Os começos, os fins e os finais

Talvez seja a primeira vez que eu cumpro com a promessa de um post. Foi num texto sobre os filmes do Oscar que citei o desejo de escrever sobre narrativas. Tenho, desde então, me apegado a pensar sobre elas – e em mais um meia dúzia de coisas. Tenho, felizmente, pensado muito muito muito sobre poucas coisas.
Talvez, enfim, não seja somente sobre narrativas. Comecei me perguntando se havia uma crise nas narrativas – principalmente audiovisuais – ao tentar assistir ao Trapaça (American Hustle). Era mais um daqueles filmes que começa num ponto da história (ah! como eu sinto falta de poder escrever estória!), depois a história volta a um ponto antes daquele (ou ao ponto inicial “de verdade”). Sabemos que em vários casos há um impacto na alteração da ordem cronológica dos fatos. Nem estou falando em filmes como 21 Gramas e Babel que trabalham com a edição acima da narrativa. Eis que nem lembrava onde havia começado minha cisma com essa possível crise quando, ontem, assisti The Fifth Estate. Ele também começa numa sequência (ah! que saudade do trema!) e volta a um passado pouco distante para “começar” a história. A primeira sequência, no seu devido ponto cronológico, aparece depois na íntegra. Sobre o filme? Benedict fez um trabalho sensacional. O Matthew (do Downton, que eu nunca lembro o nome) também dá o ar da graça. Julian Assange é um personagem e tanto, vale pelo filme.
Mas não é hora de falar sobre personagens.
Na semana passada estive nas três capitais do Sul do país e na cidade mais populosa de Santa Catarina. Viajei de carro, ônibus e avião. Andei muito a pé. Fotografei muito. Pensei ainda mais. E eis que uma pessoa muito conceituada no mundo da criação disse algo que me acompanhou por dias e que fiz questão de colocar em prática no meu último compromisso da semana (que adentrou esta semana, pois já era domingo).
Dizia ele: se você vai fazer algo que é clichê, melhor não fazê-lo. Uma frase simples. Uma idéia simples. Mas de muita sabedoria e essencial para quem cria. Não vem ao caso sobre qual área das artes ele se referia. Eu mesma pude aplicá-la em outra área dias depois. Em qualquer área da criação, não fazer o clichê é muito melhor do que fazê-lo. Se nada inovador (outra expressão bastante presente na última semana) ou criativo lhe ocorrer, resista a recorrer ao clichê. Aliás, pode até ser expandido para áreas que consideramos menos criativas – o mundo acadêmico, por exemplo.
Ficou evidente que o recurso de começar por um ponto para depois retomá-lo é realmente uma crise, ou, ainda, a demonstração de insegurança. Se há uma boa história, comece pelo começo (ouvi algo assim esses dias, talvez tenha sido no Fifth Estate). Agora, se você acha que pode não ser uma boa história… tente não demonstrar criando firulas narrativas.
Depois da frase sobre o clichê lembrei de duas expressões que eu gosto de contrapor. Tem quem diga que tudo o que é demais enjoa (ou expressões semelhantes). Pois eu discordo. Tenho cá pra mim que certas coisas até quando são demais continuam deliciosas. Porém, aquela máxima “menos é mais” me convence. Tenho implantado muitas e profundas mudanças na minha vida e o “menos é mais” ganhou um espaço importante. Nas histórias, menos também é mais. Numa das viagens comecei a ler o Drácula, do Bram Stoker. Era um livro que eu via nas prateleiras da minha mãe, desde criança. Eu via e desanimava com a quantidade de páginas. Também nunca fui fã de histórias de vampiros (apesar de ter ficado impressionada com um filme de suspense, que assisti quando criança, que tinha vampiros mas nem lembro qual era). Achava que era um daqueles livros ostentação, que as pessoas dizem que leram só para todo mundo dizer “óóó” pela quantidade de páginas (o que, anos depois, vi acontecer). Como levar um livro daqueles na bolsa? Só para ler em casa. Mas encontrei-o gratuitamente na Amazon. Aí sim teria a oportunidade de lê-lo.
Por que citei o Drácula? Porque esses dias ouvi uma crítica às apresentações de personagens. Juntando-se a isso o “menos é mais” teria todo sentido. Mas Bram Stoker descreve cada detalhe da paisagem, não economiza adjetivos para descrever as ações, detém-se nas roupas dos personagens. Ali, mais é mais. E a história começa do começo. Talvez, enfim, as histórias não precisem de menos nem de mais. Talvez as histórias precisem apenas ser contadas. Sem clichês – afinal a vida já está cheia deles -, com começo, meio e fim – mesmo que os fins não sejam finais.

Aliás, estou em busca de histórias sobre as impossibilidades (do coração, de preferência). Nestas, os fins que não são finais são indispensáveis.

 

(ps: não estranhem os sumiços e matem a saudade lendo os textos mais antigos; prometo voltar a escrever com frequência e sobre essas coisas bobas da vida – me aguardem)

Acerola com laranja

Bebia um acerola com laranja no balcão. Na esquina, via o calçadão a perder de vista. Pensava. Gestava meu tempo. Tempo, tempo, tempo. Finalmente havia encontrado onde acerola com laranja não era de polpa. E a idade, de fato, me deixara ainda mais exigente. Via a esquina. Pensava. Centrava minha vida naquele balcão: fora do teto, sol calor, três vias à disposição. E meu desejo era permanecer naquele balcão. Pensava. O temporal do dia anterior fora pontual: às 18 horas. O calçadão virara uma cachoeira. Os ônibus que dobravam a esquina da rua lá de baixo seguiam uma rua que desaparecera sob a água e faziam ondas. Ondas sempre me lembram o mar. Mar sempre me lembra a vida. A roupa encharcara antes da esquina, eu temia pela integridade dos objetos na bolsa. Sobrevivi sem nem uma bela dor de garganta. Pensava. Se eu não sabia o que fazer com o meu tempo, o que eu estava fazendo com a minha vida? Não era bem assim… pensava. Quantas vidas eu tinha – hoje, só hoje, durante o tempo deste copo de acerola com laranja? Pra que tantas vidas? Eu preferia assim. Eu gosto delas. Quando se escolhe seguir vários caminhos ao mesmo tempo demora mais para chegar onde se quer. Tem quem prefere os caminhos às chegadas. Mais ou menos como é o sexo. Pensava. Calor absurdo para aqueles dias. Absurdos atraem absurdos. É a parte boa da vida. Pensava. O copo quase vazio. Quando era uma só, um desejo, uma casa, uma cidade, não era feliz. Quer dizer, era feliz mas vivia tragada pelo escuro. O escuro em nada se parecia com o céu lá fora – hoje ele exigia ser contemplado. Os paralelepípedos brilhavam. Eu queria seguir os três caminhos que surgiam naquela esquina. Pensava. Não havia mais acerola com laranja. Dizem que é preciso planejar. Não sou boa nisso. Lá iria eu pela direita da esquina. Daria a volta pela rua de cima, desceria pela segunda opção e seguiria pela terceira. Alegremente. Ansiando absurdos. Como ontem durante o temporal, tremendo de frio disse para mim mesma: sorria.

As filas de quatro patas e os rumores

Já havia se espalhado não mais pela rua toda, mas pelo bairro, talvez já por toda a região sul da cidade. Os donos das quatro patas vinham às dúzias, filas dobravam as esquinas. De dia, de madrugada, o tempo todo. De manhã cedo mal abria a porta eu já me deparava com os primeiros da fila. Num começo de tempestade no meio da madrugada, ao levantar para tirar as redes da varanda já encontrava os que guardavam seus lugares na fila. Eram gatos, cachorros… de várias cores, tamanhos, com aqueles olhares doces e compridos.

Não sei se foi fofoca, disse-me-disse, ou se a coisa espalhou-se porque passavam aqui e viam a vida que os nossos levam. Só sei que agora todos sabiam que nossos quatro patas (e duas patas e duas asas) eram muito amados e bem tratados.

Antes da coisa fugir ao controle, foi um gatinho cinza magricelo. Deitou no portão lateral num dia de calor escaldante e ficou. Eu tentei espantá-lo quando vi de longe porque pensei que era mais um pretendente às nossas gatas. Aí reparei que ele mancava da patinha direita da frente. E assim os portões de casa foram abertos. Água, ração, caminha, a garagem toda dele. Em minutos ele já parecia fazer parte dali, liguei para veterinário, vimos tudo o que podia ser feito. E assim eles foram aparecendo. Não havia mais terreno para os nossos cachorros, nem casa para as nossas gatas. Eram latidos e miados exigentes que queriam portas e portões abertos.

