Decidi

Quis ser romântica

ser mãe

ser amante

 

O coração esqueceu

Entrei pra luta

Agarrei com as unhas

Desci do salto

Não pintei o cabelo de loiro

 

Decidi desejar

E não mais ser só desejada

Pagar a conta

E ser servida

 

Me pagaram menos

Passaram a mão na bunda

Me espancaram

Quando eu disse “não”

Me violentaram

Na alma, no corpo

 

Só me chamam

Pra bancada do jornal

Pra comercial de produto de limpeza

Pra cantar rebolando

No trio elétrico

Ou ser a protagonista

Sofredora das oito

E a heroína submissa

Do best seller

Apresentar um programa culinário

Ou desfilar na semana de moda

 

E pensam que somo iguais

Nos admiram

E não valorizam

Não respeitam

Ainda dominam

O discurso, a imagem

 

Quis ser romântica

ser mãe

ser amante

 

Decidi ser romântica

Ser mãe

Ser amante

Lutar

Não usar salto

Pintar as unhas

Jamais ser loira

Desejar

Assumir as contas

Ser servida

Não ser só uma imagem

Ganhar mais

Pensar.

Todos os motivos do mundo

 

Devo pedir desde já desculpa pelos longos períodos de ausêcia e pelo silêncio repentino que se farão por aqui (e em outros lugares e meios) este ano. Eis que é uma dissertação, é a volta ao estudo, o trabalho, as viagens, mas, acima de tudo porque devo acrescentar um in/m ao que 2013 me reserva: indescritível. E é por isso que não consigo vir aqui dizer quais foram as coisas das últimas semanas que mudaram minha vida. É por isso que não consigo vir aqui dizer o que foi a sensação de trancar a garganta e não chorar até o dia seguinte, a sensação de “não quero que acabe” que tomou conta de mim uma noite dessas. Não consigo hoje, ainda, escrever ou descrever ou sequer contar certas coisas como porque fiquei sem voz e sem ouvir direito dia desses.

 

Entreguei de vez minha vida nas mãos do Destino. Sim, já fiz isso algumas vezes antes. Dá medo. Dá uma puta ansiedade. Dá uma certeza absurda. Aliás, sempre fui muito nervosa e ansiosa, aí criei mecanismos para controlar isso e há anos tem dado certo. Explodi o mecanismo e voltei a sentir ansiedade. Que saudade que eu estava disso! Todos os sintomas de ansiedade me assaltaram e fiquei feliz pra caramba! Ansiedade me faz um bem danado! O medo? Necessário, mas eu nunca fui medrosa, então passo por ele com facilidade. O segredo é não deixá-lo me congelar. E a certeza… ah! a certeza! Eu acredito. Tenho esse dom da fé e isso me basta. Quem manda aqui, agora, é o Destino. E nada mais me importa.

 

Se 2012 foi tão definitivo e profundo, mas eu ainda com as rédeas às cegas, agora as rédeas não estão mais comigo.

 

E foi assim que saí hoje para caminhar, pensando na vida. Obviamente com o fone de ouvido, viro a primeira esquina e toca uma música muito (muito!) emblemática na minha vida e eu lembro de alguns episódios ligados a ela: um sorriso fica ali dançando no meu rosto. Fui caminhando assim sorrindo… distraída, como sou e como a marca do Destino no meu nome já previa. Meio sem entender reparo que um senhor, um velhinho alto e magro, vem caminhando no sentido contrário retribuindo o meu sorriso e faz um meneio de cabeça. Distraída estava a ponto de não ter me dado conta que eu andava sorrindo pela rua… sorrio de volta, engasgo um meneio em resposta e ele passa adiante. Seria um conhecido? Não. Algum amigo do vô ou da mãe? Talvez. Mas aquele sorriso era uma resposta ao meu sorriso. Comecei, então, não mais a sorrir, mas quase rir da situação. Voltei a sorrir mais algumas vezes, conforme o random do mp3 mandava.

 

Enquanto caminhava lembrei de uma frase dos muros do Canto da Lagoa que dizia algo que expressava a situação com o velhinho. Não lembro exatamente a frase, mas lembro onde ela se encontra. Era isso de dar ao mundo o que você quer de volta. Ou como diz lá a canção do mundo que lhe sorri e você não sorri de volta. Ficarei devendo a frase (quando passar por lá vou lembrar).

 

E é assim que o Destino faz viver… na certeza mais inescrutável, com sorrisos que lhe brotam dos lábios e que geram sorrisos de volta. Talvez eu nunca mais veja aquele velhinho, talvez ele nem pense no que aconteceu hoje. Mas eu recebi um sorriso de volta sem explicação, sem motivo, pelo simples fato de ser uma resposta ao que eu dou ao mundo.

 

Por um mundo com mais sorrisos contra sorrisos pelas ruas. Ou só eu ando sorrindo por aí? Cheguei a pensar que o velhinho talvez estivesse tão acostumado com pessoas carrancudas pelas ruas e só por isso retribuiu um sorriso que nem era diretamente para ele. Talvez.

 

Eu poderia começar um papo muito zen aqui sobre coisas boas que só vêm para quem está de bem ou coisa que o valha. Mas, não.

 

Se você me encontrar sorrindo por aí, saiba que tenho todos os motivos do mundo… e, se quiser, retribua. É sempre bom.

 

 

Change mine

 

I was watching a movie and Redford said to his girl: You want to change the world. Change mine.

Just like that: change mine.

I´m always thinking about movie´s dialogues. I don´t know if it´s because my work or just because I love the words too. I only know that I always do it.

And then I was thinking about how many worlds I have changed. Because I´m one of those who wants to change the world. And I know for sure I´ve had changed others worlds. I´m talking about guys, schoolchildren, friends and anyone else.

So I asked myself: does anyone changed mine?

I don´t think so.

