Já pode casar

Todos diriam que Mariana fora um bebê tranquilo e uma criança que nunca dera trabalho – e estariam certos. No meio de irmãos bagunceiros, sua retidão ganhara destaque. Previsível, Mariana fora sempre obediente e boa aluna. Aprendera cedo a cozinhar e a costurar. Um dia, diante de uma Mariana surpresa, a mãe ficara encantada com o vestido que ela havia feito para a irmãzinha e exclamara “Já pode casar!”. Mariana não entendeu a frase, mas ficou quieta.

Pouco tempo depois, ao fazer uma sobremesa para o dia dos pais, fora a vez deste surpreendê-la, “Já pode casar, filha!”, e assim ela cresceu e tornou-se adolescente; por algum motivo muito misterioso, quando ela cozinhava bem, costurava algo ou limpava a casa, as pessoas lhe diziam que ela poderia casar.

E foi no começo da adolescência que Mariana encontrou o amor da vida dela. A professora de Ciências falava sobre as fontes de energia renováveis, sobre o petróleo, o carvão, sobre formações sedimentares e todo este universo encantador quando Mariana descobriu a biomassa. Apaixonou-se. Pesquisou muito, procurou professores, falava sozinha sobre as maravilhas que a biomassa poderia fazer pelo mundo e pelos seres humanos. Depois de encontrar o amor da vida dela, a biomassa, ela queria salvar o mundo também.

Mariana decidiu que estudaria inglês para conhecer mais sobre a biomassa. E quando foi a primeira colocada depois de cinco anos de curso, não ouviu um “já pode casar”. Mariana teve as melhores notas da turma no ensino médio e isto lhe valeu uma medalha: mas nem depois da festa ela ouviu um “já pode casar”. No ano que faria vestibular, decidiu trabalhar meio período para pagar o curso de alemão, pois o inglês não bastava. Apesar das dificuldades que teve, em menos de um ano já se sobressaía na turma: nem por isso ouviu “já pode casar”. Fazia o terceirão, trabalhava, cursava alemão e ainda arranjou tempo para o intensivo do pré-vestibular. E no final do ano lá estava ela, com foto no jornal e tudo: primeiro lugar geral da universidade federal. Teve até faixa na frente de casa, mas ninguém lembrou de lhe dizer “já pode casar”.

Sempre a melhor aluna do curso, não perdia de vista a biomassa. Os professores a admiravam e no segundo ano conseguiu estágio e participava de um grupo de pesquisa. Nem assim, com artigos publicados e pesquisa avançada alguém lembrava de lhe dizer “já pode casar”. No dia da formatura, claro, foi a melhor da turma e recebeu a notícia de que já estava aprovada no melhor mestrado do país. Nesta noite de comemoração, ela até aguardou que alguém lhe dissesse “já pode casar”. E nada. Terminou o mestrado em menos tempo do que o previsto e tinha em mãos o projeto do doutorado – elogiadíssimo pelos seus pares. Com confiança, mandou para a melhor universidade do mundo que pesquisava biomassa.

Naquele dia, ela entrou esfuziante em casa, com uma carta nas mãos. Seu sorriso gritava alegria: fora aprovada no doutorado. Encontrou o namorado no sofá, assistindo a um filme com tiroteios sem fim.

– Amor! Amor! Fui aprovada! Pro doutorado! – ela engasgava de felicidade.

– Ah, é? Que bom, amor. Mas a gente tem que ver isso daí. Não dá para esperar quatro anos para casar, e eu não posso ir. Depois a gente vê, né? Me traz uma cerveja?

Mariana foi até a cozinha, abriu uma lata de cerveja, deu um gole e ficou pensativa. Deixou a cerveja na mesa sobre um bilhete: “Não posso casar”.

(texto publicado originalmente no jornal Notícias do Dia, de Joinville, na página da Confraria do Escritor, em 14 de setembro de 2014)

Adestrados

Os amores são ironicamente selvagens. Quanto mais domesticado o amante, menos ele entende de amar. Leia quantos livros você quiser, não aprenderá a amar seguindo as mais belas e certeiras regras. Essas pessoas que sabem respeitar e obedecer jamais amaram ou amarão. Se esse amor que te acalma o peito nunca foi a sensação de pular do precipício, deve ser alguma outra coisa que os psicólogos bem podem explicar, mas não é amor. Em todo amor há guerra, há conflito e por isso o amor rende tão bem à ficção. Não há amor na paz. Não há amor na civilidade. Amores se perdem em construir uma vida inteira juntos quando a realidade selvagem do amor é sobreviver a cada dia. Em caçar a comida, em encontrar um lugar quente pra passar a noite, em matar para viver. Passar a vida inteira se protegendo não é amor, é covardia. Os fracos não amam, eles se reconhecem. Se estabelecem e se reproduzem. O amor em si é estéril, abandona seus frutos ao Destino. Que filhos do amor crescem livres. Amores não existem para serem vividos, mas perdidos. Quem vive de garantias e de certezas não sabe perder – por isso não ama. Domesticam-se e sorrirão quando o outro chega, mas jamais amarão. Há ironia em amar. Há uma intrínseca ironia no ato de amar.

