Eu preciso ter uma opinião sobre tudo?

Esses dias, observando algumas coisas, me perguntei: mas eu preciso ter uma opinião sobre tudo?

Já dizem as más línguas que opinião é que nem isso ou aquilo que cada um tem a sua. Eu dizia que opinião é uma merda, justamente porque cada um tem a sua. Mas cada um precisa ter uma opinião para tudo o que acontece?

Eu tenho essa relação de amor e ódio com a internet e redes sociais. (exceção o Twitter, pelo qual sou só amores) Aí fiquei pensando que os sentimentos de amor e ódio vêm do sentimento que eu nutro pelas pessoas. Tenho extrema dificuldade com as pessoas, todo mundo sabe. A internet e as redes sociais, principalmente, são feitas pelas pessoas. Talvez seja essa a explicação.

Tanto já se falou na superexposição, no excesso de compartilhamento da vida privada, do fluxo contínuo e caótico de informações e notícias. Não vou me alongar nisso. O problema é o que se faz com isso. Nenhuma rede social, desde o sucesso, entre os brasileiros, de um inóspito Orkut, vem com manual. Você faz o que você quer com a sua vida on line – e esse é um daqueles problemas e até perigos dos quais já tanto se falou e escreveu a respeito. Eu gosto muito do Foursquare, por exemplo. É uma rede social sobre lugares e muito já salvou minhas noites e fomes. Aí sempre tem aquele que diz que é perigoso dizer onde você está, blábláblá. Mas aí vai de você ter x número de amigos (“amigos” hoje, no mundo virtual, tomou uma dimensão conceitual diferente da qual estávamos – ou eu pelo menos – acostumados) na rede e de onde mais você publica. As ferramentas estão aí, nós fazemos dela o que bem entendemos. Ou não.

Etiquetas em redes sociais também são abundantes. Eu prezo etiqueta. Sou uma pessoa que foi educada e sigo até aquela coisinha linda de colocar a mão na frente da boca quando bocejo. Etiqueta em todo lugar é bom e faz bem. Por outro lado, sou amante da liberdade. E aí as coisas complicam.

Eu posso pensar o que eu quiser acerca do que eu bem entender. Nem por isso as pessoas precisam sair por aí jogando tudo o que pensam na cara (mesmo que virtual) dos outros. Eu sempre digo que ainda bem que as pessoas não sabem tudo o que me passa pela cabeça, melhor assim. Mas será que eu sou obrigada a ter opinião sobre tudo?

Você já deve ter reparado nisso. Eis uma notícia, um fato, um acontecimento. Em poucos segundos cai na internet e… todo mundo comenta. Trendings tratam justamente disso. Acredito que uma coisa é você comentar o programa de TV que você assiste, ou o jogo do teu time, ou a morte de alguém que foi importante pra você. Outra coisa é você se obrigar a comentar coisas das quais você não tem o mínimo conhecimento ou que não te interessam em nada.

Foi assim com a escolha do Papa. Eu acompanhei pela TV, eu sou católica. A escolha de um Papa me diz respeito de alguma forma. Eu conheço várias coisas a respeito das práticas e da história da Igreja Católica porque ela faz parte da minha vida. Fiz comentários sobre o acontecimento que foi televisionado ao vivo. E eu vi comentários, piadas, idiotices sendo postadas afú por pessoas que não têm relação alguma com a Igreja, e na vida das quais existir um Papa não faz absolutamente diferença nenhuma. Vi uma protestante escrever coisas de um nível tão ignorante (e é professora!) sobre o Papa que fiquei curiosa. Dias depois a mesma pessoa publicou uma imagem com dizeres sobre não importar a religião da pessoa, mas sobre ser chato. Hein? Eu acho chato quando as pessoas comentam coisas sobre as quais não lhe dizem respeito. Ou, principalmente, sobre as quais elas não têm conhecimento algum.

Choveram comentários de ateus sobre a escolha do Papa. Achei tão, mas tão, sem noção que me esforcei por ignorar. Pô, o cara não é ateu? Por que diacho se preocupa com o Papa? Deve ser algum trauma mal resolvido, só pode. Sobre o incêndio em Santa Maria, por exemplo. De um segundo a outro todo mundo parecia amar aquela cidade lá no meio do Rio Grande do Sul. Todo mundo parecia compartilhar uma dor que a imensa maioria das pessoas sequer vai passar perto durante toda a sua vida. De uma hora para outra todo mundo entendia até de espumas isolantes e saídas de incêndio.

Isso me lembrou um pouco aquela piada futebolística sobre os milhões de técnicos que a seleção brasileira tem. Não sou nenhuma entendida em futebol, mas um dia tive que perguntar o que isso queria dizer e me parece ter uma relação próxima. Mas o torcedor, pelo menos, conhece, acompanha, entende daquilo que fala.

E é aí que mora o segundo problema. Opinião é uma coisa, proferir a sua ignorância aos quatro ventos é outra.

Opinião não é, ao contrário do que eu tenho visto, uma coisa vazia, sem fundamento, incoerente. Eu formulo minha opinião através de informações, conhecimento, que eu possuo de algo ou alguém. Fora isso, é pura ignorância – e você resvala em expor seus preconceitos, problemas pessoais e coisas piores. Se você é ignorante acerca de algo, você não é a melhor pessoa para falar sobre. Eis que as redes sociais e a internet foram contaminadas por esse excesso de ignorância. Não é nem eu ser obrigada a dar minha opinião sobre tudo (às vezes eu também caio nessa burrice), mas eu falar ou escrever idiotices sem fim. Já diziam minha avó e minha mãe que religião, gosto e futebol não se discutem. Discordo, acho que tudo é passível de discussão. Levando-se em conta que discussão não é briga e que se deve usar de argumentos. Discussões são sempre bem vindas. Ignorância não.

