As últimas palavras…

Um dia, numa dessas aulas sobre a escrita, o cara falou: experimenta cortar a última frase. E não é que o texto do rapaz que ouviu esta sugestão ficou muito melhor? Desde então, pois escrever é um ofício que não se ensina, mas decorre da vida e esta é lição e experimentação, eu penso nisso. Nunca tive muito problema com pontos finais, penso eu. O caos é sempre o título, no meu caso. Porém, volta e meia me deparo com essa formiguinha no pensamento: e se eu cortar a última frase?

Porque o fim é aquela hora que a gente quer sempre dizer o que não foi dito, ou reiterar o que a gente achou que não ficou claro, ou, sei lá, explicar alguma coisa que achou falha. Vejam vocês que a perguntinha incômoda pode ser feita em vários casos, até na vida. Quantas vezes a gente quis dizer algo a mais depois do último adeus? Fosse uma declaração ou um desaforo, fosse o que fosse. Não é só na escrita, nem na vida, no cinema também. E eu poderia, sim, passar o resto da vida aqui só escrevendo sobre a escrita, sobre cinema e sobre a vida – além dos mundos possíveis. Nada mais eu pediria do mundo.

Tenho um problema. Quando falam muito de um filme, mesmo que eu, a princípio, não tenha o menor interesse em assisti-lo (não é francês, não tem o Del Toro nem o Redford, não é dramalhão) eu acabo procurando ver se é tudo isso que estão falando. Quanto arrependimento, gente! Aí aconteceu isso com The Witch. Lá se foi meu tempo de assistir a filmes de terror (sempre preferi os bons suspenses), quando um namoradinho era louco por eles e assisti dos clássicos aos B. Mas, assisti. Inicialmente gostei de ser de época. Fora isso e umas três ou quatro cenas arrasadoras na dramaturgia, é ruim. A pior parte foi o roteirista não ter se perguntado: precisava da última sequência? Não precisava. O fim era a cena da menina que debruça-se sobre a mesa. Seria, no mínimo, um filme relevante.

E na vida? Sobre as últimas palavras, na vida, tenho um problema ainda maior. Sempre penso que deveria ter dito mais. Fossem os desaforos ou os amores. Num caso, disse tanto desaforo depois do último adeus que sei, hoje, que fiz errado. Em outro, quis muito, decorei o texto do que iria dizer, ensaiei mentalmente. E não disse. E, sabe, foi melhor assim. Eu, aliás, iria dizer. Mas escrevi no twitter esta minha ânsia e um sábio comentou que, se eram coisas boas, eu deveria dizê-las. Se não o fossem, melhor calá-las. E não é que é?

A última frase de um grande romance pode ser dispensável – e não são, justamente, grandes romances porque dispensaram-nas? A última frase de um conto, se ficar, sempre o tornará menor. A última cena de um filme será a sua glória para quem até ali não se convencera. A última sequência deitara tudo a perder. A toda hora não pensamos o suficiente em tudo o que dizemos aos outros. É a pressa, os problemas, a desatenção, o caos e as penúrias. Ou o descaso mesmo. Quando vier o último adeus, aí não podemos dar bobeira. Depois do último adeus é preciso que a gente saiba o bem que não deve ficar só no nosso coração, e o mal que deve ser deixado ao vento.

(quem sabe aqui eu deixaria alguma outra frase edificante ou levemente alegre após o suspeito desaparecimento do site – ainda sou crente dos não-ditos, dos vazios, das páginas em branco)

Talentosos egoístas

Talvez lá entre preceitos religiosos, lições de vida e pensamentos positivos da indústria de auto-ajuda esteja a máxima: faça ao menos uma coisa na vida, que você faz muito bem, mas que não seja para você. E pratique sempre isso. No que você é bom? O que é que você faz que alcança um grau de excelência? Mas que o resultado ou os frutos disso não sejam para você. É importante observar isso. É essencial, eu diria. Você pode ser muito bom no teu trabalho, mas um trabalho que não é de ajuda ou serventia a ninguém que precise dele, e do lucro dele só você se beneficia. Não é este o caso.

No Brasil as pessoas não estudam. O brasileiro não dá valor ao conhecimento. Então é raro vermos boas pessoas valorizadas por se empenharem em fazer algo para o qual estudaram muito. Muito raro. Quem tem sucesso em alguma coisa é visando o status social, as posses, uma vida, diriam, confortável. O rico é invejado porque estamos num país onde todos queriam ser ricos. Nosso problema não é ter milhões de pobres e miseráveis. Não se almeja ser uma pessoa boa naquilo que faz. E que este teu fazer seja benéfico para outros.

Vejam só o juiz Moro. Estudou, especializou-se, foi para o exterior fazer um dos melhores cursos do mundo em desvendar lavagem de dinheiro. Claro que ele colherá os louros do trabalho dele, o status, a fama (coisa que nem é de praxe para juízes). Mas é um trabalho que, sim, visa o outro (seja o Estado, a população, etc.). E o cara é tratado como “um juiz de primeira instância” por um ex-presidente (que também usufrui de status e fama). E esse juiz de primeira instância está lá trabalhando e colocando empreiteiro corrupto na cadeia (essa acho que ainda não tínhamos visto). Ah, mas é um juizinho de primeira instância. Viu como a gente não valoriza o trabalho dos outros? Viu como a gente desmerece quem estuda e se empenha em ser bom naquilo que faz?

É como aquele aluno que entrega o trabalho na data certa, com pesquisa feita antes e tal. Aí no dia da entrega chega a turma do “deixei pra fazer na última hora e não deu”, o pessoal que nunca faz nada, e o professor altera a data da entrega pra facilitar justamente para os que, já se sabe, não fazem nada e não estão nem aí para estudar. É esse aluno que não vê o seu empenho, a sua busca pelo conhecimento, ser reconhecido. É esse aluno que vai começar a duvidar do valor de uma boa formação. Se nem o professor enaltece as qualidades de pontualidade e compromisso, por que um aluno se dará a este trabalho? Como incentivar um aluno a ser bom naquilo que ele fará pelo resto da vida? Valorizando-o desde o começo. E só se é bom naquilo que se faz com seriedade, comprometimento e organização.

Como os órgãos de trânsito da cidade. São pessoas que trabalham para a população. Portanto, presume-se que devem primar pela preocupação dos pedestres, motoristas e passageiros. Não deveriam colocar como preocupação metas de eleição, números e estatísticas. Pior ainda quando a equipe sequer entende do que faz e prejudica constantemente a população. Um engenheiro de trânsito, ou os técnicos que trabalham nisso, deveriam ser pessoas que se preocupam em fazer um bom trabalho, para os outros. Não para suas concepções, idealizações ou politicagens. Todo mundo conhece uma situação na qual uma mudança no trânsito prejudica todo um bairro, toda uma rua, todos os moradores e comerciantes do entorno. É justo o oposto daquilo que eu comentava no início.

E nós? Já sabemos o que fazemos muito bem e que é para o outro? Quantas pessoas passam a vida inteira sem nem pensar nisso? Todos nós somos muito bons em muitas coisas. Mas somos educados para que os benefícios dos nossos talentos sejam para nós mesmos. Nossa educação já vem toda viciada de maus hábitos. Não somos educados para o bem do próximo. É muito cristão isso? Claro. Mas é humano, qualquer ser humano pode pensar assim, até os mais capitalistas. Fazer algo para os outros não impede que você siga a sua vida, lucrando, tendo teus bens. Melhor ainda quando você une os dois, como o bom professor que se mantém com o seu salário e ao mesmo tempo faz aquilo que sabe fazer bem para, também, o bem do outro. Como um engenheiro de trânsito que estuda, entende bem daquilo que faz e atua na sua cidade para melhorar a vida dos outros. Como o guri talentoso que sempre quis ser arquiteto, se dedica a isso e faz boas casas para os outros. Talvez um detalhe é desapegar e entregar teu talento ao outro sem nada em troca. Se você cozinha muita bem, por que não oferecer essa boa refeição a quem passa fome? Se você é um excelente professor, por que não dar aulas de graça em cursos comunitários? Se você é um bom advogado, por que não oferecer seus serviços de vez em quando para quem precisa?

