Pessoas comuns acreditavam que tinham vidas publicáveis

 

Era pleno domingo. Caía aquele temporal cheio de trovoadas, relâmpagos, ribombavam as paredes, pessoas se persignavam, desavisados corriam para os tetos. Eu tinha saído fazia pouco tempo, mais uma daquelas compras esquisitas (guarde esta palavra, ela dará um livro), desvio pela praia porque, bem, eu sabia que o temporal da madrugada se repetiria. Ali, pés na areia afundados pela água do mar, o horizonte trovejante e barulhento. Muitos teriam medo. Vi de onde ele vinha, para onde ele iria que não sou boba nem nada e não vou morrer – pelo menos não por agora. Fiz minha rota só para ver aquele horizonte. Neste pedaço sedutoramente curvado de longos metros do litoral a vista é ainda mais bonita. De madrugada, bem, não saí para vê-lo – e, por isso, agora ele se repetia só para que eu pudesse vê-lo.

Era pleno domingo. Pessoas respiravam.

Ali, pés na areia encharcada de chuva e mar, escuros da noite e claros do relampejar. Não tinha celular com câmera nem bobos smartphones nem câmera. Havia saído com um macacão curto, uma nota de dez reais no bolso e chinelo. Ah, e brincos. E mp3. Via o horizonte. Não tem jpg nem nada que confirme o que estou dizendo. Nenhum HD misteriosamente guarda esta prova.

Era pleno domingo. Pessoas postavam nisso que chamam redes sociais – procuro outro nome para elas, “nós anti-sociais”, talvez – todo o azar de imagens, links e frases.

Era pleno domingo. Pessoas comuns acreditavam que tinham vidas publicáveis. E, como se não bastasse, publicavam-nas.

Quem sabe eu corresse descrever a cena, quem sabe estragasse a câmera só tentando uma foto, quem sabe louvasse meu desprendimento, coragem e vida livre de pés na areia sob temporal. Quem sabe entulhasse TLs alheias com links sobre coisas geniais, pessoas fazendo o bem ou só aquela música (“Pela primeira vez sozinha Pela primeira vez sem dono Pela primeira vez sem você” caso fosse ontem) adorável daquele dia num vídeo tosco de imagens de powerpoint no youtube. Quem sabe eu respondesse mensagens. Quem sabe uma imagem cool com uma frase cute. Quem sabe um selfie com uma frase interminável de algum livro de auto-ajuda (com a referência devidamente suprimida). Quem sabe um link sobre alguma atrocidade contra os animais, as matas, a água, os pobres, os negros, os eus branquelos, contra o patrimônio, com um texto de punho (ou pulso, ou dedos, já que somos homodigitadores) alvoroçado em palavras indignadas. Quem sabe alguma piada sem graça. Ou quem sabe eu reclamasse da minha operadora de celular e internet. Ou ainda indiretas entre esses e aqueles e aqueles outros. Talvez umas três frases aparentemente sem nexo que ninguém entenderá mas acharão que tenho uma vida sensacional. Ou fotos de cerveja, garrafas, copos, taças. Ou, ainda, da cama revirada de um hotel ou motel. Quem sabe eu reclamasse das crianças que cantam galinha pintadinha ou das pessoas que não dão pisca ao dirigir. Ou, sei lá, colocasse fotos minha na praia só pra esfregar na cara das pessoas. Ou, talvez, aquela foto semanal do meu cachorro que só eu acho que faz caras e bocas diferentes a cada clique. Ah, sim, não deixaria de dar check-in no aeroporto ou em qualquer lugar invejável onde eu estivesse. Se me faltasse imaginação – não é tão raro assim acontecer isso com quem respira – ou me faltasse vida – ainda menos raro –, postaria a foto do almoço ou do prato vazio para querer parecer genial. Ou da panela com alguma coisa que ninguém saberia dizer o que é não fosse pela minha legenda. Ou, ainda, uma frase, bonitinha ou reflexiva, de algum livro só para mostrar que eu leio.

Era pleno domingo. Pessoas respiravam. Era pleno domingo. Pessoas comuns acreditavam que tinham vidas publicáveis.

O doce desejo de escrever…

Eu preciso escrever. Começo assim. A necessidade, neste caso, une-se ao desejo. Porque é o único sentimento do qual tenho certeza nos últimos tempos. Certezas não são boas amigas. Ando mal, também, de boas amigas. Aí quis escrever sobre literatura, como é esse caminho inconstante de querer assumir-se escritora, como vejo desvalorizado o árduo trabalho de criar com palavras. Quis começar mais um livro de contos, tive a idéia lá no alto da Serra, diante de um dos cenários que mais marcaram minha infância. Quis escrever sobre cinema brasileiro, ao fim do ano no qual mais assisti aos filmes daqui. Pensei em me derramar em mais declarações e apontar críticas ferrenhas à Ilha. Escrevi e reescrevi, mentalmente, tanta coisa. Fato é, e fatos nunca são úteis para a escrita, que dezembro chegou prometendo – não, não… fui eu que criei mil expectativas – e ficou assim tão… confuso. Baixou uma bipolaridade inexplicável neste resto de ano. E não pode. Não dá. Eu não poderia estar assim. Não sei se é essa coisa da proximidade do natal. Meu relacionamento com o natal é cheio de altos e baixos – mas debaixo da árvore já há vários pacotinhos e as perspectivas são boas.

Acontece que subi e desci serras, vi e ouvi e senti muitas coisas boas. Mas aí… algo aqui dentro não se encaixa. Stendhal, meu amigo, riria descaradamente de mim. Mas antes que ele dissesse que eu não tenho cura – como aquela minha amiga – e antes que os tarôs continuem a me dar esperanças, eu queria colocar a cabeça no lugar. Nunca levei sorte no amor. É, pois é, digamos que não é pra mim. E nem o Thiago Lacerda numa cena de amanhecer na cama e com as falas mais lindas do mundo, na novela, vai me fazer desacreditar na minha sina. Pensava em quanta coisa além desse tal amor há de mais forte e bonito na vida. Passei dias relembrando, com um aperto estranho no peito, em certas pessoas que conheci este ano, em certas coisas que aconteceram. Me senti, de algum jeito, bem próxima do impossível. Sim, porque eu sempre duvidei dele. Contudo, sobre o amor… talvez o impossível lance suas garras. E eu pensei pra caramba sobre isso. E aí lembrei que eu dizia (Stendhal gargalharia sem dó de mim) que amor não acaba, porque se acaba é porque nunca existiu. Dezembro, é tua culpa, tua bipolaridade atraiu minha confusão. E eu confusa, me perdoem a palavra, corro o risco de fazer merda. Pensei, também, que eu me antecipo aos fins porque acho menos doloroso. E, então, talvez tenha chegado a hora. Cheguei ao cúmulo de pensar que nos tempos que estou sozinha é que sou mais feliz e que minha vida vai pra frente, que os tempos ruins e difíceis foram sempre quando estava com o coração ocupado – e, definitivamente, não preciso disso agora.

Esses dias ainda, entre tanta atribulação, disse pra mim mesma que tenho plantado tanto, mas tanto, que deveria mudar de vida e virar agricultora. Se só vou colher ano que vem? Provavelmente. E ainda há tanto a ser plantado… Eu detesto dizer que estou cansada, e detesto mais ainda ouvir isso. Não gosto e não digo mais. Fiquei pensando se não era o caso, se não estou cansada. Acredito que não… e aí só me resta dizer que estou confusa. Stendhal chegou a me deixar confusa. Meus sentimentos – e principalmente a ausência deles (ou pelo menos como eu esperava que eles se mostrassem) – me deixaram confusa.

O prêmio deste ano vai para o “até quando dá errado, dá muito certo”. Esses dias voltava para a casa ali pela Costeira e sorria sozinha, tarde da noite, porque tinha, novamente, passado por isso. Não ousei dizer, este ano, “deu errado”. Não tem um ditado (sou péssima com ditados também) “Deus tira com uma mão e dá com outra” (ou estou viajando muito?)? Me senti assim. Passei a olhar a vida bem melhor. Sei que não foi só este ano, já tinha começado a ver as coisas assim faz um tempo. Tanto é que ano passado ouvi um dos top 5 da lista de elogios, pois me chamaram de otimista. Quem, me digam quem, neste mundo me chamaria de otimista?! Pois é… Tive aventuras sensacionais este ano, caí em problemas homéricos, vivi situações inesperadas, e mantive a calma, o otimismo, a cabeça no lugar e dei um jeito (ainda melhor) em tudo. Num outro dia que vinha de bicicleta pela Costeira, fui subir na calçada numa curva e a bicicleta caiu. Eu nunca caí de bicicleta, ela já caiu umas três vezes. Eu só caio em pé. Pensei bastante nisso, nesses dois pontos. Relembrei aquela canção “eu tô de corpo fechado”. Faz todo sentido.

Aliás, queria escrever sobre elogios também. Como tenho dificuldade com eles. Dificuldade absurda. Fiquei analisando e nunca recebi muitos elogios – ou quase nenhum. Sei que desde criança até uma boa idade elogios não faziam parte da minha vida. Deve ser por isso a estranheza com que os recebo.

E como é que de tanta coisa boa, dezembro chega assim… confuso, me impedindo de trabalhar, de escrever, de sentir? Minha impulsividade natural me salvava da confusão. Sempre quero, faço, vou. Se eu realmente contasse algumas coisas, não seria só Stendhal a rir de mim. Ao assistir um classicão hollywoodiano (eles me ajudam muito em todas as horas), com um roteiro genial e das melhores coisas escritas para cinema até hoje, fiquei matutando sobre as pessoas boas. Confusão é bom porque acabo pensando ainda mais do que o normal. Pessoas boas que não vêem o mal que fazem. Como nós acabamos pensando tão bem de nós mesmos, ponderamos nossas ações e sempre agiremos, em vários momentos, de forma não condizente com os valores que prezamos e alardeamos. Lembrei do Pirandelo (acho foi num livro dele), quando um personagem dizia que não percebemos o mal que fazemos no bem que pensamos fazer. Não é um ditado também, que de boas intenções o inferno está cheio? Por essas e outras que um dia resolvi ser uma pessoa ruim. Não cometer maldades necessariamente, nem foi da vez que decidi que bateria antes de apanhar (depois de já ter apanhado feio na vida). Mas ser uma pessoa mais fechada, menos agradável, menos solícita, nada simpática, nada prestativa. Desconfio que o êxito não foi completo e para meu receio a resolução arrefeceu nos últimos tempos. A vida tem me dado tanta coisa boa, acho que comecei a querer retribuir. Ainda não sei se é uma boa idéia. Duvido que seja.

Pensei, também, que as pessoas deveriam aprender a pedir desculpa (aquela verdadeira e sincera). Tenho sérios problemas com quem pede desculpa a torto e a direito. Uma vez minha irmã me disse que a gente só deve pedir desculpa quando se arrepende mesmo do que fez e quando não fez por maldade. Pra mim isso serve como definição. Mas, sabe, tanta gente já me fez mal… não lembro de nenhuma que tenha chegado e pedido desculpa. Assim, simples, só “desculpa” e basta. Eu também já fiz mal a algumas pessoas e não lembro de ter pedido desculpa. Aliás, depois da definição da minha irmã, raramente pedi desculpa na vida. Coloquei-a num altar, com um valor inestimável. E, talvez, eu ainda esteja esperando que algumas certas pessoas venham me pedir desculpa. Eu, de coração aberto, aceitaria e as desculparia. Sinto que isso torna a vida tão mais leve e bela. Eu aqui queimo pestana me decidindo se devo fazer o mesmo.

