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Ontem cogitei seriamente em apagar o blog. Não sei se ele serve para alguma coisa, mas acima disso, pois que não sou pessoa de utilidades, não sei se ele ainda faz sentido pra mim.

 

Não tenho escrito o que quero. Isso me irrita muito.

 

Aí lendo Rubem Alves (a leitura dele vai a conta-gotas pois é deliciosa e me faz pensar em mil coisas, quanto mais delicioso o livro mais quero que ele demore para acabar – livros são como os relacionamentos, sempre terão fim) de madrugada encontrei esta: “Mas quando se inventem estórias não se está procurando a verdade, e sim a beleza.”.

 

Escrevi aqui, por esses dias, que queria histórias. E maldita Língua que fez cair o tão mais coerente “estórias”. Preciso de histórias e estórias. Dane-se a verdade. Procuro mesmo a beleza. Não a tenho encontrado em lugar algum, em nada nem em ninguém. Se não é pela beleza, não escreverei mais.

 

Ninguém sentirá falta. Minha vida (daquelas conclusões boas que a gente encontra pelo caminho) não faz diferença para ninguém.

 

“Escrevo, mas não tenho nem teoria nem método.” me disse o Rubem. Não tenho. Não quero ter. Não terei. Danem-se as teorias e os métodos. Só preciso de histórias e estórias. Porque o que eu busco é a beleza. Não há beleza nas teorias e métodos. Não há beleza na maioria das palavras desperdiçadas por aí. Guardarei a raiva para aguçar a memória, pois esta se faz de boba com qualquer palavra bem colocada.

 

Não vou engolir a revolta de não escrever o que quero. Não engulo minhas revoltas. E talvez este seja o mais intrigante do mundo virtual, assim que eu apagar o blog ele nunca terá existido. Tenho me sentido tentada a apagar rastros digitais da minha vida e tentar manter apenas os reais. Já foi uma vida, agora seria apenas uma experiência.

 

Enfim, preciso de histórias e estórias. Busco apenas a beleza.

 

 

A pedidos: a volta dos relacionamentos

 

Eu poderia dizer: não gosto (ou acredito) em relacionamentos. Seria reduzir demais a discussão. Para começar, quero separar as duas coisas: sentimentos e relacionamentos. Sentimentos vivem melhor sem os relacionamentos, e estes acabam com os primeiros. Sim, relacionamentos fazem mal aos sentimentos.

 

Por que falar novamente sobre relacionamentos? Porque me pediram, porque andei pensando sobre e porque tenho observado algumas coisas. Recentemente vi alguns (e não foram poucos) relacionamentos terminarem. E nem falo desses namoros de três meses. Vi casamentos de dez anos, relações estáveis (no papel) de cinco anos, namoros de dois, quatro anos, acabarem do nada. Claro, do nada nunca é. O que pude observar é que a iniciativa partiu dos homens e “sem explicação” – o que levou as mulheres a dizerem “ele tem outra”. Sabe, acho que nem seria o caso. Mas, enfim, numa situação dessas sempre queremos uma explicação ou um culpado. Que seja a outra.

Já terminei alguns relacionamentos. Sou péssima com relacionamentos. Quer dizer, reconheço que há coisas lindas e deliciosas nos relacionamentos – não sou estúpida – mas acredito que a convivência e a balança que existe em todos eles não são pra mim. Manter um relacionamento é muito difícil e, mesmo assim, tem um monte de gente por aí que consegue. Será?

Vi um casamento de dez anos chegar ao fim através de e-mail. Minha mãe ficou chocada. Eu já terminei um relacionamento por e-mail (vejam bem, já havia terminado presencialmente umas três vezes e o cara não entendia, só me restou o meio virtual). Pelo que me lembre, sempre fui eu a terminar os relacionamentos. Namoro mesmo, com toda pompa e circunstância e com direito a “relacionamento sério” no Facebook, só um. Ah, sim, nunca gostei de namoro. Me explico. Desde cedo via aqueles casaizinhos na escola e pensava (provavelmente dizia), se namorar é andar de mãos dadas, sentar no banco da praça e tomar sorvete no shopping, eu dispenso. E sempre dispensei mesmo. Não é pra mim.

Aí virão dizer que sou recalcada, que é pela proximidade do dia dos namorados e blábláblá. Não. Vejam só, já passei muitos “dias dos namorados” acompanhada e (tenho testemunhas!) na maioria esmagadora deles nem dei bola pra data. Se eu disser que só tive dia dos namorados duas vezes não estarei exagerando. Aliás, um deles foi publicado aqui no blog. O restaurante do qual eu falava naquele post nem existe mais. Nem o namoro da época.

Os relacionamentos têm esta capacidade de corroer, deteriorar, consumir o sentimento. Já ouvi de muitas casadas “ah, não é mais a mesma coisa, a gente se respeita (isso não cabe em todos os casos, vejam bem) e tal e coisa”. Nunca é a mesma coisa. É que tem os bens, os filhos, as carreiras, os salários (que juntos, todos sabem, rendem mais e possibilitam financiamentos e afins), as famílias. Já vi situações nas quais as pessoas não se separaram por conta do apartamento que foi comprado em conjunto, porque não se via voltar para a casa da mãe, essas coisas. Isso me apavora. Já não há o sentimento que havia, ambos estão infelizes e o que segura a relação é… o dinheiro ou coisa que o valha?

 

Não é pra mim. Já vivi sentimentos e histórias muito boas. Muito. Relacionamentos nunca tive algum que sequer me desse saudade. E provavelmente já estou velha para cair em conversa de homem. O convite para o café ou o cinema daquele que só quer, na verdade, sexo, pouco me interessa. Declino na hora – e muitas vezes nem educadamente. E os joguinhos? Sério, gente? (cá está minha cara de tédio) Homens e pirralhos a fazerem joguinhos de te deixar no vácuo, fazer cena para despertar ciúme, um dia todo querido, carinhoso e cheio de promessas, no outro se esquivando… alguém ainda cai nisso? Sério? Será que eles percebem o quanto são repetitivos? Eu gosto de boas conversas, nunca neguei isso. E como falava em outro post, não é porque eu converso com um cara (como com o tatuador ontem) que eu estou colocando uma placa “disponível para sexo”. Deus me livre fazer sexo com todas as pessoas com quem consigo ter uma boa conversa. Aliás, tem aqueles que não conseguem ter dois minutos de conversa (nem estou aferindo a qualidade da conversa) e nem para sexo servem.

 

Sempre tive mais amigos homens do que mulheres – questões de praticidade e falta de frescura. Contudo, já reparei num dado interessante. Quando não estou em algum tipo de relacionamento com o sexo oposto, os amigos homens somem. Pois é. Depois da primeira paixão, lá se vai muito tempo, por um amigo, criei a regra “amigos, amigos, homens à parte”. As amigas comentavam sobre a tal friendzone, aqueles amigos que num dado momento você já não sabe se é algo a mais, seja da tua parte ou da dele. Tenho uma amiga em especial que é doutora na área. E eu acho que pessoas que caem nessa armadilha são aquelas que têm a questão do relacionamento muito forte, gostam da convivência, se apegam às pessoas, gostam da rotina. Porque amizade tem muito disso – e de amizade eu entendo. Passei por uma situação, ano passado, que era isso – ao que tudo indica. Não me apaixonei pelo meu amigo, mas confesso que já não sabia se o mesmo não tinha se passado com ele. Resultado: perdi um amigo. E perder amigo eu não aceito. Já disse, se tem uma coisa que eu sei fazer bem é ser amiga – sou das melhores. Esses dias estava ao mesmo tempo conversando coisas interessantíssimas com três amigas – uma que já é amiga há uns quinze anos (desde os tempos do Fundamental), a outra há uns sete anos (do tempo da graduação) e outra que conheci superficialmente na graduação mas que virou amizade há uns dois ou três anos. E tenho amigas de várias idades. Nunca fiz distinções de nada. Por prezar tanto a amizade que não tolero que outras coisas a prejudiquem. Infelizmente nem todo mundo é assim.