Oh, yes, some people did the difference in my life, of course. But no one changed my world.

Have I met someone who wants to change the world?

This is the right question. I´m quite sure that the answer is negative.

I need someone who wants to change the world. So this one should change mine.

I´m a little bit tired of changing others worlds. But I´ll never be tired of wanting to change the world.

I realized that I want to look into his eyes and say almost the same words of Redford: You want to change the world. Me too. But change mine first.

A velhice, o aniversário do Garcia Márquez e os exercícios do tempo

 

 

Justifico minha ausência devido a compromissos acadêmicos… ou “prazos” acadêmicos seria mais adequado. Na verdade escrevi muito nas últimas semanas, enquanto matutava sobre tantas coisas e criava aquelas pautas imaginárias para o blog. Estava com saudade disso aqui. Não daquela escrita injuriante de quem falou o que e o que eu posso dizer disso. Cansa. Cansa uma pessoa como eu tão afoita por matutar…

 

Foram algumas pautas imaginárias, textos mentalmente escritos durante os banhos… a maioria disso tudo nunca passará por aqui. Tenho um imediatismo e uma inconstância que determinam isso.

 

Mas hoje em especial algumas coisas me fizeram lembrar de uma matutação que fatalmente viria parar aqui.

 

A morte. Eu tenho essa espécie de fascinação pela morte. Eu sei os motivos. Mas não é ela que me motiva escrever aqui.

 

Lembro de já ter contado que eu e meu irmão quando bem novos tivemos a mesma idéia, de que seria melhor morrer ou matar-se antes dos quarenta anos porque envelhecer é um espetáculo para quem tem estômago. E lá na tenra idade não queríamos nos ver em decadência física e mental. Bem, ele teve o privilégio de não se ver diante do peso do tempo. Eu? Eu não escapei e tenho a nítida sensação, hoje, de que durarei muito tempo por aqui ainda e verei muitos irem antes de mim.

 

Aquela história de que somos uma máquina e que uma hora a coisa começa a pifar aqui e ali é uma baita verdade. Por isso que digo que para assistir à decadência e à velhice é preciso estômago.

 

Para quem não é próximo dos pais e avós ou é do tipo ingrato e desnaturado (não é o meu caso) o texto não fará sentido.

 

Chega aquele momento que você se dá conta que o quem cuida de quem se inverteu. Você percebe que não importa se você tem paciência ou não, você terá que fazer exercícios diários e constantes dela. Aquelas coisas que você tanto admirava neles e que te inspiraram já não são mais como antes. Os dons que eles tinham foram desmoronando e você precisa estar ali para dar conta do que eles nem lembram mais como se faz. Aliás, a memória será um espinho a te cutucar a todo momento. Eles terão certeza de coisas que nunca aconteceram, discutirão incansavelmente sobre coisas que nunca disseram. Te perguntarão dezenas de vezes a mesma coisa. O óculos? Esquecerão em todos os lugares e você vai precisar dirigir quando eles não forem encontrados, ou ainda ler as placas e preços no supermercado. Você se tornará algo assim como os olhos e ouvidos deles. E em alguns casos as pernas e braços. Aquela manha de gritar do quarto “mãe, traz sorvete?!” não será mais ouvida – e não, eles não estão te ignorando só porque querem te fazer perder a manha, eles já não ouvem mais como antes.

Você vai se irritar. Vai perder a cabeça. Vai achar que eles estão beirando a loucura e que você já deve ter se contagiado. Você vai explodir em algum momento – principalmente quando os teus problemas estão tão grandes e não há ninguém com quem contar, agora você não pode contar nem mesmo com eles – dirá coisas que não deveria, rolarão as lágrimas e um estremecimento fará com que eles se sintam culpados. Você terá a profissão de fé diária de mostrar para eles da forma mais leve possível que eles não são um fardo. E se arrependerá muito por ter deixado escapar uma frase qualquer que deu isso a entender.

Você vai mudar muita coisa na tua vida, na casa, na tua rotina por causa deles. Eles talvez nem percebam… mas você não vai jamais comentar isso. Eles vão precisar de você quando você estiver precisando de você mesmo, mais do que nunca. E você vai se colocar em segundo plano. Porque você os ama e já brigou muito com eles, já bateu de frente nos arroubos da juventude, já foi a filha rebelde e desobediente, já fugiu de casa, já deixou de telefonar – e agora nada disso mais importa: eles são tudo o que você tem. Vai ser aquele papel que ela derrubou e não conseguiu ajuntar, aquele peso que ele foi carregar e não conseguiu. Você vai se ver fazendo tanta coisa já no automático, sem nem perceber que virou parte da tua vida. Desde as menores coisas até as grandes decisões.

 

Quando eu via meus pais, achava que eles seriam daquele jeito pra sempre. O tempo, porém, foi chegando… se encostando ali, se ajeitando aqui… e chegou o dia de hoje quando percebi que eu já estou mais para o lado de lá do que para o lado de cá das manhas e rebeldias. Sabe, eu encontro um olhar que me chama para aquela fuga e na hora lembro da data da próxima cirurgia. Me peguei pensando se eu não estava usando-os como muleta para fugir de alguns chamados do Destino. Já não sei ao certo. Eu posso romper e deixá-los à própria sorte por alguns dias… e que eu aguente o estrago depois.

