eles estão enchendo meu pote de ração. – e como se voasse, sem olhar para trás, ela alcança o chão em disparada.

Os belos olhos azuis contemplam mudos o corredor vazio. Por longos anos, contrataram adestradores com o intuito de tirar-lhe – de qualquer jeito – este amor do peito.

Dos rios que atravessam cidades

Por que de ti afastam seus olhos?

Por que fingem que tu não existes?

Por que, num triste dia, deram-te as costas?

Cumpro aqui meu exílio

E faço-te companhia

Perdi horizontes sufocados a Norte e Oeste

E ficamos tu e eu a olhar quem não nos vê

Ó, Cachoeira!

Ouvi histórias de tuas glórias

Vejo-te sem poesia entre duas vias

Teu lodo não me detém em mistérios

E teu futuro não parece ter remédio

O que sabemos, tu e eu, do porvir?

Nada. E nada somado a nada

Já são águas passadas!

Tu, que trouxeste gente a esta terra

Mínguas em arrependimento

Da desgraça do que fizeram contigo

Tu que eras Rei límpido entre o verde

A sonhar-te um Nilo ou um Sena

O Tâmisa da proclamada Manchester

Entre suspiros querias ser o Tejo dos Poetas

Ou ouvir-te eternizado como o Danúbio

E para tantos sonhos

Não tens tamanho, não tens amor

Ó, Cachoeira

Teus jasmins arrancaram

E destruíram tua moldura de petit-pavê

À solidão te condenaram

Cercado por frondosos feios Ficus

Em tua cela de muros de pedra

Exilados nesta cidade

Aproxima-se o dia

Em que torres sufocarão o céu

E teu preto – cor do desprezo com que és tratado

Refletirá os corações – não mais tocados pelo sol

E você, pensa no outro?

As mais profundas mudanças sociais acontecem em tempos de crise – não sou eu que digo, está aí nos fatos ao longo da História. Não basta você querer que algo seja diferente, que um grupo seja visto e tratado de outra forma, que a mentalidade das pessoas conceba certos conceitos – não basta. É preciso que grandes (ou aqueles pequenos que causam uma explosão gigantesca) fatos intercedam. Não adianta nada só querer – não sei se estamos familiarizados com esta premissa hoje em dia. Querer algo bom é louvável, mas por si só não causa grandes transformações. Também não estou falando dos olhos que só vêem os próprios umbigos – aliás, para não deixar o texto fácil aos ataques, tentarei guardar um pouco o meu desprezo por essas pessoas. As coisas do mundo mudam porque as pessoas pensam no outro, jamais porque pensam em si. Não basta um pequeno grupo vítima de alguma injustiça ou atrocidade pensar nele, tentar lutar contra isso, é necessário que as pessoas de fora deste grupo pensem nele, no que aquelas pessoas sofrem e do que são vítimas. Infelizmente é assim. Deixemos, portanto, os umbigos de lado.

Independente se existe ou não, oficialmente, uma crise, passamos por tempos difíceis. Seja o preço da cebola que disparou ou as centenas de milhares de famílias que não estão em dia com as contas de cartão de crédito e financiamento da casa, o país não vai bem. É preciso deixar de lado, também, a fala do governo e de qualquer um contra o governo. Falo, portanto, do dia a dia, de nós, de pessoas. De todos que deixaram de ter aquele momento de ir ao cinema, de sair pra comer alguma coisa com o namorado ou com os amigos, de ir passear de carro aos domingos, de pagar a escola do filho, de pagar a conta de luz pra poder pagar o supermercado. De todos nós que abrimos mão de muita coisa pensando nos gastos e nos preços altíssimos. Claro, pode não ser o teu caso, querido leitor, e, então, não és um brasileiro comum.

Em tempos difíceis é fácil pensar ainda mais em nós mesmos. No quanto queremos sair dessa. E é justo neste momento de abrir mão de tanta coisa que o ser humano deveria pensar em quem já não tem muito – quem dirá abrir mão de algo. Na oração de Nossa Senhora do Desterro há uma passagem belíssima (me perdoem se já falei dela, mas uso-a com frequência): “Senhora do Desterro, olhai também por tantas pessoas em situação de desesperança, de aflição, em piores condições que as minhas.”. É num momento flagrante de ir orar por você ou por alguém ou alguma coisa que nos deparamos com isso: orar por quem (ser abstrato) está em piores condições, por quem necessita mais do que eu. Por pior que seja a nossa situação, por mais desesperadora, mais falida, haverá sempre alguém em piores condições que nós. Assim, a oração nos consola (num sentido religioso, que eu sei que nem todos compreendem ou acreditam) e nos faz agir como seres humanos – aqueles que não olham apenas para os próprios umbigos.