Então eu, alheia a futebol, vejo ali a notícia sobre o time tal que perdeu porque fulano fez uma falta clara e já saio escrevendo sobre isso em todos os lugares. É tipo aquela pessoa que quando vai conversar só sabe falar sobre as últimas notícias, sabe? (acho mortificante) Não tem assunto, não tem interesses, não tem hobbies, não tem nem as (famigeradas) especializações: gira em torno do corriqueiro.

Não defendo aqui censura às publicações até porque isso seria impossível. Cada um pode fazer suas censuras (sem seus “amigos” nem ficarem sabendo) nas redes sociais como bem entendem. Me preocupa e incomoda o excesso de ignorância presente nas tais opiniões. Eu gosto de ler as opiniões alheias. Mas opiniões, no sentido literal, que tenham conhecimento e fundamentos. Por que diacho eu escreveria sobre o que está acontecendo com os índios de não-sei-aonde sem ter conhecimento nenhum ou baseada em um vídeo que todos estão publicando? Por que diacho eu escreveria sobre a novela das oito, a qual eu nem assisto, nem que seja para dizer que acho chata e por isso não assisto? Não pareceria excessivo? Por que diacho você escreve sobre o Papa se você não é católico e existir um nem faz diferença na tua vida? Não sou obrigada a viver dando uma pseudo-opinião sobre tudo. Nem nunca fui das mais ligadas em notícias. Também não sou daquelas alienadas (nem pretendo ser) que só vivem para o seu umbigo – aquelas que é tão fácil perceber que também não têm opinião nenhuma porque não têm conhecimento sobre nada.

Sei, e já disse isso aqui, que fiz o juramento de “libertar as pessoas da ignorância” lá na Filosofia. Ainda hoje não entendo porque nosso juramento diz isso. Nós nos libertamos da ignorância por vontade própria, o que não impede que sejamos auxiliados quando temos esta iniciativa.

Já diria meu pai (que sempre deve ter achado que eu tenho muitas opiniões…) que em boca fechada não entra mosca. As redes sociais às vezes parecem tão cheias de moscas que mal consigo vislumbrar qual é o prato do dia.

Porque aquele que nunca ouviu uma música do Charlie Brown Jr ou nunca tinha assistido um programa da Hebe, ao ver a notícia das suas mortes aciona sua metralhadora giratória de idiotices e dispara ignorâncias sem fim.

Eu só diria: não se obrigue a isso. Não desfile a sua ignorância pelas TLs da vida. É chato, fica feio, a gente até desiste de ser amigo no sentido real – porque no virtual, em dois cliques, você já estará oculto. Eu respeito, porém, quem fala com propriedade de algo, concordando ou não com o que é dito. Agora, respeitar a ignorância foge às minhas forças.

Eu não preciso ter opinião sobre tudo pelo simples fato de que eu não tenho conhecimento o suficiente para isso. Nem eu nem ninguém.

Perguntas e respostas

 

Pés molhados, gelados, maxilar dolorido, tudo fora do lugar e isso aqui era para ser sobre perguntas e respostas.

 

Perguntas que deixei de fazer quando deveria e respostas que não dei quando pude. Relutância? Talvez. Alguma atração irresistível pelo mistério? Duvido.

 

Desculpem o piscianismo de hoje, mas o assunto é sério. Piscianas não gostam de “não saber”. Isso que elas são as adoradoras dos mistérios da vida.

 

Mas ficamos naquele meio de campo entre a dúvida e a fantasia. Ou corremos para a fantasia e lá nos alojamos sem previsão de saída, ou instauramos a dúvida e nos agarramos tanto a ela que certeza nenhuma (nem o seu grito mais verdadeiro) nos fará largá-la.

 

Perguntas que ficam sem respostas pelo simples motivo de que não foram pronunciadas. E nem todos conseguem ler nossos pensamentos. Ah, alguns conseguem… e esses são os que me tiram o sono. Diz lá a canção “eu não sou difícil de ler”, que interesse dá pra ter por alguém assim?

 

Respostas que não foram dadas porque ficaram engatinhando na garganta, na dúvida de se entregar assim tão rápido e direto para alguém que não sei se merece ter algo de mim, nem uma mísera resposta. Mas respostas que eu queria ter dado, estendido uma trégua, uma palavra de abertura. Porque pisciana é assim, fechada atrás do seu muro de pedra. Não são só coisas boas que existem lá dentro. E isso é sempre bom deixar avisado.

 

Esse exercício que a gente fez quase um pacto: tentaremos ser mais carinhosas, mais “abertas”. Ou algo assim. Lutaremos com essa natureza ríspida, direta, verdadeira, sincera. Não lutaremos contra isso, mas tentaremos uma abertura mais táctil (para quem merecer, é claro). Não gostamos de qualquer um. Não gostamos dos que gostam de qualquer uma.

 

Saturei minhas semanas de perguntas que giram na minha cabeça porque não foram feitas. De respostas que não dei, ou não dei como poderia. Preciso, em palavras ou, de preferência, em gestos ter algumas respostas. Na verdade, só uma. Quis o Destino que não fosse hoje. Nem será nessa semana. Uma resposta que não me deixa dormir há meses, não gostamos de não saber. Eu mesma detesto casos mal resolvidos.

 

A relutância em tomar as rédeas das perguntas e respostas se deve, no meu caso do momento, à fantasia. Encontrei um lugar confortável ali e não quis sair. Mas, idas e vindas, aquele trajeto de táxi, conversas, pactos, análises sem fim e eu quero me obrigar a sair.

 

Se as pessoas não lêem nem livros, poucos são os que perdem tempo lendo pessoas. Lendo gestos, pensamentos. Lendo as perguntas que não fiz.

 

Fiz promessas de colocar as perguntas em dia. As respostas já são mais difíceis, afinal, as perguntas passaram. Mas eu acho que dá tempo de consertar, de disfarçar o receio.

