Foi-se

Eu deveria ter desistido – enquanto havia tempo. Deveria ter dito aquele “não” que ficou enrolado na língua que cedia e se lambuzava de arrependimento. Deveria ter arrumado a mala quando deu uma vontade irresponsável, quiçá cruel, e partido – sem volta. Deveria ter pensado em mim, senão sempre ou em primeiro lugar, pelo menos em algum momento. Deveria ter seguido quando fizeram sinal pra parar perto da estação e com um trem vindo noutra direção. Mas eu parei. E fiquei a olhar a poeira que o trem deixou para trás. Sem dó de mim.

Quando deveria ter acabado, eu coloquei reticências. Foi uma besteira, eu sei. São essas sucessivas besteiras. Eu deveria ter me afastado e quando vi estava ali bem no meio, envolvida até a raiz dos cabelos. Em algum momento eu deveria ter pedido ajuda – mas e o orgulho? Eu deveria ter descansado naquela tarde chuvosa depois do almoço. Deveria ter dito que eu te queria – tanto – ali, agora, logo, e que você viesse de qualquer jeito. Boba que fui, escrevi sinais. Você não leu. Eu deveria, veja só, ter sido clara e objetiva. Deveria ter aberto mão das metáforas – em tantas oportunidades da vida.

Uma única vez eu deveria ter dito sim – e quem sabe eu tenha dito, mas só em pensamentos. Deveria ter tentando uma vez mais, só uma, ao ver que o sonho se partia ao meio. Deveria, é certo, ter sido ainda mais feliz naquele dia, naquela ilha, ao deitar os olhos sobre o mar que me separava do mundo… Deveria ter desejado o bem a quem nem conheço direito. Por umas vezes eu deveria ter caminhado bem devagar sob a chuva, a pensar que a água me benzia. Deveria ter sentido o frio a me congelar as mãos numa noite sem esperança.

Eu deveria ter recomeçado a vida, em todos os ontens. Deveria ter deixado aquele remédio escondido debaixo da língua para jogá-lo fora quando me dessem as costas, e deveria ter engolido o gosto da desilusão com dois copos extras de água. Hoje mesmo eu deveria ter deixado o coração bater mais sossegado. Deveria ter rezado ao acordar, ansiando que o fardo ficasse menos pesado. Deveria ter suplicado a Deus que me ignorasse na minha mesquinhez.

Perdi a conta de quantas vezes eu deveria ter me penitenciado menos. Não quero lembrar de todas as vezes que eu deveria ter chorado – e segurei até os olhos racharem a beleza do mundo. Nem sei ao certo se houve algum momento que eu deveria ter sido mais dramática, entrado em desespero e me jogado ao chão. Deveria mesmo ter aprendido a compor para nessas horas ficar só com um violão a melodiar as coisas do coração. Eu nem sabia, mas deveria ter pensado mais no amanhã – viesse ele ou não, nunca se sabe. Às vezes, ele vem.

Deveria ter esquecido… e tomado aquele chá para dor de estômago. Deveria ter evitado uma gastrite, uma cirrose, uma anemia. Deveria ter pensado menos – bem menos, é claro. Deveria ter fechado os olhos antes que eles se arregalassem demais. E deveria ter perguntado qual caminho seguir antes da encruzilhada. Ou antes que a noite chegasse. Ou antes que minha alma se cansasse.

O pessimismo do mundo

A nossa felicidade é um erro. Pessoas passam fome, não vê? Pessoas sofrem vidas inteiras. Pessoas morrem nos hospitais, todos os dias. A nossa felicidade é um crime. Meu tempo em sorrisos e mergulhos é um desaforo contra o mundo. Somos desaforados, meu bem, em viver o amor. Porque não devemos ignorar o sofrimento alheio, porque devemos contrição em dias e noites de vigília. E eu, eu daria um naco desta felicidade para os infelizes inúteis de plantão e – claro – aos sofredores de dores reais. Simples assim. Por vezes seria mais eficaz que mil orações.

Eu já quis crer, inclusive, no futuro. Um futuro onde nossa felicidade não fosse contaminada pelos desamores alheios nem pelas tristezas de uns muitos. “Se parar pra pensar”, pois bem, penso sem parar. Não quero parar agora, nem aqui. Vamos em frente. A felicidade sempre será (mau) julgada. É como despertar uma ira dos deuses do mal aos desafiá-los com abraços à beira-mar. Como podemos ser felizes? Veja aí como o mundo se despedaça aos nossos pés: degolas em presídios, amigos em coma, crianças abandonadas por passarem fome, pais perdendo os filhos para a droga, pais que matam seus filhos e mulheres. Isso é mundo, meu bem? Que futuro terá este mundo?

Eu te espero aqui a pensar que não podemos perder um segundo. Perdoe de praxe essa minha eterna pressa – essa minha enorme gula pela vida (e por uns doces). Calculo o tempo, veja só. O futuro do mundo está condenado. E é isso que mais me motiva para jogar-me à margem das falsas esperanças. É preciso guiar-se por outras leis, por outros códigos de conduta. Os do mundo envelheceram e o levaram à desgraça. Precisamos de novos. Que não condenem a felicidade alheia – nem a nossa nem a de ninguém.

