Por respeito aos nãos

Talvez fosse coerente começar escrevendo sobre oportunismo, coisa que (se é que um dia saiu de moda em terras tupiniquins) está muito em voga. Só de escrever declaradamente sobre certos assuntos eu já posso abraçar os oportunistas que, parece, têm brotado aos borbotões. É curioso o quanto aumentamos a exposição daquilo que criticamos que está sendo exposto, já repararam? Se eu considero que uma determinada ação de uma pessoa (ou de um grupo delas) é excessiva, errada ou expõe o que não deveria, ficar falando, publicando e comentando-a só ajuda a aumentar a publicidade da coisa. É simples. Mas muita gente não percebe.

Não, não me deterei em fatos particulares. Serei o mais abstrata possível. Como dizemos no twitter, entendedores entenderão. Justo assim. Antes de começar a escrever pensei e repensei o quanto eu sofri tentativas de cerceamento desde (e principalmente durante) a minha infância. Na prática, nunca houve porta trancada, armário alto, portão com cadeado, cofre com segredo, esconderijos secretos e afins que tenham me detido – podem perguntar, algumas histórias são célebres. Ouvir um não ou uma proibição qualquer disparavam em mim, no mesmo instante, o botão do desafio. Se era não, então eu faria. Claro que me meti em inúmeras confusões, apanhei pra caramba, deixei algumas pessoas em desespero. De fato, não faz tanto tempo assim que o que não era pra ser, pra mim seria.

E não sei bem quando foi (repito, não faz tanto tempo assim) me vi refém dos meus próprios nãos. Eu me dei o dever de me cercear. Os primeiros momentos foram de dilemas quase-existenciais. Minhas atitudes mudaram. Eu decidia por mim se sim ou não. Não demorou muito para me sentir responsável – ó, meu pavor desde sempre. E, sim, hoje creio que me sinto uma velha por isso. Envelhecer deve ser isso de respeitar os nãos – os próprios nãos. E, lhes digo, dia após dia, tenho me deparado com situações nas quais o coração sai se arrastando pelo peso dos lamentos ao respeitar meus nãos…

Pensei cá se não deveria ser uma lei universal o respeitar os próprios nãos. Não é questão de educação, etiqueta, noção ou bom senso – não é respeitar o que nos é, desde sempre, imposto. É saber o que se deve ou não fazer – em determinado lugar ou situação. Pensem bem, não estou me referindo às psicoses nem aos crimes hediondos (mas a alguns casos destes é possível aplicar).

Pensei, também, que seria simples. Passaríamos menos vergonha com atitudes totalmente reprováveis – dessas que abundam registradas em imagens e divulgadas na internet –, talvez até respeitássemos mais uns aos outros (entre mortos e vivos), quem sabe até acreditaríamos mais nos seres humanos – esta espécie que louva tanto ser racional.

Concluí, então, que tenho pensado demais. De vez em quando acontece. Publiquei, ultimamente, textos de ficção (?) porque também de vez em quando acontece de eu querer olhar o mundo somente pelos olhos da ficção. Acredito que poucos lograram acompanhar o que eles de fato queriam dizer. Mas, pelo que afirmam os estudiosos das Letras, não importa o que o texto quis dizer, mas o que ele disse a você, leitor. Nem terminei de escrever e tenho certeza que este texto não dirá absolutamente nada à maioria (dos que o lerão, óbvio). Entendedores entenderão.

Às vezes também acontece de eu preferir apenas observar. É um exercício e tanto. Ainda mais quando os dias são batalhas árduas em obedecer aos nãos que eu me digo – tem dias que é um atrás do outro e, ó, coração, sofra sem dar um pio. E enquanto isso vou lendo livros de ficção que me ajudam a entender tudo. Ficção só me faz bem – da realidade já não posso dizer o mesmo. Às vezes, só às vezes, tenho cá pra mim que há uma imensa maioria jogada ao mar, entre ondas que vêm e vão e vêm e vão e têm dificuldade (total incapacidade?) de perceber. Entre as pérolas “na minha opinião, tenho certeza absoluta” e baldes de gelo, não sei bem o que se passa com a cobertura em tempo real e imediato do mundo.

E aí também estranho e (em certos casos) lamento as mortes (não que eu ache, como parecem querer que a gente acredite, que tenha morrido muito mais gente nesses tempos do que em outros – cadê as estatísticas?). E entre over flooding de especialistas sobre suicídio, depressão e piadistas de merda, é reconfortante ver que certos sentimentos continuam os mesmos – a pobreza, a politicagem, o amor, o ódio, a ignorância. Talvez eu até preferisse o mundo quando ele era assim.

É, sou velha, mas tão velha, a ponto de preferir os bons tempos em que fofoca era fofoca e não indireta nesta ágora on line. Bons tempos quando meu avô discutia política no final do almoço de domingo e minha avó suspirava “política e religião não se discutem” – pois é, vó, nem o teu não eu respeitava, posto que foram as primeiras coisas que amei discutir na vida. Sou velha, o suficiente quem sabe, para respeitar o meu não nem que seja diante da dor dos outros. E aí me deparei com uma passagem – ficção (?), é claro – de um dos últimos ilustres falecidos que fez parte da minha adolescência mais desrespeitosa com os nãos (e feliz) da qual muito me orgulho:

Sobre enterros no Nordeste:

“Às vezes, um enterro cedo. Precisava ser cedo, porque logo se trabalhava. Defunto não come, talvez seja melhor. Mas não era menos enterro por ser de madrugada, antes era mais, porque em outras horas tem sempre gente na rua que não está prestando atenção no enterro. E de madrugada não, porque, quando tem um enterro de madrugada, só tem mesmo o enterro, com aquele caixão deslizando e o povo atrás e se ouvindo as pisadas no chão e as pernas das calças se esfregando umas nas outras.” – João Ubaldo Ribeiro, Sargento Getúlio

Sou dessas velhas que entendem enterros como o som dos passos e das pernas das calças se roçando. E, vejam bem, no meu tempo nem precisavam ser de madrugada para tanto. Ah, para os que não me conhecem, já fui a mais enterros do que descobri segredos de cofres e senhas de e-mails alheios. E, talvez, só quem já tenha visto ou sentido certas coisas vai entender o “defunto não come, talvez seja melhor”.