 

O que eu vejo dos relacionamentos é que as pessoas incluem neles muitas coisas que deveriam ficar de fora. Eu sempre fui muito radical, por exemplo, no quesito “família”. Não precisa (nem faço questão) conhecer a minha, nem quero (aliás, tenho pavor) de conhecer a do outro. Só dá merda. Sempre digo que o homem ideal é órfão. Quanto menos coisas “burocráticas” fizerem juntos, melhor. Por isso não acredito na reprodução em cativeiro (me explico, casais que trabalham juntos, que se conhecem no trabalho, no mesmo curso, essas coisas). Acredito que tempo e distância, bem dosados, fazem um bem danado aos relacionamentos. Sabe a vontade de estar junto? É boa, mas ficar o tempo todo junto vai fazer ter vontade de não estar junto. São coisas que a gente vai aprendendo com a vida. Dinheiro: nunca (eu disse nunca? repito: nunca) deve ser envolvido numa relação – nunca. No meu caso fórmulas prontas e repetição também estão fora – sei que tem quem adore rotina e sempre os mesmos programas, eu acredito que repetição mata qualquer coisa. Sinceridade sempre é essencial. Sabe o que eu sempre ouvi? Que não eram sinceros comigo porque “já sabiam como eu iria reagir”. Gente, vocês não têm noção de como isso me deixava com raiva. Sabe como eu vou reagir? Então me deixe reagir! Não esconder o que não deve é um conselho que todo casal deveria ter em mente. No meu caso não é bom esconder nada, porque invariavelmente eu descubro. E aí, ah, aí eu reajo. Tenho péssimas reações acerca de algumas coisas, é fato. Mas aí eu pergunto, relacionamento não é saber aguentar e conhecer o outro? Minhas péssimas reações vão junto, não tem como “evitar”. E, aliás, essas péssimas reações hoje são bem poucas. Troquei-as pela indiferença. Nem perco meu tempo tendo “reação”, só viro as costas. As testemunhas não são poucas.

 

Esses dias conversava com uma amiga (que está numa situação crítica, daquelas que a gente faz a tempestade antes dela acontecer) e ela me incentivava a seguir adiante na situação com um rapaz. No dia seguinte comentei uma coisa com ela e o conselho era justamente o oposto “não faça isso, não fale!”. Indaguei sobre a contradição e ela só me respondeu “daqui a pouco você vai estar como eu”. Pensei, pensei, e segui o conselho. Não fiz, não falei. Sim, fiquei um pouco (bem pouco) mal com isso. Eu queria ter feito, queria ter falado. Pensando bem, duvido que eu ficasse como ela. Já disse, estou velha pra isso. A gente aprende. Mas, também, não quis correr o risco. Todo relacionamento acaba. Disso eu sei. O problema, nesses casos, é o sentimento. Desses nunca consegui escapar – mas tenho conseguido rebolar bem ultimamente, acho que ando mais desconfiada. No relacionamento é possível colocar regras, limites. No sentimento não. (ia colocar um palavrão aqui, melhor não) E tenho cá pra mim que sou daquelas que ama amar – não necessariamente amar este ou aquele. E aí, ah, aí a coisa complica um tanto mais.

 

Além da decepção com os amigos que somem quando estou sozinha (vão à m, queridos) como agora, me dei conta de algo que me decepcionou ainda mais. Conversava esses dias sobre o que é apaixonar-se. Me disseram que nos apaixonamos pela pessoa, pelo jeito dela, pelo que ela diz, faz. Pois é. Já se apaixonaram por mim por causa disso. E minha decepção foi constatar que em todos – todos – os casos em pouco tempo eles tentavam domar tudo isso. Sim, tentavam me domar, meu tom de voz, minha risada, minhas loucuras, meu descontrole, e tantas outras coisas que nem vou listar aqui. O motivo? Não sei. Não é fácil conviver comigo, eu sei. Então, fica a sugestão, ao invés de querer domar, se mande. Faça como eu, ao ver que tentavam me domar, ou que o relacionamento desandaria, ponha um fim. Não há sentimento que me segure num relacionamento que já não existe mais. E sentimento é daquelas coisas que precisam ser regadas e alimentadas todo dia, se você terminar o relacionamento e seguir adiante ainda com algum sentimento, ele não vai sobreviver muito tempo – só se você se der ao trabalho de alimentá-lo, o que eu não recomendaria. Não se torne um mal-amado, recalcado, chato.

 

Iludir-se é bom, até recomendo, mas jamais sobre os outros. Não me contento com pouco. Talvez eu sempre queira demais. Eu ainda acredito que até num relacionamento isso é bom. Assim sinto que as coisas se movem, que têm um objetivo. Já vi muita vida desperdiçada porque parou no apartamento financiado juntos, empregos estáveis, segurança e “respeito”. Tem quem é feliz com isso, longe de mim querer crer que todos almejam o “movimento”. Nunca acreditei lá no poeta de que é impossível ser feliz sozinho. Vejo muita gente desesperada por “ter alguém”, um relacionamento. Acho que essas pessoas acreditam no poeta, ou querem desesperadamente acreditar. Ainda sou mais daquele clichê que se a pessoa não consegue ser feliz consigo mesma, jamais o será com um “outro”. Eu nunca consegui me divertir tanto com alguém do que me divirto sozinha. O problema é que as pessoas não querem “ser feliz” com o outro, elas querem prazer, elas querem segurança (ou o velho golpe mesmo), elas querem crescer profissional e financeiramente, elas querem alguém pra tirar o lixo, para ter companhia pro cinema, pra ir no Madero no dia dos namorados, ou alguém que lhes mande flores.

 

Eu? Eu não guardo datas. Eu nunca sei quando começou ou terminou um relacionamento (tem gente que me pergunta essas coisas). Eu não dou bola pro dia dos namorados. Nunca recebi um buquê de flores (nem da família) – como me disse uma vez uma aluna, ao receber um em sala, “flor a gente leva para os mortos”. Levo muito em conta a felicidade e já descobri que pra isso não importa nada ali da última frase do parágrafo anterior. Vi pessoas descobrirem que você não pode depositar nos outros a sua felicidade – grande lição, aliás.

 

Ah, só para encerrar (penso demais, escrevo demais, falo demais – pouco nunca foi meu forte), falar sobre as coisas ajuda pra caramba. Falar sobre relacionamentos, principalmente com quem você está, resolve muita coisa. Eu falo de tudo – menos de sentimentos. Sentimento tem que ser sentido, percebido, descoberto. E nessa história não há erros ou acertos.

 

 

Uma nuvem, cordas e uma pulga

 

