115 anos de cinema brasileiro: na História ou distante dela?

 

O dia de hoje é comemorado por um fato curioso: a primeira filmagem realizada em terras brasileiras, por um italiano. Já dizia lá o Bernardet que significa muito o Brasil comemorar o dia do Cinema Brasileiro (“nacional” implicaria muitas coisas) justamente quando foi feita a primeira filmagem, não a primeira exibição. Até hoje isso prevalece: valoriza-se mais a produção, menos a exibição. O fato de o primeiro realizador ter sido um estrangeiro também é curiosa: o Brasil importou muitos profissionais de cinema durante muito tempo – pouco houve ao contrário. O cinema veio de fora, pelas mãos de estrangeiros. Por essas e outras que “nacional” implica muitas coisas, inclusive por quem é feito e para quem é feito.

 

Semana passada tive o prazer de participar de uma oficina com o Fábio Andrade, editor da revista Cinética. Fábio é uma pessoa acessível (coisa difícil na área), as idéias e concepções dele sobre crítica cinematográfica casam muito com as minhas e foi uma delícia gratificante as discussões. Entre tantas coisas, uma frase dele me chamou a atenção justo no dia que lembrei que hoje seria dia do cinema brasileiro. Vou a ela: “Hoje, com a internet, a gente consegue assistir a praticamente tudo. Menos cinema brasileiro, esse é quase impossível de assistir.” Para um crítico, é imprescindível assistir a muitos filmes, a tudo que passar nas telas (e estiver disponível para baixar). E Fábio levantou uma questão que eu já trouxe algumas vezes aqui: a dificuldade em conseguir assistir ao que se produz no país.

 

Casos recentes de curtas e longas, inclusive catarinenses, realizados com edital principalmente, que tiveram inúmeras exibições pelo país e até no exterior e aqui nada – tipo caviar, a gente só ouve falar. Tal filme (curta/longa) ganhou prêmio não-sei-onde e foi exibido X números de vezes lá e acolá, aquela chuva de elogios (?!) nas redes sociais e afins e… nada de passar no Brasil e, no caso específico, Santa Catarina. Por quê? Eu me perguntei isso várias vezes. Medo? Descaso?

 

Antecipando um ponto, volta a questão: filme realizado com financiamento público que evita o próprio público? E os filmes que são realizados com financiamento público e cobram ingresso? Pois é. Reclamam da quantidade de cópias que os cinemas exibem de blockbusters e afins – a maioria dos cineastas brasileiros reclama disso – mas todos sabem que ainda existe a má vontade do brasileiro sobre o próprio cinema. Eu mesma já cheguei no cinema e preferi assistir a um filme estrangeiro, quando tinha duas opções e um era brasileiro. Se não todos, a maioria de nós já fez isso – alguns sempre fazem. Não pretendo abordar todos os problemas do cinema brasileiro, seria pretensão demais.

 

Quando pensava sobre o dia de hoje, lembrei do posicionamento do Paulo Emílio, destacado no seu trabalho escrito e professado por quem o conheceu pessoalmente. Todo filme brasileiro merece ser visto, dizia ele, e um filme brasileiro nos diz mais do que todos os outros de fora – afirmações com pequenas variações. Ouvi isso na graduação de cinema, assim como ouvi aquela máxima (que hoje me parece a mais covarde e rançosa) de que no Brasil, independente de qualquer coisa, o que sempre predominou foi o “fazer” filmes. Digo covarde e rançosa porque a realização sobrepõe-se a tudo, inclusive à exibição (reproduzindo a idéia da “origem” do cinema por essas terras), desprezando, desta forma, o seu próprio público que em contrapartida também o despreza. Concordo com Paulo Emílio, todo filme brasileiro merece ser visto, e todo filme daqui me diz muito mais do que qualquer outro de fora. Não, não acho um posicionamento nacionalista, ufanista ou qualquer bobagem da qual os fãs de Said poderão me acusar. É uma questão de formação, de consciência. Nem que seja uma questão econômica, afinal, a esmagadora maioria dos filmes brasileiros é paga por nós. Eu sei, dói tirar dinheiro do bolso para comprar o ingresso de um filme brasileiro se eu, de alguma forma, já paguei por ele. Bem, resta garimpar as exibições gratuitas. Mesmo que em alguns casos sejam raras e dificultadas, veja lá um curta de Santa Catarina que depois de rodar o país foi exibido em Fpolis num dia 30 de dezembro. Pois é, parece que não querem mesmo que o público brasileiro – e, vejam só, não estou falando de público de festivais! – assista aos filmes daqui. O motivo? Pois é, quem nos responderá?

 

Na minha família sempre ouvi o preconceito com filmes brasileiros: só tem putaria e palavrão. Nem falavam da questão do áudio, outro preconceito bastante difundido. Lembro que o primeiro filme brasileiro que assisti no cinema foi o do Menino Maluquinho, com a escola. Aliás, antes de entrar na universidade, só havia assistido a quatro filmes no cinema. Um deles daqui. A quinta vez que tentei ir assistir a um filme brasileiro (“O Xangô de Baker Street”) com minha mãe e minha avó (num ato de ineditismo total) fui barrada porque não portava a identidade. Vejam só. É uma peripécia conseguir assistir aos filmes brasileiros. E os cineastas reclamam de número de cópias, verbas para lançamento e cotas nos cinemas!

 

Me apaixonei pelo cinema brasileiro aos poucos. Foi uma picada aqui, outra ali e de uma hora para a outra me descobri apaixonada. Me encantava ver aquele povo, aquela realidade, aqueles lugares tão conhecidos nas telas. Sou até bem bairrista, vide a alegria em descobrir o “Burguesa” ou o “Ditadura Reservada”. Sou nacionalista, pelo jeito, porque gosto de garimpar paisagens brasileiras (na vida real) nos cinemas (um dia tentarei escrever sobre isso de “cinema” e “cinemas” – teoria em formação), garimpar sotaques, realidades. Sou bem bairrista em me apaixonar pela Curitiba em “Estômago”. Levo um soco no estômago por assistir “Menino do 5”, gravado em Salvador, e ver um espaço que não conheço mas com uma realidade que transcende os limites dos mapas. Me apaixonei perdidamente pela câmera cheia de destreza e consciente de uma linguagem própria do Glauber Rocha. Me apaixonei pelos críticos, historiadores e cineastas que tanto escrevem sobre o nosso cinema. Sou tão bairrista que olho com desconfiança para um Padilha que fez sucesso aqui e foi lá pra fora dirigir Robocop.

 

Poderia escrever mais parágrafos elencando minhas paixões. Vocês sabem, paixões são meu forte. Porém, essa paixão é ofuscada por algumas questões. Eu queria ver o cinema brasileiro independente. Queria vê-lo desatrelado dos intermináveis editais e financiamentos. Eu queria vê-lo maior de idade. Queria vê-lo superar-se – e aqui me refiro ao modo de produção e à linguagem. Cinemas novos não acontecem do nada. Cinemas crescem superando-se a si mesmos. É preciso crescer e não estou falando nos números, pois não sou a ANCINE para ficar divulgando números para tentar dizer algo que me parece sempre vazio. É preciso superar essa idéia de que “O Som ao Redor” ter tido cerca de 200 mil espectadores é um resultado “louvável”, tendo em conta o orçamento e a “competição” com blockbusters ou ainda por ser um filme “cult”. Para que ele se supere eu sonho com duas coisas: que os profissionais do setor tenham caráter e sejam realmente profissionais e que os que não são assim não ensinem os estudantes dos cursos de cinema a serem como eles – aquela velha história, pegar dinheiro para abrir produtora, meios de burlar orçamentos e prestações de contas, como viver só às custas de dinheiro público. É um círculo vicioso. Não criam nada novo com as obras e mantém um sistema falido (bem, “falido” é relativo, porque tem muita gente ganhando dinheiro com isso). Queria ver Meirelles, Furtado, Murat, Barreto´s family, Babenco e todo esse povo sem correr atrás de editais. Queria ver milhões de espectadores seja para “Pernas pro Ar” tanto quanto para “O Som ao Redor”.