Viram só? Escrevi, escrevi e não disse nada. Pois é. A situação tem se agravado. Nesse meio tempo até tomei decisões drásticas sobre o tal amor (Stendhal, segure as piadas). Mas, como o tempo não urge neste caso, vou protelar mais um pouco… porque, enfim, acredito que o tempo tomará melhores decisões do que eu. Senti falta de boas conversas nos últimos tempos. Eu sou a pessoa que eu conheço mais vendida por uma boa conversa. Queria conversar sobre o mundo, sobre aquele filme, até sobre o Stendhal, quem sabe, sobre o impasse da dissertação (eu reclamando que não estou escrevendo, quem dera fosse só sobre essas coisas da vida! a vida, aquela, tem prazos!), sobre política, sobre certas coisas que me marcaram muito este ano. E, bem, nem na minha agenda eu tenho escrito. Sento lá fora, um cachorrão de cada lado, vejo o céu multicolorido, as orquídeas, os maracujás no pé e a cabeça fica assim, distante… Se alguém encontrá-la por aí, avisem que o corpo está ansiando sua volta. Ela que retorne bem, alegre, cheia de idéias, mas que não se preocupe porque na ausência dela o corpo não tem padecido, ao contrário do que diz aquele outro ditado.

A colheita vai bem, obrigada…

Foi em abril ou maio que diante de encruzilhadas (decisões a serem tomadas, traduzindo) eu escrevi no meu mural: “O que te resta é ser feliz. Vá.”. Foi simples assim a maior lição do ano: vá. Se há isso ou aquilo, sim ou não, este ou aquele: vá. Ficar parada nunca foi uma opção na minha vida, sempre senti isso. E, claro, os pesares da vida volta e meia me fizeram não poder “ir”. Mas assumi assim, com riscos e chances, o “vá”. Foi assim que decidi meus caminhos este ano.

Depois de uns períodos difíceis, tumultuados, de revezes, comecei a viver alguns dos melhores anos da minha vida. E, não, nada nem ninguém vai me parar. Nada nem ninguém vai me fazer desacreditar – já disse, a fé é minha maior qualidade. Nada nem ninguém vai me fazer trocar o que tenho. O que eu tenho? Imóveis, carros, bens materiais? Não, não tenho nada disso. E nem me importo. Tenho o que sou e o que vivo.

Antes mesmo daquele dia já havia colocado em prática o “vá” e foi justamente por isso que eu titubeei. As escolhas têm pesos, têm preços. Deu medo. Deu receio. Porém, não é todo mundo que sabe ser feliz e percebi que deveria honrar este dom. eu poderia ter ficado, poderia ter lamentado, poderia ter guardado o vil metal, poderia ter reclamado, poderia ter encontrado culpados, poderia ter falado em vontades. Não, não… eu fui. Eu arquei com todas as responsabilidades e aceitei o “vá”. Aliás, responsabilidades têm se tornado o meu forte. Quem diria…

É mais ou menos sobre isso que eu quero escrever. Nem ia começar assim, mas desde a semana passada anotei o tema do post e todo dia leio meu recado no mural – acabei associando.

Eu pensei em escrever sobre três coisas: plantar e colher; paciência e que tudo se aprende. Na verdade, acho que a ordem correta seria de trás para frente. Veremos.

Os últimos anos foram sensacionais. Eu disse que duvidava que 2013 seria ainda melhor que 2012, acho injusto comparar, se for parar para pensar. Mas as coisas que aconteceram têm sua razão de ser, fizeram por onde, e foi sobre isso que fiquei pensando.

Não vou elencar conquistas, prazeres, felicidades, desejos. Não. Semana passada reencontrei uma amiga que não via há séculos, quando nos conhecemos pessoalmente (lá se vão dez anos…) nem éramos muito próximas, mas das pessoas que conheci naquela época, era das que eu respeitava. Travamos contato mais próximo pela internet, afinal ela mora em outro continente. E eis que depois de tanto tempo estávamos ali no Café Vidal do Mercado Público conversando sobre tudo o que deu tempo. Era bom vê-la. Era bom ver em alguém coisas que também encontro em mim. Não somos parecidas, não pensem isso.

Começando pelo final, ela me diz “o que sei é que estou feliz”. Simples assim, sabe? É essa a sensação: estou feliz. Não pensem que não temos dias ruins, não pensem que não temos problemas nos relacionamentos, não pensem que sorrimos o dia inteiro por aí. Não. É algo, recorrendo a um clichê, profundo. É aquilo que faz com que um imbróglio qualquer do dia, um atraso aqui ou uma dor ali não tomem proporções maiores do que as que lhes cabem. É estar segura de si, dos seus “vá”, dos seus caminhos. E, vejam só, nem chegamos aos trinta. E, vejam só, nem precisamos recorrer à muletas e seguros que nos extirpassem medos, dúvidas, apreensões.

Tenho me olhado no espelho e, pela primeira vez na vida, acho que envelheci. Nunca me dão a idade que eu tenho. Fiquei matutando se tudo isso junto não seria a tal maturidade. Talvez. Depois de uma velhice precoce, a maturidade não me cairia mal. (vou pular completamente a Fahya pirralha, palhaça, mimada, birrenta – essa não é para qualquer um!) Não sei exatamente o que, se uma serenidade, se os traços mais marcados, se o sorriso mais calmo… certo é que vejo o tempo no espelho. E, ao contrário do que eu temia, isso não me assustou ou me decepcionou. Aliás, me fez muito bem.

No meio da conversa falamos sobre paciência. Hoje temos paciência. Eu sempre quis tudo ao mesmo tempo agora. Eu sempre cheguei atrasada em tudo porque sempre achei que dava tempo pra tudo o tempo todo e porque sempre fiz questão de fazer mil coisas. Esse excesso dava significado pra minha vida – e me renderam cabelos brancos precoces. Eu me orgulhava de dar conta de tudo. Aliás, ainda me orgulho. Mas se tem uma coisa que eu aprendi, e falo sobre as coisas grandes e realmente importantes da vida, é a esperar. No meu caminho, nada é para agora. Nada é fácil. Tudo demora – às vezes, anos – tudo vai ser complicado, difícil, num longo e tortuoso caminho. Sei lá, uma coisa meio bíblica mesmo. Foi aprendendo a esperar que dominei a menina ansiosa e extremamente nervosa que um dia fui.

Já não quero amores urgentes… não quero sucessos repentinos… não quero consumir todos os dias… não quero excessos… não quero impulsividades… Quero o tempo, com quem sempre tive uma relação linda. É uma mudança e tanto. Desejei por anos a fio conhecer um lugar, ano passado tive o prazer de chegar lá. Naquele momento chorei. Pensei comigo: eu quero, eu posso, eu consigo. Minha vida se resume a conquistas. Eu sempre quero chegar a certos lugares. É o “vá”. Um dia, quando aos dezoito anos me vi sozinha numa cidade desconhecida, encontrei o cartão que minha mãe havia me dado na despedida: “Saber o que se quer Sonhar muito com isso E agir todos os dias Para atingir este objetivo É o segredo para chegar lá”. Minha mãe sabe das coisas e conhece minha principal qualidade.

Eu poderia terminar aqui. Este cartão diz o mesmo que minhas longas linhas. E é sobre plantar e colher. Tenho plantado arduamente. Já senti a exaustão, o cansaço, as dores de cabeça, o desânimo. Plantar é uma dedicação contínua, perseverante, cheia de altos e baixos. Nem tudo brota, algumas mudas demoram uma eternidade para dar frutos ou flores. E cada folhinha, cada botão, cada milímetro proporciona uma alegria sem igual, produz certezas diárias. E só com uma boa paciência desenvolvida para perceber essas belezas. Quem não está em paz com o tempo sai atropelando as coisas, não vê o valor de uma boa germinação, não atenta para as regas necessárias. Comecei a plantar faz muito tempo e confesso que já abandonei minhas plantações, já voltei a elas inúmeras vezes, já achei que tinha escolhido as sementes erradas, já deixei de regá-las – mas delas nunca esqueci. Eis que minha volta é definitiva. Sei que hoje, amanhã, daqui a anos elas continuarão a me dar alegrias sem fim.

Não confundam, porém, com ambição. Eis um baita defeito: não tenho um pingo de ambição nem sou competitiva (vai ver porque meu solipsismo é grande). Admiro e muito as pessoas ambiciosas – aquelas, as de bom coração – porque elas conseguem traçar caminhos mais objetivos, não dispersam com facilidade, vêem as coisas com mais clareza e não namoram as coisas mais difíceis. Acontece que não sou ambiciosa e ainda não encontrei motivos o suficiente para desenvolver esta qualidade – quem sabe um dia. E eu gosto de ter pessoas ambiciosas por perto – em certo sentido. (não vou explicar, mas cabem duplos, triplos e mais sentidos)

E aí eu cheguei ao aprender. Ouço tanto “não sei fazer isso ou aquilo” que já tenho uma metralhadora no automático com “não sabe, aprende”. Sempre fui muito apegada aos dons e inclinações como justificativas para tudo. Hoje não. As pessoas se camuflam atrás do “não sei” em vez de encarar e dizer “como faço?”. Na vida tudo se aprende. Podem faltar dons, qualidades inerentes, talentos, mas aprender todos somos capazes. Encarei melhor a vida depois de tomar isso como lema. Precisa uma carga e tanto de experiência para chegar aí, não duvidem.

Faz um tempo escrevi sobre muletas. Sobre as pessoas que se amparam nas coisas e nas outras para justificarem suas falhas. Perdi minha tolerância com elas. E foi pela experiência. Conviver com pessoas assim me fez perceber o quanto elas se enganavam. O mesmo aconteceu ao conviver com uma pessoa que reclamava demais, acabei achando aquilo tão chato e desagradável que me tornei uma pessoa melhor, moderei minhas reclamações (e olha que eu era campeã). Assim é a experiência. Mas esta também não é pra qualquer um. Experiência não é só vivenciar coisas e relações. É refletir sobre elas, é analisar impactos, é avaliar fatos e atos, é desenvolver-se a partir delas. Como dizem, pra viver basta respirar, mas estar vivo é outra coisa. E é com certa arrogância que eu lamento ver algumas pessoas que não adquirem experiência. Vejo pessoas que já passaram por tantos fatos dos quais poderiam ter apreendido a grandeza da vida, poderiam ter desenvolvido capacidades e qualidades fantásticas e… são os mesmos, infelizes, rancorosos por vezes, dependentes de vícios, discursos, muletas e coisas assim desimportantes e maléficas.

São essas pessoas que não conseguem, debaixo de sóis de Primavera ou tempestades de vento sul, dizer “o que sei é que sou feliz”. Não temos tudo, nem tudo o que queremos, nem o melhor emprego do mundo, nem os melhores relacionamentos, nem as melhores casas, ainda não vimos todos os lugares lindos do mundo, nem convivemos diariamente com as pessoas que amamos acima de tudo… e somos felizes. São pessoas que não aprenderam a plantar e não entendem como não conseguem colher ou querem sair arrancando frutos e flores de pés alheios. São aquelas que sempre têm um “não sei” engatilhado na ponta da língua preguiçosa.

Um dia li uma frase (acho, ou eu mesma a disse num diálogo solitário): surpreenda-se a si mesma. Eu gosto disso. Gosto de me surpreender. Gosto de me superar. E não faço isso por ninguém – faço por mim – nem deixo de fazê-lo por quem quer que seja. Aliás, outra lição fácil que a vida dá: fazer as coisas por si e para si – não pelos outros, seja lá quem eles forem. Escrever isso, publicar aquilo no FB, ouvir aquela canção, falar deste ou daquele jeito, frequentar um ou outro lugar, e todas essas práticas diárias por e para alguém que não seja o “eu”, não levam a nada bom. (não estou me referindo às boas ações e coisas do tipo, não confundam)

O meu “vá” não exige que eu chegue, mas é imprescindível ir.

Sim, há consequências… a arrogância eu já citei. Sabe, não quero falar delas. As consequências a gente tira de letra com as lições da experiência. Ou com um sorriso. Ou com mais uma semente. Tenho evitado remoer demais as coisas ruins, os problemas, os nãos, as faltas e as dificuldades simplesmente porque faz mal. (e é um desafio conviver com pessoas que têm nisso a razão da sua existência) Não deixo de pensar nelas, analisá-las, mas moderadamente e, de preferência, em silêncio.

De tanta coisa no que pensar, sobre o que refletir, pesar, decidir… as dificuldades do caminho vão ficando mais conhecidas, diria até mais leves. Não perdem seu charme, porém. Já havia escrito sobre plantar e colher em algum texto anterior (tenho esse problema de não lembrar do que escrevo, lembro bem pouco, é verdade, mas tenho exercitado ser leitora do que escrevo). Só posso dizer que sou fiel ao plantio e que as colheitas já se mostram interessantíssimas – um sorriso vislumbra o que posso esperar das próximas. Como diria a amiga, isso ninguém vai tirar da gente.

