Entre Poder, Liberdade e momentos de burrice

Acredito que não tenho, com este texto, respostas a dar. Também acredito que estou num momento da vida no qual dificilmente eu mudaria minhas convicções mais recentes, porém admito ter adquirido uma facilidade cética em relação às crenças e convicções alheias. Tenho pra mim que buscar respostas e verdades com muito afinco (como vejo fazerem ao meu redor) é um erro que se afasta do exercício da reflexão e morre mugindo nos braços da desilusão.

Dito isto, eu quero relatar algumas coisas pelas quais passei, das quais tive conhecimento e que se misturaram com fatos aí da vida real – e não creio que darei conta de expor aqui tudo o que pensei sobre, é claro.

Talvez seja bom partir da premissa de que não acredito no poder do Estado para o bem do povo. Ou, melhor colocado, quanto maiores os tentáculos do Estado sobre nossas vidas de cidadãos, piores as condições de vida – em todos os sentidos. Cheguei a isso faz um tempo, apesar de saber que a relação é complicada, pois não sou uma anarquista (já tive minha época) nem burra a imaginar uma nação, ou nações, ou grupos sociais auto-suficientes na gestão coletiva. Porém, a questão é simples: não quero um Estado que me proteja de mim, um Estado que diga o que meu filho pode ou não aprender (ou quando), um Estado para quem eu pago e que ele decidirá como vai me prestar os serviços dos quais eu preciso.

Também vou deixar claro que não sou militante ou sequer simpatizante dos movimentos sociais. O que, aliás, para bom entendedor significa que também não sou contra – mas, como eu disse, tenho sido cética em relação às convicções alheias. Melhor ainda, deixarei claro que em questão Política sou Liberal-Filosófica e, acima de tudo, pela Liberdade. A primeira poderá sofrer alterações ao longo do tempo (já fui Socialista, já fui Anarquista, já fui tanta coisa e, aparentemente, nunca deixei de ser utópica), contudo, a segunda é tão entranhada que jamais será desvirtuada. Eu sei de onde vieram essas formações, mas não cabe aqui a lenga-lenga explicativa. “Não o prazer, não a glória, não o poder: a liberdade, unicamente a liberdade.” (Fernando Pessoa no meu amigo O Livro do Desassossego) dá uma boa prévia de como ou de onde eu construí alguns princípios e não nos alonguemos mais nisso.

Não sou, então, de Esquerda, nem de Direita – muito menos de Extrema qualquer uma das duas. E se você vê o mundo a partir da viseira do dualismo, melhor parar de ler por aqui. E aos de má-fé, adianto que Neo-liberalismo nada tem a ver com o que estou pensando – é só mais uma infeliz prática de uma boa idéia. Deixados os dualismos de lado, prosseguirei.

Li uma reportagem (e pouco importa de onde) sobre pais que estavam processando o Estado para conseguir matricular os filhos antes da idade prevista. Na minha época, para entrar na primeira séria era preciso ter sete anos. Hoje, aos seis já é possível – sendo que o Ensino Fundamental aumentou um ano, a nona série. Pais querendo que seus filhos de cinco anos (incompletos, inclusive) tivessem o direito à matrícula. Pais defendendo que acompanharam os filhos e que eles têm total capacidade de acompanhar uma turma de primeiro ano. O relato dos pais, para mim, foi chocante. Eles, claro, afirmam que desejam o melhor para os filhos, ao colocá-los antes na escola porque os pequerruchos têm capacidade e seriam lesados com a proibição por um mero detalhe que é a idade. Meses antes de ler isso, eu tomei conhecimento do projeto do Governo Federal de, em alguns anos, obrigar todas as crianças de quatro anos a estarem matriculadas – ou seja, a matrícula obrigatória será para o que vem antes da primeira série. Meu choque, neste caso, aliou-se à revolta.

Por que o Estado deseja com tanta convicção que meu filho fique encarcerado numa escola desde os pouquíssimos quatro anos? A questão se colocaria assim para mim. Sei que muitos (a maioria?) dos pais matricula seus filhos com essa idade ou antes, em creches. Pensei que para muitos pais, o fato do filho “seguir seu rumo” aos quatro anos será de grande “ajuda” (para não dizer alívio). Maldade? Não, porque infelizmente tenho visto poucos pais que se alegram e aproveitam as dores e delícias de criar um filho por perto, poucos pais não delegam suas responsabilidades às babás, avós, professores, “tias” e o escambau. Claro, eles têm que trabalhar, eu sei, ó, mundo capitalista. Mas é assunto pra outra hora.

Meu susto é pensar que a educação (em todos os níveis) destas crianças está sendo empurrada para o Estado. Vejo isso com grande temor. Enorme temor. Entre a notícia lida e o conhecimento das mudanças do Governo (que, vale dizer, está fazendo uma campanha maciça para que as escolas e professores consigam fazer com que crianças de oito anos (tardiamente) saibam ler e escrever) li um livro que me fez temer ainda mais o andar da carruagem.

Há uma deficiência absurda entre as crianças ao exercitar a leitura e a escrita. Adotaram políticas inomináveis sobre “passar de ano” alunos que não tinham domínio do conteúdo previsto. E o não saber ler e escrever está na base. Eu vejo alunos de Ensino Médio (de Graduação, pós-graduação…) que não foram alfabetizados – e não são “alguns”, em certos lugares é a maioria. Os problemas que criamos hoje, só virarão precipício lá na frente. Por isso, tentei, por um lado, entender a iniciativa do Estado em obrigar a matrícula aos quatro anos como uma tentativa – sofrível – de que as crianças saibam ler e escrever aos oito anos. Porque, devem pensar, entrando com sete anos não é possível.

O livro me fez pensar num radicalismo: o Estado não domina o povo pela Economia, nem pela Cultura, nem pelo assistencialismo social. O Estado domina uma sociedade pela Educação. E a Educação, retirada da alçada dos pais, fica à mercê das intenções e intencionalidades do Estado. Quem dirá uma Educação que tira crianças aos quatro anos do seio da família e a encarcera em salas precárias, com professores descontentes (e muitos sem formação mínima), sob o domínio de pensamento deliberadamente pré-determinado – enquanto pais folgadamente se eximem das suas responsabilidades.

Não foi difícil juntar alguns pensamentos e concluir que não quero que o Estado interfira em nada na educação dos meus filhos. Ah, mas me sinto tão onipotente como os pais da reportagem ao saber o que é melhor para os meus filhos? Bem, me pareceu o erro comum aos que são pais. Porém, assumirei que qualquer coisa de errado no processo será minha culpa – nem do Estado nem de ninguém.

Mas, aí, entre as minhas muitas divagações os fatos exigem que eu não viva na minha bolha.

A partir dos meus princípios, fica muito difícil dar crédito, ou sequer prestar atenção a certos princípios alheios. Como li no Twitter uma vez, fica difícil imaginar que alguém vá às ruas gritar “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”. As incoerências dos partidários deste mundo dualista ferem até meu sentido de senso comum.

Eis que, numa folga, lendo uma bobagem, me deparei com um pequeno diálogo que uniu uma crítica tão atual ao bom humor sempre necessário:

(o personagem dizia, com orgulho, que não tinha TV em casa e que nunca assistia nenhum programa televisivo)

“Then how do you know what´s going on in the world?” Alice had to know.

“I have a laptop computer with Internet access,” he said. “That´s where the real news is.”

“A revolutionary,” Harley said.

“An anarchist,” Alice corrected.

– Diana Palmer, The Maverick

Eu ri e lembrei de tantas publicações que vejo nas redes sociais, lembrei de amigos, de algumas pessoas que se não existissem o mundo seria muito melhor, de tanta gente, enfim. Já ouvi personagens que se orgulham de dizer que não assistem TV – porque não basta você fazer algo, é preciso sentir-se superior aos outros.