 

Minha paixão é ofuscada por ainda não ter conseguido assistir a “O Som ao Redor”. Por ser, como disse o Fábio, tão difícil assistir aos filmes brasileiros. Mas marquei de assistir a “Elena” neste sábado, gratuitamente, em Joinville, numa exibição organizada por um grupo ligado a uma faculdade. Pra quem não sabe, muitos festivais só aceitam filmes que não foram ainda divulgados, por exemplo, na internet. E os realizadores acatam isso, preferem mandar seus filmes para inúmeros festivais a simplesmente colocá-los à disposição do público em geral. Público de festival, todo mundo sabe, é restrito e restritivo. Resta a pergunta: quem faz isso então produz para qual público? Para o crítico de revista, “crítico” de jornal e bonequinho, cinéfilos e alunos de cinema? Interessa formar platéia ou não?

 

Mas, caramba, falar de cinema com essa multidão toda nas ruas?! Pois é. Pensei nisso também. Cadê os cineastas? Cadê os cineastas nas ruas? Os cineastas brasileiros já testemunharam levantes, greves, fizeram “o que a TV não fazia”, mostraram o que as pessoas não viam. E cadê os cineastas quando temos o maior número de pessoas nas ruas em toda a nossa História? Cadê cineastas se posicionando, apoiando ou sendo contra? Acompanho algumas discussões de grandes cineastas e críticos e não vi uma palavra sobre o assunto. “Ah, mas essas manifestações estão sendo gravadas por milhares de celulares.” E isso tira a posição do cineasta? Então aquela imagem linda do povo sobre o teto do congresso com as sombras refletindo nas abóbadas não pode ser significada e ressignificada pelo cinema? É isso mesmo, colegas? Por que a comunidade cinematográfica se acovarda diante desta multidão? Tem medo que o dinheiro do próximo edital não caia na sua conta? Então já tivemos cineastas melhores, porque eles burlavam deliciosamente isso. Ah, não sabia? Será que estudamos cinema brasileiro mais do que aquela uma ou duas disciplinas perdidas em quatro anos de curso?

 

Normalmente, os filmes brasileiros mais aplaudidos são os que esmiuçam a nossa realidade. Ou que a ironizam, como o “Saneamento Básico”. Pois é, falar em cinema hoje com ruas cheias de gente insatisfeitas com (quase) tudo. Mas cadê o cinema pra protagonizar isso? Mostramos a realidade (quais realidades?) e nessa h♦ora damos um fade out? Brasil fazendo História e o cinema não sai da sua redoma?

 

Eu apoiaria menos festivais (muitos só comem dinheiro público também). Apoiaria salas de cinema públicas (“como na França” dizem tanto por aí). Apoiaria exibição de curtas antes dos longas nos cinemas. Será que os produtores e diretores apoiam? Ou está bom assim? E volto a dizer: quero cinema brasileiro independente. Quero editais de fomento, incentivo, não de sustento. O cinema brasileiro dá lucro, vamos superar esse mito e sair da zona de conforto.

 

 

125

 

Fernando Pessoa faria, hoje, 125 anos. Um geminiano. Desses que nos tiram o chão, nos alçam às alturas, nos deixam com os sentidos todos misturados. (mas hei de desconfiar sempre de que ele tem alguma coisa de pisciano)

 

Já devo ter escrito tudo isso aqui antes. Leio Pessoa aleatoriamente, volta e meia, para pensar (ou não), acender a alma, despertar os sentidos… para tudo e nada.

 

Eis que essa semana tem sido tão intensa, profusa, exigente com a escrita e com uma dose espetacular de crônica nos meus dias que não pude deixar de lembrar dele (vide aí dia dos namorados e de Santo Antônio e as tais cartas ridículas – mas em especial da melhor declaração de amor que alguém poderia fazer e a qual um dia desejo dizer para um amor) e de brevemente lembrar do padroeiro do blog.

 

Para quem conhece Pessoa, as palavras não são dispensáveis. Para quem não o conhece, só digo uma coisa: leia, agora. Se não te tocar a alma, não considere-se uma alma.

 

Para quem me conhece, sabe que o blog poderia ter alguns outros padroeiros, mas ter sido ele tem um motivo muito especial.

 

 

Experimentando idéias

 

“Pensando? Ela teria dito que não. Estava tentando apoderar-se de alguma coisa, ou desnudá-la, de forma que pudesse olhá-la e defini-la; agora, já fazia algum tempo que vinha experimentando idéias, como se fossem diversos vestidos tirados de cabides.” – Doris Lessing, O Verão Antes da Queda.

 

E foi assim que compreendi novamente o sentido de tudo, inclusive de continuar a escrever também para o blog. Fico assim tentando apoderar-me de alguma coisa, tentando desnudar os sentidos, as pessoas, as coisas, a vida. Tento olhar e definir. Experimento, enfim, idéias. Tiro esses vestidos dos cabides e vou experimentando, analisando, jogando uns sobre os outros. Escrever tornou-se isso, seja uma crítica de um filme, um livro de contos, um texto acadêmico, uma carta, um e-mail, um twitte: experimentar idéias.

 

Ao me ver caminhando por aí, parada, deitada, olhando o nada saiba que estou no momento provador: tiro vestidos dos cabides. Se eu estiver sempre assim, tanto melhor.

 

 

Delete

 

Ontem cogitei seriamente em apagar o blog. Não sei se ele serve para alguma coisa, mas acima disso, pois que não sou pessoa de utilidades, não sei se ele ainda faz sentido pra mim.

 

Não tenho escrito o que quero. Isso me irrita muito.

 

Aí lendo Rubem Alves (a leitura dele vai a conta-gotas pois é deliciosa e me faz pensar em mil coisas, quanto mais delicioso o livro mais quero que ele demore para acabar – livros são como os relacionamentos, sempre terão fim) de madrugada encontrei esta: “Mas quando se inventem estórias não se está procurando a verdade, e sim a beleza.”.

 

Escrevi aqui, por esses dias, que queria histórias. E maldita Língua que fez cair o tão mais coerente “estórias”. Preciso de histórias e estórias. Dane-se a verdade. Procuro mesmo a beleza. Não a tenho encontrado em lugar algum, em nada nem em ninguém. Se não é pela beleza, não escreverei mais.

 

Ninguém sentirá falta. Minha vida (daquelas conclusões boas que a gente encontra pelo caminho) não faz diferença para ninguém.

 

“Escrevo, mas não tenho nem teoria nem método.” me disse o Rubem. Não tenho. Não quero ter. Não terei. Danem-se as teorias e os métodos. Só preciso de histórias e estórias. Porque o que eu busco é a beleza. Não há beleza nas teorias e métodos. Não há beleza na maioria das palavras desperdiçadas por aí. Guardarei a raiva para aguçar a memória, pois esta se faz de boba com qualquer palavra bem colocada.

 

Não vou engolir a revolta de não escrever o que quero. Não engulo minhas revoltas. E talvez este seja o mais intrigante do mundo virtual, assim que eu apagar o blog ele nunca terá existido. Tenho me sentido tentada a apagar rastros digitais da minha vida e tentar manter apenas os reais. Já foi uma vida, agora seria apenas uma experiência.

 

Enfim, preciso de histórias e estórias. Busco apenas a beleza.

 

 

A pedidos: a volta dos relacionamentos

 

Eu poderia dizer: não gosto (ou acredito) em relacionamentos. Seria reduzir demais a discussão. Para começar, quero separar as duas coisas: sentimentos e relacionamentos. Sentimentos vivem melhor sem os relacionamentos, e estes acabam com os primeiros. Sim, relacionamentos fazem mal aos sentimentos.

 

Por que falar novamente sobre relacionamentos? Porque me pediram, porque andei pensando sobre e porque tenho observado algumas coisas. Recentemente vi alguns (e não foram poucos) relacionamentos terminarem. E nem falo desses namoros de três meses. Vi casamentos de dez anos, relações estáveis (no papel) de cinco anos, namoros de dois, quatro anos, acabarem do nada. Claro, do nada nunca é. O que pude observar é que a iniciativa partiu dos homens e “sem explicação” – o que levou as mulheres a dizerem “ele tem outra”. Sabe, acho que nem seria o caso. Mas, enfim, numa situação dessas sempre queremos uma explicação ou um culpado. Que seja a outra.

