Nova empreitada

O tempo, o teu tempo. Assim devia ser a vida. No nosso tempo. Os dias, as noites, o trabalho, a diversão, o prazer. Mas não é – ou raramente o é. Você só vive se caminha, as distâncias só existem de fato ao caminhar. Aquele exercício simples e prático. A saúde agradece, a alma fica mais leve, a cabeça segue o seu ritmo. Inventaram o avião, o navio, o carro, o trem para cortar essas distâncias, para romper com o nosso tempo. Perde-se o caminho, objetivam-se os destinos.

Numa conversa a pessoa, moradora de Curitiba, me disse que queria ir embora dali (Curitiba, que quando digo “nasci lá” sempre ouço “sempre quis morar lá” ao que respondo “eu nunca”). E disse que aquele ritmo de cidade não era para nós que pensamos, trabalhamos com idéias, escrevemos, estudamos, pesquisamos. É exigir demais de nós. Cismei com isso. Ela está certíssima. O tempo, o nosso tempo, sofre com o tempo externo, esse aí que passa nos pontos de ônibus, que atravessa sinaleiros. Eu mesma nunca quis morar em cidade grande. Não gosto, não adianta. Sinto falta de morar perto do mar e do mato porque eles seguem o meu tempo.

Você passa pela cidade e mal tem tempo de parar para olhar os ipês floridos. Ou reparar que a lua ainda não se foi, apesar do sol que lhe queima a nuca. E o tempo não lhe pergunta se já é hora de almoçar. O telefone tocou, esses dias, e não era pra mim, mas ficamos conversando. Falamos do clima, era final de inverno mas lá na Serra já fazia calor, ao que ouço “mas você precisa de sol, filósofos precisam de sol para pensar” (é uma, dentre as duas pessoas que me chamam de filósofa). E eu preciso mesmo do sol para pensar – para viver, velha história. As idéias ficam confinadas à falta de tempo das cidades, à correria e aos dias nublados.

Não me imagino presa duas a três horas no trânsito para ir e voltar do trabalho, foi o que eu disse ao morador de Curitiba. Ao que ele disse que isso, hoje, é pouco – e é mesmo, mas pra mim soa absurdo. Ele fugiu de São Paulo, eu não consigo me imaginar morando num lugar tão sufocante. Não é a terra do meu tempo. Já corri muito na vida, para não perder aviões, ônibus, pegar trens cheios, chegar antes dos alunos, chegar atrasada na aula e perder ponto na avaliação final. Não corro mais porque minha idéias não acompanham. Sempre gostei da cidade como laboratório, ver as pessoas, ouvir coisas, criar histórias. Faz um tempo me afastei do dia a dia e nem sinto mais falta. Segui atrás do meu tempo. E descobri-o.

O meu tempo é esse que segue o mar imutável. Que testemunha o sol chegar e ir-se embora. O meu tempo acompanha as Estações, as árvores que perdem suas folhas e voltam a brotar devagarzinho. É caminhar pela cidade. Poder cumprir as distâncias com minhas próprias pernas – poder alcançar só o que consigo. As idéias não têm pressa, não irrompem em meio ao barulho irritante do motor do carro da frente. Não respeitamos mais a nós mesmos, ao nosso ritmo, ao nosso tempo – o que não é nada num mundo que não se respeita. É querer fazer muito nesse intervalo que é a vida, sem se deixar observar um menino soltando pipa num dia sem vento. É esperar que os títulos, diplomas, prêmios, papéis, tempo de contribuição da previdência digam o que foi o tempo que você passou aqui neste mundo. Dizem, por sua vez, que corrias não com ele, mas contra ele. Guerra inglória.

Quero buscar meu tempo – nova empreitada na vida. Quero descobrir que hora exata é essa que os sonhos me permitem acordar, sem despertador nenhum. Quero descobrir porque o sol se pôr é anúncio de recolhimento, prece e paz. Quero deixar que as idéias e as histórias tomem seu tempo e seu espaço na minha cabeça sossegada de banho tomado. Quero caminhar, a pé mesmo, ao longo dos dias. Quero não cumprir distâncias só pela chegada. Quero reparar nas paisagens – e fotografar os ipês, as ondas, os cavalos a rolarem na grama. Quero ver as aves cruzando o céu na sua viagem infinita pelos pólos. Quero saber em qual tempo me encaixo – no hoje, no ontem e, quiçá, no amanhã. O tempo é um velho amigo, quero cuidar melhor dele. Quero-o comigo quando ele começar a pesar nas pálpebras e nas costas. Quero deixar meus olhos aproveitarem-no para ver a vida em cada detalhe que passa despercebido aos que precisam trocar a marcha, anotar na agenda e ir para a academia. E comecei reparando na amoreira que tem em frente ao Batalhão. Comecei observando o pato que furava as ondas furiosas da última ressaca.

Ao vê-lo, pensei de brincadeira “queria ser na vida como aquele pato ali encara essas ondas gigantes”. E, bem disposta, entrei na brincadeira – levando-a muito a sério.

Fracassos de cabeceira

Eu começaria dizendo que todos já sentiram a mão gelada, dura e fétida que nos agarra o tornozelo numa manhã qualquer e nos submete ao desejo de não sair do escuro do quarto e do peso das cobertas. Mas não há nada que valha para todos (além da morte?). Há pessoas que nunca sentiram nem sentirão esta mão que nos puxa sem força e com convicção. Felizes os que têm motivo para levantar-se todas as manhãs. Ou, ainda: felizes os que saem todas as manhãs da cama, sem o menor motivo para fazê-lo. Eu mesma já senti várias vezes esta mão. Acho até que tivemos uma amizade duradoura e simpática. O mundo, o real, o das idéias, o da ficção – danem-se todos – nenhum deles por vezes me interessa. Quem entenderia, não é mesmo?

