O bem, o mal e dois gatinhos no bueiro

Hoje o dia começou com o seguinte diálogo:

“Ele seria feliz comigo.” (disse eu) “E você, seria feliz com ele?” (a resposta-pergunta veio de sopetão) “Eu sofreria. Mas, eu gosto de sofrer.” (finalizei)

 

E foi o dia para pensar o quão incomensurável são o bem e o mal. Seja na proibição instituída por um governo, seja no caráter de uma pessoa, seja no meu amor passional.

 

Pensando nisso, nessa dificuldade, segui meu caminho. Ia para um lado, acabei, por circunstâncias da vida, indo para outro. Nem tive tempo de me irritar porque não iria para o meu canto favorito da Ilha. Estou pondo fé no Destino.

 

E eis que entre fotografias, pensamentos, longas caminhadas, estava eu ali em algum ponto entre a Caicanga e a Caeira da Barra do Sul. Do nada quatro olhinhos me chamam a atenção.

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Vejo, fotografo, paro e penso. Não, de novo não. Não, não posso deixá-los aqui. O risco deles serem atropelados era gritante. Estavam na beira do trecho onde é mangue. Ninguém por perto. Penso. Começo a chamá-los, tento atraí-los e o laranja já estica a pata com as unhas e abre o bocão. Não, gatos não gostam de mim. O cinza ensaia sair e o laranja parece o protetor, não deixa e ainda quer defendê-lo de mim. Chamo, tento atraí-los, penso. Eles se enfiam mais no buraco, estão muito assustados. Dou uns passos adiante e olho para trás: os dois estão com metade do corpo pra fora me espiando. Impossível ir embora e deixá-los ali.

 

Volto e continuo minha saga. Carros passam e buzinam reclamando de eu estar ali na rua tentando tirar os dois teimosos. Aí aparecem três meninos de bicicleta. Perguntas. Eu mostro os gatinhos e a operação de resgate começa.

 

Um deles, um pouco mais velho, com um cabelo laranja lindíssimo e sardas, assume a liderança. Eu pergunto se algum mora perto, nem que seja para ficar por uns dias, eu daria um jeito de encontrar quem pudesse adotá-los. Eu, antes deles aparecerem, já havia resolvido colocá-los na mochila e trazer pra casa. Ia dar um jeito. Não poderia ficar com eles, mas encontraria quem pudesse. O menino ruivo, Eli, diz que vai ficar com eles, que já tem uns e pronto. Os bichinhos é que não queriam sair por nada. Nós quatro em volta da tampa do bueiro, o cinza, mais amigável, sai mais fácil. O outro se joga mais para baixo. Aí aparece uma mulher e resolve ajudar. Eu digo que o melhor – talvez único – jeito é tirar a tampa. Você já ergueu uma tampa dessas? Pois é.

 

Enquanto isso, passa um casal. Sabe aquele tipo de pessoa que sempre tem palpite pra tudo? Pois é. A mulher começa o discurso “ah, acharam um ninho de gato?” (gato faz ninho, vai ver) O laranja, quando ouvia o outro, ensaiava sair. Mas não esquecia das unhas. Aí o cara deita na tampa e começa a enfiar o braço no buraco “ah, não adianta, agora ele caiu lá, já foi”. Confesso que meu auto-controle é um lindo. A mulher insistia “Larga esse aí, deixa ele ir lá com o irmão, ele não quer sair”. Eli levanta a voz naquela confusão e diz “Não, eu vou levar pra casa. Não vou deixar aqui, podem ser atropelados, qualquer coisa.”, a mulher faz careta e solta “Ah, que bom, que coisa boa, né?” e, felizmente, vão embora. Sabe o tipo de pessoa que não ajuda, que tem uma mentalidade infeliz? Pois é.

 

Não dava pra deixar de perceber o bem e o mal dançando…

 

Nos juntamos e depois de umas tentativas eis que conseguimos levantar a tampa. O gatinho se assustou e se jogou na água, sumiu. Momento mais desesperador. Resolvemos então jogar a tampa para o lado. Erguemos de novo e felizmente lá estava ele, tinha conseguido nadar de volta. Confesso que meu coração, apesar das vozes até negativas na nossa tentativa de salvamento, deu um nó quando ele se assustou e sumiu na água. Não poderia causar mal a ele enquanto tentava salvá-lo.

 

Um deles pegou-o e ele abriu o berreiro e pulou. Fui eu pegá-lo. Fui arranhada e abocanhada. Sim, duas mordidas daquela boquinha minúscula e meu dedo começou a sangrar. (Seguiu latejando e agora está inchado com as marcas dos dentes – se não der febre nas próximas horas, beleza, sem infecção. Não se preocupem, a UPA é aqui do lado.)

 

Agora a dúvida era como levá-los, tirei o casaco e a bolsa da câmera da mochila e colocamos os dois ali. Havíamos decidido, ele não morava muito longe, eles me acompanhariam de bicicleta e eu iria à pé com os bichinhos na mochila.

 

Devo abrir um parênteses para contar minha relação com os gatos. Nunca gostei deles. Ou eles nunca gostaram de mim. Sempre tivemos cachorros, então gatos eram os chatos que passavam nos muros fazendo com que eles latissem muito. A primeira vez que peguei um foi quando caminhava à beira de uma estrada do interior debaixo de uma chuva torrencial. Era um laranja também, minúsculo, que pulou na minha frente. É claro que peguei-o (com toda a dificuldade do mundo e muitas unhadas) e não poderia deixá-lo ali. Caminhei alguns quilômetros com ele e deixei-o seguro no banheiro de um restaurante na estrada. Não tinha como levá-lo. Ele, em agradecimento, fez xixi em mim. Coisas da vida. Eu tinha uns vinte anos. Depois eu adotei uma gatinha para dar de presente. Atravessei a Lagoa com ela na mão, até o Canto da Lagoa. Ela também queria me enfiar as unhas. Enfim, depois eu peguei-a de volta de quem eu havia presenteado. Um dia, voltei pra casa e tinha uma laranja deitada nos degraus da porta. Essa me adotou. Entrou em casa e ficou. Nada arisca, uma loira-louca. E, enfim, as amo. Mas gatos, no geral, ainda não gostam de mim. E se você me encontrar andando com um gatinho na mão por aí, não estranhe.

 

Não sei o que há nisso de encontrar gatos em beiras de estrada. Enquanto caminhava (a casa do Eli nem era tão perto assim), pensava na discrepância entre as pessoas. Eli, além de lindo, é um menino inteligente, voluntarioso, decidido. Olhava pra ele e pensava que quero ter um filho assim – ruivo e tudo. Eles criticaram um babaca que fez um racha com ultrapassagem perigosa na nossa frente. Eu pensava “então a humanidade não está perdida”! Eles me acharam uma louca por estar lá caminhando. Quando eu disse que morava no Campeche ainda perguntaram “mas você vai à pé até lá?!” com olhos esbugalhados. Não, não iria. Só ia caminhando até a casa da senhorinha que faz picolés iguais aos que a minha avó fazia, ali no Ribeirão, perto dos restaurantes.