Já terminei alguns relacionamentos. Sou péssima com relacionamentos. Quer dizer, reconheço que há coisas lindas e deliciosas nos relacionamentos – não sou estúpida – mas acredito que a convivência e a balança que existe em todos eles não são pra mim. Manter um relacionamento é muito difícil e, mesmo assim, tem um monte de gente por aí que consegue. Será?

Vi um casamento de dez anos chegar ao fim através de e-mail. Minha mãe ficou chocada. Eu já terminei um relacionamento por e-mail (vejam bem, já havia terminado presencialmente umas três vezes e o cara não entendia, só me restou o meio virtual). Pelo que me lembre, sempre fui eu a terminar os relacionamentos. Namoro mesmo, com toda pompa e circunstância e com direito a “relacionamento sério” no Facebook, só um. Ah, sim, nunca gostei de namoro. Me explico. Desde cedo via aqueles casaizinhos na escola e pensava (provavelmente dizia), se namorar é andar de mãos dadas, sentar no banco da praça e tomar sorvete no shopping, eu dispenso. E sempre dispensei mesmo. Não é pra mim.

Aí virão dizer que sou recalcada, que é pela proximidade do dia dos namorados e blábláblá. Não. Vejam só, já passei muitos “dias dos namorados” acompanhada e (tenho testemunhas!) na maioria esmagadora deles nem dei bola pra data. Se eu disser que só tive dia dos namorados duas vezes não estarei exagerando. Aliás, um deles foi publicado aqui no blog. O restaurante do qual eu falava naquele post nem existe mais. Nem o namoro da época.

Os relacionamentos têm esta capacidade de corroer, deteriorar, consumir o sentimento. Já ouvi de muitas casadas “ah, não é mais a mesma coisa, a gente se respeita (isso não cabe em todos os casos, vejam bem) e tal e coisa”. Nunca é a mesma coisa. É que tem os bens, os filhos, as carreiras, os salários (que juntos, todos sabem, rendem mais e possibilitam financiamentos e afins), as famílias. Já vi situações nas quais as pessoas não se separaram por conta do apartamento que foi comprado em conjunto, porque não se via voltar para a casa da mãe, essas coisas. Isso me apavora. Já não há o sentimento que havia, ambos estão infelizes e o que segura a relação é… o dinheiro ou coisa que o valha?

 

Não é pra mim. Já vivi sentimentos e histórias muito boas. Muito. Relacionamentos nunca tive algum que sequer me desse saudade. E provavelmente já estou velha para cair em conversa de homem. O convite para o café ou o cinema daquele que só quer, na verdade, sexo, pouco me interessa. Declino na hora – e muitas vezes nem educadamente. E os joguinhos? Sério, gente? (cá está minha cara de tédio) Homens e pirralhos a fazerem joguinhos de te deixar no vácuo, fazer cena para despertar ciúme, um dia todo querido, carinhoso e cheio de promessas, no outro se esquivando… alguém ainda cai nisso? Sério? Será que eles percebem o quanto são repetitivos? Eu gosto de boas conversas, nunca neguei isso. E como falava em outro post, não é porque eu converso com um cara (como com o tatuador ontem) que eu estou colocando uma placa “disponível para sexo”. Deus me livre fazer sexo com todas as pessoas com quem consigo ter uma boa conversa. Aliás, tem aqueles que não conseguem ter dois minutos de conversa (nem estou aferindo a qualidade da conversa) e nem para sexo servem.

 

Sempre tive mais amigos homens do que mulheres – questões de praticidade e falta de frescura. Contudo, já reparei num dado interessante. Quando não estou em algum tipo de relacionamento com o sexo oposto, os amigos homens somem. Pois é. Depois da primeira paixão, lá se vai muito tempo, por um amigo, criei a regra “amigos, amigos, homens à parte”. As amigas comentavam sobre a tal friendzone, aqueles amigos que num dado momento você já não sabe se é algo a mais, seja da tua parte ou da dele. Tenho uma amiga em especial que é doutora na área. E eu acho que pessoas que caem nessa armadilha são aquelas que têm a questão do relacionamento muito forte, gostam da convivência, se apegam às pessoas, gostam da rotina. Porque amizade tem muito disso – e de amizade eu entendo. Passei por uma situação, ano passado, que era isso – ao que tudo indica. Não me apaixonei pelo meu amigo, mas confesso que já não sabia se o mesmo não tinha se passado com ele. Resultado: perdi um amigo. E perder amigo eu não aceito. Já disse, se tem uma coisa que eu sei fazer bem é ser amiga – sou das melhores. Esses dias estava ao mesmo tempo conversando coisas interessantíssimas com três amigas – uma que já é amiga há uns quinze anos (desde os tempos do Fundamental), a outra há uns sete anos (do tempo da graduação) e outra que conheci superficialmente na graduação mas que virou amizade há uns dois ou três anos. E tenho amigas de várias idades. Nunca fiz distinções de nada. Por prezar tanto a amizade que não tolero que outras coisas a prejudiquem. Infelizmente nem todo mundo é assim.

 

O que eu vejo dos relacionamentos é que as pessoas incluem neles muitas coisas que deveriam ficar de fora. Eu sempre fui muito radical, por exemplo, no quesito “família”. Não precisa (nem faço questão) conhecer a minha, nem quero (aliás, tenho pavor) de conhecer a do outro. Só dá merda. Sempre digo que o homem ideal é órfão. Quanto menos coisas “burocráticas” fizerem juntos, melhor. Por isso não acredito na reprodução em cativeiro (me explico, casais que trabalham juntos, que se conhecem no trabalho, no mesmo curso, essas coisas). Acredito que tempo e distância, bem dosados, fazem um bem danado aos relacionamentos. Sabe a vontade de estar junto? É boa, mas ficar o tempo todo junto vai fazer ter vontade de não estar junto. São coisas que a gente vai aprendendo com a vida. Dinheiro: nunca (eu disse nunca? repito: nunca) deve ser envolvido numa relação – nunca. No meu caso fórmulas prontas e repetição também estão fora – sei que tem quem adore rotina e sempre os mesmos programas, eu acredito que repetição mata qualquer coisa. Sinceridade sempre é essencial. Sabe o que eu sempre ouvi? Que não eram sinceros comigo porque “já sabiam como eu iria reagir”. Gente, vocês não têm noção de como isso me deixava com raiva. Sabe como eu vou reagir? Então me deixe reagir! Não esconder o que não deve é um conselho que todo casal deveria ter em mente. No meu caso não é bom esconder nada, porque invariavelmente eu descubro. E aí, ah, aí eu reajo. Tenho péssimas reações acerca de algumas coisas, é fato. Mas aí eu pergunto, relacionamento não é saber aguentar e conhecer o outro? Minhas péssimas reações vão junto, não tem como “evitar”. E, aliás, essas péssimas reações hoje são bem poucas. Troquei-as pela indiferença. Nem perco meu tempo tendo “reação”, só viro as costas. As testemunhas não são poucas.

 

Esses dias conversava com uma amiga (que está numa situação crítica, daquelas que a gente faz a tempestade antes dela acontecer) e ela me incentivava a seguir adiante na situação com um rapaz. No dia seguinte comentei uma coisa com ela e o conselho era justamente o oposto “não faça isso, não fale!”. Indaguei sobre a contradição e ela só me respondeu “daqui a pouco você vai estar como eu”. Pensei, pensei, e segui o conselho. Não fiz, não falei. Sim, fiquei um pouco (bem pouco) mal com isso. Eu queria ter feito, queria ter falado. Pensando bem, duvido que eu ficasse como ela. Já disse, estou velha pra isso. A gente aprende. Mas, também, não quis correr o risco. Todo relacionamento acaba. Disso eu sei. O problema, nesses casos, é o sentimento. Desses nunca consegui escapar – mas tenho conseguido rebolar bem ultimamente, acho que ando mais desconfiada. No relacionamento é possível colocar regras, limites. No sentimento não. (ia colocar um palavrão aqui, melhor não) E tenho cá pra mim que sou daquelas que ama amar – não necessariamente amar este ou aquele. E aí, ah, aí a coisa complica um tanto mais.