E essa mão aparece quando quer – mas a gente sabe quando ela tem suas razões. Não nos ensinam a fracassar. Não nos ensinam a não ter a vida que almejamos. Fracassar é uma bala azeda presa na garganta. Só há uma saída: conviver com os nossos fracassos. Mas ninguém fala em fracassos. Preferem dizer que não era a hora, que os outros é que estão errados, que não souberam valorizar o nosso trabalho, se Deus fecha uma porta Ele abre uma janela, e tantas baboseiras afins. E, na verdade, a gente fracassa e pronto. Não somos tão bons assim e ponto. E de manhã a mãozinha subirá pelo canto do colchão, agarrará o teu tornozelo bem na hora que você costuma acordar e dela não há escapatória. Talvez você fique ali uns minutos rememorando porque ela apareceu – aquele instante que a fuga dos sonhos te impediu de remoer os últimos acontecimentos e, bem, abrir os olhos é sempre colocar a memória em dia.

Você pode ficar jogado na cama o dia inteiro – a despeito do lindo nascer do sol que você poderia testemunhar, a despeito do relógio das obrigações a tocar. Você pode pensar em se matar. Você pode ligar e inventar uma doença. Você pode o que você quiser. Desde que você queira algo que caiba na vida que construiu até aqui. Senão, deite mais fracassos e frustrações aí junto da coberta e tenha mais razões para ficar jogado na cama preso à mãozinha. Você pode, também, mandar tudo à merda – não adianta nada nem muda nada, mas dá um alívio passageiro. E alívio, provavelmente, é o que a gente mais precisa nessas horas. É lícito, meus amores, não querer sair da cama. Um dia ou outro, ou vários dias (seguidos, inclusive). Paremos de problematizar isso. Deixe a mãozinha amiga ficar ali. Ela te entende melhor do que muita gente por aí, eu garanto.

A mãozinha é tão compreensiva quanto os bichos. Não sei, talvez você aí leitor seja um desapegado dos amores caninos e felinos e etc.. Mas minha longa experiência me dá respaldo para dizer que os animais entendem mais os nossos sentimentos do que outros seres humanos. Eles não precisam de um termômetro para saber quando você está mal, nem que você abra o coração aos prantos sobre suas últimas decepções e fracassos. Eles sempre estarão lá. Eles aparecem na hora que você precisa. Ao contrário dos seres humanos que você pode se jogar na frente, dar bandeira, pedir ajuda e o escambau e: nada. É provável, certeza quase, que o ser humano ainda consiga piorar (e muito) as coisas. O ser humano não é compreensivo nem muito habilidoso com a empatia. Os animais são superiores nisso, enquanto o ser humano só consegue ver o mundo a partir de si mesmo – e é cada espelho quebrado que tem por aí.

As pessoas gostam de se vangloriar – até das piores merdas. As pessoas não assumem que não são tão boas assim, que perdem muito mais do que ganham, que caem e ralam feio o joelho. Às vezes caem de penhascos e demorarão muito a se reerguer. Já caí muito na vida e sei que chega uma hora as manhãs eternas na companhia da mãozinha duram menos dias. Ela aparece, claro. Sempre. Colecionar fracassos é ter o plano B na mesa de cabeceira. E, se ao final nada der certo, danou-se. É o fim mesmo, não?

O dia amanhecerá, a mãozinha querendo ou não. O sol brilhará – a não ser que você esteja em Joinville –, o vento trará nova poeira sobre a vida. Os bichos precisarão ser alimentados. Os problemas conhecem o teu endereço. A saída é seguir com o próximo plano que estiver à mão. Se não tiver nenhum, falha sua, então fique em companhia da mãozinha até encontrar algum. Você não é tão bom quanto imagina – a despeito dos elogios, do que a sua mãe pensa de você, de sucessos e conquistas. Mas, de vez em quando, livre-se de tudo – e a mim, no momento, só interessa a previsão do tempo para a semana que vem. Só não esperem que eu diga que fracassar é bom. Se tem uma coisa que sei é que insistir é burrice – e desistir é digníssimo. Ninguém me ensinou, porém.

Antes e depois da chuva

Desligar o computador sem o sentimento de dever cumprido, mas pelo pesado fato de que não aguentava mais. Meu limite de computador sempre foi duas horas (exceto quando jogava virada na madrugada o SimCity 3000). E a vida passa e os trabalhos exigem dias excruciantes em frente a tela. Não tinha trabalhado o suficiente para o dia, não via o fim do túnel, ainda, e desliguei – num impulso. Dia difícil, idéias incompletas, espírito selvagem. Desliguei sem nenhum peso no dedo.

Nessa guerra quem ganha é a companhia. Saio pelo quintal com a gata e o cachorro. Dizem que um poeta disse “feche os livros e vá viver” e outro que a gente canta o quintal de casa. Foi naqueles dias quando ainda víamos o sol. Esgotada a mente o corpo precisava viver. Eu sou feliz no meu quintal – nem todos podem dizer isso, de verdade. O quintal é onde se cultiva, é semear, esperar, esperar, esperar e esperar (já disse esperar?), é a alegria do brotar, do desespero de falta e excesso de água. É regar, proteger, fazer muda. É transplantar. É coisa de velho, diriam, pois personagens que cuidam do seu quintal, na ficção, são os velhos (só reparem). O quintal é trabalho, cuidado e perseverança.

No perfume da lavanda, o cachorro educadamente deitado sob os galhos secos da videira, a gata ao lado se deleitando ao sol, olho para o céu. Que o quintal também tem céu. Enquadrado parte pelo concreto, parte pela palmeira e outro lado pelos galhos da árvore-que-eu-não-sei-o-nome (a que plantei quando criança e hoje está enorme) era a lua, as nuvens em forma de caminho e um jato a cruzar o espaço. E nasceu a vontade de, a despeito pelo amor ao quintal, estar no jato – fosse de e para onde fosse. Era voar, ir, voltar. Já morei próximo a um aeroporto e tinha por hábito ver os aviões da varanda – quando não ia até a praia vê-los sobre minha cabeça. E no meu quintal nunca vira um avião.