 

O bem e o mal são mesmo incomensuráveis. Enquanto existem pessoas tão más a ponto de abandonar dois gatinhos à beira de uma estrada, existem pessoas de coração tão bom como o Eli, para levá-los para casa. O bem e o mal podem ser incomensuráveis, mas as pessoas não. Pessoas são boas, ou são más. Eu achava que fazer o bem era normal, obrigação até. Fiquei pensando que não sou o tipo de pessoa que anda por aí arrotando suas boas ações, mas as pratico. Não vou elencá-las aqui. Mas é um hábito, realmente. Quando criança eu achava que doar roupas, remédios, comida e utensílios, várias vezes ao ano era normal. Eu realmente achava que todo mundo fazia. Sim, foi um choque descobrir que não. Minha mãe me mostrou, talvez até sem querer, a importância de fazer o bem.

Também minha mãe me fez amar animais. Que tipo de pessoa faz mal a um animal indefeso? Ainda o tipo de covarde que não matou os gatinhos, deixou-os ali para serem atropelados. Sim, porque a idéia de que alguém os encontraria era só para acalentar sua consciência putrefata ao deitar no travesseiro.

 

Não sou daquelas que vive publicando fotos de animais para adotar, nem que faz campanha contra venda de filhotes, nem nada. Porque acredito em atitudes. Se certas pessoas tivessem salvado tantos animais quanto fotos deles que compartilham no Facebook, não existiriam animais nas ruas.

 

Eu estava precisando disso. Foi o complemento perfeito para as últimas reflexões. Ando cercada por pessoas egoístas, pessoas ruins, pessoas oportunistas. E comecei a pensar o pior (mais do que normalmente faço) de todas. Nem levei a sério o flerte do taxista para virarmos a madrugada passeando porque pensei que ele só queria o meu dinheiro. Não tenho visto ninguém com bons olhos, sempre espero (más) intenções, interesses. Do nada vejo Eli, minha esperança na humanidade, sendo aquilo que, sim, muitas pessoas ainda são. Eu não sou uma pessoa (completamente) ruim, mas a maldade que já me fizeram criaram essa casca grossa de auto-defesa. Só sou ruim porque a vida me ensinou a ser. Mas nem sou tanto assim, vai. Tenho esse lado passional-sofredora, mas é por esporte. Não é bom perder o hábito de se machucar com a vida. Quando você acha que ela não vai te dar mais nenhuma rasteira é que a coisa dói mais. Tento ver esse lado bom da vida, mas sempre com os olhos atentos. Olhos atentos (tanto me perguntaram como eu tinha visto os gatinhos no bueiro) que andam por aí observando… é um hábito.

 

Os gatinhos conheceram seus irmãos, estavam mortos de fome, o laranja continuou arisco (nem quis sair da mochila) e chegaram na casa do Eli dormindo agarradinhos. Só quem já viu dois gatinhos dormindo juntos sabe quão lindo é isso. A maldade das pessoas é que não permite que vejam. Eli tem mais três filhotes, um foi atropelado na frente dele e ele tratou e adotou e os outros dois foram abandonados na estrada perto da casa dele. Só muito coração para isso. Enquanto há pelo menos três pessoas ruins o bastante para abandonar cinco gatinhos, há um Eli para adotá-los. Estou ou não estou certa em admitir que há, ainda, bondade e pessoas boas no mundo, mas sempre com uma pitada de desconfiança? Um Eli para cada três criaturas que nem chamo de “ser humano”.

 

Depois fui caminhando até a senhorinha do picolé. Já estava fechado. Quase chorei. Depois de tudo, eu só queria um picolé. A lojinha onde eu queria ir também estava fechando. Lá se iam muitos quilômetros…

 

Nada é por acaso. E, sim, tenho essa mania de refletir, pensar e repensar em tudo. Andava tão desconfiada das pessoas e das suas intenções, tão blasé para os sentimentos sinceros dos outros, que não percebia certas delicadezas da vida. Eli, espero que o mundo não destrua essas coisas boas que você tem na cabeça e no coração. E, se destruir, espero que você tenha a mesma capacidade que eu de sempre conseguir revê-las. O bem e o mal são incomensuráveis, mas as pessoas não. Independente da proporção, ainda há pessoas boas e ruins por aí… só resta estar atento para saber decifrá-las. Eu diria que nem é tão difícil, mas tem que estar disposto.

 

 

Sexo, poesia, prosa e teorias

 

Andava por aí formulando teorias. Entre dias inexplicáveis, jogada na cama sem saber de mim, cheguei ofegante à conclusão de que tenho que discordar da Rita Lee. Sexo não é poesia.

Sim, há sexo na poesia. Mas sexo jamais é poesia. Fiquei, então, dias imersa nessas sensações e pensamentos…

Eis que hoje complementei-a.

Há pouco tempo, qualquer coisa que você falasse aparecia alguém dizendo “tem um programa no computador que faz isso”, depois veio o “tem um site que tem isso” e agora é “tem um aplicativo que faz isso”. O mundo se resume a ter alguma coisa dessas que resolva toda a nossa vida. Pois não há o que eu quero.

Queria que, na falta de uma lei – natural ou humana -, existisse um aplicativo que separasse automaticamente as pessoas com quem eu converso das com que eu faço sexo. Simples assim. Deveria haver pessoas com quem você conversa e pessoas com quem você faz sexo.

Sem que pudessemos misturar umas com as outras.

Há tantas – mas tantas – implicações quando se entremeiam as duas coisas que é melhor, eu diria muito melhor, que elas vivam em separado. Não desejo expor os vários exemplos, sei que a maioria de vocês – seres românticos por natureza ou necessidade, ou apaixonados inveterados que me lêem – não vai concordar comigo.

Eu quero poder conversar com uma pessoa sem que ela pense que eu faria sexo com ela. Eu quero poder fazer sexo com uma pessoa sem que ela espere que eu converse com ela – antes, durante ou depois. Há pessoas com as quais eu desejo fazer sexo, mas aí elas abrem a boca e… é broxante. Há pessoas com as quais eu só desejo ter excelentes conversas, mas aí elas querem sexo… e eu não. O sexo não é poesia e vive bem sem palavras.

Sim, sou adepta das palavras durante o sexo. Mas a conversa é outra coisa. Não, não acho que quem fala demais de sexo é porque faz de menos. Acho delicioso e saudável falar de sexo- tanto quanto fazer. Problema é quem só fala e não faz, é verdade. E tem problema quem só faz e não consegue falar sobre.

Não é essa a questão.

O sexo estraga a conversa e vice-versa. Eles vivem bem melhor em desunião. Não, você não vai concordar comigo. Sei que lhe passa pela cabeça o momento da conquista, da cantada (sim, porque ninguém mais seduz nem quer ser seduzido por ninguém – a que ponto chegamos), e como as pessoas muitas vezes a lábia leva ao sexo. Você é uma pessoa que ainda acredita nas coisas, que aceita essas estórias que contaram para que acreditassemos nas coisas. Você até se apaixona. Veja só. Contra isso nunca há argumentos. Não serei eu a discutir com um apaixonado.

