Delete

 

Ontem cogitei seriamente em apagar o blog. Não sei se ele serve para alguma coisa, mas acima disso, pois que não sou pessoa de utilidades, não sei se ele ainda faz sentido pra mim.

 

Não tenho escrito o que quero. Isso me irrita muito.

 

Aí lendo Rubem Alves (a leitura dele vai a conta-gotas pois é deliciosa e me faz pensar em mil coisas, quanto mais delicioso o livro mais quero que ele demore para acabar – livros são como os relacionamentos, sempre terão fim) de madrugada encontrei esta: “Mas quando se inventem estórias não se está procurando a verdade, e sim a beleza.”.

 

Escrevi aqui, por esses dias, que queria histórias. E maldita Língua que fez cair o tão mais coerente “estórias”. Preciso de histórias e estórias. Dane-se a verdade. Procuro mesmo a beleza. Não a tenho encontrado em lugar algum, em nada nem em ninguém. Se não é pela beleza, não escreverei mais.

 

Ninguém sentirá falta. Minha vida (daquelas conclusões boas que a gente encontra pelo caminho) não faz diferença para ninguém.

 

“Escrevo, mas não tenho nem teoria nem método.” me disse o Rubem. Não tenho. Não quero ter. Não terei. Danem-se as teorias e os métodos. Só preciso de histórias e estórias. Porque o que eu busco é a beleza. Não há beleza nas teorias e métodos. Não há beleza na maioria das palavras desperdiçadas por aí. Guardarei a raiva para aguçar a memória, pois esta se faz de boba com qualquer palavra bem colocada.

 

Não vou engolir a revolta de não escrever o que quero. Não engulo minhas revoltas. E talvez este seja o mais intrigante do mundo virtual, assim que eu apagar o blog ele nunca terá existido. Tenho me sentido tentada a apagar rastros digitais da minha vida e tentar manter apenas os reais. Já foi uma vida, agora seria apenas uma experiência.

 

Enfim, preciso de histórias e estórias. Busco apenas a beleza.

 

 

A pedidos: a volta dos relacionamentos

 

Eu poderia dizer: não gosto (ou acredito) em relacionamentos. Seria reduzir demais a discussão. Para começar, quero separar as duas coisas: sentimentos e relacionamentos. Sentimentos vivem melhor sem os relacionamentos, e estes acabam com os primeiros. Sim, relacionamentos fazem mal aos sentimentos.

 

Por que falar novamente sobre relacionamentos? Porque me pediram, porque andei pensando sobre e porque tenho observado algumas coisas. Recentemente vi alguns (e não foram poucos) relacionamentos terminarem. E nem falo desses namoros de três meses. Vi casamentos de dez anos, relações estáveis (no papel) de cinco anos, namoros de dois, quatro anos, acabarem do nada. Claro, do nada nunca é. O que pude observar é que a iniciativa partiu dos homens e “sem explicação” – o que levou as mulheres a dizerem “ele tem outra”. Sabe, acho que nem seria o caso. Mas, enfim, numa situação dessas sempre queremos uma explicação ou um culpado. Que seja a outra.

Já terminei alguns relacionamentos. Sou péssima com relacionamentos. Quer dizer, reconheço que há coisas lindas e deliciosas nos relacionamentos – não sou estúpida – mas acredito que a convivência e a balança que existe em todos eles não são pra mim. Manter um relacionamento é muito difícil e, mesmo assim, tem um monte de gente por aí que consegue. Será?

Vi um casamento de dez anos chegar ao fim através de e-mail. Minha mãe ficou chocada. Eu já terminei um relacionamento por e-mail (vejam bem, já havia terminado presencialmente umas três vezes e o cara não entendia, só me restou o meio virtual). Pelo que me lembre, sempre fui eu a terminar os relacionamentos. Namoro mesmo, com toda pompa e circunstância e com direito a “relacionamento sério” no Facebook, só um. Ah, sim, nunca gostei de namoro. Me explico. Desde cedo via aqueles casaizinhos na escola e pensava (provavelmente dizia), se namorar é andar de mãos dadas, sentar no banco da praça e tomar sorvete no shopping, eu dispenso. E sempre dispensei mesmo. Não é pra mim.

Aí virão dizer que sou recalcada, que é pela proximidade do dia dos namorados e blábláblá. Não. Vejam só, já passei muitos “dias dos namorados” acompanhada e (tenho testemunhas!) na maioria esmagadora deles nem dei bola pra data. Se eu disser que só tive dia dos namorados duas vezes não estarei exagerando. Aliás, um deles foi publicado aqui no blog. O restaurante do qual eu falava naquele post nem existe mais. Nem o namoro da época.

Os relacionamentos têm esta capacidade de corroer, deteriorar, consumir o sentimento. Já ouvi de muitas casadas “ah, não é mais a mesma coisa, a gente se respeita (isso não cabe em todos os casos, vejam bem) e tal e coisa”. Nunca é a mesma coisa. É que tem os bens, os filhos, as carreiras, os salários (que juntos, todos sabem, rendem mais e possibilitam financiamentos e afins), as famílias. Já vi situações nas quais as pessoas não se separaram por conta do apartamento que foi comprado em conjunto, porque não se via voltar para a casa da mãe, essas coisas. Isso me apavora. Já não há o sentimento que havia, ambos estão infelizes e o que segura a relação é… o dinheiro ou coisa que o valha?

 

Não é pra mim. Já vivi sentimentos e histórias muito boas. Muito. Relacionamentos nunca tive algum que sequer me desse saudade. E provavelmente já estou velha para cair em conversa de homem. O convite para o café ou o cinema daquele que só quer, na verdade, sexo, pouco me interessa. Declino na hora – e muitas vezes nem educadamente. E os joguinhos? Sério, gente? (cá está minha cara de tédio) Homens e pirralhos a fazerem joguinhos de te deixar no vácuo, fazer cena para despertar ciúme, um dia todo querido, carinhoso e cheio de promessas, no outro se esquivando… alguém ainda cai nisso? Sério? Será que eles percebem o quanto são repetitivos? Eu gosto de boas conversas, nunca neguei isso. E como falava em outro post, não é porque eu converso com um cara (como com o tatuador ontem) que eu estou colocando uma placa “disponível para sexo”. Deus me livre fazer sexo com todas as pessoas com quem consigo ter uma boa conversa. Aliás, tem aqueles que não conseguem ter dois minutos de conversa (nem estou aferindo a qualidade da conversa) e nem para sexo servem.