 

Perguntas e respostas devidamente feitas são tão necessárias, mesmo que evitemos tanto. Porque no nosso mundo a fantasia machuca mas é sempre mais linda que a realidade. No nosso mundo não damos explicações e achamos que as pessoas lêem pensamentos.

 

Piscianas amam a liberdade. Nunca confunda isso com qualquer outra coisa. Não me deixe livre porque eu não vou saber o caminho de volta. Piscianas dificilmente voltam pelo mesmo caminho. Piscianas querem respostas sem fazerem perguntas. E querem que você já saiba as respostas.

 

Apaixone-se

Sopra o Outono:

apaixone-se.

Reverberam as ondas do mar:

apaixone-se.

Grita o pôr-do-sol:

apaixone-se!

 

Apaixone-se.

É Outono

Quando você sempre se apaixona.

Nunca foi no Verão

Nem no inverno

Nem na tua tão amada Primavera

Apaixone-se.

Já era hora.

A cigana lhe avisou

Os astros previram

As cartas anunciaram

Apaixone-se!

 

O Destino se impôs

Você aceitou-o.

Agora, apaixone-se.

 

E se for o certo?

Jamais esses bons tempos?

De solidão, diversão, confusão?

E se for o errado?

Voltarão as ilusões a caírem por terra?

De novo a dor, o cansaço?

 

Eis que nunca saberemos.

Quantas vezes você ainda vai pensar?

Vai analisar? Ler e reler?

Procurar em vão explicações?

 

Você não pensa. Você sente.

Apaixone-se.

 

Os dias, as noites, as canções

Todos lhe dizem a mesma coisa:

apaixone-se!

 

É Outono. Apaixone-se.

Decidi

Quis ser romântica

ser mãe

ser amante

 

O coração esqueceu

Entrei pra luta

Agarrei com as unhas

Desci do salto

Não pintei o cabelo de loiro

 

Decidi desejar

E não mais ser só desejada

Pagar a conta

E ser servida

 

Me pagaram menos

Passaram a mão na bunda

Me espancaram

Quando eu disse “não”

Me violentaram

Na alma, no corpo

 

Só me chamam

Pra bancada do jornal

Pra comercial de produto de limpeza

Pra cantar rebolando

No trio elétrico

Ou ser a protagonista

Sofredora das oito

E a heroína submissa

Do best seller

Apresentar um programa culinário

Ou desfilar na semana de moda

 

E pensam que somo iguais

Nos admiram

E não valorizam

Não respeitam

Ainda dominam

O discurso, a imagem

 

Quis ser romântica

ser mãe

ser amante

 

Decidi ser romântica

Ser mãe

Ser amante

Lutar

Não usar salto

Pintar as unhas

Jamais ser loira

Desejar

Assumir as contas

Ser servida

Não ser só uma imagem

Ganhar mais

Pensar.

Todos os motivos do mundo

 

Devo pedir desde já desculpa pelos longos períodos de ausêcia e pelo silêncio repentino que se farão por aqui (e em outros lugares e meios) este ano. Eis que é uma dissertação, é a volta ao estudo, o trabalho, as viagens, mas, acima de tudo porque devo acrescentar um in/m ao que 2013 me reserva: indescritível. E é por isso que não consigo vir aqui dizer quais foram as coisas das últimas semanas que mudaram minha vida. É por isso que não consigo vir aqui dizer o que foi a sensação de trancar a garganta e não chorar até o dia seguinte, a sensação de “não quero que acabe” que tomou conta de mim uma noite dessas. Não consigo hoje, ainda, escrever ou descrever ou sequer contar certas coisas como porque fiquei sem voz e sem ouvir direito dia desses.

 

Entreguei de vez minha vida nas mãos do Destino. Sim, já fiz isso algumas vezes antes. Dá medo. Dá uma puta ansiedade. Dá uma certeza absurda. Aliás, sempre fui muito nervosa e ansiosa, aí criei mecanismos para controlar isso e há anos tem dado certo. Explodi o mecanismo e voltei a sentir ansiedade. Que saudade que eu estava disso! Todos os sintomas de ansiedade me assaltaram e fiquei feliz pra caramba! Ansiedade me faz um bem danado! O medo? Necessário, mas eu nunca fui medrosa, então passo por ele com facilidade. O segredo é não deixá-lo me congelar. E a certeza… ah! a certeza! Eu acredito. Tenho esse dom da fé e isso me basta. Quem manda aqui, agora, é o Destino. E nada mais me importa.

 

Se 2012 foi tão definitivo e profundo, mas eu ainda com as rédeas às cegas, agora as rédeas não estão mais comigo.

 

E foi assim que saí hoje para caminhar, pensando na vida. Obviamente com o fone de ouvido, viro a primeira esquina e toca uma música muito (muito!) emblemática na minha vida e eu lembro de alguns episódios ligados a ela: um sorriso fica ali dançando no meu rosto. Fui caminhando assim sorrindo… distraída, como sou e como a marca do Destino no meu nome já previa. Meio sem entender reparo que um senhor, um velhinho alto e magro, vem caminhando no sentido contrário retribuindo o meu sorriso e faz um meneio de cabeça. Distraída estava a ponto de não ter me dado conta que eu andava sorrindo pela rua… sorrio de volta, engasgo um meneio em resposta e ele passa adiante. Seria um conhecido? Não. Algum amigo do vô ou da mãe? Talvez. Mas aquele sorriso era uma resposta ao meu sorriso. Comecei, então, não mais a sorrir, mas quase rir da situação. Voltei a sorrir mais algumas vezes, conforme o random do mp3 mandava.

