Gabriel

 

– Quem é Lídia?

– Todo poema precisa de uma heroína.

– E você, como não tem uma, inventa.

– Baseado naquilo que vivo.”

Queria ter mais precisão na transcrição do diálogo acima. Talvez as duas últimas frases precisem de uma ou outra palavra. Sou péssima com citações, já disse. Enfim, acima da angústia, permanece o desejo de que as intenções das palavras tenham permanecido nesta breve adaptação.

E seriam os escritores algo além de criaturas que escolhem palavras com intenções (as intenções, bem entendido, das palavras, não dos escritores)? (vejam só, acabei de escrever uma frase curta na qual aparecia duas vezes a palavra “tentei” – ou seja, foi sumariamente eliminada, coisa fácil num teclado de computador) (mas tenho relutado e tido dificuldades para voltar a escrever direto nesta tela, não sei o que há, ela tem me repelido – as folhas parecem mais confortáveis)

Longe do meu desejo diante desta tela em branco falar, novamente, sobre narrativas, sobre o ato de escrever. Este desejo tem me acompanhado os pensamentos e os estudos. Resolvi escrever assim sem saber onde chegar e decidi começar por tal diálogo que me assombra pelas últimas horas.

Também não me parece digno de longas linhas o drama do filme. Na verdade não o acompanhei muito, estava em dúvida entre ele e um em outro canal e fiquei trocando entre os dois sem perceber que não estava dando bola para nenhum dos dois – e brincava com os bebês e curtia um momento obscuro.

Porém, ali havia algo, como no diálogo, que me toca os pensamentos dos últimos meses. Já não sabia mais o que fazer com um amor irrealizado e seus sintomas absurdos quando me dei conta, entre tanto trabalho, que deveria, então, escrever sobre. Com mais um livro de contos eróticos (não é bem isso, mas, deixa pra lá…) em vias de produção, decidi furar a fila dos trabalhos e escrever um sobre amores não realizados. Talvez também tenha sido influência das séries e filmes ingleses (e aquele com o Andy Garcia), nos quais encontrei alento sem fim.

E é isso. Amores não realizados. Há algo mais sublime no mundo amorístico? Há algo mais perfeito? Diriam que não há nada mais triste. Pois discordo. Triste é ver o fim real de um amor que concretizou-se, viveu, reviveu e foi, pelas esquinas da vida, destruído. Amores destruídos são tristes. A canção diz “todo o meu prédio já sabe que eu tenho um amor” e eu posso afirmar que todo meu minúsculo círculo de convivência já sabe que eu tenho um amor não realizado. Ah, eu falo sobre isso sem problemas. Cultivei o veneno das expectativas.

Escrever não é uma terapia. Criar mundos é abster-se de si. Não é a Fahya que rola no tapete da sala de TV com os bebês, ensinando e brincando, a mesma que se debruça horas a fio sobre telas e folhas em branco – ou que matuta dias sem fim por todos os cantos por onde anda. Não decidi ser escritora nem assim me intitulo. Tenho tentado assumir que escrevo. Como disse no post anterior, foi lendo, descobrindo aqueles mundos imaginários que quis criar meus mundos imaginários para além da minha cabeça atribulada.

Por esses dias acordei e me disse “quero um personagem”. Não estava contente com o que eu havia criado, ele parecia incerto. Escreverei sobre ele.

E García Márquez nos deixou. Já escrevi aqui sobre ele. A doença que o acometeu me fez pensar em como a vida pode ser cruel com o nosso corpo que nasce e cresce para apenas desintegrar-se. O primeiro livro que li dele foi Cem Anos de Solidão –lá se vão tantos anos... Na época nunca tinha ouvido falar em “literatura fantástica” e quase desisti dele nas primeiras páginas. E dali surgiram personagens, cenas, borboletas, bananas, peixes de ouro, nós no coração que me acompanham até hoje. Doze Contos Peregrinos me empurrou para esta guerra que é escolher palavras com intenções. Como o poeta do filme, crio meus heróis e heroínas… Gabriel me fez acreditar que um mundo inventado é sempre mais belo e lá atrás optei por ele – porque este aqui é tão desinteressante.

Por esses dias quis escrever que descobri em mim uma ânsia de interferir na vida das pessoas. De todos os sentimentos do mundo, tenho pra mim que o mais valioso é quando você interfere na vida de alguém – seja mostrando a ela algo que ela desconhecia, seja ensinando, seja lá como for. É o que eu sinto quando olhinhos se arregalam, me encaram e dizem “é mesmo! Eu nunca tinha pensado nisso!”. Conviver com os bebês me fez perceber mais isso. O mundo vai se descortinando aos olhos de outros… e você ser o responsável por isto é a melhor sensação da vida.

Não faz uma semana pensei, novamente, que insistia à toa em duelar com as palavras. E eis que a vida me respondeu. A cada leitor novo que se declara, ou que eu descubro, o sentimento aflora. Descubro-os mesmo naqueles completamente inesperados. E sentir que faço um pouco que seja pela vida de alguém já é tanto para mim.

Precisava dizer isso ao Gabriel. Ele fez muito pela minha vida (e não estou falando no caso de querer escrever). Como dizem os teóricos da literatura, as pessoas lêem para apreender a vida, para tentar entendê-la, para crescer como pessoa, ou até para fugir dela. Com Gabriel, tive tudo isso. Aqueles bilhetes, aquela chuva interminável, aquela rede com um gigante, aquele coronel, aquele impossível, todos eles mudaram meu olhar sobre o mundo, me fizeram ter 87 muito antes do tempo e nos piores (e como foram horríveis…) momentos me fizeram escapar deste mundo. Digo, a desrespeito de todos os amigos, de pais e irmãos, de namorados e casos, os mundos imaginários foram a melhor companhia – e, claro, somem a eles os seres de quatro patas.

A responsabilidade me sufoca. Ter leitores é angustiante – é como não saber se estou fazendo “certo”. Mas, como também já disse aqui, escrevo por mim, para vocês. Estudar sobre o ato de escrever é a soma: angustiante e sufocante. Tenho tentado lidar com tudo isso. E as histórias de amores não realizados surgem numa contemplação não de mim, mas das vidas nas quais poderei tocar com elas.

Um dos sonhos é conhecer a origem de Macondo. Um dia irei lá. Quem sabe meu filho, além do Sinfrônio José e do Zoroastro Artiaga, se chame Aureliano. E é a segunda vez, este ano, que fico com uma pontinha de tristeza por ter sido omissa em me declarar: a primeira foi ao Eduardo Coutinho, agora ao Gabriel. Porque eu já descobri como é forte ouvir uma declaração dessas. Não sinto pela morte do Gabriel, o tempo, a carcaça, as doenças. A morte do Coutinho foi mais traumatizante. Enfim, já faz tempo que a morte não é novidade pra mim. É impossível não ficar feliz com o fato de que eles, como tantos outros, estarão para sempre por aí fazendo muito pela vida de tantos de nós. Que nós saibamos fazer algo de bom com o que eles nos proporcionam, para nós e para os outros.

Maratona Oscar – Her

Falar em injustiça na lista dos indicados ao Oscar é clichê. Parece uma coisa de sorte mesmo. Tom Hanks, Robert Redford, Joaquin Phoenix, Emma Thompson são alguns deste ano. Mas a mais injustiçada foi a Scarlett Johansson. É uma situação complexa, a academia não indicaria a melhor atriz uma atuação que é só a voz da atriz o filme inteiro, ao mesmo tempo, não é qualquer atriz que aceita um papel desses e que, sinceramente, faz um trabalho excepcional.

Sim, estou falando de Her. É mera coincidência que os dois últimos filmes que me arrebataram são com a Scarlett. Ela é quase uma Marilyn em alguns sentidos. E talvez por isso eu goste tanto dela. Os dois papéis, em Her e Don Jon, são papéis que a maioria esmagadora das atrizes (principalmente as de primeiro escalão) dispensaria na hora. Scarlett não tem medo dos riscos da profissão. Scarlett é Scarlett, já fez seu nome, faz personagens que usam e abusam das suas melhores qualidades e adora um desafio. Ah, e dá entrevista dizendo que come um hamburguer daqueles cheio de ketchup. Ah, e tem fotos suas divulgadas na internet através de um hacker de celular e se sai com “Conheço meus melhores ângulos”. Scarlett é das minhas. Bem, chega de babação pela Scarlett, né?

Her foi amor – e não foi à primeira vista. Acompanhei algumas coisas que saíram na mídia antes do lançamento, mas quando fui assistir só lembrava que era com o Joaquin Phoenix (aiai…) e com a Scarlett (só isso já bastava para me convencer de muita coisa). Nem lembrava, como eu prefiro, da sinopse nem nada. E foi um baque.

Joaquin dando inveja em nós pobres mortais com um computador que digita o que ele fala (meu sonho de consumo há anos!). A humanidade não é assim tão esperta, ainda não inventou isso. E dando mais inveja ainda com o seu OS. Eu queria ambos.

É futurista. É melancólico (tudo que segue este padrão de futurismo tem isso, né?). É lindo. É uma fábula. E foi lá quase pela metade do filme que eu me senti arrebatada. Como não lembrar de Fahrenheit 451, o do Truffaut, aquele que bate e rebate com Teorema, do Pasolini, como meu filme favorito? Fahrenheit 451 é baseado na obra do Ray Bradbury, a qual eu ainda não tive a oportunidade de ler. Mas sempre quis muito ler qualquer coisa do Ray e eis que mês passado encontrei Os Frutos Dourados do Sol (numa edição do Círculo do Livro) na prateleira dos baratinhos do sebo. Her concorre com Melhor Roteiro Original, mas a concepção do futuro dele lembra e muito as obras do Ray – e Fahrenheit, é claro.

A melancolia, a solidão das pessoas, a relação com a palavra escrita, os avanços da tecnologia, o futuro sem localização temporal, em tudo isso há semelhança. Entre os filmes a fotografia e a direção de arte comungam também (e Her não foi indicado à fotografia, vejam só). Aliás, Her concorre em Direção de Arte e já é meu favorito (por mais que digam que O Grande Gatsby vai levar). E talvez por isso o filme não arrebate de cara. Joaquin está ótimo em mais uma escolha a dedo na sua tumultuada carreira.

Apaixonar-se por um OS num futuro próximo. Por aquele ser que faz praticamente tudo por você, via voz, que está ali quando você precisa, e que ainda é genial, compõe, lê Física, manda teu livro para um editor. Sexo? Também tem. E é sexo que não precisa mão aqui e ali, suor, roupas jogadas, posição X ou Y, mas, felizmente, não dispensa os gemidos e suspiros. Até do sexo “futurista” eu gostei. Aliás, gostei até do videogame realmente interativo. Lembram da TV interativa em Fahrenheit? Então, a proposta é a mesma, só visualmente que a realização é diferente. Fiquei pensando que, para além de uma tecnologia de ponta, pensam a interatividade com a tecnologia como algo a se concretizar no futuro. Ray já pensava na interatividade com a TV, em Her é com o videogame (e com os OS). Provavelmente será a mais frustrada das previsões para o nosso futuro, pois o máximo que conseguimos de interatividade hoje é telefonar para o Fala que eu te escuto e os comentários (infames) em posts e reportagens na internet. Ou seja, para chegar aonde a ficção (literária e cinematográfica) almeja, levará muito mais tempo.