Sobre relacionamentos: o que aprendi com meu pai

Resolvi emendar as relfexões sobre relacionamento e fiz aquela auto-análise sobre o motivo de eu achar chato e tal. Devo dizer que aprendi muito com os que eu tive, aprendi errando feio. Aprendi sabendo o que eu queria – e, principalmente, sobre o que eu não queria.

 

Mas, acima de tudo, aprendi com meu pai. Foi ele que um dia, entre gargalhadas, depois de eu ter dado mais uma demonstração daquilo que chamam “personalidade forte” me disse que eu nunca encontraria um cara que me aguentasse. Sim, ele disse isso quando eu era bem nova. Não sei se foi praga ou só constatação.
Fato é que na época eu já havia encontrado uns que queriam me aguentar “para sempre”. Eu ignorei. Depois de um tempo eu fiz questão de apresentar para papi um ou outro. Hoje acho que essa minha demonstração foi só para provar para ele que existem, sim, caras dispostos a me aguentar para todo o sempre. E cheguei à conclusão que sou eu quem não os aguentaria. Digo que fiz questão porque eu evito ao máximo contato entre affairs (de qualquer tipo) e famílias. Não me perguntem porquê. Acho chato. Só isso.

 

Um dia meu pai e eu tivemos aquela conversa séria. Com ele aprendi as coisas fundamentais sobre relacionamentos:

 

1. tem sempre um que ama mais;

2. tem quem não vive sem sexo;

3. camisinha e qualquer outro tipo de contraceptivo pode falhar.

 

Eu incorporei tanto essas considerações que acabei achando que são realmente as fundamentais. Quando tive essa conversa franca com ele eu já era bem segura de mim, toda cheia de informações. Mas achei que ele esboçou de forma prática o básico. Qualquer sofrimento de amor pode ser explicado pelo 1. O 2 implica vários problemas e roubadas dos relacionamentos. E o 3 é aquela espetada na responsabilidade. Eu era segura de mim, do que fazia do meu corpo, e ele só quis deixar aquele aviso de que é preciso saber dos riscos. Fazer sexo é assumir o risco de pegar alguma doença ou engravidar. O primeiro me apavora, o segundo eu sempre dispensei. Por isso sempre fui cuidadosa com essas coisas. Deus é pai, minha gente, e eu nunca engravidei de ninguém. É um pouco meu posicionamento sobre o aborto. Faz sexo, esteja ciente dos riscos. “O meu prazer agora é risco de vida” já dizia lá meu amigo.

 

Pra quem não vive sem sexo… bem, não acho estranho. Acho complicado as proporções que isso toma em certas situações. Vou ficar neste plano abstrato mesmo, não pretendo me aprofundar.

 

E, bem, sempre tem um que ama mais. Podem ter certeza disso. Como eu dizia no último post, você precisa aceitar muita coisa no outro quando assume um relacionamento – sempre tem um que aceita mais coisas do que o outro. Não é justo, não é bom, causa um baita sofrimento, mas é verdade verdadeira.

Sobre relacionamentos e experiência

Numa conversa hoje falaram “Ah, minha mãe disse: todo homem é igual, minha filha.” aí eu logo disparei “Todos são iguais, mas a gente pode escolher o menos pior, né.”.

 

Depois fiquei pensando sobre a origem dessa máxima. Sabemos que somos ainda (talvez sempre) uma sociedade machista. Não sei a origem da expressão, nem vou pesquisar isso. Mas me pareceu claramente o mote do casamento, de como a sociedade (ah, essa bela hipócrita) vê o casamento. A mulher foi criada para aceitar os homens. Eles são todos iguais, minhas filhas, não queiram separar desse que te faz infeliz, maltrata, porque um outro fará a mesma coisa – e você ainda vai carregar o estigma de ser separada.

 

Rola pela internet uma imagem com os dizeres (aquelas coisas auto-ajudativas-enjoativas) “Sou do tempo que quando uma coisa quebra a gente conserta” a respeito de relacionamentos. Eu realmente sou dessa época, tanto que já mandei um microondas quase da minha idade umas cinco vezes para arrumar. Sobre relacionamentos há uma diferença: as pessoas. Num relacionamento você dificilmente terá a chance de “consertar” algo para além da superfície, ou você se acostuma, aceita conviver com aquilo, ou você parte pra outra – ou para nenhuma.

 

As pessoas não mudam. Por nada nem por ninguém. Aceitá-las é o principal num relacionamento. Por isso muitos não sobrevivem à paixão, aquele período em que achamos tudo lindo e maravilhoso e que toleramos o que não gostamos no outro. A convivência será o divisor de águas. Por isso não acredito que existam relacionamentos perfeitos, nem felizes. Você pode até se acostumar que ele nunca liga tanto quanto você gostaria, mas não poderá jamais ser feliz por completo.

 

Tenho ouvido muitas pessoas me contarem suas aventuras amorosas, as histórias dos seus relacionamentos, as desventuras do coração em geral, histórias de separações, idas e vindas, paixonites, paixões avassaladoras. Comecei a achar engraçada a minha atitude e meus posicionamentos. Não acho que seja a idade, afinal não sou velha, mas é a experiência. É ela que me faz ser mais segura diante dos desesperos e descaminhos alheios. Quando a amiga está lá no momento só love todo confuso eu faço o discurso de que ela está apaixonada e é melhor assumir isso, senão vai sofrer mais do que o sofrimento que ela pensa estar evitando. Quando vem uma falar da crise, da possível separação, eu apóio, falo das questões legais. Quando outra veio contar das traições que praticava não pude concordar. E, vejam só, disseram que eu sou muito prática quando se trata dos caminhos do coração. Fui obrigada a lembrar o espanto das amigas quando eu disse que não amava mais minha primeira infame paixonite, elas não acreditavam que de um dia para o outro eu não sentia mais nada. É, talvez eu seja prática – pelo menos nisso.

 

Aliás, por favor, se você trai seu respectivo, não me conte.

 

Porque eu tenho ímpeto de contar para o traído. Não acho justo. Não quero ser cúmplice das falhas de caráter alheias. Não acho certo a pessoa trair e sair por aí contando pra um monte de gente, menos pro coitado do traído. Não me faça cúmplice, porque eu conto mesmo.

 

Me vi assim, experiente, distante. Me vejo assim. Nem a vida nem as pessoas me causam surpresas. Não duvido de amores e desamores, mas já me iludo bem menos. Se eu tivesse acreditado que todos os homens são iguais, eu poderia ter vivido o resto da minha vida com todos os homens do meu passado. E sei que eu poderia ter vivido com todos eles. Mas eu não quis. Eu não quis simplesmente aceitá-los. Principalmente porque eu poderei viver o resto da vida com o próximo, ou com os próximos. Eu posso ser feliz com quem eu quiser. Poderia ter sido com os do passado, poderei ser com os do futuro.