Enfim, Ubaldo era baiano e seus personagens transitavam ali pelo sertão. Mas ele também saía da ficção pra dar umas bordoadas na nossa realidade – esta, em resumo: uma democracia que não sabemos usar. Também não sabemos usar a liberdade e quase não encontro quem respeite seus próprios nãos. Então só me resta concluir com a imagem da minha avó recolhendo o prato dela e se retirando da mesa.

Deslize inconfessável

   

     Das coisas que gosto da vida, as inconfessáveis ocupam um lugar especial. Tenho cá pra mim que uma vida que não tenha seus recônditos inconfessáveis não é em nada vivível. E nem falo daquelas coisas que se confessam ao pé do ouvido ao amante recente enquanto corpos ainda suados tremem convulsivos. Digo as inconfessáveis por excelência e tenho apreço especial por aquelas que não confessamos nem a nós mesmos.

      Uma pessoa muito querida que conheci este ano tem me ajudado a pensar, estudar e entender coisas sobre este… poderia dizer ofício, mas aí lembra qualquer coisa relacionada a profissão ou obrigação, e não é o caso. Trabalho, talvez, porque como disse ele “nós não temos horário, nós temos trabalho” e encarar como trabalho foi o que fiz ano passado e me ajudou muito. Ou, quem sabe mais verdadeiro, um hábito. Tenho, por hábito, escrever. E isto eu encaro como trabalho. Demorei anos para chegar até estas definições – e acredito que elas possam mudar como já mudaram tanto para chegar até aqui. Como eu ia dizendo, esta pessoa (é um fofo, sério) entre tantas coisas diz repetidas vezes que o escritor é um outsider. Ou seja, que escrevemos porque não nos sentimos in, sentimo-nos fora de algo – seja espaço, grupo, normas, etc.. De coração, ainda tenho dificuldades em dizer: sou uma outsider! Sabe, acredito que é uma certa antipatia por pessoas que sempre se autodenominam ou rotulam “sou underground”, “sou alternativa”, “sou eclética”, e afins. Não sei bem o que há dentro para ter certeza que estou fora. E, reparem, entre todos os diferentes há os iguais. Não adianta pintar o cabelo de vermelho-cereja, só se vestir de preto, ser fã do Nirvana e achar que é diferente: tem milhares iguais a você. É uma mentalidade permitida na adolescência e foi lá mesmo que já percebi essas bobagens.

      Então o escritor seria um outsider. Como não me sinto assim, tive que procurar aqui dentro como me sinto, então, como pessoa que escreve – por hábito e trabalho. Eis que não consigo fugir de mim: sou uma personagem. Nas palavras escritas sou, sempre, uma personagem. Por isso, não me causa espanto algum saber que meus maiores problemas com as pessoas são de comunicação – quando envolve a escrita. No mundo das palavras não existe eu. Aí as pessoas confundem muito. O que, aliás, muito me diverte em vários momentos. As personas que escrevem têm características, por vezes, que ninguém que me conhece pessoalmente me atribuiria. E com toda razão, aliás.

    Para poder prosseguir com algumas atividades e planos tive que procurar estas respostas. Eu poderia escrever best sellers com unhappy end como os que agora fazem sucesso, vide Nicholas Sparks e John Green. Esses dias me perguntei se isso era alguma forma de neo-romantismo contemporâneo. Sou saudosa dos tempos, antes mesmo do meu tempo, de Sidney Sheldon. Transgressão perdeu a graça? Sexo virou rotina? Desavenças são desinteressantes? Que mundo é esse, então?Mundo mais afoito por uma indústria cultural ainda nos moldes do Adorno e do Horkheimer do que nunca. Poderia, também, viver de escrever romances de banca de revista – dos quais, aliás, sou fã fervorosa! Mas, não. Ainda não.

     Como personagem que escreve tento, por vezes, me furtar a escrever. Foi esses dias que pela primeira vez escrevi um texto para publicar aqui e não o fiz. E jamais o farei. Gosto do imediatismo do blog, escrever e já publicar. Quando você se dedica a escrever um livro sem nem a certeza de que será publicado a situação é muito diferente. Aqui, não, escrevo e publico (e apago) quando bem entendo. E publico muita bobagem, é claro. É o exercício, é o hábito. Foi logo depois deste que não publiquei que escrevi um que não tinha nada a ver com o que ele era na minha cabeça. Me explico. Não sofro da síndrome da folha em branco. Não sento e digo “agora vou escrever”. Eu penso, penso, penso, matuto, crio tudo na minha cabeça (e raramente uma anotação aqui ou ali), lapido uma frase de efeito ou outra. E aí, quando está tudo ali, sento e escrevo – e raramente releio ou reviso. Mas, no caso deste texto em especial eu não gostei dele na questão formal. Queria algo mais poético e não foi este o resultado. E aí pensei em não publicá-lo.

    Foi, então, que senti a responsabilidade como alguém que escreve. Tratava-se de emoção. Era um simples registro de sentimentos. Vejam só. Pensei, talvez arrogantemente, que eu senti aquilo como tantas outras dúzias de pessoas também o sentem. E me vi responsável por elas. Há uma pessoa que diz que o escritor é aquele que não teve preguiça em escrever o que muitos pensam ou sentem. Sabe quando a gente lê uma coisa e se “identifica” (sorry, detesto o termo depois que ele foi vulgarizado pelo Big Brother)? Então, o autor é aquele que entre eu e ele não teve preguiça. Simples assim (mas não tanto). Da escrita não consigo fugir e de tudo faço literatura. Já conheci e conheço muitas pessoas com idéias e sonhos fantásticos, além de bons contadores de histórias. Mas daí a terem escrito livros, nunca. E, sim, claro, obviamente, me utilizo deles na cara dura.