Ontem ainda lia um conto do Ray que se passava em 2003 e as personagens estavam de mudança para Marte. Mas nos contos do Ray, e em Her, o futuro guarda muita semelhança com o nosso tempo. E a principal é com os sentimentos. O bombeiro que ateia fogo em Fahrenheit apaixona-se por uma moça subversiva e sente-se impelido pela curiosidade pelos livros, objetos proibidos. O personagem de Joaquin sente-se só, também apaixona-se (pelo OS-Scarlett), e tem todos os sentimentos contraditórios que só as boas pessoas têm num relacionamento. A moça do conto pretende viajar a Marte para se casar. Independente do futuro, o que move os personagens são os sentimentos.

Her é mais um ótimo filme com um roteiro pouco provável de fazer sucesso protagonizado pelo Joaquin. O cinema sempre conta tantas histórias de amor, às vezes precisa dar um fôlego novo para elas. E, de lambuja, fazer uma crítica ao mundo cada vez mais com os olhos (e o coração?) enfiados nos OSs da vida.

Só um comentário sobre Don Jon: é divertido! Levitt conseguiu realizar um trabalho de primeira. Só tem uma coisa ali que eu achei que poderia ser diferente. Não é futurista, Scarlett está em carne (e que carne!) e osso numa personagem das que mais se encontram aqui pelo nosso mundo, e é tão crítico sobre as relações pessoais quanto Her. Num papel relativamente pequeno mas muito forte, Julianne Moore, honra uma pequena parcela de mulheres (que nem sempre se encontram só numa “idade madura”) que ainda se encontram neste mundo. Se têm alguma coisa em comum? São ambos super sensíveis às coisas que se passam aqui dentro de muitos de nós. Porém, não se iludam, filmes não fazem as pessoas voltarem os olhos para aquilo que escolheram ignorar.

 

(ps: comecei este texto mais de uma semana antes da data de publicação, tive que interrompê-lo (coisa que detesto) por motivos de força muito maior; eis que tinha que publicá-lo e confesso que Dallas Buyers Club juntou-se à American Hustle – não passei dos primeiros minutos – e já assisti Save Mr. Banks e Prisioners (o primeiro sem muitos comentários, pelo segundo eu não dava nada mas valeu a pena, principalmente pelas atuações)

Maratona Oscar: 12 Years a Slave e a “selvageria”

 

E ficou mesmo a pergunta: quem falará mal de 12 Years a Slave? Confesso que fiquei incomodada com o filme. Talvez não tenha assistido com a devida atenção. Talvez tenha criado expectativas demais desde o dia que vi, ano passado, o trailer antes de algum filme no cinema – e só anotei o nome dele na wish list por conta do Benedict. Uma das pessoas que assistia comigo saiu na cena em que Patsy era golpeada no tronco. E é este o ponto.

Ontem mesmo, tendo assistido-o no domingo, me deparo com um texto do Escorel (sou sua fã, um dia ainda vou mandar um e-mail me declarando) que perpassa as dúvidas sobre 12 Years e cita um crítico americano que teve a audácia de criticar o filme. Havia, então, encontrado o incômodo que senti. Primeiramente, o protagonista não está nos seus melhores trabalhos. O personagem também parece não ajudar, pois titubeia demais e não se percebe no mundo no qual foi inserido à força – sim, é complicado criticar isso, pois trata-se de uma história real (aliás, veremos este ano também a enxurrada de “histórias reais” na corrida ao Oscar como foi ano passado?). O olhar estabanado e a testa franzida em quase todas as cenas perdem e muito a carga dramática necessária para a história.

O enredo é espetacular. Quando você se dá conta do que está acontecendo, fica de queixo caído – eu não fazia idéia dos fatos que a história conta. (não, eu não leio sinopses e este caso é um bom exemplo de como isso é bem melhor) Nas primeiras imagens que vi do filme pensei que seria meu candidato favorito disparado para fotografia. As cenas nos campos de algodão são lindíssimas, porém como parece ser uma constante nos longas-metragens que exploram boas fotografias, há aqueles planos que valem só e somente pela fotografia e desmerecem o drama – não sou fã deles de jeito nenhum. Momentos como o da passagem de tempo no qual vemos o gazebo pronto e os segundos durante os quais a câmera fica fixa em Solomon nos contando que ele aguarda a resposta à sua carta salvadora e a ida e vinda ao ponto do corte de cana merecem destaque e elogios à direção que parece lembrar que faz cinema.

E aí voltamos ao problema. O tal crítico americano parece até que foi banido depois dos seus comentários sobre o filme. Quando convidei uma pessoa para assisti-lo, disse o título e comentei que era um dos favoritos ao Oscar, já premiado, ouvi “ah, sim, por causa do Obama, né.”. E, sim, pois é. Há uma onda Oba-Obama. Há quem queira dizer que o filme não tem nada a ver com isso, mas considero difícil não ligá-lo a uma nova auto-imagem do público estadunidense. São raros os filmes que retratam a escravidão estadunidense de forma mais próxima e contundente. Aliás, acho até que nós temos mais novelas e minisséries que retratam isso do que eles têm filmes sobre. Acho justo comparar nosso produto mais vendável com o deles. Estaria a maior e melhor nação do mundo reconhecendo suas mazelas?

Eu cá pra mim nunca botei fé nessa onda Oba-Obama. Não, não acho que um presidente negro (ou um ex-operário e sindicalista ou uma mulher) vá mudar a mentalidade e atitudes das pessoas. Não, não acho que os racistas estadunidenses deixaram de sê-lo ou deixarão porque alguns tantos elegeram o Obama. E, sinceramente, nem acho isso nenhuma vitória política. Pra mim, investem-se em fachadas.

Então, e o filme? É preciso (re)contar a história dos negros nos Estados Unidos. O enredo é cinematográfico (aliás, há pouco tempo eu reclamava que não tenho sido surpreendida pelos roteiros), originário do livro que o protagonista escreveu. As atuações têm altos e baixos. Esperava mais do Benedict (talvez, como o George em Gravidade, esperava vê-los mais tempo na tela), todos os méritos vão para Patsy (Lupita Nyong´o, trabalho brilhante) e Edwin Epps (Michael Fassbender, um personagem difícil, às vezes pouco crível, mas com boas nuances) e o Brad Pitt (mais feio do que ele é, com cabelo e barba desgrenhados) numa ponta que pareceu só “sou o produtor e vim aqui fazer um discurso lindo sobre a liberdade (o personagem é canadense e acima do bem e do mal, ao que parece) e essa coisa toda de multiculturalismo e blábláblá que, vejam vocês, pratico na minha vida pagando por um filme desses e adotando crianças de quase todos os continentes”.

Dizia lá o crítico que o filme era quase sadomasoquista. E é esse o problema. A violência. Há uma linha tênue, no cinema, ao representar a violência para ser o mais próximo do real possível para aproximar o espectador da dor sofrida pelo personagem, fazê-lo quase sentir as atrocidades ali estampadas, e a violência que gera o prazer catártico do espectador – vide aí o exemplo de Tropa De Elite. Há quem saia do cinema dizendo que sentiu na pele as dores do Solomon e da Patsy ao serem violentamente agredidos (lembrando que o castigo físico, em ambos os casos, é para dobrar as almas deles, não é para eles sentirem “dor”). Porém, eu me pergunto, seria essa a dor pretendida? Quando o algoz chega a quebrar a madeira com a qual espanca Solomon nós sabemos que ele está batendo muito forte e que está lanhando gravemente as costas dele enquanto ele precisa submeter-se à perda da identidade, pois agora ele é Platt. Há, provavelmente, quem saia do cinema com a alma lavada por ver violência, pois vai até lá justamente por isso, para ver aquilo que ele gostaria de fazer nas ruas, mas por tantos motivos não o faz.

Foi aí que lembrei do Glauber Rocha. Violência no cinema sempre me faz voltar a ele – enquanto eu não me deparar com mais ninguém que fale tão bem sobre isso. O cinema precisa oferecer este menu que tanto oferece e nunca satisfaz o espectador? Sim, isso é Adorno e Horkheimer. O que 12 Years a Slave faz é oferecer violência. Tenho que concordar com o crítico, é violência e não é história ou História. Mas a violência que este tipo de filme oferece é aquela que não satisfaz, é a pura indústria cultural, porque o espectador vai continuar sentindo falta dela na sua vida. E por isso que simplesmente prefiro Glauber com a violência da percepção, com a violência da câmera, pois é algo específico ao cinema – senão, posso simplesmente assistir aos MMA da vida.

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Antes mesmo do filme, dois episódios me chamaram a atenção para uma questão de termos. Duas notícias de alcance nacional (e até internacional), a “briga” entre torcidas em Joinville e a matança dentro e fora dos presídios no Maranhão. Tenho praticado o afastamento das notícias, retirei todos os portais de notícias do meu feed do Facebook e instaurei outras práticas desde fins do ano passado. Tenho vivido melhor (inclusive com outras práticas que adotei, mas não vem ao caso). Contudo, em ambas as notícias uma palavra foi muito usada quando queriam descrever o que houve: selvageria. Discuti com uma pessoa quando ela usou esta palavra sobre o primeiro caso. Selvageria? Usamos “selvagem” para o animal que como naquela canção “só briga por comida e sexo”, os animais, dizem as más-línguas, são irracionais e agem por instinto (o qual, dizem, também possuímos). O animal selvagem, a natureza selvagem, são assim chamados porque não são domesticados ou tocados pelos humanos. Não vou arriscar a dizer que os humanos são os seres civilizados do planeta. O animal busca comida, briga por uma fêmea, não precisa de quatro paredes para fazer suas necessidades, mata outros animais para sobreviver. O animal selvagem não mata outro só porque ele prefere um galho diferente do dele, ou porque ele torce para outro time, ou porque ele tem um gosto diferente e prefere cruzar com um animal do mesmo sexo que o dele, aliás, animais não fazem guerras, vejam só. Sinceramente, seres humanos que fizeram o que fizeram naquele estádio e no Maranhão são só e somente seres humanos – não são selvagens, não são animais. Seres humanos são os únicos capazes disso no planeta. Faz um tempo comecei a deixar de usar termos pejorativos de animais aplicados aos seres humanos, pois os animais dos quais eu gosto tanto não merecem isso. É vagabunda, não é vaca. É sujo e não tem boa higiene, não é porco. É estúpido, ignorante, não é burro nem anta (eis o mais difícil de deixar de usar, pois costumo me chamar assim algumas vezes). É puta, não é galinha. Nem vou falar do “veado” e “macaco”. Vamos deixar disso de usar animais para tentar reduzir seres humanos ao que eles são: seres humanos. E, sim, a “selvageria” parece ser o argumento de 12 Years a Slave neste mundo entre brancos e negros.