Era uma nuvem. Parecia uma nuvem. Pairava sobre mim, até onde a vista alcançava. Cordas, havia cordas por todos os lados, me prendiam, me amarravam e me impediam qualquer movimento. Eu via uma pulga na minha mão – pulava, mordia, pulava – e nada podia fazer. Coçava e eu a observava. Imóvel. As cordas ninguém as veria. E eu não me mexia. Queria ser atriz, para viver tantas histórias. Viver amores, dores, idas e vindas. Minha alma aflita não se cansava de perturbar meus pensamentos. Eu procurava incessantemente um botão com o qual pudesse desligá-los – não o encontro. Não dormia, meus pensamentos não deixavam. Ser atriz seria um jeito de me desatar daquelas cordas invisíveis. Ou, talvez, eu devesse apenas deixar de ler e assistir a filmes. Já não cabem mais em mim tantas histórias. Preciso de histórias. Já não cabe mais em mim ter consciência da infinidade de belezas do mundo – todas as que eu não vi, as que nunca verei e as que já testemunhei. Minha cabeça não explode porque são idéias, pensamentos, mas se tudo fosse físico nem metade disso caberia nela e ela já teria ido pelos ares. Talvez, então, abrir mão dos livros e filmes. Mas, também, talvez abrir mão da visão. Ver tudo sempre o tempo todo me exauri. Eu vejo, não vejo mortos como fantasmas, mas até eles povoam meus olhares construídos de lembranças. Olho para quase tudo e, imagine se olhasse para tudo, já teria ficado cega. A falta da visão, talvez, consiga me deixar ordenar melhor a cabeça e mente aflitas. E os sons? E as falas? E o olfato? E o tato – ah! o tato! -? Preciso de histórias. Escrevo tanto e, para mim, não digo nada. Essas cordas e ali ao lado um copo de água – nem sede eu tenho – que eu cobiço mas desprezo. Não é o corpo que eu desejo alimentar e regar. Quer dizer, será que não? O corpo tem outras fomes. Ele, provavelmente, sente mais do que a tal alma e a desconfiável cabeça. A visão, a audição, o olfato, o tato – ah! – não são só meio para chegar ao intangível da alma. Pensei em me cercear de tudo – já que o mundo me cerceia de tantos e tantas coisas. Ir me podando aqui, ali. Podaria, também, os problemas. Insistiria em podar meus pensamentos por um pouco de sono. Sono? Eu disse sono? Pra que me serviria o sono? Ah, sim, pelos sonhos – aqueles que sonhamos dormindo – que são a plena realização do corpo e da alma. Neles ainda sou feliz. Neles não há nuvem nem cordas. Neles até quem eu quero me visita. Neles as paisagens se propagam. E meus olhos se abrem. Tudo continua ali: pulga, cordas, nuvem. Ah, há luz também. Se ao menos houvesse sol eu lembraria daquele amor que um dia me disse que onde não há sol não há vida – ou, mesmo não tendo, eu lembro dele. Aqui não há sol. Diria um Lógico “Se não há sol, então não há…”. (completem pois me dói demais colocar cada letra de um pensamento tão grande) E, talvez, seja esse sentimento de que há vida demais (para ser vivida) e eu, nem sendo atriz, conseguirei viver o mínimo que desejo. Nem penso no mínimo, nem o mediano – não gosto dessas quantidades e do que elas implicam – o máximo me parece bom, mas bom é pouco. Sempre gostei de transbordar. Não sou muito ecológica e tampo o ralo para ver a água da torneira enchendo a pia até começar aquele fio de água a transbordar e se transformar numa mini cachoeira – espetáculo visual e reflexivo. Gosto do verbo, da ação: transbordar. Assim as coisas não cabem em coisas, assim desafiamos espaços. Talvez se eu olhasse mais para a pulga, tomasse consciência da coceira, planejasse um ataque seguido de execução. (para quem não entendeu, esta seria a realidade) Mas, não, para falar a verdade nem tinha me dado conta da coceira. Olho para a pulga e, pelo tamanho, fico imaginando se é um fêmea, se tem filhos, se é adolescente se esbaldando na gula. Preciso de histórias. Talvez, enfim, se fosse uma injeção (vide meu pavor a elas) a realidade me vencesse. Mas, não. Minha cabeça acionaria o botão de emergência (sem eu não precisar de um segundo de raciocínio – ele é evoluído) e eu desmaiaria, desligaria todo o meu sistema nervoso, ficaria inconsciente. Às vezes ele faz isso, toma uma medida drástica contra a realidade. Preciso de histórias. Sim, de histórias na realidade – mas, vejam bem, estou descartando alguns roteiros desinteressantes, tenho apreço pelas fortes emoções, para a adrenalina, para a beleza; digo mais, dispenso também as histórias repetitivas, as sem sal nem açúcar e congêneres. A nuvem. As cordas (invisíveis). A pulga. Pulga? Nem lembrava dela. Talvez atriz. Talvez um plano (hein?) de fuga. Talvez um salvador todo de preto, empunhando uma adaga com cabo madrepérola, montado numa moto cor vinho. Talvez o sono. Talvez os livros. Talvez, enfim, uma luta feroz, árdua, dolorosa e longa de roer as cordas com os dentes e as unhas. Se ao menos houvesse sol. Só entro numa luta se eu sei que haverá uma boa recompensa. E não falo de bens – pouco me importam os bens, o material, não quero ter nada, nem hoje nem nunca. Enquanto cogito uma recompensa, há a nuvem e as cordas (invisíveis). Porque a pulga, até ela, debandou e foi lá ver seu filho, ou, quem sabe, procurar outro sangue.

 

As pimentas do Rubem

 

Não era para eu estar escrevendo neste exato momento, mas não resisto.

 

Nem vim contar que ontem vi mais uma estrela cadente, não foi em Guaíra, foi no Campeche mesmo, e bela como da outra vez – o pedido também foi o mesmo da outra vez.

 

Mas é que passei uma parte do fim de semana com o Rubem Alves (sim, já citei-o aqui sobre as Gerais) e desde que li um texto dele há uma idéia fixa martelando meus pensamentos. Já escrevi uma vez sobre o ato e os motivos de escrever para o blog, de vez em quando falo disso.

 

Estou num momento de descrer um pouco das palavras como comunicáveis para os sentimentos, por exemplo. Tanto que me peguei pensando que não escrevi sobre Teresina e escrevi sobre Belo Horizonte. O que eu sinto é real demais, está sempre tão na superfície, à flor da pele. Porém, quem me vê acha que tenho sangue de barata. É só para iniciados. E as palavras?

 

Decidi que não quero nunca mais ouvir um “te amo” (ou “eu te amo”, ou “amo-te”, qualquer variação). Decidi isso, assim, baseada na incomunicabilidade das palavras e na crença de que sentimentos e tantas outras coisas devem ser expressos e sentidos – jamais ditos. Demonstre. Aja. Isso me basta. Tenho me furtado às palavras dessas veredas… mas não perco uma boa conversa. Isso me lembra outro post dessas últimas semanas – talvez o mais incompreendido do blog até hoje. Tenho simplesmente afastado as palavras das coisas, das pessoas, dos sentimentos. Acredito que não das idéias.

 

Assisti a um dos melhores filmes que já vi no cinema, filme feito para a sala escura, para a telona. Era sobre sentimentos. Havia poucas palavras, uma dose exata e deliciosa de música, uma direção de babar, uma incomunicabilidade dolorosa, sons bem percebidos (como o tique-taque do relógio numa sala onde duas pessoas não falam – aqui, agora, é o que ouço, somente o relógio me agitando). E a cena que mais disse tudo neste filme foi a da protagonista lambendo o ombro do seu amante. Ela nunca conseguiria explicar isso para o marido.

 

Enfim, “O que escrevo não é o que tenho; é o que me falta.”, diz ali o Rubem. Pensei mil coisas para conseguir justificar com esta frase – inclusive a falta que eu tenho com trazer coisas do meu cotidiano para o blog e tantas outras questões. Rubem respondia à questão (que nunca lhe foi feita) se ele é mesmo como escreve e tascava “Escrevo o que não sou”. Sim, sim… e aqueles que dizem que, ao escrever, não conseguimos fugir de nós mesmos? Não sei. Sobre o poeta escrever para invocar a coisa ausente faz ainda mais sentido… Pensando cá com meus botões cheguei à idéia que escrevo pelo que me falta, sem jamais chegar a citá-lo. Eis a incomunicabilidade das palavras. Escrevo o que me falta, talvez não consiga ser tão fiel ao que não sou, mas decididamente não escrevo tudo – muito menos o que sinto. E eu? Sou mesmo como escrevo?

 

Esses devaneios acabaram sendo dirigidos para todos os tipos de escrita do momento – livro, blog, dissertação, e-mails, chats, diário (oh, yes! retomei-o!) – e geraram um momento de auto-reflexão monumental. Me deu até vontade de mandar um e-mail para o Rubem agradecendo às pimentas (vejam só, ele é mineiro e ao falar em pimentas não esqueço as maravilhosas lá do Mercado Central), como ele mesmo diz no começo do livro “Pois há idéias que se assemelham às pimentas: elas podem começar incêndios nos pensamentos.”. E lembrem-se de nunca tomar água para apagar o incêndio de uma pimenta. Se para começar um incêndio não é preciso fogo, foi feito o estrago.

 

 

As Gerais

Eu queria escrever sobre as Gerais. Foi minha segunda ida até lá. Contudo, havia três problemas. O primeiro foi que eu não “voltei” de lá – me explico: cheguei em casa, na volta, sem a sensação de ter voltado, nem sei se isso é possível explicar porque é algo que eu senti, e um indício é a falta do mau humor que me acomete sempre que eu “volto”; o segundo era a insatisfação por ter visto tão pouco e por ter ficado pouco tempo, voltei como o sentimento de falta; o terceiro, muito mais interessante, é que meus sentimentos pelas Gerais tornou-se complexo.

Aqui não é um blog de viagens (acho que a Jules faz muito melhor lá no dela) e entendi, ao começar a escrever, que as Gerais para mim é uma questão de sentimento. Os motivos dela ter entrado na minha vida e das nossas relações tratam de sentimentos e estes, para mim, ainda são incomunicáveis. Não, eu não sei comunicar sentimentos. Felizes vocês que conseguem. Por isso tentei pensar nas observações, nos pensamentos, trato muito melhor desses.