 

Sempre tive mais amigos homens do que mulheres – questões de praticidade e falta de frescura. Contudo, já reparei num dado interessante. Quando não estou em algum tipo de relacionamento com o sexo oposto, os amigos homens somem. Pois é. Depois da primeira paixão, lá se vai muito tempo, por um amigo, criei a regra “amigos, amigos, homens à parte”. As amigas comentavam sobre a tal friendzone, aqueles amigos que num dado momento você já não sabe se é algo a mais, seja da tua parte ou da dele. Tenho uma amiga em especial que é doutora na área. E eu acho que pessoas que caem nessa armadilha são aquelas que têm a questão do relacionamento muito forte, gostam da convivência, se apegam às pessoas, gostam da rotina. Porque amizade tem muito disso – e de amizade eu entendo. Passei por uma situação, ano passado, que era isso – ao que tudo indica. Não me apaixonei pelo meu amigo, mas confesso que já não sabia se o mesmo não tinha se passado com ele. Resultado: perdi um amigo. E perder amigo eu não aceito. Já disse, se tem uma coisa que eu sei fazer bem é ser amiga – sou das melhores. Esses dias estava ao mesmo tempo conversando coisas interessantíssimas com três amigas – uma que já é amiga há uns quinze anos (desde os tempos do Fundamental), a outra há uns sete anos (do tempo da graduação) e outra que conheci superficialmente na graduação mas que virou amizade há uns dois ou três anos. E tenho amigas de várias idades. Nunca fiz distinções de nada. Por prezar tanto a amizade que não tolero que outras coisas a prejudiquem. Infelizmente nem todo mundo é assim.

 

O que eu vejo dos relacionamentos é que as pessoas incluem neles muitas coisas que deveriam ficar de fora. Eu sempre fui muito radical, por exemplo, no quesito “família”. Não precisa (nem faço questão) conhecer a minha, nem quero (aliás, tenho pavor) de conhecer a do outro. Só dá merda. Sempre digo que o homem ideal é órfão. Quanto menos coisas “burocráticas” fizerem juntos, melhor. Por isso não acredito na reprodução em cativeiro (me explico, casais que trabalham juntos, que se conhecem no trabalho, no mesmo curso, essas coisas). Acredito que tempo e distância, bem dosados, fazem um bem danado aos relacionamentos. Sabe a vontade de estar junto? É boa, mas ficar o tempo todo junto vai fazer ter vontade de não estar junto. São coisas que a gente vai aprendendo com a vida. Dinheiro: nunca (eu disse nunca? repito: nunca) deve ser envolvido numa relação – nunca. No meu caso fórmulas prontas e repetição também estão fora – sei que tem quem adore rotina e sempre os mesmos programas, eu acredito que repetição mata qualquer coisa. Sinceridade sempre é essencial. Sabe o que eu sempre ouvi? Que não eram sinceros comigo porque “já sabiam como eu iria reagir”. Gente, vocês não têm noção de como isso me deixava com raiva. Sabe como eu vou reagir? Então me deixe reagir! Não esconder o que não deve é um conselho que todo casal deveria ter em mente. No meu caso não é bom esconder nada, porque invariavelmente eu descubro. E aí, ah, aí eu reajo. Tenho péssimas reações acerca de algumas coisas, é fato. Mas aí eu pergunto, relacionamento não é saber aguentar e conhecer o outro? Minhas péssimas reações vão junto, não tem como “evitar”. E, aliás, essas péssimas reações hoje são bem poucas. Troquei-as pela indiferença. Nem perco meu tempo tendo “reação”, só viro as costas. As testemunhas não são poucas.

 

Esses dias conversava com uma amiga (que está numa situação crítica, daquelas que a gente faz a tempestade antes dela acontecer) e ela me incentivava a seguir adiante na situação com um rapaz. No dia seguinte comentei uma coisa com ela e o conselho era justamente o oposto “não faça isso, não fale!”. Indaguei sobre a contradição e ela só me respondeu “daqui a pouco você vai estar como eu”. Pensei, pensei, e segui o conselho. Não fiz, não falei. Sim, fiquei um pouco (bem pouco) mal com isso. Eu queria ter feito, queria ter falado. Pensando bem, duvido que eu ficasse como ela. Já disse, estou velha pra isso. A gente aprende. Mas, também, não quis correr o risco. Todo relacionamento acaba. Disso eu sei. O problema, nesses casos, é o sentimento. Desses nunca consegui escapar – mas tenho conseguido rebolar bem ultimamente, acho que ando mais desconfiada. No relacionamento é possível colocar regras, limites. No sentimento não. (ia colocar um palavrão aqui, melhor não) E tenho cá pra mim que sou daquelas que ama amar – não necessariamente amar este ou aquele. E aí, ah, aí a coisa complica um tanto mais.

 

Além da decepção com os amigos que somem quando estou sozinha (vão à m, queridos) como agora, me dei conta de algo que me decepcionou ainda mais. Conversava esses dias sobre o que é apaixonar-se. Me disseram que nos apaixonamos pela pessoa, pelo jeito dela, pelo que ela diz, faz. Pois é. Já se apaixonaram por mim por causa disso. E minha decepção foi constatar que em todos – todos – os casos em pouco tempo eles tentavam domar tudo isso. Sim, tentavam me domar, meu tom de voz, minha risada, minhas loucuras, meu descontrole, e tantas outras coisas que nem vou listar aqui. O motivo? Não sei. Não é fácil conviver comigo, eu sei. Então, fica a sugestão, ao invés de querer domar, se mande. Faça como eu, ao ver que tentavam me domar, ou que o relacionamento desandaria, ponha um fim. Não há sentimento que me segure num relacionamento que já não existe mais. E sentimento é daquelas coisas que precisam ser regadas e alimentadas todo dia, se você terminar o relacionamento e seguir adiante ainda com algum sentimento, ele não vai sobreviver muito tempo – só se você se der ao trabalho de alimentá-lo, o que eu não recomendaria. Não se torne um mal-amado, recalcado, chato.

 

Iludir-se é bom, até recomendo, mas jamais sobre os outros. Não me contento com pouco. Talvez eu sempre queira demais. Eu ainda acredito que até num relacionamento isso é bom. Assim sinto que as coisas se movem, que têm um objetivo. Já vi muita vida desperdiçada porque parou no apartamento financiado juntos, empregos estáveis, segurança e “respeito”. Tem quem é feliz com isso, longe de mim querer crer que todos almejam o “movimento”. Nunca acreditei lá no poeta de que é impossível ser feliz sozinho. Vejo muita gente desesperada por “ter alguém”, um relacionamento. Acho que essas pessoas acreditam no poeta, ou querem desesperadamente acreditar. Ainda sou mais daquele clichê que se a pessoa não consegue ser feliz consigo mesma, jamais o será com um “outro”. Eu nunca consegui me divertir tanto com alguém do que me divirto sozinha. O problema é que as pessoas não querem “ser feliz” com o outro, elas querem prazer, elas querem segurança (ou o velho golpe mesmo), elas querem crescer profissional e financeiramente, elas querem alguém pra tirar o lixo, para ter companhia pro cinema, pra ir no Madero no dia dos namorados, ou alguém que lhes mande flores.

 

Eu? Eu não guardo datas. Eu nunca sei quando começou ou terminou um relacionamento (tem gente que me pergunta essas coisas). Eu não dou bola pro dia dos namorados. Nunca recebi um buquê de flores (nem da família) – como me disse uma vez uma aluna, ao receber um em sala, “flor a gente leva para os mortos”. Levo muito em conta a felicidade e já descobri que pra isso não importa nada ali da última frase do parágrafo anterior. Vi pessoas descobrirem que você não pode depositar nos outros a sua felicidade – grande lição, aliás.