Com seu pêlo loiro alaranjado ela impulsiona o corpo com uma pequena saliência no abdômen e alcança, de uma vez, a mesa. Senta, de frente para a janela, e com desdém lambe a patinha direita.

Pelo sinal dos deuses ou do cupido, ele de imediato surge do outro lado do vidro. Cenho franzido, longas orelhas cinzas de Dumbo e a cabeça um pouco inclinada denunciam o que lhe passa pelo coração.

– Acordou tarde hoje. – ele diz ansioso.

Os olhos amarelos seguem da patinha para a janela sem nenhuma pressa.

– Eles ainda estão dormindo. – a fala arrastada.

A pata grande e forte, com grossas unhas, grava mais arranhões no vidro. Ele chora manhoso para só o cupido ouvir. A estátua de pêlos laranja não tira os olhos da janela. Num impulso, numa nada rara exibição de carinho, ouve-se um longo e exigente miado. Ela levanta e se espreguiça como se a vida fosse um eterno dolce far niente. Dele ouve-se um latido estridente.

– Já vai?! Mas já?!

– Eles estão enchendo meu pote de ração. – e como se voasse, sem olhar para trás, ela alcança o chão em disparada.

Os belos olhos azuis contemplam mudos o corredor vazio. Por longos anos, contrataram adestradores com o intuito de tirar-lhe – de qualquer jeito – este amor do peito.

Nenhum crime é perfeito

Pouca coisa posso falar dos sentimentos. Do que vivi, muito sei; do que vi, mais ainda. O fogo se alastra, o gelo derrete. As estações não são mais as mesmas. Eu sei o que é isso. A cada ano nascem menos pessoas como nós. E os que são como nós a cada ano desaparecem em grande quantidade. Estamos perdendo o mundo para eles. Alguns ainda podem se salvar, e eu tenho apenas duas mãos. Pouca coisa posso falar dos sentimentos. Olho ali para o lado, olho para dentro. Não há mais tantos trens por aqui como antigamente. A miséria sobe o morro e a destruição segue além dele para onde a vista não alcança. Ano que vem, onde estarei? Nenhum crime é perfeito. Nenhum crime é perfeito. Eu preciso ir até eles. Adentrar naquilo que não me diz respeito e enterrá-los no peito para que venham até mim.

“O que fazer quando se está triste?” “Sorrir”

 

O menino fugiu de casa. Mas ele era muito novo.

Com o tempo, perdeu muito da vida. Com a perda da vida, perdeu muito de si mesmo.

Aí, não havia como voltar atrás. Mas, mesmo assim, foi. E indo se fez o pouco que havia para ser feito.

Num dia, encontrou outra casa – que não eram seus pais nem ele mesmo. Foi muito feliz por muito tempo.

A felicidade não acabou, porém se escondeu, ou foi esquecida. Sentiu-se triste, preferiu se deixar sozinho.

Escolheu fugir de novo. Fugiu de sua casa. Não fugiu de si mesmo porque aí não havia do que fugir.

Instruções para esquecer

Tenha uma boa memória. Daquelas cinematográficas. Aliás, não. Mais. Porque cinema não tem cheiro. Guarde tudo, imagens, gestos, decore as vozes das pessoas, lembre detalhes daquele natal trágico de 1998, a sensação de andar descalça na areia pela primeira vez, o som dos sinos daquela cidadezinha onde nunca mais você vai passar. Lembre quem mais te fez sorrir na vida. Enquanto estiver na sua maior crise de choro, pense nela, a observe para poder guardar cada segundo. Lembre de tudo. Da lista do supermercado, de onde seu velho pai deixou os óculos, de quanto foi a conta da noitada com as amigas, do prazo para enviar aquele trabalho. Lembre do nome do teu mais novo primo, daquele tio que já casou pela quarta vez, lembre, também, do nome de cada uma das esposas dele. Memorize nomes de ruas, saiba os caminhos mais frequentes do teu dia a dia nessa e naquela, e naquela outra cidade. Saiba todas as datas: quando fulano morreu, o aniversário de todos os amigos e parentes, o ano em que vocês foram viajar, quando ficou desempregado por muito tempo, o ano em que mais choveu na cidade. Ah, saiba também as datas dos feriados. No começo do ano já dê uma olhada no calendário e depois passe o ano sendo consultado “que dia da semana vai cair o dia das crianças?”. Orgulhe-se disso. Esnobe aos quatro ventos a sua excepcional memória. Quando todos falharem ao lembrar qual foi o prato principal do aniversário do irmão caçula ano passado, sorria triunfante e “foi moqueca de peixe, lá na praia”. Faça disso a sua mais marcante característica. Decore fórmulas de química para gabaritar provas, lembre frases de teus autores favoritos sem nunca tê-las anotado. Confronte aqueles que dizem (homens, na maioria) que não lembram muito das coisas com as atitudes e palavras deles. Lembre horários e compromissos sem nem se dar conta. Nunca esqueça nada quando arrumar uma mala para viajar. Nunca esqueça a carteira, nem as chaves, nem o celular, nem o guarda-chuva. Irrite-se toda vez que alguém se enrolar ou te prejudicar porque a memória dele falhou. Lembre qual era a cor da casa da amiga da tua mãe que agora pintou-a de rosa. Lembre nomes, rostos, paisagens.