Entre lagartixas e begônias

 

Já faz um tempo. Não moro mais sozinha. Eu sabia, é verdade – mas “olhava para o outro lado” como a Jasmine do último Woody Allen. Percebi as evidências (e nem eram daquelas da canção do Wando) e depois de um segundo de pânico eu fiz que não sabia do que se tratava.

Vi uma evidência aqui, outra ali. Ignorei. Fingi. Fui levando a vida. Eu tenho trauma de não morar sozinha. De tantas coisas boas que fui aprendendo com a vida, eis a que o processo foi o inverso. Meu pavor de gente ao longo dos anos foi crescente e depois diminuiu. Tudo terapeuticamente tratado em auto-análises sem fim. Conviver acaba com qualquer relação – eis uma lição valiosa à qual me agarro. E as pessoas não entendem, mas gosto de ser sozinha, de viver sozinha e, principalmente, de morar sozinha. Minhas últimas experiências não foram nada perto de razoáveis para me fazer pensar diferente. Eu tenho problemas, eu tenho defeitos (aliás, uma amiga acabou de me jogar na cara um dos piores: sempre acho que tenho razão). Um dia quero escrever só sobre meus defeitos. Eu tenho dificuldades, e a maior delas é não conseguir me desarmar para apresentá-las. Pois é.

E ali estavam as evidências. Dia após dia. Eu não estava sozinha. Mas fingia. Ainda chegava em casa, ficava no escuro rebolando conforme a música do mp3 feliz com algum acontecimento ou corria pra varanda olhar para Vênus e tentar entender a vida. Tenho meus hábitos. Primeiro largo a bolsa na escrivaninha, aí tiro o calçado, tiro a roupa. Detesto roupa. Só uso por essas obrigações da vida. Se é noite, acendo o abajur da mesa de cabeceira. Se é dia, abro a varanda. Quando entro em casa, tudo tem que estar exatamente no lugar onde deixei. Tenho trauma de invadirem minha casa. Tenho trauma de entrar em casa e sentir que alguém esteve ali. É uma das piores sensações da vida.

E agora eu entrava e sabia que não estava sozinha. Quando nada mais dá certo, quando quero fugir da vida, do trabalho, dos pensamentos, me encastelo no sofá, apago as luzes e coloco um filme ou seriado para assistir. Naquela noite foi assim. Estava ali, balde de pipoca, tensão num seriado e… lá estava ela. Vinha do quarto e parou perto do meu cabide de bolsas da sala. Parou ali e eu grudei os olhos nela.

Tenho pavor de lagartixas. Já disse, todo mundo que me conhece sabe disso. Não tenho medo nem nojinho nem nada de rato, barata, cachorro, insetos de todo tipo (só pavor de uma certa mosca que tem numas trilhas da Ilha). Mas lagartixas. Não sei. A pele transparente, o olho inexpressivo, me lembram a morte. Os mortos, os cadáveres, os defuntos. E não gosto de corpos mortos. Elas são geladas também – mais próximas ainda dos mortos – e nem queiram saber como descobri isso. Quando há lagartixas eu me sinto oprimida, minha segurança de estar sozinha me abandona. Não é como se a morte andasse por perto, é pior.

Depois daquele dia só cheguei a vê-la mais uma vez, ao afastar uma cadeira ela passou correndo por trás da cortina. Eu sei que ela anda por aí. Por enquanto é só uma. Tenho mais pavor ainda das pequenas, dos filhotinhos, pois parecem mini-lagartixas e não filhotes. Não consigo achar nada bonito nos filhotes dessas criaturas. Não sei porque ela vive aqui. Não há mosquitos e pernilongos o suficiente.

Ela me faz viver com essa consciência de que não estou só. Depois de tantos dias convivendo com isso, cheguei a pensar que nem a presença de uma pessoa – que apagaria meu abajur, que não deixaria a louça no lugar, que penduraria a roupa de outro jeito, que deixaria suas coisas espalhadas pela casa, que soltaria pêlos pela casa toda, que não arrumaria a cama do jeito que eu faço, que desligaria o som para ligar a TV – seria pior. Porque ela está aqui – agora mesmo, neste instante – e eu não a vejo. Ela não muda a ordem das coisas nas prateleiras da geladeira, mas anda por todo lado durante a noite – enquanto eu durmo!

Tenho tentado conviver. Tenho tentado não entrar em pânico. Sei lá, já é hora de eu aprender a conviver com algumas coisas – inclusive com presenças. Não é fácil. O mundo lá fora já impõe tantas presenças, aqui era meu refúgio. E aí lembrei de algo que também me irrita nas lagartixas: a paciência. Elas ficam paradas por tanto tempo, não têm pressa, esperam suas presas. A paciência alheia me irrita. Como eu dizia para uma amiga esses dias, aprendi a ter paciência, é verdade. O passar do tempo tem coisas muito boas. Minha paciência com a maioria das coisas é como trato a presença dela: ignorar. Ignoro tanta coisa ultimamente… prefiro ignorar.

Eu não sei onde ela está agora. Mas sei que continua aqui. Mentalmente, ao vê-la correndo por trás da cortina, fiz um acordo aos gritos: você pode continuar aqui, só não apareça na minha frente! Talvez tenha funcionado. Já estou com tantos problemas, com tantas coisas sérias (ah! Como adoro fugir dessas!) no que pensar. Não penso nela. Mas não quero sentir a presença da morte naqueles olhinhos escuros parados na parede.

E eu pensava nos meus problemas quando fui arrumar os vasos da varanda. Esvaziei de terra minha mais recente tentativa com uma begônia vermelha. Era linda, grande, enfeitava a cozinha. Amo rosas, é verdade. Tenho uma longa tradição em cultivar rosas. Não digo que sejam minhas flores favoritas. Antes das roseiras eu cultivei bocas de leão, kalanchoes, cravínias e begônias em vasos coloridos. Era criança ainda. A noite perfumada lá fora pelo jasmim da varanda e dentro de casa pela primeira florada da orquídea que completou um ano. O kalanchoe laranja está enorme, já fiz três mudas dele e todas estão crescendo bem. O kalanchoe é assim, aguenta sol forte, pouca ou muita água, dias sendo ignorado, fica bem tanto dentro quanto fora de casa. Eu viajo por um mês e quando volto ele continua o mesmo. O kalanchoe é barato, você compra em qualquer supermercado. Não deixa, porém, de ser bonito com suas florzinhas pequenas. Vive sempre florido, tem uma variedade enorme de cores.

Ah, mas as begônias… as begônias não suportam amor demais. Elas morrem se você sufocá-las com tanta preocupação. O caule começa a ficar escuro, elas vão amolecendo, perdendo as flores e folhas. Raramente há volta. Mas é curioso… se o seu desespero em perdê-la for maior do que o seu excesso de zelo, há chances de recuperá-la. Se você atentar para os primeiros sinais de que amou-a demais e cuidar cada segundo para que ela volte, é possível tê-la novamente. Porém, o menor descaso fará com que ela se vá. Ela é complicada, diriam. Eu diria que a entendo. Excesso de amor e de zelo nos sufocam – a falta deles quando é necessário nos matam. Não vejo nada complicado ou complexo nisso. As begônias são meu desafio na vida. Desde criança volta e meia me desafio a cultivá-las. Por alguns períodos abri mão completamente de tentar. Me convencia de que não sabia amá-las. No último verão tinha uma, era ela e o kalanchoe. Por um descuido meu, alguém que ignora os amores das begônias deslanchou seu cuidado excessivo. Ela começou a morrer, foi aí que provei que já a conhecia bem e consegui salvá-la. Mas, mais um descuido meu, e lá foi outra pessoa a enchê-la de cuidados. Sou cercada por pessoas que amam demais, cuidam demais, se preocupam demais. As begônias não são para essas pessoas. Talvez, também, não sejam para mim. Já consegui progressos, é verdade. Já aprendi com elas. Porém, é preciso mais. Não posso me descuidar. Não é somente aprender a amá-las na medida. É preciso tudo isso junto. O kalanchoe continua lá, vigoroso que é, altivo, independente, fácil, sem frescuras. É sempre fácil cultivar kalanchoes. Begônias, não. Por muito tempo deixei de ter kalanchoes justamente pela facilidade. Eu aprecio desafios. Eu aprecio desafios amorosos. Eu aprecio aprender. Aprecio me desafiar a não ser como sempre fui. Eu vou voltar a cultivar begônias.

E ontem foi Ação de Graças. O do ano passado foi especialíssimo. O deste ano também. Eu achava que 2013 não superaria 2012, me enganei. Eu quero duvidar que dezembro conseguirá superar novembro (nem acabou e já foi o segundo mês mais especial deste ano, só perdendo para março – mas setembro e outubro estão em boa cotação também!). Em março do ano que vem comemorarei um ano fantástico. 2013 me deixou sem palavras – mas com pensamentos demais. Aqui em volta, lagartixas e begônias. Talvez 2013 seja isso, lições e desafios. Só digo que estou abraçando tudo. Tudo mesmo – dizem que todos também. Disse que duvido que dezembro conseguirá superar novembro justamente para desafiá-lo. Meu temor eu jogo para debaixo da cama. É preciso ignorar as lagartixas. Um dia isso teria que acontecer. E tão logo consiga, comprarei mais uma begônia. Não acho que seja hora de desistir, de novo.

Desafio: falem bem de mim

 

Minha mãe sempre diz uma coisa (e coisa que mãe diz a gente deve levar a sério) que já reparou em como pais falam mal dos próprios filhos. Ela conversa com alguém e lá vem a pessoa (de alguém praticamente desconhecido até o parente mais próximo) a falar mal do próprio filho. Ela fica indignada com isso. Sempre a ouço dizer que ela nunca fala mal dos filhos dela para quem quer que seja. Bem, não queria dizer nada, mas ela nem tem o que falar mal dos filhos dela. Minha mãe tem excelentes filho (sim, advogo em causa própria) e tem mais dois pontos super positivos sobre o causo: não fala mal das pessoas e ama os filhos. Era sobre isso que eu pensava em escrever quando me veio essa análise que ela faz: falar mal dos outros.

Todo mundo diz que é errado, mas quantos andam por aí fazendo exatamente isso? Digo falar mal mesmo, por maldade, não digo criticar ou ater-se a fatos. Inventar ou destilar veneno por seus recalques, por exemplo.

 

Sempre me acusaram de excesso de sinceridade. Mas, gente, sinceridade é uma coisa em si, não há como ter “excesso”. E, sim, não me falta sinceridade. Já chegaram a me dizer que é bom o jeito como eu sou, sincera, mas que não precisa ser “tanto”. Tanto? Mas se eu for “menos” sincera estarei, ainda assim, sendo sincera? Claro que não. Não falto com a sinceridade. Doa a quem doer (inclusive a mim). Aliás, pensava nisso esses dias sobre as respostas que as pessoas me dão. Por favor, sejam sinceras comigo. Não inventem, não digam por dizer, não tentem agradar. Se eu faço uma pergunta, não diga “sim” querendo dizer “não”. Fico muito revoltada com isso. Sério. Custa tanto assim ser sincero ou as pessoas já nem sabem mais o que é ser assim? Será que elas andam por aí trocando sins por nãos para evitar isso e aquilo que já nem se dão conta da diferença que há? Pois eu queria que as pessoas fossem mais sinceras comigo. Simples assim. E é aí que a sinceridade entra na questão do “falar mal”. Falar mal dos outros pelas costas é, sim, faltar com a sinceridade. E, consequentemente, é falta de caráter.

 

Escrevo alguma novidade? Pra mim, não. Porém, acredito que muita gente por aí não pode nem ouvir falar nisso – imersas que estão nesse mundinho de redes sociais virtuais e reais nas quais se prestam ao papel de falar mal dos outros.