Trago a oração de Nossa Senhora do Desterro para tratar dos tempos difíceis. Somente nesses momentos o mundo pode mudar. E se não fizermos a diferença agora, jamais teremos a chance de fazê-la. Foi em tempos de guerra que as mulheres assumiram o trabalho “de homem” e saíram de casa para cuidar do sustento e fabricar armas para que seus maridos e filhos lutassem – e dali em diante ser mulher mudou.

E agora, em tempos de necessidade, quem precisa mais que nós? Pelo que conheço das pessoas, são poucas as que doam (roupa, utilidades para casa, comida, revistas, livros, tudo que uma vida precisa) com regularidade, que fazem da doação um hábito. Me dói conhecer pessoas que não doam. Para incorporar a doação como hábito é preciso aproximar-se de alguma entidade (um lar de crianças, de idosos, deficientes, instituições que cuidam de mulheres em situação de risco, orfanatos, instituições religiosas ou não que cuidam de famílias, que ofereçam ensino e cuidados, há de todo tipo, para casos e situações que nem imaginamos – em todas as cidades há), conhecê-la, saber como ela trabalha, a quem atende e do que precisa. É simples, em poucas horas você pode se inteirar disso. Em alguns dias ou meses é só acompanhar (às vezes por comunicados, mídia) as ações da entidade, ou procurar a história dela no município.

Conhecendo a entidade, é só doar. E doar, como diria o padre Juca, é doar aquilo que você precisa. Doar um sapato velho, uma roupa que você não gosta, tudo aquilo que você não quer mais, não é doar de verdade. O ato de doar algo a alguém é dar o que o outro precisa. O pensamento mais comum sobre doar é o que eu não quero pode ser útil a alguém – e isto é querer livrar-se de algo, não é, nem em última instância, pensar no que o outro precisa. Portanto, ao pensar em doar alguma coisa, separe aquilo que você imagina (ou sabe, pois as entidades podem repassar o que precisam no momento) que outra pessoa esteja precisando. E lembre que, quanto maior o guarda-roupa, menor o coração de uma pessoa.

Somos capitalistas, claro que sim. Somos consumistas demais e isso nem tem a ver com o capitalismo. Não cabe na discussão. Nossos hábitos não estão condenados a nada além da nossa consciência. Por isso sou dessas que condena sites de revenda de coisas que “enjoamos” ou “desapegamos”. Não é uma maneira de combater o consumismo ou mesmo dizer que temos hábitos diferentes da massa. É até pior, porque estes sites e comunidades geram ainda mais consumismo (vou numa liquidação, compro loucamente, depois fico meses com uma pilha de coisas que nunca usei e, rá, não tem problema, vou vendê-las e ainda ganhar um dinheiro – pra gastar de novo em coisas que…) e não geram fluxo de doação para quem precisa. Se eu já fiz isso de comprar coisa que nunca usei? Sim. Se eu já comprei por comprar? Sim. Se eu já peguei algo de que gostava e doei porque sabia que era necessário a alguém? Sim. Para alguns pode ser um caminho. Auto-analisar o próprio consumo, os próprios hábitos. Você precisa mesmo do dinheiro que vai ganhar vendendo meia dúzia de roupas e sapatos? Ou há alguém que precisa dessas peças mais do que você precisa deste dinheiro?

É simples. A gente só não faz porque se apega às coisas erradas. Não aprendemos a pensar no outro. É mais fácil um pai ensinar o filho a pensar no “amanhã” (guardar dinheiro, estudar pra ser alguém na vida) do que pensar no outro – até este outro que a gente nem conhece. Não é preciso, porém, tirar foto e postar nas redes sociais. Nem, meus queridos, esperar que o seu terreno no céu esteja garantido. Doar, lembrem, é porque o outro precisa. Não porque queremos mostrar nossas belas práticas diante da humanidade (nem sob a desculpa esfarrapada de que podemos “influenciar” positivamente os outros) ou porque nossa consciência já não comporta nossa lista de pecados. Se você pratica alguma boa ação (seja ela qual for – desde doações, trabalho voluntário, esmola a ajudar animais de rua e ajudar a construir hospitais) porque fazê-la te faz bem, você está fazendo isto errado. Seja por indicação terapêutica, de padre ou pastor, ou obrigação na firma, a ação em favor do outro nunca deve gerar a satisfação consigo mesmo nem qualquer tipo de prazer (se não me engano há algo de aristotélico nisso). Por isso deixamos os umbigos de lado lá no começo do texto.