Minha mãe sempre disse que o brasileiro é bom só naquilo que faz mal: roubar, prejudicar, dar golpes. Parece uma sina, né? Por que temos pessoas que são boas em coisas ruins? Como os caras que, no desastre de Mariana, deram golpe com os tratores que ajudavam a recuperar as áreas afetadas? Por que tirar de quem mais precisa? Que nível de maucaratismo a pessoa precisa ter para roubar doações (de atingidos por enchentes, desastres, etc.)? E a maioria que faz isso é bom no que faz, comete crimes perfeitos. Assisto estarrecida a tudo isso. Não valorizar quem faz bem as coisas gera uma mentalidade de que o crime compensa.

Quando foi que perdemos a oportunidade de nos doar mais aos outros, sem conhecê-los ou sem esperar algo em troca? No máximo, aprendemos a fazer (por obrigação) pelos nossos pais, filhos, irmãos – e nem nisso temos nos saído bem, vide os casos de filhos e pais abandonados e maltratados. Enquanto o mal girar a roda, o caminho será ruim. Um dia eu disse aqui que amor é tempo. O Padre Bertino Weber disse, na missa do último domingo, “O egoísta nunca vai saber o valor profundo de uma liberdade”. Ficamos atados ao nosso egoísmo, querendo nosso salário, querendo o tempo todo de que dispomos só para nós (e nossas séries de TV), usufruindo solitários dos nossos talentos. Não sentimos nem o gostinho de sermos livres de nós mesmos. Pois não existe liberdade mais plena.

Deixemos o egoísmo transparecer na alegria inenarrável que é ver o sorriso de gratidão e reconhecimento que o outro nos oferece quando se depara com o nosso talento em forma de bem, para ele. Este egoísmo é perdoável.

O legítimo cronista

O cronista legítimo é velho, é aquele senhorzinho que fica a encantar-se como se fosse a primeira vez com o que vê no seu quintal – porque ele certamente tem um quintal. Ou, se é daqueles velhos de cidade grande, falará da vizinhança do seu apartamento ou do cotidiano do Leblon. Porque o cronista tem que ter tempo para ver a vida. Para deleitar-se com ela.

Os jovens não têm tempo para a vida, atropelam-se no ridículo de suas certezas e contestações e um dia, ah! um dia!, sentirão vergonha do que foram – ou fizeram. Os jovens escreverão sobre o amor, sobre as desilusões, sobre relacionamentos e, claro, sobre como é um ato inglório escrever. Porque, é ainda mais claro, eles preocupam-se só e somente com eles mesmos. O jovem lá tem tempo de reparar no vôo incerto de um beija-flor sob a chuva fina que cai no amanhecer do outono? Não, a essa hora ele dormirá pesado depois de uma longa noite de bebidas, rock e questões existenciais diante daquela mocinha que ele quer pegar.

Mas o velho acorda cedo, ouve o silêncio e faz seu próprio mão com manteiga na chapa com a delícia de infringir as regras do médico do coração e da nutricionista, antes que alguém acorde e o pegue em flagrante. Aí ele vê as formigas, em desespero, atravessarem um mínimo buraquinho debaixo da janela e levarem gotículas de mel para suas casas, antes que o frio as mate a todas. Ele sorri e jamais as enxota, afinal, ali está a vida, a necessidade, o instinto e quem sabe alguma inteligência. Talvez, depois do pão escondido e de umas colheradas de granola acompanhada de café com leite desnatado (sob supervisão), ele vá sentar-se no computador e discorrerá sobre aquelas pequeninas vidas. Ou, ainda, talvez ele se bata infinitamente para configurar alguma atualização automática do computador, se irrite e tenha que chamar algum parente próximo – um sobrinho, quem sabe – para salvar-lhe a vida e o computador. Aí, então, ele escreverá sobre essas monstruosas máquinas que nos tomam o tempo.

Certo é que o velho cronista sabe desfrutar o tempo. Enquanto os jovens ligam o computador para escrever o livro da sua vida e passam três horas jogando o último lançamento da Sony. Quando se é jovem nem sabemos que o tempo existe, por que iríamos jogar sementes em potinhos cheios de terra e esperar semanas, meses, cuidar com a falta ou excesso de água, para colher deliciosos pés de couve-de-bruxelas ou espinafres? Os jovens imaginam que o tempo é ver, de um dia para o outro, uns fios de cabelo branco na cabeça do pai, ou pequenas rugas surgindo no rosto da mãe.

O cronista velho já foi jovem. Ele já escreveu sobre as noitadas, sobre suas bandas favoritas, sobre shows inesquecíveis. Relatou em minúcias as aventuras pelo mundo afora, coisas que para o cronista velho só de pensar já lhe doem os joelhos. O cronista, quando jovem, acumulou horas e horas desconfortáveis em bancos de avião e de ônibus, já subiu altos morros, teve os desesperos iniciais das separações e o conforto falso dos novos relacionamentos que curam as feridas. O cronista nos seus bons tempos travestia opiniões políticas ferozes de crônicas inocentes sobre os dias da República. Ele desafiava os desafetos com crônicas tão ferinas que ninguém diria que aquelas cenas eram todas inventadas. Quando jovem, ele gritava; o cronista velho sussurra.

Aí estão o jardim, os netos, as plantas, as árvores que sabidamente dão frutos só em determinada época. E o cronista velho não precisa mais correr atrás de editores de grandes editoras, nem bajular críticos dos grandes jornais, ou almejar um apartamento na avenida mais cool da cidade. Ele está ali, diante do tempo. Vê como a terra demora para entregar-se, como as crianças enxergam o mundo sem filtros, como as pessoas se distanciam com medo dos pedidos de amparo e ajuda. Talvez o cronista velho ainda escreva para algum jornal, então terá o compromisso semanal (dificilmente diário) de usar o computador para escrever sua doce ou melancólica crônica e enviá-la; ou, quem sabe, agora ele se dedique àqueles planos literários com os quais sempre sonhou, mas que deixou para depois porque precisava escrever o livro da sua vida, antes.

Depois do café da manhã, outras lutas se impõem ao cronista velho. A audição que não ouve o carteiro chamar, a mão que treme de vez em quando e derruba a lata de verniz que ele passava na madeira da janela, a dor lancinante nas costas que não o permite assistir a um filme por duas horas sentado, a vista que embaralha as pequeninas letras de um livro que um jovem autor enviou-lhe solicitando que ele escrevesse a orelha, a dieta tão rigorosa que lhe priva de uma suculenta lasanha no almoço (e lhe garante metade do prato de folhas verdes), a saudade de pilotar a moto sem destino pelas trilhas de barro… e disso tudo ele decanta suas crônicas. Porque o tempo é o melhor óculos.

O cronista, quando jovem, não percebe que não tem tempo – apesar de usar a expressão com frequência. Ele salta sobre as ofertas que a vida lhe dá. E suas crônicas queixosas e arrogantes farão sucesso, ele é o cronista da sua geração; será aquele que entende a alma dos jovens, será aplaudido pelos seus iguais, louvado pela crítica e compartilhado entre seus novos e velhos fãs. Quando se é jovem, o ego fala mais alto. Fala tão alto que não permite nem que os conselhos sejam ouvidos.

No fim do dia, o cronista velho se deliciará com o banho. Terá ficado exausto de podar umas roseiras, fazer os reparos na casa, cuidar dos netos por duas horas, lido umas cinquenta páginas e levado a esposa ao médico. Mas todo dia ele se desafiará a ocupar cada segundo das horas só com o que ele quiser, com o que lhe fará ver melhor a vida. E se ele for perder tempo, será em observar as minhocas escapando para os meandros escuros da terra quando ele cavocá-la. Se ele for perder tempo, parará no canal de desenho animado para rir de coisas bobas. Se ele tiver algum compromisso, e perder a vontade de enfrentar a cidade, sentará na varanda em boa companhia e puxará uma prosa sobre uma bela lembrança. E, claro, já terá material de sobra para as próximas crônicas. Enquanto o jovem cronista sofre diante da síndrome da página em branco.

O cronista velho tem essa vantagem: há tanto na memória e na vida para preencher aquelas linhas. Eis a legitimidade da crônica.

Tudo o que a indústria mandar, sir.

E não param de surgir comentários retardatários de quem assistiu a Spotlight. Voltarei ao Oscar? Sim. Fiquei ensimesmada como um filme tão sem graça, tão “fraco”, com um roteiro beirando à chatice, confusão, repetição e óbvio, além de pecar pela falta total de um bom drama (culpa das atuações, mas também das personagens) pode ainda levar as pessoas a se regozijarem com ele. Ah, mas ele levou os principais prêmios. Então eu é que estou errada. Não. Porque eu critico a indústria, e é só prestar atenção como ela funciona para entender algumas coisas. Spotlight eu continuo com a certeza que será um filme esquecido na História do Cinema, nas críticas, nos clássicos. Mas por que hoje ainda falamos dele?