 

Entrar na minha vida é fácil (muito fácil), seja num encontro qualquer num ônibus, num tropeço no cinema (vocês já viram a propaganda da Cinemark?!), no mundo virtual, nas ruas de tantas cidades, na aula, no trabalho. Basta me encontrar e com alguns gestos ou palavras (ou com os dois) você já terá entrado na minha vida. Dificílimo mesmo será manter-se nela. Garanto que não é nada fácil, requer muitos princípios, qualidades, paciência, disposição e tantas e tantas outras coisas. Por isso, falar mal de mim por aí (como tanta gente faz redundantemente) é facílimo. Quero mesmo é ver você destacar-se do senso comum e falar muito bem de mim. Aí eu quero ver.

 

Sempre achei engraçada essa relação do fácil e do difícil. O povo gosta do primeiro, vai correndo pra ele, beija, abraça, já puxa a poltrona, liga a TV e sente-se confortável. Eu gosto mesmo é do segundo. Não sou muito chegada no comodismo, bem se vê. E sabe qual o abismo que há entre os dois? Pensar. Pensar sempre te leva para o caminho mais difícil. Ignorar-se, evitar pensar e atrelar-se aos pensamentos alheios é o convite do “fácil” – tanta gente aceita. Deprê, né? Eu acho. As pessoas preferem não pensar, juntam-se a uma orda de gente que faz tudo igual, vão pelo mais fácil, ficam aí pelos cantos falando mal dos outros, cometendo maldades, esquivando-se de prestar contas dos próprios atos.

 

Eu? Eu tenho a consciência tranquila. Sinto a incapacidade de fazer mal, ou sequer desejá-lo, a quem quer que seja. Também tenho uma lista – bastante povoada, é verdade, desde pessoas que nunca me dirigiram a palavra até parentes bem próximos – de gente que já me fez muito mal, me prejudicou diretamente, me sacaneou, e aos quais eu poderia desejar todo o mal do mundo. Não o faço. Não sinto nada dentro de mim que me permita desejar mal a quem quer que seja. É só uma incapacidade mesmo – alguns até dizem que eu deveria “dar o troco” e essas coisas. Simplesmente tiro-as da minha vida. A vida é coisa boa demais pra pesar com gente desse tipo. Por isso eu disse que é fácil entrar na minha vida, dificílimo é manter-se.

 

Hoje até prefiro que me chamem de arrogante – prefiro a arrogância à ignorância.

 

Eu faço tanto bem às pessoas (vide inúmeras declarações que ouço constatemente), desperto coisas tão boas nelas, faço com que elas vejam a vida de outro jeito, que não tenho porque perder tempo da bela vida fazendo o mal – nem que seja só falar mal. É um dom que eu tenho, faço bem às pessoas. Ninguém pode me acusar de ter tido falhas como profissional, como parente, como namorada/caso/affair, nem de ter sacaneado ninguém, passado a perna, essas coisas. Podem me acusar de ter deixado uns corações partidos (ou desejos não saciados) por aí, é verdade. Quando falam mal de mim é por algum tipo de recalque, dor de cotovelo, problemas psicológicos, sei lá. Nem vou me alongar em imaginar porque as pessoas escolhem o caminho mais fácil e vazio – a escolha é delas.

 

Está lançado o desafio: quero ver andar por aí falando muito bem de mim. Quero só ver.

Quando acontecem coisas naturalmente românticas

No mundo da ficção não falta luz. Ou, quando falta luz, acontecem coisas românticas. Eu gosto de coisas românticas. Naturalmente românticas, não planejadamente românticas. É preciso acreditar demais no Destino e desconfiar demais das pessoas para pensar assim. E no meio do meio do dia eu só queria chamar alguém de biltre. Até ontem à noite queria braços e pernas e pescoços e cabelos para afagar. Tudo planejadamente romântico. Desculpem o intervalo, estava cá vasculhando quando não fui planejadamente romântica. Nunca? Nunca, bem está. Anoto mais esta culpa. Consequência da impaciência, das brigas constantes com o Destino, dá má interpretação dos sinais, de sempre supor-me muito mais carne do que alma e coração (e, apesar de por última, talvez seja esta a maior causa da culpa).

Suponho-me sempre muito mais carne, esta que envelhece e apodrecerá como um dia me lembrou uma amiga, e com veemência ignoro-me do resto. Aquele resto que não se vê – e São Tomé que sou, tenho dúvidas quanto à existência. Por isso, esses dias brindava vinho à frieza e fortaleza que trago invisível no peito. Visível era o decote do vestido tomara-que-caia vermelho. (E também assim me sentia invisível.) O vinho doce, a comida boa, o corpo se regozijando. Palavras tão fáceis da boca pra fora. E, quem sabe, não há brinde que salve. Não há falta de luz que acenda qualquer bobagem de “luz interior”. Não há. A ficção, sim ela, aviva… faz quase São Tomé acreditar que há algo aqui dentro. Eu teria sido daqueles jovens românticos de outro século a beber, comer, ficar endividado, jogar, e loucamente – naturalmente ou planejadamente? – morrer antes dos vinte. Seria, então, o caso de só o naturalmente romântico a tirar as dúvidas de São Tomé? Já mergulhei em tantos devaneios a crer que sim. Alcançaria o estado de suspirar pela falta de luz como se nem notasse e jamais quereria chamar alguém de biltre?

E sem querer citar, sinto como se todo deleite fosse obsceno. Desculpem o intervalo – estava cá a lembrar que o corpo padecerá. Como diz a canção, nem o diabo quis negociar minha alma vendo um mau negócio. Curiosamente desejo as coisas naturalmente românticas – seriam elas a dar algum valor à alma? Tenho pilhas de perguntas que talvez encontrassem respostas. Sei que das coisas planejadamente românticas já tirei todas as dúvidas e conclusões. Este intervalo foi longo, eu sei. Estava pensando se colocarei um ponto final. Caberia um ponto de interrogação no final, é verdade, mas considero muita pretensão. Estava pensando, também, se este bebê que chora foi fruto de algo planejadamente ou naturalmente romântico. Na verdade, primeiro há que se questionar se foi romântico. Os poetas daquele outro século também hoje se matariam, mas não pelos mesmos males. Fui ver que há um relógio de pulso ainda com pilha que me garante que tudo continua seguindo. A falta de luz, então, só interrompeu meus pensamentos. Já não sinto vontade de chamar alguém de biltre. Sinto que nem tenho mais vontade de que a luz volte. Lembro do brinde. Do brinde e do vinho. Nem o vinho esquentou-me ou abriu brechas na fortaleza. Será preciso mais que isso. A ficção, sim, me atira dúvidas no corpo que deseja e envelhece. Calma, procuro o ponto final, e confesso que sinto-me mais distante dele. A luz não voltou – faltam-me, de fato, as coisas naturalmente românticas para ignorar isso. Como ainda há relógio, não há fuga. Arrisco-me a dizer que sairei com uma fresta de esperança a desejar coisas naturalmente românticas – no acaso, no acidente, no imprevisível. É um risco. E digo isso porque não encontrava peça que encaixasse com peça, em mim, nos últimos tempos até faltar a luz e eu esquecer o biltre-ninguém e perceber o brinde e a ficção e as coisas românticas.

(chegou o rapaz que dá a luz e talvez seja esse o mundo sempre a dar seus pontos finais)

Escolhas

A vida é feita de escolhas. Sim, é clichê dizer isso. Mas é sobre o que tenho pensado, principalmente em resposta a muitas coisas que me dizem e que ouço por aí.

Li dois textos que me fizeram matutar sobre o assunto, além de conversas aqui e acolá. Um era sobre como as pessoas vêem quem viaja e que gosta de ter uma mochila da Bolívia, uma sandália de couro do Ceará, e de ter ido ao Museu do Ouro de Sabará, ou de frequentar cursos disso e daquilo aqui e lá – como se os gostos te rotulassem como elitista (fui obrigada a lembrar da Lota de “Flores Raras”). Não raro nos rotulam de arrogantes, metidos (“amostrados”, diriam os cearenses), privilegiados. Aliás, sobre a alcunha “privilegiados” eu desejo escrever um post em especial. O outro texto é um bem lindo e exato sobre “namore uma menina que viaja”. Tive até aquela comoção leve ao ler este, pois me vi em tantas daquelas linhas. A dica é boa, namore uma menina que viaja. E se você não tiver espírito para isso, não namore-a, pois você acabará por fazer muito mal a ela.

Em algumas discussões e no meio geral, o branco que estudou em escola privada e tal é tido, hoje, como privilegiado. Ainda tenho dificuldades em entender o raciocínio, mas não vou adentrar em questões sociais e políticas. Já andava traumatizada com essa questão de “privilegiada” por ser assim branquela e tal quando, ao comentar com uma pessoa sobre o meu apreço especial por viajar, eis que ela me diz “você é privilegiada”. Engasguei com este “privilegiada” (para ter uma idéia do engasgo, a conversa foi meses atrás). Privilegiada? Sério?

Aí uma amiga muito próxima, numa conversa (somos ambas bem francas, grossas e abertas, então as conversas não são floreadas e tal) na qual eu tentava animá-la (coisa, aliás, que faço com frequência), me disse “pra você é fácil”, porque ela dizia que precisava viajar para fugir e eu tentava fazer com que ela lembrasse que não adianta porque nunca fugimos de nós mesmas. Sabe, aquilo quase me doeu (não sou de ficar de mimimi). Pra mim não é fácil tanto quanto não é privilégio.

Sabe o que é, então? São as escolhas. Ninguém sabe do que, diariamente, eu abro mão para alcançar a realização de sonhos e empreitadas (algumas, a maioria até, de longa data). Porque eu nasci sabendo sonhar, e aí apanhei bastante para aprender a realizar esses sonhos – caso contrário, eu viveria insatisfeita, infeliz, raivosa com tudo e todos. É preciso escolher em tudo na vida. Com homem, por exemplo, você escolhe um e abre mão de outro (sei que tem quem pega mais de um ao mesmo tempo, confesso que comprovadamente não tenho muita capacidade para isso). Você escolheu esse, então terá o convívio com ele, do jeito que ele é. E vai abrir mão do outro que, sei lá, beija melhor, dança, tem olhos azuis, não tem mãe, mora em outra cidade. Nas escolhas já vem embutido o que você terá que “pagar”. E por isso escolher, tomar para si as rédeas da tua vida, é tão (mas tão) difícil.

Conheço quem não abre mão de um sapato de salto que custa seiscentos reais. Tem aquele que sai pelo menos três vezes por semana para sair para beber e comer (cada uma das saídas não custa menos que cento e cinquenta reais). Tem quem só usa roupa de marca. Tem quem pode fazer tudo isso e muito mais porque pode pagar por tudo. Ótimo! Tem quem acha que viajar é ir pra Natal, ou Porto Seguro, pela CVC ou tirar foto no Coliseu (aquele auto-retrato, sabe?) ou uma foto da Torre Eiffel vista lá de baixo (já vi tantas dessas e me pergunto: não dá pra subir? Porque nunca vejo fotos lá de cima. Confesso minha ignorância.).

Conheço quem não abre mão de andar de carro. Quem faz e fez de tudo pra ter uma casa/apartamento. Tem até quem compra coca-cola de latinha pra tomar em casa. Sei lá, quando falo de escolhas estou me referindo a modos de vida mesmo. Abrir mão das coisas não é nada fácil. Quem me conhece bem (mas bem mesmo) sabe que a primeira coisa da qual eu abro mão é do conforto. Sou super sem frescuras – e até tenho dificuldade para aguentar gente que é cheia de frescura, é verdade, mas eu tento.

Eu não abro mão de viajar. Se para isso terei que abrir mão de tantas outras coisas, farei com o maior prazer. O mundo aqui do Sul e Sudeste é muito caro. Sair para jantar é caro. Ter carro é caro. Beber, então, é caríssimo. Sim, abro excessões – cada vez mais raras. Foi o que sempre achei de ir ao cinema, que é muito caro. E por muito tempo na minha vida não frequentei os cinemas. Sou super fã de assistir a filmes em casa. De vez em quando me dou ao luxo de num dia de oferta e sala vazia ir ao cinema para deixar a alma flutuar no escuro diante da telona. O mundo por aqui é muito individualista, egoísta, intolerante. Eu prefiro andar de ônibus, é sempre uma experiência interessante. E também já é caro. Ando à pé, de bicicleta. Bebo em casa e sozinha – atualmente por alguns bons motivos.