 

Ah, só para encerrar (penso demais, escrevo demais, falo demais – pouco nunca foi meu forte), falar sobre as coisas ajuda pra caramba. Falar sobre relacionamentos, principalmente com quem você está, resolve muita coisa. Eu falo de tudo – menos de sentimentos. Sentimento tem que ser sentido, percebido, descoberto. E nessa história não há erros ou acertos.

 

 

As pimentas do Rubem

 

Não era para eu estar escrevendo neste exato momento, mas não resisto.

 

Nem vim contar que ontem vi mais uma estrela cadente, não foi em Guaíra, foi no Campeche mesmo, e bela como da outra vez – o pedido também foi o mesmo da outra vez.

 

Mas é que passei uma parte do fim de semana com o Rubem Alves (sim, já citei-o aqui sobre as Gerais) e desde que li um texto dele há uma idéia fixa martelando meus pensamentos. Já escrevi uma vez sobre o ato e os motivos de escrever para o blog, de vez em quando falo disso.

 

Estou num momento de descrer um pouco das palavras como comunicáveis para os sentimentos, por exemplo. Tanto que me peguei pensando que não escrevi sobre Teresina e escrevi sobre Belo Horizonte. O que eu sinto é real demais, está sempre tão na superfície, à flor da pele. Porém, quem me vê acha que tenho sangue de barata. É só para iniciados. E as palavras?

 

Decidi que não quero nunca mais ouvir um “te amo” (ou “eu te amo”, ou “amo-te”, qualquer variação). Decidi isso, assim, baseada na incomunicabilidade das palavras e na crença de que sentimentos e tantas outras coisas devem ser expressos e sentidos – jamais ditos. Demonstre. Aja. Isso me basta. Tenho me furtado às palavras dessas veredas… mas não perco uma boa conversa. Isso me lembra outro post dessas últimas semanas – talvez o mais incompreendido do blog até hoje. Tenho simplesmente afastado as palavras das coisas, das pessoas, dos sentimentos. Acredito que não das idéias.

 

Assisti a um dos melhores filmes que já vi no cinema, filme feito para a sala escura, para a telona. Era sobre sentimentos. Havia poucas palavras, uma dose exata e deliciosa de música, uma direção de babar, uma incomunicabilidade dolorosa, sons bem percebidos (como o tique-taque do relógio numa sala onde duas pessoas não falam – aqui, agora, é o que ouço, somente o relógio me agitando). E a cena que mais disse tudo neste filme foi a da protagonista lambendo o ombro do seu amante. Ela nunca conseguiria explicar isso para o marido.

 

Enfim, “O que escrevo não é o que tenho; é o que me falta.”, diz ali o Rubem. Pensei mil coisas para conseguir justificar com esta frase – inclusive a falta que eu tenho com trazer coisas do meu cotidiano para o blog e tantas outras questões. Rubem respondia à questão (que nunca lhe foi feita) se ele é mesmo como escreve e tascava “Escrevo o que não sou”. Sim, sim… e aqueles que dizem que, ao escrever, não conseguimos fugir de nós mesmos? Não sei. Sobre o poeta escrever para invocar a coisa ausente faz ainda mais sentido… Pensando cá com meus botões cheguei à idéia que escrevo pelo que me falta, sem jamais chegar a citá-lo. Eis a incomunicabilidade das palavras. Escrevo o que me falta, talvez não consiga ser tão fiel ao que não sou, mas decididamente não escrevo tudo – muito menos o que sinto. E eu? Sou mesmo como escrevo?

 

Esses devaneios acabaram sendo dirigidos para todos os tipos de escrita do momento – livro, blog, dissertação, e-mails, chats, diário (oh, yes! retomei-o!) – e geraram um momento de auto-reflexão monumental. Me deu até vontade de mandar um e-mail para o Rubem agradecendo às pimentas (vejam só, ele é mineiro e ao falar em pimentas não esqueço as maravilhosas lá do Mercado Central), como ele mesmo diz no começo do livro “Pois há idéias que se assemelham às pimentas: elas podem começar incêndios nos pensamentos.”. E lembrem-se de nunca tomar água para apagar o incêndio de uma pimenta. Se para começar um incêndio não é preciso fogo, foi feito o estrago.

 

 

Os Homens da Minha Vida – Stendhal, os 28, os suspiros e a verdade

 

Entre delírios febris que me impedem de trabalhar e estudar direito, me agarrei ao Stendhal e ao amor.

 

Foi assim num gesto de amor à primeira vista quando ele me disse ao pé do ouvido, num começo de madrugada, que o amor é como a febre, que vai e vem quando bem entende. Sem alguém a quem amar (!), tendo sempre o amor disponível em mim, uma febre que desencadeou coisas ruins como ela – dores inenarráveis, períodos de sono intenso e de dispersão insone total -, nada rendendo, peguei-o de jeito ao lado da cama de onde mal saio nos últimos dias.

 

Como cheguei até ele? Então, eu e uma amiga rodopiavamos pela feira do livro de Fpolis, entre discussões literárias, amantíssimas e sobre amores reais, quando dei de cara com “Do Amor”, uma obra que se diz capaz de explicar os estágios do amor. Olhei para a amiga e disse que compraria o livro para ver se a compreendia – ela, ao que todos os sintomas indicam, está amando. Já não sei se ela está amando ou se está amando a idéia de apaixonar-se e eis que pra mim isso nunca conviveu muito separado, enfim. Eu? Eu ando despojada dessas artimanhas do coração. Pela segunda vez na vida, desde que caí no buraco negro dos sentimentos profundos pela primeira vez, entrei em recesso. Um recesso necessário, frutífero, eficaz, aprazível, instigante. Quem sabe eu saia dele, ou não. Se for pra sair como saí do anterior, vocês ouvirão os tambores e os trovões.

 

Me sinto até um pouco culpada porque sou muito grosseira para essas coisas do coração. Revi e reli algumas coisas da minha vida amorosa (óin!) e toda vez que faço isso me sinto um rinoceronte no quesito delicadeza e compreensão com os sentimentos alheios. Um rinoceronte. Aí quando a amiga vem falar dessas coisas, das dúvidas, da cristalização, dos arroubos, dos desesperos, rinoceronteio do modo mais direto possível. Preciso mudar. Então, em meio a essa febre que não é nem de longe de amor, que Stendhal me ajudasse.

 

E ajudou. Ajudou muito. A amiga não tem salvação. Pulando essa parte, Stendhal resolveu tratar da minha vida. Sim, ele escreveu a minha vida amorosa (brega, né?) melhor que eu e muito antes de eu vivê-la. Aí matutei, matutei e fiquei intrigada porque, na verdade, ele já escreveu o próximo capítulo. Quem acompanha o blog já deve ter lido algum dos capítulos da série “homens da minha vida” (um deles, o último, ainda não foi publicado por motivo de força maior, mas espero em breve postá-lo) e entre os últimos de um anúncio de jornal e de uma página em branco, Stendhal previu o próximo.