Dizem que a humanidade pode ser sempre dividida em dois. Os “esses” e os “aqueles”. Os que gostam de azeitona, e os que não gostam. E por aí vai. Senti aperto tão grande na alma, calei desejos e acendi penumbras. Fiquei a ver o jato. Depois até fui buscar a câmera para fotografar (o risco do jato não ficou como deveria, claro). Mas aqui tudo estava eternizado. A humanidade pode ser dividida entre a terra e o ar – os que criam raízes e os que criam asas. Eu criança nunca queria voltar para casa, de uma viagem. Eu adulta volto para casa meio contrariada, pela obrigação, e no mau humor do cão. Sabe aquela de que voltar é a melhor parte da viagem? Eu nunca soube. Quando criança nada me prendia à “volta”. Depois havia – ou há. São as raízes. Eu, logo eu, que não as tenho.

Viver na terra é para quem tem raízes. Para quem se vê em cada esquina. Para quem não vive sem sua rotina. Viver a viajar é para quem sente a vida num outro grau. Já morei onde eu podia fugir de casa (e, sim, eu morava sozinha) e, quem sabe, até voltar no mesmo dia. Podia ir até ali e este “ali” se traduzia num outro mundo. A humanidade de fato se divide entre a terra e o ar. E o eu hoje tem quintal e tem ânsias de voar. Tenho duas humanidades, será? Sou desumana ao dizer que viveria sem o meu quintal, por isso temo dizer. Mas sei que não posso viver sem o ar. E estranham quando nunca estou só num mesmo lugar. Talvez a longa tradição (que ainda não abandonei, nem pretendo) de passar a temporada de Verão na praia e o resto do ano na cidade (e se a cidade tiver praia, melhor ainda, mas, mesmo assim, irei para outra na temporada).

Talvez o tempo. O tempo juntou essas duas humanidades. E há tempo o suficiente para satisfazê-las a ambas. Não abro mais mão do meu quintal. Não posso mais abrir mão de voar. (talvez persista o incontornável mau humor do “cheguei”) Sei que fica mais difícil quando o trabalho dá uma folga e uma chuva interminável não permite que o quintal seja aproveitado. Aí só resta a birra e o consolo pós-contemporâneo de maratonas de séries terapêuticas na solidão. Foram, talvez, três dias a olhar desconsolada pela janela, a tentar todo tipo de distração com os cachorros e gatos mais enfezados que eu pelos pingos que não deram trégua. E o quintal para cuidar. E, agora, as passagens para comprar. As datas para planejar. O trabalho para dar conta. E ser uma só.

Para quem joga só de um desses lados da humanidade, tenho a esperar a desprezível incompreensão. Aos que nunca buscaram seus sonhos, sabem muito bem o que estão perdendo. Não descontem em mim suas frustrações. Ainda não consegui ser só uma; ainda me divirto tanto com os sonhos (em especial os de olhos fechados, num certo sentido, mas desses não posso falar). Se o tempo vier a mudar algo disso, terei muito a lamentar. Tenho raízes, mas água demais as apodrecem. Sem ar o corpo não respira – e não vive.

As goiabas

Por esses dias revelei uma daquelas verdades que temos para nós mesmos, mas que parece que existem só quando são formuladas em palavras para outrem – antes disso nem nós as conhecemos. Minha fruta favorita é a goiaba. A velha piada sobre encontrar meio ou um bichinho de goiaba inteiro é das filosofias para a vida. Gosto mesmo de goiaba. Sou louca por melancia, é verdade – e todo mundo sabe. Talvez, se perguntassem qual a minha fruta favorita, para as poucas pessoas que me conhecem, a resposta seria melancia. Sou doida por acerola, também. Dou um dedo por suco de maracujá. Mas a favorita é, certeza, a goiaba.

Naquele espírito genealógico de investigação subjetiva das razões obscuras do ser (rá! Abusei, né?) eu diria que é porque sempre vivi com um pé de goiaba em casa. A mais antiga, a maior, a que ainda vive (mas adoeceu e deu pouco nos últimos anos) foi meu paraíso por muito tempo. Nela eu subia, imaginava mundos inesquecíveis e insondáveis aos outros, e comia os frutos enquanto sonhava. A goiaba não é para frescos, tem que ter bons dentes e trincar as sementes (vai dizer que você tira a semente da goiaba?!). Na casa do meu avô havia uma bonita, nova, que vi crescer e, mesmo pequena, me aventurava para comparar os mundos inimagináveis dali.

Elucidado o motivo do meu favoritismo, passei a analisar a goiabeira. Ô coisa fácil de se criar, dá em qualquer lugar, dá frutos em pouco tempo (algumas frutíferas exigem tempo e a doce paciência), tem boas safras. Qualquer semente jogada num terreno baldio já pega (reparei hoje que num terreno baldio da vizinhança tem um pé bonito e já quero pegá-lo antes que o cara venha cortar o mato). Os cachorros também adoram – e nem digam que eles puxaram a dona porque é a mais pura verdade. O tronco é lindo, de madeira clara que descasca e tão divertido tirar suas casquetas. Também é boa de subir.

Acho que só comprei goiaba no supermercado umas duas vezes na vida – e nem de longe tinha o mesmo gosto. E foi a goiabeira aqui de casa, que fica bem rente à cerca, que me levou a todas essas reflexões. A da frente é mais rara, é a branca, a de trás é mais nova e é vermelha. Ambas deram bem neste verão, mas da frente, curiosamente, colhi poucas. Sim, as pessoas passam na rua e roubam, os vizinhos (esses queridos) aproveitam quando não estou e fazem a limpa. Vejam vocês, uma árvore tão fácil de ter e os marmanjos preferem pegar dos outros, claro. Se tem vizinho que pula o muro e faz a limpa no limoeiro de outro vizinho, não é de se admirar.