Cine Holliúdy e um ano cinematograficamente brasileiro

Não é novidade e muito foi alardeado, no final do ano passado, sobre o crescimento de público (e também de número de produções) do cinema brasileiro em 2013. Devo dizer que fui uma das responsáveis por tal façanha. Foi, definitivamente, o ano no qual mais fui ao cinema para assistir às produções nacionais. E só não fui para assistir a O Som ao Redor e Cine Holliúdy porque não passaram na cidade onde eu estava – e Ensaio porque perdi a data. Aliás, entrei em campanhas na internet para que passassem Cine aqui pelo Sul – e, por favor, quando digo Sul estou me referindo a Santa Catarina ou Paraná. Fiz minha redenção ao ir assistir a um argentino e pegar sessão dupla com um brasileiro – Flores Raras, provavelmente o qual eu considero o melhor do ano. Já assisti mais filmes argentinos no cinema do que brasileiros. Era hora de rever isso.

Também escrevi e discuti e ouvi muito sobre cinema em 2013 (vai dizer, dos melhores anos da minha vida, não poderia faltar isso). Num evento do qual participei, tive o desprazer de ouvir uma apresentação de uma criatura, formada em jornalismo mas que se diz estudiosa em cinema, mestre e no momento doutoranda (na Literatura da UFSC, claro), sobre a nova lei da TV paga que “obriga” os canais a cabo a passarem produtos brasileiros. Entre a discussão, já bem batida, de que a lei aumentará a produção e blábláblá (aquela velha máxima brasileira: cria a lei para “incentivar”, sem dar condições e infraestrutura antes) veio a ultrajante falsa argumentação sobre a falta de “qualidade” do público. Não sei se essas pessoas ainda vivem no mundo dos cinemanovistas que queriam esclarecer as massas, ou realmente acreditam que o problema é o público brasileiro que não sabe o que é bom. Vejam só, o problema do nosso cinema é esse povo ignorante. Era uma mestre e atual doutoranda falando. Pasmem, ao falar de séries de TV, ela ainda disse “Já viram tal série? É muito boa, mas as pessoas não gostaram.” – ela é esclarecida, sabe o que é “muito bom”, nós (sim, eu me incluo) é que não.

A discussão também se fez presente nos blogs do Eduardo Escorel e do Bernardet, inclusive em eventos. Muito se discutiu, e não é nada novo, sobre a rivalidade que há entre os filmes “cabeça” (cult, para pensar, de autor, ensaístico, ou seja lá como quiserem chamar) e as comédias populares. É só avaliar a quantidade de público de O Som ao Redor e De Pernas Pro Ar 2 (foi o exemplo mais usado). Mas aí surgiu uma outra questão, o fato de que filmes como O Som ao Redor não conseguem espaço na distribuição e na exibição, enquanto filmes como De Pernas… têm espaço garantido – pois leva-se em conta o peso de uma Globo Filmes no marketing, na produção e exibição em relação a produções ditas independentes, mesmo que muitas vezes dependentes do dinheiro público (aquele outro velho problema dos editais que garantem a produção mas não exigem nem garantem espaço para exibição – ou “os filmes que nunca vimos”). Porque, como bem assinalou o Bernardet num dos seus livros, o que vale no Brasil é produzir, se alguém vai ver ou não, parece não importar muito.

Mas chamei a atenção para tudo isso porque queria escrever alguns comentários sobre Cine Holliúdy, talvez o que mais me chamou a atenção até porque soube fazer um bom marketing usando a idéia de primeiro filme falado em cearês (ou cearensês, não sei ao certo). Estive no Ceará e me apaixonei. Lamentei que a estréia do filme tenha sido logo após minha estada por lá. O filme, quando estreou no nordeste, lotou as salas e teve sessões extras. Foi literalmente um fenômeno. No começo do ano eu fiquei louca para assistir a O Som ao Redor e quando estive em São Paulo soube que teria uma exibição por lá – centro cultural do país, afinal, infelizmente – mas não tive tempo de ir assistir. Em dezembro vi que já estava passando na TV a cabo, vi somente uns trechos e não posso falar, ainda, sobre. Mas eis que em dezembro tive a surpresa de ver a propaganda, na Globo, de que passaria Cine Holliúdy. Seria num sábado e eu, lá pelo horário da novela, me aconcheguei no sofá depois de um dia árduo de trabalho. Acaba a novela e começa Zorra Total (uma das coisas mais ignóbeis que o humor brasileiro já produziu). Eis que penso que seria, então, depois de Zorra Total. Resolvo assistir um outro filme que já havia visto, para passar o tempo. Acaba Zorra e começa (putz, esqueci o nome do programa) o Groismann (de quem nunca gostei desde o sucesso que ele fez em outro canal). Eu, como não conheço a programação de sábado, fiquei de cara. Aí aparece a propaganda dizendo que o filme seria depois do Groismann. Ou seja, madrugada. Ah, lembrei, o nome do programa é Altas Horas (o que já diz muito). Bem, eu havia ficado acordada até aquela hora, o filme que eu estava assistindo para matar tempo era bom, ou seja, resolvi resistir porque pensei “quando terei a oportunidade de assistir Cine Holliúdy novamente?”.

O primeiro choque foi a escolha por exibir o filme legendado, depois do letreiro anunciando que era o primeiro filme falado em cearês. Vi numa entrevista ou li em algum lugar sobre alguns produtores nordestinos já terem sofrido a abordagem, de exibidores, que “sugeriam” que os filmes fossem legendados para poderem passar no resto do país (sudeste, que fique claro). Aí inicialmente fiquei pensando sobre isso. Tive a experiência de ter ido para o nordeste ano passado e presenciei um sulista conversando com um piauiense: o segundo não entendia nada do que o primeiro falava. Eu mesma, quando estive no Ceará, reparei no meu modo de falar, me senti um brucutu. O nordestino, com as diferenças cabíveis, tem melodia, fala de um jeito agradável aos ouvidos. Essas considerações sobre o sotaque dos nordestinos (como se paulista, gaúcho, paranaense e até os chiados intermináveis dos cariocas não tivessem) nada mais são do que preconceito – ah, mas tudo hoje em dia é preconceito: não, não é. Porque eu me pergunto se eles criticam e falam dos nossos sotaques como nós falamos dos deles. E sulistas e sudestinos são especialistas em preconceitos. Os exibidores do nordeste também “sugerem” que os filmes daqui sejam legendados? Vejam o trabalho muito bem realizado do Thiago Lacerda em O Tempo e o Vento em relação a um falar “gaúcho”, precisou de legenda?Comentei isso no Facebook e um amigo, cearense, disse que a escolha por legendar poderia ser uma crítica satírica do próprio diretor – não sei, realmente não sei, percebe-se que o filme é crítico e satírico, mas aí não sei o quanto isso pesou na escolha pela legendagem.

Mesmo que tenha sido uma crítica – ou o reverso da crítica pelo nosso preconceito com o sotaque deles – nós, bons sulistas e sudestinos, jamais entenderíamos. Devo dizer que desatentei para as legendas e, claro, uma palavra ou outra, mas não pelo sotaque e sim pelo regionalismo, não entendi. Mas isso, meus queridos, até ali em Curitiba, minha terra natal, acontece comigo.

Tinha lido algumas críticas não muito positivas sobre o filme (o que não aconteceu com O Som ao Redor, e devo dizer que o pouco que vi deste arrefeceram minha animação de vê-lo). Realmente ele não é nenhuma obra-prima. Porém, o mais louvável é que ele constrói uma crítica contundente sobre a condição de exibição de cinema no Brasil de forma lúdica. Confesso que aquela parte das artes marciais e dos filmes exibidos eu achei um tanto enfadonhas, porém é uma questão de gosto pessoal. Mas considero genial a utilização de produções “próprias” dentro do filme e não aquelas já desgastadas referências a clássicos do cinema. As atuações são excelentes, a diversão é garantida. A apresentação dos personagens, a brincadeira com a linguagem cinematográfica e o final são sensacionais. Em quase tudo há leveza, o riso sutil, a malícia na medida, sem precisar descambar para o humor fácil e para a apelação sexual. Falcão é uma participação especialíssima e impagável, enquanto meu personagem favorito é aquele que fica repetindo as coisas – adorei. A direção, porém, me pareceu errar na mão ao alongar muitas cenas que poderiam imprimir um outro ritmo a um roteiro e atuações tão esmeradas.

O letreiro final, contudo, é ácido: no Ceará, dos 184 municípios, somente cinco têm cinema. E a pungência deste dado me fez, na hora, lembrar uma notícia que eu tinha lido há pouco tempo sobre o Ceará estar com 174 municípios, do seu total de 184, em situação de emergência por falta d´água. Claro que na hora também lembrei do filme gaúcho Saneamento Básico. Finca no coração a questão crucial: como discutir cultura, mais especificamente cinema, num país que não tem esgoto nem consegue levar água ao seu povo? Lembrei até dos cinemanovistas. Será que eu preciso – ou posso – conscientizar essas pessoas? O cearense que, no meio do semi-árido, não tem água em casa para seus filhos não tem consciência disso? Ou cineastas seriam pretensiosos por natureza? (tenho um relato sobre esta questão da água de uma experiência pela qual passei durante a viagem que, de tão contundente, fica difícil expressar em palavras)

Não se pode tirar o mérito do filme de mexer em vespeiros do cinema brasileiro com tanta lucidez e fabulação. Talvez um dia tenhamos um filme brasileiro que se enfie por estes caminhos espinhentos sem humor, sem fábulas, sem açúcar e de forma inteiramente crua. Acredito que seria muito interessante, mas careceria de público e seus realizadores seriam execrados pelos seus “colegas” de profissão. Seria muito interessante inclusive para o público, para que ele – vejam só, não gostamos de esclarecer o tal público ignorante? – entendesse quais as agruras pelas quais passam os que trabalham com audiovisual no Brasil (e, claro, como eles mesmos colaboram e muito com isso).

O fato de Cine Holliúdy ser nordestino é notável. Durante a final do The Voice Brasil vi o comentário irritado de um amigo, no Twitter, sobre esse senso comum de associar o que é nordestino ao “brasileiro legítimo” e coisas semelhantes (era sobre aquela participante que era nordestina e tocava sanfona). Tenho lidado com a questão porque é parte dos meus estudos e fazia pouco tempo tinha lido, num excelente livro sobre o cinema rural no Brasil, a relação que no próprio cinema se percebe sobre buscar um legítimo “brasileiro” no sertão com o sertanejo, no rural com o caipira, na favela com o favelado (negro, invariavelmente migrante). Este é um dado mais que evidente da nossa história cinematográfica – e que é, como bem assinalou meu amigo, expansível para outras áreas, principalmente na cultura. Algumas características do “bom nordestino” estão presentes no filme, como a força de quem, mesmo diante de toda a desesperança, é perseverante, a inerente alegria e o traquejo com as forças políticas usurpadoras locais. Sem querer expandir em considerações acadêmicas, estas características são, em determinados momentos, “autorizadas” para serem levadas às telas, pois há conflitos diante de preconceitos e ideais utópicos. Só para esclarecer, darei um exemplo sobre o caipira que era criticado e renegado nas décadas de antes de 1940 porque representava, nas telas, um país ignorante, atrasado, inculto, enquanto nossas elites queriam avançar com a modernidade – somente depois que nos afirmamos como país rico, industrializado, é que foi autorizado ao caipira estar nas telas como um bom exemplo humano de trabalhador e sonhador brasileiro. Não sei se o filme evidenciou isto porque são, enfim, características do povo nordestino ou se simplesmente caiu no senso comum. Eu voltei de lá com impressões ainda mais fortes sobre estas características. Aliás, gostaria de acrescentar uma (sem medo de cair no senso comum mais raso) qualidade a essas características: o colorido. Reparem, no filme, nas cores das casas, do cinema, dos figurinos. Voltei do nordeste com os olhos mais coloridos. E como sou uma apaixonada pelo excesso de cores, isto aqueceu meu coração.