 

Enquanto caminhava lembrei de uma frase dos muros do Canto da Lagoa que dizia algo que expressava a situação com o velhinho. Não lembro exatamente a frase, mas lembro onde ela se encontra. Era isso de dar ao mundo o que você quer de volta. Ou como diz lá a canção do mundo que lhe sorri e você não sorri de volta. Ficarei devendo a frase (quando passar por lá vou lembrar).

 

E é assim que o Destino faz viver… na certeza mais inescrutável, com sorrisos que lhe brotam dos lábios e que geram sorrisos de volta. Talvez eu nunca mais veja aquele velhinho, talvez ele nem pense no que aconteceu hoje. Mas eu recebi um sorriso de volta sem explicação, sem motivo, pelo simples fato de ser uma resposta ao que eu dou ao mundo.

 

Por um mundo com mais sorrisos contra sorrisos pelas ruas. Ou só eu ando sorrindo por aí? Cheguei a pensar que o velhinho talvez estivesse tão acostumado com pessoas carrancudas pelas ruas e só por isso retribuiu um sorriso que nem era diretamente para ele. Talvez.

 

Eu poderia começar um papo muito zen aqui sobre coisas boas que só vêm para quem está de bem ou coisa que o valha. Mas, não.

 

Se você me encontrar sorrindo por aí, saiba que tenho todos os motivos do mundo… e, se quiser, retribua. É sempre bom.

 

 

Change mine

 

I was watching a movie and Redford said to his girl: You want to change the world. Change mine.

Just like that: change mine.

I´m always thinking about movie´s dialogues. I don´t know if it´s because my work or just because I love the words too. I only know that I always do it.

And then I was thinking about how many worlds I have changed. Because I´m one of those who wants to change the world. And I know for sure I´ve had changed others worlds. I´m talking about guys, schoolchildren, friends and anyone else.

So I asked myself: does anyone changed mine?

I don´t think so.

Oh, yes, some people did the difference in my life, of course. But no one changed my world.

Have I met someone who wants to change the world?

This is the right question. I´m quite sure that the answer is negative.

I need someone who wants to change the world. So this one should change mine.

I´m a little bit tired of changing others worlds. But I´ll never be tired of wanting to change the world.

I realized that I want to look into his eyes and say almost the same words of Redford: You want to change the world. Me too. But change mine first.

A velhice, o aniversário do Garcia Márquez e os exercícios do tempo

 

 

Justifico minha ausência devido a compromissos acadêmicos… ou “prazos” acadêmicos seria mais adequado. Na verdade escrevi muito nas últimas semanas, enquanto matutava sobre tantas coisas e criava aquelas pautas imaginárias para o blog. Estava com saudade disso aqui. Não daquela escrita injuriante de quem falou o que e o que eu posso dizer disso. Cansa. Cansa uma pessoa como eu tão afoita por matutar…

 

Foram algumas pautas imaginárias, textos mentalmente escritos durante os banhos… a maioria disso tudo nunca passará por aqui. Tenho um imediatismo e uma inconstância que determinam isso.

 

Mas hoje em especial algumas coisas me fizeram lembrar de uma matutação que fatalmente viria parar aqui.

 

A morte. Eu tenho essa espécie de fascinação pela morte. Eu sei os motivos. Mas não é ela que me motiva escrever aqui.

 

Lembro de já ter contado que eu e meu irmão quando bem novos tivemos a mesma idéia, de que seria melhor morrer ou matar-se antes dos quarenta anos porque envelhecer é um espetáculo para quem tem estômago. E lá na tenra idade não queríamos nos ver em decadência física e mental. Bem, ele teve o privilégio de não se ver diante do peso do tempo. Eu? Eu não escapei e tenho a nítida sensação, hoje, de que durarei muito tempo por aqui ainda e verei muitos irem antes de mim.

 

Aquela história de que somos uma máquina e que uma hora a coisa começa a pifar aqui e ali é uma baita verdade. Por isso que digo que para assistir à decadência e à velhice é preciso estômago.

 

Para quem não é próximo dos pais e avós ou é do tipo ingrato e desnaturado (não é o meu caso) o texto não fará sentido.

 

Chega aquele momento que você se dá conta que o quem cuida de quem se inverteu. Você percebe que não importa se você tem paciência ou não, você terá que fazer exercícios diários e constantes dela. Aquelas coisas que você tanto admirava neles e que te inspiraram já não são mais como antes. Os dons que eles tinham foram desmoronando e você precisa estar ali para dar conta do que eles nem lembram mais como se faz. Aliás, a memória será um espinho a te cutucar a todo momento. Eles terão certeza de coisas que nunca aconteceram, discutirão incansavelmente sobre coisas que nunca disseram. Te perguntarão dezenas de vezes a mesma coisa. O óculos? Esquecerão em todos os lugares e você vai precisar dirigir quando eles não forem encontrados, ou ainda ler as placas e preços no supermercado. Você se tornará algo assim como os olhos e ouvidos deles. E em alguns casos as pernas e braços. Aquela manha de gritar do quarto “mãe, traz sorvete?!” não será mais ouvida – e não, eles não estão te ignorando só porque querem te fazer perder a manha, eles já não ouvem mais como antes.

Você vai se irritar. Vai perder a cabeça. Vai achar que eles estão beirando a loucura e que você já deve ter se contagiado. Você vai explodir em algum momento – principalmente quando os teus problemas estão tão grandes e não há ninguém com quem contar, agora você não pode contar nem mesmo com eles – dirá coisas que não deveria, rolarão as lágrimas e um estremecimento fará com que eles se sintam culpados. Você terá a profissão de fé diária de mostrar para eles da forma mais leve possível que eles não são um fardo. E se arrependerá muito por ter deixado escapar uma frase qualquer que deu isso a entender.