Já expliquei aqui o que levou e leva as pessoas a assistirem e gostarem do filme. A História muitas vezes perdoa, mas o tempo não. Primeiro erro do filme foi o atraso em relação aos fatos narrados, coisa de uma década, não houve nenhuma proximidade com o escândalo, ele não traz, de fato, nenhum dado novo. Ou seja, não surpreende. Um filme sobre um fato real da História contemporânea precisa ter algum fator de surpresa ou elucidação, uma interpretação por algum viés interessante sobre aquilo que provavelmente todo mundo já conhece (pelo menos alguma coisa). Exemplo igual se vê no documentário da Amy Winehouse. Este serve só para os fãs enlouquecidos; aquele só serve para os fanáticos anti igreja católica. Mas a indústria sabia o que estava fazendo.

Sabe a máxima que diz “aquilo que você mais nega é o que mais diz sobre você” (ou algo assim)? É verdadeira. Além de acompanhar os indicados ao Oscar, também tento dar uma olhada nos renegados, naqueles que ficaram de fora e dizem que mereciam concorrer (Jennifer Aniston em Cake ano passado, por exemplo). Lembra da discussão sobre a branquitude do Oscar? Então, a cerimônia inteira foi um deboche pela luta dos negros (nos EUA) na Academia e na indústria – ano passado a Patricia Arquette fez um discurso sobre a disparidade entre homens e mulheres na indústria, até foi aplaudida, mas de lá pra cá sofreu represálias no trabalho por aquelas palavras tão verdadeiras. É assim que funciona, você aponta os erros e falhas dos outros e eles se esmeram em te responder com deboche (daqueles que fazem a pessoa parecer genial). Nunca gostei da cerimônia do Oscar em si, acho que só assisti umas duas do começo ao fim até hoje. Este ano foi uma delas. Assisti. E enquanto lia comentários de como a Academia soube se posicionar, eu via o ridículo.

Aliás, no dia seguinte me dei ao trabalho de levantar uma estatística. Os americanos estão perdendo seu espaço – e não é para os negros. Dos 38 premiados (em algumas categorias há trabalho conjunto) foram 23 não-americanos e 15 americanos (mexicanos, chilenos, australianos, britânicos, paquistaneses, etc.). Das principais, apenas ator e atriz protagonistas, roteiro e longa de animação foram para americanos. Os prêmios mais valorizados, a saber, Direção, Fotografia e Trilha, além de atores coadjuvantes, documentários, curtas e os prêmios técnicos foram para profissionais não-americanos. Surpresa? Não. Por isso a gente vê o que vê no sucesso que faz um Trump da vida. Parece, apenas parece, que os americanos já não são tudo aquilo no império que eles construíram. O Oscar foi internacionalizado. A indústria cinematográfica americana sobrevive – às custas de profissionais de alto calibre do mundo todo. Eles podem ter conseguido conter a presença dos negros (se foi algo intencional). Mas eles não conseguem mais conter o talento de pessoas de todas as cores do mundo.

Sobre a cerimônia, os principais momentos foram a apresentação emocionante da Lady Gaga num trabalho socialmente importante (que perdeu para o fiasco de apresentação e canção igualmente lamentável do Sam Smith) e o merecidíssimo prêmio banhado em lágrimas do Morricone (adorei o agradecimento anotado em italiano). De mais a mais, Di Caprio com um discurso balela levou o prêmio por um trabalho mediano de um ator também mediano.

É como Spotlight. Porque muita dessa gente que assistiu-o não assistiu Concussion. Sim, este me fez voltar a falar do Oscar. Com Concussion você entende como a indústria funciona. Como eles calam quem bem entendem. Filme com elenco negro Straight Outta Compton também tinha. Mas aí é aquela história do negro da periferia que se dá bem na vida (auto-ajuda americana “yes we can” das melhores com uma leve crítica à polícia). O filme do Will Smith (ele merecia a indicação, e foi este comentário que me levou a assisti-lo) é sobre a nova leva de negros que chegam aos EUA vindos principalmente da África. Não são escravos, não são ignorantes, não baixam a cabeça – mas, curiosamente, os problemas que eles enfrentam são os mesmos de séculos atrás. Além deste drama protagonista, este negro estudado bate de frente com uma das maiores indústrias dos EUA (tanto quanto a do cinema, talvez): o futebol americano. No filme eles conseguem calá-lo, mas o filme foi feito e aí a Academia também conseguiu calá-lo.

É mais fácil incitar a horda contra um inimigo odiado em comum, do que apontar que o seu maior prazer e entretenimento tem sérios problemas. É mais fácil você lançar às alturas o sucesso de um filme patético contra a Igreja Católica (que tem vítimas de pedofilia no mundo todo) do que olhar para o teu quintal e dizer para os teus filhos um sonoro “não” quando eles pedirem para entrar no time de futebol americano da escola – ou perder ibope e os patrocínios multimilionários das grandes finais. A indústria funciona assim. E aí seguem os iluminados e esclarecidos ao cinema para publicarem depois, nas redes sociais e blogs, sua indignação contra os casos de abuso dos quais tiveram conhecimento – o que em nada se aproxima da frieza “jornalística” do filme. Mas eles não sabem separar uma coisa da outra.

Defendo os crimes da Igreja Católica? Não. Diminuo a dor e o trauma das vítimas? Não. Estou me referindo ao filme. O filme é ruim, é fora de época, é medíocre, não se interessa em nada pelos dramas das vítimas, foi feito com intenção de lucro e só – tanto que não coloca o posicionamento atual da Igreja sobre o assunto. O filme é de uma falta de honestidade que me revolta. Amparado na utópica noção de isenção e outras baboseiras do jornalismo capenga, acha que faz denúncia e que tem uma boa história. Não faz nada pelas vítimas. Não faz nada pelo combate à pedofilia. É um embuste.

Enquanto Concussion mete o dedo na ferida. Diz, literalmente, o quão racista e criminosa é a sociedade americana e avisa que o futebol americano mata. Mas disso ninguém precisa saber. Até brasileiros são viciados nos grandes eventos do futebol americano, vejam vocês. A indústria só não pode perder seu lucro. E ela faz de tudo (e tão bem) para que isso não aconteça. O que não deveria me surpreender é ver até as pessoas que se dizem contra tudo isso que está aí (e sonham com aquele mundo igualitário e tal) aplaudindo os piores meios que a indústria utiliza para se proteger. A indústria cinematográfica americana não fez um baita filme sobre as vítimas dos abusos de alguns padres da Igreja Católica, com proteção e conivência dela, e jamais fará. Ela não tem interesse nisso. Ela critica a proteção que a Igreja deu aos seus, enquanto ela faz exatamente a mesma coisa com os seus interesses e lucros – assim como a indústria do futebol americano. A lógica é simples e mais velha que todos nós.

Enfim, Concussion é um filme surpreendente, Will Smith arrasa do começo ao fim, honra a cor da pele e todos os negros que têm adentrado as fronteiras dos EUA com o sonho da promessa de uma vida melhor. Chegam com diplomas, com a cabeça erguida e querendo fazer o melhor. Pena que a sociedade seja tão baseada nos interesses dessas indústrias que fizeram dos EUA a tal potência, porque a julgar pelas tais prévias das eleições os bons americanos querem, também, proteger-se. Como dizíamos anos atrás, ter um presidente negro não mudará (e não mudou) em nada a mentalidade e atitude das pessoas – a polícia não deixou de matar negros inocentes nas ruas. Sai um negro, entra um que quer exterminar mexicanos – que, aliás, ganharam dois dos maiores prêmios da indústria cinematográfica: Fotografia e Direção (Iñarritú, aliás, com o discurso exato sobre a situação, muito além de qualquer blábláblá ecológico do abraçador de Papa, Di Caprio, tentaram calar). O que será de Hollywood sem os mexicanos?

Enquanto isso, até a brasileirada estará por aí aplaudindo futebol americano, uivando contra a Igreja Católica, consumindo Di Caprios e suas balelas. Tudo o que a indústria mandar. Mas, claro, não assistem a novelas ou a Globo, porque, enfim, não são bobos. Aí já é assunto pra outra hora.