Enfim, o último filme brasileiro que assisti no cinema, depois de um razoável Serra Pelada, foi Meu Passado me Condena. Comentei brevemente sobre ele por aqui e confesso que pouco tenho a dizer. Assistam ao trailler, é o suficiente – e vocês vão rir mais do que com o filme. Infelizmente ainda levaremos muito tempo para encontrar um caminho entre os filmes “cabeça” e as comédias populares. Ainda acho que a vocação brasileira é pela comédia (até eu comecei a me arriscar neste “gênero”). Meu constrangimento (e, vejam só, a platéia pareceu concordar comigo) ao assistir Meu Passado me Condena, mais um sucesso estrondoso de bilheteria do ano, me fez pensar que o caminho para um tempo áureo na comédia, como já tivemos, será árduo e longo. Porém, porém, porém… Cine Holliúdy aliviou um pouco o peso de toda esta discussão e deu um passo considerável neste possível avanço.

De resto, não me cansarei de ler, ouvir, discutir e escrever sobre tudo isso. Já diria o querido Paulo Emílio sobre a importância dos filmes brasileiros acima de todos os outros, para nós brasileiros. Irei mais ao cinema para assistir a filmes brasileiros, espero que sem ter que sacrificar um Darín. Porque discutir rivalidade entre cinemas nacionais, a força da TV e o fim das salas de cinema se extinguem com a já célebre frase presente em Cine Holliúdy: Enquanto houver vida, haverá cinema.

 

Ps.1: Ficou faltando Tatuagem ali na lista dos que eu queria assistir e não consegui.

Ps.2: O livro que mencionei é O Rural no Cinema Brasileiro, edição esgotada de 2001, o qual eu adoraria ter mas só há disponível no Estante Virtual por R$150 – se alguém quiser me dar, ganha um beijo e minha eterna gratidão. Sim, estudar no Brasil é caríssimo. Sim, sebos exploradores não são algo incomum. E 2013 também foi o ano no qual mais comprei livros novos.

Ao seu Napoleão, negro, neto de escravos, oropretense

 

Se eu dissesse que certas pessoas, ou certos encontros, mudam a vida da gente, diriam que estou recorrendo a um clichê. Mas, recorrendo ainda a outro, o que seria da vida sem clichês? O senhor, Napoleão, mudou a minha. Eu acredito em Destino, o senhor também? Talvez o senhor, pelas labutas da vida, pela sua vista mal acesa, já não acredite em tanta coisa. Certo é que o senhor me escolheu ali naquela meia escuridão. Devo lhe chamar de senhor? Se a coisa desse brecha nunca nem saberia seu nome. O senhor chegou, falou, falou, sorriu de prazer com dentes alvíssimos, falou. Contou-me histórias. E já dizia aquele, que não basta termos boas vivências, nem sermos bons personagens, temos que ser bons narradores. E o senhor, Napoleão, é dos narradores que narram vidas, tempos, detalhes que seus olhos já não veem. Quando me disse para olhar para o teto, lá vinha mais uma história cheia de riquezas, de ouro, de detalhes e significados, seu pescoço alquebrado o deixou ali dócil com os olhos ao chão. Eu via o teto, meus vinte e poucos ainda me permitem malabarismos do pescoço e da coluna, e o senhor mal enxergando o chão me dizia mais sobre o teto do que eu conseguia ver.

Seu Napoleão, eu lhe ouvia e aquelas paredes e tetos e entalhes já se enevoavam diante das suas histórias. O senhor, corpo pele e osso, a sacolinha-mochila murcha nas costas, os poucos fios na cabeça, as mãos… as mãos finas e longas com unhas grossas e bem aparadas. As mãos apontavam, retorciam-se. A camisa xadrez já bem usada, os sapatos grosseiros. O senhor nem percebia minha atenção e já me guiava para o próximo santo. Se seus olhos escureciam, suas palavras eram cristalinas.

Eu não mudei nada na sua vida, seu Napoleão. Para o senhor eu era mais uma pessoa das milhares que por ali passam querendo ver e saber mais de tempos idos e de coisas que vão se perdendo. Fiquei matutando sua idade. Mais de oitenta? Não quis perguntar. Mistérios criam bons narradores. Eu poderia ter começado isso aqui dizendo que o senhor era negro. Negro neto de escravos. Agora eu quero lhe contar uma história. Quando eu era criança, seu Napoleão, minha avó tinha uma empregada negra, a Marta. Ela gostava muito de mim. Quando diziam “a negra, aquela negra” eu me doía e gritava já quase entre lágrimas “de cor!”. Ela gostava de mim e eu a via com encanto. Ela era negra. Foi a primeira negra que vi na vida. Ela tombava minha curiosidade. As palmas brancas, seu Napoleão, desafiavam minha compreensão de meninota. E meu avô um dia, seu Napoleão, fez a piada dos negros preguiçosos que quando Deus mandou tomarem banho, só lavaram as palmas e plantas dos pés. Nunca amei menos meu avô por isso. Nós dois, seu Napoleão, ali naquele templo de mais de duzentos ou trezentos anos atrás, com mais ouro que quase todas as outras do país e o que eu via era o senhor, sua cor, sua pele, seu avô. Seu avô que tirava as noites para construir o outro templo onde não podia ter ouro. Seu avô que não podia entrar aqui neste templo, o de pessoas com pele como a minha assim branquela, como a Marta não podia sentar-se à mesa de jantar conosco. Quando a via sentada na mesa da cozinha eu temia levar uma bronca mas sentava com ela. Tentaram, seu Napoleão, me fazer temer o senhor, a Marta, o seu avô. Quanto mais tentaram mais me aproximei de vocês. O senhor e eu ali parados diante do altar e nenhuma das suas histórias dizia que tudo aquilo havia sido construído por vocês. O senhor não se orgulhava do trabalho do seu avô, não ostentava suas obras.

Seu sotaque me impregnou, seu olhar vagava pela semi escuridão do templo. No meio da conversa o senhor se apresentou. Napoleão. Napoleão? Aquilo sim me deixou curiosa como as palmas das mãos. Napoleão. Nome para personagem. Negro, neto de escravos, Napoleão, oropretense de nascimento.

E o senhor ainda veio me perguntar de onde eu era. Tive vergonha. A mesma vergonha que eu sentia sem querer quando desafiava as regras e falava com a Marta. Eu sou do sul, seu Napoleão. O senhor sabia que lá estão brigando porque querem tirar o feriado do dia dos negros? O senhor sabia? Enquanto o senhor me dava copos cheios de vida, histórias e delicadezas, lá eles não querem perder dinheiro com um dia – unzinho só – dedicado a vocês. Lá não temos templos como esses. Não tivemos ouro. Mas tivemos muitos como seu avô e temos muitos como o senhor, seus filhos, netos. Por lá querem, ainda, fazer que vocês não existem. Ainda querem que eu não fale com a Marta. Querem que eu dê gargalhadas da piada sobre lavar as palmas das mãos. E um clichê me cai bem, novamente, ao dizer que não quero ser como eles. O senhor, seu Napoleão, já está impresso na minha história. Como a Marta. E vocês nem têm idéia disso. Quando nos despedimos, seu Napoleão, meio às pressas para ainda dar tempo de ver o outro templo, o de vocês, com quase nada de ouro e pinturas belíssimas, o senhor falou na promessa de um casal do sul de na próxima levar um vinho para o senhor experimentar. O senhor também disse que faria de tudo para dar tempo de ir até uma mina – de ouro, escavada por escravos – comigo, que seria um prazer minha companhia. Prazer, seu Napoleão, é saber que o senhor existe. E desejo que meus conterrâneos aqui do sul possam, da próxima, levar um bom vinho acompanhado de notícias de um mundo menos rancoroso, seu Napoleão.

Prefiro sofrer em Florianópolis

Estava conversando sobre a próxima tatuagem (voltei de viagem com uma especial para fazer e ainda falta a anterior) com a amiga e ela disse que sempre estranhou eu não querer nenhuma relacionada ao mar, pelo tanto que gosto dele. Fiquei surpresa, nunca tinha pensado nisso. Matutei a idéia… mas tatuagem relacionada ao mar? Mais algum verso, quem sabe. Golfinhos nem pensar, tenho horror a tatuagens de golfinhos (quando fizer um post sobre tatuagens prometo que explicarei). Aí vinha pedalando lá da Lagoa (a da Conceição) no fim de semana e entre sorrisos e canções sem fim tive a idéia. Farei uma com o traçado do mapa da Ilha. Porque todas as tatuagens que tenho são por motivos de amores especialíssimos e não há como negar meu amor por este pedacinho de terra encontrado no mar. No mesmo dia, no intervalo do trabalho fui procurar um livro para ler… lembrei que tinha passado na UFSC algumas semanas atrás e comprado alguns do Flávio José Cardozo, achei que era uma boa pedida. Fui me deliciar com linhas leves e divertidas sobre esta Ilha que também adotei. Nada mais perfeito. Já tenho na manga um livro que estou escrevendo sobre a Ilha, as palavras são, de algum modo, a forma pela qual expresso meus amores (além das tatuagens, das fotografias, do prazer). Ler o Flávio, no qual me encontro tanto e que foi quem me deu um “ar” da Ilha antes de eu vir morar aqui, fez muita coisa retomar seu sentido.