Eu estava lá e amava e não sabia o que pensar sobre certas coisas e… mil sentimentos confusos. Foi assim. A viagem em si foi daquelas obras do Destino que fundam minha vida e sem as quais eu não saberia viver. Se 2012 foi do ineditismo, 2013 é o planejamento sem chão, o intuitivo, a fé no Destino – aquele velhinho safado. E eu só faço o que ele manda. Em algum lugar perdi medo, perdi vergonha na cara, perdi preocupações materiais.

Vou tentar elencar algumas impressões do pouco que vi das Gerais. E do tanto que não vi e achei que veria.

1. Belo Horizonte está alguns (poucos) graus abaixo do Rio de Janeiro no quesito caos. Os motoristas são muito loucos. A quantidade de ônibus pela cidade e principalmente no centro é absurda. Fiquei de cara que não há terminal de ônibus (pelo menos eu não achei nenhum e um motorista de táxi disse que realmente não há mas que vão construir – Copa feelings). A cidade é suja (e em alguns lugares o cheiro é nauseante) e ninguém parece se importar com isso. Dizem que é mania desse povo do Sul a coisa da limpeza – pois então que seja. É fácil e nem tão caro pegar táxi.

2. O povo belorizontino é barulhento.

3. O Mercado Central é fantástico. Pra quem virou cultivadora de pimentas aquilo lá é um sonho. De vez em quando dá aquela vontade de ir lá comprar umas. Ou um queijo da Canastra. Ou um pingo. Ou mais uma bolsa em couro, artesanal, daquela loja linda. Foi lá que comprei a bolsa mais linda da minha vida.

4. Não vi direito o pôr-do-sol. Ah, pois é. Essa parte foi bem difícil. O sol se põe cedo por lá. Um dia cheguei a vê-lo melhor na estrada, mas em BH (eu detesto abreviações e tal, mas voltei de lá soltando um ou outro “BH”) foi impossível.

5. Não se engane, chegar ao mirante das Manguabeiras não é tão “fácil”. Lá de cima a vista é realmente linda.

6. Aliás, conseguir informações com os belorizontinos é uma missão. Não sei se não estão acostumados com pessoas de fora (talvez não seja cidade turística, mas imagino que deva ter um bom fluxo de viajantes), mas há uma desconfiança, umas meias palavras e só.

7. Obras para todos os lados. Aquele ar “cidade planejada” passando por cima de tudo. Viadutos, trincheiras, obras faraônicas. Enquanto isso a rodoviária caindo aos pedaços e abandonada bem no centro da cidade – dizem que vão construir uma em outro lugar, mas só daqui uns dois anos. Copa feelings para todos os lados. Fiquei abismada que deixarão a rodoviária do jeito que está para a Copa. Nem uma limpeza e reforma?! Até a de Curitiba que estava bem melhor está sendo totalmente reformada. Ah, sim, vão usar aeroportos, mas para acesso às cidades históricas e toda parte mais “turística” de Minas o principal acesso é pela rodoviária. Confesso que não entendi. Aliás, a rodoviária dá aquela sensação de alerta. Aliás, eu que nem sou paranóica com segurança tive que ligar o sinal de alerta por BH. Sério. E com motivos.

8. Os entrecruzamentos das ruas planejadas é intrigante e, assim, apaixonante. Para que quadras quadradas, não é mesmo?

9. Mineiros. Não são lentos, não se enganem, meninas. São bem diretos até. Mas parece que leva tempo até você “conquistar” um – em outro sentido. Li tanto sobre a “hospitalidade mineira” e essas coisas, mas demorei para encontrá-la. Mas eu gosto de mineiros, não duvidem.

10. Museu das Minas e dos Metais. Apaixonante. Incrível. Não adianta eu tentar explicar. Você vai achando que é um museu como outro qualquer, mas ele é muito além. Sei que sou fanática por pedras e tal, mas não foi só por isso que me apaixonei. Ele tem aquela coisa que você vê bastante por lá: um avanço, uma modernidade gritante ao lado da preservação orgulhosa de uma bela História, de valorização mesmo do que eles têm pra contar. E isso foi o que mais me apaixonou pelas Gerais.

11. É assim: o novo e o velho, lindos, muito bem pensados, lado a lado. Isso muito me agrada. Um exemplo é a Academia Mineira de Letras, os dois prédios simbolizando isso.

12. Uma das primeiras coisas que vi: viadutos e estradas com nomes de escritores. Sorri instantaneamente. Nunca se perguntaram por que tantos nomes de políticos e empresários nas nossas ruas e vias? Então, eu já. Minas tem um elenco invejável de artistas e escritores. Quando vi o viaduto Murilo Rubião um pedaço da minha vida me veio à mente. Coisa que só vi lá, infelizmente. Copiem. (sim, tirei uma foto agarrando o Carlos e outra fazendo sanduíche de gente com ele e o Nava)

13. Sei que tem essa coisa dos mineiros pelo Rio de Janeiro. Consegui explicar pelo nível de caos que as aproximam. Aí reparem que BH é provavelmente a cidade brasileira mais bem localizada. Em uma hora de avião você chega a São Paulo, Rio, Brasília, Vitória. Ou em umas duas horas a Curitiba, Fpolis e outras. De BH em uma média de 500km você chega aos maiores centros urbanos do país. Para alguém assim viajante me encantei com isso. Tanto que quase segui para Vitória.

14. Sim, comi pão de queijo e queijo da canastra todo dia no café-da-manhã. Não caí de amores pelo prato típico contemporâneo que consiste em uma chapa com carne, linguiças, palmito, batata e variações. Mas foi o que mais comi lá. No Mercado Central há um bom restaurante de comida mineira (difícil de achar! me disseram que para o interior é mais fácil) gourmet. Pastéis pelo centro: 10 por R$7,90. Diz que não dá pra amar?

15. Inhotim. (um motorista MUITO louco, o Cardoso, nos levou – os ônibus saem da rodoviária todo dia pela manhã e voltam à tarde, bem pensado e organizado, mas o motorista me fez soltar palavrões durante a viagem e encolher, em alguns momentos, até o dedo do pé – e olha que sou bem acostumada com motoristas loucos) O comentário mental que me ocorreu em Inhotim: não parece Brasil. Ah, pois é. Quando vemos algo sensacional no Brasil logo corremos dizer que não parece daqui ou que parece algo dos EUA ou Europa. Complexo, né? Tudo tão limpo, organizado, genial que infelizmente foi o que me ocorreu. Eu queria um Inhotim em várias partes do Brasil. Preciso dizer que chorei ao entrar na galeria do Cildo? E que me emocionei deveras com a exposição da homenagem ao Lumière que esteve em Paris faz pouco tempo (já havia lido sobre ela e ao vê-la fiquei estarrecida). E as obras do Oiticica? A galeria dele me fez quase desistir de entrar e depois escrevi mentalmente uma associação com a vida. Fantástico. Tudo lá é tão pensado que os carros são elétricos (há carros disponíveis para idosos e pessoas que necessitam, fora essas condições é preciso pagar). E a das velas? E o modelo das casas dos franceses na África? Não, não citarei mil nomes de obras e artistas. Vão lá ver. Em alguns momentos infelizmente eu ouvi e vi atitudes de pessoas que parecem que não deveriam ir a um lugar desses, sério. E o tamboril?! Eu quero um pedido de casamento aos pés do tamboril, já me decidi. Assim: vão a Inhotim. Só isso.

16. Inhotim está cravado na cidade de Brumadinho. É uma sensação meio irreal mesmo porque há uma discrepância muito grande entre os lugares. Em BH a cissão entre “ricos” e “pobres” é gritante. A gente vê isso em qualquer cidade, é claro, principalmente em capitais, mas em BH parece que há um abismo ainda maior. Incomoda – no bom sentido.