Há quem pense que enfiar a mão no bolso atrás daquelas moedas que sobraram e jogá-las no chapéu de algum morador de rua é uma boa ação, é doar. Não é. É um ato de desprezo. Quem faz isso despreza a pessoa que cruzou o seu caminho lembrando-lhe que existe miséria e necessidade em todos os cantos – tanto quanto despreza aquelas moedas no seu bolso. Talvez seja um ato de auto-preservação do ser humano não querer ver as necessidades alheias, pois teme a qualquer momento passar por elas – passar fome, passar frio, não ter onde morar. Tememos tanto isso que preferimos ignorar que é um risco eminente pra todos nós, pois nunca se sabe (desculpem, não é argumento, mas o fatalista nunca se sabe é um mantra pra mim). Se não vemos vidas humanas em necessidade, podemos até acreditar que as necessidades em si não existem no mundo – e, portanto, não estamos suscetíveis a elas.

Há quem se engaje em qualquer campanha do agasalho, doações para atingidos por tornados e enchentes, e tantas outras que geram grande publicidade. É válido? Talvez. Diante de certos casos o próprio Estado deve intervir e ter, obrigatoriamente, um contingente de doações de artigos de primeira necessidade, mas o Estado é falho. E, vejam só, as pessoas não precisam de roupa só no inverno, porque ainda não é liberado andar pelado quando faz calor. Sim, no calor as pessoas também precisam de roupa – e, meus queridos, não vai dar pra usar aquele moletom que você doou no inverno. Essas campanhas de roupa de frio contam com o hábito que, em algumas regiões com estações bem definidas, as pessoas têm de guardar as roupas conforme o calor ou frio que faz. Aí, quando reabrem caixas, sacolas, guarda-roupas e se deparam com aquelas peças que nem lembravam mais, querem se livrar delas, vêem que já passou a moda daquela jaqueta estilo cowboy, daquela blusa com franjas, da saia longa. E, claro, quem é que vai andar por aí com roupa fora de moda. Melhor doar. Em situações muito extremas, para as quais nem nós, nem o Estado nem ninguém está preparado (como as grandes inundações de 2008 em Santa Catarina) todo esforço, se vier de um hábito, é válido. Se vai doar só porque está com pena ou o pessoal todo da empresa está fazendo, melhor não.

Pensar no outro não é fácil. Desapegar (de verdade e não como nome bonitinho pra site nem pra limpeza no coração) de verdade também não. Não nos ensinam isso. Nossas práticas correspondem ao que vemos no mundo: e não é correto, nem digno, que a gente critique o que acontece no mundo porque nós colaboramos diretamente com tudo. Sair por aí combatendo o que os outros (vejam, aqui há um outro outro: aqueles outros que tanto amamos odiar, desprezar, menosprezar porque eles fazem coisas erradas – aliás, o único outro do qual falamos com frequência) fazem de errado, o mal que eles praticam, não diz nada de bom a nosso respeito. Eu não preciso combater o mal que os outros praticam: eu posso praticar o bem. Posso, para começo de conversa, praticar o bem em relação a um outro qualquer. E isso sim vai fazer diferença no dia a dia, nos tempos de crise e vai empreender alguma mudança no mundo.

No jardim

A menina brinca com a boneca sob o sol

a areia suja seu vestido

o tempo todo ela sorri

sorri com ela as rosas e os jasmins

O sabiá a observa sem fazer ruído

cata minhocas e insetos

pensando no filhote que deixou no ninho

com medo que ele caia e se machuque

A avó borda uma toalha

sentada na sombra da varanda

repuxa os óculos que teimam em cair

e espia o cachorro que dorme a seus pés

Do nada, tudo parece sacudir

é a menina que vem chorando

aos soluços, agarra a boneca

que perdeu a cabeça.

The Book of Negroes (um desassossego)

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Há algo de filosófico em pensar que, quando temos as respostas erradas talvez tenhamos feito as perguntas erradas. Eu sempre penso nisso numa atitude de inquirir e questionar o que se pretende apresentar. Há, também, algo de filosófico em pensar se o problema que se apresenta está colocado da maneira correta.