Desde criança quis morar numa Ilha (eu dizia muito isso, mas acrescentava um “deserta”). Vim pra Ilha com uma mala de roupa e uma caixa com alguns poucos livros e meu aparelho de som. Mal a conhecia, estive umas duas ou três vezes alguns anos antes, a famosa beira-mar norte, as dunas da Lagoa da Conceição e da Joaquina, um lugarzinho rural ali pelo Sul, o centrão do shopping e da praça em frente ao Hippo (quando ainda era Santa Mônica), o mirante da Lagoa. E mesmo com tão pouco e praticamente nenhuma foto, eu lembrava muito bem de tudo. Foi onde andei a cavalo pela primeira vez. Anos depois, com dezoito anos na cara, sozinha, muita coragem, boa vontade e independência eu vim. Eu havia decidido e pronto. Cá estava eu, na Ilha, com tantos compromissos e olhos inquietos a observar tudo – tudo e muito mais. E nós fomos nos conhecendo, ela me deixava ver como ela era, eu me expunha cada vez mais. Aqui já me apaixonei e desapaixonei, já me iludi e desiludi (ah! as desilusões!), já errei e acertei muito. Já conheci pessoas muito ruins e também pessoas excepcionalmente boas. Já me perdi – e definitivamente me encontrei. Já me perdi pelos morros, já me perdi pelas ruas (principalmente no centro), já me perdi no meio do mato entre sufocos e risadas, já me perdi espiritualmente, já perdi meu coração numas curvas, já saí de mim em deliciosos banhos de mar, já fiz coisas inconfessáveis, já tirei toda a roupa na Galheta (e em outros lugares), já pesquei na Barra e no Pântano do Sul. Ela tem esse charme com o qual já tentei explicar aos outros como fui seduzida, um charme especial de cidade pequena com ares de cidade grande – visto que não sou adepta do interior mas também abomino metrópoles. Tem quem diz “dinheiro não traz felicidade mas prefiro sofrer em Paris”, ou algo assim. Eu prefiro sofrer em Florianópolis. Até ficar triste ou sofrer é melhor aqui. Já passei por momentos ruins nesses anos todos. Mas sempre tenho algum lugar muito especial para ir quando estou assim. Ou simplesmente poder ficar quietinha no meu canto – assim a “ilha deserta” se concretiza. Florianópolis é um lugar-passagem para muita gente, fiz amigos que hoje estão espalhados pelo Brasil e pelo mundo. Até eu cogitei planos de ano que vem ao completar a marca de dez anos de Ilha me mudar. Pelo simples apreço de chegar do nada num lugar com uma mala de roupa e uma caixa com poucos livros. Tenho sérias dúvidas de que a experiência seja tão fascinante quanto foi por aqui. E a Ilha é assim, não é ciumenta nem possessiva, eu vivo viajando e ela nem reclama – só me recebe com dias nublados de vez em quando. Tenho isso de, por essa época, esperar o patriotismo dos seus morros pintados de verde e amarelo-guarapuvu. Ah, se eles soubessem quantas vezes já me fizeram sorrir. Há exatamente um ano eles foram protagonistas de uma superação marcante. Já fui testemunha da existência dos duendes, e não só daqueles dos morros da Lagoa da Conceição, mas daqueles ali do Ribeirão também. Já vi a lua nascer esplendorosa atrás da Ilha do Campeche. Já vi o sol nascer atrás do morro da Mole. Já vi o mais belo pôr-do-sol da Ilha ali na praia do Forte. Já nadei com pinguins nos Ingleses. Já bebi até cair na Armação (e no Estreito também, não quero deixar o continente com ciúme). Já vi golfinhos na ponta do Rapa e em Naufragados. Já prometi um dia ir morar na Daniela. Já subi e desci algumas vezes o morro das Sete (suspeitas) Voltas de bicicleta e à pé. Já tomei banhos de cachoeira até esquecer do mundo. Já comi os mais deliciosos camarões. Já fugi para o cinema em tantas terças-feiras difíceis. Já fiz passeios fantásticos (literalmente) de carro pelas madrugadas assombradas da Ilha. Claro, já passei maus bocados também. Já fiquei sem ônibus inúmeras vezes nas greves anuais dos motoristas e cobradores. Já fiquei horas e horas em hospital esperando pra ser (mal) atendida. Já fiquei algumas horas parada em filas para atravessar as pontes. Já fiquei sem sinal de TV, rádio e celular porque os morros criam áreas de sombra. Já enfrentei primaveras chuvosas demais. Já tive que evitar certos lugares pelo tipo de gente que os frequenta. Vejam só, esta lista é bem menor. Nem vale a pena falar dela. Coisas ruins e problemas existem em todos os lugares, o certo é fazer um balanço entre as ruins e as boas para ver quais prevalecem. E, sim, pensando no mar do Campeche que fica aqui ao lado eu sei que as boas extrapolam em muito as ruins. Aliás, já morei no centro, na Carvoeira (verdadeiramente Saco dos Limões), na Trindade e agora no Campeche – porque preferi um mundo distante. Desprezo essa gente que mora na Ilha e só considera a existência da região central (ali, do centro até a UFSC, no máximo Itacorubi até a UDESC e redondezas), a Lagoa (da Conceição, bem entendido) e, sei lá, como praia, os Ingleses talvez. Desprezo essa gente e muitas gentes que não conhecem nem querem conhecer a Ilha, que não a respeitam e não têm olhos para tudo que há além das belezas. Por aqui fui aprendendo na marra a lidar e conviver com as pessoas. Os vizinhos, por exemplo. Aqui mesmo já tive que denunciar maus tratos aos animais, a Lei Maria da Penha e maus tratos infantil. Tenho uma vizinhança divertida. Quem manda ser tão observadora. Sou apaixonada pelos manézinhos. Aliás, quero que meus filhos sejam manézinhos, vai que levo sorte e poderei ouvir o sotaque lindo deles o resto da vida (se não forem como eu que nasci sem sotaque). Amo o sotaque manézinho. Quem diz que italiano fala alto é porque nunca ouviu uma manézinha legítima. Mas também nunca vou entender a bananinha, a bacia com louça lavada para secar ao sol, os quintais cimentados (ou com piso), o pão de trigo (ainda sofro com isso), a falta de ambição, o prazer pela negação e a seriedade inabalável. Não conheço tanto da sua história nem dos seus personagens nem todos os seus nomes e recônditos. E amo-a mais por isso. A cada vez que vejo uma curva nova, um horizonte descortinar-se, renovo meu amor. E foi isso que me fez relembrar o quanto sou apaixonada por esta Ilha e como ela me faz tão bem – até quando estou mal. Nem os condomínios do Ribeirão para a nata alternática, nem os prédios feios fincados na Brava, nem o mau gosto arquitetônico de Jurerê Internacional (afinal, até eles precisam ter seu espaço na Ilha), nem o futuro hotel de luxo do mirante, nem o shopping sobre o mangue, nem a chata limitação de acesso à base aérea (parece que ela vai realmente ter fim), nem o gosto desenfreado do povo ilhéu por tudo que é modismo (vide os sushis, os MiniCooper, as leggings Dits), nem as casas em área de preservação permanente, nem os palmiteiros, caçadores e trilheiros de fim de semana me fazem amar menos esta Ilha. Aqui eu acho tudo perto. Em trinta minutos ou uma hora (tanto de ônibus quanto de bicicleta e à pé) eu chego nos lugares mais lindos. E é um pouco por isso que ser feliz e ser triste aqui é tão bom. Ela é enorme. Posso passar meses sem ver o farol da Barra lá do alto do Maciço, ou o pôr-do-sol do alto do morro das Aranhas, ou sem caminhar pelas dunas entre a Joaquina e o Campeche, ou sem subir o caminho da praia do Saquinho até minha pedra favorita, ou sem ir comer um camarão na Costa, ou sem ir caminhar pelo Ribeirão, ou sem boiar na Lagoa do Peri como se não houvesse amanhã, ou sem ir fotografar as praias e pontas da Cachoeira. Eu posso, na verdade, variar. E não há nada mais imutável nos meus desejos do que o desejo de variar. Sobre a má fama de ter fobia aos que, como eu, vêm de outras terras, não tenho nada a dizer, bem pelo contrário. Sempre fui muito bem recebida. E ainda quando me perguntam de onde sou e digo que sou curitibana mas catarina de coração desde bebê ouço (como ontem ainda me disseram) que fiz bem. E fiz mesmo. Não trocaria ser catarina de coração por lugar nenhum da Terra. Por isso nunca vou entender o preconceito e a dor de cotovelo que existe à beira do Rio Cachoeira com a sua Ilha-Capital, e dos quais felizmente não fiquei com nenhum ranço. Quando criança, pelo tanto que eu ouvia, Florianópolis parecia um lugar de pessoas vagabundas, de orgias, de leviandade – um perigo a ser evitado, principalmente pelas almas fracas. De certo modo, devo concordar. A luxuriante Ilha desperta a lascívia, a sedução, os prazeres. Daí a concordar que isso é ruim e deve ser evitado, já é demais pra mim! (seria eu uma alma fraca? sim, confesso minha fraqueza pelas coisas boas da vida!)

Leio Flávio com um sorriso nos lábios. Me divirto toda vez que saio, nem que seja só pra ir até a academia aqui perto, ou numa tarde de revolta ir até o Floripa me acabar num fast-food. O livro que estou escrevendo não vai contemplar todo esse amor nem todas essas paisagens, personagens e desincronias que por aqui existem. É só mais uma declaração de amor e talvez meu dia de “fico”. Posso até ser feliz em muitos lugares, mas eu prefiro sofrer em Florianópolis.

“O Tempo e o Vento” em tempos de inadequação…

Entrei no ônibus e já me sentia arrependida de ter convidado a amiga para ir ao cinema comigo. Desde o ano passado que vivo um conflito interno à espera do resultado final de uma adaptação para o cinema, pelas mãos do Monjardim, do monumento que é “O Tempo e o Vento”. O arrependimento não se explicava só por eu gostar da solidão das salas de cinema, mas porque eu temia que minhas reações (eu tenho reações durante os filmes) não fossem partilhadas ou sequer compreendidas. Tratava-se, para mim, de algo sério, profundo, porque são aquelas coisas que importam de tal maneira para nós que ninguém há de dar o mesmo valor.

Assim, já deixo avisado de antemão que minhas palavras serão embargadas de emoção. Pois minha relação com o Erico é pautada principalmente por ela, além da enorme admiração, e, felizmente, o filme não me afastou dela – a emoção.

Explico-me. Amo o Erico. Num tempo perdido em datas, li um trecho de “Um Certo Capitão Rodrigo” no livro de literatura e português da escola, bem o começo do livro com o famoso e inesquecível “Buenas e me espalho!”. Li aquela página de texto, olhei referência e, criança impressionável e curiosa que sempre fui, matutei. Algo me marcara naquele texto. Poucos dias depois, vasculhando os livros de minha mãe, encontrei o tal “Um Certo…”. Qual não foi minha alegria e, ainda criança, passei a tarde e começo da noite com ele. Nos anos seguintes, quando me faltava livro para ler, lia-o novamente. E fui descobrindo outros Ericos nas prateleiras de minha mãe e de minha avó. Era amor. Amor que dura já meus poucos anos de vida inteira. Mês passado ainda escrevi aqui sobre o último Erico que estava lendo, O Prisioneiro. Porque ele é o único autor que reluto ler todos de uma vez, com sofreguidão. E, assim, o Capitão Rodrigo tornou-se um amor que eu provavelmente nunca conseguirei devotar a alguém de carne e osso – Erico acabou com minha vida amorosa e eu nem me importo. Ana Terra é a inspiração para um sonho que eu tenho de uns quase dez anos e que, por coincidências do Destino, começou a tornar-se realidade nos últimos meses. Erico faz parte da minha vida. É daqueles que já se foram com o qual eu gostaria de ter uma conversa num lugar qualquer do mundo, nem que fosse para poder dizer o quanto ele já fez por mim. Nem estas palavras conseguem exprimir o que foram, então, todas as obras do Erico para mim. E era com o coração apertado que eu seguia para o cinema.

Eis que após os letreiros explicativos (desnecessários? provavelmente, e disso o próprio roteirista tem consciência), surge Fernanda Montenegro como a Bibiana envelhecida e Thiago Lacerda como Capitão Rodrigo – este que nunca envelheceu e jamais poderia. Numa visita atemporal, durante o cerco do casarão dos Terra-Cambará, os dois se reencontram. A entrada do capitão durante o cerco assemelha-se à chegada dele à cidade de Santa Fé pela primeira vez, garboso, distinto, desafiante. Os dois se encontram e conversam. Eis que então Bibiana começa a contar a saga dos Terra. Pois que a dos Cambará será sempre só e somente a de “um certo” Capitão Rodrigo. Fernanda como Bibiana será a narradora (e eu que sempre implico com narradores em filmes, dou o braço a torcer: foi mais uma idéia genial do roteiro para contemplar a grandiosidade da obra do Erico) e o filme voltará sempre para ela e o Capitão no quarto.