 

Além da decepção com os amigos que somem quando estou sozinha (vão à m, queridos) como agora, me dei conta de algo que me decepcionou ainda mais. Conversava esses dias sobre o que é apaixonar-se. Me disseram que nos apaixonamos pela pessoa, pelo jeito dela, pelo que ela diz, faz. Pois é. Já se apaixonaram por mim por causa disso. E minha decepção foi constatar que em todos – todos – os casos em pouco tempo eles tentavam domar tudo isso. Sim, tentavam me domar, meu tom de voz, minha risada, minhas loucuras, meu descontrole, e tantas outras coisas que nem vou listar aqui. O motivo? Não sei. Não é fácil conviver comigo, eu sei. Então, fica a sugestão, ao invés de querer domar, se mande. Faça como eu, ao ver que tentavam me domar, ou que o relacionamento desandaria, ponha um fim. Não há sentimento que me segure num relacionamento que já não existe mais. E sentimento é daquelas coisas que precisam ser regadas e alimentadas todo dia, se você terminar o relacionamento e seguir adiante ainda com algum sentimento, ele não vai sobreviver muito tempo – só se você se der ao trabalho de alimentá-lo, o que eu não recomendaria. Não se torne um mal-amado, recalcado, chato.

 

Iludir-se é bom, até recomendo, mas jamais sobre os outros. Não me contento com pouco. Talvez eu sempre queira demais. Eu ainda acredito que até num relacionamento isso é bom. Assim sinto que as coisas se movem, que têm um objetivo. Já vi muita vida desperdiçada porque parou no apartamento financiado juntos, empregos estáveis, segurança e “respeito”. Tem quem é feliz com isso, longe de mim querer crer que todos almejam o “movimento”. Nunca acreditei lá no poeta de que é impossível ser feliz sozinho. Vejo muita gente desesperada por “ter alguém”, um relacionamento. Acho que essas pessoas acreditam no poeta, ou querem desesperadamente acreditar. Ainda sou mais daquele clichê que se a pessoa não consegue ser feliz consigo mesma, jamais o será com um “outro”. Eu nunca consegui me divertir tanto com alguém do que me divirto sozinha. O problema é que as pessoas não querem “ser feliz” com o outro, elas querem prazer, elas querem segurança (ou o velho golpe mesmo), elas querem crescer profissional e financeiramente, elas querem alguém pra tirar o lixo, para ter companhia pro cinema, pra ir no Madero no dia dos namorados, ou alguém que lhes mande flores.

 

Eu? Eu não guardo datas. Eu nunca sei quando começou ou terminou um relacionamento (tem gente que me pergunta essas coisas). Eu não dou bola pro dia dos namorados. Nunca recebi um buquê de flores (nem da família) – como me disse uma vez uma aluna, ao receber um em sala, “flor a gente leva para os mortos”. Levo muito em conta a felicidade e já descobri que pra isso não importa nada ali da última frase do parágrafo anterior. Vi pessoas descobrirem que você não pode depositar nos outros a sua felicidade – grande lição, aliás.

 

Ah, só para encerrar (penso demais, escrevo demais, falo demais – pouco nunca foi meu forte), falar sobre as coisas ajuda pra caramba. Falar sobre relacionamentos, principalmente com quem você está, resolve muita coisa. Eu falo de tudo – menos de sentimentos. Sentimento tem que ser sentido, percebido, descoberto. E nessa história não há erros ou acertos.

 

 

Uma nuvem, cordas e uma pulga

 

Era uma nuvem. Parecia uma nuvem. Pairava sobre mim, até onde a vista alcançava. Cordas, havia cordas por todos os lados, me prendiam, me amarravam e me impediam qualquer movimento. Eu via uma pulga na minha mão – pulava, mordia, pulava – e nada podia fazer. Coçava e eu a observava. Imóvel. As cordas ninguém as veria. E eu não me mexia. Queria ser atriz, para viver tantas histórias. Viver amores, dores, idas e vindas. Minha alma aflita não se cansava de perturbar meus pensamentos. Eu procurava incessantemente um botão com o qual pudesse desligá-los – não o encontro. Não dormia, meus pensamentos não deixavam. Ser atriz seria um jeito de me desatar daquelas cordas invisíveis. Ou, talvez, eu devesse apenas deixar de ler e assistir a filmes. Já não cabem mais em mim tantas histórias. Preciso de histórias. Já não cabe mais em mim ter consciência da infinidade de belezas do mundo – todas as que eu não vi, as que nunca verei e as que já testemunhei. Minha cabeça não explode porque são idéias, pensamentos, mas se tudo fosse físico nem metade disso caberia nela e ela já teria ido pelos ares. Talvez, então, abrir mão dos livros e filmes. Mas, também, talvez abrir mão da visão. Ver tudo sempre o tempo todo me exauri. Eu vejo, não vejo mortos como fantasmas, mas até eles povoam meus olhares construídos de lembranças. Olho para quase tudo e, imagine se olhasse para tudo, já teria ficado cega. A falta da visão, talvez, consiga me deixar ordenar melhor a cabeça e mente aflitas. E os sons? E as falas? E o olfato? E o tato – ah! o tato! -? Preciso de histórias. Escrevo tanto e, para mim, não digo nada. Essas cordas e ali ao lado um copo de água – nem sede eu tenho – que eu cobiço mas desprezo. Não é o corpo que eu desejo alimentar e regar. Quer dizer, será que não? O corpo tem outras fomes. Ele, provavelmente, sente mais do que a tal alma e a desconfiável cabeça. A visão, a audição, o olfato, o tato – ah! – não são só meio para chegar ao intangível da alma. Pensei em me cercear de tudo – já que o mundo me cerceia de tantos e tantas coisas. Ir me podando aqui, ali. Podaria, também, os problemas. Insistiria em podar meus pensamentos por um pouco de sono. Sono? Eu disse sono? Pra que me serviria o sono? Ah, sim, pelos sonhos – aqueles que sonhamos dormindo – que são a plena realização do corpo e da alma. Neles ainda sou feliz. Neles não há nuvem nem cordas. Neles até quem eu quero me visita. Neles as paisagens se propagam. E meus olhos se abrem. Tudo continua ali: pulga, cordas, nuvem. Ah, há luz também. Se ao menos houvesse sol eu lembraria daquele amor que um dia me disse que onde não há sol não há vida – ou, mesmo não tendo, eu lembro dele. Aqui não há sol. Diria um Lógico “Se não há sol, então não há…”. (completem pois me dói demais colocar cada letra de um pensamento tão grande) E, talvez, seja esse sentimento de que há vida demais (para ser vivida) e eu, nem sendo atriz, conseguirei viver o mínimo que desejo. Nem penso no mínimo, nem o mediano – não gosto dessas quantidades e do que elas implicam – o máximo me parece bom, mas bom é pouco. Sempre gostei de transbordar. Não sou muito ecológica e tampo o ralo para ver a água da torneira enchendo a pia até começar aquele fio de água a transbordar e se transformar numa mini cachoeira – espetáculo visual e reflexivo. Gosto do verbo, da ação: transbordar. Assim as coisas não cabem em coisas, assim desafiamos espaços. Talvez se eu olhasse mais para a pulga, tomasse consciência da coceira, planejasse um ataque seguido de execução. (para quem não entendeu, esta seria a realidade) Mas, não, para falar a verdade nem tinha me dado conta da coceira. Olho para a pulga e, pelo tamanho, fico imaginando se é um fêmea, se tem filhos, se é adolescente se esbaldando na gula. Preciso de histórias. Talvez, enfim, se fosse uma injeção (vide meu pavor a elas) a realidade me vencesse. Mas, não. Minha cabeça acionaria o botão de emergência (sem eu não precisar de um segundo de raciocínio – ele é evoluído) e eu desmaiaria, desligaria todo o meu sistema nervoso, ficaria inconsciente. Às vezes ele faz isso, toma uma medida drástica contra a realidade. Preciso de histórias. Sim, de histórias na realidade – mas, vejam bem, estou descartando alguns roteiros desinteressantes, tenho apreço pelas fortes emoções, para a adrenalina, para a beleza; digo mais, dispenso também as histórias repetitivas, as sem sal nem açúcar e congêneres. A nuvem. As cordas (invisíveis). A pulga. Pulga? Nem lembrava dela. Talvez atriz. Talvez um plano (hein?) de fuga. Talvez um salvador todo de preto, empunhando uma adaga com cabo madrepérola, montado numa moto cor vinho. Talvez o sono. Talvez os livros. Talvez, enfim, uma luta feroz, árdua, dolorosa e longa de roer as cordas com os dentes e as unhas. Se ao menos houvesse sol. Só entro numa luta se eu sei que haverá uma boa recompensa. E não falo de bens – pouco me importam os bens, o material, não quero ter nada, nem hoje nem nunca. Enquanto cogito uma recompensa, há a nuvem e as cordas (invisíveis). Porque a pulga, até ela, debandou e foi lá ver seu filho, ou, quem sabe, procurar outro sangue.