 

Naquela noite sobre o rio Paraná, a lua de um lado, as luzes da cidade do outro, eu vi uma estrela cadente. Eufórica apontei-a e fiz um pedido. (riram de mim) Nem toda a experiência do mundo vai me tirar a doçura de viver e de acreditar em coisas boas e bonitas. É claro que eu ainda irei me apaixonar loucamente muitas vezes. É claro que ainda irei ter muitas dores de amor. É claro que ainda vou chorar desesperada nas horas de confusão. Eu não quero me privar disso. Vou sempre lembrar das besteiras de menina que eu disse não, vou sair nas horas de confusão e provavelmente aparecerei em alguma porta completamente nua. Provavelmente. A experiência me permite fazer tudo isso com mais propriedade – ela vacina, não imuniza.

 

Algumas semanas atrás passei muito (muito mesmo) mal. Estava em casa, sozinha, na cidade que eu moro – família mora em outras cidades. Lá, caída, sem força, sem comer, sem conseguir fazer nada cheguei ao fundo do poço. Minha mente gritava para ligar pra mãe e pedir pra que ela fosse me buscar. A gente sempre lembra da mãe quando está na pior – ou, pelo menos, quem tem uma mãe extraordinária como a minha. Não liguei. Aguentei firme, dei um jeito, engoli remédio, me joguei na cama. É assim que a gente percebe que é sozinha (sempre fui), que é dona da própria vida, que responde por si. Quem não se dá conta disso é aquele tipo de mulher que não se separa porque tem medo de dividir os bens, de voltar pra casa dos pais, de ter que pagar as contas sozinha, de se olhar no espelho e não ter em quem pensar ou por quem se arrumar. Eu não sou esse tipo.

 

Nem sei porque escrevi tudo isso. Me perdi em divagações. Me irrita o machismo, me irritam as pessoas que se acovardam. Mas podem ter certeza que é muito difícil eu falar ou escrever sobre relacionamentos. Muito mesmo. Simplesmente porque não gosto do assunto. Acho chato. Como dizem que sou contra o casamento, serve um pouco como reflexão. Porque eu penso sobre o que eu não gosto. Penso sobre assuntos que acho chatos ou desagradáveis. Penso bastante quando tropeço na hipocrisia e no machismo, por exemplo. Eu penso demais. E acabo até escrevendo sobre relacionamentos.

 

 

Já dizia o Rei: com palavras não sei dizer – decisões, crises, os 25 e algo mais

Eu queria – e, de fato, poderia – escrever sobre muitas coisas. Queria dizer o quanto acredito no Destino quando ele inverteu a ordem das coisas na última viagem a São Paulo, e que até quando as coisas dão errado, dá tudo muito certo. E assim que sempre relativizo o conceito “errado”. Queria dizer como me senti aquele dia lá em cima daquele morro, na Ilha, com tudo e todos tão distantes, o silêncio e o vento me fazendo companhia com pensamentos entremeados de lembranças. Queria dizer como foi ver a lua na linha do horizonte numa noite no meio do Mato Grosso do Sul, na estrada ouvindo música. Queria dizer que meus pensamentos eram todos dele ao longo de centenas de kilômetros nos últimos dias. Queria dizer que a responsabilidade é a dor-delícia da vez e como ela pode crescer. Queria dizer o que é sentir-se em meio a um redemoinho do Destino. Eu queria dizer o que foi que senti diante daquele monumento histórico. Queria explicar o que é conviver com a minha solidão. Queria contar como me sinto querendo reatar laços antigos que foram desfeitos pelo peso da vida. Queria discorrer sobre como é me ver diferente em relação a sentimentos antigos, dizer como mudei no último ano, o quanto olho para mim com outros olhos.

 

Já dizia o Rei, “eu tenho tanto pra te falar, mas com palavras não sei dizer”. Eu fico assim sem conseguir escrever aqui tudo o que eu queria. E não é a primeira vez. Tantas coisas do ano passado não vieram parar aqui por esse mesmo motivo. Estão trancafiadas aqui dentro operando mudanças e fortalecendo estruturas. E escrever pra mim é e sempre foi, também, catártico. Não me entendo, não sei se poderá me fazer algum mal. Às vezes acho que são coisas de médio e longo prazo, porque o futuro reserva coisas pesadas demais.

 

Ainda nos últimos dias, olhando pela janela e vendo paisagens novas eu pensei sobre o quanto é difícil tomar decisões. Eu tenho uma especial dificuldade com isso. Muitas vezes espero que as “coisas” as tomem por mim, ou fico esperando algum “sinal”. Tomar decisões é ser radical entre isso e aquilo e eu normalmente quero tudo. Mas, mais difícil ainda do que tomar decisões é sustentá-las. Creio que é o que eu tenho passado. Tomei certas decisões cabais nos últimos anos e o mais difícil (até porque tenho uma forte tendência de tomar decisões no impulso, na emoção) tem sido sustentá-las sem fugir ou me acovardar ou simples dizer que quero outra coisa. Na verdade, eu não quero. O mais difícil ao sustentar minhas decisões tem sido o medo e uma espécie de temor (ah, Kierkegaard!). É como se eu tivesse tomado a decisão de ir por um caminho completamente escuro. Estou ali, às cegas, caminhando sem ver nem entender nada. Quem não teria medo? Como não temer o próximo passo? Aí entra o meu “modo” de ser com amor à aventura, ao desconhecido e aos in/m e penso “Dane-se o medo”. Porque já escolhi seguir, não adianta nada temer. E eu detesto – detesto, com muita ênfase – voltar pelo mesmo caminho.

 

Se sobrevivi à crise dos 25, nada mais me ocorre de mais grave. Antes eu acreditava na crise dos 30, mas devo rever minha teoria. Diz a ciência que é a partir dos 27 que a gente envelhece. Mas é nos 25 que a vida nos coloca contra a parede. Somos poucos os que passaram dos 25 e que não se ampararam em alguém ou em algo e que decidiram – conscientes ou não – continuar com seus sonhos, seguindo-os, sonhando-os e recriando-os. Aos 25 você já prevê um emprego fixo, um amor pra vida toda, um lugar para morar, amizades sólidas, o afastamento da família. A vida parece começar aos 25, aquilo que chamam de vida adulta. Vai ver você não pode mais agir entre a infantilidade e o espírito sonhador, no meu caso. Pois não consegui. As pessoas se esforçaram. Acho que eu também. Não deu certo. Eu abandonei uma vida, fui para outra, não gostei, resolvi criar uma nova. Nessas idas e vindas sempre falta espaço para esse ou aquilo. A atual está em plena formação. Os 25 deram um tapa na cara e eu estarreci. Depois, resolvi que não era hora, ainda.