A amiga olha pra mim e diz: tu já está chorando e é só o prólogo! Pois sim. Me emocionei com a materialização do Capitão Rodrigo e de Bibiana idosa. Eles eram personagens meus. E nem nos meus sonhos mais extraordinários o Capitão Rodrigo teria as feições e o corpo do Thiago Lacerda – por favor, não que eu tenha achado ruim! Vê-los materializados foi a primeira emoção. E no prólogo já é possível perceber algo que será mais uma das coisas fantásticas do filme: os gestos. O encontro dos dois é permeado de toques, carinhos – repare bem no dedão de Fernanda acariciando a ponta do bigode de Thiago – uso completo do corpo. O amor de Bibiana e Rodrigo é exposto ali sem firulas por Bibiana ser uma idosa. A cena relembra os reencontros deles, todas as vezes que Rodrigo sempre voltava. Mas, me adianto.

E era sobre isso que eu precisava escrever.

Eu posso fazer algumas colocações sobre a fotografia, realmente muito boa, talvez previsível para o filme que se passa nos pampas em questão de enquadramentos e luz. Há excessos, há planos detalhes totalmente dispensáveis (e o diretor deve saber disso), numa tentativa de dar ares de “épico” sem necessidade. Eu realmente achei que o Monjardim poderia estragar tudo. E, vejam só, eu que sempre critiquei tanto “Olga” principalmente por aquele “fantasma” dela criança no final, fico aqui babando elogios por uma história que começa com a visita de um fantasma. Pois bem, no mundo do Erico eu compreendo estas presenças – quem não lembra da roca sempre a fiar à noite? A roca da mãe de Ana Terra foi uma das “imagens” que mais me prenderam ao ler a história dela. É um mundo de presenças. Uma das críticas que li antes de assistir ao filme foi sobre parecer “episódico” ao tentar ser um épico. E ele realmente é episódico, a cada episódio desses a narrativa volta ao quarto de Bibiana. Confesso que isso não me incomodou. Talvez porque nesses momentos podemos acompanhar a relação dela com Rodrigo, que não é “desenvolvida” no episódio deles. Talvez por eu guardar com tanta ternura a relação de Rodrigo com Bibiana é que eu tenha tido um deleite especial com estas cenas.

Da parte dos Terra temos a origem mítica do Pedro, enquanto da parte do Cambará temos a ausência de origens. E é esse o laço da relação Rodrigo-Bibiana. Esta, por sinal, é constantemente comparada (no livro) à Ana Terra, no jeito, na tempestividade, nas decisões, até na voz. Ana Terra teve também sua história de paixão, mas intensa, carnal. Bibiana encanta o capitão pela sua doçura, inocência. É um encontro improvável. É um amor reprovável.

A obra hercúlea de adaptar o livro para o cinema coube ao Tabajara Ruas e à Letícia  Wierzchowski (do “A Casa das Sete Mulheres”, lembram?). Acho curioso que não citem isso nas críticas e notícias. Monjardim fez o trabalho “menor” neste caso. Tabajara é, como pessoa e profissional, sensacional. Tive o prazer de ouvi-lo falar pessoalmente sobre esta adaptação. Na verdade, meus elogios vão diretamente ao trabalho dele que soube adaptar, muito mais que a história, o “estilo”, o jeito, do Erico contar histórias. Tabajara soube colocar certas falas (muito mais do que diálogos) marcantes do livro nos momentos certos para dar a devida grandiosidade da narrativa sem precisar se prender a inúmeras ações dos personagens. (e eu sabia algumas das falas de cor, repetia durante o filme, estimulada pelas cenas lembrava daquelas palavras que li há tantos anos…)

É preciso reconhecer que há um evidente esforço do roteiro em tornar o capitão Rodrigo um herói. Bem, ele é, mas… No livro acompanhamos a angústia do casamento de Bibiana com o coração na mão cada vez que Rodrigo vai jogar, quando a trai inúmeras vezes e em todas as suas escapulidas. Bibiana sofre. Sofre calada e forte e como ela mesma diz ao pai, nunca reclamou de nada nem de ninguém. Todas as “más ações” de Rodrigo são condensadas em duas sequências, quando ele expulsa um cliente pois não suporta mais vender purgantes e sai para jogar e beber (irritado porque o bebê não pára de chorar) na noite que a filha adoece. (no filme eles têm só Anita e Bolívar, Leonor não aparece – esta, aliás, tem o nome de uma paixão da adolescência de Rodrigo) O que falta ao capitão não é caráter, pois isso ele tem de sobra, mas ele sofre de algo compreensível (e, ah!, como o compreendo!): inadequação. A morte de Anita lhe arranca do peito um gemido doloroso em resposta a todas as acusações que podem lhe fazer. Ele é um homem de paixões, um homem de guerras – não é um homem de ficar atrás do balcão.

Mas falo demais. Pois eu só queria dizer que o mais magnífico no filme são os silêncios. Pouco se fala. Bibiana jovem tem uma dúzia de falas. O roteiro foi tão fiel às falas que soube usá-las magistralmente, inclusive na narração da Bibiana. E é assim que o filme se aproxima do “estilo” do Erico. A cena mais significativa é a noite de núpcias de Rodrigo e Bibiana, quando os dois deitam, se beijam e há um corte para o rosto – só o rosto – de Bibiana como Fernanda – e ali fica a câmera, a captar tudo naquela expressão. As cenas de sexo não são frequentes nos livros do Erico, e esta em especial ele descreve com uma poesia e uma força inigualáveis ao compará-la a um banquete ao qual o capitão vai com “calma” mas não esconde sua “sofreguidão”. É um parágrafo. E é demais! Aí é que eu digo que o roteiro se aproximou tanto do “estilo” do Erico, na maestria de conduzir a história. O mesmo se passa com as duas vezes que o capitão “volta” (uma de Rio Pardo quando ele vai fazer compras para a venda e outra da guerra) e grita ao longe “Bibiana! Bibiana!”. Nós sentimos a emoção dela vibrando ao ouvir aquela voz. O roteiro soube captar exatamente a mesma emoção do livro. Bibiana jovem, aliás, é muito bem interpretada pela Marjorie Estiano, com uma graça quase infantil, uma paixão devota ao seu capitão. Os silêncios são bastante evidentes na história de Ana Terra, pois há uma incomunicabilidade inerente àquela família no meio do nada onde aparece um índio ferido – todos eles economizam palavras.

É um filme de silêncios e gestos. Thiago Lacerda cabe ao papel de transformar o capitão Rodrigo num herói, apesar de eu sentir falta dos “olhos de rapina” – porém o sorriso dele cai feito luva no charme indescritível e sedutor do capitão. Fernanda e Thiago estão perfeitos. Os detalhes de um roteiro tão atencioso me deixaram comovida – vide a viola do capitão que fica no quarto de Bibiana e a medalha que ele usa na farda quando se casa (reparem como isso aparece no livro e nas imagens, para um espectador desatencioso pode passar batido). Do núcleo Ana Terra só a Cleo Pires me incomoda com aquele estilo “eu sou gostosa e pronto” o tempo todo. A minha Ana Terra é alguém mais seca, mais inconsciente de si (que é, aliás, o mote para a relação selvagem dela com Pedro).

Talvez seja esta, enfim, a crítica que tenho a fazer. Erico é ácido. Erico tem um quê dos russos. Tabajara é um romântico. E essa diferença pesa quando vemos o Capitão Rodrigo tão heróico de um enquanto no outro a cena da morte dele não é descrita – no filme ele desafia o velho Amaral e é alvejado pelas costas por Bento, seu inimigo (aquele da perninha do R! como esquecer?!); no livro ele deixa Bibiana e só depois vem a notícia da morte dele ao ter invadido de assalto a casa dos Amaral. “Poderiam dizer o que quisessem, mas ele tinha voltado pra mim.” (mais ou menos assim) a frase final de Bibiana… quantas vezes eu li esta frase em meio a alguma madrugada que me angustiava?

Fiquei encantada com o Rodrigo bisneto, um menino ruivo e lindo (menino ruivo! me derreto! quero um pra mim, já disse!), que será “doutor” na sua volta à cidade (algumas páginas adiante). E fiquei me perguntando se, Monjardim ou quem sabe o próprio Tabajara que é tão excelente escritor e roteirista quanto diretor, farão um filme dedicado ao O Retrato (parte de O Tempo e o Vento), pois as partes de Ana Terra e do Capitão são sempre as mais comentadas e adaptadas de todo O Tempo e o Vento, mas há outras tão boas quanto – sabemos que pesa a questão “heróica”, de “formação de um povo”, menos “contemporânea”. Depois desta experiência, confesso que passei do temor ao desejo de ver mais histórias do Erico nos cinemas.

A amiga sofreu, é claro. Ela fazia um comentário ou outro e eu já partia pra grosseria. Num momento comecei a comer de nervosa que estava (a história da Ana Terra me angustia) mas a partir da chegada do Capitão à Santa Fé nós duas vidramos os olhos, ouvidos e corpos na imensidão da tela e ali ficamos entre suspiros e revoluções do espírito.

Escrevi e reescrevi este texto algumas vezes, revi, reli… e queria comentar mais umas cenas, falar do duelo do Capitão com Bento, do Juvenal – personagem rústico e de maior presença no livro e talvez menos valorizado no filme, da Maria Valéria – mais uma personagem feminina fantástica do Erico mas que aparece mais depois do O Continente, do cenário da casa da Ana Terra – o melhor do filme, disparado, da ausência de citações a Bento Gonçalves, da minha concordância que há uma “pressa” no “episódio” do capitão, enfim, tantas outras coisas que comentei com a amiga (eu sou um porre pós-filme, confesso e poucos sabem) e nas quais volta e meia me pego pensando durante os dias. E, mais forte ainda, como me encantaram as cenas de Bibiana/Fernanda e do capitão – e acho que não tenho como explicar os motivos.

“I´m not drunk, I´m just crying in english” a igualdade e suas Flores Raras

Na ida, subindo a minha velha conhecida Barão do Cerro Azul, reparei num casal. Jovens, recém passados pela adolescência, ele caminhava abraçando-a por trás, os dois agarrados, riam. Na volta, sinaleiro fechado, na esquina, paradas entre tantas pessoas, duas moças, da mesma faixa etária do casal da ida, de mãos dadas, carinhos e afagos pra lá e pra cá. Fiquei me perguntando onde estava, afinal, a diferença que tantos vêem. Casais são casais, simples assim.

Dias antes eu havia me redimido de um erro que praticava e que até citei num post do ano passado por aqui. Fui ao cinema assistir a um filme nacional. (sim, confesso, sessão dupla com um argentino, mas estou melhorando) Eu não ia ao cinema, mas, enfim, a vida se encarrega dessas coisas. A escolha foi Flores Raras.