Passe uma grande parte da tua vida sendo assim. Preze sua memória articulada, superior.

Até que, um dia… tua irmã vai dizer que você está errada, que ela estava na Argentina e não no Chile quando você quebrou o pé. E você vai cismar com aquilo. “Eu não posso estar errada” a memória tem lá no catálogo a imagem certa, as informações, era Chile. E depois dessa, uma outra e outra. Sem perceber você nem vai mais alardear suas capacidades memoriais, as pessoas deixarão de te consultar sobre qualquer dúvida do passado depois de alguns “não sei” e de ruas trocadas.

Você vai insistir, vasculhar seus recônditos, e tentar lembrar. Quando foi minha primeira comunhão? Quantos anos durou aquele namoro? Por que aquele amigo deixou de falar comigo? Em quais bairros eu já morei? Ficará sem respostas. E aí você vai começar a esquecer. E vai começar a ser feliz.

Chegará a dar vivas aos bloqueios da tua mente. Você já não lembra mais de tudo. De certas noitadas já não lembra de quase nada – mas lembra do vinho. Vai se preocupar menos, se importar menos com os outros e com o que eles te fazem. Vai lembrar do vinho, do sorriso e do dia e mês do teu aniversário – o ano pra quê? Quando falarem de um episódio triste da família, você vai sorrir “nem lembro”. É verdade, você vai achar que está doente, passará pelo desespero de pensar que há algo de grave acontecendo. Começará a praticar exercícios para a memória. Voltará a ter aquela memória curta e necessária do dia a dia. E não quererá mais.

Vai abraçar seus bloqueios. Não vai lembrar o diretor daquele filme. Passará dias sem saber onde colocou aquele colar especial. E vai descobrir o prazer de reencontrá-lo no lugar mais óbvio. Redescobrirá novas alegrias, prazeres imensos e sorrirá mais.

Chegará o dia que você nem vai mais lembrar que um dia teve uma memória excepcional e poderá ver e rever os seus filmes favoritos, as fotos das viagens, poderá ler e reler os livros mais apaixonantes e se surpreenderá frequentemente com as pessoas.

(inspirado em Cortázar, Instruções para Chorar)

Quando acontecem coisas naturalmente românticas

No mundo da ficção não falta luz. Ou, quando falta luz, acontecem coisas românticas. Eu gosto de coisas românticas. Naturalmente românticas, não planejadamente românticas. É preciso acreditar demais no Destino e desconfiar demais das pessoas para pensar assim. E no meio do meio do dia eu só queria chamar alguém de biltre. Até ontem à noite queria braços e pernas e pescoços e cabelos para afagar. Tudo planejadamente romântico. Desculpem o intervalo, estava cá vasculhando quando não fui planejadamente romântica. Nunca? Nunca, bem está. Anoto mais esta culpa. Consequência da impaciência, das brigas constantes com o Destino, dá má interpretação dos sinais, de sempre supor-me muito mais carne do que alma e coração (e, apesar de por última, talvez seja esta a maior causa da culpa).

Suponho-me sempre muito mais carne, esta que envelhece e apodrecerá como um dia me lembrou uma amiga, e com veemência ignoro-me do resto. Aquele resto que não se vê – e São Tomé que sou, tenho dúvidas quanto à existência. Por isso, esses dias brindava vinho à frieza e fortaleza que trago invisível no peito. Visível era o decote do vestido tomara-que-caia vermelho. (E também assim me sentia invisível.) O vinho doce, a comida boa, o corpo se regozijando. Palavras tão fáceis da boca pra fora. E, quem sabe, não há brinde que salve. Não há falta de luz que acenda qualquer bobagem de “luz interior”. Não há. A ficção, sim ela, aviva… faz quase São Tomé acreditar que há algo aqui dentro. Eu teria sido daqueles jovens românticos de outro século a beber, comer, ficar endividado, jogar, e loucamente – naturalmente ou planejadamente? – morrer antes dos vinte. Seria, então, o caso de só o naturalmente romântico a tirar as dúvidas de São Tomé? Já mergulhei em tantos devaneios a crer que sim. Alcançaria o estado de suspirar pela falta de luz como se nem notasse e jamais quereria chamar alguém de biltre?