Quando eu penso na vaidade, aquela antiga da qual já não se fala mais…

Foi-se o tempo em que falávamos de vaidades. Hoje sobrou só a vaidade dos corpos de academia, unhas e cabelos pintados, roupas de marcas caras e famosas. Aquela vaidade interna, do ego, da alma e de onde mais ela se esconde, essa é coisa da Bíblia e dos velhos filósofos. Pois foi dela que me lembrei nos últimos dias. A vaidade, queridos, a vaidade… a que alimenta ferocidades, erros e estupidezes (sem fim). A vaidade de estar certo; a vaidade de estar com a razão, ser o dono da verdade; a vaidade de sentir-se esclarecido. Tudo aquilo que fazemos para mostrar quem somos (aquele “ser” tão diferente da realidade, mas o “ser” que queremos ser).

Eu tive um namorado, um bom tempo atrás, que me deu presentes caros. Nem tanto coisas que eu, era de conhecimento de todos, queria muito, mas coisas que nem tinham nada a ver comigo. Num aniversário, inclusive, ele me deu uma jóia. A cena foi cômica porque quando ele apareceu com o pacote (jóia é pacote evidente) eu gelei. Fiquei paralisada, não queria pegar porque na hora me ocorreu “é um anel, vai querer noivar, casar, sei lá, como digo que não na frente de todo mundo?”. Isso que o relacionamento ia bem, à época. Nada mais descabido de me presentear. Mas, o detalhe: na frente de todos. Com o tempo percebi que os presentes não eram “pra mim”, eram para que os outros soubessem o que ele havia me dado e para que ele convivesse com a idéia de ter me dado algo caro. Se eu gostei, usei e tal, nem importava. Isso me incomodou muito. Não foi difícil identificar nele (com a convivência e tal) uma pessoa que queria ter uma vida financeira acima da que ele tinha possibilidade – tornou-se uma obsessão e desencadeou, claro, numa frustração. Isso me incomodou muito mais.

Eis aí uma vaidade. Vaidade dessas que destroem, corroem e amargam. Me livrei do namorado. Não é do meu caráter viver uma vida de obsessão por ser outra pessoa, ter outra condição (e é sabido que gosto de namorar os desvalidos, dizem os fatos). É o ego a exigir que você pareça aos outros alguém que você gostaria de ser. Vide aí os inúmeros perfis de redes sociais, tanto os “sobre mim” que são preenchidos quanto as fotos e frases que nos levam a formar uma idéia da vida e da consciência que a pessoa tem. Esmagadora maioria é vida e caráter inventados (não passam no teste do “conhecer a mãe da pessoa” (é como se sabe dos podres e das verdades de alguém) ou do convívio na vida real). É a vaidade de parecer feliz; de ter uma boa vida; de fazer viagens sensacionais; de ser antenado e bem informado de tudo.

Apesar do “fora de moda” das vaidades, uma delas está todos os dias em todos os cantos. A vaidade do estar com a razão. Viraríamos cadáveres à espera de pessoas dizerem “errei”. Eu estou com a razão, como eu penso é a única forma passível de ser aceita e… dane-se. Estar com a razão é estar do lado certo, dos justiceiros e esclarecidos1, de perceber o mundo como os outros, pobres coitados, não conseguem. É algo bem diferente de definir o seu posicionamento: quando eu digo como eu penso, porque penso de tal modo, o que me leva a crer nisso e o que faz com que eu prefira tais conclusões. Os vaidosos são utópicos, acreditam em verdades e certezas. A vaidade impede-os de ver o mundo como ele é, inexato à razão humana.

A vaidade cega. Meu ex-namorado, vocês podem perguntar, nem vai saber dizer o que me levou a terminar com ele. Com algumas perguntas vocês talvez descubram que ele ainda age do mesmo modo nos relacionamentos. A vaidade não nos permite dizer que o outro também pode estar certo (o que nem invalidaria a nossa posição). Perspectivas diferentes, de certo que dão visões diferentes (que o digam os fotógrafos). As outras namoradas do meu ex provavelmente jamais pensaram como eu (vocês não vão achar uma que tenha tido o piripaque diante de uma caixinha de jóias!). Somos vítimas de vaidades diversas. Com alguma observação atenta é fácil identificar quais as nossas vaidades e as dos que nos cercam. Há até aqueles que têm vaidades “negativas”, os que se esforçam por desmerecer a si mesmos, os que se metem em situações das quais sabem que sairão faíscas e danos, etc. (também muitos desses povoam o mundo virtual).

A vaidade nos impede de conviver com os outros. Haja vaidade! Se mal sabemos quais as nossas, não vamos perceber as dos outros e o inferno é o que se vê. Eu estou certo; todos que pensam como eu, portanto, estão certos. Logo, os que pensam diferente de mim estão errados. É tão simples. Também eu que não me considero dona da verdade, ao me deparar com alguém que pensa algo que eu considero muito errado, terei a vaidade de, em vez de impor a minha (falta) de verdade, julgar o outro na sua (falta) de esclarecimento. Eu mesma pratico muito esta. É a vaidade da isenção, “não vejo como você, mas sei que o seu olhar está enganado”.

As vaidades não estão nos nossos olhos, por isso não as vemos no espelho. Elas estão entranhadas na alma. Só surgem quando somos nós mesmos (em ligações telefônicas, por exemplo, em atitudes precipitadas, entre as quatro paredes de casa, com quem confiamos) diante daquilo que tentamos parecer ser (em público, diante dos que nos amam, diante de desconhecidos). A vaidade é tão sanguessuga que ela não se dá conta de quando está dando bandeira, torna-se redundante, exibicionista e repetitiva: e é aí que tudo se esvai. Meu ex não me deu um ou dois presentes caros, foram alguns tantos e nenhum que não tenha sido anunciado aos quatro ventos; enquanto eu sabia da penúria dele em muitos daqueles dias.

Nada escapa a uma boa observação. Para isso é preciso ter olhos limpos e abertos. Enquanto adormecidos nas nossas vaidades e sujos da lama que dela prolifera, jamais saberemos dizer de quais vaidades padecemos. Pelo mesmo motivo também é difícil enxergar com quais vaidades os outros estão contaminados. Assim, atualizamos a vaidade conceitualmente e esquecemos no tempo aquilo que ela significava. Mas quem hoje viveria sem esconder-se nas suas vaidades?

1Ver Kant, sério. É o sentido mais exato ao qual me refiro.

O litoral de Santa Catarina – os índios e os babacões

Não foi com surpresa – e confesso que nem dei muita bola pela falta de novidade à questão – que vi a imprensa comentar a poluição do rio do Brás, em Canasvieiras, na Ilha. Mas aí as notícias variaram, eram turistas abandonando a Ilha antes do fim das suas reservas porque estavam passando mal depois de banharem-se no mar. Bem, a partir de então fez-se um auê (meios de comunicação) sobre a poluição do tal rio (que, se não me engano, leva mais de década assim) e dos casos de mal-estar que estavam enchendo os postos de saúde. O governo do Estado foi acionado, numa das notícias cogiava-se decretar situação de emergência. Durante a escrita deste texto, vejo que fecharam a foz do rio.

Pois bem. Qual o grau do problema que leva os mais famosos colunistas do grupo RBS a deflagarem suas indignações contra uma situação de década? Fiquei curiosa. Ontem a reportagem do Notícias do Dia foi expulsa de um posto de saúde. Por que o governo do Estado e a imprensa em peso tomaram para si o problema de Canasvieiras? Sabe-se que não é a praia que eles frequentam, foi a primeira coisa que pensei. Ah, mas quem frequenta? Os argentinos, isso é sabido. Há meses a imprensa argentina comemora a falência do nosso país e da nossa moeda, garantindo que seria A temporada dos argentinos em Santa Catarina (o amor deles por nossas praias é conhecido). E não só argentinos, até os paraguaios, sempre em menor número por aqui, apareceram em peso. Ou seja, Canasvieiras é A praia dos turistas estrangeiros de massa.

Pois é. Toda a comoção tem uma justificativa simples: Santa Catarina, sua imprensa e seu governo, não querem perder turistas. Primeiro ponto: não digo que é irrelevante a questão (poluição, agressão à natureza, saúde pública), mas é deplorável o motivo. Já pensou se a equipe de reportagem do Notícias do Dia fosse em todos os precários postos de atendimento de todas as cidades do nosso litoral? Quantos casos de pessoas passando mal por conta da sujeira da água do mar, o descaso no tratamento (joga no canto com meio litro de soro e manda embora), a falta de medicação, a sujeira e abandono dos espaços? Seria capa do dia, certeza – e nem precisaria recorrer à morte de cantor famoso para vender jornal. Já pensou o Moacir Pereira ou o Piangers se preocuparem e usarem suas colunas para indignar-se contra a poluição de todos (todos, meus amigos, que não são poucos) os rios que desembocam no mar do litoral catarinense?