Você não me verá em baladas nem em casas noturnas caríssimas – aliás, nem de graça. Às vezes digo pra alguém “vamos sair” e a pessoa logo me responde “não posso, estou sem dinheiro”. Pô, mas pra ir pra praia ou pra trilha precisa só do dinheiro do busão (porque eu sou farofeira, sempre tenho comida na bolsa). Aliás, no texto sobre namorar uma menina que viaja esse era um dos pontos: ela sempre terá comida e água na bolsa – porque sabe que a vida pode dar voltas, atrasos e recomeços. Já viajei com a roupa do corpo.

O problema é quem escolhe ter carro, sair toda semana, comer fora, comprar computadores, celulares e tablets de última, andar com roupas boas e caras e afins e não conseguir tempo ou dinheiro para aproveitar outras coisas da vida – vivendo eternamente insatisfeito, invejando e criticando quem leva outra vida. A minha vida não é melhor do que a de ninguém – muitos, se a conhecessem, diriam que é bem pior do que a da maioria. Mas, olhando de fora, é fácil apontar “privilégios” ou “luxos” e “facilidades” que não existem.

É só parar e se perguntar: o que eu realmente valorizo? Do que eu posso abrir mão por coisas que me importam mais? Eu mesma não abro mão de algumas coisas e pago por elas. As escolhas têm seu preço, incindindo principalmente na nossa felicidade e no sentimento de realização pessoal.

Escolher dedicar-se aos estudos por mais tempo também tem um preço. Você paga em tempo, noites sem dormir, dores de cabeça, irritações, “apertos”. Não é um luxo. Quando você escolhe estudar, trabalhar, namorar, ter casa, tudo ao mesmo tempo, vai abrir mão de muita coisa, ou pode abrir mão de alguma dessas e ganhar outras. Para quem escolhe profissões ou carreiras menos comuns (vide as “artísticas”) isso é muito mais evidente. Há sempre aquele momento quando você precisa acreditar no que faz, dedicar-se de corpo e alma, abrir mão de meios facilitadores e confortáveis, e seguir. E nenhuma escolha é fácil.

Eu bem que poderia passar a vida viajando (não sou daquelas que diz que viajar é bom mas voltar pra casa é melhor) e escrevendo. Isso me bastaria. Hoje ainda não posso. Quem sabe um dia. Então, vou fazendo uma coisa aqui, outra ali, abrindo mão disso e daquilo que não me importam de verdade, às vezes até abrindo mão de coisas que me fazem um tantinho de falta, para conseguir encaixar essas coisas que amo e que me são essenciais. Nessas escolhas diárias vou mantendo fé naquilo que quero ter lá na frente – que pode ser viver viajando e escrevendo, quem sabe. Amanhã sei que estarei diante de escolhas que poderão mudar este possível destino final – e essa é a parte mais gostosa da vida. Escolhas são meios, se você não sabe para onde vai tudo fica bem confuso e difícil.

Eu escrevi ali “coisas que amo” e queria dedicar um post todo só para o amor. Passei dos vinte anos e já sei o que amo. Porém, sei que posso vir a amar outras coisas que hoje ignoro. Amor mesmo, no sentido literal, filosófico, poético, o incondicional, sem o qual você não pode viver, que é tudo, te completa, te faz feliz. No meu caso não é um “alguém”, por exemplo. Sei quais são as coisas que amo, incondicionalmente mesmo, e por elas guio minhas escolhas e abro mão do resto. E, bem, quem não conhece o amor não pode mesmo fazer boas escolhas nem ser feliz. Viram como não é fácil?

Eu amo o tempo. Amo como ele sempre faz tudo tão bem. Amo o nosso relacionamento tempestuoso. E foi o tempo que me ensinou tão bem o valor e o peso das escolhas.

Não critico as escolhas dos outros. Mas que tem muita gente errando por aí porque não sabe o que ama, ah, tem! E também tem muita gente que já sofreu pra caramba até perceber que só seria feliz ao escolher de acordo com o que ama – sou particularmente admiradora de algumas dessas.

Ainda hoje me disseram que o lugar onde moro é pequeno. Realmente é. Com ele aprendi a ter uma vida mais leve, menos acumuladora. Este ano cometi desapego até com as bolsas. Fui me desfazendo do que não preciso, do que não quero, do que não me faz feliz. Foram cartas, roupas, sapatos, bolsas, utensílios de cozinha, papéis, muita coisa mesmo. Não quero tudo. Mesmo se eu fosse dessas pessoas que têm dinheiro o suficiente para ter tudo o que querem, sei que eu não seria assim. Certos excessos me desgastam espiritualmente. Sou feliz onde moro pela localização, pela vista da varanda, por ser pequeno e me ensinar com isso, por me permitir ter uma rotina tão “econômica”. Nem TV a cabo eu tenho – se for para “ver”, prefiro ver com meus próprios olhos. E é assim que eu percebo e ouço tantos comentários reprovando minhas escolhas.

Estou aqui com uma lista de exatamente sete coisas sobre as quais terei que fazer escolhas. O tempo corre e tenho que cumprir prazos de escolhas que já fiz. A conta bancária suspira saudades. As malas vivem feitas e desfeitas. As últimas escolhas se mostraram fantásticas e com bônus sobre algumas das escolhas da lista que citei acima. É uma sensação boa demais. São realizações pessoais das quais não vou abrir mão. Hoje nada estragaria minha felicidade, nem uns tetos que balançaram. E eu garanto que não há privilégio nem facilidade nenhuma em nada disso.

Oriente e Ocidente, quais são as novas respostas?

Vou arriscar começar assim:
“Mas voltemos ao salvacionismo de vocês, os representantes da decantada civilização ocidental…”

Essa frase é uma das tantas que permeiam o diálogo entre a professora e o tenente durante o jantar de despedida deste. Meus sustos foram muitos (e positivos) ao começar a ler O Prisioneiro, do meu amado Erico Veríssimo.

Ainda uns dias antes eu assistia a Saramandaia (sim, assisto novelas) e ao ver uma cena histórica da TV brasileira com Tarcísio Meira e Fernanda Montenegro contracenando lembrei do O Amor nos Tempos do Cólera. Em seguida pensei no Garcia Márquez, outro amor da adolescência, e em como me sinto quando sei que um autor, diretor, ator não produzirá mais livros, filmes. Garcia Márquez não morreu, mas infelizmente por questões de saúde é pouco provável que escreva mais alguma coisa. Com Erico é assim. Os livros dele, tão importantes para mim, estão aí. Pensando nisso procurei um que eu ainda não tinha lido, mas que guardava nas prateleiras, assim, antegozando um prazer que um dia se extinguirá. Eis que um deles era O Prisioneiro. Para quem se apaixonou pelas histórias de O Tempo e o Vento, ele segue um caminho mais próximo do Senhor Embaixador. Em nada menos apaixonante.

E então me dei conta do que vinha acontecendo. Havia assistido ao O Príncipe do Deserto, com o gostoso do Antônio Banderas, esperando pura diversão. Porém, como normalmente acontece, não foi bem assim. Aí fui ler um romance de banca de revista no intervalo das cruzes da vida. Era um duplo. E? Eram histórias que se passavam entre “lá” e “cá”, com direito a sheikes, antiguidades perdidas no Egito e tudo a que se tem direito. Numa sucessão assim, já meio desconfiada, caio em mim ao intercalar, num dia, o diálogo da professora e do tenente com Terre et Cendres.

Foi então que a questão da Síria tomou proporções maiores com a ameaça (que nunca é só uma ameaça) do Obama. Não acompanhei as notícias, não sou especialista em relações internacionais, não li intermináveis análises ocidentais (nem de direita, nem de esquerda), não fiquei esfuziante com teorias de conspiração, não fiz a piada do nobel da paz declarar guerra… aliás, não fiz piada alguma. Não fiz comentário algum. Ouvi e li brevemente uma coisa aqui, outra ali.

Eu me dei conta, com Terre et Cendres, que tudo estava girando em torno da complexa relação Oriente versus Ocidente. O livro do Erico deu o soco final enquanto o filme me deixou com aquela sensação que, infelizmente, não sei descrever.

Talvez eu tenha aprendido a responder ao “ah, você é árabe?” com o esclarecimento “não, sou sírio-libanesa” antes de saber soletrar meu nome e sobrenomes direitinho. Sim, tenho, por parte de mãe, descendência sírio-libanesa, bisavó síria casada com bisavô libanês, vindos do Líbano para fugir das agruras e guerras e que foram parar no interior do Paraná. Convivi muito de perto em alguns (talvez poucos) anos muito intensos com meu avô, filho deles, e minha avó que havia convivido com a sogra por muitos e muitos anos. Minha bisavó manteve e passou a eles o que trazia do seu mundo. Eu cresci comendo os melhores “charutinhos” do mundo, rodando a manivela do moedor de carne para fazer o kibe mais delicioso que eu já comi, aprendi cedo, com minha mãe, a fazer mjadra, faço a melhor sfiha que eu conheço. Lembro de ter ouvido pouca coisa de árabe pela casa porque meu avô conhecia, entendia mais do que sabia escrever, minha mãe nunca aprendeu, e meu avô tinha amigos brimos.

Me orgulho muito disso. Por criação e por sangue, tenho forte muitos sentimentos e características dessa descendência.

Diante de uma relutância pessoal em escrever sobre algo tão intrincado, pensei em como no Brasil ainda é tão pouco conhecida e valorizada esta cultura. Hoje já exigem ensinar História da África nas escolas, mas a maioria dos brasileiros não tem um pingo de idéia sobre a História do Oriente. Eu sou sortuda e tive um professor muito bom que por interesse próprio havia estudado e conhecia a história dos povos árabes e dava aulas apaixonadas sobre. Até hoje, para dar a proporção da ignorância, me perguntam sobre a minha religião. Sou católica e minha formação religiosa vem justamente da minha bisavó síria – foi a religiosa mais fervorosa das minhas famílias, inclusive. Outro exemplo é perceber como as pessoas não têm idéia de onde vem o apoio (até onde li, único) da França ao provável ataque que o Obama fará. Quem estudou a questão da França e da Síria na escola?

Os povos árabes, talvez ainda de maioria sírio e libanesa, que vieram para o Brasil são uma massa informe retratados como mascates em filmes e novelas e livros – lembram do Nacib de Gabriel, Cravo e Canela? Na novela das nove da Globo, Amor à Vida, a família do Antônio Fagundes é Khury (há uma variação na grafia por conta da transliteração e, claro, dos problemas de comunicação da época da imigração), sobrenome bastante comum na região e que significa Padre. Não sei qual foi o motivo da escolha por um sobrenome árabe para a família porque a escolha não parece relevante nas características dos personagens nem na cultura – só se foi porque queriam ligar ao hospital famoso. Aliás, esse é um exemplo de que os que vieram pra cá também fizeram muito e não eram apenas mascates. Aliás, eu não vi direito nem entendi (a novela tem realmente coisas bem confusas), mas a irmã do Antônio Fagundes tem um filho que parece ter seu potencial na trama ligado à religião, mas eu não sei qual é.

Mas essas histórias muita gente não conhece. Hoje há levas de imigrantes árabes de outras nacionalidades e religião, é só andar ali pelo centro de Florianópolis e conhecer muçulmanos, egípcios, sauditas. Uma vez presenciei a cena de dois árabes (não sei a nacionalidade), um dono do restaurante onde estávamos, discutindo sobre um acontecimento da época e colocando a culpa nos judeus.

Diante da ignorância da história e da cultura – e eu diria mais: valores – de um povo, avultam opiniões e comentários, às vezes dignos de só saber pedir umas sfihas no Habbib´s.

Não vou recorrer ao academicismo nem ao Said e companhia. Aqui não é lugar pra isso.

Eu queria escrever sobre um sentimento. O sentimento que eu tenho por ter sangue árabe. Por ter presenciado fatos da minha família que se explicam (e muito) só por se ter em mente como e por quem fomos criados. Eu queria conseguir escrever sobre isso. Me sinto incapaz. Mas é com Terre et Cendres que eu vou tentar.