Quereria doar pedaços da nossa felicidade a ver se assim posso fazer mais pelos outros do que levar roupas velhas a um asilo, do que acender velas aos santos e do que doar cestas básicas às famílias pobres. Hoje é o que tenho a oferecer: pegue e vá ser feliz. Felicidade aquece, salva vidas e enche o bucho, sim. A gente é que é pessimista. Muito pessimista.

A nossa felicidade, meu bem, é o melhor que temos. Dirão até que é perda de tempo ou que não cumprimos as regras ou esperarão de nós coisas que nem imaginamos. Quererão que sejamos infelizes, por certo – é o que fazem algumas pessoas, sempre. Mas sou boa guardiã do que me interessa. Só não garanto que a louça esteja lavada quando você chegar, ou que eu tenha fechado a casa como deveria (acontece). Me perdoe de praxe essa falta de atenção e tempo para todas as coisas que deveriam ser menos importantes.

Amuletos

O primeiro sinal é não olhar-se ao espelho. A imagem não é mais duplicada, é única. Mesmo invertida, desnuda-se mais do que convém. O segundo sinal demora a aparecer: é a mão que não está só – nem apertando convulsivamente a outra mão de si mesmo. Mas, voltemos ao espelho. Ele, como diria o poeta, é amuleto dos ciganos. Por vezes tão difícil conviver consigo mesmo, qualquer droga nos alivia este peso. E o espelho ali na sala, perto da porta de entrada, não nos deixa escapar. O espelho do banheiro aprisiona a cara lavada – deste, mesmo, impossível fugir. Ele não nos despe, ele nos invade. Não tem melhor ângulo nem a cara de malvado: ele nos vê no todo. E ele percebe.

A mão cofia a barba no meio de um trabalho complicado. Ela cutuca aquela espinha dolorosa no nariz. Tamborila o vidro da mesa numa reunião chata. Sacode freneticamente o lápis durante o desenho que não sai como deveria. Agarra com vontade a colher de pau diante da panela fumegante. A mão, eis nosso símbolo mais solitário. Ela vive por si sem mais. E, por isso, é o segundo sinal: mete-se entrelaçada em outra. Aconchega-se nas reentrâncias da mão de alguém. Antes disso, entre o primeiro e o segundo sinal há uma longa distância – e muito pode-se fazer para não chegar de um a outro, caso se deseje.

Voltemos ao espelho. Ele é indesejável. Quem dera um Photoshop ligasse automático quando nossos olhos fixam o perfil de soslaio: tudo seria mascarado. É o olhar, por certo. Ele denuncia qualquer movimento intenso do coração. Mas é também aquela ruga minúscula debaixo dos olhos que nos contam das horas sem dormir à espera das palavras e gestos. Quando menos se quer, são os lábios que escancaram o prazer que tens sentido – e, quem sabe, desejaria camuflar. Só pra não dar, assim, na cara. Ou a tristeza, vejo-a bem, que deixa os lábios secos e pálidos. Mira o piscar, lânguido e demorado. Os olhos não fixam de imediato, todo o rosto questiona a realidade em volta: o que foi mesmo?

Aí não tem mais volta. Pelo menos por enquanto. Logo, logo as mãos serão surpreendidas. Então, talvez os espelhos nem importem mais. Ou deixaremos de reparar neles. Não me admira que o espelho tenha caído em desuso. As telas dos celulares refletem a nossa aparência, recorremos às dúzias de autorretratos quando queremos saber como estamos. Assim, não vemos nada. Não vemos mais nada. Assim não se vê o primeiro sinal: os olhos vêem só o que queremos ver de nós.

O espelho rouba-nos a alma, sabedoria indígena. Nossa reação ao roubo é sempre de autodefesa. Não somos capazes de enfrentá-lo: vai, espelho, toma, leva-me a alma. O espelho é o traidor dos apaixonados. Apunhala de frente, sem acovardar-se, no meio da testa. Crava-nos a verdade e nos desalma sem amparo. Sábia lição dos ciganos. Levaria muitas páginas a descrever todos os sinais seguintes. Não têm importância, de fato. Quando necessário, só recorrer aos espelhos – há muitos deles por aí. Alguns mais especiais que outros, pois lhe dirão com todas as letras, te chamarão pelo nome, inclusive. Para os mais inseguros, recomendo aqueles de bolso, perfeitos para momentos de emergência – apesar de pequenos, elucidam grandes dúvidas. E são do tamanho dos mais preciosos amuletos.