 

Serei breve. Essas poucas linhas já consumiram o resto de energia que angariei tomando cachaça com mel (xarope, chá, mil remédios, nada deu conta, a cachaça foi a “solução final”). Colocarei a citação literal dele aqui.

 

“Uma moça de dezoito anos não possui muita cristalização em seu poder e forma desejos muito limitados pela pouca experiência que ela tem das coisas da vida, para encontrar-se em estado de amar com tanta paixão como uma mulher de 28 anos.

Esta noite exporei essa doutrina a uma mulher de espírito que pretende o contrário.

– A imaginação de uma jovem, não se encontrando congelada por nenhuma experiência desagradável, e o fogo da primeira juventude se encontrando em toda a sua força, é possível que, sobre um homem qualquer, ela crie uma imagem maravilhosa. Todas as vezes que encontrar seu amante, ela desfrutará não do que ele é efetivamente, mas dessa imagem que ela criará. (*adendo meu: suspiros)

Mais tarde, desenganada desse amante e de todos os homens, a experiência da triste realidade nela diminui o poder da cristalização, e a desconfiança corta as asas da imaginação. (*momento atual) Sobre qualquer homem, mesmo que ele venha a ser um prodígio, ela não mais poderá formar uma imagem tão cativante; ela não mais poderá amar, portanto, com o mesmo fogo de sua primeira juventude. E como no amor só se desfruta da ilusão que se faz, jamais a imagem que ela puder criar aos 28 anos terá o brilho e o sublime daquela sobre a qual se fundara o primeiro amor aos dezesseis, e o segundo amor (*a quantidade de “primeiros” e “segundos” é questão de interpretação) sempre parecerá de uma espécie degenerada.

Não, madame, a presença da desconfiança, que não existia aos dezesseis anos, é evidentemente dar uma cor diversa a esse segundo amor. Na primeira juventude, o amor é como um rio imenso que tudo leva em seu curso, ante o qual se sente que não se poderia resistir. Ora, uma alma terna conhece-se aos 28 anos; ela sabe que, se para ela ainda existe felicidade na vida, é no amor que é preciso buscá-la; surge, nesse pobre coração agitado, uma luta terrível entre o amor e a desconfiança (*próximo capítulo). A cristalização avança lentamente; mas a que sai vitoriosa dessa prova terrível, em que a alma executa todos os seus movimentos ante a vista contínua do mais terrível perigo, é mil vezes mais brilhante e mais sólida do que a cristalização dos dezesseis anos, quando, pelo privilégio da idade, tudo era alegria e felicidade.

Então o amor deve ser menos alegre e mais apaixonado.”

 

Balzaquianas é para as fracas! Bem entendia Stendhal dos 28 anos das boas almas. Sei que fui fazer uma pilhéria com os arroubos amorosos da amiga e acabei sendo usada pelo Destino para que eu me entendesse. Quando ele termina com “menos alegre e mais apaixonado”, ninguém tem idéia do quanto isso me deixa feliz. Já é o título do próximo capítulo (que, por sinal, vai demorar um pouco para acontecer). Consigo compreendê-lo e acreditar que a cristalização avançará lentamente e será mais brilhante e mais sólida do que a dos dezesseis. Ele não deixou escapar nada.

 

(a dor de cabeça quase me fez abandonar por aqui sem sequer publicar)

 

Foram sobre esses pensamentos que quis escrever… quando escrevi aqui sobre a incomunicabilidade da guerra não atentei para o outro lado: a incomunicabilidade das belezas e delícias da vida. Já quis escrever aqui sobre muitas coisas, já me pediram que eu escrevesse sobre isso e aquilo (sim, recebo pedidos de pauta e adoro isso!), tal lugar que visitei, minhas considerações sobre algumas viagens e tal. Sei que disponho o espaço do blog para cenas da minha vida, mas devem ter reparado que elas têm sido cada vez mais raras ou que surgem somente como estopim de uma reflexão maior. Talvez eu tenha me agarrado à razão (“a razão jamais lhes é útil” diria o Stendhal sobre as mulheres). É assim que comunico a incomunicabilidade dos deleites da vida. É difícil vir escrever sobre certas coisas. Mas eu prometo tentar. Tenho que mudar essa frieza.

 

E volto ao Stendhal, pois foi assim que ele me fez pensar nisso “Faço todos os esforços possíveis para ser frio. Desejo impor silêncio ao meu coração, que imagina ter muito a falar. Sempre tremo ante a idéia de só vir a escrever um suspiro, quando imagino ter anotado uma verdade.”

 

 

Sobre a guerra

Hoje, dia 8 de maio, comemora-se o fim da Segunda Guerra Mundial.

Não é uma data que eu guardo comigo, aliás, quase não guardo data nenhuma. Mas achei que caía bem com os meus últimos pensamentos. Pensava em quão mesquinha é a vida. E aí, talvez pelos filmes e séries que tenho assistido, pensei no quanto a guerra faz falta para que compreendamos certas amplitudes da vida. Sim, a guerra. A última possível guerra lá das Coréias, por exemplo, virou piada de internet. Há muitas guerras em andamento pelo mundo, mas muitos de nós estamos bem distantes delas e talvez nunca tenhamos contato com nenhuma.

E me foi impossível fugir da questão da incomunicabilidade. Sim, o chato do Benjamin traduziu muito bem a questão. Os fatos, a cumplicidade, da guerra era incomunicável. Quem já passou por certas dores terríveis, profundas, da vida sabe o que é essa incomunicabilidade. Eu não consigo falar nem escrever sobre certas coisas pelas quais já passei. Às vezes não consigo nem lembrar delas… na maior parte do tempo é como se elas convivessem comigo o tempo todo, ali no cantinho, e eu as ignorando. Eu sei o quão impregnadas estão dessas lembranças muitas das minhas ações cotidianas. E ninguém desconfia.

Eu sempre penso nisso. Quando ouço relatos de momentos dolorosos, relatos sempre parciais, titubeantes, como o bom relato de algo incomunicável. Quando assisto a filmes sobre fatos que cortam fundo os personagens, alguns durante guerras por sinal. Lembro sempre do livro do Ribakov, que de tão mestre em narrar o inenarrável, me deixou sem palavras. Ou de alguns livros do Huxley (não os famosinhos dele) que se detém no incomunicável entre os seres humanos. Sempre que vejo a vida com o excesso de palavras por coisas tão comezinhas, ridículas e rasas, penso no incomunicável. Nas nossas tentativas, inclusive, de tentar colocar em palavras (e imagens) aquilo que não é possível de dizer.