17. Sabará. Amor. Amor. Amor. De tão lindo e de tão precário o cuidado e a preservação. Dentro da Igreja do Carmo me deu aquele nó na garganta. Era por ver o barroco (aquele dos meus livros de arte, História) ali materializado na minha frente e por perceber a dificuldade que há em mantê-lo. Pensei que um dia poderão não existir mais. E as pessoas que trabalham lá falam com amor das coisas. Os mineiros lá eram mais acessíveis. Subi o morro até a Igreja de Nossa Senhora do Ó. Fiz um pedido/promessa. Ou seja, em uns dois anos terei que voltar. Ela impressiona muito pelo tamanho, pela história e pela arte dentro. É fantástica. Todas são. E a casa do Aleijadinho? E as histórias sobre o túnel que levava da casa dele direto para dentro da igreja? Emocionante. (essa história, acerca da repulsão da sociedade da época pela deficiência do Aleijadinho me fez lembrar de uma história semelhante de um pai com seu filho lá das Sete Cidades, no Piauí) E a bancada de trabalho dele? E a Sant´Ana Mestra da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e do Museu do Ouro? A primeira pequena e com a virgem no colo, a outra imponente e com ela ajoelhada. Fiquei inebriada. E as histórias do Museu do Ouro e da Igreja do Rosário dos Pretos? Esta com sua construção pequena original e a “em construção” que foi abandonada por conta do fim da escravidão? Tantos lugares e fatos que me deixaram pensando em mil coisas – talvez por isso a dificuldade em “voltar”. Sabará entrou pra minha vida.

18. Pampulha. Se um dia foi, já não é mais tudo aquilo, né? Não sei, não me impressionou. Também nunca fui assim fã do Niemeyer. Igreja da Pampulha, de São Francisco de Assis: sensação estranhíssima entrar numa igreja projetada por um comunista ateu. Sorry, a coisa não fluiu. As pinturas do Portinari, por outro lado, são maravilhosas.

19. Sobre preços de entradas e fotografias: em Sabará tudo é um ou dois reais a entrada. Achei um absurdo. Eles precisam de dinheiro para manter as restaurações (de algumas igrejas lá se vão dez anos!), a manutenção. Postais também um real, tudo muito barato. Mesmo podendo claro que não paguei meia e comprei até postais. Na da Pampulha a mesma coisa (e também está precisando de reforma, há infiltração e tal). Eu não acho que pagar cinco reais seja um absurdo e as ajudaria bastante. Lugares como fortes e museus que têm financiamento cobram mais que isso por aí. Nas igrejas de Sabará só a dos Pretos permitia entrar com câmera (sem flash, é óbvio, quem entende sabe o motivo), a da Pampulha também não. O problema é que pode entrar com câmera, desde que não use flash, mas pela falta de respeito – RESPEITO – das pessoas eles resolveram barrar de vez. Acontecia que as pessoas entravam com suas câmeras e usavam o flash. Como eles não têm quantidade suficiente de pessoas para controlar os visitantes (ao contrário de Inhotim) resolveram proibir de vez. Isso me revolta. Claro que o babaca que não sabe usar uma câmera entra lá e liga o flash porque acha que está “muito escuro”. Na da Pampulha eu achei mais curioso porque dizia que havia “direitos autorais”. Eles disseram que há mas que o filho do Portinari não recebe. Fiquei matutando sobre direitos autorais e “reprodução”, porque afinal fotografar a pintura do Portinari não seria copiá-la, mas reproduzí-la. Achei que isso já tinha sido resolvido lá com o Benjamin, mas parece que não. Inhotim tem ingressos “caros” cerca de R$20 a R$28, mas às terças é gratuito. Sinceramente, pelo que oferece e por ser um programa de dia inteiro, não achei caro. O Museu das Minas também é algo barato, nem lembro de dois reais, mas fui na quinta-feira e era de graça. Como não amar?

20. Cuidado ao atravessar as ruas. Sério, há algo muito errado, inclusive com os sinaleiros para carros e pedestres, por lá. Ou todos estão desregulados ou eu não entendi a lógica deles.

21. Bares. Pois é, é a capital. Muitos, muitos. Mesas e mesas só com cervejas. Eu via e me perguntava: não comem? Futebol: são frenéticos por isso. Acho que a Copa lá será mais emocionante do que em qualquer lugar do país.

22. Sou uma amante dos horizontes. Ontem lia Rubem Alves (ah, esses mineiros…) e ele falava do amor dele por Fpolis citando que Minas tem mar, é só preciso saber encontrá-lo, no céu, ele diria. Pois eu digo que no céu, nos chapadões, no horizonte, nas linhas. Minas tem muitos mares. Por isso também senti falta de ir mais para o interior, ver os planaltos, ver as chapadas, ver mais serras e horizontes. Voltarei, é fato.

23. Um choque: é preciso pagar por tudo. Até pelo banheiro do shopping. Um contraponto com o item dos preços das entradas.

Vi e pensei muito mais, é claro. Nunca o bastante. Senti tantas coisas e sentimentos me levaram até lá… esses ficarão por aqui.

As Gerais fundaram em mim a sensação do complexo. Estou aprendendo a lidar com isso, mas sei que levarei algum tempo ainda. Pela segunda vez na vida ela remexeu as coisas por aqui. Desconfio que não foi a última.

Porque fugir sempre faz sentido e as cenas da vida

Dia desses ia voltar caminhando para a casa, à noite, sentindo todos os músculos do corpo – literalmente – quando decidi não voltar para casa. Outono na Ilha, vento Sul entrando forte e poderoso. Fazia frio, diriam uns. O vento é das dez coisas que mais mexem comigo. Às vezes eu tenho isso, vontade de fugir, de não voltar pra casa. E eu fujo de casa, às vezes conscientemente, às vezes não. Posso avisar ou não. Sim, já fugi ou saí sem rumo de casa muitas vezes, desde criança. Eu simplesmente saio de casa. Mas fugir e avisar não tem muita coerência, né? É que em respeito a minha mãe eu de vez em quando aviso “não te preocupa, vou dar uma sumida”. Ela já me conhece, sabe como é. Até aqui no blog já avisei que ia sumir. Às vezes deixo anotado num mural de casa que sai sem rumo, caso eu desapareça por muito tempo ou me aconteça alguma coisa, saberão o que foi. Uma amiga ainda esses dias me mandou uma daquelas imagens que circulam pelo Facebook que falava sobre isso. Aí encontrei essa e achei a minha cara. Tem até uma palavra pra me definir. (sim, também há essa obsessão por viajar)

 

tão eu, né?
tão eu, né?

 

E eis que naquela noite eu não queria voltar pra casa. Fui caminhando, passei a rua de casa e continuei… eu gosto do vento frio, ele faz com que eu me sinta viva, ele me revigora. Fui caminhando e pensando. No que eu pensava? Na vida. Tenho essa mania. Pensei em pessoas, pensei em atitudes, pensei em desânimos. Numa semana que o que mais me indignava era que eu não poderia falar com quem eu precisava. Sim, eu precisava de uma tarde conversando com ela naquele quarto de costura… e isso nunca mais vai acontecer. Nunca mais. Talvez, um dia, quando eu morrer, eu me encontre novamente com ela. Mas aqui, em vida, eu nunca poderei voltar àquele quarto. E tudo o que eu precisava era conversar com ela. Precisava ouví-la, precisava contar tudo o que me passa pela cabeça, precisava dizer como anda minha vida e ouvir o que ela acha dos meus sonhos para um futuro próximo. Enfim, eu não teria nada disso. Se eu não tenho isso, que é tudo o que eu preciso, então também não quero nada. Nem voltar pra casa. Fui caminhando e pensando. Quando as grandes coisas da vida não me interessam eu me volto para aquelas pequenas coisas que me rodeiam. E aí pensei em três cenas que eu havia presenciado naqueles dias na Ilha.