 

As pimentas do Rubem

 

Não era para eu estar escrevendo neste exato momento, mas não resisto.

 

Nem vim contar que ontem vi mais uma estrela cadente, não foi em Guaíra, foi no Campeche mesmo, e bela como da outra vez – o pedido também foi o mesmo da outra vez.

 

Mas é que passei uma parte do fim de semana com o Rubem Alves (sim, já citei-o aqui sobre as Gerais) e desde que li um texto dele há uma idéia fixa martelando meus pensamentos. Já escrevi uma vez sobre o ato e os motivos de escrever para o blog, de vez em quando falo disso.

 

Estou num momento de descrer um pouco das palavras como comunicáveis para os sentimentos, por exemplo. Tanto que me peguei pensando que não escrevi sobre Teresina e escrevi sobre Belo Horizonte. O que eu sinto é real demais, está sempre tão na superfície, à flor da pele. Porém, quem me vê acha que tenho sangue de barata. É só para iniciados. E as palavras?

 

Decidi que não quero nunca mais ouvir um “te amo” (ou “eu te amo”, ou “amo-te”, qualquer variação). Decidi isso, assim, baseada na incomunicabilidade das palavras e na crença de que sentimentos e tantas outras coisas devem ser expressos e sentidos – jamais ditos. Demonstre. Aja. Isso me basta. Tenho me furtado às palavras dessas veredas… mas não perco uma boa conversa. Isso me lembra outro post dessas últimas semanas – talvez o mais incompreendido do blog até hoje. Tenho simplesmente afastado as palavras das coisas, das pessoas, dos sentimentos. Acredito que não das idéias.

 

Assisti a um dos melhores filmes que já vi no cinema, filme feito para a sala escura, para a telona. Era sobre sentimentos. Havia poucas palavras, uma dose exata e deliciosa de música, uma direção de babar, uma incomunicabilidade dolorosa, sons bem percebidos (como o tique-taque do relógio numa sala onde duas pessoas não falam – aqui, agora, é o que ouço, somente o relógio me agitando). E a cena que mais disse tudo neste filme foi a da protagonista lambendo o ombro do seu amante. Ela nunca conseguiria explicar isso para o marido.

 

Enfim, “O que escrevo não é o que tenho; é o que me falta.”, diz ali o Rubem. Pensei mil coisas para conseguir justificar com esta frase – inclusive a falta que eu tenho com trazer coisas do meu cotidiano para o blog e tantas outras questões. Rubem respondia à questão (que nunca lhe foi feita) se ele é mesmo como escreve e tascava “Escrevo o que não sou”. Sim, sim… e aqueles que dizem que, ao escrever, não conseguimos fugir de nós mesmos? Não sei. Sobre o poeta escrever para invocar a coisa ausente faz ainda mais sentido… Pensando cá com meus botões cheguei à idéia que escrevo pelo que me falta, sem jamais chegar a citá-lo. Eis a incomunicabilidade das palavras. Escrevo o que me falta, talvez não consiga ser tão fiel ao que não sou, mas decididamente não escrevo tudo – muito menos o que sinto. E eu? Sou mesmo como escrevo?

 

Esses devaneios acabaram sendo dirigidos para todos os tipos de escrita do momento – livro, blog, dissertação, e-mails, chats, diário (oh, yes! retomei-o!) – e geraram um momento de auto-reflexão monumental. Me deu até vontade de mandar um e-mail para o Rubem agradecendo às pimentas (vejam só, ele é mineiro e ao falar em pimentas não esqueço as maravilhosas lá do Mercado Central), como ele mesmo diz no começo do livro “Pois há idéias que se assemelham às pimentas: elas podem começar incêndios nos pensamentos.”. E lembrem-se de nunca tomar água para apagar o incêndio de uma pimenta. Se para começar um incêndio não é preciso fogo, foi feito o estrago.

 

 

As Gerais

Eu queria escrever sobre as Gerais. Foi minha segunda ida até lá. Contudo, havia três problemas. O primeiro foi que eu não “voltei” de lá – me explico: cheguei em casa, na volta, sem a sensação de ter voltado, nem sei se isso é possível explicar porque é algo que eu senti, e um indício é a falta do mau humor que me acomete sempre que eu “volto”; o segundo era a insatisfação por ter visto tão pouco e por ter ficado pouco tempo, voltei como o sentimento de falta; o terceiro, muito mais interessante, é que meus sentimentos pelas Gerais tornou-se complexo.

Aqui não é um blog de viagens (acho que a Jules faz muito melhor lá no dela) e entendi, ao começar a escrever, que as Gerais para mim é uma questão de sentimento. Os motivos dela ter entrado na minha vida e das nossas relações tratam de sentimentos e estes, para mim, ainda são incomunicáveis. Não, eu não sei comunicar sentimentos. Felizes vocês que conseguem. Por isso tentei pensar nas observações, nos pensamentos, trato muito melhor desses.

Eu estava lá e amava e não sabia o que pensar sobre certas coisas e… mil sentimentos confusos. Foi assim. A viagem em si foi daquelas obras do Destino que fundam minha vida e sem as quais eu não saberia viver. Se 2012 foi do ineditismo, 2013 é o planejamento sem chão, o intuitivo, a fé no Destino – aquele velhinho safado. E eu só faço o que ele manda. Em algum lugar perdi medo, perdi vergonha na cara, perdi preocupações materiais.

Vou tentar elencar algumas impressões do pouco que vi das Gerais. E do tanto que não vi e achei que veria.

1. Belo Horizonte está alguns (poucos) graus abaixo do Rio de Janeiro no quesito caos. Os motoristas são muito loucos. A quantidade de ônibus pela cidade e principalmente no centro é absurda. Fiquei de cara que não há terminal de ônibus (pelo menos eu não achei nenhum e um motorista de táxi disse que realmente não há mas que vão construir – Copa feelings). A cidade é suja (e em alguns lugares o cheiro é nauseante) e ninguém parece se importar com isso. Dizem que é mania desse povo do Sul a coisa da limpeza – pois então que seja. É fácil e nem tão caro pegar táxi.

2. O povo belorizontino é barulhento.

3. O Mercado Central é fantástico. Pra quem virou cultivadora de pimentas aquilo lá é um sonho. De vez em quando dá aquela vontade de ir lá comprar umas. Ou um queijo da Canastra. Ou um pingo. Ou mais uma bolsa em couro, artesanal, daquela loja linda. Foi lá que comprei a bolsa mais linda da minha vida.

4. Não vi direito o pôr-do-sol. Ah, pois é. Essa parte foi bem difícil. O sol se põe cedo por lá. Um dia cheguei a vê-lo melhor na estrada, mas em BH (eu detesto abreviações e tal, mas voltei de lá soltando um ou outro “BH”) foi impossível.

5. Não se engane, chegar ao mirante das Manguabeiras não é tão “fácil”. Lá de cima a vista é realmente linda.

6. Aliás, conseguir informações com os belorizontinos é uma missão. Não sei se não estão acostumados com pessoas de fora (talvez não seja cidade turística, mas imagino que deva ter um bom fluxo de viajantes), mas há uma desconfiança, umas meias palavras e só.