Sim, a ausência de grandes guerras nos fez perder certas dimensões da vida, mas não é por isso que eu vou deixar de pensar nelas. O 11 de setembro, por exemplo, causou essa incomunicabilidade no mundo contemporâneo. Dois filmes são muito bons ao trabalhar com isso, um com o Pierce Brosnan (não lembro o título) e o “Extremely Loud, Incredibly Close”, este último, aliás, com um título tão perfeito que descreve por si tudo o que estou tentando pensar aqui. Com o mundo moderno a Psicologia abraçou essas questões, mas eu não acredito nela. Muitas guerras, hoje, estão restritas a espaços e grupos e isso diminui ainda mais a experiência humana.

Hoje é assim, curto, breve, sem grandes conclusões… incomunicável. Talvez as pessoas precisem sofrer (mais) para conseguir distinguir os valores reais das coisas da vida.

Já fui acusada de ser insensível, prática e até racional demais (vejam só!) em certas situações. Eu diria que é o peso da balança. Quando jogam uma coisa de um lado, o que eu ponho do outro lado é que faz ela ter um peso comparativo. Se você não tem nada para colocar, o que estiver lá vai valer muito – e se você tiver mas não conseguir comunicá-lo nem à própria balança, o que não era pra ser tão valoroso, será.

Tenho um certo receio de um mundo com menos guerras, com menos experiências que nos dêem proporções devidas à vida. A mesquinhez tende a dominar e as pessoas a serem menos amplas.

 

O bem, o mal e dois gatinhos no bueiro

Hoje o dia começou com o seguinte diálogo:

“Ele seria feliz comigo.” (disse eu) “E você, seria feliz com ele?” (a resposta-pergunta veio de sopetão) “Eu sofreria. Mas, eu gosto de sofrer.” (finalizei)

 

E foi o dia para pensar o quão incomensurável são o bem e o mal. Seja na proibição instituída por um governo, seja no caráter de uma pessoa, seja no meu amor passional.

 

Pensando nisso, nessa dificuldade, segui meu caminho. Ia para um lado, acabei, por circunstâncias da vida, indo para outro. Nem tive tempo de me irritar porque não iria para o meu canto favorito da Ilha. Estou pondo fé no Destino.

 

E eis que entre fotografias, pensamentos, longas caminhadas, estava eu ali em algum ponto entre a Caicanga e a Caeira da Barra do Sul. Do nada quatro olhinhos me chamam a atenção.

DSCN2275_1120x800

 

Vejo, fotografo, paro e penso. Não, de novo não. Não, não posso deixá-los aqui. O risco deles serem atropelados era gritante. Estavam na beira do trecho onde é mangue. Ninguém por perto. Penso. Começo a chamá-los, tento atraí-los e o laranja já estica a pata com as unhas e abre o bocão. Não, gatos não gostam de mim. O cinza ensaia sair e o laranja parece o protetor, não deixa e ainda quer defendê-lo de mim. Chamo, tento atraí-los, penso. Eles se enfiam mais no buraco, estão muito assustados. Dou uns passos adiante e olho para trás: os dois estão com metade do corpo pra fora me espiando. Impossível ir embora e deixá-los ali.

 

Volto e continuo minha saga. Carros passam e buzinam reclamando de eu estar ali na rua tentando tirar os dois teimosos. Aí aparecem três meninos de bicicleta. Perguntas. Eu mostro os gatinhos e a operação de resgate começa.

 

Um deles, um pouco mais velho, com um cabelo laranja lindíssimo e sardas, assume a liderança. Eu pergunto se algum mora perto, nem que seja para ficar por uns dias, eu daria um jeito de encontrar quem pudesse adotá-los. Eu, antes deles aparecerem, já havia resolvido colocá-los na mochila e trazer pra casa. Ia dar um jeito. Não poderia ficar com eles, mas encontraria quem pudesse. O menino ruivo, Eli, diz que vai ficar com eles, que já tem uns e pronto. Os bichinhos é que não queriam sair por nada. Nós quatro em volta da tampa do bueiro, o cinza, mais amigável, sai mais fácil. O outro se joga mais para baixo. Aí aparece uma mulher e resolve ajudar. Eu digo que o melhor – talvez único – jeito é tirar a tampa. Você já ergueu uma tampa dessas? Pois é.

 

Enquanto isso, passa um casal. Sabe aquele tipo de pessoa que sempre tem palpite pra tudo? Pois é. A mulher começa o discurso “ah, acharam um ninho de gato?” (gato faz ninho, vai ver) O laranja, quando ouvia o outro, ensaiava sair. Mas não esquecia das unhas. Aí o cara deita na tampa e começa a enfiar o braço no buraco “ah, não adianta, agora ele caiu lá, já foi”. Confesso que meu auto-controle é um lindo. A mulher insistia “Larga esse aí, deixa ele ir lá com o irmão, ele não quer sair”. Eli levanta a voz naquela confusão e diz “Não, eu vou levar pra casa. Não vou deixar aqui, podem ser atropelados, qualquer coisa.”, a mulher faz careta e solta “Ah, que bom, que coisa boa, né?” e, felizmente, vão embora. Sabe o tipo de pessoa que não ajuda, que tem uma mentalidade infeliz? Pois é.

 

Não dava pra deixar de perceber o bem e o mal dançando…

 

Nos juntamos e depois de umas tentativas eis que conseguimos levantar a tampa. O gatinho se assustou e se jogou na água, sumiu. Momento mais desesperador. Resolvemos então jogar a tampa para o lado. Erguemos de novo e felizmente lá estava ele, tinha conseguido nadar de volta. Confesso que meu coração, apesar das vozes até negativas na nossa tentativa de salvamento, deu um nó quando ele se assustou e sumiu na água. Não poderia causar mal a ele enquanto tentava salvá-lo.

 

Um deles pegou-o e ele abriu o berreiro e pulou. Fui eu pegá-lo. Fui arranhada e abocanhada. Sim, duas mordidas daquela boquinha minúscula e meu dedo começou a sangrar. (Seguiu latejando e agora está inchado com as marcas dos dentes – se não der febre nas próximas horas, beleza, sem infecção. Não se preocupem, a UPA é aqui do lado.)

 

Agora a dúvida era como levá-los, tirei o casaco e a bolsa da câmera da mochila e colocamos os dois ali. Havíamos decidido, ele não morava muito longe, eles me acompanhariam de bicicleta e eu iria à pé com os bichinhos na mochila.

 

Devo abrir um parênteses para contar minha relação com os gatos. Nunca gostei deles. Ou eles nunca gostaram de mim. Sempre tivemos cachorros, então gatos eram os chatos que passavam nos muros fazendo com que eles latissem muito. A primeira vez que peguei um foi quando caminhava à beira de uma estrada do interior debaixo de uma chuva torrencial. Era um laranja também, minúsculo, que pulou na minha frente. É claro que peguei-o (com toda a dificuldade do mundo e muitas unhadas) e não poderia deixá-lo ali. Caminhei alguns quilômetros com ele e deixei-o seguro no banheiro de um restaurante na estrada. Não tinha como levá-lo. Ele, em agradecimento, fez xixi em mim. Coisas da vida. Eu tinha uns vinte anos. Depois eu adotei uma gatinha para dar de presente. Atravessei a Lagoa com ela na mão, até o Canto da Lagoa. Ela também queria me enfiar as unhas. Enfim, depois eu peguei-a de volta de quem eu havia presenteado. Um dia, voltei pra casa e tinha uma laranja deitada nos degraus da porta. Essa me adotou. Entrou em casa e ficou. Nada arisca, uma loira-louca. E, enfim, as amo. Mas gatos, no geral, ainda não gostam de mim. E se você me encontrar andando com um gatinho na mão por aí, não estranhe.