    A responsabilidade é essa. Registrar sentimentos e emoções que sei que não sou a única que sente. Sou personagem o tempo todo, mas quando assumo a ficção penso catar os sentimentos e emoções que conheço e desconheço para chegar a alguém. E sempre chego.

    Voltamos, então, friamente calculado, ao começo. Meus leitores não confessam que lêem o que eu escrevo. Eis algo inconfessável. Vejam bem, ler o que eu escrevo ainda não é crime. Faço festinha em mim mesma num flerte com prazeres proibidos ao saber que sou parte de algo inconfessável. Afinal, de coisas inconfessáveis é que se faz uma boa vida. A responsabilidade que assumo (visto que tenho pavor de responsabilidades) ao escrever por outros recebe, em contrapartida, o deleite de ser a inconfessabilidade de algumas vidas por aí. Não desejaria nada mais.

    Meu blog não é daqueles de milhares de acessos por dia, semana ou mês. E com números nunca me importei, vocês sabem. Nem escrevo e fico mandando aos amigos e conhecidos para que leiam. Me sentiria mal fazendo isso. Me dei ao luxo de configurar aquelas ferramentas que publicam automaticamente nas redes sociais e só. Sei de pessoas que lêem o que eu escrevo. E sei que elas não assumem isso por aí. Tenho leitores que não falam mais comigo, que já me amaram e odiaram demais, aqueles que me conhecem mas nunca nem me disseram um “bom dia”. Amo todos vocês, viu? Como personagem que escreve tenho um coração enorme.

     Lamento muito ter, novamente, escrito sobre o ato de escrever. Poderia, sei lá, falar da Copa das Copas ou da campanha política. De vez em quando vocês sabem que eu faço isso. Tirei o ano para (me) estudar sobre este hábito que não me abandona desde tanto tempo e ao qual resolvi dar uns afagos. Daqui a pouco eu volto para escrever sobre casamento, dores de amor, manias doentias, problemas sociais e as curiosidades que observo. Enquanto isso meus leitores vão acariciando seu inconfessável deslize de me ler.

 

Os homens da minha vida – o fora

Demorei, demorei demais para entender. Então, pela primeira vez eu levei um fora. Era isso, era assim. Não estava com dó de mim. Minha larga experiência em dar o fora não havia me prevenido. Precisei de tanto tempo para saber que fora um fora (perdão pelo trocadilho) e mais um tempo para poder verbalizar e vivenciar isso. O tempo, ah!, o tempo!, fora (!) tão cruel conosco. Coisa de dias, de semanas, nem chegou a meses – e tudo, t u d o, teria jeito. Mas, não. A vida a me trollar (na falta de termo melhor) ad infinitum desde então. E aí chegou esta semana, meses depois, em que abracei a vida e comecei a rir (de mim) junto com ela. Eu não tinha mais saída. Fui passear por caminhos onde tantas vezes pensei em você, onde tantas e tantas vezes pensei e repensei nos dias que passamos juntos, onde tantas vezes sonhei. Ali fiz minha penitência logo que vi um rosto e senti aquele sobressalto. Não posso mais. Não posso mais encontrar teu rosto por aí e sentir o coração pular. Que, o coração que me perdoe, mas isso não é coisa que se faça. Não posso mais ter receio imenso de voltar a frequentar certos lugares porque temo – com todo o temor que me é possível – encontrá-lo. Porque já não sei o que faria se te visse. E, em verdade, não quero saber. Foi ali, diante do mar verde da cor dos teus olhos, um vento norte frio e inimigo, entre o mar e a Ilha do Campeche, que afoguei o nosso amor. Gosto de rituais e não tinha lugar (nem trilha, aliás, porque é claro que até o mp3 me trolla) melhor para o nosso amor descansar em paz. Volta e meia irei visitá-lo e te garanto que todo ano ele receberá flores em fevereiro. Vou rezar pra Deus, nosso Senhor, para nunca mais te ver. Ah! Nunca mais. Que dessas coisas de fim entendo bem. E guardo a esperança, que nunca morre, para todo o resto. Naquele dia a sinceridade foi tanta que nenhum propôs “amigos?” porque amizade é outra coisa. Agora, tudo vira história. Quando me perguntaram, meses atrás, se depois de fulano eu não tinha mais me apaixonado, menti. Menti porque se eu contasse que, sim, havia me apaixonado (de novo, como sempre) mas que no único momento de sensatez da minha vida – porque, e só porque, você foi sensato como lhe é de costume – eu levei um fora com meu consentimento. Diriam aquelas almas bobas “você deveria ter lutado por ele”. Tadinhas, não sabem que luta travei de verdade. Se sofri, se doeu, nem sei. É aquela coisa dos 28 de que fala Stendhal. Só sei que agora sou bem mais cuidadosa quando digo meus “nãos” e saio (por hábito) pela querida tangente. Um dia contarei como fui abordada no trem semana passada. Não esperem, porém, a falsidade de um “estou pronta pra próxima” (nem pra levar um fora nem pra me apaixonar). Nunca estou, não é mesmo? Nunca espero nem procuro – e, às vezes, nem quero. Porque de você só me restou aquela foto que escondi em algum lugar pra bem depois achar – e aí sorrir ou jogar fora. E como não podíamos deixar rastros, sei que tens algo que nunca te deixará esquecer de mim. E foi assim, o que me fez demorar tanto a entender é que tuas palavras não diziam o mesmo que os teus olhos. Não foi não querer, era questão de não poder. Vou aproveitar este ano e rezar pra Santo Antônio. Pois que ele me manda os melhores sempre com os mesmos problemas. Errar é humano, não é coisa pra santo. Até santo me trolla. E aí tenho achado o amor essa coisa que fica bem nos filmes e nos livros – nem do amor na vida dos outros tenho achado graça. Porque hoje ainda pensava a minha vida como uma estação de trem e o filme da tarde, um daqueles que me tira do eixo, terminava sobre trilhos. “O caminho mais reto é o mais curto” disse a moça (entre outros diálogos potentes). E eu que só tenho curvas na vida?

almas escribas

Yo tentaba hacer música de las palabras, de los sentimientos y de los pensamientos

de verdad, de música no conozco nada.