A nossa gata mais louca subia presunçosa à janela, olhava para a fila em volta de casa e narrava sua boa vida boa. Sim, elas comiam peixe feito pela melhor cozinheira. Claro, dormiam todas as noites na cama. É verdade, quando faz friozinho ela coloca a coberta grossa de lã no sofá e nós nos refestelamos. Ah, sim, ração com nuggets, sachês de salmão e cordeiro. Também, cenoura, iogurte, milho cozido tiradinho da espiga e dado na boca. É, tem lá seus pontos negativos, aquelas horas de terror no banho quase sempre, as idas ao veterinário que tira a temperatura, limpa as orelhas, dá vacina. Sim, naquele carro ali, passeamos, viajamos e exigimos que não seja na caixinha de transporte. Na rede? De vez em quando. Eles não deixam, mas quando dá vontade a gente pula nas mesas, escrivaninhas, na TV, escala os armários e guarda-roupas. Ah, tem leite condensado também, toda vez que fazem doces! Água fresca é só pedir, dão na hora. Caixinha sempre limpa ou ainda a gente pode passear e fazer pelo jardim. Sim! Subimos em árvores e afiamos nossas unhas nos seus troncos! Não sou muito calorenta, mas quando quero tenho ventilador só pra mim. Tem uma que é friorenta e dorme debaixo da coberta, com a cabeça no travesseiro, como gente! Quando ela chega, me pega no colo, coça minha barriguinha, me aperta, me joga pro alto e pega no ar.

E assim foi se espalhando e as filas crescendo… até a tartaruga, quando não estava de nariz empinado, gostava de ir até a janela e lá de dentro do aquário destilava superioridade. Tenho esse aquário enorme só pra mim, sim. Camarão e ração, todo dia. E agora até consigo enganá-los, porque é só eu pedir comida que todos dão. Antes eu, bobinha, só pedia uma vez por dia para um deles. Aí eu vi que se fizesse meu estardalhaço n´água quando escurece, todos me dão. Isso, passo o dia aqui boiando no meu banho de sol. Eles sempre trocam a água e eu posso nadar e nadar e nadar.

O psicopata, o cão que já é maior que eu, com esvoaçantes orelhas de dumbo corria desvairado de um portão a outro gritando: estão vendo tudo isso?! É meu! Tudo o que tem aqui é meu! Eu corro louco para onde eu quiser, quando eu quiser, posso até perder o sono de madrugada e ficar correndo atrás das sombras latindo alto! Estão vendo as árvores? Pois eu como pitanga, acerola, maracujá, goiaba, jabuticaba, tudo diretamente do pé! E quando quero é só ir na janela da cozinha e fazer a cara que eles acham lindo e ganho banana todo dia! Claro, tem biscrok, ração, baldes e baldes de água fresca. Eu sempre ganho camas enormes (ó o meu tamanho, né, e como não é só pra mim…), sofás, travesseiros e destruo tudo! Só para vê-la chegando com mais presentes pra mim! De vez em quando ela me leva pra dentro: quando está muito quente eu deito no piso de cerâmica da sala e ela me dá gelo na boca, quando está muito frio eu deito no tapete da sala de TV e ganho leitinho quente – como quando eu era pequerrucho! Os outros também ganham tudo, a gente não tem motivo pra brigar. Mas eu fui criado com as gatinhas, com as quais eu adoro brincar, e aprendi a comer milho cozido direto da espiga! Nas férias eu ganho todo dia! Ah, quando faz frio e ficamos aqui fora ela vem e acende o fogão à lenha da varanda fechada, coloca nossas cobertas de lã, deita ali conosco e ficamos no quentinho. Ah, sim, desde quando eu era pequenino ela me chamava para deitar no colo dela e eu só consigo dormir bem quando ela vem e senta na varanda, no chão mesmo, ou no banco, e eu posso deitar no colo dela! Quando não durmo no colo dela, sonho com isso! Eu posso lamber, morder, agarrar a perna dela com as duas patas pra ela não ir embora, pedir companhia para correr pelo quintal todo, que ela não briga comigo e faz tudo o que eu quero! Eu sei que eles não gostam quando eu destruo as plantas e vasos do jardim, mas é que assim eles ficam ainda mais tempo comigo. Eles também não gostam quando os outros cavam buracos sem fim perto das calçadas, mas a gente se diverte. Claro, tem banho que eu adoro! Desde pequeno tomo banho de mangueira com ela e nos divertimos muito! Quando está frio eu tomo banho lá dentro com água bem gostosa. Ela usa dúzias de shampoos e sabonetes pra gente ficar bem limpinho – porque eu me sujo demais, eu sei. Eu gosto tanto de banho que quando os outros estão no banho eu entro e fico olhando. Também adoro ir ao veterinário! Alguns aqui não gostam muito porque tem injeção. Mas eu sou corajoso! Eu adoro passear de carro e na coleira! Quando eles colocam o carro lá perto do portão e bobeiam deixando a porta aberta eu já entrou e vou me refestelando! Sim, também vamos pra praia! Fazemos rodízio! Lá é menor mas é bem gostoso, tem areia pra todo lado!

O passarinho que é meigo, não gosta nem de contar vantagem do seu belo canto, também deu seus gorjeios. Sim, banho, banho de sol… alpiste, espinafre, galinhos verdes todos os dias. Ela leva e traz minha gaiola, protege do vento, dos pernilongos malvados, coloca areia. E me chama de Nelson porque quando vim pra cá era muito boêmio. Agora tenho companhia, fico ali durante o dia conversando com curruíras, pardais, rolinhas, bicos-de-lacre e sabiás que vêm todo dia comer nos comedouros do jardim e do quintal, tomar banho nas bacias. Meus amigos ficaram encantados com a nova vida aqui, me contaram horrores do que já passaram em outras casas.

Eu procurei me conformar. Se fosse um negócio, diria que a propaganda é a alma do negócio. E por mais que meu coração seja ainda maior que os terrenos que tenho, sofro quando não posso dar tudo para todos, acolhendo-os como já fiz com estes – e com tantos outros que já partiram deste mundo mas que vivem aqui nas minhas belas e doces lembranças. Agora é minha vez: eles nunca foram ao cinema comigo, é verdade; também nunca jantaram naquele restaurante caro, ou foram naquela festa. E melhores amigos nunca tive. Sempre atentos ao meu humor, às minhas tristezas, sempre felizes e sorridentes (sim!) com disposição de sobra para me fazer companhia. Me ouvem como ninguém e para eles já contei coisas que viv´alma de duas pernas neste mundo nunca saberá. Não me cobram, não ficam “de mal”, não esquecem de convidar ou de simplesmente ligar para saber como estou – sei que se pudessem, ligariam e eles me ouvem mesmo por telefone. Tardes chuvosas, manhãs ensolaradas, dias longos e cansativos… com eles ficam perfeitos.

Para muitos de duas pernas já dei quase tanto assim de mim, já dei amor, dei cama, dei comida, dei carinho, dei colo, dei meu tempo, levei ao médico, dei minha companhia, meus ouvidos, minha total atenção. Dou pedaços da minha vida. Enquanto os quatro patas (e os de asas!) nunca me abandonaram, nunca deixaram de falar comigo, os de duas pernas viram a cara quando me encontram nas ruas, me bloqueiam nas redes sociais, cortam relações duradouras ou curtas e intensas, ao contrário daqueles, estes espalham pelos quatro ventos coisas ruins a meu respeito. E assim também correm bairros e cidades. Mas as filas de quatro patas me dizem muito mais. Curiosamente, há filas dos de duas pernas também. Eu confio e acredito nos primeiros. Nestes últimos, não vejo porque depositar amor, crenças e esperanças.

Pessoas comuns acreditavam que tinham vidas publicáveis

 

Era pleno domingo. Caía aquele temporal cheio de trovoadas, relâmpagos, ribombavam as paredes, pessoas se persignavam, desavisados corriam para os tetos. Eu tinha saído fazia pouco tempo, mais uma daquelas compras esquisitas (guarde esta palavra, ela dará um livro), desvio pela praia porque, bem, eu sabia que o temporal da madrugada se repetiria. Ali, pés na areia afundados pela água do mar, o horizonte trovejante e barulhento. Muitos teriam medo. Vi de onde ele vinha, para onde ele iria que não sou boba nem nada e não vou morrer – pelo menos não por agora. Fiz minha rota só para ver aquele horizonte. Neste pedaço sedutoramente curvado de longos metros do litoral a vista é ainda mais bonita. De madrugada, bem, não saí para vê-lo – e, por isso, agora ele se repetia só para que eu pudesse vê-lo.

Era pleno domingo. Pessoas respiravam.

Ali, pés na areia encharcada de chuva e mar, escuros da noite e claros do relampejar. Não tinha celular com câmera nem bobos smartphones nem câmera. Havia saído com um macacão curto, uma nota de dez reais no bolso e chinelo. Ah, e brincos. E mp3. Via o horizonte. Não tem jpg nem nada que confirme o que estou dizendo. Nenhum HD misteriosamente guarda esta prova.