 

Não sei o que há nisso de encontrar gatos em beiras de estrada. Enquanto caminhava (a casa do Eli nem era tão perto assim), pensava na discrepância entre as pessoas. Eli, além de lindo, é um menino inteligente, voluntarioso, decidido. Olhava pra ele e pensava que quero ter um filho assim – ruivo e tudo. Eles criticaram um babaca que fez um racha com ultrapassagem perigosa na nossa frente. Eu pensava “então a humanidade não está perdida”! Eles me acharam uma louca por estar lá caminhando. Quando eu disse que morava no Campeche ainda perguntaram “mas você vai à pé até lá?!” com olhos esbugalhados. Não, não iria. Só ia caminhando até a casa da senhorinha que faz picolés iguais aos que a minha avó fazia, ali no Ribeirão, perto dos restaurantes.

 

O bem e o mal são mesmo incomensuráveis. Enquanto existem pessoas tão más a ponto de abandonar dois gatinhos à beira de uma estrada, existem pessoas de coração tão bom como o Eli, para levá-los para casa. O bem e o mal podem ser incomensuráveis, mas as pessoas não. Pessoas são boas, ou são más. Eu achava que fazer o bem era normal, obrigação até. Fiquei pensando que não sou o tipo de pessoa que anda por aí arrotando suas boas ações, mas as pratico. Não vou elencá-las aqui. Mas é um hábito, realmente. Quando criança eu achava que doar roupas, remédios, comida e utensílios, várias vezes ao ano era normal. Eu realmente achava que todo mundo fazia. Sim, foi um choque descobrir que não. Minha mãe me mostrou, talvez até sem querer, a importância de fazer o bem.

Também minha mãe me fez amar animais. Que tipo de pessoa faz mal a um animal indefeso? Ainda o tipo de covarde que não matou os gatinhos, deixou-os ali para serem atropelados. Sim, porque a idéia de que alguém os encontraria era só para acalentar sua consciência putrefata ao deitar no travesseiro.

 

Não sou daquelas que vive publicando fotos de animais para adotar, nem que faz campanha contra venda de filhotes, nem nada. Porque acredito em atitudes. Se certas pessoas tivessem salvado tantos animais quanto fotos deles que compartilham no Facebook, não existiriam animais nas ruas.

 

Eu estava precisando disso. Foi o complemento perfeito para as últimas reflexões. Ando cercada por pessoas egoístas, pessoas ruins, pessoas oportunistas. E comecei a pensar o pior (mais do que normalmente faço) de todas. Nem levei a sério o flerte do taxista para virarmos a madrugada passeando porque pensei que ele só queria o meu dinheiro. Não tenho visto ninguém com bons olhos, sempre espero (más) intenções, interesses. Do nada vejo Eli, minha esperança na humanidade, sendo aquilo que, sim, muitas pessoas ainda são. Eu não sou uma pessoa (completamente) ruim, mas a maldade que já me fizeram criaram essa casca grossa de auto-defesa. Só sou ruim porque a vida me ensinou a ser. Mas nem sou tanto assim, vai. Tenho esse lado passional-sofredora, mas é por esporte. Não é bom perder o hábito de se machucar com a vida. Quando você acha que ela não vai te dar mais nenhuma rasteira é que a coisa dói mais. Tento ver esse lado bom da vida, mas sempre com os olhos atentos. Olhos atentos (tanto me perguntaram como eu tinha visto os gatinhos no bueiro) que andam por aí observando… é um hábito.

 

Os gatinhos conheceram seus irmãos, estavam mortos de fome, o laranja continuou arisco (nem quis sair da mochila) e chegaram na casa do Eli dormindo agarradinhos. Só quem já viu dois gatinhos dormindo juntos sabe quão lindo é isso. A maldade das pessoas é que não permite que vejam. Eli tem mais três filhotes, um foi atropelado na frente dele e ele tratou e adotou e os outros dois foram abandonados na estrada perto da casa dele. Só muito coração para isso. Enquanto há pelo menos três pessoas ruins o bastante para abandonar cinco gatinhos, há um Eli para adotá-los. Estou ou não estou certa em admitir que há, ainda, bondade e pessoas boas no mundo, mas sempre com uma pitada de desconfiança? Um Eli para cada três criaturas que nem chamo de “ser humano”.

 

Depois fui caminhando até a senhorinha do picolé. Já estava fechado. Quase chorei. Depois de tudo, eu só queria um picolé. A lojinha onde eu queria ir também estava fechando. Lá se iam muitos quilômetros…

 

Nada é por acaso. E, sim, tenho essa mania de refletir, pensar e repensar em tudo. Andava tão desconfiada das pessoas e das suas intenções, tão blasé para os sentimentos sinceros dos outros, que não percebia certas delicadezas da vida. Eli, espero que o mundo não destrua essas coisas boas que você tem na cabeça e no coração. E, se destruir, espero que você tenha a mesma capacidade que eu de sempre conseguir revê-las. O bem e o mal são incomensuráveis, mas as pessoas não. Independente da proporção, ainda há pessoas boas e ruins por aí… só resta estar atento para saber decifrá-las. Eu diria que nem é tão difícil, mas tem que estar disposto.

 

 

Sexo, poesia, prosa e teorias

 

Andava por aí formulando teorias. Entre dias inexplicáveis, jogada na cama sem saber de mim, cheguei ofegante à conclusão de que tenho que discordar da Rita Lee. Sexo não é poesia.

Sim, há sexo na poesia. Mas sexo jamais é poesia. Fiquei, então, dias imersa nessas sensações e pensamentos…

Eis que hoje complementei-a.

Há pouco tempo, qualquer coisa que você falasse aparecia alguém dizendo “tem um programa no computador que faz isso”, depois veio o “tem um site que tem isso” e agora é “tem um aplicativo que faz isso”. O mundo se resume a ter alguma coisa dessas que resolva toda a nossa vida. Pois não há o que eu quero.

Queria que, na falta de uma lei – natural ou humana -, existisse um aplicativo que separasse automaticamente as pessoas com quem eu converso das com que eu faço sexo. Simples assim. Deveria haver pessoas com quem você conversa e pessoas com quem você faz sexo.

Sem que pudessemos misturar umas com as outras.

Há tantas – mas tantas – implicações quando se entremeiam as duas coisas que é melhor, eu diria muito melhor, que elas vivam em separado. Não desejo expor os vários exemplos, sei que a maioria de vocês – seres românticos por natureza ou necessidade, ou apaixonados inveterados que me lêem – não vai concordar comigo.