 

Esses dias fui escrever um texto e acabei indo por outros caminhos. Fiz uma auto-análise catártica de um relacionamento. Sobre certas coisas eu tenho as sensações e sentimentos tão claros no momento em que eles ocorrem. Sobre outras eu demoro muito para conseguir analisá-las. Aí a amiga me falou: mas por que você não me contou que se sentia assim, a gente teria feito outra coisa. Eu não sabia. Eu descubro meus sentimentos com a experiência. Descobri, também, que sempre fui assim. Só sei o que sinto através da experiência. Não é tão simples ou bobo quanto pode parecer. E eu queria dizer como é, mas com palavras…

 

Já dizem por aí que narrar não é dizer. Tambem dizer não é comunicar. Explicar não é, jamais, fazer-se entender.

 

Passei dos 25 imune ao casamento, ao ajuntamento, nem tão imune às doenças, mas dei uma baita resposta para elas. Não abandonei os meus sonhos nem diante dos dias de trabalho e vida vulgar mais excruciantes. Não me rendi ao saldo do banco. Não conheci (e Deus me livre conhecer) a tal estabilidade, nos sentimentos, nos pensamentos, no trabalho, na alma, no dia-a-dia. Resisti às avalanches dos discursos nobres e construtivos. Preservei minha rebeldia. Enfim, não aceitei. Disse muitos nãos para conseguir ainda dizer sins tão lindos para mim.

 

A crise dos 30 deve ter sido ultrapassada pela vida que dizem que anda cada vez mais rápida. Eu gosto de tempos de crise, deve ser por isso que eu prefiro vivê-las a me render a elas. Já diz minha irmã que eu serei uma quarentona muito louca de mini-saia jeans. Na hora da crise as pessoas procuram se abrigar, mas esquecem (será?) de sair dos seus abrigos depois que elas passam. Aí, passam a vida inteira abrigadas com medo de algo que elas nem sabem mais o que era.

 

Os abrigos que me ofereceram não me conquistaram com seu conforto e segurança. Acho que também não gosto disso. A segurança, o conforto e a estabilidade não nos ensinam a viver. Pelo contrário, nos deixam fracos. E é uma forma de confinamento, de sufocamento. Se você vive com segurança, conforto e estabilidade, fraqueja diante de uma crise e vai sucessivamente se abrigando das próximas crises. Nunca vai querer encará-las. Eu fujo disso.

 

E foi assim que os 25 passaram por mim. Foi assim que tive loucura o suficiente (seria arrogante dizer “coragem”) para sustentar minhas decisões. E é assim que não consigo dizer tudo o que tem sido a minha vida.

 

Ps: prometo deixar minha vida de lado e escrever sobre coisas mais reais e mundanas de vez em quando. O problema é o blog segue a linha desassossegada e olhar para dentro tem sido um exercício frequente demais para me permitir uma preocupação exagerada com o mundinho aqui de fora.

 

Sobre teorias e extirpações

Faz mais ou menos um ano quando foi que eu ouvi a teoria do “e precisa?”. Naquela madrugada e em vários outros dias ao longo desse tempo todo eu matutei e matutei sobre isso. E precisa?

Além da confusão que instaurou-se nos pensamentos e, claro, levou dúvida ao sentimento, houve um desastre anunciado nas atitudes e relacionamentos. Pouco restou disso tudo. Aliás, pra mim, não restou nada.

Se tem uma coisa que eu não gosto nessa vida é que as coisas fiquem mal resolvidas. Principalmente quando se trata de relações com pessoas. Para quem tem tanta dificuldade com as pessoas, quando as coisas desandam já não é mais dificuldade, é impossibilidade. E se tem uma coisa que eu sei fazer bem, principalmente nessas horas, é cortar relacionamentos de vez. Pra que ou por que manter uma pessoa na tua vida se ela não faz mais sentido nela? Ou se ela não demonstra ter coragem para manter-se nela?

Não há como entender os homens. Eu formulei a seguinte teoria: se age como babaca uma única vez, já não é mais homem, então pra mim deixa de existir. A teoria pode ser aplicada nas pessoas em geral. Se foi capaz de te sacanear uma vez, se teve alguma atitude babaca, esquece.

Claro, alguém com uma boa memória como eu não esquece. Mas definitivamente sei cortar laços. Extirpo pessoas da minha vida. Em casos nobres até dou chance, mas se não tem como, esquece – ou risca da lista mesmo.

Homem que é homem não se deixa ser mandado por mulher – seja ela esposa, namorada, caso, amante, o que for. Nem mulher que é mulher obedece homem nenhum. Aliás, mulher que é mulher não manda no seu respectivo marido/namorado/caso/amante. Mulher que é mulher se garante e encara as coisas de frente.

Acho lamentável que existam pessoas que fogem do que sentem. Pessoas que se acovardam diante das possibilidades que o mundo lhes dá. Pessoas que não assumem seus desejos e dúvidas. Como diz aquela canção “É o amor agitando meu coração Tem um lado carente dizendo que sim E essa vida da gente gritando que não” mesmo quando não é amor, mesmo quando é só desejo, ou mesmo – e principalmente – quando não se sabe direito o que é e se é alguma coisa.

Esse tipo de pessoa é mais um que eu extirpo do meu (minúsculo) círculo de relacionamento. Em casos nobres que até reluto um pouco, dou uma chance e espero uma resposta. Vacilou de novo? É fim.

Tem quem prefira obedecer aos gritos de “não” que a vida dá. Azar. Eu não obedeço ninguém, muito menos no grito. Pessoas fantásticas, grandes amigos, pessoas inteligentes e interessantes podem simplesmente sair da minha vida porque tomam atitudes babacas. De babacas o mundo está cheio demais. Prefiro os casos mais extraordinários, nada vulgares.

Ps: Sobre a teoria do “e precisa?”, realmente quem a proferiu estava certo. Não precisa. A pessoa não precisa colocar roupa isso ou aquilo, a mulher não precisa rebocar a cara de maquiagem, saia isso ou aquilo, o homem não precisa passar a cantada genial, nem fazer mil convites e levar no melhor restaurante, ou qualquer coisa dessas que dizem que é o jogo da conquista. Não precisa nada disso. Para seduzir, conquistar, despertar sentimentos apaixonantes no outro não precisa de nada disso, basta ser quem se é. Isso sempre vai conquistar alguém. (e aí abrem-se mil poréns)

Borboletas, o covarde do tempo e a solidão de quem acredita

 

E é abril. E é outono. Eu sei, o mundo real bate na porta. A vida deve voltar ao seu curso.

 

Abril é a ressaca de março (e de janeiro e fevereiro, que são três dos melhores meses do ano) e o outono é a ressaca do Verão, ah! o verão! Meu bronzeado já deu adeus. Já voltei à cidade, passou o Carnaval, as festas…

 

Abril chega assim chutando a porta e exigindo respostas em forma de decisões e escolhas. Hein? Escolhas? Me mande comer bucho, mas não me mande fazer escolhas. Não, calma, não é para tanto. Sei lá, me mande gostar de futebol, mas não me mande fazer escolhas. 365 dias no ano e as coisas resolvem cair no mesmo dia. Caramba, Destino, já entendi. Não força a barra.