Por que as pessoas fazem isso? Eu me pergunto. Sei que não é fácil cultivar – minha mãe, como aquele personagem, sempre diz “plantando, dá”. Eu pego na enxada sem frescura, tenho paixão por plantar, claro que não espero isso de todo mundo. Mas se a pessoa não cultiva, então que vá até a feira da rua de cima todas às sextas, né? A terra é tão boa, mas as pessoas…

Numa semana do verão o vizinho emprestou a casa para um casal e dois meninotes. E não é que choveu a semana inteira? Os meninos, coitados, tiraram coelho da cartola para aproveitar o tempo sem poder ir para o mar. A mãe entediou-se às tampas e volta e meia se agarrava no celular, o pai aproveitou a rede. Uma vez ou outra divertiam-se juntos jogando cartas. Os meninos pareciam de apartamento, tudo era encanto para eles. Um dia vieram à cerca e perguntaram se podiam pegar as goiabas da frente, dissemos que sim. Precisavam ver! Os meninos nunca haviam tirado uma fruta do pé. Era um desafio, planejaram quais pegar, o que precisavam fazer em conjunto para chegar aos galhos mais altos, tudo com uma seriedade e uma fantasia incomparáveis. Admirei a cena como a um espelho. As crianças sabem pedir, coisa que os adultos preferem ignorar. As crianças sabem transformar um pequeno gesto numa aventura.

O horário de verão se foi. Daqui a pouco as goiabeiras irão se preparar para o frio. Já me entrego à melancolia de não ver mais o sol às oito da noite, logo encerrarei a colheita. Em breve será tempo de se recolher, sem goiabas, mas alimentando as aventuras. Verão deixa saudades, pensamentos e paixões que, ao contrário do que vovó dizia, sobem a Serra, sim.

Duas graças

No fim de tarde diante do mar, aquela pequena praia escondida e tão familiar, chega o vento sul rasgando-se por entre a proteção de rochas e morros e traz consigo ondas tão grandes como raras vezes são vistas por ali. Duas meninas, mas, o que digo eu? Já não são meninas, meninas moças, talvez, como dizia minha avó. Também minha avó que já se foi parece tanto tempo… Moças, então, quem sabe. Não é pra tanto, ainda não levam este troféu. Jovens prediz muita responsabilidade – que elas ainda não têm. Adolescentes, então, que a vida hoje prefere termos clínicos para determinar os vivos.

Duas adolescentes, como ia eu dizendo, vêm desabaladas a dar na areia. No cantinho junto à restinga, tiram alguns pertences e os amontoam. Riem. Riem desenxabidamente. Riem – e é aí que penso que retratam a adolescência, os jovens, as moças e as meninas: tudo ao mesmo tempo com um único gesto. Arrumam-se a fazer uma da outra de espelho de si; puxam as cabeleiras, ajeitam o biquíni, ajustam o shorts (que uma delas só usa). Correm, ainda rindo, em direção ao mar de ondas, para o padrão da praia, altas. Entram como se não sentissem a água gelada do início – imagino eu que não sintam posto que ainda riem. Uma delas mantém o braço esticado (bem esticado) para cima, a fugir da água. É que ela segura um celular, não desses smartphones que nos obrigam a todos a ter, é um mais simples, mais usado, menos complicado.

A cena se desenrola por muito tempo: uma estica-se para salvar o celular da água, de frente para as ondas, enquanto a outra se desmancha em poses e mais poses para a sua fotógrafa. Curiosamente, vejam se vocês não ficam curiosos com isso como eu fiquei, ela (a agora modelo) já não sorri mais. Joga o cabelo para um lado, para o outro, faz biquinho com os lábios, testa um perfil, depois o outro, endireita os braços pra cá, atira-os ao alto, empina os seios – mas não sorri mais. E assim elas revesam o celular (e a mão, não estaria molhada?) e a modelo.

Eu já não tenho mais idade para ser chamada de moça, talvez. Nem de menina ou quiçá adolescente. É sempre possível percebê-los andando por aí: riem desabridamente. Riem. E aquelas duas ali na água a esconder, nas possíveis fotos (as condições não eram das melhores, convenhamos), o cartaz da sua idade e segurança. Não entendi e talvez não venha a entender, pois na minha adolescência eu não tinha essa cobrança social de exibir o tempo todo o que fazia, onde ia, com quem, como me sentia e o que pensava. Ufa! Que adolescência maravilhosa foi a minha. Vivi aqueles tempos com suas sombras, seus desesperos, suas maluquices e loucuras, sem que site nenhum me exigisse recontá-las ao grande público – muito raramente uma carta para alguma amiga. Tomei muitos banhos de mar, sozinha e acompanhada, também tenho algumas fotos (como as tenho de hoje devidamente postadas nas redes), mas vivia tudo aquilo apenas para mim – e era muito bom.

Além de velha devo ser saudosista. Mas isto aqui não é sobre mim, é sobre elas. Sobre a juventude, sobre aquela idade que vai e não volta – nós é que tentamos emulá-la o tempo todo, ou de vez em quando. Talvez o primeiro sinal seja deixarmos de rir por rir, depois deixamos a segurança e passamos às obrigações e responsabilidades. Ah, meninas, ah!, se vocês soubessem o que eu sei! Tão fácil ser magra e ter a carne rija (romancistas adorarão) nessa idade. Tão fácil correr pro mar e nem se preocupar com o que ele nos fará. Tão mais fácil ainda rir-se de tudo e de todos quando os vinte parecem distantes. Tão fácil jogar-se para aprender alguma coisa sem medo de que nossos tombos virem piada para os outros. Tão fácil adentrar um caminho sem pensar e repensar mil vezes nas consequências – e se dará certo, pois não há preocupação com o “tempo a perder”. Tão fácil expor-se ao sol sem protetor solar. Tão fácil perder a hora. Tão fácil pois aquele riso grosseiro e desafiante o tempo todo no rosto.