Eu quero poder conversar com uma pessoa sem que ela pense que eu faria sexo com ela. Eu quero poder fazer sexo com uma pessoa sem que ela espere que eu converse com ela – antes, durante ou depois. Há pessoas com as quais eu desejo fazer sexo, mas aí elas abrem a boca e… é broxante. Há pessoas com as quais eu só desejo ter excelentes conversas, mas aí elas querem sexo… e eu não. O sexo não é poesia e vive bem sem palavras.

Sim, sou adepta das palavras durante o sexo. Mas a conversa é outra coisa. Não, não acho que quem fala demais de sexo é porque faz de menos. Acho delicioso e saudável falar de sexo- tanto quanto fazer. Problema é quem só fala e não faz, é verdade. E tem problema quem só faz e não consegue falar sobre.

Não é essa a questão.

O sexo estraga a conversa e vice-versa. Eles vivem bem melhor em desunião. Não, você não vai concordar comigo. Sei que lhe passa pela cabeça o momento da conquista, da cantada (sim, porque ninguém mais seduz nem quer ser seduzido por ninguém – a que ponto chegamos), e como as pessoas muitas vezes a lábia leva ao sexo. Você é uma pessoa que ainda acredita nas coisas, que aceita essas estórias que contaram para que acreditassemos nas coisas. Você até se apaixona. Veja só. Contra isso nunca há argumentos. Não serei eu a discutir com um apaixonado.

Sobre relacionamentos: o que aprendi com meu pai

Resolvi emendar as relfexões sobre relacionamento e fiz aquela auto-análise sobre o motivo de eu achar chato e tal. Devo dizer que aprendi muito com os que eu tive, aprendi errando feio. Aprendi sabendo o que eu queria – e, principalmente, sobre o que eu não queria.

 

Mas, acima de tudo, aprendi com meu pai. Foi ele que um dia, entre gargalhadas, depois de eu ter dado mais uma demonstração daquilo que chamam “personalidade forte” me disse que eu nunca encontraria um cara que me aguentasse. Sim, ele disse isso quando eu era bem nova. Não sei se foi praga ou só constatação.
Fato é que na época eu já havia encontrado uns que queriam me aguentar “para sempre”. Eu ignorei. Depois de um tempo eu fiz questão de apresentar para papi um ou outro. Hoje acho que essa minha demonstração foi só para provar para ele que existem, sim, caras dispostos a me aguentar para todo o sempre. E cheguei à conclusão que sou eu quem não os aguentaria. Digo que fiz questão porque eu evito ao máximo contato entre affairs (de qualquer tipo) e famílias. Não me perguntem porquê. Acho chato. Só isso.

 

Um dia meu pai e eu tivemos aquela conversa séria. Com ele aprendi as coisas fundamentais sobre relacionamentos:

 

1. tem sempre um que ama mais;

2. tem quem não vive sem sexo;

3. camisinha e qualquer outro tipo de contraceptivo pode falhar.

 

Eu incorporei tanto essas considerações que acabei achando que são realmente as fundamentais. Quando tive essa conversa franca com ele eu já era bem segura de mim, toda cheia de informações. Mas achei que ele esboçou de forma prática o básico. Qualquer sofrimento de amor pode ser explicado pelo 1. O 2 implica vários problemas e roubadas dos relacionamentos. E o 3 é aquela espetada na responsabilidade. Eu era segura de mim, do que fazia do meu corpo, e ele só quis deixar aquele aviso de que é preciso saber dos riscos. Fazer sexo é assumir o risco de pegar alguma doença ou engravidar. O primeiro me apavora, o segundo eu sempre dispensei. Por isso sempre fui cuidadosa com essas coisas. Deus é pai, minha gente, e eu nunca engravidei de ninguém. É um pouco meu posicionamento sobre o aborto. Faz sexo, esteja ciente dos riscos. “O meu prazer agora é risco de vida” já dizia lá meu amigo.

 

Pra quem não vive sem sexo… bem, não acho estranho. Acho complicado as proporções que isso toma em certas situações. Vou ficar neste plano abstrato mesmo, não pretendo me aprofundar.

 

E, bem, sempre tem um que ama mais. Podem ter certeza disso. Como eu dizia no último post, você precisa aceitar muita coisa no outro quando assume um relacionamento – sempre tem um que aceita mais coisas do que o outro. Não é justo, não é bom, causa um baita sofrimento, mas é verdade verdadeira.

Sobre relacionamentos e experiência

Numa conversa hoje falaram “Ah, minha mãe disse: todo homem é igual, minha filha.” aí eu logo disparei “Todos são iguais, mas a gente pode escolher o menos pior, né.”.

 

Depois fiquei pensando sobre a origem dessa máxima. Sabemos que somos ainda (talvez sempre) uma sociedade machista. Não sei a origem da expressão, nem vou pesquisar isso. Mas me pareceu claramente o mote do casamento, de como a sociedade (ah, essa bela hipócrita) vê o casamento. A mulher foi criada para aceitar os homens. Eles são todos iguais, minhas filhas, não queiram separar desse que te faz infeliz, maltrata, porque um outro fará a mesma coisa – e você ainda vai carregar o estigma de ser separada.

 

Rola pela internet uma imagem com os dizeres (aquelas coisas auto-ajudativas-enjoativas) “Sou do tempo que quando uma coisa quebra a gente conserta” a respeito de relacionamentos. Eu realmente sou dessa época, tanto que já mandei um microondas quase da minha idade umas cinco vezes para arrumar. Sobre relacionamentos há uma diferença: as pessoas. Num relacionamento você dificilmente terá a chance de “consertar” algo para além da superfície, ou você se acostuma, aceita conviver com aquilo, ou você parte pra outra – ou para nenhuma.

 

As pessoas não mudam. Por nada nem por ninguém. Aceitá-las é o principal num relacionamento. Por isso muitos não sobrevivem à paixão, aquele período em que achamos tudo lindo e maravilhoso e que toleramos o que não gostamos no outro. A convivência será o divisor de águas. Por isso não acredito que existam relacionamentos perfeitos, nem felizes. Você pode até se acostumar que ele nunca liga tanto quanto você gostaria, mas não poderá jamais ser feliz por completo.

 

Tenho ouvido muitas pessoas me contarem suas aventuras amorosas, as histórias dos seus relacionamentos, as desventuras do coração em geral, histórias de separações, idas e vindas, paixonites, paixões avassaladoras. Comecei a achar engraçada a minha atitude e meus posicionamentos. Não acho que seja a idade, afinal não sou velha, mas é a experiência. É ela que me faz ser mais segura diante dos desesperos e descaminhos alheios. Quando a amiga está lá no momento só love todo confuso eu faço o discurso de que ela está apaixonada e é melhor assumir isso, senão vai sofrer mais do que o sofrimento que ela pensa estar evitando. Quando vem uma falar da crise, da possível separação, eu apóio, falo das questões legais. Quando outra veio contar das traições que praticava não pude concordar. E, vejam só, disseram que eu sou muito prática quando se trata dos caminhos do coração. Fui obrigada a lembrar o espanto das amigas quando eu disse que não amava mais minha primeira infame paixonite, elas não acreditavam que de um dia para o outro eu não sentia mais nada. É, talvez eu seja prática – pelo menos nisso.