 

Ao mesmo tempo, eu ganhei a liberdade de ditar algumas regras. Numerar prioridades e imposições. Aí fica engraçado ver os momentos de teimosia deles e os silêncios diante da proibição de dizerem qualquer coisa sobre o que eu faço. Aliás, teimosia… e que teimosia! Só piora, definitivamente. Sim, eles vão insistir com você no A quando você cansar de dizer que é Z e aí chutar o balde e decidir pelo D. E você vai se pegar pensando: será que eu era assim teimoso quando criança? (porque aí talvez a vida tenha sentido e tudo se justifique: estou pagando meus pecados)

 

O mês de janeiro foi lindo e numa bela madrugada eu peguei um daqueles romances de banca de revista para me fazer companhia. Nunca pensei nisso de me identificar com nenhuma personagem literária, afinal não sou magra, alta e loira ou ruiva sardenta. Sempre foi mais fácil cobiçar os mocinhos e vilões. Quem acompanha o blog sabe que eu falava por aqui em fazer uma lista comentada sobre os personagens da ficção pelos quais sou apaixonada. Comentava isso com umas amigas quando uma delas disse que faria uma lista das personagens com as quais ela se identificava. Eu fiquei sem conseguir citar uma. Eis que me lembrei da protagonista desse romance que eu havia lido fazia poucos dias. Sim, eu me via nela – e não era só porque ela tinha sonhos eróticos com o Marco Antônio (e o Marco Antônio dela nem era o Purefoy). Era porque ela tinha cansado de relacionamentos que não entendiam que ela se doava para todos que ela amava e isso incluía a família, ela não podia fazer uma escolha entre ele ou a família. Aí ela só buscava sexo. Vivia com a mãe mas escondia isso e escondia a real situação de saúde da mãe. Por quê? Porque ninguém entenderia. Quando surgia um convite para um jantar ela declinava com uma desculpa qualquer porque tinha que ir correndo pra casa dar a janta pra mãe. Ela já havia desistido de acreditar que quem entrasse na vida dela teria que entrar de vez e corria o risco de não ser prioridade em alguns momentos.

 

Quando eles precisam de você mais do que quando você precisava que trocassem as tuas fraldas é que você entende a complexidade do envelhecer. Não é um envelhecer no sentido mental: eu sou velha no “modo de ser e de pensar”, várias pessoas dizem isso de mim, eu mesma digo já faz bastante tempo. É o envelhecer mecânico mesmo. E eu fatalmente lembrei do que eu e meu irmão pensávamos. Eu tenho alma de velha, mas só por agora é que a idade começou a mostrar as suas malditas limitações depois de uma sucessão de doenças. Elas felizmente passaram, mas os seus danos não. E eu não tenho mais quinze anos para ficar “nova de novo”. O pior do declínio é não conseguir aceitá-lo. É teimar em não acreditar no quadro que vê a sua frente. Para quem está ao lado neste momento é um exercício de choque e paciência sem fim. Com todas as letras e sem poesia: envelhecer é uma merda.

 

Quando eu soube que o Chorão morreu fiquei pensando que era um bom momento para falar disso, porque ele me fez lembrar, por vários motivos, meu irmão. Mas aí lembrei que hoje era aniversário do Gabriel Garcia Márquez, dia seis de março, mais um ilustre pisciano. Gabriel que me levou pela mão numa literatura difícil, desconhecida, apaixonante e que, posso dizer, mudou um tantinho a minha vida para sempre. Pouco conheço da vida dele, pouco li a seu respeito ou vi entrevistas. Amei as suas histórias com devoção de amante casta. Me entreguei a elas. Hoje, quando faz oitenta e tantos anos, Gabriel está senil, com algum tipo de doença degenerativa. A vida é uma merda. O homem que escreveu aquelas doçuras, que fez e faz parte da vida de tanta gente, que abriu horizontes de quem ele nem faz idéia, está vivo mas não pode mais, mesmo que a cabeça quisesse, escrever suas histórias. A idade, a velhice, a decadência chegam para ficar. Lembrei também do belíssimo filme E se vivêssemos todos juntos, francês. Delicioso, agridoce, pueril, doloroso. Nunca antes eu havia me visto rindo e chorando ao mesmo tempo durante um filme. Eu ria, eu chorava, eu me angustiava… não se escapa da morte, mas podemos escapar do fim despedaçante com a morte.

 

A morte nos poupa de ver tudo se esvaindo… de ver quem fomos ruindo aos poucos diante de um eletrocardiograma ou de um aparelho para surdez. A morte é aquele ponto final digno para a indignidade que nem dá mais para chamar de vida, em alguns casos. Por essas e outras que acho digno o suicídio. E quando alguém vem com aquela “tanta gente lutando pela vida e tem quem se mata” eu nem respondo, só penso cá com meus botões: lutando por qual tipo de vida? Lutando por quê? Se não morrer hoje, morre amanhã. O suicida toma as rédeas desse caminho sem volta. Não tem volta, mas tem fim. E o fim é nobre. Muito mais nobre do que chutá-lo raivosamente ou espernear diante dele.

 

É pensar no fim que torna tudo tão mais difícil e complicado. Você tira paciência e tempo sabe-se lá de onde, você esquece as horas de sono, você troca teus programas… porque o que te move é mais forte… e é isso que te impede de pensar no fim. Porque você sabe que tem a recompensa daquele sorriso quando você lembra de um detalhe que eles sentem falta, porque você já os conhece tão bem que nunca erra nos mimos, porque dar presente não precisa de data e parece tão natural pensar neles antes de pensar em você. Será que ser mãe é assim também, mas com muito mais angústia? Tudo me apavora. Mas eu sempre vou lembrar de trazer uma bomba de chocolate, umas sfihas, uns doces de damasco, dar um tênis de dia dos pais, comprar todas as corujas que aparecerem pela frente e lembrar das xícaras e chaveiros para a coleção. Só porque descobri que ser filha é muito mais do que eu imaginava.

 

 

O que eu aprendi com o nissin

 

Tentarei ser breve porque as coisas por aqui me cutucaram e senti como se fosse um soco no estômago. Não é simples quando a gente descobre que quer ser feliz. Descobri isso faz tempo, mas as últimas horas e os últimos pensamentos… bem, deixa pra lá.