Era pleno domingo. Pessoas postavam nisso que chamam redes sociais – procuro outro nome para elas, “nós anti-sociais”, talvez – todo o azar de imagens, links e frases.

Era pleno domingo. Pessoas comuns acreditavam que tinham vidas publicáveis. E, como se não bastasse, publicavam-nas.

Quem sabe eu corresse descrever a cena, quem sabe estragasse a câmera só tentando uma foto, quem sabe louvasse meu desprendimento, coragem e vida livre de pés na areia sob temporal. Quem sabe entulhasse TLs alheias com links sobre coisas geniais, pessoas fazendo o bem ou só aquela música (“Pela primeira vez sozinha Pela primeira vez sem dono Pela primeira vez sem você” caso fosse ontem) adorável daquele dia num vídeo tosco de imagens de powerpoint no youtube. Quem sabe eu respondesse mensagens. Quem sabe uma imagem cool com uma frase cute. Quem sabe um selfie com uma frase interminável de algum livro de auto-ajuda (com a referência devidamente suprimida). Quem sabe um link sobre alguma atrocidade contra os animais, as matas, a água, os pobres, os negros, os eus branquelos, contra o patrimônio, com um texto de punho (ou pulso, ou dedos, já que somos homodigitadores) alvoroçado em palavras indignadas. Quem sabe alguma piada sem graça. Ou quem sabe eu reclamasse da minha operadora de celular e internet. Ou ainda indiretas entre esses e aqueles e aqueles outros. Talvez umas três frases aparentemente sem nexo que ninguém entenderá mas acharão que tenho uma vida sensacional. Ou fotos de cerveja, garrafas, copos, taças. Ou, ainda, da cama revirada de um hotel ou motel. Quem sabe eu reclamasse das crianças que cantam galinha pintadinha ou das pessoas que não dão pisca ao dirigir. Ou, sei lá, colocasse fotos minha na praia só pra esfregar na cara das pessoas. Ou, talvez, aquela foto semanal do meu cachorro que só eu acho que faz caras e bocas diferentes a cada clique. Ah, sim, não deixaria de dar check-in no aeroporto ou em qualquer lugar invejável onde eu estivesse. Se me faltasse imaginação – não é tão raro assim acontecer isso com quem respira – ou me faltasse vida – ainda menos raro –, postaria a foto do almoço ou do prato vazio para querer parecer genial. Ou da panela com alguma coisa que ninguém saberia dizer o que é não fosse pela minha legenda. Ou, ainda, uma frase, bonitinha ou reflexiva, de algum livro só para mostrar que eu leio.

Era pleno domingo. Pessoas respiravam. Era pleno domingo. Pessoas comuns acreditavam que tinham vidas publicáveis.

O doce desejo de escrever…

Eu preciso escrever. Começo assim. A necessidade, neste caso, une-se ao desejo. Porque é o único sentimento do qual tenho certeza nos últimos tempos. Certezas não são boas amigas. Ando mal, também, de boas amigas. Aí quis escrever sobre literatura, como é esse caminho inconstante de querer assumir-se escritora, como vejo desvalorizado o árduo trabalho de criar com palavras. Quis começar mais um livro de contos, tive a idéia lá no alto da Serra, diante de um dos cenários que mais marcaram minha infância. Quis escrever sobre cinema brasileiro, ao fim do ano no qual mais assisti aos filmes daqui. Pensei em me derramar em mais declarações e apontar críticas ferrenhas à Ilha. Escrevi e reescrevi, mentalmente, tanta coisa. Fato é, e fatos nunca são úteis para a escrita, que dezembro chegou prometendo – não, não… fui eu que criei mil expectativas – e ficou assim tão… confuso. Baixou uma bipolaridade inexplicável neste resto de ano. E não pode. Não dá. Eu não poderia estar assim. Não sei se é essa coisa da proximidade do natal. Meu relacionamento com o natal é cheio de altos e baixos – mas debaixo da árvore já há vários pacotinhos e as perspectivas são boas.

Acontece que subi e desci serras, vi e ouvi e senti muitas coisas boas. Mas aí… algo aqui dentro não se encaixa. Stendhal, meu amigo, riria descaradamente de mim. Mas antes que ele dissesse que eu não tenho cura – como aquela minha amiga – e antes que os tarôs continuem a me dar esperanças, eu queria colocar a cabeça no lugar. Nunca levei sorte no amor. É, pois é, digamos que não é pra mim. E nem o Thiago Lacerda numa cena de amanhecer na cama e com as falas mais lindas do mundo, na novela, vai me fazer desacreditar na minha sina. Pensava em quanta coisa além desse tal amor há de mais forte e bonito na vida. Passei dias relembrando, com um aperto estranho no peito, em certas pessoas que conheci este ano, em certas coisas que aconteceram. Me senti, de algum jeito, bem próxima do impossível. Sim, porque eu sempre duvidei dele. Contudo, sobre o amor… talvez o impossível lance suas garras. E eu pensei pra caramba sobre isso. E aí lembrei que eu dizia (Stendhal gargalharia sem dó de mim) que amor não acaba, porque se acaba é porque nunca existiu. Dezembro, é tua culpa, tua bipolaridade atraiu minha confusão. E eu confusa, me perdoem a palavra, corro o risco de fazer merda. Pensei, também, que eu me antecipo aos fins porque acho menos doloroso. E, então, talvez tenha chegado a hora. Cheguei ao cúmulo de pensar que nos tempos que estou sozinha é que sou mais feliz e que minha vida vai pra frente, que os tempos ruins e difíceis foram sempre quando estava com o coração ocupado – e, definitivamente, não preciso disso agora.

Esses dias ainda, entre tanta atribulação, disse pra mim mesma que tenho plantado tanto, mas tanto, que deveria mudar de vida e virar agricultora. Se só vou colher ano que vem? Provavelmente. E ainda há tanto a ser plantado… Eu detesto dizer que estou cansada, e detesto mais ainda ouvir isso. Não gosto e não digo mais. Fiquei pensando se não era o caso, se não estou cansada. Acredito que não… e aí só me resta dizer que estou confusa. Stendhal chegou a me deixar confusa. Meus sentimentos – e principalmente a ausência deles (ou pelo menos como eu esperava que eles se mostrassem) – me deixaram confusa.

O prêmio deste ano vai para o “até quando dá errado, dá muito certo”. Esses dias voltava para a casa ali pela Costeira e sorria sozinha, tarde da noite, porque tinha, novamente, passado por isso. Não ousei dizer, este ano, “deu errado”. Não tem um ditado (sou péssima com ditados também) “Deus tira com uma mão e dá com outra” (ou estou viajando muito?)? Me senti assim. Passei a olhar a vida bem melhor. Sei que não foi só este ano, já tinha começado a ver as coisas assim faz um tempo. Tanto é que ano passado ouvi um dos top 5 da lista de elogios, pois me chamaram de otimista. Quem, me digam quem, neste mundo me chamaria de otimista?! Pois é… Tive aventuras sensacionais este ano, caí em problemas homéricos, vivi situações inesperadas, e mantive a calma, o otimismo, a cabeça no lugar e dei um jeito (ainda melhor) em tudo. Num outro dia que vinha de bicicleta pela Costeira, fui subir na calçada numa curva e a bicicleta caiu. Eu nunca caí de bicicleta, ela já caiu umas três vezes. Eu só caio em pé. Pensei bastante nisso, nesses dois pontos. Relembrei aquela canção “eu tô de corpo fechado”. Faz todo sentido.

Aliás, queria escrever sobre elogios também. Como tenho dificuldade com eles. Dificuldade absurda. Fiquei analisando e nunca recebi muitos elogios – ou quase nenhum. Sei que desde criança até uma boa idade elogios não faziam parte da minha vida. Deve ser por isso a estranheza com que os recebo.

E como é que de tanta coisa boa, dezembro chega assim… confuso, me impedindo de trabalhar, de escrever, de sentir? Minha impulsividade natural me salvava da confusão. Sempre quero, faço, vou. Se eu realmente contasse algumas coisas, não seria só Stendhal a rir de mim. Ao assistir um classicão hollywoodiano (eles me ajudam muito em todas as horas), com um roteiro genial e das melhores coisas escritas para cinema até hoje, fiquei matutando sobre as pessoas boas. Confusão é bom porque acabo pensando ainda mais do que o normal. Pessoas boas que não vêem o mal que fazem. Como nós acabamos pensando tão bem de nós mesmos, ponderamos nossas ações e sempre agiremos, em vários momentos, de forma não condizente com os valores que prezamos e alardeamos. Lembrei do Pirandelo (acho foi num livro dele), quando um personagem dizia que não percebemos o mal que fazemos no bem que pensamos fazer. Não é um ditado também, que de boas intenções o inferno está cheio? Por essas e outras que um dia resolvi ser uma pessoa ruim. Não cometer maldades necessariamente, nem foi da vez que decidi que bateria antes de apanhar (depois de já ter apanhado feio na vida). Mas ser uma pessoa mais fechada, menos agradável, menos solícita, nada simpática, nada prestativa. Desconfio que o êxito não foi completo e para meu receio a resolução arrefeceu nos últimos tempos. A vida tem me dado tanta coisa boa, acho que comecei a querer retribuir. Ainda não sei se é uma boa idéia. Duvido que seja.