O que tem tudo isso a ver com o que eu escrevi acima? Já chego lá (meu leitor já sabe, paciência em primeiro lugar ). Eu vejo essas manifestações – não, chega, a palavra já virou outra coisa. Eu vejo esses gritos raivosos contra os conglomerados midiáticos (ficou melhor que PIG ou grande mídia, né? A gente precisa reinventar!) e analiso as atitudes delas. Pois não vejo diferença entre a Veja e o Diário do Centro do Mundo. Já disse isso aqui. É contra o Jornal Nacional mas acredita cegamente em tudo que sai no site da revista Fórum. A incoerência mandou lembranças. Só o dualismo redundante e burro pode crer na verdade do órgão que diz só aquilo que eu quero ouvir. Sim, minha crítica atinge quem só lê a Veja no seu jornalismo panfletário para alimentar suas convicções contra isso ou aquilo.

E aí eu cheguei onde eu queria. Onde vamos parar? Que mundo, ou, melhor, que visão de mundo nós construímos ao só cercarmo-nos das idéias que vão ao encontro das nossas? Estaríamos todos presos nesse momento, como eu falei de mim no início, de não querer mudar nossas convicções e olhar com desdém as dos outros? Por que dispensamos o exercício intelectual de ler e conhecer concepções diferentes das quais preferimos? Eu disse, venho com perguntas, não tenho respostas. Cheguei a esse ponto porque percebi que tinha limitado muito o exercício de acompanhar as várias visões de uma mesma coisa. Digamos que fui perdendo a paciência, usando demais o “ocultar tudo de fulano” do Facebook, desistindo de ler textos que logo de cara usam refrões dualistas. Fui formando uma ilha protetora, se não das minhas concepções, mas das incoerências alheias.

E vamos aos exemplos práticos. Estava no centro de Curitiba no início de março. Um repórter parou e perguntou se poderia me entrevistar sobre a greve dos professores do Estado, que se arrastava a cerca de um mês. É claro que me dispus (sempre dou entrevistas, pra quem não sabe). O repórter começou perguntando se eu achava justa a greve. Eu disse que sim, que era a única forma, infelizmente, de eles serem ouvidos. Aí ele disse que já fazia muito tempo, que os alunos seriam prejudicados, principalmente os que fariam vestibular no fim do ano. Eu sorri e disse que era só eles adiantarem os estudos em casa, não deixarem o tempo passar em vão, e que tanto professores quanto alunos sofreriam, mas que o tempo sempre é recuperado. Basicamente a entrevista foi isso, e devo dizer que estava num bom dia, falei bem, não gaguejei, deixei claro ser favorável aos professores e que mimimi de aluno não pega.

Pois bem, a entrevista foi dada ao canal e-Paraná, “Rádio e Televisão Educativa do Paraná”, público, é claro. Fiquei até exultante (a ingenuidade é uma bosta) pois um canal “educativo” estava preocupado com… a Educação. Pois bem, o repórter me disse que horas passaria a reportagem. Eis que… minha entrevista não foi veiculada. E o resultado vocês podem conferir:

Por que colocariam uma professora apoiando a greve dos professores quando poderiam colocar um pai xingando os professores ao dizer que eles “incorporaram” as greves? (Não encontrei o vídeo do Jornal e-Paraná do dia 4 de março de 2015 no site do canal, só no Youtube, mas encontrei este http://www.e-parana.pr.gov.br/modules/video/showVideo.php?video=14985 mais recente, um dia antes do massacre que ocorreu em frente ao Palácio Iguaçu).

Os vídeos falam por si. E, vejam só, não é da Globo nem de suas afiliadas. É um canal estatal – idéia que agrada deveras aos mais politizados de alguns lados. Agrada aos, não sei, estou na dúvida se ingênuos, utópicos ou burros (por sinal, três sintomas que andam juntos) que acreditam em imparcialidade e acreditam em coisas do tipo:

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É simples. Qualquer meio, qualquer pessoa, moldará os fatos, as intenções, as restrições. Nós fazemos isso o tempo todo. Minha paciência foi perdida quando vi a insistência de pessoas criticarem o Jornal Nacional por não passar nenhuma reportagem sobre o HSBC, pois, é claro, ele é patrocinador do JN. Mas queriam o quê? Como a e-Paraná, queriam que eles colocassem alguém dando apoio à greve de vinte e cinco dias, uma das maiores da história do Estado, dos professores? Sério mesmo que acreditamos nisso? Somos, afinal, revolucionários, anarquistas ou burros?

E volto lá ao início. Não quero o Estado mandando e desmandando na Educação. Nem na mídia. Nem nos policiais. É burrice, acima de tudo, acreditar que um Estado de Esquerda, “pelo povo”, com TVs controladas por ele, será mais livre do que temos hoje. É burrice acreditar que um Estado de Centro ou Direita, neo-qualquer-coisa, terá só imprensa manipuladora e assentirá aos mandos e desmandos publicando receitas de bolo. E é uma burrice maior ainda nós nos mantermos fiéis às nossas convicções vendo o mundo desta bolha que é a internet dos sites salvos nos meus “favoritos” – porque é ali, a-rá!, que existe a verdade!

Por que nos sentimos superiores aos outros julgando-os com falácias e desdém? Por que querer acreditar num Estado qualquer – eu disse qualquer – que será por alguém que não eles, que estão no poder? O Poder jamais andará ao lado da Liberdade. Os tentáculos do Estado nos infantilizam, nos destroem, nos fazem passar fome (e não só essa que sinto porque são 11h e nem tomei café da manhã), criam crianças e adolescentes para si, para o apertar parafuso (tão bem exemplificado por Chaplin). Pois dos engôdos da humanidade, afirmar que o professor “faz pensar” é um dos maiores. Acreditar que entre professores e policiais, por exemplo, de um lado só há santos e, do outro, demônios é excetuar todas as questões morais e éticas (que são fascinantes e sobre as quais não li nenhuma reflexão) presentes.

E para além das incoerências gigantes, há as pequenas. Vi, com estes belos olhos castanhos de quem parece viver distraída, publicações em rede social com “ISSO A GLOBO NÃO MOSTRA” e anexava um vídeo… da RPCTV, afiliada da Globo no Paraná. Vi professores clamarem contra as atrocidades perpetradas aos seus colegas de profissão com um Português sofrível. Vi pessoas de bem quererem defender agressões desmedidas porque são greves orquestradas por órgãos sindicais. Vi a má-fé de quem divulgou vídeo (uma montagem de entrevista do governador com cenas das atrocidades – me nego terminantemente a postar o link aqui) que foi manipulado pela edição, a favor dos agredidos. Manipulação contra quem a gente demoniza, pode; contra quem a gente apoia, não pode? (os princípios éticos, como vemos, estão também no simples uso de um programa de edição que hoje um monte de gente domina, não só no ressurgimento de Eichmann nos personagens que recebiam ordens para atirar balas de borracha)

Eu pensei em tudo isso quando vi professores e policiais, ambos do mesmo “lado” – posto que funcionários do Estado -, num cenário de conflitos teóricos abandonados e de simples e pura violência. Eu penso em tudo isso quando tenho dificuldades em compreender os motivos que levam as pessoas a pensarem deste ou daquele modo. Eu não consigo deixar de pensar em quem tem, e não é coisa de momento, sempre as mais belas e duras certezas da vida.

Quanto maiores os tentáculos do Poder, mais sufocada será a nossa Liberdade. O Poder, encarnado nos seus personagens reais de mandantes do País, do Estado, do Município, é que vive livre – de condenações, de responsabilizações pelos seus atos ou atos sob sua competência. Estes personagens é que vivem livres para agredir e não serem demitidos no mesmo dia. Tirar o poder de quem “chegou lá” pelo voto lindo e democrático do povo (o voto: uma das piores ilusões que temos hoje em dia) não é como assinar a demissão de um caixa de supermercado que roubou, ou expulsar um participante do BBB que agrediu outro. Não. O Poder dá a Liberdade. Nós damos a liberdade para eles e perdemos a nossa. Não há Liberdade na Democracia (fica pra outra hora).

Só nos resta escolher em qual site ou canal veremos as imagens. E talvez por isso estejamos, burramente, brigando tanto por isso e achando que temos a “liberdade” de escolher nossos meios de informação.