 

Então o humor se altera. A paciência diz que não vai dar as caras, como sempre. A rebeldia sacode o corpo. Para piorar tudo, instaura-se uma crise profunda de solidão. Aquela que não tolera o outro, que não quer ver gente, não quer falar com gente, que quer ficar só consigo, com os pensamentos, com a ficção, com as idéias e ideais. Talvez a mais grave desde aquela crise feia de muitos anos atrás. Pior que aquela impossível. Ou não.

 

E aí a solidão quer canto, casa. E a vida batendo na porta e na caixa de entrada do e-mail mandando ir pra lá e pra cá. Obrigações… e a rebeldia dando saltos mortais aqui dentro – e sobrevive a eles.

 

Eis que era para limpar a casa, arrumar e continuar a sessão desapego. Computador ainda para faz refaz desfaz backup, formata, instala, desinstala. Louça na pia, supermercado para ir. Filmes para assistir, coisas para escrever, contas para pagar. Ufa! Uma lista interminavelmente horrenda em vulgaridade.

 

Pra quê? Eu estava mal, ninguém sabia. Ninguém perceberia.

 

Me sacanearam e ainda me deram “bom dia”. Quem se importaria?

 

Crise de solidão. Sol. Dia lindo.

 

Joguei fora os planos para o dia (era uma ida solitária à Costa da Lagoa – aí penso, mas ali é para o leste, sem sol no final de tarde, não vale) e o cronograma oficial. Não faço planos, não sei seguir cronogramas.

 

 

Fui. Daria um jeito. Chegaria lá.

 

 

O caminho parecia querer provar alguma teoria escabrosa. Só provei que sou, além de tudo, muito persistente.

 

Ali diante do mar, ondas calmas, sol lindo… sorrio. Tenho esbanjado sorrisos, como nunca (lá se vai um ano assim). Nem quando estive apaixonada das maiores paixões (que nem foram poucas até hoje) – não estou apaixonada por ninguém, vale ressaltar. Esbanjo sorrisos ao ver algo incrível, ao pensar em algo ou alguém, quando ouço uma música no mp3. Se me vir sorrindo por aí, lembre que tenho todos os motivos do mundo.

 

Mas a vida não havia mudado só porque diante de mim estava o divino mar e um pôr-do-sol digníssimo. Não. Eu só me encontrava mais em mim, assim envolta cegamente em pensamentos.

 

Eis que caminho ao longo da praia, pé na água… pra lá, pra cá… observo uma coisa ou outra e na verdade não estou observando nada. Até que me dou conta do que era aquilo que eu observava. Borboletas. Borboletas no mar.

 

(quando já ia embora da praia pensei que ver aquelas borboletas tão inusitadas me lembrou Cem Anos de Solidão, há alguma cena de borboletas saindo do banheiro ou algo assim – e de como foi difícil o começo da leitura dele, como sofri com a tal literatura fantástica que só vim nomeá-la depois, e quando simplesmente acreditei nela é que tudo fez sentido)

 

Talvez haja uma explicação científica. Talvez algum fato comprove a presença delas ali. Só posso dizer-lhes que em tantos anos de praia e de vida (dá no mesmo) eu nunca tinha visto aquilo, nem ouvido falar. Eram dezenas de borboletas mortas boiandos nas ondas. Dezenas. Ou mais. Eu olhava sem vê-las até me dar conta do fantástico daquilo. Olhei em volta buscando uma explicação que eu nem queria. Praia que traz coisas de alto mar por conta das correntes, mas borboletas não vêm do alto mar. Borboletas não se suicidam. Borboletas e mar, nada a ver.

 

 

Foi isso que fez, então, todo sentido. Eu acreditava, borboletas boiando no mar aos meus pés. Fiquei mais de hora ali com elas. Até resolvi fotografar algumas para que não me chamassem de louca. Agora até provas tenho.

 

Acreditar é o que faz sentido na minha vida. Só isso. Eu já sabia. Mas em meio à crise eu precisava ser lembrada disso. Nada mais lindo, fantástico, louco e inusitado para me lembrar disso do que aquelas borboletas surgindo aos borbotões a cada onda. Eu já não vivia aquela vida vulgar de obrigações e mês de abril de mais um outono.

 

Outono, o sol se pôs mais cedo (horário de verão, I miss you so much!) e atrás do morro mais alto. Abril, você também vai passar, deixando saudade ou não. Duvido que superes março, mas podes tentar.

 

Eu poderia ter ficado em casa. Poderia ter sofrido com a minha crise. Poderia ter limpado a casa. Poderia estar, agora, com tudo em dia. Não teria visto borboletas no mar. Aliás, eu jamais teria perdido a chance de ver borboletas no mar.

 

“Mira como corre, qué cobarde es el tiempo” pois que corra, eu não tenho pressa em acompanhá-lo. E como diz a outra canção, “eu vou sair nessas horas de confusão” porque confusão não se cura sufocando-a nem alimentando-a. Confusões e crises são curadas com o ar. Ou com borboletas ao mar, mas aí não é pra qualquer um.

 

(na hora do sol se pôr também surgiu um objeto não identificado à esquerda dele, ao sul, brilhante, pequeno, durou uns minutos e sumiu – sério que ninguém mais viu? as fotos não ficaram tão boas.)

 

Me demoro à beira-mar… volto aos pensamentos, fotografo pouco, redescubro certos cantos e olhares. Lasco o dedo do pé numa pedra e só vou me dar conta disso horas depois. Já tarde vou seguindo meu caminho. Sentam ao meu lado duas mulheres e um menino uruguaios. Querendo me deleitar com a fala deles tiro o fone de ouvido. “Tus amigos saben hacer el amor?!” eis que uma pergunta. Engulo uma gargalhada engasgada daquelas e me esforço por manter o rosto sem nenhuma expressão – finjo que não entendo o idioma. Presto atenção para entender o descabido da declaração e o menino, coitado, se esforça para explicar que já ensinaram na escola essa coisa de espermatozóide e óvulo e tal. Ao que a mulher quer detalhes se já falaram de pintos e vaginas, o coitado ri e diz que sim, mas que isso já sabiam. O diálogo prossegue com as duas indignadas de meninos de oito anos aprenderem isso enquanto elas só aprenderam aos doze, treze anos. Elas ainda insistem para que ele diga a reação dos colegas ao assunto tão interessante e motivo de piadas para aqueles que não o conhecem.

 

O ar tinha o perfume da Dama da Noite. O Rei começava seu show a uma ponte de distância de mim, as pessoas se arrumavam para ir para a balada, eu sorria volta e meia ao lembrar de alguma coisa ou ao ouvir alguma canção do mp3. Me deixem sem dinheiro, sem amigos, mas não me deixem sem mp3. Cantava Cazuza que queria alguém pois o cachorro já não o lambia, os pais não o entendiam e os amigos eram chatos: dispenso o alguém, amigo, mas no resto estamos na mesma.