E sem querer citar, sinto como se todo deleite fosse obsceno. Desculpem o intervalo – estava cá a lembrar que o corpo padecerá. Como diz a canção, nem o diabo quis negociar minha alma vendo um mau negócio. Curiosamente desejo as coisas naturalmente românticas – seriam elas a dar algum valor à alma? Tenho pilhas de perguntas que talvez encontrassem respostas. Sei que das coisas planejadamente românticas já tirei todas as dúvidas e conclusões. Este intervalo foi longo, eu sei. Estava pensando se colocarei um ponto final. Caberia um ponto de interrogação no final, é verdade, mas considero muita pretensão. Estava pensando, também, se este bebê que chora foi fruto de algo planejadamente ou naturalmente romântico. Na verdade, primeiro há que se questionar se foi romântico. Os poetas daquele outro século também hoje se matariam, mas não pelos mesmos males. Fui ver que há um relógio de pulso ainda com pilha que me garante que tudo continua seguindo. A falta de luz, então, só interrompeu meus pensamentos. Já não sinto vontade de chamar alguém de biltre. Sinto que nem tenho mais vontade de que a luz volte. Lembro do brinde. Do brinde e do vinho. Nem o vinho esquentou-me ou abriu brechas na fortaleza. Será preciso mais que isso. A ficção, sim, me atira dúvidas no corpo que deseja e envelhece. Calma, procuro o ponto final, e confesso que sinto-me mais distante dele. A luz não voltou – faltam-me, de fato, as coisas naturalmente românticas para ignorar isso. Como ainda há relógio, não há fuga. Arrisco-me a dizer que sairei com uma fresta de esperança a desejar coisas naturalmente românticas – no acaso, no acidente, no imprevisível. É um risco. E digo isso porque não encontrava peça que encaixasse com peça, em mim, nos últimos tempos até faltar a luz e eu esquecer o biltre-ninguém e perceber o brinde e a ficção e as coisas românticas.

(chegou o rapaz que dá a luz e talvez seja esse o mundo sempre a dar seus pontos finais)

Chovia na Sexta-feira

 

Subiu quatro andares pela escada. Não agüentava mais o peso das sacolas. O cachorro do 301 latia incessantemente. Por duas noites seguidas não havia dormido por causa dele e como se não bastasse, o casal de recém-casados que morava no apartamento de cima brigara logo pela manhã. O supermercado, neste final de tarde chuvoso de sexta-feira, estava apinhado, não fazia idéia como sobrevivera. E também não fizera boas compras. A porta do apartamento no final do corredor, e lá vinha a lembrança de que ele estava uma bagunça. Completamente desorganizado e com a limpeza três semanas atrasada. Parou em frente à porta para procurar a chave.

Abriu a porta e colocou as compras para dentro. Evitou olhar para os lados. A bagunça parecia gritar e gesticular. As coisas queriam voltar para os seus lugares. Começou a desfazer as sacolas, arrumar o que havia comprado nas prateleiras e armários, logo toca o telefone. Vai até a mesa ao lado do sofá e tira o fone do gancho, diz alô e escuta a propaganda de alguma coisa da companhia telefônica. Nem escuta até o final e desliga. Conclui, sem pensar muito, que aquele havia sido um dia exaustivo, e por isso mesmo não era propício a reflexões demoradas. Decide sentar-se no sofá. As compras continuam parcialmente desempacotadas flutuando em meio à bagunça.

Pegou um catálogo de móveis que estava jogado no sofá e começou a folheá-lo. Mas isso não durou muito. Foi para o quarto, jogou a roupa que estava usando junto a tantas outras que por ali estavam. Deitou e ligou a televisão. O cachorro do 301 recomeçou sua manifestação de enfado, enquanto o barulho de panelas e gritos aumentava no apartamento de cima. Trocou de canal algumas vezes, não viu nenhum programa em particular, desligou a televisão. Virou-se, fez o sinal da cruz, rezou três pai-nosso e fechou os olhos. A janela do quarto estava aberta, a lua cheia tentava aparecer entre as nuvens mas estava longe de obter sucesso.

Nada como uma manhã de sábado para acordar tarde e ficar na cama sem ter o que fazer. Pois não era esse o caso. Levantou-se e foi ao banheiro, ele seria a primeira vítima da quase detetização que seria preciso fazer para deixar o apartamento, no mínimo, respirável. Tirou todas as roupas e toalhas que estavam lá e esfregou cada centímetro de azulejo. Depois foi a vez do quarto: lençóis, roupas, papéis, todos expulsos. Varreu tudo, tirou o pó, limpou a janela e levantou o colchão para ventilar. Nem parou para almoçar e seguiu direto para a sala. Foi empilhando os papéis, livros e catálogos na escrivaninha; as louças de refeições passadas foram jogadas na pia da cozinha. Calma, havia algo de estranho com a cozinha. Ela estava com um aspecto mais organizado que na noite anterior. O cachorro do 301, após uma breve pausa, recomeça a latir.

Já estava no segundo andar quando ouviu um assobio. Virou a cabeça de relance e viu uma criança pequena, no vão entreaberto da porta do 203, acenando. Dirigiu-se hesitante para a porta, a criança foi entrando e continuou acenando. Depois de alguns passos, já dentro do apartamento, a porta fechou-se. Outra criança, ou mais exatamente, a mesma, havia trancado a porta e sorria com a chave entre os dentes.