Você vai mudar muita coisa na tua vida, na casa, na tua rotina por causa deles. Eles talvez nem percebam… mas você não vai jamais comentar isso. Eles vão precisar de você quando você estiver precisando de você mesmo, mais do que nunca. E você vai se colocar em segundo plano. Porque você os ama e já brigou muito com eles, já bateu de frente nos arroubos da juventude, já foi a filha rebelde e desobediente, já fugiu de casa, já deixou de telefonar – e agora nada disso mais importa: eles são tudo o que você tem. Vai ser aquele papel que ela derrubou e não conseguiu ajuntar, aquele peso que ele foi carregar e não conseguiu. Você vai se ver fazendo tanta coisa já no automático, sem nem perceber que virou parte da tua vida. Desde as menores coisas até as grandes decisões.

 

Quando eu via meus pais, achava que eles seriam daquele jeito pra sempre. O tempo, porém, foi chegando… se encostando ali, se ajeitando aqui… e chegou o dia de hoje quando percebi que eu já estou mais para o lado de lá do que para o lado de cá das manhas e rebeldias. Sabe, eu encontro um olhar que me chama para aquela fuga e na hora lembro da data da próxima cirurgia. Me peguei pensando se eu não estava usando-os como muleta para fugir de alguns chamados do Destino. Já não sei ao certo. Eu posso romper e deixá-los à própria sorte por alguns dias… e que eu aguente o estrago depois.

 

Ao mesmo tempo, eu ganhei a liberdade de ditar algumas regras. Numerar prioridades e imposições. Aí fica engraçado ver os momentos de teimosia deles e os silêncios diante da proibição de dizerem qualquer coisa sobre o que eu faço. Aliás, teimosia… e que teimosia! Só piora, definitivamente. Sim, eles vão insistir com você no A quando você cansar de dizer que é Z e aí chutar o balde e decidir pelo D. E você vai se pegar pensando: será que eu era assim teimoso quando criança? (porque aí talvez a vida tenha sentido e tudo se justifique: estou pagando meus pecados)

 

O mês de janeiro foi lindo e numa bela madrugada eu peguei um daqueles romances de banca de revista para me fazer companhia. Nunca pensei nisso de me identificar com nenhuma personagem literária, afinal não sou magra, alta e loira ou ruiva sardenta. Sempre foi mais fácil cobiçar os mocinhos e vilões. Quem acompanha o blog sabe que eu falava por aqui em fazer uma lista comentada sobre os personagens da ficção pelos quais sou apaixonada. Comentava isso com umas amigas quando uma delas disse que faria uma lista das personagens com as quais ela se identificava. Eu fiquei sem conseguir citar uma. Eis que me lembrei da protagonista desse romance que eu havia lido fazia poucos dias. Sim, eu me via nela – e não era só porque ela tinha sonhos eróticos com o Marco Antônio (e o Marco Antônio dela nem era o Purefoy). Era porque ela tinha cansado de relacionamentos que não entendiam que ela se doava para todos que ela amava e isso incluía a família, ela não podia fazer uma escolha entre ele ou a família. Aí ela só buscava sexo. Vivia com a mãe mas escondia isso e escondia a real situação de saúde da mãe. Por quê? Porque ninguém entenderia. Quando surgia um convite para um jantar ela declinava com uma desculpa qualquer porque tinha que ir correndo pra casa dar a janta pra mãe. Ela já havia desistido de acreditar que quem entrasse na vida dela teria que entrar de vez e corria o risco de não ser prioridade em alguns momentos.

 

Quando eles precisam de você mais do que quando você precisava que trocassem as tuas fraldas é que você entende a complexidade do envelhecer. Não é um envelhecer no sentido mental: eu sou velha no “modo de ser e de pensar”, várias pessoas dizem isso de mim, eu mesma digo já faz bastante tempo. É o envelhecer mecânico mesmo. E eu fatalmente lembrei do que eu e meu irmão pensávamos. Eu tenho alma de velha, mas só por agora é que a idade começou a mostrar as suas malditas limitações depois de uma sucessão de doenças. Elas felizmente passaram, mas os seus danos não. E eu não tenho mais quinze anos para ficar “nova de novo”. O pior do declínio é não conseguir aceitá-lo. É teimar em não acreditar no quadro que vê a sua frente. Para quem está ao lado neste momento é um exercício de choque e paciência sem fim. Com todas as letras e sem poesia: envelhecer é uma merda.

 

Quando eu soube que o Chorão morreu fiquei pensando que era um bom momento para falar disso, porque ele me fez lembrar, por vários motivos, meu irmão. Mas aí lembrei que hoje era aniversário do Gabriel Garcia Márquez, dia seis de março, mais um ilustre pisciano. Gabriel que me levou pela mão numa literatura difícil, desconhecida, apaixonante e que, posso dizer, mudou um tantinho a minha vida para sempre. Pouco conheço da vida dele, pouco li a seu respeito ou vi entrevistas. Amei as suas histórias com devoção de amante casta. Me entreguei a elas. Hoje, quando faz oitenta e tantos anos, Gabriel está senil, com algum tipo de doença degenerativa. A vida é uma merda. O homem que escreveu aquelas doçuras, que fez e faz parte da vida de tanta gente, que abriu horizontes de quem ele nem faz idéia, está vivo mas não pode mais, mesmo que a cabeça quisesse, escrever suas histórias. A idade, a velhice, a decadência chegam para ficar. Lembrei também do belíssimo filme E se vivêssemos todos juntos, francês. Delicioso, agridoce, pueril, doloroso. Nunca antes eu havia me visto rindo e chorando ao mesmo tempo durante um filme. Eu ria, eu chorava, eu me angustiava… não se escapa da morte, mas podemos escapar do fim despedaçante com a morte.