Las palabras que no sé si existen

los sentimientos que no los siento

los pensamientos que me destruyen por dentro.

No hay mundo que de cuenta de todas las palabras

palabras que no se miran al espejo

prefiero las palabras que no pueden

ser dichas ni escritas.

Preguntaría a Dios de donde vienen tantos sentimientos

sentimientos que no caben en el pecho

me gustan los sentimientos que se ocultan

en miradas y pérdidas.

Quisiera no ser mas humana y me deshacer de los pensamientos

pensamientos que me explotan hasta el hueso

me interesan los pensamientos que seducen

astros, estrellas y lunas.

A mi, Dios no ha dado la virtud de la música

y escribo como si fuera el poeta

la más noble persona

que de todo sabe, que de todo habla, que todo lo siente.

Es, pues, que a todos ustedes

el pobre les engaña.

Hay almas sin palabras ni sentimientos ni pensamientos

almas viajantes

almas que viajan por entre las otras almas de las gentes

y hacen de sus reflejos una posada

donde el vivir tiene algún sentido

y algún instante de amor.

Hay almas que hacen música

hay almas que suelen saber escribir.

Baú e Bidê

Todo mundo deveria ter um baú. Eis mais uma peça, do mundo que ficou para trás, que não tem sua estima reconhecida. Como o bidê, sabe? Ninguém mais tem bidê em casa. O bidê, com toda sua utilidade e, mais ainda, sua beleza atemporal foi extinto. As casas diminuíram, apertaram aqui, ali e a vítima no banheiro foi o sensato bidê. Sim, é sensato ter bidê em casa. Hoje querem pias modernas, espelhos por todos os lados, chuveiros mágicos e esqueceram o bidê. Bem, e você que me lê e nem sabe o que é um bidê?

Essa insensibilidade do mundo para com as coisas que trazem facilidades e belezas para a vida me entristece. Espremeram as casas, as vidas, e os guarda-roupas que têm portas de vinte centímetros?! Dá pra guardar um par de meia – dobrado. Cadê as portas com setenta, oitenta, centímetros? O portentoso guarda-roupa, peça que compõe, junto à cama, o quarto. Quarto é isso, cama e guarda-roupa – no mais é acessório. Tem gente que tem TV no quarto! Mas nunca teve um baú. Ou uma mesa de cabeceira – o criado-mudo, lembra? Sempre tive pena de chamar de criado-mudo. Cama, guarda-roupa, mesa de cabeceira e baú. Ah, sim, quem sabe uma penteadeira para as moçoilas vaidosas. Tudo se perdeu.

Ah, os baús… aos pés da cama, debaixo de grandes janelas. Sem querer ser chata, mas as janelas também diminuíram, vão espremendo nossas vistas a cada prédio com o qual nossos olhos se deparam. Um baú para guardar o enxoval de um futuro casamento suspiroso. Um baú para guardar as cobertas do inverno! Ah, amor eterno às cobertas do inverno com seu cheirinho de guardado. Um baú para guardar lembranças, fotografias antigas, bilhetinhos de infância, a primeira bolsa, aquele casaco de estimação, cartas de amores impossíveis, os sonhos da adolescência, a fantasia de um carnaval… para guardar as causas do que somos hoje. Quem não guarda suas causas, não compreende suas consequências. Um baú para guardar aquelas tralhas que não se sabe onde enfiar mas, acredita-se, um dia vai precisar. Ah, um baú para os virginianos, para guardar só coisas úteis, entre malas de viagem, patins, a raquete de tênis e o quimono do judô.

Não consigo imaginar onde as pessoas guardam tudo isso hoje. Na casa da mãe, talvez, no velho quarto da infância porque nossos apartamentos de filhos independentes ou famílias precoces não têm espaço nem para um nobre bidê. Ou, ingenuidade minha de lado, as pessoas não guardam nada disso. As pessoas querem guarda-roupas novos, com portas estreitas, entulhados de roupas da última coleção numa quantidade que nem se vivessem o dobro dos anos que lhes cabem nesta vida conseguiriam usar tanta coisa. As pessoas têm fotos em HDs. Ah, sim, quem ainda faz enxoval? Cobertas? Aquecedores e ar condicionado evitam o transtorno de estocar cobertas fofinhas e quentinhas. As pessoas não querem pensar em quem foram para não terem que discutir com quem são.

E os baús e bidês ficaram pelo meio do caminho… numa cena de O Outro Lado da Rua, Fernanda Montenegro, dama da TV, do palco e do cinema, com sua figura angulosa e maciça, debruça-se sobre o bidê do espaçoso banheiro de seu apartamento antigo. Filme recente, sua personagem apaixonou-se pelo vilão e quando tudo desaba, ela desaba aos prantos sobre seu companheiro, o bidê. Nem falo só da utilidade mais óbvia do bidê. E o prazer de andar descalça pela casa e pelo jardim, sujando os pés à vontade, e quando precisa colocar o tênis para sair é só recorrer à comodidade do bidê. Ou lavar as patas do cachorro trapalhão. Ou vomitar.

O bidê, nem que seja para chorar e abraçá-lo. Só quem não tem coração não sente a falta que o bidê faz. Ou quem não chora amores abandonados. Ou quem não suja as patas nas alegrias da vida. E o baú. Quando você não lembra onde colocou algo tão importante e, pensativo, deita os olhos no baú. Rá! Lá está! Ou numa noite chuvosa e triste, com o coração apertado, musicando dores, você entra em casa, joga as chaves, jura nunca mais, senta sobre o baú, apóia os cotovelos nos joelhos e respira fundo.