O tempo pesa, mesmo quando se faz dele seu melhor amigo. E as meninas (não adianta, não perco o costume arrogante de chamar a todos os mais novos que eu de ainda mais novos) deixaram o celular junto ao monte de pertences e ficaram ainda por algum tempo dentro da água, a lutarem bravamente contra aquelas ondas audazes que se esgueiravam entre os barcos, a ilha, as pedras e viraram a praia do avesso. Aquele vento que me tocava a pele ainda pingando de água salgada e nos fazia a todos agradecer pelo refresco de um dia que raiou às beiras do calor do inferno. O tempo virava, as nuvens surgiam, e nenhum ali parecia querer abandonar o paraíso. Eu admiro em especial, diante do mar, ver o frio e o calor trocando de lugar. O mar sempre garante um espetáculo. Aquelas meninas poderiam dizimar num velho qualquer, como eu, a esperança e o ânimo de vida. Alguns a invejariam. Eu as admirava – e sentia vergonha dessa barriguinha flácida que me surgiu nos últimos tempos. A despeito do tempo que corre, também eu gosto de enganá-lo e forjar em mim o riso desavergonhado – mas não todo dia que já passei da idade. A tarde se ia, o friozinho chegava, alguns se retiravam do show, elas lá permaneciam alheias, como lhes é de direito, a tudo. E eu segui para casa, caminhando com os pés na areia – como parece que fiz durante minha vida inteira.

Cura tudo

Sabe aquela cena de Gravidade, a final, quando a Sandra Bullock chega à Terra e sai da água e ensaia caminhar no chão firme? Talvez a melhor cena dela como atriz. Sabe aquela tontura, a incerteza do passo? Ela foi magistral, captou muito bem como é voltar “à órbita” da terra firme. Senti o mesmo, esses dias, ao sair do mar. Há quem diga que tenho exagerado no banho de mar. Não nego. Saí do mar e meu corpo obedecia ao gingado das ondas, não ao firme do chão. Sinto-o, o mar, como meu habitat.

Não sei caminhar na terra firme. Não me conformaria jamais com a sensação de estabilidade e falta de gingado do estático chão. Sou do movimento, sou do trem descendo a serra, do avião despegando do chão, das rodas na longa estrada plana, do barco quebrando as ondas. Entro no mar e sinto na pele se a maré vaza ou enche… e me deixo levar. Não há burrice mais imperdoável do que ir contra o mar. Coleciono momentos memoráveis desses longos e deliciosos banhos de mar. Hoje mesmo faço valer minha máxima: só saio do mar pra comer. E ontem, digo-lhes, nem pra comer.

Queria pendurar um retrato do santo homem (provavelmente homem, branco, ocidental, sabe como é) que olhou pro mar, coçou o queixo e disse “olha, vou tomar um banho”. Dizem que foi (essa mania de querer investigar a origem das coisas, Fahya, pra quê?) recomendação médica, o início do hábito de tomar banho de mar. Vejam só. Um banho de mar, os bons sabem, cura tudo. T u d o. Quem não é louco por banho de mar, bom sujeito não é.

Os banhos de mar têm me tomado quase todo o tempo, só queria avisar. Viram esses dias maravilhosos de sol? Pois é, há meses fiz aqui minha declaração de amor ao sol, a falta que ele me fez – como dizem, estou tirando o atraso. Sou sempre empenhada nessas coisas de tirar o atraso. A terra firme tem me parecido tão… firme, parada, constante. Sem o remelexo e o embalo da força da água do mar. Tem dias que fico ali pensando, de onde os romancistas tiraram que o mar tem um cheiro doce? E de onde o “verde luxuriante” das matas? Como se vê, tenho pouco com o que ocupar minha cabeça entre ondas e mergulhos. Mas confesso que fiquei intrigada do porquê as aves saem da ilha e ficam dando voltas sobre o morro, sempre ao meio-dia. Talvez eu descubra.

Não entendo essa gente que gosta de piscina. A piscina é aquela segurança na vida, né? Não entendo essa gente que nunca viu o nascer do sol despontando na linha do mar. Ser boêmio e detestar acordar cedo é o amparo dos desamparados, né? Não entendo essa gente que não percebe quando o vento vira pro sul. Mas, Fahya, quem se importa de onde vem… o vento?

Eu mesma já fiz elegias à madrugada. Passei dessa fase. A vida ensina, só é bobo quem não aprende. Eu não seria eu, se fosse sempre a mesma – quem conhece, sabe. Fui apaixonada pelo pôr-do-sol e já testemunhei alguns dos mais lindos do mundo. A paixão não passou, só é difícil eu estar acordada – aquele tipo de relacionamento que quando um está disponível o outro já capotou na cama. Ah, mas não deixo de marcar a hora que a lua vai nascer e ir ter com ela – de vez em quando. E todos os três rendem boas fotos.

Fiz loucuras e não dava o devido valor a certas coisas dos meus quinze aos vinte e poucos. Aí, nos meus vinte e tantos virei uma velha chata, rancorosa, ranzinza, implicante e doentia. Sinto que entrarei nos trinta no embalo de uma vazante que deixa tudo pra trás e segue a amplidão de um oceano – de tão bom e tão desconhecido. Agora já posso saber bem mais de mim. E, por isso, não abro mão dos banhos de mar.