 

Não sei porque eu e meu irmão começamos a gostar e comer nissin. Já faz um bom tempo, é claro. Mas minha mãe sempre foi excelente cozinheira e nem víamos comida pronta em casa. Sei que quando ainda morávamos com ela descobrimos o nissin (provavelmente pelas propagandas), depois ele foi um bom companheiro quando fomos morar longe de casa. Fato é que de vez em quando fazíamos nissin.

 

Minha mãe sempre serviu o almoço e sentávamos todos juntos para almoçar na cozinha. Era sagrado. Mas janta era cada um por si, um tempo depois até comíamos em frente à TV. Faz um tempo minha mãe pegou o costume do café-da-tarde (por influência da vó). Eu, como sou boa de garfo, almoçava em casa, tomava café na vó e jantava em casa depois. Pior, fiquei com todos os costumes… eu sou uma embolada de costumes.

 

E eis que toda vez que eu abria o pacote do nissin fissurava no medo de derrubar o sachê do tempero na panela com água fervente. Toda vez. Tipo doentio mesmo. Devo comer nissin há um tanto mais que dez anos (com uns intervalos quando não podia nem ver um na minha frente – tenho disso – qualquer dia falarei mais sobre meus interessantíssimos hábitos alimentares) e sempre e sempre fissurava no medo.

 

Semana passada me deu desejo de comer nissin, eu estava na praia e não tinha nenhum. Nenhum. Assim só para aplacar o lanche começo de madrugada de uma solitária imersa em pensamentos, trabalho e ficção.

 

Hoje fui ao supermercado e comprei nissin e espigas de milho. Só. Aliás, eu tenho essa mania de observar o que eu e as pessoas compram. Acho algumas compras muito interessantes. Fico observando os carrinhos alheios, confesso. Traço um perfil da pessoa só pelo que ela coloca no carrinho. Faço o mesmo com o lixo alheio. Bem, são outras histórias.

 

Aí fui fazer um nissin para comer enquanto assistia alguma coisa ou pensava na vida. Água fervendo, abro a embalagem em cima da panela, coração travado na fissuração e… cai o sachê na panela. Reflexo rápido (sim, eu tenho e ele é muito bom), puxo o garfo e saco o sachê do afogamento. Nem me queimei. Não é época de queimaduras, é época de caneladas. Sim, tenho épocas para desastres físicos. E é inferno astral, então…

 

Primeira conclusão rápida: o sachê é feito de algum material que é bem resistente à água fervente. Eles devem prever que isso pode acontecer.

 

E eis que me peguei pensando em quantas coisas eu fiz com o coração angustiado, medo?, para evitar alguma outra consequência não desejada e… não tive o gosto de descobrir que o medo era infundado? Quantas? Quantas?

 

Quantas coisas eu deixei de fazer porque rondava aquela tensão do que poderia “dar errado” e… o errado poderia ser tranquilamente nada desastroso? Quantas?

 

Tem sempre alguém pensando e prevendo que eu posso errar, fazer alguma bobagem ou ter um lapso qualquer e, por isso, fazendo embalagens resistentes à água fervente? Terá sempre esse alguém olhando para os meus temores?

 

Foi assim que o nissin e, depois, tantas coisas deram voltas na minha cabeça e nos pensamentos sobre se eu quero mesmo ser feliz. E por que diacho eu tenho tanto – mas tanto – isso de pensar demais nas coisas e nos atos e calcular cada gesto, cada palavra, para não expor os meus temores como fraturas expostas que realmente são? Se mesmo assim me machuco tanto, que diferença faz assumi-los e que caia o sachê, que derreta, que eu coloque fogo na cozinha. Às vezes não me reconheço. Porque eu já coloquei fogo na cozinha quando menos esperava.

 

 

Num corredor do supermercado…

 

Às vezes acho que tenho os pensamentos mais impróprios para os lugares onde estou.

Esses dias saí e enquanto caminhava me duelei com uma das teorias que fico formulando nas horas menos vagas. Horas depois, quando cheguei em casa, sabia exatamente onde, qual música tocava no mp3, como eu andava, o que eu vi – tudo passava como um filme colorido na minha cabeça – quando estava duelando com a teoria na rua e por nada desse mundo conseguia lembrar qual era a grande questão acerca da teoria. Dias depois, do nada, lembrei. Volta e meia essa teoria reaparece nos meus pensamentos.

Ela é simples e boba. Não vale nem o tempo de leitura de vocês.

Há tanto tempo tenho a teoria de que encontrarei o amor da minha vida num supermercado. Um olhar, um esbarrão, uma coincidência boba qualquer. Convivo com essa idéia e muitas vezes lembro dela quando entro num supermercado. Passei aí mais de um mês sem entrar em um supermercado e quando o fiz semana passada nem lembrei da teoria – me preocupava encontrar espigas de milho com qualidade e bom preço para fazer um estoque. Nem vou dizer que tinha, comprei bastante (agora somos em quatro para dividí-las!) e ainda vi um homem vendendo na estrada e outro em frente ao restaurante onde fui no dia seguinte. Depois de meses sem em dois dias havia milho para todos os lados. Mas essa é outra história.

Então tenho essa teoria. Às vezes caminho despercebida pelo supermercado pensando na teoria. Normalmente não gasto muito tempo em supermercados. O que, aliás, diminuiria minhas chances de encontrar o amor da minha vida.

A teoria não tem nada de romântica, é verdade.

Mas não me vejo encontrando o amor da minha vida no carnaval, por exemplo. Amor no carnaval, só de carnaval – como diz aquela belíssima canção cantada pelo Jair Rodrigues (aliás, ele é uma simpatia e o show dele é uma loucura!). Mamãe e papai não querem que eu case porque acham que é cedo (para eles sempre será) e saudade é coisa boa que dá e passa.