7. Obras para todos os lados. Aquele ar “cidade planejada” passando por cima de tudo. Viadutos, trincheiras, obras faraônicas. Enquanto isso a rodoviária caindo aos pedaços e abandonada bem no centro da cidade – dizem que vão construir uma em outro lugar, mas só daqui uns dois anos. Copa feelings para todos os lados. Fiquei abismada que deixarão a rodoviária do jeito que está para a Copa. Nem uma limpeza e reforma?! Até a de Curitiba que estava bem melhor está sendo totalmente reformada. Ah, sim, vão usar aeroportos, mas para acesso às cidades históricas e toda parte mais “turística” de Minas o principal acesso é pela rodoviária. Confesso que não entendi. Aliás, a rodoviária dá aquela sensação de alerta. Aliás, eu que nem sou paranóica com segurança tive que ligar o sinal de alerta por BH. Sério. E com motivos.

8. Os entrecruzamentos das ruas planejadas é intrigante e, assim, apaixonante. Para que quadras quadradas, não é mesmo?

9. Mineiros. Não são lentos, não se enganem, meninas. São bem diretos até. Mas parece que leva tempo até você “conquistar” um – em outro sentido. Li tanto sobre a “hospitalidade mineira” e essas coisas, mas demorei para encontrá-la. Mas eu gosto de mineiros, não duvidem.

10. Museu das Minas e dos Metais. Apaixonante. Incrível. Não adianta eu tentar explicar. Você vai achando que é um museu como outro qualquer, mas ele é muito além. Sei que sou fanática por pedras e tal, mas não foi só por isso que me apaixonei. Ele tem aquela coisa que você vê bastante por lá: um avanço, uma modernidade gritante ao lado da preservação orgulhosa de uma bela História, de valorização mesmo do que eles têm pra contar. E isso foi o que mais me apaixonou pelas Gerais.

11. É assim: o novo e o velho, lindos, muito bem pensados, lado a lado. Isso muito me agrada. Um exemplo é a Academia Mineira de Letras, os dois prédios simbolizando isso.

12. Uma das primeiras coisas que vi: viadutos e estradas com nomes de escritores. Sorri instantaneamente. Nunca se perguntaram por que tantos nomes de políticos e empresários nas nossas ruas e vias? Então, eu já. Minas tem um elenco invejável de artistas e escritores. Quando vi o viaduto Murilo Rubião um pedaço da minha vida me veio à mente. Coisa que só vi lá, infelizmente. Copiem. (sim, tirei uma foto agarrando o Carlos e outra fazendo sanduíche de gente com ele e o Nava)

13. Sei que tem essa coisa dos mineiros pelo Rio de Janeiro. Consegui explicar pelo nível de caos que as aproximam. Aí reparem que BH é provavelmente a cidade brasileira mais bem localizada. Em uma hora de avião você chega a São Paulo, Rio, Brasília, Vitória. Ou em umas duas horas a Curitiba, Fpolis e outras. De BH em uma média de 500km você chega aos maiores centros urbanos do país. Para alguém assim viajante me encantei com isso. Tanto que quase segui para Vitória.

14. Sim, comi pão de queijo e queijo da canastra todo dia no café-da-manhã. Não caí de amores pelo prato típico contemporâneo que consiste em uma chapa com carne, linguiças, palmito, batata e variações. Mas foi o que mais comi lá. No Mercado Central há um bom restaurante de comida mineira (difícil de achar! me disseram que para o interior é mais fácil) gourmet. Pastéis pelo centro: 10 por R$7,90. Diz que não dá pra amar?

15. Inhotim. (um motorista MUITO louco, o Cardoso, nos levou – os ônibus saem da rodoviária todo dia pela manhã e voltam à tarde, bem pensado e organizado, mas o motorista me fez soltar palavrões durante a viagem e encolher, em alguns momentos, até o dedo do pé – e olha que sou bem acostumada com motoristas loucos) O comentário mental que me ocorreu em Inhotim: não parece Brasil. Ah, pois é. Quando vemos algo sensacional no Brasil logo corremos dizer que não parece daqui ou que parece algo dos EUA ou Europa. Complexo, né? Tudo tão limpo, organizado, genial que infelizmente foi o que me ocorreu. Eu queria um Inhotim em várias partes do Brasil. Preciso dizer que chorei ao entrar na galeria do Cildo? E que me emocionei deveras com a exposição da homenagem ao Lumière que esteve em Paris faz pouco tempo (já havia lido sobre ela e ao vê-la fiquei estarrecida). E as obras do Oiticica? A galeria dele me fez quase desistir de entrar e depois escrevi mentalmente uma associação com a vida. Fantástico. Tudo lá é tão pensado que os carros são elétricos (há carros disponíveis para idosos e pessoas que necessitam, fora essas condições é preciso pagar). E a das velas? E o modelo das casas dos franceses na África? Não, não citarei mil nomes de obras e artistas. Vão lá ver. Em alguns momentos infelizmente eu ouvi e vi atitudes de pessoas que parecem que não deveriam ir a um lugar desses, sério. E o tamboril?! Eu quero um pedido de casamento aos pés do tamboril, já me decidi. Assim: vão a Inhotim. Só isso.

16. Inhotim está cravado na cidade de Brumadinho. É uma sensação meio irreal mesmo porque há uma discrepância muito grande entre os lugares. Em BH a cissão entre “ricos” e “pobres” é gritante. A gente vê isso em qualquer cidade, é claro, principalmente em capitais, mas em BH parece que há um abismo ainda maior. Incomoda – no bom sentido.

17. Sabará. Amor. Amor. Amor. De tão lindo e de tão precário o cuidado e a preservação. Dentro da Igreja do Carmo me deu aquele nó na garganta. Era por ver o barroco (aquele dos meus livros de arte, História) ali materializado na minha frente e por perceber a dificuldade que há em mantê-lo. Pensei que um dia poderão não existir mais. E as pessoas que trabalham lá falam com amor das coisas. Os mineiros lá eram mais acessíveis. Subi o morro até a Igreja de Nossa Senhora do Ó. Fiz um pedido/promessa. Ou seja, em uns dois anos terei que voltar. Ela impressiona muito pelo tamanho, pela história e pela arte dentro. É fantástica. Todas são. E a casa do Aleijadinho? E as histórias sobre o túnel que levava da casa dele direto para dentro da igreja? Emocionante. (essa história, acerca da repulsão da sociedade da época pela deficiência do Aleijadinho me fez lembrar de uma história semelhante de um pai com seu filho lá das Sete Cidades, no Piauí) E a bancada de trabalho dele? E a Sant´Ana Mestra da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e do Museu do Ouro? A primeira pequena e com a virgem no colo, a outra imponente e com ela ajoelhada. Fiquei inebriada. E as histórias do Museu do Ouro e da Igreja do Rosário dos Pretos? Esta com sua construção pequena original e a “em construção” que foi abandonada por conta do fim da escravidão? Tantos lugares e fatos que me deixaram pensando em mil coisas – talvez por isso a dificuldade em “voltar”. Sabará entrou pra minha vida.

18. Pampulha. Se um dia foi, já não é mais tudo aquilo, né? Não sei, não me impressionou. Também nunca fui assim fã do Niemeyer. Igreja da Pampulha, de São Francisco de Assis: sensação estranhíssima entrar numa igreja projetada por um comunista ateu. Sorry, a coisa não fluiu. As pinturas do Portinari, por outro lado, são maravilhosas.