Não sei bem porque estão nos apertando tanto. Apertando nossos pensamentos e nossos sentimentos. Tiram nossos amigos solenes das casas. Não sou psicólogo nem teórico da pós-pós-pós-modernidade, mas desconfio que nos espremem nos espaços e tiram nossos pilares emocionais para que esqueçamos alguma coisa – se não por isso, por coisa pior.

latas de felicidade

Foi difícil entender porque a Filosofia se preocupava com a felicidade. Num primeiro momento me perguntei “pra que refletir sobre isso, com tanta coisa mais interessante e importante?”. Afinal esperava estudar sobre ética, política, o mundo das idéias. E lá estava a questão: o objetivo da vida é alcançar a felicidade. Foi, então, uma desilusão. Não achava que era sério.

E era. Daquelas frases de senso comum sobre “todos buscam a felicidade” ou musicalmente adaptadas “eu só quero é ser feliz andar tranquilamente na favela onde eu nasci” a Filosofia parecia apropriar-se sem dó. É claro que o caminho era invertido, cronologicamente, pois que a idéia havia surgido antes das frases feitas e dos versos.

Então, o objetivo da vida era a felicidade. Posto o drama, jogam-se os filósofos na arena. Todos saem vencidos e vencedores. Não há nada mais platônico do que lançar-se a questão “todos buscam a felicidade” sem dizer, num primeiro momento, o que, afinal, ela é. E aí temos mais de dois mil anos de disputas.

Eu não entendia. Tenho real dificuldade em entender algumas (muitas) coisas. Não levei a sério o objetivo da vida dado por eles. Minhas concepções e experiências, além das questões da individualidade, não me faziam aderir ao conceito. O que mais me incomodava – e incomoda – é colocar certos pontos como “buscas” dos seres humanos. Sim, eu sei, tem o homem e a mulher (maiorias esmagadoras) que procuram “alguém”. Tem, então, aqueles que buscam a felicidade.

Buscar ou procurar algo, intencionalmente, foge à minha ação. As surpresas da vida são muito mais interessantes. Também me é difícil compreender a felicidade atrelada à vida correta. As boas ações, o agir corretamente, agir conforme ou de acordo, praticar a justiça são todos passos à felicidade. Pessoas felizes, então, não fazem coisas erradas. Ou, melhor formulado, se você não age corretamente, não alcançará a felicidade. Eis o ponto que sempre me deixou pensativa por alguns minutos.

Haverá aquele que vai proclamar que a felicidade se sente, não se explica. Essas frases feitas vomitadas pelos seres. Porém, refletir sobre as coisas talvez seja mesmo um problema. Vejam só, quantas vezes concordei com Raul e seu “É uma pena eu não ser burro Assim eu não sofria tanto”. Aquele que é feliz e não pensa é um caso a ser estudado. Pois também me incomoda muito (e acho que não tinha me dado conta disso até há pouco tempo) cultuar-se a elevação do pensar. Esta vida de contemplação, de busca pelo saber, como supra-sumo da condição humana. Não sei, é possível ser feliz assistindo ao Programa Pânico ou deliciando-se com um sorvete.

Pois que diacho, então, é isso da Filosofia preocupar-se com a felicidade? Teria a felicidade perdido a sua nobreza ao ser encontrada quando abrimos uma lata de coca-cola ou ao postar um selfie exibindo uma paisagem invejável?

Não sei vocês, mas eu já tive provas de que agir corretamente, de acordo com a razão, com as regras morais e etcéteras e tais pode mandar a felicidade para bem longe. Ser feliz ou estar feliz, se existe a felicidade ou momentos felizes… chamem todos os filósofos que podemos discutir tudinho.

Para falar a verdade, como é tradição eu contar de onde surgiu a motivação do texto, conto-lhes que foi pela certeza de que há pessoas que acreditam piamente que não podem – já foram mas jamais serão de novo – ser feliz. Há pessoas que por tantas dores e vidas vividas não acreditam na felicidade, e talvez seja mais fácil acreditarem em algum filósofo. E é diante delas que eu encontrei a certeza de que sou feliz – no sentido mesmo de ser. Eis que também não me convence a idéia filosófica de que só se pode dizer de alguém se foi feliz quando da sua morte. Eu já quis escrever numa lápide, adaptando Merimée, Viveu, amou, foi feliz (é de um conto do Carmem, mas da última vez que procurei não descobri de qual – como vocês sabem sou péssima com citações). Não gostaram do “amou” ali no meio e tinham lá suas razões. Então, quem sabe, eu guarde este para a minha lápide. Quem sabe sem o “amou” fique melhor. Apesar da fatalidade que há no “foi” pois pretendo ser feliz também depois da morte.

Não pensar e não agir corretamente, dentro dos preceitos e regras morais, deve estar mais próximo da felicidade do que toda a Filosofia reunida. Recordo dos primeiros filósofos que irritavam-se com a vida e suas necessidades mais básicas, as biológicas e fisiológicas. Como nos afastamos do mundo das idéias ao ter que procurar um banheiro numa longa e deserta estrada. Teriam eles razão? Se o objetivo da vida é a felicidade, ela não deveria estar contida em cada satisfação de desejo e necessidade, em cada prazer como abrir uma lata de coca-cola ou na água quente de um banho depois de um dia cansativo? E para citar literalmente o Aristóteles com seu sedutor meio-termo, não deveria também estar contida na reflexão sobre nossas ações e suas consequências na vida dos outros, ou no quanto o trabalho alienado marxista corrói meu ócio, ou, ainda, se sou feliz?