O conflito

Eu gosto de histórias. Não existe mais a diferença entre estórias e histórias, mas minha preferência pela ficção em detrimento das histórias reais é um tanto acentuada. As histórias de ficção fazem mais parte de mim – até mesmo para entender a realidade e suas histórias. A predileção é um tanto maior, mas não tanto. Meu gosto por histórias me fez uma boa aluna em História, uma boa ouvinte (em especial de pessoas que não conheço), uma audiência feliz de novelas, filmes, seriados e séries (necessariamente nesta ordem), uma leitora (longa história) e uma pessoa que pensa que pode contar histórias, por fim. Em algum momento este gosto me levou a estudá-las, a compreendê-las, a destrinchá-las.

Em alguma aula do curso de Cinema, um professor disse que jamais conseguiríamos assistir a um filme do mesmo modo de antes, só pelo prazer ou lazer, sem o profissional e a análise do que víamos. Ele estava parcialmente certo. E o mesmo acontece com as novelas, as séries e seriados e, também, os livros. A percepção muda, o prazer não. Entre me distrair assistindo uma novela turca na noite de um dia excruciante e ler um Umberto Eco antes de dormir, a percepção não desliga.

E eis onde eu queria chegar: as histórias carecem de conflito. “Ah, mas isso é velho!” pois não, não é. Entre teóricos há discussões sem fim sobre “como” escrever uma história, fórmulas mirabolantes, dicas imperdíveis, conselhos esquecíveis e tal. E de fato há fórmulas de sucesso (que alguns autores usaram, usam e usarão). Há milhões de livros vendidos aqui e ali, há milhões de espectadores de produtos audiovisuais (aqui, é claro, pesam outros fatores além da “história”). Ainda assim, você conta uma história quando há um conflito – ou se perde em “aí isso… aí aquilo… aí…” e não a terminará nunca. Ou quando acabar vai ouvir um “era isso?”.

Sou noveleira, já fui mais, mas minha criação audiovisual começou nas novelas da Globo e da Manchete quando eu era pequena. Deixei de assistir novelas por um bom tempo, quando tenho tempo tento voltar a assiduidade que elas exigem. E foi nesse vai e vem que senti falta do conflito. A Globo já produziu novelas fantásticas – por mais que a gente olhe algumas do passado e perceba que a produção era precária, não é a questão. Porém, comecei a sentir falta do conflito nas novelas. O folhetim é aquela história contada em capítulos, que devem começar com um conflito e desenrolar a história por um tempo (relativamente longo), prendendo o espectador a cada final de capítulo. E o que acontece quando não há o conflito? No caso das novelas que tenho observado, tudo se resume a “segredos”. O conflito foi substituído, pobremente, pelos segredos dos personagens – que na maioria das vezes é rapidamente descoberto pelo público. Lembro bem de ter visto a propaganda de Avenida Brasil e de imediato ter reconhecido a trama de Revenge. A vingança não é, em si, um conflito. Não cheguei a assistir a novela (acompanhei as críticas), porém percebi que o que a manteve foram os segredos. Talvez tudo tenha começado com o “quem matou Odete Roitmann?”, minando o conflito e sugerindo o mistério. Mas, para haver um ciclo de mortes ou uma morte (lembrem que matar um personagem é a saída mais fácil para o autor) é preciso que exista um conflito que justifique a morte dele – alguém mais assistiu Tiro e Queda, na Record, na qual havia um assassino em série que sempre deixava uma rosa?

O que é, afinal, o conflito? É a disputa pela terra, é o conflito social, é a traição. Todas essas coisas que a gente vê a vida inteira. Benedito Ruy Barbosa, nosso Shakespeare, é o melhor exemplo. Suas novelas têm claramente o conflito desenvolvido, seja a briga pela terra, a disputa amorosa, a luta de classes – e até todas elas na mesma novela. Meu Pedacinho de Chão, mesmo sendo uma novela das seis, era explícita (apesar de utilizar um espaço visual lúdico) no conflito cidade X campo, dominação social, etc.. Era tão claro e presente o conflito que ele permeava a relação do casal romântico da trama, Zelão e a professora Juliana, pois ele um analfabeto e capacho do mandante da cidade e ela uma professora da cidade grande. Quem assistiu vai recordar a beleza e a situação de afastamento dos dois por ele sequer saber escrever um bilhete de amor para ela.

Eu conversava com uma pessoa que assistia a Império e perguntei: qual o conflito? Ao que ele não soube responder. Eu assisti só o começo da novela e percebi que era só mais uma novela baseada no segredo (o comendador não sabia da existência da filha) que geraria todo o espetáculo de vingança, aceitação, culpa e tudo mais. Como as novelas se sustentam sem conflito? Do mesmo modo que todo produto audiovisual. O star sistem, o carisma dos personagens (por isso temos visto a tentativa de criarem personagens cada vez mais fortes em manias, expressões e traquejos – Paulo Betti e Alexandre Nero na própria Império, Adriana Esteves em Avenida Brasil, Mateus Solano em Amor à Vida – são eles que alimentam frases em redes sociais e nas conversas do dia, é assim que surge o fanatismo, é um bordão, uma desmunhecada, o emblemático uso de só uma cor de roupa, as frases depreciativas sobre uma classe social ou gênero), os cenários e figurinos que em instantes chegam às lojas, a beleza fabricada de homens e mulheres (porque nos dizem que o corpo malhado do Cauã Raymond ou as esqueléticas como Isabelle Dummond são bonitos e gostosos e ponto), tudo isso é o que faz uma novela hoje – e não a sua história. O conflito foi esquecido, todos os personagens escondem alguma coisa, criam-se personagens que não honram a linhagem dos grandes da nossa teledramaturgia. O jeito abestalhado do Tonho da Lua ou o tilintar das pulseiras do Sinhôzinho Malta eram adendos à caracterização dos personagens, não os esgotavam.

O segredo é necessário às histórias? Mas claro! E não somente às de mistério. Bons leitores de Agatha Christie e companhia sabem disso. Em Arthur & George, por exemplo, vemos o personagem de Arthur Conan Doyle como um ser movido pelo mistério (apesar da frustrante tentativa dele de se desvencilhar do seu personagem famoso) mas que encontra no conflito (racial) a sua história. Dizem* que Shakespeare escondia do público alguns fatores explicativos essenciais para “aprofundar de forma ilimitada o efeito de suas peças”, ou seja, ele escondia a motivação, o princípio, ou as razões do personagem. Pense numa história que começa com um filho matando o pai, e você não faz idéia do que levou-o a isso. O choque de um parricídio aumenta a sua relação com a história – do que, pelo contrário, se a história te contasse de início que eles, na verdade, não são pai e filho. A idéia de Shakespeare não é criar uma história de mistério (o famoso quem matou ou qual o segredo de fulano) mas criar um véu estratégico para o conflito.

Tão fácil recorrer a Shakespeare para explicar a enorme diferença entre o conflito e o mero segredo. O segredo é uma ferramenta, dentre tantas outras, usada pelo autor para desenvolver o conflito. Na novela Sete Vidas, por exemplo, não vejo conflito. E o que poderia ser visto como um (irmãos se apaixonam) tenho pra mim que na verdade será “solucionado” pelo segredo que a mãe da moça esconde (seria Julia de fato fruto de inseminação?).

O público brasileiro, tão formado pelas novelas, ou não abraça mais os conflitos (na busca pelo imediatismo de um personagem que renda memes e frases para o Facebook?) ou tem sido subestimado pelos autores. Desconfio que seja um bom tanto de ambos. Os autores também querem o sucesso fácil dos milhões de comentários – Agnaldo Silva comentou esses dias, numa entrevista, que se ele falasse a sério sobre gays, seria ignorado. Faltou comentar que além de faltar conflito e sobrar segredos, as novelas hoje se especializaram em “chocar”, em fingir que estão atentas às mudanças e rearranjos sociais – preferia quando elas enfiavam o dedo nas mazelas sociais e políticas, mas a gente sabe que a Globo não faz mais isso. É a velha indústria cultural, você senta no sofá no final de um dia filho da mãe e vai assistir político roubando e mandando uma banana de um helicóptero? Não, isso você já vê o dia inteiro.