Aliás, antes de ontem, o dia em que a água estava a mais limpa desta temporada, não saí do mar nem para comer até que… entra um cara fumando, risadinhas daqui, dali e eu observo, uma pessoa do grupo ainda comenta que esta praia é melhor do que uma outra (onde eles estiveram alguma vez – ouço muito esse tipo de conversa). Termina de fumar e joga a bituca… no MAR para trás dele (a maré estava enchendo, ou seja, mui esperto). Pois me dirijo até ele e faço meu dicurso. Sim, você jogou a bituca no mar, está vendo como a água está limpa? Então o mínimo que a gente espera é que as pessoas colaborem e não sujem a praia, nem a areia nem o mar. Tanto pra quem sempre vem aqui, como para quem visita. (devo ter dito mais que isso) Diante do silêncio e das caras de tacho deles, me retiro. De longe ouço um “falô!”. Meu bem, o mar é minha casa, eu cuido dele e exijo dos outros.

A gente aprende. Aprendi a não me calar. E olha que foi difícil. Nem cheguei nos trinta e já foi tudo tão difícil, pra que me preocupar.

Se não me vêem, se não escrevo, se não mando notícias, é que não estou em terra firme. E quando estou há pouquíssimas coisas para as quais tenho dado atenção – confesso, larguei tudo, não tenho trabalhado, nem sei onde guardam as coisas da cozinha. Tinha planos de adiantar mil coisas nesse tempo maravilhoso de janeiro e fevereiro. Aí chegou-se o mar e o sol e me seduziram… duvido que nosso amor de verão termine antes de março. Nunca tive pressa na vida. Deixa, amor, que o mar – e o tempo – curam tudo. Tudo mesmo.

Teoria da senhorinha

Eram tempos de crises, o mundo andava mal, o país estava mal, as pessoas perdiam seus empregos, roubos e assaltos como não se via há tempo. Por aqui chovia como nunca na minha vida eu havia visto. Chovia e quando não chovia sol não havia. O ano encaminhava-se para o fim, e como todo fim deveria ser celebrado – com os ânimos melancólicos da falta de esperança e de segurança no amanhã. Mas mais certo que a morte é que o amanhã sempre virá.

Entrei no mercadinho antigo do bairro, famoso pelo seu chineque e pelas suas cucas. Aliás, a fama não é em vão, pra mim são o melhor chineque e as melhores cucas da cidade. Estava a caminho de uma loja de jardinagem para comprar o pinheiro de Natal e num impulso parei ali. No fundo do estabelecimento fica a padaria e fiquei surpresa que agora tem mesas, está bem ajeitado e bonito. Eu gostava da rusticidade do lugar.

Duas senhorinhas sentadas numa mesa tomando seu café com cuca conversavam. Tinham essa idade que a vida se arrasta em reprises que de surpresa não traz mais nada. Aquela conversa boa sobre os outros, a vida desse, a vida daquele, quem está fazendo o quê. Até que uma delas dispara uma teoria.

Ela frequenta um lugar desses onde há pessoas que precisam do tempo de outros – alguns chamam caridade. E ao comentar sobre algumas de suas colegas ela frisou que frequenta o lugar há muito tempo. Segundo ela, há quem pratique o bem “por dor” e há quem pratique “por amor”. Ela pratica por amor, pois gosta de ser útil ao outro, de ajudar quem precisa dela – do seu trabalho, do seu tempo, do seu dinheiro. Enquanto quem pratica o bem por dor é quem sofreu muitas perdas, – “Sabe a fulana? Perdeu marido, filho, aí apareceu lá.” – quem se deparou com aquela parte desencantada da vida e procura refúgios para tentar seguir adiante. Com alguma malícia eu poderia dizer que ela insistiu em dizer que ela praticava o bem por amor, mas o mundo anda tão mal que nem malícia tem cabimento: ela pareceu sincera.

Não foram poucas as vezes que lembrei da teoria da senhorinha nos últimos dias. Além da sinceridade dela, a teoria me parece bem fundamentada. Há quem faça, o que quer que seja, por amor. Há quem só busque válvulas de escape para suas dores. Qual o problema, afinal? A legitimidade. Que ambos façam o bem, talvez seja ótimo – mas uma pulguinha atrás da orelha não me deixa em paz.

Por que não nos perguntamos sempre a razão dos nossos atos? Vai pra academia só para postar foto? Para a praia só para esnobar? Ajuda cães de rua porque tem a consciência pesada ou se sente inútil no mundo? Tem filho pra preencher algum vazio no relacionamento? Pega a cartinha de Natal dos Correios pra poder contar pra todo mundo no trabalho?

O mundo vai mal, talvez precisemos cada vez mais de gente que faz o bem. Sem esquecer que de boas intenções o inferno está cheio, claro. Não basta a boa intenção. Não basta enganar a si mesmo. Não basta o discurso inócuo. Talvez, na verdade, precisemos cada vez mais de pessoas com boas razões para fazer o que fazem. Porque dores nunca faltarão. E que nunca me faltem razões.

Imprescindível – Ação de Graças

Eu acredito que não importa quais teus nortes na vida: é imprescindível agradecer. Eu busco ver as pessoas além do que a vida mesquinha de todos nós acaba por envolver e guiar. Quando a gente deseja coisas boas aos outros – e que seja sempre assim – não importa gênero, crenças, conta bancária, sobrenome e tudo o mais. Importa querer bem. E é o que eu quero: o bem.

2015 foi um baita ano. Hoje, Dia de Ação de Graças, é dia de agradecer. Agradecer por não ter perdido. Agradecer por estar onde estou, com quem estou. Sei que as pessoas estranharam minhas mudanças, meus sumiços, minhas idéias diferentes, meu comportamento e uma dúzia de coisas neste ano. Eu fiz, mudei. A idéia que permeou 2015 é simples: deixei o ter e o ser (aquela velha dualidade) e busco existir. Busco, aliás, existir no tempo – é imprescindível, também, que seja assim. Não bastaria existir, é preciso existir no tempo. A idéia surgiu aí de longas reflexões, a partir de textos e conversas lá e cá.