Então. Quem é do Estado, que mora no litoral ou tem casa de veraneio, pode passar mal, pode ser mal atendido nos postos de saúde, pode passar o verão inteiro jogado na cama. Porque ano que vem ele estará de volta. Porque ele pagará seu IPTU todo ano, almoçará nos restaurantes, comprará nos mercadinhos das praias. Por isso não devemos fazer escândalo desnecessário com a saúde e a sujeira das praias – exceto para o caso de perdermos turistas estrangeiros. Não sei vocês, mas eu não me espanto.

Tomarei a última notícia – fecharam a foz do rio: nada mais lógico, se a água do rio está poluída e prolifera doenças em quem toma banho de mar, vamos impedir que esta água malvada chegue até os banhistas – como exemplo do óbvio. É óbvio que precisamos cuidar dos rios, dos mares, do esgoto, das construções irregulares, do cachorrinho fofinho andando na praia pro dono tirar foto e postar no Instagram. É óbvio que precisamos respeitar a natureza. É óbvio que precisamos de pessoas e lugares capacitados e equipados para atender situações extraordinárias nas temporadas. É óbvio que o rio deságua no mar. Não é? O que não é óbvio é fechar a foz de um rio para eliminar um problema antigo, gerado pelas próprias pessoas que ali vivem e dependem dos… turistas! Canasvieiras é conhecida pelo seu aglomero de construções (puxadinhos e puxadinhos) de gente que lucra e muito com o turismo (não só na temporada) e com aquela velha e decadente máxima “Ilha da Magia”. Essas mesmas pessoas que constroem desenxabidamente seus puxadinhos para caber mais gente por dia no Verão são as que hoje reclamam que os turistas estão indo embora porque a água está poluída – como se não fossem eles a jogar o esgoto no rio. É um círculo vicioso e, pior, espúrio. Eu não fico ao lado dessas pessoas – dos culpados que exigem que alguém tome providências sobre as consequências dos seus erros.

Não sou joinvilense, por isso não direi “ah, é porque é na capital, né”. Não. Mas desafiaria os jornais, seus repórteres e colunistas, a percorrerem todo o litoral em busca de situações semelhantes. Garanto que existem aos montes. Um exemplo simples é a Penha (da qual eu falo há anos). De norte a sul não faltam exemplos. Se não se metem a expor a realidade da maioria dos nossos balneários é porque não querem, justamente, que os turistas deixem de vir.

Eu poderia me perder em horas (ou páginas) falando sobre as temporadas no litoral catarinense. Antes de fazer um ano de idade eu cá estava a ser feliz. Quero apenas lembrar de algo bem simples (e também óbvio) que aprendi nesse longo relacionamento com a natureza. É preciso aprender com ela. É preciso ser um pouco índio. Mas a maioria é aquele babacão de sempre – programa seu banho de mar com a data das férias que o patrão dará e pouco importa todo o resto. Quem é um pouco índio já sabia que a temporada seria muito ruim. O que está chovendo no litoral desde, pelo menos, setembro anunciava que as águas estariam frias e sujas, que o mar não estaria para tardes relaxantes de banho. Quando se fala no El Niño e tal, gente, não é só pra ter o que falar na previsão do tempo do jornal. A quantidade de água-viva no mar não deveria ser “óóó” em reportagem de nível nacional. Mas o babacão é aquele que chega um dia na praia e diz “pô, ontem o mar chegava até aqui ó, hoje tá lá…” – se você falar em maré ele não vai entender. É o babacão que deixa a latinha de cerveja na areia da praia ao lado da cadeira e vai embora, claro, porque ali o mar não chega. É o babacão que passa pela placa de “PROIBIDO ANIMAIS NA PRAIA” e segue com o seu guapequinha porque ele é limpinho. É o babacão que joga o coco verde ou a espiga de milho na areia ou no mar porque “ah, é orgânico”. É o babacão que (se reproduz e) leva o filho machinho até a beira do mar, arreia o calção e manda o guri mijar no mar. Eu poderia escrever páginas e páginas das atitudes dos babacões que pisam numa praia para provar que são babacões.

Enfim, não é só o turista estrangeiro que paga o pato. Não é só o babacão que vai parar no hospital. Todos podem ou não voltar. Uma certeza eu tirei desse caso do rio do Brás: que vexame, imprensa e governo do Estado. Que vexame, prefeituras das cidades balneárias. Que vexame, também, aos frequentadores irresponsáveis das nossas praias.

Eu nem conheço todo o litoral catarinense e já amo pacas. É lindo. Tem a característica de ser litoral de Floresta Atlântica, outra vítima, do Hemisfério Sul, com formações e História fantásticas. Não é quase todo tomado de resorts exploratórios CVC da vida com seu sol o ano inteiro e eternas cadeiras e mesas invadindo as areias – todos têm suas dores e delícias. Mas é o nosso litoral e deveria ser sempre defendido e cuidado com o máximo de zelo – pela imprensa, pelo governo, pelos moradores, pelos veranistas, pelos turistas.

Lamento muito pelo rio do Brás. Ele não é nenhuma estrela internacional pra ganhar capa de jornal e milhares de #RIP, né. Lamento pelo rio que passa aqui ao lado que também está em situação de emergência. Lamento por todos que foram parar em posto de saúde (ou ficaram tratando em casa), sei que não é fácil e até revoltante. Lamento um pouco por essa influência do El Niño, pois já vi verões mais bonitos (e nem vimos a Primavera) – ser um pouco índio é aprender a viver com isso, mesmo que reclamando de vez em quando. Lamento que Santa Catarina, proclamada santa e bela por natureza, parece depender de si mesma e de algum poder divino para conseguir estar à altura do slogan turístico.

O mal, uma questão existencial

Não sei bem quando foi que conheci a maldade. Talvez tenha sido quando a colega de escola, nos primeiros anos, me chamava de elefante – “ó, lá vem o elefante!”, gritava pelos corredores ao me ver, ela que era e ainda é magérrima. A mesma que hoje tem por companheiro um rapaz acima do peso e abriu um restaurante de comida vegana, além de viver cercada por mandalas e afins.

Talvez tenha sido quando pessoas muito próximas, dessas que dizem que temos o mesmo sangue, traíram, enganaram e causaram uma infinidade de males às pessoas que mais amo. Lembro bem, enquanto na escola me chamavam de elefante, de uma ex-prima, ao dormir na minha casa, dizer que os pais dela diziam que conosco era tudo “olho por olho, dente por dente” e de uma ex-tia que me agarrou à força na frente de casa e me disse tanta coisa que ao chegar para minha mãe eu nem sabia repetir tudo aquilo – o bloqueio, graças a Deus, permanece até hoje.

E foi assim, de pessoas que eu nem ligava muito até aqueles que entram na casa da gente, que eu conheci a maldade. Vi as lágrimas correrem de olhos nos quais eu jamais imaginaria, tudo por conta da maldade. Lá se vão quase trinta anos de vida e posso dizer que, na pele, já senti a maldade em umas centenas de formas – enquanto observo-a, no mundo, em tantas outras fantasias que ela adquire.

O mal não é novidade. O mal é banal. Enquanto houver ser humano na face da Terra, existirá a maldade. Todos nós podemos praticá-la. O ser humano, enquanto ser, é mau – falta-lhe a humanidade. Já devo ter dito, mas não gosto dos adjetivos “selvagem” ou “bárbaro” para designar o que me parece estritamente humano, como a maldade.

Talvez pela minha natureza curiosa ou teórica, gosto de quem pensa a maldade. Foi o que me atraiu em Hannah Arendt. Ainda experienciando a maldade no meu dia a dia, tive contato com Eichmann em Jerusalém. Desde aqueles tempos da escola, a história da dizimação dos judeus me fascinava (a maldade, vejam só, tornar-se-ia um tema dos mais relevantes na minha vida) com suas fotos nos livros de Histórias (os quais guardo até hoje). É um fragmento da História da Humanidade que detém meus pensamentos há muito tempo. E a filósofa toma Eichmann, esta figura pretensiosa e angustiante, como exemplo do mal que se faz tomando o famoso “apenas cumpri ordens” por princípio. Ela quer distanciar os vilões, dessas moças bonitas, maquiadas e bem-vestidas das novelas da TV, por exemplo, da pessoa genial, da grande vilania da literatura. O vilão é um Eichmann, um ridículo. É esse cara com quem você almoçou ontem, de calça jeans e camiseta, sem nada de especial.