Me contradigo? Acredito que sim, pois isso volta e meia acontece. Eu não acredito na felicidade da maior parte das pessoas que conheço. Fingem tão mal. Os psicólogos, as euforias, os impulsos, as domesticações, as reclamações… fotos, posts e conversas não têm cores o suficiente para esconder suas infelicidades. Como ainda considero a Filosofia melhor que certos profissionais, tarjas pretas ou livros de auto-ajuda, o meio-termo aristotélico me cai bem.

Já não sei ao certo porque escrevi sobre a felicidade. Constatei que não escrevi quase nada do que havia pensado. Mas cheguei ontem em casa com a missão auto-impingida de escrever sobre a felicidade. Ainda leio os filósofos com muita desconfiança. E, claro, com muita gratidão e, alguns, com paixão. Ah, cá estou a falar de paixão… aí mesmo que eles levantariam de suas tumbas e cassariam meu diploma de mísera bacharel em Filosofia.

Não sei, não sei… de fato não sei onde está a felicidade. Sei que a possuo. Não a procurei, porque como eu disse, não busco nem procuro por nada na vida. Espero, assim, que ela se descortine e me apaixone. Sim, horrorizo pessoas quando constatam que não tenho objetivos, metas e essas coisas como, sei lá, ser feliz.

Hoje, então, tirei o dia para implicar com a Filosofia. Não quis dizer nada e duvido que tenha dito muita coisa. Melhor deixar cada um com sua lata de felicidade e voltar aos filósofos e às suas certezas. Como gosto tanto de surpresas, vai que ainda hoje a vida me surpreenderá com alguma.

Perspectivas

Foi ali, num ponto qualquer – ou não tão qualquer, posto que velho conhecido – da BR 101 que ela se deu conta. Brotou aquela vontade de levantar e sair dançando pelo corredor do ônibus. A renovação das músicas do mp3 ajudaram, é inegável. Naquele momento ela se deu conta qual era, afinal, a boa de 2014. Era tempo de mudar os pontos de vista. Já andava preocupada há meses com essa incerteza sobre o ano que chegava na metade: e ela não sabia, ainda, qual era a dele, afinal. Burrice não ter percebido antes – ela tem dado sinais de burrice aguda, a perdoem. E foi ali, diante do mar azulzinho, do sol laranjão de outono recém-nascido que teve aquela epifania. Havia mudado os pontos de vista desde o começo do ano. Havia mudado drasticamente a alimentação, havia abandonado hábitos ruins (ruins não, péssimos – e impublicáveis), havia deixado de pensar em quem não devia, só ainda tinha dificuldade em esquecer aqueles olhos verdes (pois é, Johnny Cash, por aqui não são azuis), havia assumido responsabilidades astronômicas – pois sim, ela que gostava de pensar que era irresponsável (doce ilusão) agora responsabilizava-se por tanto e tantos que lhe assustava a novidade. E a grande e deliciosa mudança havia começado sem querer por algo que ninguém esperava dela, lá em janeiro: dormia e acordava cedo. Sim, ela, mais uma notívaga que louvava a criatividade, a beleza e o silêncio da madrugada agora não conseguia ficar acordada depois das onze da noite. Ou, ainda, quando era assaltada por sonos cavalares às oito. A animação com a qual acorda às cinco da manhã e tem visto mais sol nascendo do que se pondo – ela que já se apaixonou por todos os pôr-do-sol que já viu. Dormir e acordar cedo foi a primeira mudança drástica de perspectiva à qual ela aderiu este ano. Em seguida vieram as mudanças alimentares – hoje come até cenoura. Lhes digo que já até sentou em lugares que não eram os cativos. Pintou a unha de esmalte branco (e não arrancou-o no dia seguinte). E foi ali diante do mar e de um sol lindo que saltitava de alegria ao, finalmente, descobrir a razão da existência de 2014. Não sabia ao certo o que lhe embotara a percepção nos últimos meses, se os chocolates da Páscoa, a agenda exigente e apertada ou, ainda, o peso das responsabilidades e da realização de alguns sonhos. Agora até ama Porto Alegre. Agora cumpre regularmente – ó dó – e com respeito todos os horários semanais. Imagine-a assim anos atrás… sei que não dá. Por dias ela até disse que não estava feliz e, em seguida, se desdizia sem entender, afinal, o que sentia. Sei lá, talvez estivesse pagando pra ver até onde iria. Desistir não tem lhe parecido uma boa pedida. Porém, poucas coisas a interessam e divertem mais do que mudar a perspectiva. Por que 2014 não seria, então, mais uma alegria?

Aceito trocas

Precisava mudar de vida. Aceitava trocas. Agora não havia mais dúvida. Pois quando uma simples e despretensiosa caminhada pelo bairro que conhecia desde criança, cabelos ao vento, o nariz sorvendo o ar com prazer, lhe dava o maior prazer em semanas, é que as coisas não andavam bem. Queria viver outras vidas. Não queria estar nem ser. Queria não ter tempo para ouvir aquela canção que lhe fazia relembrar aqueles olhos verdes. Quem sabe uma outra cidade. Ou uma aventura bem longe de qualquer cidade. Talvez um trabalho perigoso num outro país. Não, não. Não precisava correr risco de vida para sentir-se viva. Isso era para os doentes da alma. E que não lhe ouvissem os sentimentos, pois o fato é que amava quem lhe amava – mas as circunstâncias não lhe apaixonavam. Os caminhos de sempre estavam vazios. Não lhe causavam mais arrepios. Já tinha tantos livros, tantas fotografias, tantos anéis e cartas. A vida, enfim, lhe pesava. Volta e meia se pegava pensando como seria a vida sem aquela cama antiga, sem a bolsa de estimação, sem aquele abajur de borboletas. Algo lhe dizia que, ainda assim, não seria outra pessoa. Porém, ela temia. Temia esquecer-se de si. Temia não amar tanto quem lhe ama. Temia que seu amor pela vida superasse qualquer outra paixão. Enfim, de novo sentia-se presa. Presa, amordaçada, encurralada. De novo o amor lhe cobrava. Cobrava que estivesse ali por outra pessoa. Cobrava que demonstrasse diariamente este amor. Cobrava a cumplicidade. Não que ela não amasse ou que não quisesse, já lhes disse. Ela só amava de outro jeito. Não amava com amarras, nem com presenças exigidas, nem, muito menos, com responsabilidades. Queria, mesmo, amar sem tirar os olhos e o sorriso do horizonte. Sentia-se atada às palavras, às idéias, às lembranças, a tudo que aprendera com a experiência e sentada nas carteiras. Atada aos laços de sangue. Atada à falta de perspectiva e opções. E aquela inocente caminhada com a chave da casa num bolso, a identidade no outro e os fones no ouvido fora sua queda. Precisava de outra vida. As ruas continuavam iguais, um prédio novo apenas, a segurança de que o tempo não havia passado por ali faria mais da metade da humanidade feliz – segurança, a meta de tantas pessoas. Pois ela recusou-se a atravessar a rua na faixa. Dobrou uma quadra antes, seguiu outro caminho até o mesmo destino. E assim percebeu. Precisava de outra vida. Quis enganar-se de que mudar um trajeto era o começo da grande mudança. Mentira. Mudar caminhos e chegar aos mesmos destinos é como trocar de roupa para ir a mesma festa. E ela só não sabia ao certo se havia outra festa para ir. Por enquanto, desejava apenas uma festa à fantasia.