Estava entre as duas crianças, ambas sorrindo, idênticas na fisionomia e na ação. As crianças começam a entoar uma canção de ninar. As palavras não lhe ocorrem. As crianças dançam a sua volta, rodopiando. Um cheiro forte, vindo delas, vicia o ar. O apartamento começa a girar. As crianças param na sua frente, fazem um aceno, dão-se as mãos, correm em direção à janela, sobem, uma em seguida da outra, no parapeito e, sem cessar de sorrir, recomeçam a canção. As crianças, de mãos dadas, atiram-se pela janela. O chão do apartamento aproxima-se dos seus olhos. A calçada aproxima-se rapidamente das crianças.

Polícia. Ambulância. Sirenes. Vozes. Gritos. Vizinhos. Latidos. Choros. Não parara de chover. O calendário marcava lua cheia. Tempo de serenatas, passeios de barco, lobos uivando e caçando suas presas.

Domingo, mas o movimento do prédio só aumentara. Os velhos recebendo visitas dos filhos, netos, bisnetos. Os casais mais novos sendo vigiados pelos pais e amigos. Os filhos de pais separados sendo carregados e descarregados. Os solteiros chegando dos passeios. O sol fraco de inverno aparecia e gritava que a primavera viria em breve. Algumas pessoas acreditavam. Outras, apesar dos gritos, não ouviam. Muitas insistiam em teorizar contra.

As compras que estavam na cozinha, ainda dentro das sacolas, perguntavam-se quando chegaria seu momento de glória. As maçãs estragavam lentamente. O apartamento estava arrumado, as janelas abertas. O cão do 301 fora ao veterinário, depois de muitas reclamações veladas dos vizinhos, e estava tomando um calmante, não latia mais e todos esqueceram que um dia ele existira. O casal do apartamento de cima brigara no último final de semana, na frente dos pais dela que eram divorciados e ela, aos prantos, foi passar alguns dias com a mãe. O pai dela marcou de visitar o genro para assistirem futebol, torciam para o mesmo time, e disse que levaria a cerveja. Ninguém podia deixar de notar as novas vizinhas que mudaram para o apartamento 203. Três moças que estudavam e trabalhavam.

O jardineiro cumpria seu papel e plantava um pé de jasmim ao lado da calçada, na frente do prédio. O sol passeava. A lua às vezes aparecia. Para completar a semana, era sexta-feira. Chovia. A cidade estava conturbada. O cheiro de jasmim entrava pela janela do quarto e impregnava o colchão. Na sala, os papéis voavam com o vento e emprestavam ao ambiente um ar fantástico e bucólico. As compras, desprezadas nas sacolas, indignavam-se. As maçãs haviam desistido de esperar. A louça que estava na pia para ser lavada desistira e encaminhara-se para os armários. No sábado pela manhã o entra-e-sai do prédio recomeçara. A chuva esquecera-se de aparecer. O céu estava azul, as nuvens rodopiavam com o vento, uma mãe embalava um bebê no berço e cantava uma canção de ninar. As nuvens despediram-se e cederam seus lugares ao sol.

Histórias Vizinhas

 

Era quase a hora do sol se pôr, a rua estava deserta. Rua de cidade do interior, sem asfalto, algumas árvores pelas calçadas, casas antigas, jardins bem cuidados. Havia uma casa, de madeira, pintada de azul desbotado com janelas rosas que destacava-se das outras. Não só pela combinação gritante das cores como também porque era a única que parecia abrigar vida. Uma música, um pouco bolero, um pouco salsa, vinha de sua sala da frente. O som parecia embalar a rua e as árvores, ela ditava o ritmo do vento. O jardim também despertava a atenção pelo colorido e pela diversidade de flores e plantas. Apesar de pequeno, o terreno estava em comunhão com a casa e a música.

Uma menina loira, magra demais, com dentes de oito anos ainda não completos, corria, ou melhor, saltava pela rua em direção à casa. Trazia uma sacola de supermercado com tangerinas na mão direita e uma pasta preta no braço esquerdo. Ela abre o portão em estado precário do jardim e atravessa-o gritando e correndo ao mesmo tempo. Da janela da frente surge uma mulher loira, que pelos traços e sorriso diz ser sua mãe. A mulher está com um pincel na mão esquerda, e quando a menina entra na sala e lhe dá um beijo a sala apresenta-se como um ateliê de pintura. Muitas revistas, fotos e desenhos a carvão estão espalhados por todos os lados. Não pode-se mais chamá-la de sala pois não há nenhuma TV ou mesa de jantar. Apenas um velho sofá rasgado, embaixo da janela, um cavalete em frente e algumas almofadas pelo chão. A sala, não… o ateliê, o ateliê é grande e ocupa toda a extensão da parte da frente da casa. No canto esquerdo, entrando pela porta, há vários vasos com plantas grandes e de um verde saudável. Na parede em frente à porta há pequenos vasos, plantados também por alguém dito pequeno, com flores delicadas e coloridas. Não há mais nada ali. A pasta a menina deixa no chão, enquanto gira abraçada com a mulher. A menina começa a falar ininterruptamente e mostra as tangerinas. A mulher larga o pincel num pote com solvente e aperta as bochechas da menina, que sorri com o rosto sujo de tinta. As duas seguem para a porta que liga a sala, não é sala, é um ateliê, então, que liga o ateliê com o resto da casa.