Pensei, também, que as pessoas deveriam aprender a pedir desculpa (aquela verdadeira e sincera). Tenho sérios problemas com quem pede desculpa a torto e a direito. Uma vez minha irmã me disse que a gente só deve pedir desculpa quando se arrepende mesmo do que fez e quando não fez por maldade. Pra mim isso serve como definição. Mas, sabe, tanta gente já me fez mal… não lembro de nenhuma que tenha chegado e pedido desculpa. Assim, simples, só “desculpa” e basta. Eu também já fiz mal a algumas pessoas e não lembro de ter pedido desculpa. Aliás, depois da definição da minha irmã, raramente pedi desculpa na vida. Coloquei-a num altar, com um valor inestimável. E, talvez, eu ainda esteja esperando que algumas certas pessoas venham me pedir desculpa. Eu, de coração aberto, aceitaria e as desculparia. Sinto que isso torna a vida tão mais leve e bela. Eu aqui queimo pestana me decidindo se devo fazer o mesmo.

Viram só? Escrevi, escrevi e não disse nada. Pois é. A situação tem se agravado. Nesse meio tempo até tomei decisões drásticas sobre o tal amor (Stendhal, segure as piadas). Mas, como o tempo não urge neste caso, vou protelar mais um pouco… porque, enfim, acredito que o tempo tomará melhores decisões do que eu. Senti falta de boas conversas nos últimos tempos. Eu sou a pessoa que eu conheço mais vendida por uma boa conversa. Queria conversar sobre o mundo, sobre aquele filme, até sobre o Stendhal, quem sabe, sobre o impasse da dissertação (eu reclamando que não estou escrevendo, quem dera fosse só sobre essas coisas da vida! a vida, aquela, tem prazos!), sobre política, sobre certas coisas que me marcaram muito este ano. E, bem, nem na minha agenda eu tenho escrito. Sento lá fora, um cachorrão de cada lado, vejo o céu multicolorido, as orquídeas, os maracujás no pé e a cabeça fica assim, distante… Se alguém encontrá-la por aí, avisem que o corpo está ansiando sua volta. Ela que retorne bem, alegre, cheia de idéias, mas que não se preocupe porque na ausência dela o corpo não tem padecido, ao contrário do que diz aquele outro ditado.

A colheita vai bem, obrigada…

Foi em abril ou maio que diante de encruzilhadas (decisões a serem tomadas, traduzindo) eu escrevi no meu mural: “O que te resta é ser feliz. Vá.”. Foi simples assim a maior lição do ano: vá. Se há isso ou aquilo, sim ou não, este ou aquele: vá. Ficar parada nunca foi uma opção na minha vida, sempre senti isso. E, claro, os pesares da vida volta e meia me fizeram não poder “ir”. Mas assumi assim, com riscos e chances, o “vá”. Foi assim que decidi meus caminhos este ano.

Depois de uns períodos difíceis, tumultuados, de revezes, comecei a viver alguns dos melhores anos da minha vida. E, não, nada nem ninguém vai me parar. Nada nem ninguém vai me fazer desacreditar – já disse, a fé é minha maior qualidade. Nada nem ninguém vai me fazer trocar o que tenho. O que eu tenho? Imóveis, carros, bens materiais? Não, não tenho nada disso. E nem me importo. Tenho o que sou e o que vivo.

Antes mesmo daquele dia já havia colocado em prática o “vá” e foi justamente por isso que eu titubeei. As escolhas têm pesos, têm preços. Deu medo. Deu receio. Porém, não é todo mundo que sabe ser feliz e percebi que deveria honrar este dom. eu poderia ter ficado, poderia ter lamentado, poderia ter guardado o vil metal, poderia ter reclamado, poderia ter encontrado culpados, poderia ter falado em vontades. Não, não… eu fui. Eu arquei com todas as responsabilidades e aceitei o “vá”. Aliás, responsabilidades têm se tornado o meu forte. Quem diria…

É mais ou menos sobre isso que eu quero escrever. Nem ia começar assim, mas desde a semana passada anotei o tema do post e todo dia leio meu recado no mural – acabei associando.

Eu pensei em escrever sobre três coisas: plantar e colher; paciência e que tudo se aprende. Na verdade, acho que a ordem correta seria de trás para frente. Veremos.

Os últimos anos foram sensacionais. Eu disse que duvidava que 2013 seria ainda melhor que 2012, acho injusto comparar, se for parar para pensar. Mas as coisas que aconteceram têm sua razão de ser, fizeram por onde, e foi sobre isso que fiquei pensando.

Não vou elencar conquistas, prazeres, felicidades, desejos. Não. Semana passada reencontrei uma amiga que não via há séculos, quando nos conhecemos pessoalmente (lá se vão dez anos…) nem éramos muito próximas, mas das pessoas que conheci naquela época, era das que eu respeitava. Travamos contato mais próximo pela internet, afinal ela mora em outro continente. E eis que depois de tanto tempo estávamos ali no Café Vidal do Mercado Público conversando sobre tudo o que deu tempo. Era bom vê-la. Era bom ver em alguém coisas que também encontro em mim. Não somos parecidas, não pensem isso.

Começando pelo final, ela me diz “o que sei é que estou feliz”. Simples assim, sabe? É essa a sensação: estou feliz. Não pensem que não temos dias ruins, não pensem que não temos problemas nos relacionamentos, não pensem que sorrimos o dia inteiro por aí. Não. É algo, recorrendo a um clichê, profundo. É aquilo que faz com que um imbróglio qualquer do dia, um atraso aqui ou uma dor ali não tomem proporções maiores do que as que lhes cabem. É estar segura de si, dos seus “vá”, dos seus caminhos. E, vejam só, nem chegamos aos trinta. E, vejam só, nem precisamos recorrer à muletas e seguros que nos extirpassem medos, dúvidas, apreensões.

Tenho me olhado no espelho e, pela primeira vez na vida, acho que envelheci. Nunca me dão a idade que eu tenho. Fiquei matutando se tudo isso junto não seria a tal maturidade. Talvez. Depois de uma velhice precoce, a maturidade não me cairia mal. (vou pular completamente a Fahya pirralha, palhaça, mimada, birrenta – essa não é para qualquer um!) Não sei exatamente o que, se uma serenidade, se os traços mais marcados, se o sorriso mais calmo… certo é que vejo o tempo no espelho. E, ao contrário do que eu temia, isso não me assustou ou me decepcionou. Aliás, me fez muito bem.

No meio da conversa falamos sobre paciência. Hoje temos paciência. Eu sempre quis tudo ao mesmo tempo agora. Eu sempre cheguei atrasada em tudo porque sempre achei que dava tempo pra tudo o tempo todo e porque sempre fiz questão de fazer mil coisas. Esse excesso dava significado pra minha vida – e me renderam cabelos brancos precoces. Eu me orgulhava de dar conta de tudo. Aliás, ainda me orgulho. Mas se tem uma coisa que eu aprendi, e falo sobre as coisas grandes e realmente importantes da vida, é a esperar. No meu caminho, nada é para agora. Nada é fácil. Tudo demora – às vezes, anos – tudo vai ser complicado, difícil, num longo e tortuoso caminho. Sei lá, uma coisa meio bíblica mesmo. Foi aprendendo a esperar que dominei a menina ansiosa e extremamente nervosa que um dia fui.

Já não quero amores urgentes… não quero sucessos repentinos… não quero consumir todos os dias… não quero excessos… não quero impulsividades… Quero o tempo, com quem sempre tive uma relação linda. É uma mudança e tanto. Desejei por anos a fio conhecer um lugar, ano passado tive o prazer de chegar lá. Naquele momento chorei. Pensei comigo: eu quero, eu posso, eu consigo. Minha vida se resume a conquistas. Eu sempre quero chegar a certos lugares. É o “vá”. Um dia, quando aos dezoito anos me vi sozinha numa cidade desconhecida, encontrei o cartão que minha mãe havia me dado na despedida: “Saber o que se quer Sonhar muito com isso E agir todos os dias Para atingir este objetivo É o segredo para chegar lá”. Minha mãe sabe das coisas e conhece minha principal qualidade.