 

A morte nos poupa de ver tudo se esvaindo… de ver quem fomos ruindo aos poucos diante de um eletrocardiograma ou de um aparelho para surdez. A morte é aquele ponto final digno para a indignidade que nem dá mais para chamar de vida, em alguns casos. Por essas e outras que acho digno o suicídio. E quando alguém vem com aquela “tanta gente lutando pela vida e tem quem se mata” eu nem respondo, só penso cá com meus botões: lutando por qual tipo de vida? Lutando por quê? Se não morrer hoje, morre amanhã. O suicida toma as rédeas desse caminho sem volta. Não tem volta, mas tem fim. E o fim é nobre. Muito mais nobre do que chutá-lo raivosamente ou espernear diante dele.

 

É pensar no fim que torna tudo tão mais difícil e complicado. Você tira paciência e tempo sabe-se lá de onde, você esquece as horas de sono, você troca teus programas… porque o que te move é mais forte… e é isso que te impede de pensar no fim. Porque você sabe que tem a recompensa daquele sorriso quando você lembra de um detalhe que eles sentem falta, porque você já os conhece tão bem que nunca erra nos mimos, porque dar presente não precisa de data e parece tão natural pensar neles antes de pensar em você. Será que ser mãe é assim também, mas com muito mais angústia? Tudo me apavora. Mas eu sempre vou lembrar de trazer uma bomba de chocolate, umas sfihas, uns doces de damasco, dar um tênis de dia dos pais, comprar todas as corujas que aparecerem pela frente e lembrar das xícaras e chaveiros para a coleção. Só porque descobri que ser filha é muito mais do que eu imaginava.

 

 

O que eu aprendi com o nissin

 

Tentarei ser breve porque as coisas por aqui me cutucaram e senti como se fosse um soco no estômago. Não é simples quando a gente descobre que quer ser feliz. Descobri isso faz tempo, mas as últimas horas e os últimos pensamentos… bem, deixa pra lá.

 

Não sei porque eu e meu irmão começamos a gostar e comer nissin. Já faz um bom tempo, é claro. Mas minha mãe sempre foi excelente cozinheira e nem víamos comida pronta em casa. Sei que quando ainda morávamos com ela descobrimos o nissin (provavelmente pelas propagandas), depois ele foi um bom companheiro quando fomos morar longe de casa. Fato é que de vez em quando fazíamos nissin.

 

Minha mãe sempre serviu o almoço e sentávamos todos juntos para almoçar na cozinha. Era sagrado. Mas janta era cada um por si, um tempo depois até comíamos em frente à TV. Faz um tempo minha mãe pegou o costume do café-da-tarde (por influência da vó). Eu, como sou boa de garfo, almoçava em casa, tomava café na vó e jantava em casa depois. Pior, fiquei com todos os costumes… eu sou uma embolada de costumes.

 

E eis que toda vez que eu abria o pacote do nissin fissurava no medo de derrubar o sachê do tempero na panela com água fervente. Toda vez. Tipo doentio mesmo. Devo comer nissin há um tanto mais que dez anos (com uns intervalos quando não podia nem ver um na minha frente – tenho disso – qualquer dia falarei mais sobre meus interessantíssimos hábitos alimentares) e sempre e sempre fissurava no medo.

 

Semana passada me deu desejo de comer nissin, eu estava na praia e não tinha nenhum. Nenhum. Assim só para aplacar o lanche começo de madrugada de uma solitária imersa em pensamentos, trabalho e ficção.

 

Hoje fui ao supermercado e comprei nissin e espigas de milho. Só. Aliás, eu tenho essa mania de observar o que eu e as pessoas compram. Acho algumas compras muito interessantes. Fico observando os carrinhos alheios, confesso. Traço um perfil da pessoa só pelo que ela coloca no carrinho. Faço o mesmo com o lixo alheio. Bem, são outras histórias.

 

Aí fui fazer um nissin para comer enquanto assistia alguma coisa ou pensava na vida. Água fervendo, abro a embalagem em cima da panela, coração travado na fissuração e… cai o sachê na panela. Reflexo rápido (sim, eu tenho e ele é muito bom), puxo o garfo e saco o sachê do afogamento. Nem me queimei. Não é época de queimaduras, é época de caneladas. Sim, tenho épocas para desastres físicos. E é inferno astral, então…

 

Primeira conclusão rápida: o sachê é feito de algum material que é bem resistente à água fervente. Eles devem prever que isso pode acontecer.

 

E eis que me peguei pensando em quantas coisas eu fiz com o coração angustiado, medo?, para evitar alguma outra consequência não desejada e… não tive o gosto de descobrir que o medo era infundado? Quantas? Quantas?

 

Quantas coisas eu deixei de fazer porque rondava aquela tensão do que poderia “dar errado” e… o errado poderia ser tranquilamente nada desastroso? Quantas?

 

Tem sempre alguém pensando e prevendo que eu posso errar, fazer alguma bobagem ou ter um lapso qualquer e, por isso, fazendo embalagens resistentes à água fervente? Terá sempre esse alguém olhando para os meus temores?

 

Foi assim que o nissin e, depois, tantas coisas deram voltas na minha cabeça e nos pensamentos sobre se eu quero mesmo ser feliz. E por que diacho eu tenho tanto – mas tanto – isso de pensar demais nas coisas e nos atos e calcular cada gesto, cada palavra, para não expor os meus temores como fraturas expostas que realmente são? Se mesmo assim me machuco tanto, que diferença faz assumi-los e que caia o sachê, que derreta, que eu coloque fogo na cozinha. Às vezes não me reconheço. Porque eu já coloquei fogo na cozinha quando menos esperava.

 

 

Num corredor do supermercado…

 

Às vezes acho que tenho os pensamentos mais impróprios para os lugares onde estou.