Se é feriado americano, se é tradição estranha ao Brasil, pouco importa. É uma das tradições aqui em casa, já devo ter dito. É quando eu encerro o ano, é tempo de seguir para o Natal. Hoje cedo saí para comprar o pinheirinho, desci as caixas de enfeites, passei a tarde cozinhando um pato para o jantar, fiz uma bebida especial, tomei meu banho, coloquei um vestido e tirei este tempo para escrever. Amo esta época do ano desde sempre, sempre escrevo sobre ela, amo a decoração, amo músicas natalinas, amo o eterno retorno (já escrevi sobre), amo presentes, amo o significado cristão, amo me arrumar mesmo que, como hoje, não ponha os pés para fora.

Aliás, este ano quase não saí de casa. Vivi com quem amo. Escrevi bastante. Li um bom tanto. Assisti filmes e séries como há tempo eu não fazia. Corri atrás de coisas que, por exemplo, entre os três escolhidos eu ficava em quarto. Nunca me ergui tão rápido de todas as quedas que sofri. Sorri mais. Dormi muito, muito e muito bem. Cortei praticamente todo o supérfluo. Me desafiei a viver com bem menos, longe de outras tantas coisas que amo. Na balança, deixei de perder muito mais do que deixei de ganhar. E deixar de perder deveria ser o maior motivo pra gente agradecer sempre.

É o espírito da coisa, entende? Que tenhamos todos ao que agradecer. É o que eu desejo a vocês e a todos. Às vezes é difícil, eu já cheguei neste dia, em outros anos, e achava difícil ter pelo que agradecer. Mas a fé e a esperança são assim, tão humanas quanto nós. Não dá pra ser feliz sempre, mas é imprescindível que a gente saiba o caminho de volta para a felicidade.

Como eu disse, independe de crenças. Pra mim é uma semana muito especial (ontem foi dia de Santa Catarina de Alexandria, minha protetora e amanhã é dia de Nossa Senhora das Graças, a qual sou devota) e até dia primeiro de janeiro será assim, todos os dias serão especiais. Por isso, semana que vem terei festas, farei as visitas tão prometidas, enviarei presentes e cartas de agradecimentos e saudades. No mesmo tom do ano inteiro: só tenho a mim para oferecer.

Talvez eu até escreva sobre essas mudanças todas, mas não no nível de auto-ajuda (não gosto). Penso que quando escrevemos sobre o que alcançamos é para dar um testemunho de que aquilo é possível para qualquer um – basta querer. Sabe o gordinho que cria conta no Instagram pra mostrar a luta contra a balança? Então, mais ou menos isso – e acaba que sempre é auto-ajuda. (risadinhas por aqui)

Agradeço, claro, a vocês que lêem este meu desassossego todo. Vocês são especiais. Apareçam sempre (eu deveria aparecer sempre também, né). E que vocês tenham, hoje, muito a agradecer.

Camelos passarão

E aquela mulher não ficava quieta. Chamou o filho “Diz que eu não tenho dinheiro pro remédio, diz pro médico que tu quer C E F A L E X I N A (dizia com uma acentuação engraçada) porque eu tenho um cunhado que já teve isso e curou.” E repetia C E F A L E X I N A. O rapaz quieto enquanto ela reclamava da demora. O segurança contava para um homem que ele não pegava a escala para trabalhar ali nas segundas-feiras, pior dia, porque sempre dava confusão e era preciso chamar reforço. A mulher irritante atravessou-se na conversa e, como havia entendido errado, comentou que era muito bom a Guarda Municipal cuidar dos carros do estacionamento. E o tempo não passava.

Os nossos problemas são, sempre, menores do que os problemas de tantas outras pessoas. Era este o meu pensamento sentada ao lado daquela mulher irritante. Sabe aquele tipo que dá palpite e acha que sabe tudo, manda e desmanda? Eu, quieta no meu canto, não escapei do seu ataque “Tá esperando muito tempo?” ao que eu respondi que não. Mesmo se estivesse, não daria este gostinho a ela. Não seria mais uma a me juntar aos reclamadores de plantão. Esperaria, é certo, e sabia que não levaria pouco tempo.

Naquele mesmo domingo, onze de outubro, o padre Juca fez um apelo. Pediu que rezássemos pelo nosso povo, pela intercessão de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, padroeira do Brasil, que seria celebrada no dia seguinte. Padre Juca lembrou dos desmandos, roubos e crimes que temos visto serem cometidos contra o nosso país – em favor dos que mais têm poder e que prejudicam muito os trabalhadores, nós, os que menos ou quase nada têm. Um país destroçado pela ganância e sede de poder. Um povo abandonado à própria sorte, sofrendo os danos infligidos por quem deveria trabalhar para ele. Talvez só reste, a este povo, rezar. Pedir à Mãe Aparecida a intercessão e proteção.

Estava no PA Sul pela décima segunda vez, segundo a minha ficha. Ao sair às pressas para a missa, prensei a mão no portão. Além dos ralados, doía. Era a mão direita, meu instrumento de trabalho – e eu imaginava o caos que seria não poder usá-la. A mulher insuportável e os dois filhos, homens feitos, tinham furúnculo. Um deles no dedo, outro lá onde vocês podem imaginar e ela eu nem sei. A cada minuto ela dizia que ia desmaiar, que estava tonta, foi até aferir a pressão. Eu aguardava a minha vez fingindo um estoicismo ardente.