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O filme se passa no Afeganistão. Um avô, um neto. Uma missão. Uma guerra. E só. E é assim, com paisagens rarefeitas, palavras exatas, lapidadas, valores intrínsecos que o filme se concretiza. Não há drama como estamos acostumados, não há excessos. Há dor – por todos os lados, em todas as revelações. Não há posses, nem de terra, nem de nada. Enquanto assistia, senti uma necessidade de escrever sobre ele e foi na cena do bombardeio, mais exatamente no plano do menino no meio dos destroços, que ela se efetivou. O rosto daquele menino foi provavelmente a expressão mais contundente de todo o filme. A caminhada dele e do avô, a relutância camuflada em ver o filho e ter que lhe dar a notícia de que sua esposa e toda a família, exceto ele e o filho, morreram é angustiante. O personagem do menino é um dos melhores que vi até hoje no cinema. Não vou contar o motivo – vai que vocês se entusiasmam e decidem assisti-lo, né? Mas quando revela-se algo dele, você começa a percebê-lo de outro modo – e tudo fica ainda mais doloroso. Eu teria restrições em relação às imagens da esposa nua que aparece nos sonhos e delírios do avô, mas provavelmente é implicância minha. O personagem da banca ao lado da portaria das minas é um símbolo de sabedoria e experiência, característica dos povos árabes. Mas é nas minas, ao descobrir que o filho já sabe que a sua aldeia foi dizimada e continua lá trabalhando (sorry, contei!) que eu vi duas das características mais fortes que sinto tendo o sangue sírio-libanês: a família e a honra. São laços, valores, que talvez neste mundo ocidental (criação forçada, forjada, falsa, à guisa de poder e expansão, com os pés na ganância e sujos de sangue e violência) não tenham sido perpetuados. E é essa a diferença de uma tradição de milhares de anos diante de uma que tem algumas poucas centenas.

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O avô-pai sente-se ultrajado porque o filho, tendo recebido a notícia da praticamente certa morte dos seus familiares ficou lá trabalhando e não foi enterrá-los. Enterrar seus mortos, para os árabes, é uma questão de honra – seguida, obviamente, pelo apego e respeito à família.

Lembrei do A Hora mais Escura e de todo o embróglio que houve quando supostamente mataram o Osama Bin Laden e não deram um enterro digno e nos rituais da religião dele porque queriam evitar uma peregrinação ao local onde ele seria enterrado. No filme, aliás, o único ponto relevante é que em nenhum momento há (para o espectador) a confirmação visual de que o morto é o Osama e nem a agente confirma que ele é quem ela caçava.

E aí voltamos para a questão dos Estados Unidos. Não, não sou anti-americanista. Acho que posicionar-se assim nos dias de hoje é pura estupidez – e nem digo ideológica. Viva sem o que aquele país produz, dissemina, discursa e depois conversamos. O cara mais anti-EUA que eu conheci era um que bebia coca-cola de manhã, de tarde e de noite. E nem se dava conta do que fazia e do que falava. Me parece estupidez, também, buscar teorias conspiracionais sem fim. Me deu um cansaço ler “os EUA afirmam que foram usadas armas químicas na Síria”. Todo mundo lembra que eles afirmaram que havia armas químicas no Iraque, né? Aliás, tudo que eu via e lia se relacionava com a questão Oriente versus Ocidente, até a sensacional bosta O Ditador, do Sacha Baron Cohen. O filme merece uma análise mais detalhada, é verdade.

” – Mas acredita que este povo esteja suficientemente maduro para a liberdade?
– Não se trata de estar ou não maduro. Todo ser humano tem um direito natural à liberdade. E, afinal de contas, quem é que vai decidir no mundo que povo está ou não maduro, quem tem ou não direito à liberdade? Vocês? Por quê? Porque são fortes econômica e militarmente? Ou porque são os representantes da vontade divina na Terra?”

Eis que li isso no mesmo dia que tudo se deu: a ameaça americana e o Terre et Cendres. Erico Veríssimo escreve uma fábula contundente sobre o posicionamento estadunidense diante “dos outros”. Digo fábula porque os personagens não têm nomes (eu fiquei particularmente emocionada, porque gosto de escrever sem dar nome aos meus personagens), não há contexto, não há datas e referências históricas, nem geográficas. Ele nem cita que o tal país que vai decidir que povo está ou não maduro ou que tem ou não direito à liberdade é os Estados Unidos. Ele não precisa fazer isso. E é neste diálogo que a professora confronta o tenente, americano e mestiço (meio negro, meio branco – e há também a discussão sobre a condição do negro nos EUA da época), com esta superioridade americana diante de todos os outros. Os outros povos nunca estão maduros para a liberdade e porque eles detêm poder e armamentos são eles que definem as regras do jogo – e, claro, de lambuja, defendem os civis oprimidos e satanizados por ditadores cruéis.

A resposta da professora resume algo que eu sempre pensei antes de conhecer e refletir mais sobre as coisas: “O que eles ainda querem é viver a sua vida sob governo próprio e com liberdade.”. Eu já narrei aqui como vi a guerra do Iraque e Bagdá sendo bombardeada. Me dói. Porque não há presidente nem congressista nem povo americano que consiga compreender o que o povo “do lado de lá” pensa e como faz as coisas. Não estou, com isso, dizendo que apoio ditaduras – aliás, quero frisar que nem a cubana. E volto à professora: “- Saiba que detesto qualquer totalitarismo, seja qual for seu disfarce ou pseudônimo. Mas o que me alarma, tenente, é que, à força de combater os comunistas, vocês acabaram por imitar-lhes a linguagem, o método de ação e até a moralidade…”. Na época era o Comunismo que o mundo via ser o monstro construído pelos americanos. A professora diz ao tenente aquilo que também se aplica à ditadura das esquerdas (e, Brasil contemporâneo como bom exemplo, não só às ditaduras): prega-se e luta-se por algo que transfigura-se quando da tomada do poder. No guerra, os americanos vão para perpetuar as mesmas atrocidades que combatem. Terre et Cendres é sobre isso também.

Entre formas de governo e regimes econômicos, acho-os todos velhos. Sou contra totalitarismos. Mas não defendo nem acredito na democracia. Já fui defensora feroz dela. Hoje acho-a velha, ultrapassada, decadente, insuficiente para o nosso mundo. Antes mesmo de ler Paul Hirst, A Democracia Representativa e Seus Limites, talvez influenciada pelas leituras da Filosofia Clássica do começo do curso de Filosofia, vi que eu defendia algo que não fazia mais sentido porque nem era como na sua origem. Lamentei por alguns anos que dentre tantos intelectuais não tenhamos nenhum que tenha criado algo novo, uma forma de governo que contemple necessariamente (o mundo ocidental atual assim o exige) um modelo econômico que seja compatível e que contemple o mundo de hoje. Democracia não nos serve mais. Totalitarismos, ainda mais na América dos “ridículos tiranos”, são impensáveis. Monarquias são motivo de chacota. Mas, eu me pergunto, como então devemos organizar política e economicamente o nosso mundo? Não vejo respostas, e, assim, considero, sim, um crime querer atacar um país para levar as bonanças de uma sociedade falida como a nossa. Se não há uma proposta nova, os meios continuam velhos também. E virão as bombas.

Sei que parece utópico. E provavelmente a característica menos compreendida do utopismo seja a de acreditar que ele não é impossível. Eu quero crer que há ou haverão mentes capazes de dar uma resposta nova para os modelos políticos e econômicos ultrapassados. Lembro bem das aulas de História quando um professor, ao falar de reis, Estados, poderes, sempre os colocava assim: surgimento, ascensão, declínio e queda. Não seriam as histórias todas elas assim? Por que a democracia ou o capitalismo deveriam ser eternos? Meu ser intelectual quer crer que teremos alguma saída.

Ironiza a professora: “Mata-se em nome de Deus, em nome da Pátria e em nome da Democracia, essa deusa de mil faces cuja fisionomia verdadeira ninguém nunca viu.”. E assim Erico expandiu sua crítica, pois matar em nome de Deus, das pátrias ou de uma idéia como é a democracia, é simplesmente matar e nada mais. Me pareceu muito sutil esta frase porque a questão com os povos árabes ainda não tinha as proporções que tem hoje.

Eu seria utópica se esperasse que o mundo ocidental respeitasse o mundo oriental. Não há respeito e assim desconsideram-se os valores, as tradições, os milhares de anos e toda a complexidade do espaço e das pessoas que lá vivem. Não é preciso entender – até porque nem conseguiríamos – apenas respeitar.

Por isso, continuarei sem ler os deuses das análises políticas deste lado do mundo – e, talvez, também do outro. Li uma reportagem sobre uma moça egípcia que fez um documentário sobre as mulheres durante as últimas revoltas no país dela na qual ela dizia que foi motivada justamente porque o que diziam os jornais do ocidente (ela estava na Inglaterra na época) e também de lá não conseguiam contemplar a complexidade da situação delas. Surgem clichês, péssimas interpretações, análises ideológicas. Pretendo ignorar a esquerda ocidental anti-americanista. Estes, por sinal, são os que se atêm somente às ações dos EUA, seus interesses econômicos, e nunca voltam seus olhos para as condições do povo que tornou-se alvo dos ataques americanos. Eles são contra qualquer coisa que os americanos fazem – menos, talvez, à coca-cola.

Tenho o sentimento claro de que não posso fazer nada. Mas acho que a forma que eu lido com ele me foi passada pelo sangue sírio-libanês. Com tanta evidência do Oriente Médio, as pessoas poderiam, pelo menos, procurar saber mais do que e de quem se trata. Pelo menos. Assim eu ouviria menos a já tão chata “é muçulmana?”. Não, não sou. Tenho um Alcorão, estudei o Islamismo como estudei outras religiões porque amo isso (e porque tive um professor sensacional de Filosofia da Religião). Minha mãe tem medo de que eu me converta, vejam só. Me apaixonei pelo Islamismo porque me aproximou de certas coisas e porque conhecimento é assim: apaixona.

Já me alonguei demais, mas vou citar brevemente o único momento no qual comentei com outras pessoas a situação de eminente guerra na Síria. Foram três declarações: 1. ah, mas é que ele usou armas químicas lá, eles provaram; seguida de 2. guerra é guerra, não importa, e eu sou contra; e, por fim, 3. não interessa nada disso, eles (os EUA) sempre arranjam motivo pra se meter em tudo. São opiniões facilmente encontradas por aí. Já comentei sobre a primeira e a segunda (sim, falem do petróleo, do arsenal bélico que os EUA precisam desovar, etc). Faltou comentar a segunda, praticamente não ouvida por aí, e da qual eu compartilho: guerra é guerra e eu sou contra. Não adianta, sou contra violência, sou uma pacifista. Como disse antes, também não considero justificável o uso de armas químicas. Quem sabe, tal como com a democracia e com o capitalismo, não precisamos aqui de uma nova resposta? Como responder a um ditador que usa armas químicas (caso elas tenham sido usadas)?

Precisamos, enfim, de muitas novas respostas e idéias realizáveis. As que estão aí já não nos servem mais – e digo isso sobre o Ocidente, nas quais devem estar incluídas como tratar da relação com o Oriente Médio, posto que ela só tem sido uma sucessão de erros (uma sugestão: o conhecimento é um bom começo). Onde estão nossos intelectuais e políticos?

Afinal, como dizem, 2013 e ainda querem sair bombardeando os outros?

Cansei do convite para o café

Cansei do convite pro café. Cansei do convite pra assistir a um filme. Todo mundo já sabe o que ambos significam, né?