Passada a hora do sol se pôr, chega de mansinho a noite que convida para conversas calmas e profundas. As duas estão sentadas na cozinha que tem uma porta para o quintal da casa. Quintal bem cuidado, com uma horta de temperos e árvores frutíferas. A cozinha também é simples. Sobre a mesa há um lampião que ajuda a iluminar o caderno da menina, há apenas duas cadeiras e um armário na parede, igual ao da pia. Não há fogão, somente um fogareiro de camping em cima do tampo da pia. A menina concentra-se arduamente para resolver as questões que não se mostram tão complicadas, mas ela não consegue fazer o que lhe é pedido sem esforçar-se demais. A mulher está sentada ao lado direito da menina e descasca uma tangerina. Aparece pela porta um cão sem raça, peludo e grande, abanando o rabo. Ele senta-se entre as duas e começa a latir. A mulher divide sua tangerina com ele que deita no chão de madeira para devorá-la.

Já é tarde. A rua continua vazia, o som da música se foi, agora nada tem vida. As janelas estão todas fechadas, os portões também. Poderia se prever alguma desgraça, ou infortúnio apenas, num cenário tão calmo que fosse assaltado por alguém desavisado. Mas o que acontece é outra coisa. Poderia se dizer que algo exatamente ao contrário? Não se sabe…

A lua minguante está alta. Algumas pessoas dormem tranqüilamente, outras não. As primeiras não estão necessariamente de consciência leve, são simplesmente pessoas que não pensam. As últimas, se não dormem tão bem, ou nem dormem, pensam. Pensam em coisas boas, sonhos talvez, ou em problemas e situações nas quais não gostariam de estar. Mas há quem esteja pensando na vida dos outros, pois a sua é tão sem paixão que é preciso viver a vida de alguém para suportar a própria. É uma dessas últimas que interessa agora. Ela, ou melhor, ele, é vizinho da casa da qual falava-se a pouco. E ele pensa na cena que viu na hora do pôr-do-sol. Aquela mesma que você viu. No entanto, ele viu só até o momento da chegada da menina. É um morador novo na rua, herdou a casa do tio que era solteiro, como ele, e havia ido morar lá para estar mais perto da avó, a única pessoa que restava da família. Ele está deitado numa cama de casal antiga, de madeira maciça, pesada e escura. A casa é a mais aristocrática da rua, pois a cidade não abrigava muitas pessoas de gosto tão austero. Não se pode dizer que a casa tinha um ar sombrio, seria dramatizar demais, porém seu jardim era triste e o mato tomava conta, assim como o cimento.

Como já foi dito, ele não estava dormindo. Imaginava, de olhos fechados, a cena que havia presenciado pela janela da frente da casa. Esta janela era da sala, uma sala mesmo, não era um ateliê porque nem ele nem o tio tinham ou pensavam que tinham algum dom artístico. Nem havia percepção artística neles. Ele seguia a menina com os olhos e reconstruía a entrada dela na casa. Após isto acontecer, ele começava a criar mentalmente os acontecimentos e, é claro, pode-se concluir que não eram fiéis aos narrados aqui. Por ter sempre vivido em ambientes sufocados, ele via a casa da menina do mesmo modo, cheia de móveis e pessoas. Crianças, prováveis irmãs e irmãos da menina, um pai displicente, como também havia sido o dele, uma mãe com as marcas do tempo e do trabalho escritas no rosto, como ele se recordava da sua. Ah, havia um cachorro que pulava e latia, e por isso era escorraçado da casa pelo pai furioso com o barulho das crianças e do animal. O pai reclamava exigindo que a mãe desse conta da bagunça, afinal ele queria um momento de paz para poder assistir à TV. Sim, nesta sala havia TV. E muitos móveis. A sujeira era visível, a desorganização era prova do excesso de trabalho que fazia com que a mãe deixasse as coisas por fazer.