Eu poderia terminar aqui. Este cartão diz o mesmo que minhas longas linhas. E é sobre plantar e colher. Tenho plantado arduamente. Já senti a exaustão, o cansaço, as dores de cabeça, o desânimo. Plantar é uma dedicação contínua, perseverante, cheia de altos e baixos. Nem tudo brota, algumas mudas demoram uma eternidade para dar frutos ou flores. E cada folhinha, cada botão, cada milímetro proporciona uma alegria sem igual, produz certezas diárias. E só com uma boa paciência desenvolvida para perceber essas belezas. Quem não está em paz com o tempo sai atropelando as coisas, não vê o valor de uma boa germinação, não atenta para as regas necessárias. Comecei a plantar faz muito tempo e confesso que já abandonei minhas plantações, já voltei a elas inúmeras vezes, já achei que tinha escolhido as sementes erradas, já deixei de regá-las – mas delas nunca esqueci. Eis que minha volta é definitiva. Sei que hoje, amanhã, daqui a anos elas continuarão a me dar alegrias sem fim.

Não confundam, porém, com ambição. Eis um baita defeito: não tenho um pingo de ambição nem sou competitiva (vai ver porque meu solipsismo é grande). Admiro e muito as pessoas ambiciosas – aquelas, as de bom coração – porque elas conseguem traçar caminhos mais objetivos, não dispersam com facilidade, vêem as coisas com mais clareza e não namoram as coisas mais difíceis. Acontece que não sou ambiciosa e ainda não encontrei motivos o suficiente para desenvolver esta qualidade – quem sabe um dia. E eu gosto de ter pessoas ambiciosas por perto – em certo sentido. (não vou explicar, mas cabem duplos, triplos e mais sentidos)

E aí eu cheguei ao aprender. Ouço tanto “não sei fazer isso ou aquilo” que já tenho uma metralhadora no automático com “não sabe, aprende”. Sempre fui muito apegada aos dons e inclinações como justificativas para tudo. Hoje não. As pessoas se camuflam atrás do “não sei” em vez de encarar e dizer “como faço?”. Na vida tudo se aprende. Podem faltar dons, qualidades inerentes, talentos, mas aprender todos somos capazes. Encarei melhor a vida depois de tomar isso como lema. Precisa uma carga e tanto de experiência para chegar aí, não duvidem.

Faz um tempo escrevi sobre muletas. Sobre as pessoas que se amparam nas coisas e nas outras para justificarem suas falhas. Perdi minha tolerância com elas. E foi pela experiência. Conviver com pessoas assim me fez perceber o quanto elas se enganavam. O mesmo aconteceu ao conviver com uma pessoa que reclamava demais, acabei achando aquilo tão chato e desagradável que me tornei uma pessoa melhor, moderei minhas reclamações (e olha que eu era campeã). Assim é a experiência. Mas esta também não é pra qualquer um. Experiência não é só vivenciar coisas e relações. É refletir sobre elas, é analisar impactos, é avaliar fatos e atos, é desenvolver-se a partir delas. Como dizem, pra viver basta respirar, mas estar vivo é outra coisa. E é com certa arrogância que eu lamento ver algumas pessoas que não adquirem experiência. Vejo pessoas que já passaram por tantos fatos dos quais poderiam ter apreendido a grandeza da vida, poderiam ter desenvolvido capacidades e qualidades fantásticas e… são os mesmos, infelizes, rancorosos por vezes, dependentes de vícios, discursos, muletas e coisas assim desimportantes e maléficas.

São essas pessoas que não conseguem, debaixo de sóis de Primavera ou tempestades de vento sul, dizer “o que sei é que sou feliz”. Não temos tudo, nem tudo o que queremos, nem o melhor emprego do mundo, nem os melhores relacionamentos, nem as melhores casas, ainda não vimos todos os lugares lindos do mundo, nem convivemos diariamente com as pessoas que amamos acima de tudo… e somos felizes. São pessoas que não aprenderam a plantar e não entendem como não conseguem colher ou querem sair arrancando frutos e flores de pés alheios. São aquelas que sempre têm um “não sei” engatilhado na ponta da língua preguiçosa.

Um dia li uma frase (acho, ou eu mesma a disse num diálogo solitário): surpreenda-se a si mesma. Eu gosto disso. Gosto de me surpreender. Gosto de me superar. E não faço isso por ninguém – faço por mim – nem deixo de fazê-lo por quem quer que seja. Aliás, outra lição fácil que a vida dá: fazer as coisas por si e para si – não pelos outros, seja lá quem eles forem. Escrever isso, publicar aquilo no FB, ouvir aquela canção, falar deste ou daquele jeito, frequentar um ou outro lugar, e todas essas práticas diárias por e para alguém que não seja o “eu”, não levam a nada bom. (não estou me referindo às boas ações e coisas do tipo, não confundam)

O meu “vá” não exige que eu chegue, mas é imprescindível ir.

Sim, há consequências… a arrogância eu já citei. Sabe, não quero falar delas. As consequências a gente tira de letra com as lições da experiência. Ou com um sorriso. Ou com mais uma semente. Tenho evitado remoer demais as coisas ruins, os problemas, os nãos, as faltas e as dificuldades simplesmente porque faz mal. (e é um desafio conviver com pessoas que têm nisso a razão da sua existência) Não deixo de pensar nelas, analisá-las, mas moderadamente e, de preferência, em silêncio.

De tanta coisa no que pensar, sobre o que refletir, pesar, decidir… as dificuldades do caminho vão ficando mais conhecidas, diria até mais leves. Não perdem seu charme, porém. Já havia escrito sobre plantar e colher em algum texto anterior (tenho esse problema de não lembrar do que escrevo, lembro bem pouco, é verdade, mas tenho exercitado ser leitora do que escrevo). Só posso dizer que sou fiel ao plantio e que as colheitas já se mostram interessantíssimas – um sorriso vislumbra o que posso esperar das próximas. Como diria a amiga, isso ninguém vai tirar da gente.

Entre lagartixas e begônias

 

Já faz um tempo. Não moro mais sozinha. Eu sabia, é verdade – mas “olhava para o outro lado” como a Jasmine do último Woody Allen. Percebi as evidências (e nem eram daquelas da canção do Wando) e depois de um segundo de pânico eu fiz que não sabia do que se tratava.

Vi uma evidência aqui, outra ali. Ignorei. Fingi. Fui levando a vida. Eu tenho trauma de não morar sozinha. De tantas coisas boas que fui aprendendo com a vida, eis a que o processo foi o inverso. Meu pavor de gente ao longo dos anos foi crescente e depois diminuiu. Tudo terapeuticamente tratado em auto-análises sem fim. Conviver acaba com qualquer relação – eis uma lição valiosa à qual me agarro. E as pessoas não entendem, mas gosto de ser sozinha, de viver sozinha e, principalmente, de morar sozinha. Minhas últimas experiências não foram nada perto de razoáveis para me fazer pensar diferente. Eu tenho problemas, eu tenho defeitos (aliás, uma amiga acabou de me jogar na cara um dos piores: sempre acho que tenho razão). Um dia quero escrever só sobre meus defeitos. Eu tenho dificuldades, e a maior delas é não conseguir me desarmar para apresentá-las. Pois é.

E ali estavam as evidências. Dia após dia. Eu não estava sozinha. Mas fingia. Ainda chegava em casa, ficava no escuro rebolando conforme a música do mp3 feliz com algum acontecimento ou corria pra varanda olhar para Vênus e tentar entender a vida. Tenho meus hábitos. Primeiro largo a bolsa na escrivaninha, aí tiro o calçado, tiro a roupa. Detesto roupa. Só uso por essas obrigações da vida. Se é noite, acendo o abajur da mesa de cabeceira. Se é dia, abro a varanda. Quando entro em casa, tudo tem que estar exatamente no lugar onde deixei. Tenho trauma de invadirem minha casa. Tenho trauma de entrar em casa e sentir que alguém esteve ali. É uma das piores sensações da vida.

E agora eu entrava e sabia que não estava sozinha. Quando nada mais dá certo, quando quero fugir da vida, do trabalho, dos pensamentos, me encastelo no sofá, apago as luzes e coloco um filme ou seriado para assistir. Naquela noite foi assim. Estava ali, balde de pipoca, tensão num seriado e… lá estava ela. Vinha do quarto e parou perto do meu cabide de bolsas da sala. Parou ali e eu grudei os olhos nela.

Tenho pavor de lagartixas. Já disse, todo mundo que me conhece sabe disso. Não tenho medo nem nojinho nem nada de rato, barata, cachorro, insetos de todo tipo (só pavor de uma certa mosca que tem numas trilhas da Ilha). Mas lagartixas. Não sei. A pele transparente, o olho inexpressivo, me lembram a morte. Os mortos, os cadáveres, os defuntos. E não gosto de corpos mortos. Elas são geladas também – mais próximas ainda dos mortos – e nem queiram saber como descobri isso. Quando há lagartixas eu me sinto oprimida, minha segurança de estar sozinha me abandona. Não é como se a morte andasse por perto, é pior.