 

Aliás, por favor, se você trai seu respectivo, não me conte.

 

Porque eu tenho ímpeto de contar para o traído. Não acho justo. Não quero ser cúmplice das falhas de caráter alheias. Não acho certo a pessoa trair e sair por aí contando pra um monte de gente, menos pro coitado do traído. Não me faça cúmplice, porque eu conto mesmo.

 

Me vi assim, experiente, distante. Me vejo assim. Nem a vida nem as pessoas me causam surpresas. Não duvido de amores e desamores, mas já me iludo bem menos. Se eu tivesse acreditado que todos os homens são iguais, eu poderia ter vivido o resto da minha vida com todos os homens do meu passado. E sei que eu poderia ter vivido com todos eles. Mas eu não quis. Eu não quis simplesmente aceitá-los. Principalmente porque eu poderei viver o resto da vida com o próximo, ou com os próximos. Eu posso ser feliz com quem eu quiser. Poderia ter sido com os do passado, poderei ser com os do futuro.

 

Naquela noite sobre o rio Paraná, a lua de um lado, as luzes da cidade do outro, eu vi uma estrela cadente. Eufórica apontei-a e fiz um pedido. (riram de mim) Nem toda a experiência do mundo vai me tirar a doçura de viver e de acreditar em coisas boas e bonitas. É claro que eu ainda irei me apaixonar loucamente muitas vezes. É claro que ainda irei ter muitas dores de amor. É claro que ainda vou chorar desesperada nas horas de confusão. Eu não quero me privar disso. Vou sempre lembrar das besteiras de menina que eu disse não, vou sair nas horas de confusão e provavelmente aparecerei em alguma porta completamente nua. Provavelmente. A experiência me permite fazer tudo isso com mais propriedade – ela vacina, não imuniza.

 

Algumas semanas atrás passei muito (muito mesmo) mal. Estava em casa, sozinha, na cidade que eu moro – família mora em outras cidades. Lá, caída, sem força, sem comer, sem conseguir fazer nada cheguei ao fundo do poço. Minha mente gritava para ligar pra mãe e pedir pra que ela fosse me buscar. A gente sempre lembra da mãe quando está na pior – ou, pelo menos, quem tem uma mãe extraordinária como a minha. Não liguei. Aguentei firme, dei um jeito, engoli remédio, me joguei na cama. É assim que a gente percebe que é sozinha (sempre fui), que é dona da própria vida, que responde por si. Quem não se dá conta disso é aquele tipo de mulher que não se separa porque tem medo de dividir os bens, de voltar pra casa dos pais, de ter que pagar as contas sozinha, de se olhar no espelho e não ter em quem pensar ou por quem se arrumar. Eu não sou esse tipo.

 

Nem sei porque escrevi tudo isso. Me perdi em divagações. Me irrita o machismo, me irritam as pessoas que se acovardam. Mas podem ter certeza que é muito difícil eu falar ou escrever sobre relacionamentos. Muito mesmo. Simplesmente porque não gosto do assunto. Acho chato. Como dizem que sou contra o casamento, serve um pouco como reflexão. Porque eu penso sobre o que eu não gosto. Penso sobre assuntos que acho chatos ou desagradáveis. Penso bastante quando tropeço na hipocrisia e no machismo, por exemplo. Eu penso demais. E acabo até escrevendo sobre relacionamentos.

 

 

Sobre teorias e extirpações

Faz mais ou menos um ano quando foi que eu ouvi a teoria do “e precisa?”. Naquela madrugada e em vários outros dias ao longo desse tempo todo eu matutei e matutei sobre isso. E precisa?

Além da confusão que instaurou-se nos pensamentos e, claro, levou dúvida ao sentimento, houve um desastre anunciado nas atitudes e relacionamentos. Pouco restou disso tudo. Aliás, pra mim, não restou nada.

Se tem uma coisa que eu não gosto nessa vida é que as coisas fiquem mal resolvidas. Principalmente quando se trata de relações com pessoas. Para quem tem tanta dificuldade com as pessoas, quando as coisas desandam já não é mais dificuldade, é impossibilidade. E se tem uma coisa que eu sei fazer bem, principalmente nessas horas, é cortar relacionamentos de vez. Pra que ou por que manter uma pessoa na tua vida se ela não faz mais sentido nela? Ou se ela não demonstra ter coragem para manter-se nela?

Não há como entender os homens. Eu formulei a seguinte teoria: se age como babaca uma única vez, já não é mais homem, então pra mim deixa de existir. A teoria pode ser aplicada nas pessoas em geral. Se foi capaz de te sacanear uma vez, se teve alguma atitude babaca, esquece.

Claro, alguém com uma boa memória como eu não esquece. Mas definitivamente sei cortar laços. Extirpo pessoas da minha vida. Em casos nobres até dou chance, mas se não tem como, esquece – ou risca da lista mesmo.

Homem que é homem não se deixa ser mandado por mulher – seja ela esposa, namorada, caso, amante, o que for. Nem mulher que é mulher obedece homem nenhum. Aliás, mulher que é mulher não manda no seu respectivo marido/namorado/caso/amante. Mulher que é mulher se garante e encara as coisas de frente.

Acho lamentável que existam pessoas que fogem do que sentem. Pessoas que se acovardam diante das possibilidades que o mundo lhes dá. Pessoas que não assumem seus desejos e dúvidas. Como diz aquela canção “É o amor agitando meu coração Tem um lado carente dizendo que sim E essa vida da gente gritando que não” mesmo quando não é amor, mesmo quando é só desejo, ou mesmo – e principalmente – quando não se sabe direito o que é e se é alguma coisa.

Esse tipo de pessoa é mais um que eu extirpo do meu (minúsculo) círculo de relacionamento. Em casos nobres que até reluto um pouco, dou uma chance e espero uma resposta. Vacilou de novo? É fim.

Tem quem prefira obedecer aos gritos de “não” que a vida dá. Azar. Eu não obedeço ninguém, muito menos no grito. Pessoas fantásticas, grandes amigos, pessoas inteligentes e interessantes podem simplesmente sair da minha vida porque tomam atitudes babacas. De babacas o mundo está cheio demais. Prefiro os casos mais extraordinários, nada vulgares.

Ps: Sobre a teoria do “e precisa?”, realmente quem a proferiu estava certo. Não precisa. A pessoa não precisa colocar roupa isso ou aquilo, a mulher não precisa rebocar a cara de maquiagem, saia isso ou aquilo, o homem não precisa passar a cantada genial, nem fazer mil convites e levar no melhor restaurante, ou qualquer coisa dessas que dizem que é o jogo da conquista. Não precisa nada disso. Para seduzir, conquistar, despertar sentimentos apaixonantes no outro não precisa de nada disso, basta ser quem se é. Isso sempre vai conquistar alguém. (e aí abrem-se mil poréns)

Blog no WordPress.com.

Acima ↑