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Há pouco tempo fiquei com trauma de ir à biblioteca da universidade. Entrei, busquei o que eu queria, saí e um cara me barrou. Papo de “te vi, gostei de você e queria te convidar pra um café”. Agora até bibliotecas são campo de caça? Logo minhas bibliotecas sagradas? Aí um outro dia, na biblioteca de outra universidade, entro rápido, cabeça baixa, pego o que quero e saio correndo. À noite, no Facebook, lá vem um dizer que me viu, que eu passei ao lado dele. E veio com o mesmo papo. Eu tinha desconversado o convite pro café – afinal, todo mundo já sabe, não tomo café – e tinha fugido do convite para o cinema – ele ainda tinha sugerido um filme francês porque, óbvio, acha que eu só assisto coisa cabeça (o filme que ele sugeriu não era nem de longe cabeça, mas, vejam só, era francês). Aí ele insistia em me convidar para beber – afinal, todo mundo sabe que eu bebo bem – e eu me saí com “só bebo em casa e sozinha” – o que, aliás, tem sido verdade verdadeira.

Sabe, é chato. E eu cansei. Eu não aceito convite pra café não só porque não tomo café (e uns revoltados dizem “um suco, então!”) como porque acho totalmente sem criatividade o convite e porque sei o que ele significa. Não quero. Já vivi e vi coisas o suficiente para prezar a criatividade masculina em primeiríssimo lugar – posto que é tão rara. Também não aceito assistir a filmes na casa de ninguém. Ir ao cinema também não faço questão. Porque normalmente o cara já vem com a sugestão de um filme que acha que eu vou gostar.

É como me convidar pra ir pra praia. Só faz isso porque “sabe” que eu gosto de praia. (posso dizer com certeza que ninguém sabe “como” e “o que” eu gosto em praias) Tem esses, os que buscam te convidar ou falar de coisas que eles intuíram ou imaginam que sabem que você gosta ou te interessa. Soa tão falso. E falsidade eu dispenso. Eu não espero que a pessoa seja o que eu quero ou gosto. E qual relacionamento teria boa base num fingimento de coisas que se gostam ou são? Só para dali meses ou anos descobrirem que o outro era aquela – aquela velha – ilusão que temos a respeito daquele por quem nos apaixonamos?

Tem coisa pior: “acho que nós temos coisas em comum”. E quem disse que eu quero alguém que tenha coisas em comum comigo? Essa ouvi semana passada. E fiquei realmente “passada”. Sou muito mais de gostar do oposto, de ver discordância no relacionamento, de enfrentamento. Já disse, não acredito em alguém que sempre concorda comigo. Não acredito. E não suportaria alguém assim.

São tantas fórmulas prontas… e eu cansei. Disse minha amiga hoje que me vê escrevendo cartas (isso, essas de papel que vão pelo correio) para me relacionar com uma “certa” pessoa. Sabe, prefiro isso. Prefiro fugir da obviedade, sempre. Detesto as frases e convites feitos. Claro, incluo aí as variações do tipo “quer tomar uma sopa de batata?”, “vamos a um buffet de sopas?”, “também adoro pedalar”. Pois é, eu também nunca entendi a tara por sopa, mas, enfim…

Uma amiga relatou o caso da ex do marido dela. A guria, daquelas sem noção (fico pensando se não é ariana), vive rodeando a família do ex, os irmãos e tal. Cogitamos até que ela estivesse interessada em algum deles. Aí a amiga fez um desabafo numa rede social e indicou o site Par Perfeito pra moça. Eu, feliz da vida sem nunca ter entrado nesse tipo de site, fui ver como era.

Aí hoje outra amiga disse que recebeu e-mail deste e de outros dois, Match e eHarmony. Fui ver.

Primeira coisa que já achei incompatível comigo: escolher. Não sei… Amor escolhe até a cor de olho? Sério?

Match e Par Perfeito são iguais. Rola desde só sexo e casados até namoro sério ou só amizade. Nem em relação a isso eu tenho preferências. São poucas perguntas e você pode escolher faixa etária (eu sempre coloco dos 18 aos 53 – não pode ser (infelizmente) menor de idade nem da idade do meu pai pra mais), cor do cabelo, tipo do cabelo, “etnia”, peso, altura. Vejam só, nem coloquei foto mas fiz sucesso com meu um metro e sessenta e um. Nem preenchi tudo também porque não vejo sentido nem tenho paciência. Além da idade, assinalei duas coisas: não-fumante e signo. Se tivesse entre 18 e 53, não fumasse e fosse de três determinados signos, cairia na minha pesquisa. Porém, o site é burro e só me mandava capricornianos (que, obviamente, não estava na minha lista). Aliás, cheguei à conclusão que este tipo de site é ótimo para capricornianos. Sabe o tipo que chega e diz “quero uma loira, um metro e setenta, que tenha graduação, sem filhos, solteira”, então. Mas pra piscianos fica bem complicado. Sabe, nós esperamos o príncipe encantado chegar de cavalo branco no momento mais oportuno, na melhor quadratura da lua, trazido pela mão do Destino. Não é lindo?!

:D
😀

Recebi alguns e-mails de interessados. A maioria escrevia muito mal (para além dos erros de ortografia, inclusive). Aí já brochei. As frases feitas eram das piores. As tentativas de parecer ser aquilo (ou aquele) que eu buscava eram ainda mais frustrantes. Já me apaixono facilmente por pessoas inventadas por mim que cabem nos meus sonhos como ninguém. No caso das pessoas reais não preciso inventar nada – nem eles precisam inventar-se. Aliás, sobre “certa” pessoa (que talvez não dê em nada, para minha real tristeza) eu tinha um receio enorme e confessei-o para a amiga. Não seria só mais um “amor inventado” da minha parte? Me perguntei isso porque, bem, a história é complicada e interessante, mas senti que eu não poderia fazer isso com ele como já fiz algumas outras vezes. E eis que a amiga, querida, me diz que todos são. Todos são inventados? Então não devo me preocupar com isso.

Conversa vai, conversa vem, pergunto para a amiga o que faz de mim “namorável” (o que já considero uma praga) quando divagamos sobre nossos “problemas” de relacionamento. A resposta dela foi certeira e a conclusão foi de que homem gosta de sofrer. Aquilo que tanto falamos machistamente de “mulher de malandro” e que “gosta de apanhar” também é aplicável aos homens.

Enquanto conversávamos eu fiz o cadastro do eHarmony. Gente, que coisa interminável… levei mais de hora pra responder tudo! Quase dormi na frente da tela. Mas num momento comecei a me divertir com as questões. Eu sou um monstro – pensei enquanto analisava minhas respostas. Não tenho confiança no outro, não sou sociável, não sou compreensiva, priorizo a liberdade, coloco dinheiro em último lugar na vida. Um monstro. Aí o site, depois de vasculhar os recônditos da tua personalidade e sexualidade – só faltou perguntar qual posição sexual era a minha preferida e qual a cor do esmalte que estou usando, o que, aliás, seriam de suma importância! – ele fez uma busca para encontrar pessoas compatíveis comigo. E a busca foi mais interminável do que o questionário…

...

Enquanto esperava comentei com a amiga que, pelo tempo, o príncipe encantado deveria ter ido comprar o cavalo branco e eu já podia escolher as flores do buquê. E não é que… ele trava. Ficou um tempão buscando e nada. Como eu e a amiga já tínhamos falado, ia dar um erro do tipo “como já disse seu pai, do jeito que você é ninguém vai te aguentar”. Bem, até aí eu já estaria satisfeita!

O eHarmony me pareceu bem mais sério do que os outros. Mas todos mandam mil e-mails. No eHarmony até encontrei umas coisinhas interessantes (mas ele só encontrou nove indicados para mim), mas não vi as fotos. Aliás, em nenhum coloquei foto. Era só pesquisa de campo. Mas digo: eu julgo pelas aparências. Me condenem. No Par Perfeito só tinha feio. Feio ou velho assanhado. Mas todos feios. Feio não dá. Ah, não levem isso para quem procura mulheres! O índice de beleza feminina é bem maior! (sim, eu coloquei buscar mulheres também e até que apareceu coisas pegáveis)

pois é... me julguem.
pois é… me julguem. Retirado da melhor página do Facebook: Suricate Seboso!

Tem gente que serve pra isso, capricornianos e virginianos, por exemplo. Mas piscianos são mais raros de encontrar por essas bandas. Ah, tem leoninos por lá esperando elogios e aqueles que dizem “gosto muito do meu corpo, cuido muito do meu corpo, acho que um corpo bem cuidado é fundamental” (recebi um e-mail assim, acabei de copiar dele, e quando o cara escreveu “corpo” pela sétima vez eu parei de ler). Ou aquele que diz “adoro ler, mas faz séculos que não pego um livro, mas gostei bastante do Privataria Tucana”. Tem de tudo, gente. Eu não julgo só pela aparência, eu julgo pela escrita, pelas contradições, por tudo.

E aí a resposta da amiga sobre o motivo de eu ser “namorável” bateu com a análise de personalidade que o eHarmony fez. Uma análise muito boa! Em certos aspectos até melhor do que mapa astrológico. A conclusão é que eu não sirvo pra namorar, os que me querem pra isso é porque vêem como desafio, com a possibilidade de me domar. Tadinhos. Claro que saiu lá que sou egoísta, individualista, que ajudo os outros depois de pensar, diz assim, no resumo, “você consistentemente cuida de si mesmo” (em letras garrafais), diz que eu acho fundamental que as pessoas saibam cuidar de si mesmas, diz que eu não acredito que estou fazendo favor algum quando ajudo alguém (isso os amigos sabem bem!), diz que eu prezo a independência e que estímulo isso nos outros porque ter um tempo para cuidar de si mesmo é o que todos deveriam fazer, diz que sou responsável (óin), que sou muito dura comigo mesma e que isso me dá respaldo para ser crítica em relação aos outros (ui, gente, e eu pego pesado nisso), diz que apesar de tudo as pessoas admiram a minha franqueza (tenho cá minhas dúvidas).

E eu gostei particularmente da lista de “qualidades” que eu conquistei depois de responder às mil perguntas:

Intransigente

Franco

Astuto

Crítico

Empírico

Forte

Perspicaz

Cético

Esperto

(necessariamente nesta ordem!).

E aí eu perguntaria novamente pra amiga, já que ela concordou com a essência da minha análise de personalidade: por que mesmo eu pareço “namorável”?! Vejam bem, intrasigente ficou em primeiro lugar e está no lugar certíssimo!

Eu que pensava que não são características ou respostas ou cor de olho e altura que nos fazem encontrar o amor… continuo pensando assim. Também continuo acreditando que não são com convites clichês, falta de criatividade e pessoas tentando ser quem não são que se aproxima alguém. Porque não acredito na conquista, pois ela demanda submissão e eu não gosto disso. Não é preciso conquistar ninguém. É preciso aproximar. Eu me sinto muito próxima de pessoas que pensam um tanto muito igual a mim e um outro tanto justamente o oposto.

;)
😉

Entre os pensamentos que geram pauta para o blog estava o quanto a internet aproxima e afasta as pessoas. Pensava nisso semana passada. Sim, posso muito bem acabar me correspondendo por cartas com quem está do outro lado do mundo. Talvez me sinta mais próxima dele do que se eu ligasse a webcam do skype todo dia. Aliás, qualquer “todo dia” pra mim só causa a sensação de afastamento. Nada como me ver e falar comigo todo dia para me ter bem distante. Fica o alerta para algumas amigas, pois nos falamos com frequência pela internet, mesmo morando na mesma cidade (tá, eu sei que às vezes viajo demais) nos vemos pessoalmente pouco porque achamos que mantemos este contato. Apesar da minha falta de qualidades, sou um tantinho passional. Não duvidem.

Nunca conseguiria me sentir próxima de alguém que preenche uma ficha interminável de qualidades, defeitos e interesses num site. Nunca. A melhor coisa para aproximar ainda é uma boa conversa. Ah, me dirão, para isso que serve o convite do café! Não, não é. O convite já vem com vários comportamentos e idéias pré-determinados. E eu não gosto disso. Eu gosto do frisson, da ansiedade, do interessar-se, do convergir e do divergir.

Como nas redes sociais onde temos que responder mil coisas sobre nós… ou que publico mil coisas. Nada disso diz tanto assim de mim, não duvidem. Por isso cansei dos papos que já vêm roteirizados por isso que está aí respondido, preenchido, exposto. Eu quero o que não se sabe. E descobri isso quando me vi diante dele.

(ps: seja Destino ou não, aposto na “certa” pessoa e se não der em nada, de novo, estarei por aí; os cadastros foram devidamente deletados, pois serviu apenas como confirmação e pesquisa de campo.)