“os carinhos do motor”

Entrou, sentou, bateu a porta. Bufou. Numa cápsula, enfim. Gestos coordenados, o cinto, os espelhos, o freio de mão, a ignição, o som. Chovia como há tempos não se via. Chovia. Já se inspirara alhures nas imagens da chuva sobre a cidade. Deu o pisca e foi. Noite. Noite vazia de cidade operária. O coração sorria com as canções do CD. Sorria. Chovia. E era gostar tanto assim de dirigir na chuva quanto off road. O paralelepípedo, que era cidade de ainda tê-los, molhado, desnivelado, esburacado e pintado pelas luzes. Seguiu ruas vazias seguiu rumo nenhum seguiu sorrisos e versos. Queria estar sozinha. Entrou em ruas que já de tanto conhecer-lhes os nomes, os havia esquecido. Sim, sim… agora entendia, Belchior, os carinhos do motor. Era ele e ela e um sem fim. Ela queria dizer que jamais esquecia do que quer que fosse. Jamais. Tinha cá o inferno particular que é lembrar. Ruas vazias. Chovia. Sentia-se tão parte dele e ele dela, sem dúvida. Se tivesse imaginação diria que ele a acariciava. E aquela – aquela – canção tocava. Aumentou o volume. Cantou junto. Queria viver presa na imagem da chuva sobre a cidade à noite. Até porque… ah! até porque… Queria estar ali e estava. O olhar rápido entre um espelho e outro, detalhando os reflexos no asfalto, nas gotas do pára-brisa. Um dia apaixonara-se pelos reflexos. Coisa de gente que olha o mundo pelas lentes. Era melhor não falar de paixão. Melhor, não. Amaria. Chovia. Pensava nos sentimentos. Ah, mas diz que o amor não precisa de Filosofia. Precisava – lhes digo que muito precisava – do amor e da Filosofia. Se perdia. Chovia. Parada no sinal ficou com aquele temível olhar fixo num ponto entre o nada e o tudo. Ah, mas o trem passa e poderia levá-la. E não são assim todas as histórias? Inventaria mais um personagem. Criaria um a la Tyrone Power. Pois tem isso, quando se cria um personagem deve-se dormir e acordar, tomar banho e beber vinho, com ele. Cansara dos seus personagens dolorosos. Queria Tyrone do Rawhide e não daquele mascarado famoso. Fazia bico de charme nos solavancos dos buracos das ruas abandonadas daquela cidade operária – e sentia-se um tanto operária e entendia suas dúvidas, anseios e irritações das últimas semanas – e a mão acariciava o volante lembrando da praia Brava e do Sertão do Ribeirão. Dê-lhe uma estrada de chão e a faça feliz. Já havia dito que um dia fugiria, mas certeza que avisaria. Iria. Chovia. Chegaria em casa, ouviria de novo a canção-hino da sua libertação – era a hora de tudo mudar – flutuaria e iria para a cama encontrar-se com Tyrone. Assim como no banho do dia anterior, a vida era melhor servida com boas doses de sonhos de olhos abertos. Pois esses sonhos de olhos fechados cheios de escadas a confundiam. Nos azares da vida preferia ter um Tom Owens ao seu lado na cama do que tê-la vazia. Vazia. Chovia. Ah, os carinhos do motor. Suave deslizava e até se sentia amada. Fugira. Voltaria. Chovia.

Historietas

Dez anos atrás. Não sei ao certo como eu e Elaine – aquela a quem eu chamo de Loira, pois ela era assim de corpo e alma quando a conheci – ficamos amigas. Santo bateu forte. Primeira fase do curso de Filosofia e éramos tão – mas tão – diferentes. Lembrei disso hoje.

Amiga pra toda a vida que viria a partir daqueles dias. Ela me emprestava o caderno dos dias que eu faltava, eu passava cola, vendia trabalhos, ela me convidava pra balada, eu nunca fui, eu chamava pro bar e pra praia, ela ia. Ela me contou a história mais triste – e, pô, é triste pacas – da vida dela. Com ela fiz a minha primeira trilha na Ilha. Com ela passei meu primeiro fim de semana na Ilha. E não havia porre que me derrubasse – bem descobriu o primo dela.

Antes disso tudo, um dia ela apareceu com um baralho cigano. Eu tive que ler as instruções, ela já sabia tirar as cartas. Aí ela tirou pra mim. Uma, duas, três, quatro… em todas as vezes – todinhas – saiu uma conjunção de cartas que provavam meu futuro: união forte (casamento no vocabulário chulo), amor, sentimento avassalador (o adjetivo é perdão de trocadilho, não resisti). Na primeira vez fiquei chocada (já lá, e antes, meu horror ao casamento era estável). Aí pedi uma segunda vez, e pedi a terceira, a quarta. O resultado não mudava.