 

Aliás, dispenso qualquer alguém na minha vida. Não sei até quando, já não entendo o motivo, mas acredito no meu coração quando ele me pede isso. Posso não estar na idade para paixonites (essas realmente dispenso), mas também não passei da idade para grandes amores.

 

Borboletas. Acreditar. O tempo, esse covarde. Crise (profunda) de solidão. Abril e outono. Ressacas. Era para juntar tudo isso e dar em alguma coisa. E deu. Se tiverem explicação para alguma dessas coisas, por favor, não me contem. Dispenso explicações. Eu sempre prefiro acreditar. Sem isso não sou nada além do nada que dizem que a gente já é.

 

 

Eu preciso ter uma opinião sobre tudo?

Esses dias, observando algumas coisas, me perguntei: mas eu preciso ter uma opinião sobre tudo?

Já dizem as más línguas que opinião é que nem isso ou aquilo que cada um tem a sua. Eu dizia que opinião é uma merda, justamente porque cada um tem a sua. Mas cada um precisa ter uma opinião para tudo o que acontece?

Eu tenho essa relação de amor e ódio com a internet e redes sociais. (exceção o Twitter, pelo qual sou só amores) Aí fiquei pensando que os sentimentos de amor e ódio vêm do sentimento que eu nutro pelas pessoas. Tenho extrema dificuldade com as pessoas, todo mundo sabe. A internet e as redes sociais, principalmente, são feitas pelas pessoas. Talvez seja essa a explicação.

Tanto já se falou na superexposição, no excesso de compartilhamento da vida privada, do fluxo contínuo e caótico de informações e notícias. Não vou me alongar nisso. O problema é o que se faz com isso. Nenhuma rede social, desde o sucesso, entre os brasileiros, de um inóspito Orkut, vem com manual. Você faz o que você quer com a sua vida on line – e esse é um daqueles problemas e até perigos dos quais já tanto se falou e escreveu a respeito. Eu gosto muito do Foursquare, por exemplo. É uma rede social sobre lugares e muito já salvou minhas noites e fomes. Aí sempre tem aquele que diz que é perigoso dizer onde você está, blábláblá. Mas aí vai de você ter x número de amigos (“amigos” hoje, no mundo virtual, tomou uma dimensão conceitual diferente da qual estávamos – ou eu pelo menos – acostumados) na rede e de onde mais você publica. As ferramentas estão aí, nós fazemos dela o que bem entendemos. Ou não.

Etiquetas em redes sociais também são abundantes. Eu prezo etiqueta. Sou uma pessoa que foi educada e sigo até aquela coisinha linda de colocar a mão na frente da boca quando bocejo. Etiqueta em todo lugar é bom e faz bem. Por outro lado, sou amante da liberdade. E aí as coisas complicam.

Eu posso pensar o que eu quiser acerca do que eu bem entender. Nem por isso as pessoas precisam sair por aí jogando tudo o que pensam na cara (mesmo que virtual) dos outros. Eu sempre digo que ainda bem que as pessoas não sabem tudo o que me passa pela cabeça, melhor assim. Mas será que eu sou obrigada a ter opinião sobre tudo?

Você já deve ter reparado nisso. Eis uma notícia, um fato, um acontecimento. Em poucos segundos cai na internet e… todo mundo comenta. Trendings tratam justamente disso. Acredito que uma coisa é você comentar o programa de TV que você assiste, ou o jogo do teu time, ou a morte de alguém que foi importante pra você. Outra coisa é você se obrigar a comentar coisas das quais você não tem o mínimo conhecimento ou que não te interessam em nada.

Foi assim com a escolha do Papa. Eu acompanhei pela TV, eu sou católica. A escolha de um Papa me diz respeito de alguma forma. Eu conheço várias coisas a respeito das práticas e da história da Igreja Católica porque ela faz parte da minha vida. Fiz comentários sobre o acontecimento que foi televisionado ao vivo. E eu vi comentários, piadas, idiotices sendo postadas afú por pessoas que não têm relação alguma com a Igreja, e na vida das quais existir um Papa não faz absolutamente diferença nenhuma. Vi uma protestante escrever coisas de um nível tão ignorante (e é professora!) sobre o Papa que fiquei curiosa. Dias depois a mesma pessoa publicou uma imagem com dizeres sobre não importar a religião da pessoa, mas sobre ser chato. Hein? Eu acho chato quando as pessoas comentam coisas sobre as quais não lhe dizem respeito. Ou, principalmente, sobre as quais elas não têm conhecimento algum.

Choveram comentários de ateus sobre a escolha do Papa. Achei tão, mas tão, sem noção que me esforcei por ignorar. Pô, o cara não é ateu? Por que diacho se preocupa com o Papa? Deve ser algum trauma mal resolvido, só pode. Sobre o incêndio em Santa Maria, por exemplo. De um segundo a outro todo mundo parecia amar aquela cidade lá no meio do Rio Grande do Sul. Todo mundo parecia compartilhar uma dor que a imensa maioria das pessoas sequer vai passar perto durante toda a sua vida. De uma hora para outra todo mundo entendia até de espumas isolantes e saídas de incêndio.

Isso me lembrou um pouco aquela piada futebolística sobre os milhões de técnicos que a seleção brasileira tem. Não sou nenhuma entendida em futebol, mas um dia tive que perguntar o que isso queria dizer e me parece ter uma relação próxima. Mas o torcedor, pelo menos, conhece, acompanha, entende daquilo que fala.

E é aí que mora o segundo problema. Opinião é uma coisa, proferir a sua ignorância aos quatro ventos é outra.

Opinião não é, ao contrário do que eu tenho visto, uma coisa vazia, sem fundamento, incoerente. Eu formulo minha opinião através de informações, conhecimento, que eu possuo de algo ou alguém. Fora isso, é pura ignorância – e você resvala em expor seus preconceitos, problemas pessoais e coisas piores. Se você é ignorante acerca de algo, você não é a melhor pessoa para falar sobre. Eis que as redes sociais e a internet foram contaminadas por esse excesso de ignorância. Não é nem eu ser obrigada a dar minha opinião sobre tudo (às vezes eu também caio nessa burrice), mas eu falar ou escrever idiotices sem fim. Já diziam minha avó e minha mãe que religião, gosto e futebol não se discutem. Discordo, acho que tudo é passível de discussão. Levando-se em conta que discussão não é briga e que se deve usar de argumentos. Discussões são sempre bem vindas. Ignorância não.

Então eu, alheia a futebol, vejo ali a notícia sobre o time tal que perdeu porque fulano fez uma falta clara e já saio escrevendo sobre isso em todos os lugares. É tipo aquela pessoa que quando vai conversar só sabe falar sobre as últimas notícias, sabe? (acho mortificante) Não tem assunto, não tem interesses, não tem hobbies, não tem nem as (famigeradas) especializações: gira em torno do corriqueiro.