Esses dias saí e enquanto caminhava me duelei com uma das teorias que fico formulando nas horas menos vagas. Horas depois, quando cheguei em casa, sabia exatamente onde, qual música tocava no mp3, como eu andava, o que eu vi – tudo passava como um filme colorido na minha cabeça – quando estava duelando com a teoria na rua e por nada desse mundo conseguia lembrar qual era a grande questão acerca da teoria. Dias depois, do nada, lembrei. Volta e meia essa teoria reaparece nos meus pensamentos.

Ela é simples e boba. Não vale nem o tempo de leitura de vocês.

Há tanto tempo tenho a teoria de que encontrarei o amor da minha vida num supermercado. Um olhar, um esbarrão, uma coincidência boba qualquer. Convivo com essa idéia e muitas vezes lembro dela quando entro num supermercado. Passei aí mais de um mês sem entrar em um supermercado e quando o fiz semana passada nem lembrei da teoria – me preocupava encontrar espigas de milho com qualidade e bom preço para fazer um estoque. Nem vou dizer que tinha, comprei bastante (agora somos em quatro para dividí-las!) e ainda vi um homem vendendo na estrada e outro em frente ao restaurante onde fui no dia seguinte. Depois de meses sem em dois dias havia milho para todos os lados. Mas essa é outra história.

Então tenho essa teoria. Às vezes caminho despercebida pelo supermercado pensando na teoria. Normalmente não gasto muito tempo em supermercados. O que, aliás, diminuiria minhas chances de encontrar o amor da minha vida.

A teoria não tem nada de romântica, é verdade.

Mas não me vejo encontrando o amor da minha vida no carnaval, por exemplo. Amor no carnaval, só de carnaval – como diz aquela belíssima canção cantada pelo Jair Rodrigues (aliás, ele é uma simpatia e o show dele é uma loucura!). Mamãe e papai não querem que eu case porque acham que é cedo (para eles sempre será) e saudade é coisa boa que dá e passa.

Eis que há um tempo, encontros e desencontros da vida, pensei em reencontrar um grande amor da minha vida num avião. Ponho mais fé e romantismo no encontro num avião (sem aquele clima de “foi por medo de avião que eu segurei pela primeira vez a tua mão”) do que num supermercado, é verdade. Num aeroporto não. É difícil eu encontrar alguém num lugar assim porque meu estado de espírito é sempre aéreo demais (só por milagre encontrei minha mãe no de Brasília). O “aéreo” não foi piadinha infame. Meu nome não é à toa, ele diz tudo a meu respeito. Tudo.

Eis, então, duas boas possibilidades. A eterna do encontro num supermercado e a do avião. Cada uma delas traduz um perfil de “amor”. Era sobre esses “perfis” que eu tenho pensado nos últimos dias… culpa do Christopher. Mas essa é, ainda, outra história.

Quando eu caminhava naquele dia, o que me trouxe a teoria à tona (eu não ia ao supermercado) foi que nunca imaginei encontrar o amor da minha vida numa livraria ou num sebo. Fiquei, então, me perguntando porque diacho eu nunca havia pensado nisso. Uma boa parte do caminho foi para entender porque eu não pensava no meu príncipe encantado em meio a livros… de cara tive duas boas respostas e, bem, fui veemente o suficiente para me convencer a mim mesma delas. Há lugares que dizem muito das pessoas que os frequentam. Essa foi a teoria que nasceu da discussão. Provavelmente esta teoria nasceu carregada por alguns traumas que já tenho na vida com pessoas que frequentam sebos e livrarias. Mas ficou de pé.

Li um livro esses tempos que me fez pensar que nunca vivi certas cenas tão clichê de cinema – e me levou a perguntar se elas só existem nos filmes. Há cenas no cinema e na TV (bastante frequentes) de casais que se encontram (por acaso ou acasos calculados) nos corredores de supermercados. Acho que não é daí que vem minha teoria. Mas nunca vivi a cena de entrar num bar/restaurante e um cara se interessar de cara por mim e perguntar se pode sentar comigo – bem, a probabilidade de ele ter um “não” como resposta é enorme. Sabe esse tipo de cena? Ou no ônibus. Sei lá. Tem aquela do cara mandar um drinque pra tua mesa. Tinha mais uma ou duas que não me recordo agora. Escrevendo lembrei de uma cena que provavelmente existe em algum filme mas que já vivi. O cara chega e puxa conversa na praia e pede pra sentar do teu lado. É tão chato. Teve um mineiro ali no Campeche, uma vez, que foi muito chato. Eu sou a pessoa mais disposta a dispensar indiferentemente esse tipo de abordagem. Sério mesmo. Sou boa nisso. Aliás, eu vivo sozinha, e se me verem sozinha por aí não é porque estou aberta à abordagens ou infeliz sozinha. É um modo de vida. E tenha certeza que na quase totalidade dessas vezes eu quero estar sozinha. Aliás, em certos programas e passeios eu detesto companhia.

Foi aí que somo dois mais dois e fico pensando que se o amor da minha vida me abordar num supermercado eu poderei mandá-lo pastar com certa desenvoltura. Sou dessas de correr o risco, o tempo inteiro, de ver o amor da minha vida passar por mim e ainda despachá-lo com indiferença.

Christopher me fez pensar que sim. Porém, me deu uma certeza do que eu considero amor. Ah, sim, sou a mesma adolescente que teve suas teorias de que era só uma palavra para encobrir os coitos e os interesses. Ainda acho esta teoria válida. E a concorrente dela também.

Dentre os tipos de amor, desisti do que eu sempre vivi. Abracei, de vez, aquele que eu sempre admirei e fiz fé. Os outros são só inventados.

Se eu encontrá-lo num corredor de supermercado ou sentado ao meu lado num avião… quem sabe. Definitivamente não encontrarei-o nos corredores de um sebo. Nem num bloco de carnaval.