Ele queria distanciar-se do quadro, tão familiar. Mas algo fazia com que ele fosse um observador quase personagem. A mãe foi servir a mesa e uma criança muito pequena, talvez a mais nova, puxou-lhe o avental, o que fez com que ela se desequilibrasse e ele, ali perto, estendeu a mão para segurar o prato que caía. A mãe olha para ele assustada, seu rosto desvanece num sorriso agradecido e cansado. Ela já não acredita que possa contar com a ajuda de alguém. Ele tenta transitar pela sala, uma náusea o toma de assalto. Não há espaço, nem ar puro. O pai fuma e bebe cerveja. De camiseta regata branca e suada, peito peludo, ele lhe atira um olhar de desprezo e não gasta seu tempo com o visitante onírico. Duas crianças brincam no espaço que há entre a TV e o sofá. Uma menina e um menino, mais ou menos da mesma idade. A menina puxa o cabelo do menino por conta de alguma desavença infantil. O pai escuta o grito estridente do menino, que começa a chorar teatralmente. A menina olha, como uma coruja, para o sofá onde o pai está sentado. Ele ergue-se imediatamente e berra. A cinta de couro, desgastada pelos anos de uso, é tirada com rapidez. A cena é congelada: a mãe arregala os olhos, entreabre a boca; as outras crianças postam-se como se estivessem numa cerimônia mística. A menina agressora, por assim dizer, treme um instante e mantém-se imóvel, o menino, o agredido, afasta-se lentamente da menina, que fica sozinha no meio do tapete vermelho e amarelo. A cinta vai baixando e no primeiro estalo seco do encontro do couro com a pele branca da menina a mãe soluça e agarra a menina mais nova como se houvesse uma tempestade e elas temessem os trovões. Algumas crianças fecham os olhos e parecem sofrer junto com a irmã, ou apenas recordar o seu próprio sofrimento de surras passadas. Mas outras crianças ficam extasiadas e não conseguem desviar o olhar, a dor não toma parte nos seus pensamentos, há apenas um espetáculo do qual eles participam, não importa se eles mesmos já estiveram no centro do picadeiro.

O vizinho vê a seqüência dos eventos numa lentidão ocasionada pelo seu cérebro que demora a organizar tudo aquilo. Ele mesmo sente o impacto de cada cintada, sua pele arde, seus olhos lacrimejam. A menina, que antes era agressora e agora é agredida, está em convulsões no chão, esparramada, desgrenhada, grita de dor, grunhe. O pai grita mais alto, fala em “paz”, manda que ela cale a boca, senão ele continuará a bater. A platéia assiste, cada um no seu devido lugar. O vizinho vira-se na cama, suspira e passa a mão nos olhos. Ele está suado. Abre os olhos e contempla o guarda-roupa, seu olhar vai para além do guarda-roupa, além do espaço do quarto. Nem ele sabe para onde.

Ele, depois de acordar, pois havia dormido um pouco, está sentado na janela da cozinha, que fica de frente para a parede lateral da casa azul. Há, ali, uma janela pequena de um quarto. Uma cama com lençol infantil, uma caixa de papelão com brinquedos baratos e um cavalinho-de-pau. A menina de seus pensamentos entra chorando no quarto, com as marcas da surra da noite anterior e outras que demoram a desaparecer. Ela fecha a porta e deita de bruços na cama. O pai entra logo em seguida, seu rosto aparenta um ar arrependido. Mas o vizinho vai entrando no quadro e vê que aquele rosto não trás nenhum arrependimento com ele. O pai senta na beirada da cama, fala baixinho com voz suave, o quanto uma voz de ferro pode ser suave, e passa a mão na cabeça da menina. O vizinho aproxima-se da cama, pelas costas do pai, e ouve-o dizer que nunca mais a machucará, que ele só quer o seu bem. Ele explica, com poucas palavras, que está cansado, que ela precisa aprender a ser obediente. O vizinho vê a mão do pai ir descendo pelo pescoço da menina numa carícia cortante. A menina soluça quase imperceptivelmente. A náusea toma conta dele e ele tenta sair dali, mas como algumas crianças que haviam ficado hipnotizadas no espetáculo da noite, ele fica ali, olhando a mão do pai descendo pela coluna da filha, passando pelas suas nádegas, apalpando-as, e seu olhar já não tem nenhum resquício de arrependimento. A mão ergue a saia da menina, ele diz que, finalmente, ela aprenderá a obedecê-lo. Ele tira brutalmente a calcinha da menina e a cheira de olhos fechados, extasiado. O vizinho acerca-se dos pés da cama, senta-se e vê o corpo seminu da menina. O pai levanta-se, abre a calça, apóia o joelho esquerdo onde ele estava sentado, depois as duas mãos, uma de cada lado da menina, e vai deitando-se devagar sobre ela. O vizinho fica ali, olhando. O suor escorre do pescoço e braços do pai, lágrimas dos olhos do vizinho.

Ele levanta-se da cadeira, já na sua cozinha, e leva consigo a xícara de café que está frio. Dirige-se a pia, joga o café no ralo e vai até o jardim pegar o jornal. Quando está descendo a escada, vê a menina loira passando na calçada da sua casa. Ela olha para ele e sorri timidamente. Ela carrega a pasta preta na mão direita. Ele sente-se nauseado e vira as costas para a menina, que arregala os olhos sem compreender e continua andando.