Me preocupa bastante ver como nossos autores (e diretores) têm copiado produtos audiovisuais estrangeiros. Já fomos mais originais. (e nem estou falando do cinema) Além da citada Avenida Brasil (a Globo inclusive passou uma ou duas temporadas de Revenge, na esteira do sucesso da novela), Sete Vidas parte do argumento do filme The Kids Are All Right e inclui histórias paralelas também idênticas a outros filmes (a história do Ângelo Antônio, que casou com uma mulher que tinha acabado de fazer inseminação artificial lembra um filme bobinho com a Jennifer Lopez, The Back-up Plan). A minissérie que prometia ser um escândalo (até porque flertou com o mundo da política, mas só ficou no flerte barato mesmo), Felizes para Sempre?, foi dizimada por conter “referências” (de referência para cópia é um salto bem pequeno) demais a séries e filmes – e um Fernando Meirelles sem graça se justificou ao dizer que o público não tinha percebido todas as “referências”, vai ver o público esperava criatividade de um diretor tão aclamado. Seria uma decadência anunciada?

Ao mesmo tempo, chega ao Brasil, pela Band, uma novela turca que fez e faz o maior sucesso no mundo todo desde 2006/2007. Eu já tinha ouvida falar dela, passou em países da América Latina antes de chegar aqui. Mil e Uma Noites difere em muito das novelas brasileiras. A começar pela cultura e pela citação clara (porém, em termos de história, não direta) do famoso livro de literatura árabe. O conflito é claro: Sherazade, viúva de um moço rico desprezado pelos pais, arquiteta de formação com um filho pequeno, precisa de um milhão para pagar o transplante que salvará a vida do filho. Numa cultura machista e apegada ao núcleo central da família, Sherazade é a pobre heroína que esconde da empresa que tem um filho, pois filhos prejudicam a carreira das mulheres (no Brasil empresas, bancos e etc. vêem da mesma forma, mas aqui escondemos bem), desde a morte do marido trabalhou de free lancer e tem uma vida precária. Num momento de desespero ela vai até o sogro (muito rico) que renegou o filho (e a nora e o neto), porque ele não quis o casamento arranjado com uma moça de família, e pede o dinheiro. Ele nega. A doadora foi encontrada e ela tem um fim de semana para conseguir um milhão. Ela então vai até o seu chefe arrogante e pede emprestado 900 mil (os amigos emprestaram cerca de 100 mil). Como machista, arrogante e frio que é, o chefe espezinha a moça (ela está em estágio probatório, apesar de ter ganho prêmios e projetos para a empresa) oferece o dinheiro em troca de uma noite. Uma noite. Ela se nega, mas volta atrás. E a tal noite acontece. Dinheiro em mãos, filho salvo.

Como o conflito se desenrola? O chefe apaixona-se por ela. E faz desse amor uma imposição na vida dela – na empresa e na vida pessoal. A situação é grave, pois ele tratou-a como uma prostituta (era o que ele pensava dela até saber o real motivo do “empréstimo”). O personagem do chefe torna-se obcecado por Sherazade – alguns dirão que é apaixonado, mas ele simplesmente impõe o amor dele, a persegue, sequestra, exige, dá presentes: se isso não é obsessão… A novela então é o desenrolar do conflito, agregando o par romântico que precisará transpor uma série de valores e princípios. Além disso, vemos no núcleo do sogro dela como são machistas, o valor do filho homem, a mulher como parideira o valor da família e da honra. No capítulo de hoje a mãe do chefe vai se opor ao amor do filho, porque Sherazade é viúva e já tem um filho – que não é dele. Numa das sessões de terapia com a empregada, o chefe pergunta “é possível ser pai de um filho que não é seu?” – algo que, desconfio, não seria jamais colocado na boca de um personagem brasileiro.

Mas o público parece estar nem aí para o conflito. Pois vejo uma torcida absurda pelo “sim” de Sherazade desde o primeiro momento. Coisas como “um homem bonito (?) e rico assim” deve ter, obrigatoriamente, um sim – independente do sentimento da moça ou da ofensa que ela sofreu. Quase todo o público brasileiro (masculino e feminino) já teria se jogado aos pés do rico chefe bonitão (quase, porque não me incluo). E assim a gente resume uma cultura, um povo, uma rede de princípios (não é à toa que precisamos de uma lei Maria da Penha). Pouco importa o conflito, ele é bonito e rico. E como não é novela brasileira, e pra mim a parte mais especial de Mil e Uma Noites, o público não faz idéia do que e como e quais os sentimentos deles em relação “àquela noite”. Nós mal vimos um beijo dele no ombro dela e ela indo embora no dia seguinte. Sem agarração, sem cena que induzisse à violação, nadinha. Como eu sempre digo: pra que contar tudo? Perde a graça. Mina o conflito.

Digamos que eu seja saudosista. Digamos que sinto falta até do que nunca tive, como dos folhetins que saía a cada semana um capítulo no jornal (como aparece em The Paradise, o frisson do público pelos personagens e pelo clima da história que acaba sendo usado comercialmente – foi o início de tudo), mas que foram derrotados pelo interesse da imprensa e pelo ego dos autores. Sou saudosista de boas novelas tanto quanto de um público mais… mais interessante, talvez? Felizmente, com livros, séries, seriados, filmes e novelas tão à mão hoje em dia, não sou saudosista de boas histórias. E sem conflito, nem os amores me parecem atraentes.

* in Como Funciona a Ficção, James Wood.

Enquanto os bons se calam, falarei dos maus

É impossível obrigar alguém a amar outro. Impossível. Amar não lhe dá o direito de ser amado. Simples assim. Tantas são as artimanhas, os jogos, as falas, os anúncios que, porém, tentam ter para si o amor do ser supostamente amado.

Talvez eu quisesse falar do machismo. Talvez eu quisesse falar da violência. Ao pensar sobre o peso que é ser amado, eu chegaria fatalmente a ambos. Eu escrevi, ano retrasado, sobre preferir saber que se é amado. Pois não sei – e já naqueles tempos não me declarei, como, aliás, não tenho o costume de fazer. Declarar-se a alguém é colocar um peso, uma responsabilidade sobre o outro. Eu, porém, hoje sei que não sou em nada responsável, nem culpada, nem devo carregar como um fardo o fato de alguém ter se apaixonado por mim. Falei em culpa, sim, porque é como muitos tentam fazer com que o ser amado se sinta – e assim submeter-se àquele amor.

Eu fui conhecer o machismo a pouco tempo atrás, vendo em algumas famílias, em alguns relacionamentos. Na minha família eu não via isso. O senso de igualdade entre homens e mulheres, pra mim, sempre foi natural. Também não faz muito tempo eu conheci a violência que decorre do machismo – e do que alguns ignóbeis chamam de amor. Não, não pensem na obviedade da violência no sentido de agressão, tapa na cara, essas coisas. São agressões muito piores, são cicatrizes que perduram, são manipulações psicológicas mais profundas.

Eu não sei se algumas pessoas são tão maltratadas por aí que ao se deparar com alguém que as trate bem, com educação, cortesia, amizade, já desenvolvem um afeto imediato que costuma explodir num “estou apaixonado” inconsequente. Eu trato bem algumas pessoas, esporadicamente sou simpática, sou educada, gosto de ter amigos e são sempre especiais pra mim. Acontece que isso tudo é facilmente estragado por alguma declaração infeliz. E aí o cara se declara pra você e acha natural e obrigatório que você sinta exatamente o mesmo por ele – e normalmente não descansará enquanto isso não acontecer. Generalizar é a saída mais tranquila ao escrever, por isso posso dizer “os homens são assim”, sendo que há exceções (cada vez mais raras?) – mas enquanto a maioria ruim andar por aí a agir das piores maneiras, os poucos bons serão colocados na mesma classe.