Recentemente me deparei com Labirinto de Mentiras e The Eichmann Show, além de ter revisto Hannah Arendt, estes dois utilizam as imagens reais de arquivo do julgamento de Eichmann – pois imagino que não há ator capaz de interpretá-lo na sua total falta de humanidade; só demonstra, talvez, no máximo, preguiça em estar ali – e me debrucei novamente sobre a maldade: como não gostamos de falar sobre isso, como fazemos de conta que ela não existe. Até, talvez, atacarem a capital mundial da liberdade. Aí é difícil evitar os noticiários e o assunto do momento permeado de opiniões rasas.

Depois que li A Sangue frio, delineei uma relação entre o livro da Hannah Arendt e a jóia de Truman Capote. Ambos tratam do mal, este mal banal que permeia a nossa vida, seja lá a vida de quem for. Eu já conhecia a história da família assassinada em Holcomb, porém ao começar a leitura percebi a genialidade de Capote ao traçar o caminho (não só geográfico) dos assassinos. Ao terminá-lo, perguntas ficam sem respostas. Não é o crime, a cena sangrenta, que interessa.

Talvez por este interesse em particular pela maldade eu não entendo a comoção histérica diante de grandes catástrofes e holocaustos perpetrados pelo ser humano. O mal que se faz ao planeta, tanto quanto o mal que se faz a qualquer ser humano (seja ele branco, negro, mulher, criança, homem, idoso, etc.) é o mal que se faz contra o mundo no qual vivemos e contra todos nós. Não existe grau de “mais mal” e “menos mal”, seja por questões pessoais, religiosas, geográficas ou políticas. Hannah Arendt enfatiza a maldade propagada por ideologias, pois muito mal se faz em nome deste ou daquele, desta ou daquela crença (em idéias, deuses, ídolos). Nossas crenças pessoais são as que mais praticam o mal. A colega da escola não me chamava de elefante porque pertencia ao partido de algum Estado totalitário, eram as convicções pessoais dela (sim, as temos desde cedo) que a levaram a agir assim. A maldade, em si, não precisa de grandes causas, não precisa encontrar em um povo inteiro a sua vítima.

Talvez não sejam esses medíocres a praticar a maldade verbal mais pobre que estejam aptos a praticar os grandes atos maus. Depois desses anos todos e de tanto pensar nisso, sei que o mal está em quem tem poder, dinheiro, meios tanto quanto em quem não tem um tostão no bolso, nem um cachorro que lhe lamba a cara: e os atos de todos prejudicam, matam, ferem, destroem, deixam cicatrizes para sempre.

Talvez a humanidade prefira creditar as atrocidades do mal à grandes grupos religiosos, étnicos ou políticos. Porque o que torna a nossa vida ainda mais difícil, ainda mais insegura, é sabermos que o mal em si é medíocre, é banal e, como Labirinto de Mentiras expõe tão bem, está no padeiro, nos nossos familiares, no professor da escola dos nossos filhos, nos grandes artistas do nosso tempo, em líderes que vêm do povo. É isso que nós não queremos saber.

O mal, a despeito do nosso medo de encará-lo, não tem limites ao ser praticado nem ao que ou quem atinge. E preferimos pensar que estaríamos a salvo no seio da nossa família, cercado pelos vizinhos do nosso condomínio, ao entrar no avião, ao jantar tranquilamente nos melhores restaurantes, enfim, cercados pela civilização da qual tanto nos orgulhamos.

É raro, mas quis deixar assim organizado (tudo fácil de encontrar, nada cult ou dificílimo de ver/ler).

* Lista das citações

Eichmann em Jerusalém, Hannah Arendt, 1963.

Im Labyrinth des Schweigens (Labirinto de Mentiras), Alemanha, 2014. Direção Giulio Ricciarelli

The Eichmann Show, Reino-Unido, 2015. Direção Paul Andrew Williams

Hannah Arendt, Alemanha e França, 2012. Direção Margarethe von Trotta

A Sangue Frio, Truman Capote, 1966.

E alguns outros que eu lembro agora porque me marcaram muito:

Areia Pesada, Anatoli Ribakov, 1978.

Wakolda (O Médico Alemão), Argentina, 2013. Direção Lucía Puenzo

Exceto A Sangue Frio, todos tratam do assassinato em massa dos judeus – é uma fixação minha, claro, mas considero um bom exemplo a não ser esquecido do ser enquanto não-humano. As bombas em Hiroshima e Nagasaki também podem ser usadas, a perseguição aos católicos no Oriente Médio, a Inquisição Católica, o tráfico de escravos, e tantos, tantos, tantos outros (volta e meia falo disso por aqui, aliás). O que só prova meu ponto de que o mal está sempre presente, é inerente a nós.

Mundos possíveis – exercício filosófico

Em homenagem ao último conto que li, sofrendo por ver o livro terminar, decidi escrever sobre um exercício filosófico. A Filosofia só causa males, para a alma, mente, corpo, enfim, para tudo. Vamos ao exercício.

O que você faria se não houvessem leis, nem morais nem jurídicas, nenhuma, nem consequências (que, se olharmos bem, só existem moralmente) dos nossos atos, nem punições? Uma das artes da Filosofia é imaginar os famosos mundos possíveis. Então, este seria nosso mundo possível: não há leis nem consequências. Quais seriam seus atos? Quais seriam seus princípios?

Talvez caiba definir se nasceríamos neste novo mundo ou sairíamos do nosso mundo (já afogados em leis e detentores de uma consciência tolhida em várias esferas) e entraríamos no paraíso do mundo possível. Se nascêssemos no mundo possível proposto, seria ideal, posto que não traríamos o arraigado certoXerrado das nossas sociedades – e provavelmente viveríamos naturalmente nele. Se hoje jogassem um de nós neste mundo possível, o processo se daria de modo muito mais agressivo, para uns, ou assustador, para outros. Ou, em muitos casos, não haveria processo algum.

Pensem em pessoas que vocês conhecem. Aquele cara que no momento da suspensão das leis e das consequências, sairia bêbado dirigindo loucamente como bem entendesse, pegaria em armas e mataria todos os seus desafetos – até quem lhe pisasse o pé por acaso. Talvez as leis existam justamente por causa dessas pessoas. E você? O que você faria?

Quantos sinais você furaria? Quantos casos extraconjugais teria? Quantas pessoas mataria? As leis só existem para que deixemos o nosso lado ser (do humano) aprisionado e domesticado. Enquanto seres, agiríamos – todos – de modo repreensível. O acréscimo “humanos” é que nos previne de que não podemos apenas ser neste mundo. O humano deve pensar que há uma humanidade, que há outros que dependem entre si para continuar existindo. Talvez hoje sejamos mais humanos do que em 1940. Talvez digamos isso baixinho, numa noite escura, para tentar nos convencer.

Eu tenho certeza que mataria alguns. Poucos, é verdade. Um ou outro aí que eu preferia que não existisse. A não existência de leis morais nos levaria a praticar tudo aquilo que nossa mente refreia ardorosamente todo santo dia. Jogaríamos (mais) lixo nas ruas e nos rios, ouviríamos música num volume (mais) alto, não doaríamos nada nem daríamos esmolas, arrotaríamos e peidaríamos quando e onde desse vontade, cobiçaríamos a olhos vistos até conseguir. Praticaríamos os atos mais ignóbeis que hoje permeiam os cantos das notícias de jornal.

Ah, então seria a barbárie! Não. Seria o ser do humano. Só isso. Seríamos, digamos, mais nós. De verdade. Roubaríamos milhões, bilhões, trilhões (e eu mal sei contar até aí) porque não haveria punição nem nenhum peso moral que nos condenasse – diante da sociedade ou afundados nos nossos travesseiros. Mentiríamos ao nosso bel-prazer! Imaginem quantas desculpas, mentiras e justificativas poderíamos dar sem o peso do constrangimento! Enganaríamos quem amamos, passaríamos a perna nos nossos concorrentes da forma mais desleal possível.