Como diz a outra canção, não ofereço quase nada. Nem quero tralhas nem medos nem ais, como diz, ainda, outra canção. Christopher me lembrou tanta coisa, das histórias de amor que existem sem um único beijo (e não são as platônicas ou não correspondidas), e o que de fato faz existir o amor em mim. É só nesse amor que acredito. Sempre foi, mas sempre me deixei distrair… como quando passamos pelas prateleiras dos supermercados olhando sem ver.

 

 

Liberdade de Expressão – liberdade se vive

Eu já devo ter citado por aqui em algum momento uma frase que segue comigo já faz bastante tempo, desde o dia quando encontrei-a nas páginas de um livro que vagava solitário lá em casa.

“Posso não concordar com uma palavra sequer do que dizeis, mas defenderei até a morte o vosso direito de dizê-las.” Sim, é Voltaire.

Quando li essa frase naquelas páginas, vivia uma adolescência conturbada, violenta, sofrida, agressiva, idealista, sonhadora, indagadora e muito contestadora. As pessoas já naquela época não me suportavam, não gostavam dos meus questionamentos, das minhas opiniões e muito menos da minhas observações acerca das coisas (e das pessoas) que eu via/ouvia. Naquele tempo, eu já me debatia entre as palavras no papel. Lembro de, no dia da Liberdade de Expressão de algum ano perdido no tempo (agora nem sei dizer em qual dia e mês ele é comemorado, mas procurem e verão que ele realmente existe), ter escrito algo entre a poesia e o desabafo. Sei que essa criação ainda existe, mas encontra-se distante de mim no momento. Hoje ainda algumas dessas pessoas têm dificuldade com o que muitos já chamaram de “personalidade forte” e que eu em alguns momentos preferi definir como voluntariosa. Daí já surge uma baita dificuldade de convivência comigo. Não tem que “compreender”, “aprender” ou “respeitar”. Tem que viver a liberdade.

Liberdade é assim. Você diz, pensa, faz o que bem entende. Eu também. Liberdade a gente vive. Escrevendo “o que bem entende” agora lembrei do Mill. O teu limite acaba onde começa o meu. Claro que tem tudo a ver com a liberdade. E no nosso mundo essas duas coisas vão parar lá nos códigos e leis.

Se bem me lembro já escrevi aqui sobre censura. Lembro porque houve uma história bem recente acerca de censuras nas redes sociais e, imaginem, aqui no blog. Eu já me auto-censurei por aqui devido a motivos poucos nobres. Não era para proteger ninguém, era para me proteger.

Indignação define.

Eu não digo a nenhum de vocês o que devem ou não publicar nas suas redes sociais, nos seus blogs, o que devem falar, o quanto ou como (e até em qual tom). Ah, mas vejam como a linha é tênue. Vocês vêm me dizer o que eu posso, o quanto, escrever, falar. Vocês têm, segundo a frase do Voltaire, todo o direito de dizer. Mas eu vou permanecer no meu direito de ignorar as censuras de vocês. Vocês não concordam com uma palavra do que eu digo, nunca esperei nem espero isso. Aliás, até prefiro que não concordem. O dia que alguém concordar com tudo o que eu penso/falo/escrevo vou me sentir muito mal. (lembrei do Nelson Rodrigues, é claro) Mas daí vocês virem me censurar, devo lembrar o Mill. O seu limite acaba em não concordar comigo, o meu começa em ter a liberdade de poder falar/escrever/pensar o que eu bem entender. Viram como é fácil juntar os dois?

Até porque não vejo vocês seguirem toda a frase do Voltaire, ficam só ali na zona de conforto de não concordar, mas jamais lutam pelo meu direito de dizer o que não lhes agrada.

Não vejo em mim maior dificuldade de convivência do que nesse tipo de pessoa. Se é difícil aguentar alguém que diz/escreve/pensa o que bem entende, daqui parece-me impossível, impraticável, conviver com quem censura os outros. Não serão, jamais, aceitas censuras. Em nenhum nível de relacionamento. De nenhum tipo. On ou off.

A rede social é minha, faço o que bem entendo nela. O blog é meu. A vida é minha. O corpo é meu. Antes disso tudo encostar no seu, será sempre meu.

Conviver, dizem, é essa via de duas mãos. Por isso tem tanto casal infeliz, tanta gente mal humorada, tantos corações rancorosos, tanto mais rugas do que sorrisos.

Hoje ainda me perguntei porque as pessoas, ao responderem “quem você é” (perguntinha básica de perfis sociais), elencam profissão, diplomas, méritos, posições, cargos, títulos. Você é os valores que você vive. Mas a maioria só consegue se definir por pedaços de papel com carimbos e assinaturas. Ou pelo contra-cheque.

Não entendo ainda o que querem dizer com “personalidade forte” ou “geniosa”. Só sei que as pessoas assumem um tom pejorativo quando falam nisso. A boiada está aí para quem quiser seguir. Desconfio de muitas coisas e mais ainda de muitas pessoas.

Tenho até a forte desconfiança de que quem mais censura (esses que não conseguem ver alguém dizer/escrever/pensar algo que não é corrente com o que eles dizem/escrevem/pensam) é justamente quem mais se auto-censura, quem mais se projeta sendo alguém que, definitivamente, não é. E faz isso por causa dos outros. São, normalmente, os que se preocupam demais com a opinião dos outros a seu respeito, que projetam imagens de um “si” que gostariam de ser – e, invariavelmente, não seriam se seguissem suas aflições, seus entusiasmos, seus prazeres, medos e ideais. Porque a liberdade está ainda mais presente nas ações. Quem não assume sua liberdade para “ser” jamais conseguirá entender quem o faz.

Em honra ao patrono do blog, eu que não sou das mais fãs de citações, deixarei mais uma das minhas (pouquíssimas) favoritas. Obviamente ela já deve ter aparecido pelo blog em outros momentos.

“Não o prazer, não a glória, não o poder: a liberdade, unicamente a liberdade.” (Fernando Pessoa)

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