Sou uma amiga que não se encontra por aí – pode perguntar pra Elaine e para uma dúzia de gente, até para aqueles que decidiram não ser mais meus amigos. Nos relacionamentos que existem entre as pessoas só sou realmente excepcional como amiga. O problema é que sou chata, é o único preço a pagar. E Elaine, com toda classe de uma loira e paciência de uma leonina para com uma pisciana, pagou.

Fomos para a biblioteca do CED e mais de hora passou enquanto ela tirava repetidas vezes as cartas daquele baralho tão querido. O resultado sempre o mesmo. Ela só pediu pra parar quando uma dor de cabeça fulminante a atacou.

Quase não vejo mais Elaine. Ela me abandonou. Mudou-se. Um dia uma prima dela queimou nosso tão estimado baralho e nunca poderei perdoá-la por isso.

Ela quase não usa internet. De vez em quando eu telefono pra ela quando tenho um babado forte ou quando é o ilustre aniversário dela, no nosso querido dia dos solteiros. Até fundamos um clube.

Sobre o resultado das cartas daquela época? Confirmou-se (por um tempo, é claro). Tempos depois as cartas me pregaram mais umas peças que também se realizaram. Diriam os capricornianos que fui influenciada. Talvez. E, ainda bem, pois sou um tanto indecisa e tapada de vez em quando.

Lembrei disso tudo porque encontrei um baralho igualzinho àquele nosso, porém virtual. Aí, quando a lua entra em alguma conjunção que me deixa à beira dos penhascos fazendo rimas ricas e pobres enquanto rio das minhas desgraças, recorro a ele.

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Era janeiro. Não sei, talvez início de fevereiro. Frisantes na geladeira, eu sozinha na casa de praia. Havia começado a ler Os Sofrimentos do Jovem Werther dias antes. Tinha uma dissertação para terminar mas saber dosar prazeres e deveres é um dom que eu possuo. A rede do Piauí na varanda. As gatas dormindo no sofá. Um pôr-do-sol lindão se anunciava. Fábio Jr na vitrola.

Tinha certeza que jamais leria Werther. Certeza. Ainda mais que Elaine, a personagem da historieta acima, nos seus dias de busca para as razões e obstáculos do amor havia devorado todos os livros sobre o tema, inclusive ele – e, lembrem, ela tinha aquela história triste. Eu não leria Werther, havia escapado dele na época de minha adolescência quando li muitos e muitos clássicos e, sério, ele suicidava-se no final. Só gosto de saber o final quando eu mesma, lá pelo meio do livro atolada na ansiedade, corro para as últimas páginas.

Eu não leria Werther. Poderia passar a vida sem lê-lo. Tipo, sei lá, Romeu e Julieta. Muito amor e morte no final pro meu gosto. E nunca superei o trauma – aterrador – d´O Sorriso do Lagarto. Nunquinha. Ubaldo que tenha pesadelos de vez em quando por ter escrito aquilo.

aí… ah, aí…

A vida, sabe? Essa graça que começa e termina todos os dias. E eu e essa mania de me desafiar, de gostar de mudanças, de gostar de me desdizer. Me desdigo e seja lá o que for. E às vezes é cada coisa…

Um punhado de coincidências e de atração infernal deram uma rebolada na minha vida. Eu vi. Eu dei um passo. Aí eu chamei desesperada por uma amiga, contei tudo o que (não) havia. Pensei, pensei, pensei… já nem sei direito se paguei pra ver ou se… bem, a vida, apesar de tão bela, tem lá suas regras.

Regras. E não era o momento de eu querer fazer coisas erradas de novo.

Narrei (quase) tudo aqui. Sobre o Werther: juro que não entendi. Me perguntei centenas de vezes se alguém em sã consciência passaria uma espécie de cantada falando dos sofrimentos do Werther. E aí, ah, aí… eu teria que ler para descobrir.

Feira de praia, lá estava o livro bem baratinho. Muito contrariada, comprei. A saudade, a distância, o calor, tudo me atormentava. Era claro que eu não havia entendido algo. Comprei-o. Ou minha burrice é tamanha que eu havia entendido de forma clara e dolorosa demais, só não queria aceitar tanto azar.

Azar no amor, azar no jogo, sorte na vida. Meu lema.

Comprei. Comecei a ler. E foi naquele final de tarde, naquela rede, naquela varanda, com aquela trilha musical e aquele frisante que eu li o Werther.

Como já disse num outro post aqui, eu e Werther temos muito em comum. Engasgava em muitos parágrafos. Foi difícil. Fui aceitando. Fui entendendo. Saí da rede porque os pernilongos haviam me devorado e eu nem tinha percebido. Garrafa vazia era uma nova que era aberta. Da rede pro sofá. Não via nada. Não pensava em nada. Só lia e sentia. Não lembro nem quantas garrafas foram – mas tenho certeza que foi meu recorde. Fábio jr ainda cantava e eu terminei de ler e fui com a última garrafa para debaixo do chuveiro. Sentada no chão do box falei sozinha por mais de hora.

Enrolada na toalha caí no sofá e apaguei. Acho até que chorei.

Finalmente, pela primeira vez na vida, havia tomado um porre homérico. O que ficaria em segundo lugar também fora histórico: não fiz a pior besteira que poderia ter feito (mas por muitas vezes me perguntei o que teria acontecido se eu tivesse apenas esticado o braço naquele determinado momento). O terceiroo foi divertido. Este foi devastador. Fiquei sem beber até semana passada. Já temia meus pensamentos e sentimentos. E eis que voltei ao vinho.

Não me perguntem se foram as cartas que tirei no baralho cigano virtual, ou se as malditas e doces coincidências ou, ainda… o Werther e nossos sofrimentos.

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