 

Cena 1

Me arrastando pelo centro, quase fui atropelada ao atravessar na Praça XV. Eu quase ser atropelada é normal por conta da atenção precária, mas dessa vez foi especial pela febre e intensas dores no corpo. Queria e precisava resolver umas coisas e comprar remédio. Tive que sair de casa. Me arrastava, como eu disse, pelo centro quando passei pela banca que vende maçã do amor e cocada. Eu amo cocada. Parei, perguntei quanto (pois é, a mão-de-vaca aqui já aceitou que três reais é um preço normal por uma cocada), escolhi uma (branca pura, please), a senhora foi pegar a sacola, eu fiquei catando o dinheiro na bolsa. Quando peguei a sacola ela disse “Obrigada, bom fim de semana pra você.” Ao que eu respondi na lata “Obrigada. Igualmente.”. Peguei essa mania faz algum tempo: sempre que a pessoa me diz alguma coisa eu respondo “igualmente”. Já surpreendi muito atendente de call center com isso, eles cumprem o protocolo com um “boa tarde” e eu respondo “igualmente”, eles chegam a gaguejar e de vez em quando até respondem um “obrigado”. Assumi pra vida, me desejou, desejo de volta – até porque se a pessoa está desejando algo de ruim internamente, vai ficar preocupada. Aí a senhora me disse “Obrigada. Quer dizer, bom fim de semana pra gente, né? (um sorriso) Nós merecemos.”. Eu sorri de volta e fui me arrastando em direção ao terminal. Ficou ribombando na minha cabeça “nós merecemos”. Eu não a conheço, ela não me conhece. E é tão fácil nos desejarmos um bom fim de semana porque merecemos.

 

Cena 2

Lá estava eu indo para um compromisso. Rio Tavares – Lagoa, entre dois lugares bastante habitados e movimentados da Ilha. Sentada no ônibus olhando pela janela, mp3 ninando. Três cavalos livres num tereno enorme (uma espécie de sítio) saem em disparada. Lindos, um todo marrom, um branco com manchas pretas e um branco com as patas mais escuras. Galoparam, galoparam, galoparam. Um luxo ainda com o ônibus em movimento como se fosse um travelling deles. Eu me senti extasiada. Um espetáculo. Ali, num dia de semana qualquer, na Ilha que tem essas belezas sem fim – para quem sabe apreciá-las. Não pareciam ter destino, não parecia haver motivo para a disparada, livres. Andar a cavalo é uma experiência indescritível e desperta os ânimos dos amantes da liberdade. A cena, tão linda quanto significativa, me voltaria à mente durante as longas horas burocráticas seguintes daquela tarde. Decidi até tatuar a palavra “liberdade”, em árabe, na mão esquerda.

 

Cena 3

Eu num ônibus novamente. Senta ao meu lado uma adolescente, snikker, calça skinny, moletom, mochila, cabelão. Digitava sem cessar no celular. Parênteses: tenho agonia com pessoas e seus celulares em lugares públicos. Faço cara feia pra quem fica falando alto no celular e não resisto – nem tento – a olhar o que as pessoas digitam nas suas mensagens. Sim, eu faço isso. Já vi muitas conversas por mensagens por aí. A maioria nessa coisa de casaisinhos bobos. Mas quando olhei a dessa menina franzi o cenho. Hein? Era assim “Talvez ele ficou chateado porque você não ajoelhou. Porque quando foi pro xangô Kamikarê a gente ajoelhou. Será que ele queria que a gente ajoelhasse?” (adendo: o nome do xangô ali não é o certo, na hora não entendi direito e não ia lembrar agora o certo) Confesso que quando li o primeiro “ajoelhou” pensei que ia rolar putaria na mensagem – já vi dessas também. Aí eu olhei de novo a menina, olhei a mensagem. Achei incompreensível. Ela estava mais pra uma adolescente fã de alguma banda de rock-pop. Que xangô era aquele? O que aquela menina andava fazendo? Sim, fiquei ali vendo a discussão sobre se deveriam ter se ajoelhado ou não e estupefata. Infelizmente tive que descer em pouco tempo.

 

Não foi uma semana fácil. Como as semanas começam aos domingos posso prever que esta próxima também não será. Ainda estou revoltada (com a morte, vejam só) de não poder ter aquela conversa. E, bem, a morte me faz não esquecer de certas coisas e datas. Imersa numa solidão imensa dispenso tudo e todos. Ao contrário do que as pessoas podem pensar, eu aprecio este estado. Aí ontem fui para o meu lugar favorito da Ilha, precisava ir lá para pensar, ver o mar, ficar só comigo. Fugi de casa. Como era sábado surgiram aqueles trilheiros de fim de semana e de loja de trekking. Ignorei-os tranquilamente. Quando vou lá lembro que já levei várias pessoas para conhecer o lugar, e que se eu levo alguém lá é porque essa pessoa é realmente muito importante para mim. Não sou dessas que vulgarizam atitudes. Aí fiquei pensando e me dei conta que todas as pessoas que lá levei não estão mais na minha vida, saíram pela porta dos fundos, não souberam honrar o valor que, um dia, eu dei a elas. A única pessoa que ainda está na minha vida e com quem lá estive foi quem me apresentou ao lugar. Eu? Eu continuo indo lá. Gosto de poder ir lá quando preciso ou quero. Já fui inúmeras vezes sozinha. Eu? Eu nunca faltei comigo mesma. Por essas e outras que a solidão é um negócio tão bom e faz tão bem.

 

Criei mundos mirabolantes, fantasiei futuros, construí diálogos. Fiquei algumas horas por lá perdida entre o passado, o presente e o futuro – o tempo, enfim. Senti falta das baleias, afinal é outono. Na hora de voltar, levantei e… os golfinhos estavam diante de mim. Sorri. Agora sim eu poderia ir embora. Minha vida é assim, eu vou esperando ver baleias, fico até chateada porque não as encontro, mas aí o Destino manda golfinhos. Nunca posso ter o que espero. O Destino sempre me surpreende.

 

Voltei saltitante e com pensamentos ainda a mil. A cigana, então, tinha razão: tudo ficaria para trás. E, sim, tudo e todos ficaram para trás. Agora é tão fácil perceber. Tudo o que aconteceu nos últimos meses foi para que o que acontecia antes tivesse fim, mas não seriam aqueles fatos que construiriam o futuro, seriam apenas meios para que as coisas novas viessem. Agora eu entendo. Ah, e não encontrei nenhum cobra coral. Isso foi o que me fez ter certeza da utilidade de muitos acontecimentos. Destino, você escreve certo com uma letra indecifrável, por isso eu demoro a entender.

 

O maldito tele-entrega

 Era pra ser um programa normal. Fui pra casa da amiga num dia à noite e ia rolar uma sessão dos nossos seriados favoritos, comida, bebida, fofoca, causos sobre os amores e desamores da vida. E aí ela quis pedir a comida.

Depois de inúmeras confusões, pedidos demorados, trocados, a dificuldade de pedir comida de madrugada, chega um x-bacon. Quando eu olhei pra ele quase chorei.

Foi assim, a gente namorava. Durante os anos de namoro eu engordei mais do que em qualquer época da minha vida – mais até do que nas crises de depressão da adolescência. Mas o problema era o tele-entrega. O maldito tele-entrega.

O programa para sábado era pedir uma pizza em casa. Qualquer comemoração, quando ele encontrava tempo entre as mil preocupações com o trabalho, era no fast food perto da minha casa. Eu tinha essa coisa de gostar de variar, ele tinha aquela coisa de ser sempre a mesma coisa. Nunca iria dar certo.

Quando a amiga sugeriu uma pizza eu já disparei um sonoro “não”. Era trauma. Quando o sanduíche chegou eu não comi nem metade. Era tão simples ter percebido que o relacionamento não ia dar certo. Eu não sou o tipo de pessoa de pizza aos sábados em casa e comemorações no fast food. Pelo menos, não sempre. Eu olhava para o sanduíche e já não conseguia nem sentir o gosto. Lembrei de todas as vezes que o relacionamento era aquilo de abrir o pacote da entrega, pegar o meu, ele o dele, cada um ali na cama, na mesa, no sofá, comendo o seu. Invariavelmente a TV ligada. Ela falava por nós. Não havia conversa, ela ficava ali falando sozinha enquanto comíamos em silêncio.

Fiquei traumatizada. Fiquei um bom tempo sem comer nenhum sanduíche. Nunca mais esses de lanchonete de bairro. Pizza entregue em casa, então, nem pensar. Além de engordar, me dar uma sede absurda, era um símbolo de tudo que tinha dado errado.