Depois daquele dia só cheguei a vê-la mais uma vez, ao afastar uma cadeira ela passou correndo por trás da cortina. Eu sei que ela anda por aí. Por enquanto é só uma. Tenho mais pavor ainda das pequenas, dos filhotinhos, pois parecem mini-lagartixas e não filhotes. Não consigo achar nada bonito nos filhotes dessas criaturas. Não sei porque ela vive aqui. Não há mosquitos e pernilongos o suficiente.

Ela me faz viver com essa consciência de que não estou só. Depois de tantos dias convivendo com isso, cheguei a pensar que nem a presença de uma pessoa – que apagaria meu abajur, que não deixaria a louça no lugar, que penduraria a roupa de outro jeito, que deixaria suas coisas espalhadas pela casa, que soltaria pêlos pela casa toda, que não arrumaria a cama do jeito que eu faço, que desligaria o som para ligar a TV – seria pior. Porque ela está aqui – agora mesmo, neste instante – e eu não a vejo. Ela não muda a ordem das coisas nas prateleiras da geladeira, mas anda por todo lado durante a noite – enquanto eu durmo!

Tenho tentado conviver. Tenho tentado não entrar em pânico. Sei lá, já é hora de eu aprender a conviver com algumas coisas – inclusive com presenças. Não é fácil. O mundo lá fora já impõe tantas presenças, aqui era meu refúgio. E aí lembrei de algo que também me irrita nas lagartixas: a paciência. Elas ficam paradas por tanto tempo, não têm pressa, esperam suas presas. A paciência alheia me irrita. Como eu dizia para uma amiga esses dias, aprendi a ter paciência, é verdade. O passar do tempo tem coisas muito boas. Minha paciência com a maioria das coisas é como trato a presença dela: ignorar. Ignoro tanta coisa ultimamente… prefiro ignorar.

Eu não sei onde ela está agora. Mas sei que continua aqui. Mentalmente, ao vê-la correndo por trás da cortina, fiz um acordo aos gritos: você pode continuar aqui, só não apareça na minha frente! Talvez tenha funcionado. Já estou com tantos problemas, com tantas coisas sérias (ah! Como adoro fugir dessas!) no que pensar. Não penso nela. Mas não quero sentir a presença da morte naqueles olhinhos escuros parados na parede.

E eu pensava nos meus problemas quando fui arrumar os vasos da varanda. Esvaziei de terra minha mais recente tentativa com uma begônia vermelha. Era linda, grande, enfeitava a cozinha. Amo rosas, é verdade. Tenho uma longa tradição em cultivar rosas. Não digo que sejam minhas flores favoritas. Antes das roseiras eu cultivei bocas de leão, kalanchoes, cravínias e begônias em vasos coloridos. Era criança ainda. A noite perfumada lá fora pelo jasmim da varanda e dentro de casa pela primeira florada da orquídea que completou um ano. O kalanchoe laranja está enorme, já fiz três mudas dele e todas estão crescendo bem. O kalanchoe é assim, aguenta sol forte, pouca ou muita água, dias sendo ignorado, fica bem tanto dentro quanto fora de casa. Eu viajo por um mês e quando volto ele continua o mesmo. O kalanchoe é barato, você compra em qualquer supermercado. Não deixa, porém, de ser bonito com suas florzinhas pequenas. Vive sempre florido, tem uma variedade enorme de cores.

Ah, mas as begônias… as begônias não suportam amor demais. Elas morrem se você sufocá-las com tanta preocupação. O caule começa a ficar escuro, elas vão amolecendo, perdendo as flores e folhas. Raramente há volta. Mas é curioso… se o seu desespero em perdê-la for maior do que o seu excesso de zelo, há chances de recuperá-la. Se você atentar para os primeiros sinais de que amou-a demais e cuidar cada segundo para que ela volte, é possível tê-la novamente. Porém, o menor descaso fará com que ela se vá. Ela é complicada, diriam. Eu diria que a entendo. Excesso de amor e de zelo nos sufocam – a falta deles quando é necessário nos matam. Não vejo nada complicado ou complexo nisso. As begônias são meu desafio na vida. Desde criança volta e meia me desafio a cultivá-las. Por alguns períodos abri mão completamente de tentar. Me convencia de que não sabia amá-las. No último verão tinha uma, era ela e o kalanchoe. Por um descuido meu, alguém que ignora os amores das begônias deslanchou seu cuidado excessivo. Ela começou a morrer, foi aí que provei que já a conhecia bem e consegui salvá-la. Mas, mais um descuido meu, e lá foi outra pessoa a enchê-la de cuidados. Sou cercada por pessoas que amam demais, cuidam demais, se preocupam demais. As begônias não são para essas pessoas. Talvez, também, não sejam para mim. Já consegui progressos, é verdade. Já aprendi com elas. Porém, é preciso mais. Não posso me descuidar. Não é somente aprender a amá-las na medida. É preciso tudo isso junto. O kalanchoe continua lá, vigoroso que é, altivo, independente, fácil, sem frescuras. É sempre fácil cultivar kalanchoes. Begônias, não. Por muito tempo deixei de ter kalanchoes justamente pela facilidade. Eu aprecio desafios. Eu aprecio desafios amorosos. Eu aprecio aprender. Aprecio me desafiar a não ser como sempre fui. Eu vou voltar a cultivar begônias.

E ontem foi Ação de Graças. O do ano passado foi especialíssimo. O deste ano também. Eu achava que 2013 não superaria 2012, me enganei. Eu quero duvidar que dezembro conseguirá superar novembro (nem acabou e já foi o segundo mês mais especial deste ano, só perdendo para março – mas setembro e outubro estão em boa cotação também!). Em março do ano que vem comemorarei um ano fantástico. 2013 me deixou sem palavras – mas com pensamentos demais. Aqui em volta, lagartixas e begônias. Talvez 2013 seja isso, lições e desafios. Só digo que estou abraçando tudo. Tudo mesmo – dizem que todos também. Disse que duvido que dezembro conseguirá superar novembro justamente para desafiá-lo. Meu temor eu jogo para debaixo da cama. É preciso ignorar as lagartixas. Um dia isso teria que acontecer. E tão logo consiga, comprarei mais uma begônia. Não acho que seja hora de desistir, de novo.

Desafio: falem bem de mim

 

Minha mãe sempre diz uma coisa (e coisa que mãe diz a gente deve levar a sério) que já reparou em como pais falam mal dos próprios filhos. Ela conversa com alguém e lá vem a pessoa (de alguém praticamente desconhecido até o parente mais próximo) a falar mal do próprio filho. Ela fica indignada com isso. Sempre a ouço dizer que ela nunca fala mal dos filhos dela para quem quer que seja. Bem, não queria dizer nada, mas ela nem tem o que falar mal dos filhos dela. Minha mãe tem excelentes filho (sim, advogo em causa própria) e tem mais dois pontos super positivos sobre o causo: não fala mal das pessoas e ama os filhos. Era sobre isso que eu pensava em escrever quando me veio essa análise que ela faz: falar mal dos outros.

Todo mundo diz que é errado, mas quantos andam por aí fazendo exatamente isso? Digo falar mal mesmo, por maldade, não digo criticar ou ater-se a fatos. Inventar ou destilar veneno por seus recalques, por exemplo.

 

Sempre me acusaram de excesso de sinceridade. Mas, gente, sinceridade é uma coisa em si, não há como ter “excesso”. E, sim, não me falta sinceridade. Já chegaram a me dizer que é bom o jeito como eu sou, sincera, mas que não precisa ser “tanto”. Tanto? Mas se eu for “menos” sincera estarei, ainda assim, sendo sincera? Claro que não. Não falto com a sinceridade. Doa a quem doer (inclusive a mim). Aliás, pensava nisso esses dias sobre as respostas que as pessoas me dão. Por favor, sejam sinceras comigo. Não inventem, não digam por dizer, não tentem agradar. Se eu faço uma pergunta, não diga “sim” querendo dizer “não”. Fico muito revoltada com isso. Sério. Custa tanto assim ser sincero ou as pessoas já nem sabem mais o que é ser assim? Será que elas andam por aí trocando sins por nãos para evitar isso e aquilo que já nem se dão conta da diferença que há? Pois eu queria que as pessoas fossem mais sinceras comigo. Simples assim. E é aí que a sinceridade entra na questão do “falar mal”. Falar mal dos outros pelas costas é, sim, faltar com a sinceridade. E, consequentemente, é falta de caráter.

 

Escrevo alguma novidade? Pra mim, não. Porém, acredito que muita gente por aí não pode nem ouvir falar nisso – imersas que estão nesse mundinho de redes sociais virtuais e reais nas quais se prestam ao papel de falar mal dos outros.