(ps2: sim, sei que farão objeções às minhas objeções a estes sites, mas a única coisa que eu consegui inferir de um dos inscritos foi que ele era racista, pois colocou que se interessava por todas as cores de pele, menos negra.)

(ps3: meses depois… a tal ‘certa’ pessoa não deu em nada – só fez crescer minha lista de mensagens não respondidas do ano – e encontrei numa outra pessoa, sem convites para café nem banalidades do tipo, através de uma excelente conversa toda a aproximação que eu precisava. Voltei a sentir coisas que há séculos não sentia. E nem usei nenhum site.)

(ps4: o ano é 2016, o texto todo continua válido, até a eterna espera por “certas” pessoas – só a idade dos candidatos que mudou, pois agora é de 18 a 59 anos. O tempo passa, meus caros.)

Sobre as aulas de Filosofia

 

Eu pensava, esses dias, em duas coisas, por motivos diversos e até opostos, que servem muito bem para ilustrar meu sentimento em relação ao que vou escrever.

Por motivos nada nobres eu refletia sobre as coisas que fazemos por fazer, aquelas coisas que servem somente para “constar”. Não encontro motivação em mim para fazer essas coisas, obrigações as quais você sabe que ninguém vai dar bola, que deveriam servir como controle, verificação, análise de algo, mas que na verdade já foram extirpadas das suas funções e existem somente para constar. Pensava numa lista dessas coisas (pense aí na sua, garanto que não será difícil) quando me deparei com um texto publicado no site da Carta Capital. Li e reli a manchete e pensei que não poderia ser o que dava a entender. Mas era.

 

Eis: http://www.cartacapital.com.br/revista/760/os-adolescentes-e-a-filosofia-9201.html

O texto faz alguns comentários sobre a disciplina Filosofia nas escolas. Ela atualmente já é obrigatória no ensino médio, para quem não sabe.

 

Pois bem. Um texto preocupado com a Filosofia em sala de aula? Mas de onde um editor teria aceitado isso? Mas que diacho queria o autor escrevendo sobre algo tão insólito, sobre algo que ninguém está nem aí?

 

E aí lembrei do meu pensamento dos últimos dias e uma máxima que trago sempre comigo: Na vida sempre há o botão “surpreenda-se”. O motivo deste pensamento é muito nobre, nem comparável ao anterior.

 

Aí, agora a pouco no banho, depois de um exílio forçado de escrever para o blog (com a pauta anotada ali e crescendo, mas confesso que este furou a fila), destruída de cansaço e de mal com o bom sono, juntei as duas idéias e resolvi escrever.

 

Fiz a graduação em Filosofia sempre dizendo que não seria professora. Nunca me vi como professora. Sempre achei que isso não era pra mim. Tanto que fiz somente o bacharelado. Fiz por vontade e necessidade pessoal. Tive péssimos professores de Filosofia na escola. Tive aulas vergonhosas de Filosofia. Na verdade nem sei se tive algum professor que fosse realmente formado em Filosofia. Mas tive Filosofia como disciplina da segunda série do ensino fundamental até o primeiro ano do ensino médio. Sim, pois é. Lembro até hoje dos livros da Pimpa. Aquilo tudo nunca fez muito sentido pra mim, confesso. Eram livros curtos que as professoras insistiam em ler aos poucos (eu lia tudo de uma vez só e depois achava chata a demora em terminá-los em sala).

 

Para muitos, as aulas de Filosofia são somente para “constar”, como em muitos cursos de graduação (no bacharelado de Comunicação Social, habilitação Cinema e Vídeo, era assim com a Sociologia também, por exemplo, ambas “para constar” e enquanto não fizeram uma reforma curricular para tirá-las, não sossegaram). É aquela aula “chata” que “não serve pra nada”. Afinal, o que um administrador precisa entender de Filosofia, não é mesmo?

 

A questão da didática sempre foi um problema. Não fiz licenciatura porque as disciplinas eram fracas, superficiais, “para constar”. Muitos dos professores do curso de Filosofia não sabiam nada de didática, por exemplo. Não havia estímulo nenhum em formar professores de Filosofia (que é quase o único campo de atuação profissional da área), vivia-se num mundo à parte, nunca era comentado em sala sobre o ofício de professor de Filosofia para o ensino médio nas disciplinas curriculares do curso.

 

A maioria dos que se formaram não estão em sala de aula. A maioria nunca nem entrou numa sala de aula – alguns, para ser sincera, para o bem dos alunos. Muitos, como eu, procuravam outras coisas no curso do que uma profissão.

 

Eis que aí entra a idéia do surpreender-se com a vida. Um dia, entrei em sala de aula como professora de Filosofia. Hoje, dar aula de Filosofia (assim com de Cinema – e cabe um comentário: tenho nos dois a paixão porque eles tratam de quase tudo da vida, e isso muito me agrada) está no top 10 das coisas que eu amo fazer na vida. É estimulante. É desafiador. É enriquecedor. Eu jamais poderia ser uma professora de matemática, por isso não vou dizer que dar aula de um modo geral é das melhores coisas da vida. Acho, sim, que um requisito para ser um bom professor é amar aquilo com o que ele trabalha. Os melhores professores que conheci são assim.

 

Quando li o texto da Carta Capital, pensei em mil coisas que vi em sala de aula como aluna e como professora. Me senti esfuziante quando li que o autor escreveu algo que eu sempre disse sobre ler os próprios autores, não livros didáticos burros. Vejam, hoje ainda usam os livros didáticos da Marilena Chauí – pois é, aquela, a esclerosada apocalíptica. As declarações dela são famosas, vergonhosas eu diria, e ela é das mais assíduas defensoras do governo atual, ou seja, nada de estranhar que os livros dela sejam comprados a rodo com dinheiro público para serem usados em sala de aula. Mera coincidência? Eu tive que brigar na escola para poder disctribuir os livros para as turmas dos primeiros anos (não havia para todas as séries, assim que decidi dar para aqueles que usariam nos três anos) e não deixá-los lá trancados na salinha atrás da biblioteca, inutilizados. Eu tirava dinheiro do bolso para tirar cópia dos textos que seriam lidos em sala. Infelizmente no livro didático não havia textos dos filósofos.

 

Qualquer um pode ler qualquer filósofo. Na graduação eu implicava quando alguns professores indicavam comentadores para leitura e não os próprios filósofos. Eu fiz meus alunos lerem os filósofos. Foi uma experiência incrível, por exemplo, dar trechos do Dicionário Filosófico, do Voltaire, para eles lerem. Lemos Platão, lemos até Kant! Aliás, lemos Benjamin também! E eles se deram muito bem! Lembro quando numa aula de Filosofia no livro tinha uma história em quadrinhos do Maurício de Souza sobre a Caverna do Platão, acho que eu estava no primeiro ano do ensino médio. Fiquei revoltada com aquilo. Uma história em quadrinho? Como se eu não fosse capaz de ler o texto? Pois fiz o contrário, li o trecho da Rapública com meus alunos do primeiro ano e como exercício eles desenharam a caverna depois de discutirmos sobre o que era aquilo tudo.

 

São coisas assim que me fizeram ter certeza de que a Filosofia não é algo só “para constar”. Por que eu fui fazer a graduação de Filosofia se tive tantas experiências ruins em sala de aula no fundamental e no médio? Justamente pelo que o autor aponta: eu li os filósofos. Eu li o Dicionário do Voltaire, sem entender um monte de referência, nos intervalos da aula no ensino médio. Eu li Kierkegaard. Eu li Sartre. Eu li Marx. Eu lia muita coisa. Aquele mundo me seduziu. E é um pouco isso que um professor faz em sala de aula, ele dá o caminho para que o aluno se deixe seduzir por algo que pode simplesmente mudar a vida dele.

 

A Filosofia não serve só para constar. Ela serve a tudo na vida. Quem lê os livros de Filosofia tem a chance de tornar-se uma pessoa melhor, muito melhor. Claro, é um erro lógico dizer que todos que lêem livros de Filosofia tornam-se pessoas melhores, não é o caso – e entre os professores que eu tive há inúmeros exemplos. Lembro que quando decidi fazer o vestibular, no site da UFSC dizia “o aluno terá o diploma de bacharel ou licenciado em Filosofia, ele não será ‘filósofo’ somente com o diploma pois para isso é necessária a publicação de livros na área e reconhecimento” (algo assim) e já usei essa explicação várias vezes quando alguém faz a piadinha infeliz de “filósofa”.

 

Por isso só posso concordar com o autor quando ele diz que a leitura de textos filosóficos ajudaria na compreensão e interpretação de texto e que aulas de Lógica contribuiriam em muito também. Sobre os alunos não serem fãs de Lógica, bem, a gente até gosta, mas às vezes não entende muito – mas há coisas mais difíceis. Essa semana, por exemplo, há um encontro internacional de Lógica, Epistemologia e áreas afins aqui em Florianópolis. Não vi, na programação, nada relacionado ao ensino de Filosofia. Nada. E é organizado por professores do departamento de Filosofia da UFSC. Há eventos direcionados, mas como em outras áreas, deveria haver, senão em todos, pelo menos na maioria, a preocupação com o ensino.

 

Sobre o texto eu não concordo com o segundo parágrafo, me parece que ele está um pouco desatualizado. Continuo sem saber de onde ele tirou idéia para escrever sobre isso, não que não seja extremamente importante e necessário, justamente pelo contrário. Mas o surpreender-se com a vida vem, muitas vezes, justamente dessas coisas que todos tomam como somente “para constar”.

 

Aliás, fazendo uma análise pessoal, tenho tendência a gostar das coisas que ninguém gosta, que gostar daquilo que dispensam, de gostar daqueles que são ignorados. É um mal que eu tenho, pelo jeito. Chego ao ponto de gostar daquilo que até eu mesma desconsidero. É um bom exercício, recomendo.

 

Não digo, com tudo isso, que devamos colocar os alunos do ensino médio a lerem Quine (só porque acho que isso nem eu mereci). Agora, não vamos subestimá-los. Também não vamos cair na vala comum de nietzschá-los, por favor. O curso de Filosofia da UFSC, para a Sepex deste ano, vai fazer trabalhos sobre ele para atrair jovens do ensino médio. Precisa? Achei que uma boa porcentagem dos que fazem vestibular para Filosofia já era motivada pelos textos do alemão cheio das frases de efeito. Filosofia, gente, serve também (e muito!) como auto-ajuda. Que o diga Schopenhauer, né?

 

Conheço poucos que abraçaram a carreira de professor de Filosofia. A maioria entocou seu diploma, muitos foram fazer o curso porque era mais fácil passar no vestibular e precisam de ensino superior para algum concurso ou coisa do gênero. Não há, também, estímulo para formar professores de Filosofia. Não acho que professor ganhe tão mal quanto alardeiam por aí. Sim, acho que médicos, políticos e engenheiros ganham demais. (é aquele velho abismo da desigualdade, tão nosso conhecido) E, por outro lado, médicos, políticos e engenheiros ajudam muito menos na formação das pessoas. Não é mesmo?

 

Infelizmente ainda são aceitos professores sem formação nenhuma na área para preencher as vagas. Esses e outros comentários sobre a situação real nas escolas ficam evidentes nos comentários do texto (sim, leiam com aquela ressalva e só se tiverem estômago forte, recomendação boa para a leitura de qualquer espaço de “comentários” na internet hoje).

 

Enfim, bom saber que há alguém se preocupando com isso e escrevendo sobre numa revista de maior circulação. Não gosto das coisas que ficam encarceradas nas salas de aula, escolas, universidades. Queria que pais lessem isso e pensassem nas aulas de Filosofia dos filhos. Queria que não os livros didáticos não fossem decididos pelo lobby politiqueiro de sempre.

 

Acredito cegamente que certas coisas mudam as pessoas e mudam a vida das pessoas. Sei que a Filosofia faz isso, até com alguns espíritos obtusos que andam por aí. E, afinal, o botão “surpreenda-se” está sempre aí esperando ser pressionado. Eu recomendo. (e nem gosto de ficar recomendando nada porque isso parece arrogância; peço licença por este excesso)

 

 

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