O errado naquele relacionamento foi não ter visto o quanto as coisas nos separavam. O quanto eu calava e aceitava porque eu havia concordado uma vez, mas não tinha sinalizado que aceitaria sempre. O quanto ele era de um jeito, eu o oposto – e aí a coisa não atraía, repelia. A segurança dele em ter o telefone da tele-entrega daquela mesma pizzaria à mão era o meu desespero pelo “mais do mesmo” – do qual eu fujo até na hora de pintar as unhas toda semana. Por um tempo a graça do relacionamento era essa, o encanto que um via no outro era o diferente. Mas não soubemos equilibrar, não soubemos dosar. Ou talvez certas diferenças nunca possam ser equilibradas, a balança sempre vai pesar mais para um lado. E aí o outro precisa se anular, ou aceitar, ou se conformar. Ou tudo isso junto.

Às vezes a gente pode até fazer isso, tem quem faz a vida inteira. Tem quem não consegue. Aí, para esses, o relacionamento precisa ser aquela coisa na qual as semelhanças façam mais sentido. Os dois precisam olhar mais na mesma direção, gostar mais das mesmas coisas. Não dá pra ele ligar a TV todo domingo pra assistir à Fórmula 1 e não assistir aquele filmão do Truffaut contigo. Não dá pra você querer andar de bicicleta numa tarde ensolarada e ele sempre arranjar uma desculpa pra não ir.

Não há a fórmula perfeita, disso todo mundo sabe. Mas a gente pode ir descobrindo um caminho aqui, um problema ali e tentar chegar mais próximo daquele que não vai deixar sobrar nem faltar. Torna-se um problema quando você acaba colocando tantos “poréns” e requisitos que nunca vai encontrar um que caiba em todos eles. Mas, nas linhas gerais é bom confiar.

O fast food, a TV e a pizza de sábado me fizeram entender que há diferenças irreconciliáveis sem a anulação de um dos lados. E eu não topo me anular. Me resta encontrar um que esteja mais perto das semelhanças, dos gostos e dos desejos. 

Sempre vai me restar ser feliz.

(Ps: a noitada foi muito boa, comemos besteiras, filosofamos sobre a vida, vimos um pouco de seriados, tomei um porre e às oito da matina fomos dormir lendo aqueles livrinhos “Amar é…”)

Os Homens da Minha Vida – Stendhal, os 28, os suspiros e a verdade

 

Entre delírios febris que me impedem de trabalhar e estudar direito, me agarrei ao Stendhal e ao amor.

 

Foi assim num gesto de amor à primeira vista quando ele me disse ao pé do ouvido, num começo de madrugada, que o amor é como a febre, que vai e vem quando bem entende. Sem alguém a quem amar (!), tendo sempre o amor disponível em mim, uma febre que desencadeou coisas ruins como ela – dores inenarráveis, períodos de sono intenso e de dispersão insone total -, nada rendendo, peguei-o de jeito ao lado da cama de onde mal saio nos últimos dias.

 

Como cheguei até ele? Então, eu e uma amiga rodopiavamos pela feira do livro de Fpolis, entre discussões literárias, amantíssimas e sobre amores reais, quando dei de cara com “Do Amor”, uma obra que se diz capaz de explicar os estágios do amor. Olhei para a amiga e disse que compraria o livro para ver se a compreendia – ela, ao que todos os sintomas indicam, está amando. Já não sei se ela está amando ou se está amando a idéia de apaixonar-se e eis que pra mim isso nunca conviveu muito separado, enfim. Eu? Eu ando despojada dessas artimanhas do coração. Pela segunda vez na vida, desde que caí no buraco negro dos sentimentos profundos pela primeira vez, entrei em recesso. Um recesso necessário, frutífero, eficaz, aprazível, instigante. Quem sabe eu saia dele, ou não. Se for pra sair como saí do anterior, vocês ouvirão os tambores e os trovões.

 

Me sinto até um pouco culpada porque sou muito grosseira para essas coisas do coração. Revi e reli algumas coisas da minha vida amorosa (óin!) e toda vez que faço isso me sinto um rinoceronte no quesito delicadeza e compreensão com os sentimentos alheios. Um rinoceronte. Aí quando a amiga vem falar dessas coisas, das dúvidas, da cristalização, dos arroubos, dos desesperos, rinoceronteio do modo mais direto possível. Preciso mudar. Então, em meio a essa febre que não é nem de longe de amor, que Stendhal me ajudasse.

 

E ajudou. Ajudou muito. A amiga não tem salvação. Pulando essa parte, Stendhal resolveu tratar da minha vida. Sim, ele escreveu a minha vida amorosa (brega, né?) melhor que eu e muito antes de eu vivê-la. Aí matutei, matutei e fiquei intrigada porque, na verdade, ele já escreveu o próximo capítulo. Quem acompanha o blog já deve ter lido algum dos capítulos da série “homens da minha vida” (um deles, o último, ainda não foi publicado por motivo de força maior, mas espero em breve postá-lo) e entre os últimos de um anúncio de jornal e de uma página em branco, Stendhal previu o próximo.

 

Serei breve. Essas poucas linhas já consumiram o resto de energia que angariei tomando cachaça com mel (xarope, chá, mil remédios, nada deu conta, a cachaça foi a “solução final”). Colocarei a citação literal dele aqui.

 

“Uma moça de dezoito anos não possui muita cristalização em seu poder e forma desejos muito limitados pela pouca experiência que ela tem das coisas da vida, para encontrar-se em estado de amar com tanta paixão como uma mulher de 28 anos.

Esta noite exporei essa doutrina a uma mulher de espírito que pretende o contrário.

– A imaginação de uma jovem, não se encontrando congelada por nenhuma experiência desagradável, e o fogo da primeira juventude se encontrando em toda a sua força, é possível que, sobre um homem qualquer, ela crie uma imagem maravilhosa. Todas as vezes que encontrar seu amante, ela desfrutará não do que ele é efetivamente, mas dessa imagem que ela criará. (*adendo meu: suspiros)

Mais tarde, desenganada desse amante e de todos os homens, a experiência da triste realidade nela diminui o poder da cristalização, e a desconfiança corta as asas da imaginação. (*momento atual) Sobre qualquer homem, mesmo que ele venha a ser um prodígio, ela não mais poderá formar uma imagem tão cativante; ela não mais poderá amar, portanto, com o mesmo fogo de sua primeira juventude. E como no amor só se desfruta da ilusão que se faz, jamais a imagem que ela puder criar aos 28 anos terá o brilho e o sublime daquela sobre a qual se fundara o primeiro amor aos dezesseis, e o segundo amor (*a quantidade de “primeiros” e “segundos” é questão de interpretação) sempre parecerá de uma espécie degenerada.

Não, madame, a presença da desconfiança, que não existia aos dezesseis anos, é evidentemente dar uma cor diversa a esse segundo amor. Na primeira juventude, o amor é como um rio imenso que tudo leva em seu curso, ante o qual se sente que não se poderia resistir. Ora, uma alma terna conhece-se aos 28 anos; ela sabe que, se para ela ainda existe felicidade na vida, é no amor que é preciso buscá-la; surge, nesse pobre coração agitado, uma luta terrível entre o amor e a desconfiança (*próximo capítulo). A cristalização avança lentamente; mas a que sai vitoriosa dessa prova terrível, em que a alma executa todos os seus movimentos ante a vista contínua do mais terrível perigo, é mil vezes mais brilhante e mais sólida do que a cristalização dos dezesseis anos, quando, pelo privilégio da idade, tudo era alegria e felicidade.

Então o amor deve ser menos alegre e mais apaixonado.”

 

Balzaquianas é para as fracas! Bem entendia Stendhal dos 28 anos das boas almas. Sei que fui fazer uma pilhéria com os arroubos amorosos da amiga e acabei sendo usada pelo Destino para que eu me entendesse. Quando ele termina com “menos alegre e mais apaixonado”, ninguém tem idéia do quanto isso me deixa feliz. Já é o título do próximo capítulo (que, por sinal, vai demorar um pouco para acontecer). Consigo compreendê-lo e acreditar que a cristalização avançará lentamente e será mais brilhante e mais sólida do que a dos dezesseis. Ele não deixou escapar nada.