Eis que há um tempo, encontros e desencontros da vida, pensei em reencontrar um grande amor da minha vida num avião. Ponho mais fé e romantismo no encontro num avião (sem aquele clima de “foi por medo de avião que eu segurei pela primeira vez a tua mão”) do que num supermercado, é verdade. Num aeroporto não. É difícil eu encontrar alguém num lugar assim porque meu estado de espírito é sempre aéreo demais (só por milagre encontrei minha mãe no de Brasília). O “aéreo” não foi piadinha infame. Meu nome não é à toa, ele diz tudo a meu respeito. Tudo.

Eis, então, duas boas possibilidades. A eterna do encontro num supermercado e a do avião. Cada uma delas traduz um perfil de “amor”. Era sobre esses “perfis” que eu tenho pensado nos últimos dias… culpa do Christopher. Mas essa é, ainda, outra história.

Quando eu caminhava naquele dia, o que me trouxe a teoria à tona (eu não ia ao supermercado) foi que nunca imaginei encontrar o amor da minha vida numa livraria ou num sebo. Fiquei, então, me perguntando porque diacho eu nunca havia pensado nisso. Uma boa parte do caminho foi para entender porque eu não pensava no meu príncipe encantado em meio a livros… de cara tive duas boas respostas e, bem, fui veemente o suficiente para me convencer a mim mesma delas. Há lugares que dizem muito das pessoas que os frequentam. Essa foi a teoria que nasceu da discussão. Provavelmente esta teoria nasceu carregada por alguns traumas que já tenho na vida com pessoas que frequentam sebos e livrarias. Mas ficou de pé.

Li um livro esses tempos que me fez pensar que nunca vivi certas cenas tão clichê de cinema – e me levou a perguntar se elas só existem nos filmes. Há cenas no cinema e na TV (bastante frequentes) de casais que se encontram (por acaso ou acasos calculados) nos corredores de supermercados. Acho que não é daí que vem minha teoria. Mas nunca vivi a cena de entrar num bar/restaurante e um cara se interessar de cara por mim e perguntar se pode sentar comigo – bem, a probabilidade de ele ter um “não” como resposta é enorme. Sabe esse tipo de cena? Ou no ônibus. Sei lá. Tem aquela do cara mandar um drinque pra tua mesa. Tinha mais uma ou duas que não me recordo agora. Escrevendo lembrei de uma cena que provavelmente existe em algum filme mas que já vivi. O cara chega e puxa conversa na praia e pede pra sentar do teu lado. É tão chato. Teve um mineiro ali no Campeche, uma vez, que foi muito chato. Eu sou a pessoa mais disposta a dispensar indiferentemente esse tipo de abordagem. Sério mesmo. Sou boa nisso. Aliás, eu vivo sozinha, e se me verem sozinha por aí não é porque estou aberta à abordagens ou infeliz sozinha. É um modo de vida. E tenha certeza que na quase totalidade dessas vezes eu quero estar sozinha. Aliás, em certos programas e passeios eu detesto companhia.

Foi aí que somo dois mais dois e fico pensando que se o amor da minha vida me abordar num supermercado eu poderei mandá-lo pastar com certa desenvoltura. Sou dessas de correr o risco, o tempo inteiro, de ver o amor da minha vida passar por mim e ainda despachá-lo com indiferença.

Christopher me fez pensar que sim. Porém, me deu uma certeza do que eu considero amor. Ah, sim, sou a mesma adolescente que teve suas teorias de que era só uma palavra para encobrir os coitos e os interesses. Ainda acho esta teoria válida. E a concorrente dela também.

Dentre os tipos de amor, desisti do que eu sempre vivi. Abracei, de vez, aquele que eu sempre admirei e fiz fé. Os outros são só inventados.

Se eu encontrá-lo num corredor de supermercado ou sentado ao meu lado num avião… quem sabe. Definitivamente não encontrarei-o nos corredores de um sebo. Nem num bloco de carnaval.

Como diz a outra canção, não ofereço quase nada. Nem quero tralhas nem medos nem ais, como diz, ainda, outra canção. Christopher me lembrou tanta coisa, das histórias de amor que existem sem um único beijo (e não são as platônicas ou não correspondidas), e o que de fato faz existir o amor em mim. É só nesse amor que acredito. Sempre foi, mas sempre me deixei distrair… como quando passamos pelas prateleiras dos supermercados olhando sem ver.

 

 

Liberdade de Expressão – liberdade se vive

Eu já devo ter citado por aqui em algum momento uma frase que segue comigo já faz bastante tempo, desde o dia quando encontrei-a nas páginas de um livro que vagava solitário lá em casa.

“Posso não concordar com uma palavra sequer do que dizeis, mas defenderei até a morte o vosso direito de dizê-las.” Sim, é Voltaire.

Quando li essa frase naquelas páginas, vivia uma adolescência conturbada, violenta, sofrida, agressiva, idealista, sonhadora, indagadora e muito contestadora. As pessoas já naquela época não me suportavam, não gostavam dos meus questionamentos, das minhas opiniões e muito menos da minhas observações acerca das coisas (e das pessoas) que eu via/ouvia. Naquele tempo, eu já me debatia entre as palavras no papel. Lembro de, no dia da Liberdade de Expressão de algum ano perdido no tempo (agora nem sei dizer em qual dia e mês ele é comemorado, mas procurem e verão que ele realmente existe), ter escrito algo entre a poesia e o desabafo. Sei que essa criação ainda existe, mas encontra-se distante de mim no momento. Hoje ainda algumas dessas pessoas têm dificuldade com o que muitos já chamaram de “personalidade forte” e que eu em alguns momentos preferi definir como voluntariosa. Daí já surge uma baita dificuldade de convivência comigo. Não tem que “compreender”, “aprender” ou “respeitar”. Tem que viver a liberdade.