Pensei em começar assim para justificar que, não desmerecendo outras lutas e pautas, aprendi muito uma forma diferente de ver uma mesma questão. Muito se reclama, no meio audiovisual, que faltam negros nas produções (nas telas e por trás delas). Não, não é só nas novelas brasileiras (ou mesmo em telejornais e etc.). O mesmo acontece na indústria cinematográfica e televisiva estrangeira. A TV americana, porém, trata isso de uma forma menos pior, digamos. Me parece que tem uma boa quantidade de produtos audiovisuais com personagens negros. Volta e meia esses “problemas” entram em discussão, o atual é sobre os salários das atrizes, depois do discurso politizado de Patricia Arquette ao receber o Oscar. Bem, seria repisar dados conhecidos demais dizer que os homens (brancos e blábláblá) dominam praticamente todas as áreas e tal. Não é isso que me interessa hoje.

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A despeito, também, dos estudos (dos quais realmente não sou detentora) decoloniais e afins, pois acredito que não se encaixe na minha idéia.

Assisti a minissérie canadense The Book of Negroes, dirigida pelo negro jamaicano Clement Virgo. Não pretendo ser spoiler nem tratar da trama, apesar de ter alguns tantos elogios. Enquanto assistia, me peguei pensando que não é só dizer “não há negros nos filmes, séries, novelas”. O brilhantismo da minissérie, pra mim, está no fato de pensar a fotografia para a pele negra. Estamos acostumados demais em ver as imagens de brancos, loiras, morenos, com luz e fotografia pensados para essas “cores”. Porém, há vários casos de audiovisuais que têm negros no elenco, sem perceber que eles se perdem nas imagens com luz apropriada para as peles brancas ali presentes. O trabalho de fotografia de The Book of Negroes é fantástico – mesmo que sutil demais para um olho desatento.

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Sim, a história é emocionante. Sim, cobre um período e fatos que não são de amplo conhecimento do povo em geral. Sim, é dar visão às atrocidades. Sim, é uma história de esperança. Sim, tem atuações brilhantes. Seria só mais uma série/minissérie que eu teria gostado (de época, óbvio), se não fosse o despertar de um olhar para as cores que compõem o quadro de um elenco negro. E assim eu acredito que a questão deva ser recolocada: não só faltam negros no audiovisual (na frente e atrás das câmeras), nem faltam temas e histórias que estejam em sintonia com os personagens negros, falta pensar como ver (no sentido literal) a pele negra nas telas. E, pra mim, isso faz muito mais sentido.

Do que eu estou falando? Da beleza que, em meio às desumanidades cometidas no enredo, surge da pele brilhante sob a chuva. Do uso intenso dos tons terrosos que combinam e dão realce à pele negra. De usar a paisagem fria, gélida, branca, casar com perfeição e não deixar um traço de sombra sobre o rosto negro, enquanto salta gritante a branquidão da pele dos outros que, estes sim, parecem destoar ali. É tão batido (apesar de ter um filme fofinho que trata bem disso, com a Juliette Binoche e, infelizmente, o Clive Owen), mas uma imagem vale mais que mil palavras (e eu sou do tempo que as imagens eram menos mentirosas e manipuláveis).

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Ou seja, só assistindo para entender. Mas, justifico-me novamente, este blog tem a premissa de ser campo para meus desassossegos. Então, cá está. Listo mais um deles. É uma minissérie que eu acho que nem chegou nem chegará no Brasil, passou em janeiro no Canadá e em fevereiro nos EUA, tem apenas seis capítulos e é baseada num livro de Lawrence Hill (acredito que sem tradução para o português), outras informações é fácil encontrar por aí. Sim, sou apaixonada por essa coisa de acesso quase irrestrito à arte e à cultura, então deixo avisado que tem para download em site seguro (só não vou deixar aqui por questões óbvias). Partindo da minha compreensão da fotografia da minissérie, confesso que já fui longe, por isso comecei com as atitudes filosóficas de mudar o ponto das questões que nos apresentam.

E só uma curiosidade, houve uma campanha para explicar o termo negroes no título, pois é ofensivo nos EUA, mas ele é explicado na história e, pá, assistam e não fiquem lendo spoilers.

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Ela e o Violino

Ela é joelho

Ela não sente seu peso

Ela não tem asas

Ela não é um beija-flor

Ela saltita como quem anda em brasas

Ela flutua como quem sente o amor

Ela é piruetas

Ela é cãibra sem pausa

Ela é furadas meias

Ela não pára quando sente náusea

Ela é som em nervos e músculos distendidos

Ela é carne em vibração das cordas ao seu ouvido

Ela se alonga, suspira e tira as sapatilhas.

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