Quando escrevi sobre o “declarar-se ou não, eis a questão” eu pensava justamente no peso absurdo que eu depositaria nos ombros do ser que eu amava. Pensava na situação, dele e minha, e em como eu complicaria tudo – no fim, nem precisei dizer porque, vejam só, há coisas que não precisam ser ditas. Se eu tivesse feito isso, teria rompido coisas tão boas. Teria perdido muito. Ah, Fahya, mas é um risco que se corre. Beleza, eu sou caxias, não corro riscos. Talvez as declarações só devam chegar às palavras quando já foram devidamente ditas de todas as outras formas. Tudo isso é fruto do meu romantismo, é claro. O que eu vejo acontecer não é bem assim.

Cedo descobri que declarar-se a um homem tem um efeito inerente a todos: massagear o ego. Me declarei somente para a primeira paixãozinha infantil. Depois nunca mais. Não sei o que fazem com a criação desses meninos que tornam-se homens tão idiotas. Meninos são criados – pelas mães, inclusive – para serem os melhores, os bons, os donos mandões de tudo, os machos, os predadores, os sedutores, os que conseguem tudo o que querem. Enquanto não temos educados nossas meninas para dizerem “não”, para terem noção das suas escolhas e dos seus desejos, consciência dos seus princípios e limites – mas elas andam por aí acreditando o contrário. E os meninos tornam-se rapazes e homens que seguem com a certeza que suas paixões, seus amores, tudo será imposto pela sua vontade. E as meninas estão aí apaixonadinhas sem nem saberem direito como e porque, submissas, violentadas de tantas formas, calando traumas que as perseguirão por toda vida. Ah, sim, sim, há mulheres ruins, que manipulam, seduzem, tornam-se carrascos dos seus homens, essas também não valem nada, eu sei – e são muitas. Mas falo aqui das maiorias, e também do que conheço por experiência – pois não posso falar do que não conheço.

Quando um homem se declara, queridas, ele quer tomar posse, quer que você ceda, quer encantá-la por ser amada. E só. Ele não se preocupa se você sente o mesmo ou sequer algo próximo, se você vai autorizar a corte (eu sei, eu sei, ninguém mais fala nisso, mas sou do século passado). Ele exige ser amado em igual ou maior intensidade. É o ego que fala mais alto. Ele a quer submissa. E se você for educada e desconversar, ir levando, desviando nos momentos mais íntimos e espinhosos e tal, chegará um momento em que as coisas sairão do controle. Em tudo ele verá algum jogo teu, algum interesse maior do que só um contato de amigo ou colega, e te culpará. Ah, ele te culpará! E você se sentirá culpada. Pensará em mil coisas que não deveria ter dito, que não deveria ter feito, nos convites descompromissados que não deveria ter feito – porque na cabeça doente dele, tudo isso queria dizer outra coisa. A mulher é criada para se sentir culpada. Eu sou culpada por colocar os peitos num decote. Culpada por colocar uma saia curta. Culpada por passar um batom vermelhão. Culpada por usar aquele salto que dá uma empinada na bunda. Sou culpada por ter uma conversa interessante. Culpada por querer bem sem olhar a quem. Culpada por ter uma risada gostosa. Aí, tudo o que a gente é e faz pesa na consciência e a gente fica mudando uma coisinha aqui, outra ali, só pra não se deparar com homens exigindo posses que não lhes são por direito.

E sinto dizer que muitos homens fazem de propósito com que a mulher se sinta culpada pelo que ela é, faz e usa. E nós, na maioria das vezes, não percebemos isso na hora. E assim vai se instalando a pior forma de violência: a psicológica. Eu, graças a Deus, nunca fui estuprada, que é a forma de violência física da posse. Mas desconfio que talvez as violências psicológicas sucessivas possam, a longo prazo, ser bem piores. A violência da perseguição – em meios virtuais e reais. A violência do uso da tua imagem – é ultrajante pensar no que homens fazem ao copiar ou ao olhar as tuas fotos nas redes sociais, ou fotos de perfis de páginas e tal. A violência que vai cerceando tua liberdade, tua espontaneidade no trato com as pessoas. Sim, porque por causa de uns muitos ruins, você acaba agindo com rispidez, se esquivando dos outros, impondo limites ao que faz, ao que fala, ao que publica – porque teme o mau uso que farão disso.

Eu já me cerceei muito no mundo real e no mundo virtual por causa das pessoas (e não são poucas) ruins com as quais já tropecei na vida. E isso me dá raiva. Já deixei de frequentar lugares, já deixei de sair em certas cidades, já deixei de fazer coisas que adorava, me policio absurdamente nas redes sociais e, sim, até aqui no blog. Meus traumas, minhas experiências ruins, é que foram me fazendo deixar de ser quem sou. E poucas coisas me irritam tanto. Infelizmente, na lista de pessoas que fazem com que eu restrinja minha liberdade, primeiro estão parentes (algumas das piores pessoas que conheci) e em segundo os homens. Não falo sobre o caso dos parentes. Mas sobre os homens eu quase sinto a obrigação de falar – sem parecer a recalcada, sozinha, infeliz porque não o sou. Vejo meninas tão imaturas já declarando amores eternos. Vejo meninas ali já submissas ao primeiro que lhe impôs suas vontades – e muitas jurarão até a morte que foi vontade delas também. É porque vejo pais e mães a reproduzirem o molde de educação do macho e da fêmea – porque, de fato, eles são assim e não vêem outras realidades. Falta educação sentimental e sexual, falta experiência e reflexão sobre os atos – seus e dos outros.

E as mulheres a suspirarem por qualquer um que lhe faz uma declaração. Por qualquer “te amo” por sms ou WhatsApp. A se sentirem desejadas por qualquer um que lhe envia a foto do pinto (sim, pinto, pênis é muito científico e pau é vulgar) por qualquer chat ou meio virtual. E, vejam bem, as estratégias de jogo desses homens e rapazes é tão igual, as curtidas nas fotos, adicionar em redes sociais, DMs, conversas sobre como somos perfeitos, ou já chegam junto se fazendo de gostosões porque você parece descolada e liberal. Pois “liberal” é um adjetivo que me segue há tempos (eu até queria ter agradecido direito ao que assim me chamou pela primeira vez) e poucos se referem a isso no sentido político – pois comigo ele é polivalente.

E não é só no mundo virtual. Já relatei aqui, é até numa biblioteca! Desscralizaram todos os espaços. E juro pra vocês que me interromper em certos momentos é um erro mortal – meus solitários banhos de mar, por exemplo. Porque as mulheres não são iguais – e isso é demais para as pobres cabeças masculinas que têm pouco alcance e usam as mesmíssimas estratégias repetidas vezes. Pois sou dessas que é amiga do tempo, que aprende cada vez mais com ele, que coleciona experiências como maior riqueza que qualquer poupança. E hoje não acredita que alguém possa ser conquistado – e nem afirmo que um dia tenha acreditado nisso. E, vejam só, homens e mulheres estão aí no jogo da conquista, casais são formados assim – como num cabo de guerra para ver quem cede primeiro. Sobre jogos, só tenho me interessado por xadrez – com uma xícara de chá durante um temporal.

Sobre os homens que não se encaixam nas vilezas sobre as quais discorri: são poucos e se calam diante das atrocidades que os seus colegas de gênero praticam diariamente. Se calam diante das inúmeras notícias de mulheres perseguidas, agredidas, assassinadas que vemos todos os dias – confesso que é das que mais acompanho. Não levantam a voz a condenar seus amigos. Há os homens que perseguem – vão até o trabalho dela, fingem que estavam passando na rua onde ela mora, a esperam na frente da escola/faculdade – uma mulher e a coagem. Há os que ferem as mulheres ao mandar conteúdo pornográfico, fotos e afins por meios digitais. Há os que manipulam os sentimentos tentando atraí-las com aquilo que elas gostam – filmes, bichos, crianças, jantares, passeios, presentes. E me dirão que há as mulheres que gostam disso tudo. Pois eu pergunto: gostam ou se calam? Gostam ou temem dizer não, bloquear, denunciar, fugir, pedir proteção?