Quando batesse uma tristeza, poderíamos colocar o pé para alguém tropeçar, só pelo desejo de rir de alguma coisa. Certeza que eu faria muito isso. O exercício consiste em nos colocarmos neste mundo possível para, no mínimo, nos conhecermos melhor. Sabermos, enfim, do que seríamos capazes na prática. Visto que a maioria esmagadora de nós não matará, neste mundo real, o seu colega de trabalho porque ele é burro e fala demais (no mundo possível eu mataria, certeza certa). E vocês, o que fariam? Me contem! (se é que pode ser algo assim dito com todas as letras)

Além de matar os burros e chatos e praticar sacanagens bobas para rir dos outros, esses pecadilhos de nada, não sei se eu faria coisas muito graves – é o peso do humanismo moral que nos cerceia até a imaginação. É, pensando bem, também não teria muito problema com roubar. Mas preferiria correr as casas de madrugada, sacaneando cachorros e quebrando vidraças só para não deixar em paz o sono alheio.

O exercício filosófico de imaginar mundos possíveis é gratificante. Nos coloca de frente com nossos maiores medos e prisões. Faz com que entendamos muito mais de nós, do que somos capazes e, principalmente, dos nossos desejos. Não acho que a humanidade conseguirá ser assim tão humana enquanto os desejos viverem reféns do joguinho infantil do pode e não pode. Talvez, ao sair de um mundo possível, cheguemos a conclusão de que não precisamos de tantas leis, de tanto pensamento ruim, de tantas amarras. Imaginar um mundo possível qualquer nos faz olhar o nosso mundo com outros olhos. E os mundos possíveis são infinitos, longe de nos amedrontar diante da nossa finitude, nos permite sonhar e acreditar que as coisas não podem (nem devem) ser apenas como são. Porque, para fazer deste mundo, um mundo possível, às vezes só nos falta coragem.

E você, pensa no outro?

As mais profundas mudanças sociais acontecem em tempos de crise – não sou eu que digo, está aí nos fatos ao longo da História. Não basta você querer que algo seja diferente, que um grupo seja visto e tratado de outra forma, que a mentalidade das pessoas conceba certos conceitos – não basta. É preciso que grandes (ou aqueles pequenos que causam uma explosão gigantesca) fatos intercedam. Não adianta nada só querer – não sei se estamos familiarizados com esta premissa hoje em dia. Querer algo bom é louvável, mas por si só não causa grandes transformações. Também não estou falando dos olhos que só vêem os próprios umbigos – aliás, para não deixar o texto fácil aos ataques, tentarei guardar um pouco o meu desprezo por essas pessoas. As coisas do mundo mudam porque as pessoas pensam no outro, jamais porque pensam em si. Não basta um pequeno grupo vítima de alguma injustiça ou atrocidade pensar nele, tentar lutar contra isso, é necessário que as pessoas de fora deste grupo pensem nele, no que aquelas pessoas sofrem e do que são vítimas. Infelizmente é assim. Deixemos, portanto, os umbigos de lado.

Independente se existe ou não, oficialmente, uma crise, passamos por tempos difíceis. Seja o preço da cebola que disparou ou as centenas de milhares de famílias que não estão em dia com as contas de cartão de crédito e financiamento da casa, o país não vai bem. É preciso deixar de lado, também, a fala do governo e de qualquer um contra o governo. Falo, portanto, do dia a dia, de nós, de pessoas. De todos que deixaram de ter aquele momento de ir ao cinema, de sair pra comer alguma coisa com o namorado ou com os amigos, de ir passear de carro aos domingos, de pagar a escola do filho, de pagar a conta de luz pra poder pagar o supermercado. De todos nós que abrimos mão de muita coisa pensando nos gastos e nos preços altíssimos. Claro, pode não ser o teu caso, querido leitor, e, então, não és um brasileiro comum.

Em tempos difíceis é fácil pensar ainda mais em nós mesmos. No quanto queremos sair dessa. E é justo neste momento de abrir mão de tanta coisa que o ser humano deveria pensar em quem já não tem muito – quem dirá abrir mão de algo. Na oração de Nossa Senhora do Desterro há uma passagem belíssima (me perdoem se já falei dela, mas uso-a com frequência): “Senhora do Desterro, olhai também por tantas pessoas em situação de desesperança, de aflição, em piores condições que as minhas.”. É num momento flagrante de ir orar por você ou por alguém ou alguma coisa que nos deparamos com isso: orar por quem (ser abstrato) está em piores condições, por quem necessita mais do que eu. Por pior que seja a nossa situação, por mais desesperadora, mais falida, haverá sempre alguém em piores condições que nós. Assim, a oração nos consola (num sentido religioso, que eu sei que nem todos compreendem ou acreditam) e nos faz agir como seres humanos – aqueles que não olham apenas para os próprios umbigos.

Trago a oração de Nossa Senhora do Desterro para tratar dos tempos difíceis. Somente nesses momentos o mundo pode mudar. E se não fizermos a diferença agora, jamais teremos a chance de fazê-la. Foi em tempos de guerra que as mulheres assumiram o trabalho “de homem” e saíram de casa para cuidar do sustento e fabricar armas para que seus maridos e filhos lutassem – e dali em diante ser mulher mudou.

E agora, em tempos de necessidade, quem precisa mais que nós? Pelo que conheço das pessoas, são poucas as que doam (roupa, utilidades para casa, comida, revistas, livros, tudo que uma vida precisa) com regularidade, que fazem da doação um hábito. Me dói conhecer pessoas que não doam. Para incorporar a doação como hábito é preciso aproximar-se de alguma entidade (um lar de crianças, de idosos, deficientes, instituições que cuidam de mulheres em situação de risco, orfanatos, instituições religiosas ou não que cuidam de famílias, que ofereçam ensino e cuidados, há de todo tipo, para casos e situações que nem imaginamos – em todas as cidades há), conhecê-la, saber como ela trabalha, a quem atende e do que precisa. É simples, em poucas horas você pode se inteirar disso. Em alguns dias ou meses é só acompanhar (às vezes por comunicados, mídia) as ações da entidade, ou procurar a história dela no município.

Conhecendo a entidade, é só doar. E doar, como diria o padre Juca, é doar aquilo que você precisa. Doar um sapato velho, uma roupa que você não gosta, tudo aquilo que você não quer mais, não é doar de verdade. O ato de doar algo a alguém é dar o que o outro precisa. O pensamento mais comum sobre doar é o que eu não quero pode ser útil a alguém – e isto é querer livrar-se de algo, não é, nem em última instância, pensar no que o outro precisa. Portanto, ao pensar em doar alguma coisa, separe aquilo que você imagina (ou sabe, pois as entidades podem repassar o que precisam no momento) que outra pessoa esteja precisando. E lembre que, quanto maior o guarda-roupa, menor o coração de uma pessoa.

Somos capitalistas, claro que sim. Somos consumistas demais e isso nem tem a ver com o capitalismo. Não cabe na discussão. Nossos hábitos não estão condenados a nada além da nossa consciência. Por isso sou dessas que condena sites de revenda de coisas que “enjoamos” ou “desapegamos”. Não é uma maneira de combater o consumismo ou mesmo dizer que temos hábitos diferentes da massa. É até pior, porque estes sites e comunidades geram ainda mais consumismo (vou numa liquidação, compro loucamente, depois fico meses com uma pilha de coisas que nunca usei e, rá, não tem problema, vou vendê-las e ainda ganhar um dinheiro – pra gastar de novo em coisas que…) e não geram fluxo de doação para quem precisa. Se eu já fiz isso de comprar coisa que nunca usei? Sim. Se eu já comprei por comprar? Sim. Se eu já peguei algo de que gostava e doei porque sabia que era necessário a alguém? Sim. Para alguns pode ser um caminho. Auto-analisar o próprio consumo, os próprios hábitos. Você precisa mesmo do dinheiro que vai ganhar vendendo meia dúzia de roupas e sapatos? Ou há alguém que precisa dessas peças mais do que você precisa deste dinheiro?