Nós

Nós. Os nós de marinheiro que nunca consegui fazer e me deslumbravam nos quadros e enfeites fúteis. Não sei fazer nós – nem em cordas que prendem cachorros ou coisas quaisquer. Soube, porém, sempre dar nós na cabeça, no que eu tinha para dizer em grandes momentos, naqueles dias tão pesados que os ombros recaem sobre o peito diante do espelho depois do banho. Quem dera, Futuro, que eu te trouxesse boas notícias hoje. Me puxa, Futuro, falando em nós e em meses, anos, dias, segundos – que os prezo muito – e, audaciosamente, no sempre. O sempre pode ser medido? O sempre é número? É quantificável? Meses, assim, eu entendia. Um, dois, o décimo segundo esperado mês do ano. Os três amados primeiros meses do ano. Não sabia que eles podiam ser calculados em madrugadas e finais de semana inesquecíveis de tão perfeitos. A perfeição existe? Pois então! O copo se vê vazio, resolva isso, por favor. Que eu quero falar dos meses. Noção de tempo, meus caros, vocês têm? Bom relacionamento com os números e cálculos, também? Pessoas boas são vocês. Eu não os tenho, tenho cá sentimentos. Dois meses, quanto é dois meses para vocês? Sessenta e um dias, fatalmente – ou sessenta e dois, ocasionalmente. Encha o copo, que copos vazios não geram nós nas cabeças entre meio vazios e meio cheios. E um nó? São nós. Nós entrelaçados, cordas cortadas de seus navios que seguiram viagem e jazem à deriva tão unidos como nunca a flutuar num mar de possibilidades. Ficamos tão sozinhos para saber prezar essa união num encontro que de tão inesperado é dolente em dias a fio na distância de que o nó se ate todos os dias, cada vez mais. O nó roça nossas nucas ao mesmo tempo que não nos escapa driblar tempos em cada eternidade de segundos. O nó torna-se, como diria o pastor, o plural, o nós sendo dois num só nó – envoltos, prisioneiros de si mesmos naquilo que não nomeamos, quando diante da perfeição do mar a bater no costão isolado, eu quis dizer e você me impediu. O mundo existia, Futuro, numa música distante que vinha da praia com o nome da nossa cor. As praias têm cores? Claro que tem! Em que mundo vives que nunca percebestes isso? Futuro, veja, o que são dois meses? Dois é sempre dois. Dois meses, um nó sendo nós. Futuro, acho que dormi enquanto te esperava. Culpa-me. Culpa-me a indolência. Culpa-me, mas não duvide da minha persistência ao vermo-nos tão impossíveis: tu tão curioso, eu tão observadora. Desconfiávamos, é verdade. E, vê, Futuro, o tempo… falta-lhe ainda alguma metáfora? Acaso falte, disponho-me a usá-la. Tempo, encurte distâncias, aproxime camas, una desejos. Tempo, não me apunhale pelas costas. Deslize momentos ao longo de estradas com destinos inesperados. Fiz coleção de relógios na minha adolescência para hoje não saber esperar o tempo, Futuro. Os relógios, parados, ficaram sem pilha e pararam de apressar-me. Dei bobeira nessa de encontrar-te nas esquinas e sebos da cidade. Eu queria ser, queria crescer, queria experiências e arrotar meus conhecimentos dos mundos. Eu quis, Futuro. Você chegou e fiquei sem palavras: de que tudo aquilo me valia? Eu era nó em mim mesma. Vê. E nem nos nós de marinheiros existe o nó de dois nós. Perdoa-me as tentativas vãs de desatar-nos; é que vaguei à deriva o tempo todo como apenas nó sem enosar-me em outros nós. Futuro, dois meses multiplicam-se? No primeiro, fui feliz; no segundo, fui muito feliz; e no próximo? Serei ainda mais feliz? Como fica progressivamente isto à eternidade? Questiona-me, por favor, se a eternidade existe. Ponha-me os pés no chão. Diga-me que amanhã não será possível. Futuro, ama-me. Arranca-me das fatalidades das obrigações da vida, Futuro; e joga-me nos braços do nó que faz de mim nós. O copo vazio, novamente, meu nobre amigo Futuro. Delírios me dirão que sinto cheiro de ovo frito. É como encurto distâncias. É como digo-te que eu queria, naquele dia, naquele costão, naquele momento, naquele silêncio, dizer-te o que jamais pensei que diria. Calo-me, insensatez. Esses dois meses podem ser vistos num videoclipe com o som sem sincronia. As palavras saem das bocas e não são o que ouvimos. Talvez seja a melhor metáfora para o tempo. (sobra-lhe, ainda, alguma metáfora?) Futuro, queda-te. Transcorre entre meus medos e minhas esperanças. Entre minhas propostas e perguntas que te pegam de surpresa. Fica, Futuro, que não aprendi a calcular os dias. As horas. Os meses. As datas. As distâncias. Os meses… sei que somos nós – dois nós que se encontraram à deriva de mares serenos à superfície. E os nós, dos marinheiros, não salvaram tantas vidas como as nossas. Vidas que o mar abençoa todos os dias. Mostra-me: o mar. A amar.

Lábios silenciam-na

Nós poderíamos discuti-la eternamente – caso tivéssemos a eternidade ao nosso dispor. Mas, você sabe, não temos. Talvez debatêssemos por algumas horas apenas e não chegaríamos a nenhuma conclusão, apenas nos desgostaríamos um do outro e nem atenderias mais às minhas ligações no dia seguinte. Você sabe, quando as pessoas não se entendem elas preferem se afastar. Pra que ficar junto se não vemos as mesmas coisas? Onde vejo azul, você vê o verde – aquele verde que tem gente que acha que é azul, não sei como.