 

Entrar na minha vida é fácil (muito fácil), seja num encontro qualquer num ônibus, num tropeço no cinema (vocês já viram a propaganda da Cinemark?!), no mundo virtual, nas ruas de tantas cidades, na aula, no trabalho. Basta me encontrar e com alguns gestos ou palavras (ou com os dois) você já terá entrado na minha vida. Dificílimo mesmo será manter-se nela. Garanto que não é nada fácil, requer muitos princípios, qualidades, paciência, disposição e tantas e tantas outras coisas. Por isso, falar mal de mim por aí (como tanta gente faz redundantemente) é facílimo. Quero mesmo é ver você destacar-se do senso comum e falar muito bem de mim. Aí eu quero ver.

 

Sempre achei engraçada essa relação do fácil e do difícil. O povo gosta do primeiro, vai correndo pra ele, beija, abraça, já puxa a poltrona, liga a TV e sente-se confortável. Eu gosto mesmo é do segundo. Não sou muito chegada no comodismo, bem se vê. E sabe qual o abismo que há entre os dois? Pensar. Pensar sempre te leva para o caminho mais difícil. Ignorar-se, evitar pensar e atrelar-se aos pensamentos alheios é o convite do “fácil” – tanta gente aceita. Deprê, né? Eu acho. As pessoas preferem não pensar, juntam-se a uma orda de gente que faz tudo igual, vão pelo mais fácil, ficam aí pelos cantos falando mal dos outros, cometendo maldades, esquivando-se de prestar contas dos próprios atos.

 

Eu? Eu tenho a consciência tranquila. Sinto a incapacidade de fazer mal, ou sequer desejá-lo, a quem quer que seja. Também tenho uma lista – bastante povoada, é verdade, desde pessoas que nunca me dirigiram a palavra até parentes bem próximos – de gente que já me fez muito mal, me prejudicou diretamente, me sacaneou, e aos quais eu poderia desejar todo o mal do mundo. Não o faço. Não sinto nada dentro de mim que me permita desejar mal a quem quer que seja. É só uma incapacidade mesmo – alguns até dizem que eu deveria “dar o troco” e essas coisas. Simplesmente tiro-as da minha vida. A vida é coisa boa demais pra pesar com gente desse tipo. Por isso eu disse que é fácil entrar na minha vida, dificílimo é manter-se.

 

Hoje até prefiro que me chamem de arrogante – prefiro a arrogância à ignorância.

 

Eu faço tanto bem às pessoas (vide inúmeras declarações que ouço constatemente), desperto coisas tão boas nelas, faço com que elas vejam a vida de outro jeito, que não tenho porque perder tempo da bela vida fazendo o mal – nem que seja só falar mal. É um dom que eu tenho, faço bem às pessoas. Ninguém pode me acusar de ter tido falhas como profissional, como parente, como namorada/caso/affair, nem de ter sacaneado ninguém, passado a perna, essas coisas. Podem me acusar de ter deixado uns corações partidos (ou desejos não saciados) por aí, é verdade. Quando falam mal de mim é por algum tipo de recalque, dor de cotovelo, problemas psicológicos, sei lá. Nem vou me alongar em imaginar porque as pessoas escolhem o caminho mais fácil e vazio – a escolha é delas.

 

Está lançado o desafio: quero ver andar por aí falando muito bem de mim. Quero só ver.

Quando acontecem coisas naturalmente românticas

No mundo da ficção não falta luz. Ou, quando falta luz, acontecem coisas românticas. Eu gosto de coisas românticas. Naturalmente românticas, não planejadamente românticas. É preciso acreditar demais no Destino e desconfiar demais das pessoas para pensar assim. E no meio do meio do dia eu só queria chamar alguém de biltre. Até ontem à noite queria braços e pernas e pescoços e cabelos para afagar. Tudo planejadamente romântico. Desculpem o intervalo, estava cá vasculhando quando não fui planejadamente romântica. Nunca? Nunca, bem está. Anoto mais esta culpa. Consequência da impaciência, das brigas constantes com o Destino, dá má interpretação dos sinais, de sempre supor-me muito mais carne do que alma e coração (e, apesar de por última, talvez seja esta a maior causa da culpa).

Suponho-me sempre muito mais carne, esta que envelhece e apodrecerá como um dia me lembrou uma amiga, e com veemência ignoro-me do resto. Aquele resto que não se vê – e São Tomé que sou, tenho dúvidas quanto à existência. Por isso, esses dias brindava vinho à frieza e fortaleza que trago invisível no peito. Visível era o decote do vestido tomara-que-caia vermelho. (E também assim me sentia invisível.) O vinho doce, a comida boa, o corpo se regozijando. Palavras tão fáceis da boca pra fora. E, quem sabe, não há brinde que salve. Não há falta de luz que acenda qualquer bobagem de “luz interior”. Não há. A ficção, sim ela, aviva… faz quase São Tomé acreditar que há algo aqui dentro. Eu teria sido daqueles jovens românticos de outro século a beber, comer, ficar endividado, jogar, e loucamente – naturalmente ou planejadamente? – morrer antes dos vinte. Seria, então, o caso de só o naturalmente romântico a tirar as dúvidas de São Tomé? Já mergulhei em tantos devaneios a crer que sim. Alcançaria o estado de suspirar pela falta de luz como se nem notasse e jamais quereria chamar alguém de biltre?

E sem querer citar, sinto como se todo deleite fosse obsceno. Desculpem o intervalo – estava cá a lembrar que o corpo padecerá. Como diz a canção, nem o diabo quis negociar minha alma vendo um mau negócio. Curiosamente desejo as coisas naturalmente românticas – seriam elas a dar algum valor à alma? Tenho pilhas de perguntas que talvez encontrassem respostas. Sei que das coisas planejadamente românticas já tirei todas as dúvidas e conclusões. Este intervalo foi longo, eu sei. Estava pensando se colocarei um ponto final. Caberia um ponto de interrogação no final, é verdade, mas considero muita pretensão. Estava pensando, também, se este bebê que chora foi fruto de algo planejadamente ou naturalmente romântico. Na verdade, primeiro há que se questionar se foi romântico. Os poetas daquele outro século também hoje se matariam, mas não pelos mesmos males. Fui ver que há um relógio de pulso ainda com pilha que me garante que tudo continua seguindo. A falta de luz, então, só interrompeu meus pensamentos. Já não sinto vontade de chamar alguém de biltre. Sinto que nem tenho mais vontade de que a luz volte. Lembro do brinde. Do brinde e do vinho. Nem o vinho esquentou-me ou abriu brechas na fortaleza. Será preciso mais que isso. A ficção, sim, me atira dúvidas no corpo que deseja e envelhece. Calma, procuro o ponto final, e confesso que sinto-me mais distante dele. A luz não voltou – faltam-me, de fato, as coisas naturalmente românticas para ignorar isso. Como ainda há relógio, não há fuga. Arrisco-me a dizer que sairei com uma fresta de esperança a desejar coisas naturalmente românticas – no acaso, no acidente, no imprevisível. É um risco. E digo isso porque não encontrava peça que encaixasse com peça, em mim, nos últimos tempos até faltar a luz e eu esquecer o biltre-ninguém e perceber o brinde e a ficção e as coisas românticas.

(chegou o rapaz que dá a luz e talvez seja esse o mundo sempre a dar seus pontos finais)

Escolhas

A vida é feita de escolhas. Sim, é clichê dizer isso. Mas é sobre o que tenho pensado, principalmente em resposta a muitas coisas que me dizem e que ouço por aí.

Li dois textos que me fizeram matutar sobre o assunto, além de conversas aqui e acolá. Um era sobre como as pessoas vêem quem viaja e que gosta de ter uma mochila da Bolívia, uma sandália de couro do Ceará, e de ter ido ao Museu do Ouro de Sabará, ou de frequentar cursos disso e daquilo aqui e lá – como se os gostos te rotulassem como elitista (fui obrigada a lembrar da Lota de “Flores Raras”). Não raro nos rotulam de arrogantes, metidos (“amostrados”, diriam os cearenses), privilegiados. Aliás, sobre a alcunha “privilegiados” eu desejo escrever um post em especial. O outro texto é um bem lindo e exato sobre “namore uma menina que viaja”. Tive até aquela comoção leve ao ler este, pois me vi em tantas daquelas linhas. A dica é boa, namore uma menina que viaja. E se você não tiver espírito para isso, não namore-a, pois você acabará por fazer muito mal a ela.

Em algumas discussões e no meio geral, o branco que estudou em escola privada e tal é tido, hoje, como privilegiado. Ainda tenho dificuldades em entender o raciocínio, mas não vou adentrar em questões sociais e políticas. Já andava traumatizada com essa questão de “privilegiada” por ser assim branquela e tal quando, ao comentar com uma pessoa sobre o meu apreço especial por viajar, eis que ela me diz “você é privilegiada”. Engasguei com este “privilegiada” (para ter uma idéia do engasgo, a conversa foi meses atrás). Privilegiada? Sério?