Liberdade é assim. Você diz, pensa, faz o que bem entende. Eu também. Liberdade a gente vive. Escrevendo “o que bem entende” agora lembrei do Mill. O teu limite acaba onde começa o meu. Claro que tem tudo a ver com a liberdade. E no nosso mundo essas duas coisas vão parar lá nos códigos e leis.

Se bem me lembro já escrevi aqui sobre censura. Lembro porque houve uma história bem recente acerca de censuras nas redes sociais e, imaginem, aqui no blog. Eu já me auto-censurei por aqui devido a motivos poucos nobres. Não era para proteger ninguém, era para me proteger.

Indignação define.

Eu não digo a nenhum de vocês o que devem ou não publicar nas suas redes sociais, nos seus blogs, o que devem falar, o quanto ou como (e até em qual tom). Ah, mas vejam como a linha é tênue. Vocês vêm me dizer o que eu posso, o quanto, escrever, falar. Vocês têm, segundo a frase do Voltaire, todo o direito de dizer. Mas eu vou permanecer no meu direito de ignorar as censuras de vocês. Vocês não concordam com uma palavra do que eu digo, nunca esperei nem espero isso. Aliás, até prefiro que não concordem. O dia que alguém concordar com tudo o que eu penso/falo/escrevo vou me sentir muito mal. (lembrei do Nelson Rodrigues, é claro) Mas daí vocês virem me censurar, devo lembrar o Mill. O seu limite acaba em não concordar comigo, o meu começa em ter a liberdade de poder falar/escrever/pensar o que eu bem entender. Viram como é fácil juntar os dois?

Até porque não vejo vocês seguirem toda a frase do Voltaire, ficam só ali na zona de conforto de não concordar, mas jamais lutam pelo meu direito de dizer o que não lhes agrada.

Não vejo em mim maior dificuldade de convivência do que nesse tipo de pessoa. Se é difícil aguentar alguém que diz/escreve/pensa o que bem entende, daqui parece-me impossível, impraticável, conviver com quem censura os outros. Não serão, jamais, aceitas censuras. Em nenhum nível de relacionamento. De nenhum tipo. On ou off.

A rede social é minha, faço o que bem entendo nela. O blog é meu. A vida é minha. O corpo é meu. Antes disso tudo encostar no seu, será sempre meu.

Conviver, dizem, é essa via de duas mãos. Por isso tem tanto casal infeliz, tanta gente mal humorada, tantos corações rancorosos, tanto mais rugas do que sorrisos.

Hoje ainda me perguntei porque as pessoas, ao responderem “quem você é” (perguntinha básica de perfis sociais), elencam profissão, diplomas, méritos, posições, cargos, títulos. Você é os valores que você vive. Mas a maioria só consegue se definir por pedaços de papel com carimbos e assinaturas. Ou pelo contra-cheque.

Não entendo ainda o que querem dizer com “personalidade forte” ou “geniosa”. Só sei que as pessoas assumem um tom pejorativo quando falam nisso. A boiada está aí para quem quiser seguir. Desconfio de muitas coisas e mais ainda de muitas pessoas.

Tenho até a forte desconfiança de que quem mais censura (esses que não conseguem ver alguém dizer/escrever/pensar algo que não é corrente com o que eles dizem/escrevem/pensam) é justamente quem mais se auto-censura, quem mais se projeta sendo alguém que, definitivamente, não é. E faz isso por causa dos outros. São, normalmente, os que se preocupam demais com a opinião dos outros a seu respeito, que projetam imagens de um “si” que gostariam de ser – e, invariavelmente, não seriam se seguissem suas aflições, seus entusiasmos, seus prazeres, medos e ideais. Porque a liberdade está ainda mais presente nas ações. Quem não assume sua liberdade para “ser” jamais conseguirá entender quem o faz.

Em honra ao patrono do blog, eu que não sou das mais fãs de citações, deixarei mais uma das minhas (pouquíssimas) favoritas. Obviamente ela já deve ter aparecido pelo blog em outros momentos.

“Não o prazer, não a glória, não o poder: a liberdade, unicamente a liberdade.” (Fernando Pessoa)

Você só precisa saber

 