Não defendo aqui censura às publicações até porque isso seria impossível. Cada um pode fazer suas censuras (sem seus “amigos” nem ficarem sabendo) nas redes sociais como bem entendem. Me preocupa e incomoda o excesso de ignorância presente nas tais opiniões. Eu gosto de ler as opiniões alheias. Mas opiniões, no sentido literal, que tenham conhecimento e fundamentos. Por que diacho eu escreveria sobre o que está acontecendo com os índios de não-sei-aonde sem ter conhecimento nenhum ou baseada em um vídeo que todos estão publicando? Por que diacho eu escreveria sobre a novela das oito, a qual eu nem assisto, nem que seja para dizer que acho chata e por isso não assisto? Não pareceria excessivo? Por que diacho você escreve sobre o Papa se você não é católico e existir um nem faz diferença na tua vida? Não sou obrigada a viver dando uma pseudo-opinião sobre tudo. Nem nunca fui das mais ligadas em notícias. Também não sou daquelas alienadas (nem pretendo ser) que só vivem para o seu umbigo – aquelas que é tão fácil perceber que também não têm opinião nenhuma porque não têm conhecimento sobre nada.

Sei, e já disse isso aqui, que fiz o juramento de “libertar as pessoas da ignorância” lá na Filosofia. Ainda hoje não entendo porque nosso juramento diz isso. Nós nos libertamos da ignorância por vontade própria, o que não impede que sejamos auxiliados quando temos esta iniciativa.

Já diria meu pai (que sempre deve ter achado que eu tenho muitas opiniões…) que em boca fechada não entra mosca. As redes sociais às vezes parecem tão cheias de moscas que mal consigo vislumbrar qual é o prato do dia.

Porque aquele que nunca ouviu uma música do Charlie Brown Jr ou nunca tinha assistido um programa da Hebe, ao ver a notícia das suas mortes aciona sua metralhadora giratória de idiotices e dispara ignorâncias sem fim.

Eu só diria: não se obrigue a isso. Não desfile a sua ignorância pelas TLs da vida. É chato, fica feio, a gente até desiste de ser amigo no sentido real – porque no virtual, em dois cliques, você já estará oculto. Eu respeito, porém, quem fala com propriedade de algo, concordando ou não com o que é dito. Agora, respeitar a ignorância foge às minhas forças.

Eu não preciso ter opinião sobre tudo pelo simples fato de que eu não tenho conhecimento o suficiente para isso. Nem eu nem ninguém.

Perguntas e respostas

 

Pés molhados, gelados, maxilar dolorido, tudo fora do lugar e isso aqui era para ser sobre perguntas e respostas.

 

Perguntas que deixei de fazer quando deveria e respostas que não dei quando pude. Relutância? Talvez. Alguma atração irresistível pelo mistério? Duvido.

 

Desculpem o piscianismo de hoje, mas o assunto é sério. Piscianas não gostam de “não saber”. Isso que elas são as adoradoras dos mistérios da vida.

 

Mas ficamos naquele meio de campo entre a dúvida e a fantasia. Ou corremos para a fantasia e lá nos alojamos sem previsão de saída, ou instauramos a dúvida e nos agarramos tanto a ela que certeza nenhuma (nem o seu grito mais verdadeiro) nos fará largá-la.

 

Perguntas que ficam sem respostas pelo simples motivo de que não foram pronunciadas. E nem todos conseguem ler nossos pensamentos. Ah, alguns conseguem… e esses são os que me tiram o sono. Diz lá a canção “eu não sou difícil de ler”, que interesse dá pra ter por alguém assim?

 

Respostas que não foram dadas porque ficaram engatinhando na garganta, na dúvida de se entregar assim tão rápido e direto para alguém que não sei se merece ter algo de mim, nem uma mísera resposta. Mas respostas que eu queria ter dado, estendido uma trégua, uma palavra de abertura. Porque pisciana é assim, fechada atrás do seu muro de pedra. Não são só coisas boas que existem lá dentro. E isso é sempre bom deixar avisado.

 

Esse exercício que a gente fez quase um pacto: tentaremos ser mais carinhosas, mais “abertas”. Ou algo assim. Lutaremos com essa natureza ríspida, direta, verdadeira, sincera. Não lutaremos contra isso, mas tentaremos uma abertura mais táctil (para quem merecer, é claro). Não gostamos de qualquer um. Não gostamos dos que gostam de qualquer uma.

 

Saturei minhas semanas de perguntas que giram na minha cabeça porque não foram feitas. De respostas que não dei, ou não dei como poderia. Preciso, em palavras ou, de preferência, em gestos ter algumas respostas. Na verdade, só uma. Quis o Destino que não fosse hoje. Nem será nessa semana. Uma resposta que não me deixa dormir há meses, não gostamos de não saber. Eu mesma detesto casos mal resolvidos.

 

A relutância em tomar as rédeas das perguntas e respostas se deve, no meu caso do momento, à fantasia. Encontrei um lugar confortável ali e não quis sair. Mas, idas e vindas, aquele trajeto de táxi, conversas, pactos, análises sem fim e eu quero me obrigar a sair.

 

Se as pessoas não lêem nem livros, poucos são os que perdem tempo lendo pessoas. Lendo gestos, pensamentos. Lendo as perguntas que não fiz.

 

Fiz promessas de colocar as perguntas em dia. As respostas já são mais difíceis, afinal, as perguntas passaram. Mas eu acho que dá tempo de consertar, de disfarçar o receio.

 

Perguntas e respostas devidamente feitas são tão necessárias, mesmo que evitemos tanto. Porque no nosso mundo a fantasia machuca mas é sempre mais linda que a realidade. No nosso mundo não damos explicações e achamos que as pessoas lêem pensamentos.

 

Piscianas amam a liberdade. Nunca confunda isso com qualquer outra coisa. Não me deixe livre porque eu não vou saber o caminho de volta. Piscianas dificilmente voltam pelo mesmo caminho. Piscianas querem respostas sem fazerem perguntas. E querem que você já saiba as respostas.

 

Apaixone-se

Sopra o Outono:

apaixone-se.

Reverberam as ondas do mar:

apaixone-se.

Grita o pôr-do-sol:

apaixone-se!

 

Apaixone-se.

É Outono

Quando você sempre se apaixona.

Nunca foi no Verão

Nem no inverno

Nem na tua tão amada Primavera

Apaixone-se.

Já era hora.

A cigana lhe avisou

Os astros previram

As cartas anunciaram

Apaixone-se!

 

O Destino se impôs

Você aceitou-o.

Agora, apaixone-se.

 

E se for o certo?

Jamais esses bons tempos?

De solidão, diversão, confusão?

E se for o errado?

Voltarão as ilusões a caírem por terra?

De novo a dor, o cansaço?

 

Eis que nunca saberemos.

Quantas vezes você ainda vai pensar?

Vai analisar? Ler e reler?

Procurar em vão explicações?

 

Você não pensa. Você sente.

Apaixone-se.

 

Os dias, as noites, as canções

Todos lhe dizem a mesma coisa:

apaixone-se!

 

É Outono. Apaixone-se.

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