Aí uma amiga muito próxima, numa conversa (somos ambas bem francas, grossas e abertas, então as conversas não são floreadas e tal) na qual eu tentava animá-la (coisa, aliás, que faço com frequência), me disse “pra você é fácil”, porque ela dizia que precisava viajar para fugir e eu tentava fazer com que ela lembrasse que não adianta porque nunca fugimos de nós mesmas. Sabe, aquilo quase me doeu (não sou de ficar de mimimi). Pra mim não é fácil tanto quanto não é privilégio.

Sabe o que é, então? São as escolhas. Ninguém sabe do que, diariamente, eu abro mão para alcançar a realização de sonhos e empreitadas (algumas, a maioria até, de longa data). Porque eu nasci sabendo sonhar, e aí apanhei bastante para aprender a realizar esses sonhos – caso contrário, eu viveria insatisfeita, infeliz, raivosa com tudo e todos. É preciso escolher em tudo na vida. Com homem, por exemplo, você escolhe um e abre mão de outro (sei que tem quem pega mais de um ao mesmo tempo, confesso que comprovadamente não tenho muita capacidade para isso). Você escolheu esse, então terá o convívio com ele, do jeito que ele é. E vai abrir mão do outro que, sei lá, beija melhor, dança, tem olhos azuis, não tem mãe, mora em outra cidade. Nas escolhas já vem embutido o que você terá que “pagar”. E por isso escolher, tomar para si as rédeas da tua vida, é tão (mas tão) difícil.

Conheço quem não abre mão de um sapato de salto que custa seiscentos reais. Tem aquele que sai pelo menos três vezes por semana para sair para beber e comer (cada uma das saídas não custa menos que cento e cinquenta reais). Tem quem só usa roupa de marca. Tem quem pode fazer tudo isso e muito mais porque pode pagar por tudo. Ótimo! Tem quem acha que viajar é ir pra Natal, ou Porto Seguro, pela CVC ou tirar foto no Coliseu (aquele auto-retrato, sabe?) ou uma foto da Torre Eiffel vista lá de baixo (já vi tantas dessas e me pergunto: não dá pra subir? Porque nunca vejo fotos lá de cima. Confesso minha ignorância.).

Conheço quem não abre mão de andar de carro. Quem faz e fez de tudo pra ter uma casa/apartamento. Tem até quem compra coca-cola de latinha pra tomar em casa. Sei lá, quando falo de escolhas estou me referindo a modos de vida mesmo. Abrir mão das coisas não é nada fácil. Quem me conhece bem (mas bem mesmo) sabe que a primeira coisa da qual eu abro mão é do conforto. Sou super sem frescuras – e até tenho dificuldade para aguentar gente que é cheia de frescura, é verdade, mas eu tento.

Eu não abro mão de viajar. Se para isso terei que abrir mão de tantas outras coisas, farei com o maior prazer. O mundo aqui do Sul e Sudeste é muito caro. Sair para jantar é caro. Ter carro é caro. Beber, então, é caríssimo. Sim, abro excessões – cada vez mais raras. Foi o que sempre achei de ir ao cinema, que é muito caro. E por muito tempo na minha vida não frequentei os cinemas. Sou super fã de assistir a filmes em casa. De vez em quando me dou ao luxo de num dia de oferta e sala vazia ir ao cinema para deixar a alma flutuar no escuro diante da telona. O mundo por aqui é muito individualista, egoísta, intolerante. Eu prefiro andar de ônibus, é sempre uma experiência interessante. E também já é caro. Ando à pé, de bicicleta. Bebo em casa e sozinha – atualmente por alguns bons motivos.

Você não me verá em baladas nem em casas noturnas caríssimas – aliás, nem de graça. Às vezes digo pra alguém “vamos sair” e a pessoa logo me responde “não posso, estou sem dinheiro”. Pô, mas pra ir pra praia ou pra trilha precisa só do dinheiro do busão (porque eu sou farofeira, sempre tenho comida na bolsa). Aliás, no texto sobre namorar uma menina que viaja esse era um dos pontos: ela sempre terá comida e água na bolsa – porque sabe que a vida pode dar voltas, atrasos e recomeços. Já viajei com a roupa do corpo.

O problema é quem escolhe ter carro, sair toda semana, comer fora, comprar computadores, celulares e tablets de última, andar com roupas boas e caras e afins e não conseguir tempo ou dinheiro para aproveitar outras coisas da vida – vivendo eternamente insatisfeito, invejando e criticando quem leva outra vida. A minha vida não é melhor do que a de ninguém – muitos, se a conhecessem, diriam que é bem pior do que a da maioria. Mas, olhando de fora, é fácil apontar “privilégios” ou “luxos” e “facilidades” que não existem.

É só parar e se perguntar: o que eu realmente valorizo? Do que eu posso abrir mão por coisas que me importam mais? Eu mesma não abro mão de algumas coisas e pago por elas. As escolhas têm seu preço, incindindo principalmente na nossa felicidade e no sentimento de realização pessoal.

Escolher dedicar-se aos estudos por mais tempo também tem um preço. Você paga em tempo, noites sem dormir, dores de cabeça, irritações, “apertos”. Não é um luxo. Quando você escolhe estudar, trabalhar, namorar, ter casa, tudo ao mesmo tempo, vai abrir mão de muita coisa, ou pode abrir mão de alguma dessas e ganhar outras. Para quem escolhe profissões ou carreiras menos comuns (vide as “artísticas”) isso é muito mais evidente. Há sempre aquele momento quando você precisa acreditar no que faz, dedicar-se de corpo e alma, abrir mão de meios facilitadores e confortáveis, e seguir. E nenhuma escolha é fácil.

Eu bem que poderia passar a vida viajando (não sou daquelas que diz que viajar é bom mas voltar pra casa é melhor) e escrevendo. Isso me bastaria. Hoje ainda não posso. Quem sabe um dia. Então, vou fazendo uma coisa aqui, outra ali, abrindo mão disso e daquilo que não me importam de verdade, às vezes até abrindo mão de coisas que me fazem um tantinho de falta, para conseguir encaixar essas coisas que amo e que me são essenciais. Nessas escolhas diárias vou mantendo fé naquilo que quero ter lá na frente – que pode ser viver viajando e escrevendo, quem sabe. Amanhã sei que estarei diante de escolhas que poderão mudar este possível destino final – e essa é a parte mais gostosa da vida. Escolhas são meios, se você não sabe para onde vai tudo fica bem confuso e difícil.

Eu escrevi ali “coisas que amo” e queria dedicar um post todo só para o amor. Passei dos vinte anos e já sei o que amo. Porém, sei que posso vir a amar outras coisas que hoje ignoro. Amor mesmo, no sentido literal, filosófico, poético, o incondicional, sem o qual você não pode viver, que é tudo, te completa, te faz feliz. No meu caso não é um “alguém”, por exemplo. Sei quais são as coisas que amo, incondicionalmente mesmo, e por elas guio minhas escolhas e abro mão do resto. E, bem, quem não conhece o amor não pode mesmo fazer boas escolhas nem ser feliz. Viram como não é fácil?

Eu amo o tempo. Amo como ele sempre faz tudo tão bem. Amo o nosso relacionamento tempestuoso. E foi o tempo que me ensinou tão bem o valor e o peso das escolhas.

Não critico as escolhas dos outros. Mas que tem muita gente errando por aí porque não sabe o que ama, ah, tem! E também tem muita gente que já sofreu pra caramba até perceber que só seria feliz ao escolher de acordo com o que ama – sou particularmente admiradora de algumas dessas.

Ainda hoje me disseram que o lugar onde moro é pequeno. Realmente é. Com ele aprendi a ter uma vida mais leve, menos acumuladora. Este ano cometi desapego até com as bolsas. Fui me desfazendo do que não preciso, do que não quero, do que não me faz feliz. Foram cartas, roupas, sapatos, bolsas, utensílios de cozinha, papéis, muita coisa mesmo. Não quero tudo. Mesmo se eu fosse dessas pessoas que têm dinheiro o suficiente para ter tudo o que querem, sei que eu não seria assim. Certos excessos me desgastam espiritualmente. Sou feliz onde moro pela localização, pela vista da varanda, por ser pequeno e me ensinar com isso, por me permitir ter uma rotina tão “econômica”. Nem TV a cabo eu tenho – se for para “ver”, prefiro ver com meus próprios olhos. E é assim que eu percebo e ouço tantos comentários reprovando minhas escolhas.

Estou aqui com uma lista de exatamente sete coisas sobre as quais terei que fazer escolhas. O tempo corre e tenho que cumprir prazos de escolhas que já fiz. A conta bancária suspira saudades. As malas vivem feitas e desfeitas. As últimas escolhas se mostraram fantásticas e com bônus sobre algumas das escolhas da lista que citei acima. É uma sensação boa demais. São realizações pessoais das quais não vou abrir mão. Hoje nada estragaria minha felicidade, nem uns tetos que balançaram. E eu garanto que não há privilégio nem facilidade nenhuma em nada disso.

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