É simples. A gente só não faz porque se apega às coisas erradas. Não aprendemos a pensar no outro. É mais fácil um pai ensinar o filho a pensar no “amanhã” (guardar dinheiro, estudar pra ser alguém na vida) do que pensar no outro – até este outro que a gente nem conhece. Não é preciso, porém, tirar foto e postar nas redes sociais. Nem, meus queridos, esperar que o seu terreno no céu esteja garantido. Doar, lembrem, é porque o outro precisa. Não porque queremos mostrar nossas belas práticas diante da humanidade (nem sob a desculpa esfarrapada de que podemos “influenciar” positivamente os outros) ou porque nossa consciência já não comporta nossa lista de pecados. Se você pratica alguma boa ação (seja ela qual for – desde doações, trabalho voluntário, esmola a ajudar animais de rua e ajudar a construir hospitais) porque fazê-la te faz bem, você está fazendo isto errado. Seja por indicação terapêutica, de padre ou pastor, ou obrigação na firma, a ação em favor do outro nunca deve gerar a satisfação consigo mesmo nem qualquer tipo de prazer (se não me engano há algo de aristotélico nisso). Por isso deixamos os umbigos de lado lá no começo do texto.

Há quem pense que enfiar a mão no bolso atrás daquelas moedas que sobraram e jogá-las no chapéu de algum morador de rua é uma boa ação, é doar. Não é. É um ato de desprezo. Quem faz isso despreza a pessoa que cruzou o seu caminho lembrando-lhe que existe miséria e necessidade em todos os cantos – tanto quanto despreza aquelas moedas no seu bolso. Talvez seja um ato de auto-preservação do ser humano não querer ver as necessidades alheias, pois teme a qualquer momento passar por elas – passar fome, passar frio, não ter onde morar. Tememos tanto isso que preferimos ignorar que é um risco eminente pra todos nós, pois nunca se sabe (desculpem, não é argumento, mas o fatalista nunca se sabe é um mantra pra mim). Se não vemos vidas humanas em necessidade, podemos até acreditar que as necessidades em si não existem no mundo – e, portanto, não estamos suscetíveis a elas.

Há quem se engaje em qualquer campanha do agasalho, doações para atingidos por tornados e enchentes, e tantas outras que geram grande publicidade. É válido? Talvez. Diante de certos casos o próprio Estado deve intervir e ter, obrigatoriamente, um contingente de doações de artigos de primeira necessidade, mas o Estado é falho. E, vejam só, as pessoas não precisam de roupa só no inverno, porque ainda não é liberado andar pelado quando faz calor. Sim, no calor as pessoas também precisam de roupa – e, meus queridos, não vai dar pra usar aquele moletom que você doou no inverno. Essas campanhas de roupa de frio contam com o hábito que, em algumas regiões com estações bem definidas, as pessoas têm de guardar as roupas conforme o calor ou frio que faz. Aí, quando reabrem caixas, sacolas, guarda-roupas e se deparam com aquelas peças que nem lembravam mais, querem se livrar delas, vêem que já passou a moda daquela jaqueta estilo cowboy, daquela blusa com franjas, da saia longa. E, claro, quem é que vai andar por aí com roupa fora de moda. Melhor doar. Em situações muito extremas, para as quais nem nós, nem o Estado nem ninguém está preparado (como as grandes inundações de 2008 em Santa Catarina) todo esforço, se vier de um hábito, é válido. Se vai doar só porque está com pena ou o pessoal todo da empresa está fazendo, melhor não.

Pensar no outro não é fácil. Desapegar (de verdade e não como nome bonitinho pra site nem pra limpeza no coração) de verdade também não. Não nos ensinam isso. Nossas práticas correspondem ao que vemos no mundo: e não é correto, nem digno, que a gente critique o que acontece no mundo porque nós colaboramos diretamente com tudo. Sair por aí combatendo o que os outros (vejam, aqui há um outro outro: aqueles outros que tanto amamos odiar, desprezar, menosprezar porque eles fazem coisas erradas – aliás, o único outro do qual falamos com frequência) fazem de errado, o mal que eles praticam, não diz nada de bom a nosso respeito. Eu não preciso combater o mal que os outros praticam: eu posso praticar o bem. Posso, para começo de conversa, praticar o bem em relação a um outro qualquer. E isso sim vai fazer diferença no dia a dia, nos tempos de crise e vai empreender alguma mudança no mundo.

The Book of Negroes (um desassossego)

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Há algo de filosófico em pensar que, quando temos as respostas erradas talvez tenhamos feito as perguntas erradas. Eu sempre penso nisso numa atitude de inquirir e questionar o que se pretende apresentar. Há, também, algo de filosófico em pensar se o problema que se apresenta está colocado da maneira correta.

Pensei em começar assim para justificar que, não desmerecendo outras lutas e pautas, aprendi muito uma forma diferente de ver uma mesma questão. Muito se reclama, no meio audiovisual, que faltam negros nas produções (nas telas e por trás delas). Não, não é só nas novelas brasileiras (ou mesmo em telejornais e etc.). O mesmo acontece na indústria cinematográfica e televisiva estrangeira. A TV americana, porém, trata isso de uma forma menos pior, digamos. Me parece que tem uma boa quantidade de produtos audiovisuais com personagens negros. Volta e meia esses “problemas” entram em discussão, o atual é sobre os salários das atrizes, depois do discurso politizado de Patricia Arquette ao receber o Oscar. Bem, seria repisar dados conhecidos demais dizer que os homens (brancos e blábláblá) dominam praticamente todas as áreas e tal. Não é isso que me interessa hoje.

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A despeito, também, dos estudos (dos quais realmente não sou detentora) decoloniais e afins, pois acredito que não se encaixe na minha idéia.

Assisti a minissérie canadense The Book of Negroes, dirigida pelo negro jamaicano Clement Virgo. Não pretendo ser spoiler nem tratar da trama, apesar de ter alguns tantos elogios. Enquanto assistia, me peguei pensando que não é só dizer “não há negros nos filmes, séries, novelas”. O brilhantismo da minissérie, pra mim, está no fato de pensar a fotografia para a pele negra. Estamos acostumados demais em ver as imagens de brancos, loiras, morenos, com luz e fotografia pensados para essas “cores”. Porém, há vários casos de audiovisuais que têm negros no elenco, sem perceber que eles se perdem nas imagens com luz apropriada para as peles brancas ali presentes. O trabalho de fotografia de The Book of Negroes é fantástico – mesmo que sutil demais para um olho desatento.

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Sim, a história é emocionante. Sim, cobre um período e fatos que não são de amplo conhecimento do povo em geral. Sim, é dar visão às atrocidades. Sim, é uma história de esperança. Sim, tem atuações brilhantes. Seria só mais uma série/minissérie que eu teria gostado (de época, óbvio), se não fosse o despertar de um olhar para as cores que compõem o quadro de um elenco negro. E assim eu acredito que a questão deva ser recolocada: não só faltam negros no audiovisual (na frente e atrás das câmeras), nem faltam temas e histórias que estejam em sintonia com os personagens negros, falta pensar como ver (no sentido literal) a pele negra nas telas. E, pra mim, isso faz muito mais sentido.

Do que eu estou falando? Da beleza que, em meio às desumanidades cometidas no enredo, surge da pele brilhante sob a chuva. Do uso intenso dos tons terrosos que combinam e dão realce à pele negra. De usar a paisagem fria, gélida, branca, casar com perfeição e não deixar um traço de sombra sobre o rosto negro, enquanto salta gritante a branquidão da pele dos outros que, estes sim, parecem destoar ali. É tão batido (apesar de ter um filme fofinho que trata bem disso, com a Juliette Binoche e, infelizmente, o Clive Owen), mas uma imagem vale mais que mil palavras (e eu sou do tempo que as imagens eram menos mentirosas e manipuláveis).

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Ou seja, só assistindo para entender. Mas, justifico-me novamente, este blog tem a premissa de ser campo para meus desassossegos. Então, cá está. Listo mais um deles. É uma minissérie que eu acho que nem chegou nem chegará no Brasil, passou em janeiro no Canadá e em fevereiro nos EUA, tem apenas seis capítulos e é baseada num livro de Lawrence Hill (acredito que sem tradução para o português), outras informações é fácil encontrar por aí. Sim, sou apaixonada por essa coisa de acesso quase irrestrito à arte e à cultura, então deixo avisado que tem para download em site seguro (só não vou deixar aqui por questões óbvias). Partindo da minha compreensão da fotografia da minissérie, confesso que já fui longe, por isso comecei com as atitudes filosóficas de mudar o ponto das questões que nos apresentam.

E só uma curiosidade, houve uma campanha para explicar o termo negroes no título, pois é ofensivo nos EUA, mas ele é explicado na história e, pá, assistam e não fiquem lendo spoilers.

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