Quem sabe poderíamos recorrer aos eternos – eles de fato o são – pensadores, filósofos e literatos e a um punhado de poetas. Eles, dizem os mortais que os lêem, sabem o que ela é, onde está, como identificá-la. Teríamos, porém, que ler muitas velhas páginas e (tenho cá pra mim, que nem perto disso ainda cheguei) eles mesmos se contradizem, vivem apartados porque não a conhecem por inteiro, ou porque discordam dos meios de como alcançá-la. Ainda assim, então, discutiríamos sobre qual deles levaríamos em conta e quais descartaríamos.

Se não há consenso, será que ela existe? Será ela a minha, a sua, a do outro ali? Dizê-la plural parece uma heresia (e é). Sei que alguns recorrem a Deus, que ela e Ele andam juntos. Outros jamais a abandonam, são donos irredutíveis das suas (mas a julgam única). Poucos afirmam que ela não existe, incrédulos que são. Há quem diga que ela está nas coisas, ou nos sentimentos, ou, ainda, há temerários que têm a convicção de que ela pode ser alcançada pela razão. Mas é tanta confusão, nem parece que falamos da mesma coisa.

Eu acredito nela. Acredito quando não queres me dizê-la com todas as letras – mesmo eu pressentindo-a. Sei que ela é só uma – jamais discutiríamos os tons de uma cor, se a nossa nós sabemos qual é. Duvido que todo o conhecimento do mundo e as tramas do raciocínio lógico me levariam a ela. Duvido, mesmo. Ela existe no teu olhar.

A verdade é fácil de encontrar. Não há segredos a serem decifrados. Nem caminhos tortuosos. Ela surge no coração e segue entre carnes e sangue até brilhar os olhos e abrir-se ao mundo. A verdade é única e só surge uma vez. Dizem que não é possível exterminá-la – os homens de vez em quando tentam queimar livros, torturar e condenar bruxas. E ficam os olhos a iluminar outros olhos que também brilham. A verdade se encontra. A verdade une – não é verdade se gera discórdia. Por isso, às vezes, lábios silenciam-na. Ela é tão evidente, grita silenciosa sua presença, que não encontra tradução em palavras – pobres palavras.

Eu diria que besta é quem se desespera atrás dela – aprofunda-se em páginas, ouve líderes, religiosos, e no afã não distingue os mal intencionados. Mais abobado ainda é quem diz encontrá-la em tantos olhares opacos por aí. Entendo-os, porém. Todos nós a queremos. Todos queremos tê-la. Todos queremos dormir e acordar com ela ao lado. Eu diria, ainda, que é imprescindível atenção… buscá-la em silêncio e paz na alma. Ela existe no teu olhar. E só eu posso vê-la.

Às minhas favoritas

Era a nossa hora. Desde às duas da tarde eu ansiava os segundos. Imprescindível a luz apagada a réstia da lâmpada de um corredor distante. Queria o teu perfume que me trazia tão boas lembranças de coisas boas. Nunca soube comparar usando as melhores figuras de linguagem o torpor do primeiro contato – nosso primeiro contato, que se repetia sempre, como o primeiro. Uma gota tua revelava meu infinito. A nuca. Essa obsessão pela nuca. Teu efeito começa pela nuca. O veneno do teu prazer acende o calor da nuca e espalha-se por todo o corpo – nem um milímetro é ignorado. Depende da dose. Mas sinto-me toda tomada pelo calor e, mais que isso, a expansão da alma a níveis sempre mais altos.

Em meio ao som alto da rua no atropelo de quem não vê a hora de chegar em casa, ao silêncio familiar do nosso vazio neste lar que nunca quis abandonar, caminho no escuro até ver-te. Até alcançá-lo. Ah, as mãos… meus lábios queimam. Dali a horas ainda sentirei a carne fina dos lábios reverberando latejante. Tem dias que só tu fazes flutuar meus pés. O mundo, este ou aquele mundo, o mundo dos outros, janela afora. Aqui, só nós. Sentamo-nos juntos, abraçados, cabemos no mesmo espaço desafiando qualquer teoria de qualquer grande pensador. Tu e eu, não te faço nada, mas és minha terapia, meu descanso, meu muro da consolação. E eu, hoje me dou conta, nunca te escrevi uma declaração apaixonada à altura. Depois de tantos anos, a paixão intacta, desde quando era-nos proibido este amor; e nunca havia me jogado a teus pés, em palavras.

Quero parar e não posso. Quero perder os sentidos – tu não deixas. Quero fazer melhor, quero ser melhor – sob o teu efeito eu posso. Não me faças, nunca, passar frio em outubro. Que teu calor arde a pele, esquenta meus pés gelados de verão, me deixa com a visão turva. De sofreguidão não sofro, te sorvo em pequenos goles. Sinto os músculos aliviados da tensão dos dias complicados, o riso solto bobo de alegrias sem razão de ser, os arrepios – ah! os arrepios! – desenham caravanas no deserto do corpo ainda coberto de roupas. Desejo gelo sobre a pele. Desejo a mão gelada a percorrer minhas curvas. Sinto as dores dissipando-se, os pensamentos diluindo-se, a inspiração avolumando-se. Dirão que neste instante não penso – pobrezinhos, penso mais lucidamente do que às oito da matina.