Você precisa saber que eu não ligo a TV aos domingos. E quando eu começo a gostar de alguém, me afasto de propósito porque sinto que a pessoa não vai gostar de mim como eu dela. Não posso mais viver amor não correspondido. Saiba que eu durmo todos os dias – todos – com o ventilador ligado. Me visto mal, tenho um gosto brega para cores e estilos. Nunca comprei um esmalte nem um livro repetidos – nunca. Mas não sou do tipo sistemática, não faço listas, nem cadastros, nem catalogo nada – detesto isso, acho doentio. Você só precisa saber que tenho muita prática em arrumar malas e dizem que sempre levo bagagem demais – não é verdade. Numa briga, não sou comedida nas palavras e acabo sempre fazendo discursos. Não queira brigar comigo, detesto brigas e elas me esgotam. Às vezes, fico em silêncio olhando para o nada. Eu sofro sozinha e calada. Tenho manias, mas até essas mudam de vez em quando. Já passei dos vinte e cinco anos e ainda uso franja e como algodão doce. Eu imponho certas regras que devem ser quebradas. Tenho claustrofobia. Desmaio em lugares públicos. De vez em quando tenho dores de cabeça, não para usar como desculpa para coisa alguma, são dores de cabeça inexplicáveis e, ao que parece, incuráveis. Elas surgem, me deixam irritadiça, nervosa e depois somem. É difícil eu avisar que elas são a causa de algum destempero meu. Eu amo água. Amo banhos. Já passei dos vinte e cinco anos mas tomo nescau todo dia e minha mãe vai ao médico comigo na maioria das vezes. Dizem que sou anti-social, antipática. Posso até ser, mas só com quem merece. Eu fujo das pessoas. Normalmente o que eu digo não era bem aquilo que eu queria dizer, cabe a você descobrir. Não tolero que mexam nas minhas coisas. Eu tinha completa aversão a incensos, hoje quase não passo um dia sem acender um. Saiba que eu posso não gostar de telefone, mensagem, bate-papos… mas por um bom motivo-alguém os uso com excelente habilidade. Saiba, também, que me apaixono fácil demais sem nem ser amor. Nessas horas nunca tive coragem de dizer a verdade. Saiba que eu tenho sonhos que você nem ninguém jamais vão saber. Ah, eu acredito em sinais. Eu fico prostrada diante de certas manifestações humanas como a fé, a coragem, a dor, a tristeza, a indignação. Já vivi, já sofri, e não trocaria minha vida por nenhuma outra – digo isso hoje e direi o resto dos meus dias. Às vezes me afasto, sem querer, porque não confio em ninguém e só eu entendo isso. Se você precisa que confiem em você, eu não sirvo. Eu adoro aprender. Eu me saboto. Sou muito condescendente comigo mesma. Não tenho – e, ah! nunca tive! – disciplina. Não consigo. Sou que nem peru, sofro de véspera. Crio histórias antes delas acontecerem. Fico na cama criando vidas, encontros, desastres, despedidas que nunca vivi – e em alguns casos nunca viverei. Detesto noites de domingo. Acho que elas são tristes. Não tenho o costume de acordar cedo, mas adoro fazê-lo – desde que não seja por obrigação. Detesto ser acordada, isso me deixa de mau humor. Eu não entendo as pessoas. De vez em quando deixo o coração falar, mas desconfio que ele é gago. Tenho sonhos (aqueles enquanto dormimos) loucos, insanos, extraordinários e eles fazem muito sentido, sonho com coisas, lugares e pessoas dessa vida e de outros mundos. Às vezes até gosto de contar os sonhos que tive. Meu inconsciente é um turbilhão. Não tenho a consciência tranquila. Fico horas remoendo fatos, frases, questões. Eu gosto do abstrato. Não gosto de quem não reflete sobre (quase) tudo. Adoro espelhos. Adoro vidros e tenho pavor de me cortar com eles. Saiba que eu nunca doei sangue e não sei se teria coragem de doar por alguém especial. Eu tenho coleção de conchas do mar e de pedras semi-preciosas. Eu gosto de pedras. Saiba que já fiz artesanato pra vender na escola e que já trabelhei com recepcionista e balconista. Já mandei cartas anônimas (e já li na constituição que isso é crime). Não sou doente por chocolate.

 

Saiba que sou assim, de pequenos e grandes detalhes. Nunca esqueça de me contrariar. Eu me afastar sempre diz muito mais do que a minha simpatia e meu lado prestativo. Muito mais.

 

Você só precisa saber disso, seja lá quem você for… assim, como num baile de mascarados da canção do Chico.

 

 

In/m ciganando

In/m

Improvável

Impossível

Inexplicável

Inviável

Inacreditável

Inesperado

 

Não quero tristeza de choro

nem de coração fechado

ou grito calado

 

Não é verão

quando esse frio todo dia

chega no meu colchão

 

Vi um dia mais lindo

em cada onda do mar

no meu corpo consumindo

 

Os silêncios

e os vazios

tudo tão conhecido

vivido

 

Não saciava

a angústia do corpo

e para rumos incertos me levava

 

Falta um ponto

O meio, a medida

O tempo – ele não

 

Domar instintos

Domar desejos

Domar destruições

E auto-sabotagens

Domar-se

Domar-se dobrar-se a si

 

Auto

Auto-controle

Auto-suficiente

Auto-nomia

Auto-carinho

Auto auto

Controle em alta

 

Mar céu areia lua estrelas vento chuva tempestades sol nuvens água árvores flores plantas bichos

Gente não.

 

In/m

Out não.

 

Diálogos antes de dormir

encerram o sonho

o desejo e a esperança

(ela já se foi? ou não?)

 

Um porto seguro no horizonte

Mas não

Seguro é sempre não.

 

In/m

Instável

 

Palpitação e olhares

enquanto na contemplação

na ilusão e na ficção

 

A cigana tinha razão

Não é a hora

das coisas do coração.

Casais e azeitonas

 

 

Eu nem sei o que foi exatamente que me fez pensar nisso tudo. Não sei se foram as azeitonas, alguma conversa truncada, aquela cena daquele filme, a novela, a passagem daquele livro.

As pessoas jogam jogos entre si. Parece que, segundo alguns, faz parte da conquista. Não gosto de perguntas. Não gosto de me sentir num interrogatório. Às vezes acontece.

Assisti dois capítulos de dois seriados que começaram suas segundas temporadas agora e fiquei analisando que, ao que parece, não sou só eu que penso como penso sobre relacionamentos. Casais não são felizes, como dizia um personagem de um deles.

Aí fiquei matutando sobre várias coisas. (e o post que estava para sair era sobre os dados da ANCINE e sobre como o brasileiro não assiste aos filmes nacionais – ou sim – e esse furou a fila) Liguei a TV para não perder a hora da novela das 18h (a melhor novela da Globo dos últimos tempos) e fui lavar a louça. Passava Malhação. Um casalzinho em crise. Eu me perguntei: essas crianças sofrem tudo isso mesmo? Sério? Ou é só na TV? Uma choradeira, gritos, promessas, te amos pra cá e te odeios pra lá. Pensei cá com meus botões que não posso esquecer de ensinar minha filha a nunca jamais sofrer por “amor”; definitivamente há coisas muitos mais importantes, sérias e dolorosas na vida. Definitivamente. Não posso esquecer. Vai que ela acredita nessas coisas que passam na TV. Aí juntei um capítulo de série aqui, outro ali, um filme acolá… lembrei da teoria da azeitona. Diz lá um personagem que o sucesso do casal está garantido se um amar azeitona e o outro odiá-la. No decorrer do capítulo (ou no seguinte), descobrimos que o tal casal que formulou a teoria na verdade se enganava. No primeiro encontro ela perguntou se ele gostava de azeitona ou se ela poderia pegar as dele. Ele disse que não gostava, só para que ela pudesse pegar as tais azeitonas. Eis que ela “confirmou” sua teoria sobre as azeitonas e ali provavelmente apaixonou-se por ele. Quando ele contou isso para o amigo, confessou que na verdade adorava azeitonas, mas nunca tivera coragem de contar para ela.