19. Sobre preços de entradas e fotografias: em Sabará tudo é um ou dois reais a entrada. Achei um absurdo. Eles precisam de dinheiro para manter as restaurações (de algumas igrejas lá se vão dez anos!), a manutenção. Postais também um real, tudo muito barato. Mesmo podendo claro que não paguei meia e comprei até postais. Na da Pampulha a mesma coisa (e também está precisando de reforma, há infiltração e tal). Eu não acho que pagar cinco reais seja um absurdo e as ajudaria bastante. Lugares como fortes e museus que têm financiamento cobram mais que isso por aí. Nas igrejas de Sabará só a dos Pretos permitia entrar com câmera (sem flash, é óbvio, quem entende sabe o motivo), a da Pampulha também não. O problema é que pode entrar com câmera, desde que não use flash, mas pela falta de respeito – RESPEITO – das pessoas eles resolveram barrar de vez. Acontecia que as pessoas entravam com suas câmeras e usavam o flash. Como eles não têm quantidade suficiente de pessoas para controlar os visitantes (ao contrário de Inhotim) resolveram proibir de vez. Isso me revolta. Claro que o babaca que não sabe usar uma câmera entra lá e liga o flash porque acha que está “muito escuro”. Na da Pampulha eu achei mais curioso porque dizia que havia “direitos autorais”. Eles disseram que há mas que o filho do Portinari não recebe. Fiquei matutando sobre direitos autorais e “reprodução”, porque afinal fotografar a pintura do Portinari não seria copiá-la, mas reproduzí-la. Achei que isso já tinha sido resolvido lá com o Benjamin, mas parece que não. Inhotim tem ingressos “caros” cerca de R$20 a R$28, mas às terças é gratuito. Sinceramente, pelo que oferece e por ser um programa de dia inteiro, não achei caro. O Museu das Minas também é algo barato, nem lembro de dois reais, mas fui na quinta-feira e era de graça. Como não amar?

20. Cuidado ao atravessar as ruas. Sério, há algo muito errado, inclusive com os sinaleiros para carros e pedestres, por lá. Ou todos estão desregulados ou eu não entendi a lógica deles.

21. Bares. Pois é, é a capital. Muitos, muitos. Mesas e mesas só com cervejas. Eu via e me perguntava: não comem? Futebol: são frenéticos por isso. Acho que a Copa lá será mais emocionante do que em qualquer lugar do país.

22. Sou uma amante dos horizontes. Ontem lia Rubem Alves (ah, esses mineiros…) e ele falava do amor dele por Fpolis citando que Minas tem mar, é só preciso saber encontrá-lo, no céu, ele diria. Pois eu digo que no céu, nos chapadões, no horizonte, nas linhas. Minas tem muitos mares. Por isso também senti falta de ir mais para o interior, ver os planaltos, ver as chapadas, ver mais serras e horizontes. Voltarei, é fato.

23. Um choque: é preciso pagar por tudo. Até pelo banheiro do shopping. Um contraponto com o item dos preços das entradas.

Vi e pensei muito mais, é claro. Nunca o bastante. Senti tantas coisas e sentimentos me levaram até lá… esses ficarão por aqui.

As Gerais fundaram em mim a sensação do complexo. Estou aprendendo a lidar com isso, mas sei que levarei algum tempo ainda. Pela segunda vez na vida ela remexeu as coisas por aqui. Desconfio que não foi a última.

Porque fugir sempre faz sentido e as cenas da vida

Dia desses ia voltar caminhando para a casa, à noite, sentindo todos os músculos do corpo – literalmente – quando decidi não voltar para casa. Outono na Ilha, vento Sul entrando forte e poderoso. Fazia frio, diriam uns. O vento é das dez coisas que mais mexem comigo. Às vezes eu tenho isso, vontade de fugir, de não voltar pra casa. E eu fujo de casa, às vezes conscientemente, às vezes não. Posso avisar ou não. Sim, já fugi ou saí sem rumo de casa muitas vezes, desde criança. Eu simplesmente saio de casa. Mas fugir e avisar não tem muita coerência, né? É que em respeito a minha mãe eu de vez em quando aviso “não te preocupa, vou dar uma sumida”. Ela já me conhece, sabe como é. Até aqui no blog já avisei que ia sumir. Às vezes deixo anotado num mural de casa que sai sem rumo, caso eu desapareça por muito tempo ou me aconteça alguma coisa, saberão o que foi. Uma amiga ainda esses dias me mandou uma daquelas imagens que circulam pelo Facebook que falava sobre isso. Aí encontrei essa e achei a minha cara. Tem até uma palavra pra me definir. (sim, também há essa obsessão por viajar)

 

tão eu, né?
tão eu, né?

 

E eis que naquela noite eu não queria voltar pra casa. Fui caminhando, passei a rua de casa e continuei… eu gosto do vento frio, ele faz com que eu me sinta viva, ele me revigora. Fui caminhando e pensando. No que eu pensava? Na vida. Tenho essa mania. Pensei em pessoas, pensei em atitudes, pensei em desânimos. Numa semana que o que mais me indignava era que eu não poderia falar com quem eu precisava. Sim, eu precisava de uma tarde conversando com ela naquele quarto de costura… e isso nunca mais vai acontecer. Nunca mais. Talvez, um dia, quando eu morrer, eu me encontre novamente com ela. Mas aqui, em vida, eu nunca poderei voltar àquele quarto. E tudo o que eu precisava era conversar com ela. Precisava ouví-la, precisava contar tudo o que me passa pela cabeça, precisava dizer como anda minha vida e ouvir o que ela acha dos meus sonhos para um futuro próximo. Enfim, eu não teria nada disso. Se eu não tenho isso, que é tudo o que eu preciso, então também não quero nada. Nem voltar pra casa. Fui caminhando e pensando. Quando as grandes coisas da vida não me interessam eu me volto para aquelas pequenas coisas que me rodeiam. E aí pensei em três cenas que eu havia presenciado naqueles dias na Ilha.

 

Cena 1

Me arrastando pelo centro, quase fui atropelada ao atravessar na Praça XV. Eu quase ser atropelada é normal por conta da atenção precária, mas dessa vez foi especial pela febre e intensas dores no corpo. Queria e precisava resolver umas coisas e comprar remédio. Tive que sair de casa. Me arrastava, como eu disse, pelo centro quando passei pela banca que vende maçã do amor e cocada. Eu amo cocada. Parei, perguntei quanto (pois é, a mão-de-vaca aqui já aceitou que três reais é um preço normal por uma cocada), escolhi uma (branca pura, please), a senhora foi pegar a sacola, eu fiquei catando o dinheiro na bolsa. Quando peguei a sacola ela disse “Obrigada, bom fim de semana pra você.” Ao que eu respondi na lata “Obrigada. Igualmente.”. Peguei essa mania faz algum tempo: sempre que a pessoa me diz alguma coisa eu respondo “igualmente”. Já surpreendi muito atendente de call center com isso, eles cumprem o protocolo com um “boa tarde” e eu respondo “igualmente”, eles chegam a gaguejar e de vez em quando até respondem um “obrigado”. Assumi pra vida, me desejou, desejo de volta – até porque se a pessoa está desejando algo de ruim internamente, vai ficar preocupada. Aí a senhora me disse “Obrigada. Quer dizer, bom fim de semana pra gente, né? (um sorriso) Nós merecemos.”. Eu sorri de volta e fui me arrastando em direção ao terminal. Ficou ribombando na minha cabeça “nós merecemos”. Eu não a conheço, ela não me conhece. E é tão fácil nos desejarmos um bom fim de semana porque merecemos.

 

Cena 2

Lá estava eu indo para um compromisso. Rio Tavares – Lagoa, entre dois lugares bastante habitados e movimentados da Ilha. Sentada no ônibus olhando pela janela, mp3 ninando. Três cavalos livres num tereno enorme (uma espécie de sítio) saem em disparada. Lindos, um todo marrom, um branco com manchas pretas e um branco com as patas mais escuras. Galoparam, galoparam, galoparam. Um luxo ainda com o ônibus em movimento como se fosse um travelling deles. Eu me senti extasiada. Um espetáculo. Ali, num dia de semana qualquer, na Ilha que tem essas belezas sem fim – para quem sabe apreciá-las. Não pareciam ter destino, não parecia haver motivo para a disparada, livres. Andar a cavalo é uma experiência indescritível e desperta os ânimos dos amantes da liberdade. A cena, tão linda quanto significativa, me voltaria à mente durante as longas horas burocráticas seguintes daquela tarde. Decidi até tatuar a palavra “liberdade”, em árabe, na mão esquerda.