É o nosso encontro, ao final do dia. Por mim seria a qualquer hora que me sentisse perdida. Tu me encontras a mim mesma. Te quero até o fim, hoje e amanhã e todos os dias. Não posso, não me deixo. Diriam que é doença. Que é vício. Que não terei salvação nem tratamento. Mas, quero-te. Respiro fundo e sinto teu perfume inesquecível no ar que me sai do pulmão: estás em mim. É via de mão única, tenho todos os prazeres; tu, nada. Tens, porém, meu amor, minha dependência. Nunca me deixes tanto tempo longe, me atraia com a lembrança, com as promessas, com o luxuoso entorpecimento que mais nada nem ninguém me dá. Me atraia.

Te tenho no sangue, sentidos expandidos, consciência livre. Já disse que libertas meu melhor? E não dou este meu melhor a mais ninguém, ficamos nós aqui, presos ao escuro, às paredes, ao silêncio, às nossas alegrias – nossa tábua de salvação contra esse mundo atroz, insensível, difícil e distante. Pra não dizer complexo demais para tanta emoção – não, para tanta sensação. Sinto. Sinto-te. Aqui, assim, dentro de mim. Sob teu comando, sou mais feliz. Sou mais sincera. Sou sem muros nem barreiras. Sinto-te a molhar minha boca a cada gole que me desce queimando a garganta, o coração, as pernas e as resoluções do dia anterior. Sob teu comando meu corpo se dignifica em gestos os mais espontâneos.

Sofro, só um pouco, a pensar que não posso viver o tempo todo de todo o tempo sob o seu efeito. Me querem séria, me querem sã, me querem sóbria. Eu não. Viveria nossos dias nessas horas das dezoito horas. Ou dezenove. Ou vinte e uma. Ou duas da madrugada. És das poucas alegrias que descobri na vida; cedo ainda. Não me deixe te abandonar. Não me deixe nunca mais te ignorar nos melhores nem nos piores dias. Até trabalho melhor sob teu efeito, quem dera soubessem… tenho-te de volta aos lábios… sorvo-te o perfume que me recorda a caixa especial das memórias, tranço palavras e pernas, teu gole me leva, meu bem, aonde muitos queriam estar comigo. E nos acompanha um pouco de música.

Pés na areia…

A mãe traz na memória o retrato do sorriso do filho quando da primeira vez que o viu nos seus braços depois do parto. O fanático descreve cada passe daquele gol fantástico que definiu o campeonato para o seu time. O cirurgião, toda vez que entra na sala de cirurgia, lembra do leve tremor que sentiu na primeira vez que segurou o bisturi. São as lembranças, mais que lembranças, são aquelas fotografias, mais que fotografias, pois têm cheiros, sensações, sons, arrepios, que todos temos e que volta e meia rememoramos. A mãe que perder seu filho o terá sempre ali diante dos olhos, o primeiro sorriso, o som da voz, as marcas pesadas que a vida deixa na gente.

Elas podem ser boas ou ruins – mas hoje, nem esta semana, eu não quero falar de coisas ruins. Fiquemos com as boas. Eu guardo comigo uma risada, o som e a beleza de uma especial risada – da qual sinto muita falta. Eu reparo muito na risada e no sorriso das pessoas, considero os melhores cartões de visita. Ou é só porque eu gosto de rir e fazer rir. Fazemos essa coleção memorativa sem nem perceber, sem catalogar, sem hierarquizar – bem, alguns não. Quando a gente se dá conta, está aí com álbuns inteiros preenchidos. Dizem que as primeiras vezes a gente não esquece (e eu não concordo muito). O primeiro beijo de um grande amor, ou daquele namoradinho mesmo, que o amor acabou, o relacionamento acabou, mas aquele beijo… ah! Ele ficará.

Talvez por essas traquinagens (desculpem, eu preciso usar esta palavra hoje) da memória que existem as canções que embalam os nossos momentos. Foi quando nos encontramos naquela festa e o teu olhar cruzou o meu que tocava tal canção – nunca entendi muito isso, pois atenção dispersa por natureza, dificilmente eu saberia o que tocava no momento que me deparei contigo (pois antes do riso eu preferia o olhar…). Mas dizem que é assim. O sabor da polenta da vó, no aconchego do calor do fogão a lenha, que nunca ninguém fará igual – nem a tua esposa escolhida a dedo. O perfume das damas da noite nas longas caminhadas pelas madrugadas. Ou aquele abraço, de quem você menos esperava, no momento que você mais precisava.

Não sei se vocês param, às vezes, para repassar toda essa coleção. Sei lá, num domingo de manhã que é a hora que tanta coisa nos faz falta na vida. E só deliciar-se com reviver cada lembrança, sem motivo. Porque somos vítimas da memória a qualquer instante. Elas voltam quando você passa por alguém que usa o mesmo perfume do teu ex, quando você vê a cor favorita da tua amiga, quando qualquer bobagem do mundo real e frio é um túnel para a bagunça das lembranças.