E eu lá, sala praticamente vazia, sozinha no meu lugar de sempre, em alguns minutos de filme pensei: preciso escrever sobre ele.

Flores Raras não emociona. Flores Raras é um filme brasileiro majoritariamente falado em inglês, com atrizes estrangeiras (não estranhe o LEG no ticket do cinema). Porém, uma grande atriz brasileira quase subaproveitada no cinema e que divide o protagonismo da trama é quem garante excelentes momentos. Glória Pires é forte, se impõe, diva (como dizem) sem divar (sem a frescura que se espera de um papel ou de uma atriz “diva”).

Fiquei na dúvida, em vários momentos, se a personagem da Glória Pires – Lota, uma arquiteta auto-didata brasileira, responsável pelo projeto do Aterro do Flamengo no Rio de Janeiro e, para mim, mais uma ilustre figura da nossa História que eu desconhecia – não representava o papel clichê da homossexual “machona”. Muita gente ainda (e não é só por questão de preconceito) vê os relacionamentos entre lésbicas como uma “mulherzinha” e uma “machona”, aquela coisa de quem é o homem e a mulher da relação. Por ainda existir este tipo de visão que talvez tenha me incomodado que o personagem resvalasse para esta concepção. E foi o que eu mais li nas críticas por aí, que a relação entre ela e Elisabeth Bishop havia se dado pela força da primeira e fraqueza (ou sensibilidade) da segunda – e que, em determinado momento, se inverte. Sinceramente, este tipo de crítica parece esvaziar, minimizar a relação entre as protagonistas.

A relação entre Lota e Elisabeth é o comum – a maioria dos filmes, novelas e livros têm histórias semelhantes. Talvez um pouco diferente seja a relação com a outra ponta do triângulo, a colega da escritora e com quem Lota morava e mantinha um relacionamento amoroso antes de conhecer Elisabeth. O mais curioso no filme é que a qualquer momento você pode substituir a personagem de Glória Pires por um homem. Em outros tempos talvez um diretor o tivesse feito “inspirado” ou em “homenagem” à história real das personagens por receio de colocar um casal homossexual tão forte nas telas. Felizmente, apesar dos pesares da nossa sociedade, não foi o caso.

Pareço me contradizer, eu sei. Não é o lado “comum” da relação que esvazia a construção das personagens. É justamente assim que o filme alcança sua grandeza. É por tratar uma relação homossexual da forma como estamos “acostumados” (sempre desconfie dos costumes) a ver uma relação entre homem e mulher no cinema que ele esmiuça preconceitos e pré-concepções – talvez até aversões. Fiquei aqui remoendo um adjetivo para descrever como o diretor faz isso, difícil encontrar. Naturalizar talvez venha a calhar, digamos que ele naturaliza a relação homossexual ao equipará-la às relações heterossexuais que são maioria esmagadora nos filmes de ficção. Acredito que isso pode incomodar quem ainda abraça preconceitos.

Um ótimo exemplo são as (quase) cenas de sexo. Quando Lota e Elisabeth saem no jipe para ver as corujas e ficam sozinhas pela primeira vez, a personagem de Glória Pires a beija e rola uma mão boba. Numa outra cena, as duas se beijam com ímpeto e Elisabeth já menos “inibida” joga Lota contra a parede de vidro. É uma cena de agarramento, só isso. Na cena de sexo mais propriamente dita há o clichê do sexo oral, enquadra a personagem deitada com expressões de prazer e câmera frontal “em cima da barriga” focando o vazio e aparece o rosto da personagem subindo. Só isso. Assim, tão “hétero” quanto outro filme qualquer.

Num momento em que se exarcerbam as diferenças, eu tendo a admirar, ainda, quem aponta as semelhanças. Claro que seguinte a concepção de igualdade entre diferentes do Aristóteles. Mas me causa estranhamento e aversão (apesar de até conseguir compreender certos posicionamentos agressivos e sectários) querer diferenciar o negro do branco, o homo do hétero, o rico do pobre e por aí vai. Pode ser uma visão simplista ou até ingênua, contudo, ainda acredito que frisar e enaltecer as diferenças só aumenta o abismo já existente entre os “lados”. Se um filme exibe uma relação homossexual de forma mais crua, com o que ela tem de mais “diferente” (e aqui não vou me alongar nas possibilidades, mas ando curiosa com o Tatuagem, por exemplo), a probabilidade de aumentar o preconceito, a aversão e afastar o público é grande. Flores Raras faz justamente o contrário. Mostra com destreza que relacionamentos são todos iguais.

Se é uma escolha para torná-lo mais palatável ao gosto do grande público? Não sei. Vindo do Barreto talvez seja. Cabem críticas ao filme, sem dúvida. A única coisa que eu realmente considero que ele deixou a desejar foi a forma como tratou a questão política do contexto e a rapidez com que se deu o desenrolar final da história. Sobre o primeiro ponto há outras críticas por aí, na Cinética inclusive. O final conta com um melodrama de cartas não enviadas (não sei se ocorreu na história real) que parece desnecessário e bobo. Há um breve atropelo nas sequências após a briga delas em Ouro Preto. Foi o que me incomodou de fato.

Além do mérito de “naturalizar” (péssima palavra, mas me falta uma melhor) a relação homossexual, melhor ainda é a construção dos personagens. As três, Elisabeth, Lota e a outra ponta do triângulo (não recordo o nome), tem atuações e construções maravilhosas. É assim que se constrói uma relação num filme, com entremeios, altos e baixos, nuances. Tentar simplificar ou linearizar relações afetivas na ficção sempre soa falso. As pessoas não são assim – por que os personagens teriam que ser?

Se a intenção era agradar ao grande público, acredito que acertou. Mas também não desgosta aos mais impertinentes (como eu). Se é um bom candidato à indicação ao Oscar? Não tenho dúvida. Se é um bom candidato ao Oscar de filme estrangeiro? Acredito realmente que sim (e não só porque é falado em inglês, o que já pode ter sido feito pensando nisso, como bem sabemos). Não teria críticas à indicação, nem a uma possível estatueta. Aliás, acho muito concebível a indicação da Glória Pires. Apesar de a personagem da Elisabeth ter um maior destaque, Glória Pires encontrou uma força incrível em todas as cenas. Nunca fui fã dela, talvez prejudicada por papéis da TV que tendem a se repetir e os quais acompanhei pouco.

A locação da casa da Lota é linda. A história da criação do Aterro do Flamengo é interessante (Lota, inclusive, é acusada de elitismo ao pensar um lago como o do Central Park – e isto me lembra o próximo post – pois no Brasil ser acusado de elitismo por pensar e desejar coisas interessantes é comum). Eu gosto do ator que faz o Carlos Lacerda (e não sei o nome dele – já disse, sou péssima com isso). Apesar de poucas externas num Rio de Janeiro de época, ele em nenhum momento torna-se sufocante. As denúncias da nossa cultura são sutis, mas não passam despercebidas como a compra (literalmente) de uma filha para a ex da Lota – cena dura, que nos deixa desconfortável e ao mesmo tempo, ao acompanhar o crescimento da menina, nos faz ter aquele pensamento cruel “será que não foi melhor assim?”. Há, porém, algo que me fez revirar os olhos e pensar “mas precisava?!” (o que sempre me lembra uma mania de diretores de novela da Globo e do Olga naquela cena final na qual ela olha para trás, antes de morrer, e se vê criança): quando Elisabeth encontra Lota morta, há um corte para o Aterro do Flamengo e as luzes piscam (ou se apagam, não sei). Pra quê?!

Eu também não conhecia a obra da Elisabeth Bishop nem muito da relação dela com o Brasil. É intrigante acompanhá-la com os olhos de uma boa americana em terras tupiniquins. Como também é fácil ser despertado para a obra dela ao assistir como nasceram alguns versos. Tudo isso para além da discussão sobre as almas do poetas e criadores, suas fragilidades e crueldades.

“I´m not drunk. I´m just crying in english.” é só uma das célebres frases dela. Ao contrário do que faz o filme, marcando a vida de duas personagens reais interessantíssimas, Elisabeth diz, num certo momento, que os leitores não devem conhecer os escritores. Frase que me levou a vários caminhos – inclusive enquanto eu caminhava pela Barão do Cerro Azul. Ainda não cheguei a uma conclusão, mas seguindo um pensamento do Moravia, tendo a acreditar que os leitores nunca estarão preparados para conhecer os escritores. Enquanto isso, o cinema é mais eficiente em nos contar histórias sobre quem escreve – assim poupamos escritores e leitores.

O desassossego que o curta “Pouco mais de um mês” me causou

Estive no Festival de Cinema de Gramado por um golpe do Destino (o in anda num nível altíssimo) e um encontro me fez voltar ao Festival Internacional de Cinema de Curitiba, no qual estive em julho. Na oficina de crítica cinematográfica (a qual já mencionei aqui) nós assistiamos a vários curtas e escrevemos sobre eles. Sobre um em especial eu não consegui (ou não quis) escrever. E foi o diretor/protagonista e a protagonista dele que eu encontrei em Gramado. Senti que era, enfim, um sinal para que eu finalmente escrevesse sobre ele. Não que ele não tenha méritos para uma crítica, nem que eu já não tivesse escrito tudo mentalmente. Só lidava com alguns pontos delicados.

Quando um filme mexe mais intimamente conosco é que ele se torna mais difícil, e digo mais difícil no sentido de retirar certas partes pessoais da análise. Eu não sinto problema em escrever quando fico muito entusiasmada com as qualidades de um filme. Enfim, ontem ainda assisti a um filme que tinha tudo para ser uma bobagem ruim que eu iria adorar e terminei odiando-o – assim, sem ódio, mas com frustração. Era mais um sinal de que eu precisava escrever sobre “Pouco mais de um mês”.

O curta do diretor/protagonista André Novais Oliveira tem tanta relevância numa fórmula aparentemente banal que eu volta e meia me surpreendo. Vejam só, uns dias antes de Gramado eu presenciei (na verdade eu poderia ter participado da discussão, mas invariavelmente eu não concordo com as pessoas e já aderi ao “cálice” para evitar ser sempre tachada de “do contra” ou “chata”) uma discussão sobre o ato de fotografar. Afirmavam que o fotógrafo é aquele que se esconde. Discutiu-se sobre a timidez do fotógrafo e como o ato de colocar-se atrás da câmera é uma forma de sempre se esconder. Ora, colocar-se atrás das câmeras, pensei cá com meus botões, é talvez a forma mais explicíta de mostrar-se aos outros. Eu digo muito mais para vocês com aquilo que fotografo e filmo do que com as fotos e vídeos nos quais apareço. Me parece simples o raciocínio, porém não simplista. Eu digo muito mais com o olhar que eu exibo das coisas do que direcionando o meu olhar para uma lente.

E quando um diretor decide protagonizar o seu roteiro que é um relato da sua história pessoal? Quanto há de revelação e de escondição (desculpa, gente, faltou palavra e ando contagiada pelo vocabulário lindo de Saramandaia)? Quanto André Novais pretendia revelar com “Pouco mais de um mês” e quanto ele pretendia esconder?