Nós tememos. Nós temos vergonha de dizer o que acontece. Temos vergonha de dizer que nos sentimos indefesas diante dos abusos e das insistências – nada pior do que um homem insistente. Temos vergonha de recorrermos aos mais próximos, amigas e familiares, e expor o que muitos vão dizer que é nossa culpa – fomos nós que fomentamos aquele comportamento obsessivo, explorador, doentio, possessivo, tarado. Sim, muitos pensam assim. Me parece que o simples fato de ser mulher fomenta qualquer um desses comportamentos em muitos homens. Tememos a agressão física de dizer um não (vejam aí notícias de moças espancadas em baladas porque negaram um beijo) sem perceber que a violência psicológica contínua é muito pior. Tememos pela nossa vida. Quantas mulheres morrem, por ano, porque terminaram um relacionamento?

Sei que há graus maiores e menores dessas violências – mas chamo a atenção para o fato de que qualquer conversinha mais ousada num app pode chegar a crimes maiores. No momento que se rompe a primeira barreira, qualquer outra será de menor importância.

Digo e repito (e um dia escreverei sobre isso) que sou uma pessoa do século passado. Então dirão que todas essas minhas preocupações parecem antiquadas. Pois bem, elas derivam de relações e da educação, entre homens e mulheres, de séculos e séculos atrás. Talvez tenhamos até aumentado os meios de violência. E certeza que temos despreparado meninas e meninos para o mundo, temos nos calado, fazemos que não vemos o que acontece, lhes damos uma suposta liberdade.

Disse muito do que queria dizer. Faltaram algumas coisas que acabaram não se encaixando. Sobre relações entre homens e mulheres, cabe lembrar daquilo que toda criança pequena aprende: a pedir desculpa (queria escrever sobre isso, coisa mais rara de se ver por aí). Entre caminhadas pela praia, banhos de sol e de mar, leituras truncadas, observação do entorno (real e virtual) eu só decidi mesmo escrever sobre tudo isso (entre algumas situações bem pessoais) depois de assistir a Despues de Lucia – tão mais no cerne da questão do que todas essas minhas três páginas. A violência não tem sido pensada adequadamente – e, claro, não falo de murros na cara.

Sonhos de Miss Potter: aos leitores

 

Um dia desses li um texto politiqueiro totalmente ausente de qualidade, desses que publicam em blogs coletivos regionais, e nos comentários um leitor fazia boas considerações sobre a precariedade da falta de argumentos do autor. Eis que, na resposta deste ao comentário, ele não se ateve ao conteúdo do que foi dito, mas dizia que tinha visto o perfil do leitor no Facebook e que surpreendeu-se ao ver que era um jovem e não um aposentado reaça (ou algo assim) com tempo para escrever bobagens. O autor do texto é pessoa que nem merece mais meus comentários, as atitudes dele falam por si. Porém, na sequência, o autor dizia que este ou aquele leitor deveria ler um livro – no sentido de, imagino eu, insultá-lo.

Tentei encontrar algum jeito de começar este texto. Foi difícil. Nem acho que este exemplo foi o melhor. Tenho me deparado com tanta gente ignóbil que usá-las como exemplo é uma tentação. Mas, enfim, é disto que quero falar: livros.

Ler livros não te faz uma pessoa melhor, nem mais inteligente, ou mesmo culta (sábia, então, nem cogitemos). Frases feitas que dizem isto ou que viajar te faz uma pessoa melhor são mais vazias do que um balão – pois este ainda tem ar. Conheço pessoas que já viajaram o mundo e como pessoas são as mais horripilantes. Conheço (ainda mais) pessoas que já leram muito – e muito – e são algumas das piores do mundo. Então, a falha no argumento “vá ler” é evidente e auspiciosa. Porque o contrário também é fato: há pessoas inteligentes, sábias, bondosas que nunca leram um único livro – muitos, inclusive, por nem terem acesso.

Eu não gosto da arrogância esnobe de quem “lê” e exibe isso para mostrar-se superior aos outros. Já considerei uma qualidade a pessoa ler, hoje a coloco em categorias: “lê mas é um pedante”, “lê mas é burro feito uma porta”, “lê mas é só para postar no Facebook”, “lê por algum suspeito complexo de inferioridade”, tem categoria de todo tipo.

Mas, vejam só, muita gente lê. Gente de todo tipo. Gente que lê livros de todo tipo. Ano passado me deparei com algumas situações que foram o estopim para esta reflexão. Entre grupos de aspirantes a escritores (não esqueçam do “aspirantes” pois eles mesmos com qualquer oficina ou curso já se intitulam “escritores”) é tão comum ouvir que há mais gente que escreve do que gente que lê – como, ó, uma dor do ofício num mundo tão ignorante. De fato, há muita gente que escreve – ainda bem, não? Qualquer um pode escrever, qualquer um pode publicar. Ainda bem. Mas na questão dos números acredito que precisaríamos de dados mais precisos, um cálculo de quantos escritores existem, quantos livros são vendidos, quantas pessoas lêem, essas coisas. Como já é sabido, desfiz minha amizade com os números, mas seria uma pesquisa interessante.

Entre escritores, pseudo-escritores, aspirantes a escritores, alunos e professores de Letras e todo esse pessoal da área, infelizmente há muitos preconceitos, esnobismos e narizes torcidos. Talvez o pior deles é achar que literatura (no caso) só interessa a entendidos. Dentistas, médicos, engenheiros, analistas de sistemas, donas de casa, policiais, balconistas, economistas, jardineiros, lêem, se interessam, gostam e, sim, entendem de literatura. Subestimar os leitores é uma fraqueza de caráter que pouco se vê em outras profissões.

Eu quero escrever. Não sou escritora. Talvez, um dia. Eu sou leitora. Deixei de lado os trabalhos em audiovisual porque tropecei em péssimos colegas de profissão e como é um trabalho coletivo a coisa não deu muito certo. Sempre apreciei o trabalho solitário do escritor – qualquer trabalho solitário me agrada mais. Sempre apreciei a prática solitária da leitura. Não levo jeito com as pessoas (tenho bons motivos). Me meti a estudar a arte da escrita e foi uma aventura – literalmente em alguns momentos. Mas conhecer alguns escritores e aspirantes a tal foi nefasto. Não me sinto solitária, porém, na crítica. Escritor também é dessas profissões que podem agregar prestígio e fama, aí já viu, né.

Sobre a crítica e o glamour da profissão, em 2014 surgiram algumas vozes dissonantes. Para ser escritor hoje você precisa ser uma estrela, uma pessoa famosa, fazer participações brilhantes e teatrais em feiras de livro, precisa tirar selfies com fãs, etc.. Não basta escrever, é preciso atuar no mundo real. É preciso ser descolado, claro – hoje em dia todos precisam, não? Também vimos escritores reclamando que o ganha pão vem de escrever para jornal, escrever textos encomendados, viver da miséria dos cachês de participação em feiras e eventos. Escrever não dá dinheiro – afirmação duvidosa. Ou se você ganha dinheiro é porque escreve coisas populares – vulgo, ruins.

Entre meus estudos me deparei com este problema: a literatura se coloca (é colocada, obviamente) sobre todas as outras artes, é-lhes superior. O texto escrito é, ainda, elitizado. Por mais que estudos (dentro das universidades, na quase totalidade, infelizmente) tentem desmistificá-la, popularmente ainda é assim. Para ficar mais breve e claro, para apreciar música é só preciso ouvir, para apreciar artes visuais é só preciso ver. Em primeiro lugar, ser alfabetizado ainda não é para qualquer um,  interpretação de texto, coesão e coerência e essas coisas todas, precisam ser ensinadas. O acesso às artes determina muita coisa.