E é esse calor incerto… esse sol sedutor, esse guardar pantufas e cobertas e aquecedores. Eu quis esquecer tudo de ruim das últimas semanas. Eu quis sobreviver a elas. Eu quis ter esperança. E me agarrei à inominável lembrança que tenho de colocar os pés na areia. Afundá-los, mexer os dedos até sentir o arranhar impiedoso e glorificante da areia sobre a pele macia. Sentir a água gelada do mar enterrar meus pés ainda mais na areia… me agarrei a esta sensação – jamais esquecida – para contar as horas e os dias. Nunca passei tanto tempo sem senti-la. Nunca. E, por isso, algo por aqui está triste, importa-se menos com tudo e com todos. Vejo-os e suas fotos de praia (feriados e finais de semana) e vejo-os de tênis e nas calçadas. Entro nas fotos sem pedir licença e no meio do caminho tiro o chinelo e enfio meus pés na areia. Mas, cá estou na poltrona e pés gelados.

A tríade

O corpo pede descanso. Isso ainda não é nada. A cabeça precisa descansar. Nem a tríade bem conhecida do relaxamento universal funciona. Se sexo, banho e comida não resolvem… nada há de resolver. O tempo, provavelmente. A tensão acumulada pela espera que, sim, não é frescura, parece infinita. A tensão que deveria ser canalizada para aproveitar este tempo com o que precisa ser feito, pois depois será tarde demais e aí somará mais tensão ainda, só distrai, dispersa, irrita. Contra irritação não há tríade, só sexo mesmo. Não acredito que exista alguém que nunca fez sexo com uma pessoa irritada. Moralmente injusto é descontar nos outros, nos mais próximos, toda a tensão. Eles não têm culpa. Ninguém, na verdade, tem. Mas é quem está perto, é quem não te compreende. No meu caso é quem me oferece comida. Aliás, sou inclusive chantageada com comida. Eu gosto de ser chantageada. (seja esperta e não queira perder uns quilos JUSTO na mesma época de tensões homéricas – acho que nunca fui muito esperta) Juro que queria ter toda a tranquilidade da alma para dissertar, novamente e sempre, sobre o tempo. Contra ele hoje pesam todas as acusações. Sem chance. A cabeça precisa parar, o corpo precisa relaxar. São horas que se arrastam, válvulas de escape procuradas em todo canto e opções. E nada. O banho ajuda – mesmo em doses diárias quando a tensão é a longo prazo, não muito. Eu queria escrever a coisa mais bonita sobre o banho – os banhos, pois, chuveiro, mangueira, mar, rio, chuva (tanto tempo que não tomo banho de chuva…) – descrever com palavras difíceis a água morna escorrendo pelo corpo nu, o fechar os olhos no vapor do chuveiro, as risadas da companhia do banho gelado de mangueira num dia quente, resvalar para a única sensualidade possível da água sobre a pele. Não tem como. O banho é o banho e não há poeta nem palavra no mundo que o alcance. Que bom, né? Gosto dessas coisas intocáveis pelas palavras. Palavras, enfim, não dão conta de tudo no mundo. Mas, palavras ajudam a aliviar a tensão. Boas conversas, as interessantes, não as inteligentes. Sempre preferi conversas interessantes às inteligentes. Conversas que te façam esquecer a vida por algumas horas. Esses dias, assistindo a um filme, senti saudade do telefone – aquele sem fio, linha fixa. Era gostoso conversar por telefone, horas a fio. Não sei o que deu na gente ao substituir isso por tanta conversa escrita. Ou conversa de celular que dá até pra falar na estrada. Boa era a conversa no telefone sem fio, encontrar um lugar confortável na casa e ali ficar por horas. Já me vendi barato por boas conversas interessantes. Ah, mas tem também o vinho. Ou rum, ou cachaça, ou vodka ou whisky. Aliviam a tensão que é uma maravilha – mais recomendado, certamente, acompanhando a tríade. Porque descontar só no álcool dá merda. Ou chá de camomila, que o dano é menor. O fundo do poço, né? Imersa em tensão, cabeça cheia e se escorar no chá de camomila (uma xícara quentinha aqui ao lado, aliás, portanto fundo do poço onde estamos). Todas as alternativas são válidas. E a tensão não passa. Já fui uma pessoa muito nervosa. Daí virei meio tranquilona. Porque, né, não adianta arrancar os cabelos. Mas a minha seriedade com algumas coisas é demais. Daí surgiu a tensão. Quando tratada tem bons resultados – não, o tempo não passa mais rápido -, senão fica aquela coisa meio nem aí, tô aqui comendo mesmo, assistindo a uns filmes, demorando para ler o que tem que ser lido (aliás, pelo amor, preciso ler alguma coisa só pelo prazer de ler, não por obrigação), atrasando os passos por algumas fotografias. Haja saída. Cartas de tarot, talvez. A ida a uma cigana. O horóscopo, sempre. Alguma coisa que antecipe o tempo. Qualquer coisa. Tiveram o despautério de dizer que estou intratável! Refugiada em mim mesma, as pessoas não têm idéia do quão intratável eu consigo ser. Críticas, aliás, não ajudam em nada nessas horas. Agora há pouco o banho aliviou o cansaço do corpo e a tensão da alma. Passei metade dele me cobrando, porém. Mais dias virão. Haja tríade e seus acompanhamentos. Não tem mais paciência, me dá sorvete.