 

Cena 3

Eu num ônibus novamente. Senta ao meu lado uma adolescente, snikker, calça skinny, moletom, mochila, cabelão. Digitava sem cessar no celular. Parênteses: tenho agonia com pessoas e seus celulares em lugares públicos. Faço cara feia pra quem fica falando alto no celular e não resisto – nem tento – a olhar o que as pessoas digitam nas suas mensagens. Sim, eu faço isso. Já vi muitas conversas por mensagens por aí. A maioria nessa coisa de casaisinhos bobos. Mas quando olhei a dessa menina franzi o cenho. Hein? Era assim “Talvez ele ficou chateado porque você não ajoelhou. Porque quando foi pro xangô Kamikarê a gente ajoelhou. Será que ele queria que a gente ajoelhasse?” (adendo: o nome do xangô ali não é o certo, na hora não entendi direito e não ia lembrar agora o certo) Confesso que quando li o primeiro “ajoelhou” pensei que ia rolar putaria na mensagem – já vi dessas também. Aí eu olhei de novo a menina, olhei a mensagem. Achei incompreensível. Ela estava mais pra uma adolescente fã de alguma banda de rock-pop. Que xangô era aquele? O que aquela menina andava fazendo? Sim, fiquei ali vendo a discussão sobre se deveriam ter se ajoelhado ou não e estupefata. Infelizmente tive que descer em pouco tempo.

 

Não foi uma semana fácil. Como as semanas começam aos domingos posso prever que esta próxima também não será. Ainda estou revoltada (com a morte, vejam só) de não poder ter aquela conversa. E, bem, a morte me faz não esquecer de certas coisas e datas. Imersa numa solidão imensa dispenso tudo e todos. Ao contrário do que as pessoas podem pensar, eu aprecio este estado. Aí ontem fui para o meu lugar favorito da Ilha, precisava ir lá para pensar, ver o mar, ficar só comigo. Fugi de casa. Como era sábado surgiram aqueles trilheiros de fim de semana e de loja de trekking. Ignorei-os tranquilamente. Quando vou lá lembro que já levei várias pessoas para conhecer o lugar, e que se eu levo alguém lá é porque essa pessoa é realmente muito importante para mim. Não sou dessas que vulgarizam atitudes. Aí fiquei pensando e me dei conta que todas as pessoas que lá levei não estão mais na minha vida, saíram pela porta dos fundos, não souberam honrar o valor que, um dia, eu dei a elas. A única pessoa que ainda está na minha vida e com quem lá estive foi quem me apresentou ao lugar. Eu? Eu continuo indo lá. Gosto de poder ir lá quando preciso ou quero. Já fui inúmeras vezes sozinha. Eu? Eu nunca faltei comigo mesma. Por essas e outras que a solidão é um negócio tão bom e faz tão bem.

 

Criei mundos mirabolantes, fantasiei futuros, construí diálogos. Fiquei algumas horas por lá perdida entre o passado, o presente e o futuro – o tempo, enfim. Senti falta das baleias, afinal é outono. Na hora de voltar, levantei e… os golfinhos estavam diante de mim. Sorri. Agora sim eu poderia ir embora. Minha vida é assim, eu vou esperando ver baleias, fico até chateada porque não as encontro, mas aí o Destino manda golfinhos. Nunca posso ter o que espero. O Destino sempre me surpreende.

 

Voltei saltitante e com pensamentos ainda a mil. A cigana, então, tinha razão: tudo ficaria para trás. E, sim, tudo e todos ficaram para trás. Agora é tão fácil perceber. Tudo o que aconteceu nos últimos meses foi para que o que acontecia antes tivesse fim, mas não seriam aqueles fatos que construiriam o futuro, seriam apenas meios para que as coisas novas viessem. Agora eu entendo. Ah, e não encontrei nenhum cobra coral. Isso foi o que me fez ter certeza da utilidade de muitos acontecimentos. Destino, você escreve certo com uma letra indecifrável, por isso eu demoro a entender.

 

O maldito tele-entrega

 Era pra ser um programa normal. Fui pra casa da amiga num dia à noite e ia rolar uma sessão dos nossos seriados favoritos, comida, bebida, fofoca, causos sobre os amores e desamores da vida. E aí ela quis pedir a comida.

Depois de inúmeras confusões, pedidos demorados, trocados, a dificuldade de pedir comida de madrugada, chega um x-bacon. Quando eu olhei pra ele quase chorei.

Foi assim, a gente namorava. Durante os anos de namoro eu engordei mais do que em qualquer época da minha vida – mais até do que nas crises de depressão da adolescência. Mas o problema era o tele-entrega. O maldito tele-entrega.

O programa para sábado era pedir uma pizza em casa. Qualquer comemoração, quando ele encontrava tempo entre as mil preocupações com o trabalho, era no fast food perto da minha casa. Eu tinha essa coisa de gostar de variar, ele tinha aquela coisa de ser sempre a mesma coisa. Nunca iria dar certo.

Quando a amiga sugeriu uma pizza eu já disparei um sonoro “não”. Era trauma. Quando o sanduíche chegou eu não comi nem metade. Era tão simples ter percebido que o relacionamento não ia dar certo. Eu não sou o tipo de pessoa de pizza aos sábados em casa e comemorações no fast food. Pelo menos, não sempre. Eu olhava para o sanduíche e já não conseguia nem sentir o gosto. Lembrei de todas as vezes que o relacionamento era aquilo de abrir o pacote da entrega, pegar o meu, ele o dele, cada um ali na cama, na mesa, no sofá, comendo o seu. Invariavelmente a TV ligada. Ela falava por nós. Não havia conversa, ela ficava ali falando sozinha enquanto comíamos em silêncio.

Fiquei traumatizada. Fiquei um bom tempo sem comer nenhum sanduíche. Nunca mais esses de lanchonete de bairro. Pizza entregue em casa, então, nem pensar. Além de engordar, me dar uma sede absurda, era um símbolo de tudo que tinha dado errado.

O errado naquele relacionamento foi não ter visto o quanto as coisas nos separavam. O quanto eu calava e aceitava porque eu havia concordado uma vez, mas não tinha sinalizado que aceitaria sempre. O quanto ele era de um jeito, eu o oposto – e aí a coisa não atraía, repelia. A segurança dele em ter o telefone da tele-entrega daquela mesma pizzaria à mão era o meu desespero pelo “mais do mesmo” – do qual eu fujo até na hora de pintar as unhas toda semana. Por um tempo a graça do relacionamento era essa, o encanto que um via no outro era o diferente. Mas não soubemos equilibrar, não soubemos dosar. Ou talvez certas diferenças nunca possam ser equilibradas, a balança sempre vai pesar mais para um lado. E aí o outro precisa se anular, ou aceitar, ou se conformar. Ou tudo isso junto.

Às vezes a gente pode até fazer isso, tem quem faz a vida inteira. Tem quem não consegue. Aí, para esses, o relacionamento precisa ser aquela coisa na qual as semelhanças façam mais sentido. Os dois precisam olhar mais na mesma direção, gostar mais das mesmas coisas. Não dá pra ele ligar a TV todo domingo pra assistir à Fórmula 1 e não assistir aquele filmão do Truffaut contigo. Não dá pra você querer andar de bicicleta numa tarde ensolarada e ele sempre arranjar uma desculpa pra não ir.

Não há a fórmula perfeita, disso todo mundo sabe. Mas a gente pode ir descobrindo um caminho aqui, um problema ali e tentar chegar mais próximo daquele que não vai deixar sobrar nem faltar. Torna-se um problema quando você acaba colocando tantos “poréns” e requisitos que nunca vai encontrar um que caiba em todos eles. Mas, nas linhas gerais é bom confiar.

O fast food, a TV e a pizza de sábado me fizeram entender que há diferenças irreconciliáveis sem a anulação de um dos lados. E eu não topo me anular. Me resta encontrar um que esteja mais perto das semelhanças, dos gostos e dos desejos. 

Sempre vai me restar ser feliz.

(Ps: a noitada foi muito boa, comemos besteiras, filosofamos sobre a vida, vimos um pouco de seriados, tomei um porre e às oito da matina fomos dormir lendo aqueles livrinhos “Amar é…”)

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