Foram questões, confesso, que eu ainda não havia formulado completamente nestes termos. Num primeiro momento, ao final do curta, li os créditos e percebi que a estória era a história do próprio diretor e não gostei. Torci o nariz, digamos. Mas havia tanta coisa ali que eu não poderia reduzi-lo a isso. Quando encontrei-os pessoalmente em Gramado percebi a força do esconde/revela do por trás e pela frente da lente. Muitas vezes não temos a imagem do diretor de um filme que assistimos, mas reconhecemos a maioria dos atores (digo maioria porque eu sou meio tapada nisso e nem sempre reconheço – já passei por isso).

Nos primeiros minutos, um quarto na penumbra, câmera parada, leves movimentos de um edredom numa cama, vozes sussurram uma conversa banal. A expectativa pelo que virá a seguir prende a atenção, não a cena em si. Em alguns momentos parece que nada mais virá, que será um curta de casal, numa conversa banal na cama. As falas dos personagens são tateantes, titubeiam, se estranham. Eis que ele levanta e o mágico acontece. Ela mostra que pela fresta da cortina há uma espécie de câmera escura que projeta as imagens da rua no teto do quarto. Aquilo ali fascina, inebria, prende o espectador. E, por mim, não importa quantos minutos tivesse o curta, poderia ser só sobre aquelas imagens.

Senti uma pontinha de decepção quando eles saíram do quarto e voltaram à banalidade. E o curta, a relação dos dois, se resume a isso: banalidade de um relacionamento. Eles comentam como se conheceram, os indícios de que o casal está numa fase de rodeios para aferir quem é o outro são evidentes. Aí o título faz sentido. É aquele tempo de relacionamento, pouco mais de um mês, quando você já dorme (literalmente, não estou usando eufemismo para sexo) na casa do outro mas se sente um idiota ao derrubar água na cozinha que não é a sua. É aquele vai e vem, um terreno minado onde vamos pisando para ver aonde o outro esconde suas bombas. E o que isso tem de terrível e adorável, tem de banal. Todo o “conhecer o outro” tem isso. Nenhum relacionamento – curto, longo, médio, sério, divertido, arrasador, doloroso – escapa desta etapa.

No meio do diálogo deles surgem também os indícios de que eles estão em Belo Horizonte. O encontro deles foi no (belíssimo) Palácio das Artes, num festival de cinema. Gameleira pra lá, Afonso Pena pra cá. E, confesso, pela recente ida às Gerais e por uma meia dúzia de motivos que não cabe escrever aqui, talvez esta relação com Belo Horizonte é que mais tenha me travado para escrever sobre o curta. E, também, tenho esse bairrismo, todo mundo sabe. Já escrevi sobre isso quando citei a emoção de ver uma Joinville cinematográfica. Como também já comentei sobre não sentir mais nada ao ver imagens do Rio de Janeiro (e escrevi isso antes de conhecê-lo: acrescento que nada mudou). A referência àqueles lugares trouxe a banalidade a uma proximidade irresistível.

É extremamente desconfortável vê-los num impasse que, para qualquer um que já tenha tido um relacionamento, na verdade não existe. Ele não quer avançar os limites dela. Sabe o famoso “não quer atrapalhar”? Também não quer parecer algo que ela não goste. Ela, por outro lado, deixa claro que já teve outros relacionamentos e que distanciamento ou cautela é normal. É o momento de medir o outro, de medir o quanto quer mostrar de si mesmo. Talvez muitos filmes, entre dramas e romances, já tenham tratado disso. “Pouco mais de um mês” faz isso, num curto espaço de tempo e com uma situação dramática, só que de forma especial. Fica ainda mais especial quando você se dá conta de que é uma “história real”. Acredito que a escolha por protagonizar a própria história (a namorada do André atua como namorada) desvenda e responde à questão de que quem se “esconde” atrás da câmera na verdade se expõe muito mais. Digamos que André se superexpôs – sim, pensando no termo da fotografia.

Ao vê-los juntos em Gramado eu sorri. Então o relacionamento ia bem. Não foi só mais um caso mal resolvido que nos rende inspirações sem fim para a criação. Que bom. Além disso, me peguei várias vezes pensando qual havia sido o momento que despertara o argumento do roteiro. Será que foi a água espalhada pela cozinha? As imagens do teto do quarto dela? Ou a cena irretocável da espera do ônibus no ponto? (quem nunca levou o caso/rolo/amante/namorado até o ponto de ônibus não sabe o que está perdendo!)

Seja lá qual tenha sido, o banal estava presente. Por mim, teria sido mágico se ficasse apenas no quarto escuro. E eu teria adorado. Quando eles saem daquela penumbra mágica, lúdica, cinematográfica, para entrar num mundo tão cru, realista, idiossincrático, eu me senti deslocada. E foi isso o que o filme de ontem também fez. Não me contaram estórias cinematográficas, sonhadoras (como eu adoro), mesmo que não de conto de fadas, mas daquelas que agradam quem acredita tão piamente no Destino. Me levaram a ver o mundo mais próximo do que ele é. Me fizeram esquecer que havia ali uma tela a nos separar. Quando André abre a cortina (e quando o ator do outro filme faz as contas da diferença de idade entre ele e ela) ele apaga, coloca um “the end” ao mágico da vida (e do cinema), e joga a água fria e insípida da realidade na minha cara. A confusão, as frases soltas, o titubear, as incertezas, as cicatrizes, o desconforto, tudo vem à tona.

E o que dizer de mim, que amo tanto o cinema quando ele me leva para lugares que não existem quanto quando ele me joga as piores coisas da vida – qualquer coisa que seja ligada à realidade já basta – na cara? Mulher de malandro, no mínimo. Porque, afinal, a vida não é filme (já aprendi) e haja banalidade para ser feliz.

(Ps: não, isto não é uma crítica cinematográfica.)

(Ps: vocês sabem, o blog é desassossegado e é claro que um curta que causa tanto desassossego nesta alma que lhes escreve merecia umas palavras.)

(Ps: sim, escrevo críticas por aqui, sobre curtas, longas, coisas que assisto na TV, no comput, nos festivais. Ah, adoro assistir a curtas. Quem quiser me enviar algum ou indicar para assistir on line mesmo, só dizer. Provavelmente escreverei sobre.)

Porque “De Amor” entrou para a (minha) história

Não sou nenhuma entendida em música, já comentei isso aqui. Que me perdoe Schopenhauer, música pra mim é sentimento, emoção e estado de espírito.

Passei por um período de coração atribulado faz algumas semanas. Momento crítico mesmo. Emoções à flor da pele, reviravoltas, desejos e realidade assim num turbilhão. Andava pela Ilha, trabalhava e levava minha vidinha pacata, solitária e feliz. E o coração a me arranjar problemas sem fim. Hoje os problemas são outros e felizmente dei um cálice ao coração. As coisas de vez em quando ficam sob controle, às custas de deleites errados e preocupações reais. Pois bem.

 

Naqueles dias de tempestades emotivas havia anotado na agenda o show da Lilian. Dia quatro de julho no teatro da Ubro. Minha agenda, a sem cabeça e sem rumo. Numa correria inacreditável, entre contratempos sem fim, lá estava eu, oito e meia da noite na porta do teatro. E, pá, tive que dar uma volta na quadra atrás de caixa eletrônico aberto. Finalmente consegui sentar lá no fundo da platéia, sozinha naquele pequeno e tão intimista teatro. Intimista sim, o que já me deixava um pouco incomodada. Não sei, às vezes ando nessas de me distanciar das pessoas e com o coração em revoluções eu dispenso coisas intimistas porque não, ninguém pode saber o que se passa aqui dentro.

 

Lilian, ex-colega de PET Letras, catarina morando no Rio de Janeiro, comadre twitteira, noveleira, de programas de música como Ídolos, The Voice (foi assim que nos reencontramos depois de tanto tempo pelo Twitter), admiradora de personagens e atores tal qual eu. Virginiana. Nos tempos de graduação e PET eu já a ouvia contar dos shows, de quando e onde teria. Nunca fui a nenhum. Naqueles tempos eu não ia a nada de eventos sociais, festas ou qualquer coisa do gênero. Até parece que hoje vou… Enfim, nunca tinha ouvido a Lilian cantar. Ouvi faz algum tempo, quando ela ainda estava em Florianópolis, vizinhas da Trindade, pelos links que ela divulgava no Twitter. Gostei. E aí teve uma gravação dela para aquela música da abertura da novela O Rei do Gado (sou péssima com títulos e afins, faço relações esdrúxulas, eu sei). Linda, linda, linda. Fiquei com a música na cabeça por dias seguidos.

 

Um dia Lilian comentou que estava fazendo um curso de composição com o Leoni (e suspiros à parte) e entrou naquele momento de criar coragem para se assumir compositora. Apoiei com muito entusiasmo! Se elogiam tanto a voz da Lilian, eu estendo os elogios à pessoa, à sensibilidade para as coisas a nossa volta. Temos visões em comum, coisas dessas que passam pela educação, pela família, por valores. Via nela uma compositora especial em potencial. E vieram as primeiras canções. “Égide” é um marco, muito bem estruturada, linda. E “Motivo” me lembra muito uma canção menos conhecida do Cazuza mas que é uma das minhas favoritas, do Burguesia, a “Quando eu estiver cantando”, é quando a gente fala, escreve, canta, daquilo que faz mas, principalmente, faz porque acredita.

 

Não sou do tipo fã atirada, declarada, expansiva. Eu sou na minha, todo mundo sabe. Aliás, quem me via no PET sabe que essa impressão é forte. Mas ali naquela platéia tão intimista, a Lilian bastante expansiva, falava com as pessoas, fazia imitação, cantava. Felizmente eu no meu cantinho escuro no fundo podia observar tudo (essa mania) e não estava preparada para uma coisa. Coisa que acontece com a gente que vive de emoções. Gente que está sempre disposta ao Destino.

 

Eu não tinha ainda ouvido “De Amor”, composição da Lilian. Quando começou senti aquele aperto na garganta. O coração, esse feliz desavisado, no meio do seu turbilhão de casos e acasos, disparou. Porque com música é assim. Com filme é assim. Com versos e prosas é assim. Com desenhos e pinturas é assim. Eu sinto, eu vejo, eu ouço, e estou o tempo todo em mim. Naquele momento Lilian cantava o que nem eu sabia direito que ia aqui por dentro. Quando as coisas entram tanto em mim, quem sai sou eu. Saí do show e nem fiquei para dar um abraço porque nada do que eu dissesse poderia fazê-la entender o que aquilo tinha significado pra mim. Saí caminhando sozinha pelas ruas do centro, pensativa, sentindo um arzinho frio na pele, com o olhar em algum lugar que até hoje não sei onde. “De Amor” ribombou em mim por dias a fio. Passado o drama hoje me sinto na obrigação de escrever isso aqui.

 

 

Lilian é uma artista porque é isso que artistas fazem conosco além de dominarem técnicas e conhecimento. Agora “De Amor” já é daquelas “marcadas” na minha vida. De longe musicalmente, mas pelos motivos semelhantes na minha história, ela me lembrou “Tua Canção”, do Barão. E digo pra Lilian: estar entre Barão e Cazuza nas minhas referências pessoais é muita responsabilidade!

 

 

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