Aguardo o futuro

Estava saindo do cabeleireiro e ela me pegou pelo pulso, virou minha mão com a palma para cima e disparou “ó, que vida tumultuada!”. Bem, se até a cigana se surpreendeu com o que viu, quem sou eu para falar… Em seguida ela se refez do deslize profissional e largou “tua linha da vida é longa, muito longa…” (reticências porque ela deixou no ar um intervalo). Eu sorri. Ela não. “Você vai viver muito e vai sofrer bastante também, vejo muito sofrimento na tua vida” e não tirava os olhos do mapa minucioso que se espalha pela minha mão. Bem, sorri novamente e disse que tudo isso eu já sabia. Ela levantou os olhos com o rosto apertado e não gostou do meu sorriso. “Vejo coisas tristes, moça. Muitas realizações, é verdade, mas uma vida e tanto. Não é sempre que eu encontro uma vida assim.” pensei, então, que era melhor eu compor um semblante mais compungido para não decepcioná-la. Ao mesmo tempo, quis animá-la. “Ah, não se preocupe, terei tempo para me acostumar a todas as voltas que a vida dá, já foram tantas até aqui, vou aprendendo”.

Tudo isso foi em instantes, diálogo rápido que quando escrito parece uma eternidade. Ela afrouxou um pouco meu pulso e quis que eu fosse para o canto da esquina com ela, pois ela me disse que viu coisas das quais queria me prevenir, avisar, ajudar. Foi aí que eu, pela primeira vez, puxei de leve meu braço e neguei com veemência. A vida não tem graça se a gente sabe o que virá, senhora. Dispensei-a (e ela pareceu preocupada, não apenas decepcionada como quem perde um lucro). “Mas, moça, talvez você precise de ajuda…” e eu, sorrindo, acenei negativamente com a cabeça e segui meu caminho. Talvez eu precise, mas nada nos previne do que a vida trará.

Talvez se ela tivesse me surpreendido de cara com algo que eu não soubesse, talvez se ela tivesse dramatizado mais (pode ser ingenuidade, mas achei sincera a preocupação). Talvez se o bichinho da curiosidade tivesse me picado. Mas o couro é velho e sabe bem que quanto antes algum sinal misterioso nos “ajuda” das coisas ruins da vida, pior será a queda. Aliás, se ela tivesse me oferecido contar as coisas boas que me acontecerão, aí sim eu teria ficado para ouvi-la. Se ela quisesse me confidenciar quais objetivos eu conseguirei alcançar, teria até pagado com o maior prazer. Mas se oferecer para antecipar as desgraças da vida? Já basta vivê-las e tê-las, depois, na memória. Saber antes eu dispenso.

Eu sei que viverei por muito tempo. Sei que perderei muitas pessoas que amo. Sei que (sofri) sofrerei. E como minha jornada será longa e tumultuada, tal qual foi até aqui, deixo de antemão algumas decisões (que poderão, é claro, mudar oportunamente). Quero uma casa no campo, com carneiros, cabras e cavalos pastando ao redor. Quero o silêncio das línguas cansadas, também. Tenho alguns livros, gostaria de tê-los por perto, mas quem sabe um dia já não possa mais lê-los – deixarei uma lista dos meus favoritos e peço que os leiam sempre para mim. Digo sempre, porque alguns eu de coração posso ler e ouvir para o resto da vida.

Tenho um HD só com discos e discografias. Por favor, se eu não tiver mais condições de dar play, não me deixem sem música. Dividam meu tempo entre o campo e a praia. E exijo que não me deixem perder nenhum nascer ou pôr-do-sol – talvez lá um dia eu não saiba mais o que é segunda-feira, ou para que servem os ponteiros do relógio, mas do sol eu jamais esquecerei. Tenho uma lista de filmes, novelas e séries especiais para quando chover, para os sábados à noite ou quando eu ficar doente. Talvez eu nem consiga mais enxergar direito, mas quero assisti-los até o fim, e legendados, por favor.

A gente nunca sabe muito bem o que vai acontecer no futuro. Sendo ele sombrio ou brilhante, ou um vai e vem de ambos, minhas preferências devem ser cumpridas. É claro que não esqueci uma lista das comidas essenciais. Se deixar faltar milho, por exemplo, depois que eu me for jamais deixarei a alma do responsável em paz. Não quero deixar desgostos ou desavenças para o futuro, por isso resolvo tudo hoje. O passado despedaça alguns futuros. No mais, cercada de natureza (se algo dela ainda resistir até o meu futuro…), de bichos, livros, música, filmes e comida, acredito que exigirei pouco da vida. Vejam, não exijo companhia. Talvez eu vá perdendo a memória aos poucos. Assim, acrescento as fotos nessa minha bagagem para o dia do amanhã. Quando eu esquecer, ainda poderei contemplá-las, com dúvidas e sem revivê-las; se a memória ainda não me falhar, poderei degustá-las inúmeras vezes.