Eis que minha atenção foi aprisionada por uma senhora. Agarrada a uma sacola plástica, ela era uma das vítimas da mulher irritante que a bombardeava de perguntas e ordens. Esta senhora era parente de um paciente que estava internado no PA – desconfio que irmã ou mãe dela. Sem notícias, aguardava. Sem deixá-la em paz, a mulher irritante incitou-a a entrar na área de internação.

Nossos problemas, como eu dizia, não são nada diante do que sofrem os outros. A senhora voltou da Observação e contou a história da paciente que ela acompanhava. Estava ali desde ontem, havia sofrido parada cardíaca e queriam transferi-la para Florianópolis, pois em Joinville não havia vaga. Vi as lágrimas conformadas naquele rosto seco e envelhecido, o vazio naquele abraço automático ao saco plástico. Os médicos estavam tentando de tudo, mas “na maior cidade do Estado” não havia vaga em CTI para um caso de parada cardíaca. Me senti por terra. Não queria mais estar ali. Passaria um cataflam na minha mão e ela ficaria boa. Mas por aquela senhora, por aquele paciente que nem sei quem é, eu não podia fazer nada.

Pouco antes de eu ser chamada, a senhora voltou – sem esperança. Os médicos haviam conseguido a vaga em Florianópolis, mas a paciente não estava em condições de empreender as pouco mais de duas horas de viagem. “Acho que ela não vai conseguir mesmo, só estão esperando” foi o que ela disse. E mesmo neste momento a mulher irritante soltou “Leva pelo menos até o Betesda, não deixa ela morrer aqui” ao que a senhora repetiu que não havia vaga.

Sabe quando você sente que nunca mudará o mundo? Quando você se sente sem palavras ou sem ter o que fazer? Eu me sentia pior. Eu vi chegar mais um senhor e uma moça com os olhos pastosos de tristeza. Eles se debatiam em telefonar pra esse, chamar aquele. E não havia vaga em nenhum hospital para que aquela pessoa lá dentro tivesse o tratamento necessário. Para salvar aquela vida.

Fui examinada e segui para o raio-X. Pela primeira vez encontrei o corredor dos consultórios vazio – justo naquele dia eu havia sido encaminhada para o Cirúrgico. No silêncio, rezei uma Ave-Maria pela paciente que estava diante da realidade. Da realidade de não ter um leito numa cidade que se orgulha dos seus mais de 500 mil habitantes. Da realidade de médicos que tentam de tudo, mas que se frustram por não ter como fazer mais. Da realidade da tristeza impotente dos que a amam.

A mulher irritante e seus filhos saíram de lá com os remédios e curativos. Eu peguei uma receita. Ao todo, o atendimento durou cerca de duas horas.

Pensei tantas vezes naquela senhora e na paciente. Aliás, não consegui tirá-las da cabeça. Me socorri nas palavras do padre Juca. Senti como é estar tão desolado que a prece é a única coisa na qual podemos nos agarrar. Mas senti, também, uma necessidade de escrever. E este texto saiu a marteladas, como se eu tivesse tanta coisa para dizer e não conseguisse, como se eu quisesse apontar culpados, como se eu precisasse escrever para dividir minha angústia. O caso da falta de vaga não rendeu capa para os jornais locais. Ninguém perderá votos, por isso, na próxima eleição. Eu não sei o que aconteceu com a paciente, mas desejo que ela esteja bem. Que o amor dos familiares, a intercessão divina e o empenho dos médicos tenham-na salvado.

O evangelho daquele domingo foi a famosa passagem sobre ser mais fácil um camelo passar no buraco de uma agulha do que um rico ir para o céu. Talvez seja mais fácil fingirmos que o país vai bem, ou reclamarmos inclementes do péssimo atendimento de um PA que abrange toda a região sul de uma cidade populosa, ou simplesmente pagarmos um plano de saúde. Muitos camelos passarão, enquanto achamos nossos problemas mais importantes do que os dos outros e a todos nós só nos resta rezar aos céus.

Como ser um little boy

12 de outubro, dia de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, dia, também, das crianças. Talvez eu escrevesse aqui aquelas quatro ou cinco páginas sobre mil coisas e pensamentos que tenho vivido. Mas sobre esses dias que a gente não quer que acabe, terei muito ainda por escrever nas próximas semanas.

Escrevo para deixar uma pérola do cinema, um sonho como todo filme deveria ser. Nunca repararam como os filmes se assemelham muito aos sonhos? Pois é. Deixarei a crítica de cinema de lado, por ora, – só devo dizer: Fotografia (iluminação, as cores e enquadramentos e movimentos de câmera, essas coisas) deslumbrante e com um toque de felicidade; atuações maravilhosas; roteiro sensacional; – para comentar uma lista, “an ancient list”, que é praticamente um personagem do filme.

Gosto de escrever de coisas boas, de como podemos ser melhores. E o filme, numa sessão Dia das Crianças, e increase your faith, ambas perfeitas para este feriadão, é exatamente isso: como ser melhor. Como melhorar a nossa fé, e nada melhor do que a partir da visão de uma criança. Deixo aqui a lista com o desafio: conseguiríamos dar conta dela? O post de hoje é breve e imprescindível, com tempo poderíamos discutir cada item. Na última lição a ser empreendida e aprendida devemos acrescentar o nome do nosso Hashimoto: quem mais odiamos na vida, o que desperta nossa ira, a quem destinamos nossas más ações. O nome que devemos colocar ali fica aberto à nossa livre e sincera escolha.

Fiquem com a lista. Assistam ao filme Little Boy (Alejandro Monteverde, 2015) se quiserem porque quem sou eu para impor alguma coisa a alguém. É emocionante, no mínimo. Qualquer dia talvez eu fale mais dele por aqui (porque por aí falarei pelos cotovelos, certeza).

the-list

Ps.: não sei se a lista tem alguma origem e tal, depois pesquisarei com calma (mas vi que tem textos interessantes sobre o filme por aí).

Blog no WordPress.com.

Acima ↑