Casais são assim, vivem mentiras, vivem enganações. Diriam os chatos que, na verdade, cedem, ambos, um pouco ali, um pouco aqui. (nem pense em falar algo como “ah, mas há ‘afinidade'” – isso é palavra pra reality show) Eu até concordaria. (um momento para pensar em qual época da minha vida eu concordaria com isso) Não. Eu não concordaria.

Era sobre isso que fiquei pensando esses dias. O mais difícil, para as pessoas, é ser quem elas são. Sem invenções, sem mentiras, sem azeitonas, sem projeções para os outros. Um amigo comentou no Twitter um dia sobre as pessoas que se descrevem assim “sou eu mesma/sou assim do meu jeito/bobagens-sem-tamanho-e-sem-fim” e até quando iríamos ver isso. Até sempre. Damos ênfase a isso, somos quem somos, talvez esperando que as pessoas nos “aceitem” como somos. Vai entender porque alguém tem que te aceitar, mas, enfim, fica para outro post.

Porém, me surpreendo ao ver que, de fato, as pessoas não querem ser “aceitas” por quem/como são. Elas se fantasiam daquilo que você supostamente (invariavelmente se baseiam nas suas respostas e atitudes, até naquelas figurinhas com frases edificantes que você posta no Facebook, quem sabe – nas músicas que vocês ouve, o curso que você fez, os autores que você cita (ou deixa de citar), os filmes aos quais você assiste, sei lá, até a comida que você come) quer/espera de alguém. Por isso os interrogatórios, por isso observam teus passos, teus posts, tua vida, o tempo todo. O tempo todo.

 

Há quem pense que precisa disso tudo para conquistar alguém. E, realmente, às vezes funciona. Só, garanto para vocês, não dura. Ninguém esconde quem é (viu só?) o tempo todo. Você pode conquistar aquela menina ao puxar assunto sobre o filme que você sabe que ela adora (você ouvi-a comentando com a amiga, lembra?), convidar para aquele barzinho onde tem uma batata flambada que te contaram que ela é fã. Isso nunca será o suficiente. Antes de procurar a chance de despir-se das roupas para tentar encontrar mais coisas “em comum”, dispa-se das fantasias que você mesmo criou para ela. Não há garantia nenhuma de que ela ficará com você só porque você está sendo sincero – aliás, a sinceridade nunca é bem vista num relacionamento, prepare-se para o pior.

 

Eu já não tenho mais paciência para essas coisas. Aliás, nunca tive. Mas, sabe, a gente perde tempo na vida de vez em quando. Aí já digo que estou velha demais para perder tempo na vida – coisa, aliás, que sempre detestei. Não me dou mais ao luxo de perder tempo.

 

Nunca tente descobrir o que me atrai, o que me interessa em alguém. Como já não perco mais tempo com esses joguinhos, sei ser bem direta. Direta. (ah! o doce veneno da espontaneidade! – o que me faz lembrar que fiquei feliz pra caramba ao ter a palavra “veneno” tatuada na pele!) Nada de rodeios, invenções, perguntas. A vida torna-se bem mais simples quando a gente aprende com ela. Ou, até mesmo, quando apreendemos as coisas no ar. Veja só, poderia ser até com a Malhação. Seria o cúmulo da felicidade ver um adolescente perceber a bobagem sem tamanho de lágrimas e gritos porque o namoradinho dos teus quinze anos te traiu e você “nunca mais vai querer sofrer assim na vida” (foi uma fala da personagem).

 

Casais não são felizes. E dizia esta personagem que isso acontece porque eles não conversam e realmente ouvem um ao outro. Quem fantasiou-se para o outro jamais conseguirá fazer isso, serão sempre papéis sendo interpretados. Será sempre aquele desejo louco de comer azeitonas e não poder fazê-lo porque ele interpreta “the one” para ela segundo uma teoria (não vou jamais criticar teorias! tenho cá as minhas… eu não vivo sem elas, mas elas vivem sem mim). Isso me fez lembrar Sex and the City e o Mr. Big, ainda esses dias lembrei do filme porque fui assistir filmes em preto e branco na cama. Felizmente não tenho nenhum Mr. Big para supor genialmente que uma TV no quarto seria o supra sumo da felicidade de casal – tudo isso só porque… bem, assistam lá ao filme, ou leiam um outro post onde eu comentava isso.

 

Por falar em azeitonas, tenho uma relação esplêndida com elas. Quando criança era de atacá-las puras. Fiz a festa em uma feira na Argentina uma vez, eu e meu avô. Mas do nada fazia cara feia quando as encontrava numa salada, num prato. Nunca como azeitona na pizza. E já me perguntaram “mas você não gosta de azeitona?”. Veja bem, a resposta não é assim tão fácil. Eu ataco azeitonas no vidro na geladeira, assim, do nada. Porém, tenho uma indicação de receita na qual elas são protagonistas. Tentarei fazer ainda essa semana, se sobrar alguma no vidro. Se for para levar as respostas em conta, as minhas nunca são tão simples que caibam num “sim” ou num “não”. E, cuidado, transbordo espontaneidade e sinceridade – coisas que a humanidade abomina. Se eu quisesse interpretar algum papel, me dedicaria à vida de atriz e ganhava dinheiro com isso.

 

 

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