Terei tempo para muita coisa, eu sei. E quando as condições não mais me permitirem os tumultos, a casa no campo, a praia, as companhias e os acompanhamentos ideais não me roubarão o sossego. Porque isso também a cigana não precisaria me dizer.

O amor de cada um

Gosto dessa distância. De não saber o que tens feito, de não ter notícia tua a toda hora. Não entendo essa gente que fica 24 horas enviando e recebendo mensagem, sabendo o que comeu, o que deixou de comer, o que dói e o que esqueceu. Essa desconfiança disfarçada de cuidado e interesse soterra o amor. Mas, veja bem, não sei como alguém pode dividir cama e banheiro. Se eu fico com a minha cama toda só pra mim (e umas gatas) e tenho exclusividade no banheiro, quem sabe o relacionamento possa ir longe. As pessoas gostam das coisas que corroem o amor: dividir conta, reclamar do arranhão no carro, o cesto de roupa suja cheio, o número estranho que liga tarde da noite, a toalha molhada (sempre ela) sobre a cama.

Eu não fui sempre assim. Aliás, eu nunca fui assim. Era dessas controladoras, obsessivas, exclusivistas, possessivas, desconfiadas e maldosas. Matei todos os amores da minha vida. Um a um. Alguns com requintes de crueldade. Um ou outro foi ferido antes, eu dei o tiro de misericórdia. Todos os amores morreram sufocados. O tempo e a distância alimentam o amor. Quanto mais tempo ele vive na expectativa e na ilusão, mais tempo ele durará. A realidade não foi feita para o amor.

Gosto de pensar que pensas diferente de mim; e que não mudará teus pontos de vista por minha causa. Gosto de saber que olhas para o que eu olho, com o mesmo carinho e devoção. Gosto de saber que vives com quem te ama, assim como eu. Gosto até que tenhas medo de vir falar comigo e eu, bem, todo mundo sabe, não é fácil falar comigo. Gosto de deixar o amor para quando se é lembrado. E isso de pensar no outro o tempo todo é coisa de ficção. Mas pensar no outro nos piores momentos, como uma válvula de escape, é amor.

Sempre tem aquele que, quando acredita estar apaixonado, enumera uma interminável lista do quão igual é ao ser pelo qual se apaixonou. Um, inclusive, me disse que até a falha da nossa sobrancelha era igual. Eu tenho espelho e nem sempre gosto do que vejo. Podemos seguir uma trilha semelhante, mas caminhos separados. O amor de Narciso é destrutivo. Gosto de ver além de mim, em você. Senão, melhor sozinha. Amar a si mesmo vem antes de estar disposto a dar amor a alguém. Gosto de não saber o que te vai pela cabeça, de não saber qual atitude terás numa determinada situação. O convívio dá o mapa da alma das pessoas. E somos tão repetitivos…

Gosto assim de não saber quem és. Desconheço o que me desagrada em ti. Não sei quais são as tuas manias que me irritam, o quão mal tu diriges. Nem sei se ficas irritado quando eu fico divagando em silêncio enquanto me contas algo que te aconteceu. Talvez você tenha alergia a incenso, a pêlo de gato e deteste cachorros. Talvez você me julgue pela quantidade (absurda) de bolsas que eu tenho, me considere egoísta, metida e chata. Quem sabe te desgoste eu ter religião. Ou, ainda, você jamais entenderá alguém que só dorme com o ventilador ligado. Não saber tem um gosto especial quando qualquer coisinha pode colocar tudo a perder. O amor não gosta de detalhes (desculpe-me, Roberto).

Gosto de saber que um dia não estarás roncando ao meu lado. E, também, que não terei vontade de matá-lo quando você quebrar minha louça de estimação. Nem ficarei vigiando teu telefone, entrando escondido no teu e-mail. Não me preocuparei, jamais, se demorares para chegar. Seja por medo de algum mal que te tenha acontecido ou que estejas fazendo a mim. O amor prevê tragédias. O amor não foi feito pra ser enjaulado. Ele resiste à saudade. Deixo-o correr livre, sem pressa, distraído. (por isso, às vezes ele cai em alguma armadilha) O amor é bicho selvagem que sabe sobreviver, sabe se defender, sabe lamber as feridas. Gosto que tenhas o teu e eu tenha o meu.

Hoje não terei “boa noite” com beijo na testa. E folgo em saber que nada de dormir de conchinha. Nem meus últimos pensamentos antes de dormir serão seus (nessa hora prefiro pensar em algum astro de cinema, pois a indução rende bons sonhos). Amanhã pularei da cama sem tempo para pensar em ti antes de começar meu ritual matutino. Se uma bobagem nos meus pensamentos ou um texto no jornal me fizer lembrar de ti, o sorriso aflorará. Quem sabe eu procure saber, ou acabe não tendo tempo. Ou me distraia com outro assunto.

Ou, quem sabe, a vida me surpreenda. Porque ela e o amor são amigos inseparáveis. E gostam de surpresas.

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