Minha relação com os livros nunca foi de amante, muito menos possessiva. Quando criança eu lia porque gostava, porque passava o tempo, porque eu ficava sozinha. Meus pais nunca leram pra mim, nunca fui obrigada a ler livro algum. Foram, porém, marcantes a prateleira de livros da minha mãe e as coleções da Barsa dela e da minha avó. Na Barsa fiz muita pesquisa escolar, descobri muita coisa do mundo. Por muitos anos eu ia todo dia na biblioteca da escola, pegava dois livros infanto-juvenis, lia na mesma tarde e devolvia no dia seguinte para pegar outros dois. Logo vieram os romances (quando a escola liberou o resto da biblioteca pra minha idade), os contos, Sherlock Holmes, Agatha Christie (da prateleira do pai), literatura brasileira (de trechos de textos que eu encontrava nos livros didáticos de português e anotava os autores) e tudo mais. Sim, tudo. No ensino médio comecei a ler Filosofia porque encontrei a edição Os Pensadores em casa. Na época eu frequentava quase que diariamente a biblioteca pública de Joinville, onde me apaixonei por Fernando Pessoa, Stanislaw Ponte Preta, Nelson Rodrigues, Gabriel Garcia Márquez. Ia muito ao sebo Colin, mas dinheiro era coisa que eu não tinha. Qualquer trocado que eu conseguia corria pra lá procurar alguma coisa e foi assim que descobri uma das minhas paixões literárias: os best-sellers românticos e romances de banca de revista (Harlequin, Bianca, Julia, e essas delícias todas). No sebo tinha uma bancada de “Um real” que me atraía pelo valor, é claro. E aí eu catava alguma coisa lá. Se é literatura boa ou ruim? Pouco me importa. Tem dias que é só do que preciso. Até a graduação eu lia muito. Durante os cinco excruciantes anos de graduação eu li muito menos do que queria das coisas que gostava, mas li muita coisa por obrigação que foram proveitosas – outras nem tanto. Talvez eu tenha ficado mais chata para a leitura. Tive crises de não querer ler nada, de não achar nada interessante. A ficção, então, foi quase deixada de lado. Desde então tive períodos de não ler praticamente nada. E volta e meia surge um romance qualquer, um clássico qualquer, um livro de contos despretensiosos qualquer que me faz ficar ali docemente quietinha e encantada por algumas horas.

Minha história como leitora é igual a de muita gente. Mas não me confundam com esses que gozam prazeres como o “cheiro das páginas” ou a “capa sublime da Cosac&Naify” – cheiro de livro pra mim é cheiro de mofado, guardado e velho. Não. Eu amo a LP&M pockets, a Martin Claret foi uma mão na roda em vários momentos. Foi na graduação que comecei a sentir o cheiro esnobe dos adoradores de livros. Comentários sobre editoras, edições, capas e blábláblá. Eu não dava bola nenhuma pra isso – se tentei dar, felizmente passou. O que importa num livro? O que ele nos diz. Por isso hoje leio até num Kindle.

Sim, aderi aos livros digitais (com atraso, pois um Kindle durante o mestrado teria sido um anjo). Por quê? Porque é mais leve de carregar na bolsa (em 2014 eu mal desfiz mala e bolsa), porque tem muita – mas muita – coisa disponível de graça em digital (até aqueles que a gente não encontra em lugar nenhum) e nem ocupa espaço nas prateleiras. É uma delícia. Tanto quanto qualquer livro de papel. Sem frescura.

No final do ano eu ia participar de uma antologia de aspirantes a escritores (alguns já se intitulavam tal…). Me desgostou muito ver que o esnobismo estava presente. O que interessava? Uma edição primorosa. E só. E para isso, claro, pagaríamos caro. Não participei, é claro. Queriam uma edição à la Cosac e o que importava mesmo era a divulgação, que fossem enviados cerca de quarenta exemplares para jornalistas, críticos e afins com folders e tal. Afinal, eu iria participar de uma antologia para ter meu nome num jornal e um lançamento com comes e bebes fantástico ou para que as pessoas – pessoas – lessem minhas histórias? Senti que meus princípios e meus interesses divergiam do grupo. Como sempre.

Foi pouco depois disso que me deparei com um filme doce e interessante. Miss Potter, com a Renée Zellweger. Não sei se o comentário é pouco modesto, mas me vi muito na personagem/escritora. Além da posição dela como mulher da época (o fantasma que anda grudado nela é hilário, única coisa que nós mulheres não temos mais hoje, o resto é a mesma situação social, apesar de quererem que acreditemos no contrário), duas coisas me marcaram. Logo no início ela diz “o bom de começar uma história é que você nunca sabe onde ela vai te levar” (algo assim, vocês sabem como sou para citações). E é exatamente como me sinto quando escrevo – feliz e encarando uma aventura que eu não sei onde irá me levar. Ou seja, de nada serviram as aulas, as leituras e toda a teoria que diz que devo ter tudo programado e previsto sobre personagens, conflitos e tal. O outro ponto foi o que ela afirmou ao fechar o contrato para ser publicada: o preço. Deveriam ser baratos para que qualquer um pudesse comprar. Senti um aperto no peito durante o filme. É isso. O acesso. Qualquer um deve poder ter acesso. Para vocês terem uma idéia, a tal antologia da qual não participei sairia por trinta e dois reais (entre 120 e 160 páginas). Trinta e dois! Perto do natal entrei numa rede de livrarias e os mais vendidos (o novo da Fernanda Torres, algum John Green e tal) estavam por trinta e nove reais. A julgar que vivemos num país que tem vale-cultura a cinquenta reais e salário mínimo de setecentos e oitenta… sem contar a ausência de bibliotecas nas pequenas, médias e grandes cidades que poderiam suprir a demanda de quem não tem dinheiro para comprar livros.

Simpatizei muito com Miss Potter. A relação com a família que não reconhece o seu trabalho, o apaixonar-se por homens que admirem e consigam entender o que ela faz (isso é essencial), o pouco importar-se com as regras e blábláblás, o processo criativo, a preocupação da acessibilidade aos livros, o descaso com o dinheiro. Assistir ao filme me deu um suspiro alentador no final de um ano e tanto – e muito dedicado à escrita.

Sobre o acesso: o que importa é ler, o resto é esnobismo. Há quem viva bem sem ler. Há quem não viva sem ler – como um querido que me confidenciou que ficava mal se não lesse um pouco, ao menos, por dia (menos aos sábados por questão religiosa). Mas tenham certeza que ler, só por isso, não faz de ninguém melhor – alguns só ficam mais esnobes, pretensiosos, arrogantes, pedantes, ignorantes. Eu gosto de ler (amo meu gosto bagaceiro) e gosto de quem gosta de ler despretensiosamente. Às vezes é difícil ler um clássico, tenha cem ou quinhentas páginas. Às vezes é difícil entender porque tal livro ou autor é tão falado e elogiado e pra gente ele não diz nada. É o gosto subjetivo kantiano, não precisamos desesperar. Cada um gosta do que lhe causa prazer! E mesmo a literatura se pretendendo tão superior, a relação se dá do mesmo jeito.

Podemos ter centenas de títulos em abarrotadas prateleiras ou livro nenhum em casa e frequentarmos bibliotecas. Isso não diz nada sobre nós. Vira notícia quando descobrem que Marilyn Monroe tinha clássicos nas suas prateleiras, eis o que o mundo nos proporciona. O livro que me reabilitou depois das muitas leituras específicas do mestrado foi o Corta pra Mim, do Marcelo Rezende. Dizem que isso depõe contra a minha pessoa. Diria um outro querido que “clássico é o que fica” e as emoções que sentimos diante de uma história que lemos ficam, então é um dos nossos clássicos. E as prateleiras não estão em nenhuma sala ou quarto.

Agradeço às conversas que acrescentaram muito a essas reflexões. Agradeço às pessoas que me fizeram, no bom e no mau sentido, a ver as coisas de outro modo neste último ano. Agradeço aos leitores, meus e de outros textos, pois somos mais especiais como leitores do que como escritores.