 

 

Domingo: Vivaldi e supermercados

 

Tocava Vivaldi e eu almoçava. Que porra era aquela? Era domingo e eu só queria sair. Tinha sol. Sol, entende? Semanas inteiras de chuva e era um domingo com sol. A lista do supermercado anotada na geladeira “ARROZ FRUTAS VERDURAS PIPOCA”. Antigamente e nem tão antigamente assim, supermercados não abriam aos domingos. Por que eles abriam, agora, aos domingos? Ninguém morreria de fome se eles não abrissem aos domingos. Supermercados, fechem aos domingos. Dêem aos seus funcionários o prazer dos domingos ensolarados. Ou dos domingos chuvosos, debaixo das cobertas com seus filhos, ou com os namorados fazendo filhos, matando ausências. Não irei ao supermercado. É um comodismo o qual eu não preciso. Anunciarei, à noite, em tom solene: não teremos pipoca para o filme de hoje. Com seis dias da semana para ir ao supermercado, por que eu iria no domingo?! Não via o fundo do prato. Eu só queria ir caminhando, com a parada para fumar meu cigarro diário escondido, até o parque. Queria sentar naquele banco em frente ao lago, fingir que era homem de exercícios na minha roupa de lycra e poliéster – e sem fôlego por causa do problema nos pulmões que o cigarro me dera. Ninguém desconfiaria. Sorririam como se eu fosse um deles – amante da natureza e da vida saudável. Queria ficar ali rindo escondido de todos que tropeçam naquela irregularidade da pista de caminhada. Por isso sento-me naquele banco. Imperdível. E Vivaldi. Acabei um prato e ele continua. Agora virá o prato principal. E ainda haverá sobremesa. Lá do banco espero ansioso aquela moça que caminha sempre bem devagar e com fones de ouvido. No mundo dela não existe mais ninguém. Ela olha e não vê. Como eu faço com meu sogro aqui ao lado. Que inveja dela! Frango assado e polenta. Que porra era essa?! O que adiantava ir ao supermercado se ela só cozinhava as mesmas coisas? Presto atenção… este trecho de Vivaldi eu intitularia “marcha para um suicídio”. Seria uma boa trilha para quando eu anunciasse “não irei mais ao supermercado aos domingos”. E a sobremesa. Pudim. Pudim, porra. O pudim da mãe, da vó, do buffet barato, de caixinha do supermercado. Pudim.

Vênus

 

Toda vez que olho o céu, e o faço todas as noites, procuro a estrela mais brilhante e penso que lá estão os que eu amo e que não estão mais ao alcance de um abraço. Pois quando eu era criança… nem tão criança porque já havia passado por aquelas coisas que nem adultos dão conta de viver, eu assisti àquele desenho, no qual o pai leão rei à beira da morte dizia ao filho que quando ele ficasse triste era para encontrar a estrela mais brilhante no céu e que lá estaria ele olhando pelo filho. Nem sei se foi nessa cena, sei que foi neste desenho. Enfim, desde então eu olho para o céu… e fico um tantinho mais triste quando as nuvens não me deixam encontrar a estrela mais brilhante.

Eis que encontrei uma bem bem bem brilhante, na porta de casa. Da varanda ou da rua, é só escurecer um pouco o céu e lá está ela, muito brilhante, sempre no mesmo lugar, por vezes solitária. A curiosidade me tomava: então agora eu tinha a minha estrela brilhante anti-tristeza com todos aqueles que eu amo do mundo de lá assim pertinho de mim?

Não, um dia descobri que não era uma estrela (bem achei que era estranha). Se eu fiquei triste? Não. Fiquei ainda mais feliz. Dizem que é Vênus. Sim, Vênus, aquele, o do amor.

E eu que já sou sempre fui (não se enganem, não é erro de digitação, é pra ser assim e contemplar um belo tempo verbal) apaixonada pelo amor, agora estou namorando-o. Me faz companhia, sempre olha por mim quando chego muito tarde em casa, passamos horas namorando na varanda, ao som de alguma canção, embalados em dúvidas e contemplações, admirando as companheiras de céu. Eu que ficava aqui a observar os aviões que chegam e partem, ouvindo e vendo um ir e vir charmoso, agora tenho companhia para tal. Às vezes brincamos de adivinhar qual o destino, ou a origem, do avião. Às vezes criamos histórias para seus passageiros. Às vezes prevemos tragédias. Vênus, aquele, do amor, não tira os olhos (ou o brilho) de mim. Às vezes… bem de vez em quando… ele não aparece, como hoje que umas nuvens de sujeira tomaram conta do lugar dele. Não sei se ele foi atender algum outro apaixonado, ou se foi intervir em alguma desavença, ou se anda enamorado de outra varanda. Eu não tenho ciúme. Senti falta dele quando vinha caminhando pela rua… senti falta dele quando fui fechar a varanda e senti falta da nossa longa e sorridente despedida – aquela de todo dia. Sei que amanhã, ou depois, ou depois, ele estará de volta. Por isso não me preocupo. O amor é assim. E é difícil chover por mais de três dias seguidos na Ilha.

 

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