 

(a dor de cabeça quase me fez abandonar por aqui sem sequer publicar)

 

Foram sobre esses pensamentos que quis escrever… quando escrevi aqui sobre a incomunicabilidade da guerra não atentei para o outro lado: a incomunicabilidade das belezas e delícias da vida. Já quis escrever aqui sobre muitas coisas, já me pediram que eu escrevesse sobre isso e aquilo (sim, recebo pedidos de pauta e adoro isso!), tal lugar que visitei, minhas considerações sobre algumas viagens e tal. Sei que disponho o espaço do blog para cenas da minha vida, mas devem ter reparado que elas têm sido cada vez mais raras ou que surgem somente como estopim de uma reflexão maior. Talvez eu tenha me agarrado à razão (“a razão jamais lhes é útil” diria o Stendhal sobre as mulheres). É assim que comunico a incomunicabilidade dos deleites da vida. É difícil vir escrever sobre certas coisas. Mas eu prometo tentar. Tenho que mudar essa frieza.

 

E volto ao Stendhal, pois foi assim que ele me fez pensar nisso “Faço todos os esforços possíveis para ser frio. Desejo impor silêncio ao meu coração, que imagina ter muito a falar. Sempre tremo ante a idéia de só vir a escrever um suspiro, quando imagino ter anotado uma verdade.”

 

 

Sobre a guerra

Hoje, dia 8 de maio, comemora-se o fim da Segunda Guerra Mundial.

Não é uma data que eu guardo comigo, aliás, quase não guardo data nenhuma. Mas achei que caía bem com os meus últimos pensamentos. Pensava em quão mesquinha é a vida. E aí, talvez pelos filmes e séries que tenho assistido, pensei no quanto a guerra faz falta para que compreendamos certas amplitudes da vida. Sim, a guerra. A última possível guerra lá das Coréias, por exemplo, virou piada de internet. Há muitas guerras em andamento pelo mundo, mas muitos de nós estamos bem distantes delas e talvez nunca tenhamos contato com nenhuma.

E me foi impossível fugir da questão da incomunicabilidade. Sim, o chato do Benjamin traduziu muito bem a questão. Os fatos, a cumplicidade, da guerra era incomunicável. Quem já passou por certas dores terríveis, profundas, da vida sabe o que é essa incomunicabilidade. Eu não consigo falar nem escrever sobre certas coisas pelas quais já passei. Às vezes não consigo nem lembrar delas… na maior parte do tempo é como se elas convivessem comigo o tempo todo, ali no cantinho, e eu as ignorando. Eu sei o quão impregnadas estão dessas lembranças muitas das minhas ações cotidianas. E ninguém desconfia.

Eu sempre penso nisso. Quando ouço relatos de momentos dolorosos, relatos sempre parciais, titubeantes, como o bom relato de algo incomunicável. Quando assisto a filmes sobre fatos que cortam fundo os personagens, alguns durante guerras por sinal. Lembro sempre do livro do Ribakov, que de tão mestre em narrar o inenarrável, me deixou sem palavras. Ou de alguns livros do Huxley (não os famosinhos dele) que se detém no incomunicável entre os seres humanos. Sempre que vejo a vida com o excesso de palavras por coisas tão comezinhas, ridículas e rasas, penso no incomunicável. Nas nossas tentativas, inclusive, de tentar colocar em palavras (e imagens) aquilo que não é possível de dizer.

Sim, a ausência de grandes guerras nos fez perder certas dimensões da vida, mas não é por isso que eu vou deixar de pensar nelas. O 11 de setembro, por exemplo, causou essa incomunicabilidade no mundo contemporâneo. Dois filmes são muito bons ao trabalhar com isso, um com o Pierce Brosnan (não lembro o título) e o “Extremely Loud, Incredibly Close”, este último, aliás, com um título tão perfeito que descreve por si tudo o que estou tentando pensar aqui. Com o mundo moderno a Psicologia abraçou essas questões, mas eu não acredito nela. Muitas guerras, hoje, estão restritas a espaços e grupos e isso diminui ainda mais a experiência humana.

Hoje é assim, curto, breve, sem grandes conclusões… incomunicável. Talvez as pessoas precisem sofrer (mais) para conseguir distinguir os valores reais das coisas da vida.

Já fui acusada de ser insensível, prática e até racional demais (vejam só!) em certas situações. Eu diria que é o peso da balança. Quando jogam uma coisa de um lado, o que eu ponho do outro lado é que faz ela ter um peso comparativo. Se você não tem nada para colocar, o que estiver lá vai valer muito – e se você tiver mas não conseguir comunicá-lo nem à própria balança, o que não era pra ser tão valoroso, será.

Tenho um certo receio de um mundo com menos guerras, com menos experiências que nos dêem proporções devidas à vida. A mesquinhez tende a dominar e as pessoas a serem menos amplas.

 

Explicável

 

Ela queria ver as mesmas coisas com outros olhos. A chuva a fazia sentir o corpo mais pulsante. Ela comprava passagens de ida e volta e sempre queria mais ir do que voltar. Encontrava caminhos pelo meio de caminhos e queria pegar desvios. Ela preferia as estradas mais longas, as mais ignoradas – evitava rotas feitas. Ela queria fazer diferente de todo mundo, mas fazia uma coisa ou outra como todos – e aí ela desfazia, fazia, desfazia. Ela pensou em apagar todas as fotos que passava da câmera para o computador, depois de vê-las – assim, como exercício de memória, desapego, amor. Ela queria sentir as histórias que já havia vivido cada vez que passasse em certos lugares. Ela associava músicas à pessoas, estados de espírito e eventos. Variar é a razão da vida dela. Ela coleciona vasos e papéis de viagens. Ela ama pedras preciosas ou semi. Ela sabe que dinheiro garante a felicidade. Ela sempre quer fugir, fugir, fugir. O horizonte sempre a apraz. O sono a contamina, mas é cafajeste. De vez em quando o vento sopra e ela repara na direção dele como se isso influenciasse a sua vida – e, de fato, influencia. Ela anota recados bonitos e motivadores num quadro na sala. Ela faz listas que nunca segue e esquece. Ela convive com seus atrasos e protelações – como se se amassem a não ter mais fim. Ela diz que não vai mais beber e compra um whisky, um rum, uma vodka e uma cachaça. Ela esquece de algumas pessoas que marcaram fundo sua vida em alguns momentos. Ela marca a vida de certas pessoas e nem faz idéia. Ela não resiste à gentileza. Uma menina cantava baixinho, muito bem afinada, ali no ônibus com as roupas sujas e em farrapos apesar das unhas pintadas e do cabelo bem cortado, sorriu e ofereceu a ruffles que comia mansamente – ela não tirava os olhos da menina com um aperto no peito, mil perguntas por fazer e um carinho que nem sabia de onde tinha vindo, mas antes que desse tempo de qualquer coisa a menina desceu no ponto do shopping. Ela aprecia o tempo em doses cavalares. Ela perde o olhar e a consciência de si por alguns minutos. Ela detesta voltar pelo mesmo caminho, mas sempre quer voltar aonde já esteve. Ela ama o colorido e o preto e branco. Ela se desconcentra com o tique-taque do relógio. Ela vive uma realidade de sonho. Ela ficciona os sentimentos. Ela sabe esperar. O amor sempre lhe escapa da razão. Às vezes ela não sabe o que sente. Ela tem certezas vazias que um dia se transformam em realidade. Ela olha o calendário em busca de uma palavra que faltou enquanto escrevia. Ela se esforça em ser simpática. Ela precisa esquecer um pouco dos outros, de vez em quando. Ela não gosta de pensar em si mesma. Às vezes ela quer chorar só pela beleza do ato do pranto. Os suspiros dela dizem mais do que qualquer discurso ou grito. Ela evita repetir certas coisas para banalizar a emoção. Ela tem receio que os animais de estimação esqueçam dela. Ela não sabe demonstrar sentimentos, esconde seus amores em atitudes grosseiras, mas acha lindo um ombro, um telefonema alegre. Ela queria alguém que realmente se importasse com os seus sonhos, que a escutasse de verdade. Ela tem espaços vazios que ninguém nunca preencherá. E, no fundo, ela não se importa. Ela não se importa com nada. Ela toma banho e esquece. Ela sempre pensa em partir para outra. O frio vem chegando, o calor se foi e ela muda de idéia. Ela quer marcar a pele com todas as lembranças boas que tem da vida para equilibrar as cicatrizes que já marcam as memórias ruins. Um dia as boas superarão as ruins. Ela tem a alma sempre para além do entorno dos seus olhos abertos. Ela sorri ao invés de gesticular. E, do nada, ela pode começar a desenhar para passar o tempo.

 

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