(seguem links que li e me fizeram pensar nisso tudo e muito mais; sobre as perguntas do Michel Laub, caso um dia eu seja escritora, vou adorar responder qual o meu signo!)

http://oglobo.globo.com/cultura/livros/diario-de-um-viajante-contrariado-13540191

http://oglobo.globo.com/cultura/livros/andre-santanna-as-coisas-nao-sao-bem-assim-13541352

http://www.peterrabbit.com/en/beatrix_potter/beatrixs_life

http://elpais.com/elpais/2014/11/17/eps/1416222276_076944.html

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/michellaub/2014/12/1564329-perguntas-ao-escritor.shtml

Sobre sacramentos e A Razão

Finda a apuração do primeiro turno das eleições para presidente, no domingo, fomos tomados por um clima nada ameno no mundo virtual. Como tenho reparado, o mundo real – com o qual sempre tive uma relação difícil – anda bem mais agradável do que o virtual. Foi questão de segundos para começar uma enxurrada de podridões de ambos os lados – posto que foi decidido que há lados na politicagem, segundo os ingênuos eleitores. Contudo, não escrevo hoje para falar de campanha e eleições. Quero apenas comentar o que, dentre toda a falta de argumentos que tenho observado, me chamou a atenção.

Uma pessoa, considerava amiga até, postou vários posts contra um dos candidatos (ela que mal aparece no Facebook) com insultos e uma agressividade que me assustou. A base dos textos era a ignorância e a falta de razão (no sentido de raciocínio, não de “estar com a razão”) do outro, um “o que você, que vota em fulano, tem na cabeça”, ou “quem pensa, quem tem o mínimo disso ou daquilo não vota em fulano”. Naquele momento fiquei de fato surpresa. Então eu, que não tinha votado na mesma pessoa que ela, era irracional, burra, estúpida. E não é que isto foi e tem sido usado por ambos os “lados” desde então? Mais ou menos assim: você vota em quem eu voto, então você é inteligente, pensa, percebe as coisas do mundo e é um poço de boas informações; se não, você é burro, mal-informado, idiota, cego, apesar dos diplomas e tal, não percebe nada!

Talvez me sinta superior demais a alguém que se restringe a dizer uma coisa dessas. Talvez eu tenha me sentido acuada por tal nível de acusações e despautério. Me silenciei. Tenho visto e lido coisas, de ambos os “lados”, que analiso, penso, reflito, tento, principalmente, identificar a origem aqui com meus botões e minhas teorias. Em particular, tenho até discutido. Mas só. Internet é esfera pública, melhor manter-se moderadamente afastada. Por isso, não vou nem comentar o que penso sobre o que está acontecendo – e sobre o que penso das pessoas nestas circunstâncias.

Dias antes estava pensando sobre uma idéia que aprendi num livro. Ler livros é melhor do que ler as TLs alheias. Livros mudam a minha vida, idéias me apaixonam. Livros mudam a minha percepção do mundo. Pensei até em escrever este texto para o dia dos professores, pois o autor que quero citar aqui foi-me apresentado pelo estimado e adorável professor Lupi, o melhor dos melhores. Livros têm esta capacidade, como algumas poucas pessoas, de entrar na vida da gente, mexer com pensamentos e sentimentos, destrancar portas e escancarar janelas. Estou, há uns três dias, lendo um que faz, novamente, esta reviravolta na minha vida. Não são todos, por isso é preciso ler sempre, para encontrá-los.

Professor Lupi um belo dia nos passou Mircea Eliade para ler. Historiador das religiões, Mircea é um querido. Não, não o conheço, digo isso só pelas idéias dele. Tínhamos que ler o Tratado de História das Religiões. E eu sempre fui apaixonada por religiões, amava Lupi (o único professor que disse que eu era uma boa aluna!), amava as aulas maravilhosas e perfeitas dele e na época eu estudava pacas. Fui ler com uma gana sem igual. Era uma época que, sendo das mais difíceis em tantos aspectos, eu vivia inimaginavelmente muito feliz.

Cheguei onde queria, porque não vim falar, falar e não dizer nada nem dar aula sobre coisa alguma. Há uma consideração do Mircea à qual eu já voltei tantas vezes: como nós renegamos tanto a nossa condição animal, suplantando-a pela nossa capacidade racional. Segundo ele, o homem moderno, diferente do homem arcaico, é incapaz de viver sua vida orgânica. Com vida orgânica ele se refere diretamente à sexualidade e à nutrição. O homem moderno abraçou de tal forma a razão que esconde (literalmente, como nos mostra a História dos Costumes) seu funcionamento orgânico. Ele aponta que a sexualidade e a nutrição foram vivenciados como sacramentos por culturas anteriores. Em termos teóricos ele julga que a psicanálise e o materialismo histórico é que foram os responsáveis por desmerecer e até ignorar a sexualidade e a nutrição como sacramentos.

“Para o moderno não passam de atos fisiológicos, ao passo que para o homem das culturas arcaicas são sacramentos, cerimônias por cujo intermédio se comunica com a força que representa a própria vida.” como não concordar que a sexualidade e a nutrição nos ligam diretamente com a vida? Sendo um homem moderno! Então devo ser uma mulher muito arcaica. A sexualidade e a nutrição são duas (das quatro) coisas que fazem eu me sentir viva, literalmente. São momentos cerimoniais, concordo plenamente, durante os quais sentimos a vida. O homem moderno, porém, carece de sentir-se vivo, como é fácil observar por aí.

Assim, me sinto muito estranha quando pessoas proclamam tanta racionalidade. Eu gosto muito de animais. Já faz um tempo adotei a prática (acho até que já contei isso aqui) de não chamar as pessoas e seus “problemas” por nomes de animais – porco, anta, cachorro, vocês sabem. Dou adjetivos que qualifiquem qualidades e defeitos das pessoas, não xingo os coitados dos animais. A idéia do Mircea já vivia incubada lá nos meus delírios adolescentes com “Invejo os bichos Invejo os bichos Que só brigam por comida e sexo” (thanks, Barão Vermelho!). Os homens arcaicos viviam mais próximos (proximidade física, não em evolução) dos animais, os conheciam e observavam – e não era através da tela da TV no Discovery. A proximidade com os animais permitia que eles desenvolvessem uma relação mais respeitosa e inteligente com o que podiam aprender. Eu aprendo (e muito!) com os bichos.

Sexo ser usado para, sei lá, contar vantagem de quantas pegou na balada, para subjugar pessoas que lhe são, de alguma forma, inferiores, e tantas outras formas torpes é coisa do homem moderno. Os arcaicos vêem o óbvio, a reprodução (consequência) e o prazer (como consequência imediata) – uma bela cerimônia com a vida. Alimentar-se pra postar foto na internet, pra fazer check-in e todo mundo saber que você foi no lugar mais top (HAHAHA) ou caro da cidade, pra mostrar como você é saudável ou que tuas escolhas políticas coincidem com tua alimentação é coisa do homem moderno. O homem arcaico come porque disso depende sua vida e eis mais uma cerimônia prazerosa. Eu sou tão arcaica que gosto de todo o ritual de escolher, preparar, arrumar a mesa, servir, comer com quem compartilha do mesmo prazer, e é uma das minhas cerimônias preferidas – não gosto de comer sozinha e tem que ser um momento único e ponto. Até tenho esse sentimento de disputa com os outros em relação à comida, nada mais arcaico!

Os racionais homens modernos extinguiram o prazer – e abrigam-se em pseudo-prazeres muito estranhos, como, sei lá, possuir bens e guardar dinheiro, coisas que em nada nos ligam à força da vida. Procuraram submeter a sexualidade e a nutrição às leis, às regras rapidamente mutáveis do tempo das sociedades, ao nosso mundo obscuro, aos eternos tabus. Quer algo mais moderno do que os tabus? Assim, sentem-se suprassumos detentores da razão – sim, porque, pelo visto, só há uma.

Mircea acrescenta a dimensão de conexão com a realidade que há entre o sentir a força da vida que o aproxima do existir como ser (numa perspectiva ôntica como se diz nos termos da Filosofia, que é o estudo do ser) e o liberta dos automatismos da vida, que são as coisas sem sentido e sem conteúdo. E eu me pergunto, quantas coisas o homem moderno faz que são esvaziadas de sentido e conteúdo? Tão praticantes dos automatismos, detentores da razão que fazem mau uso da sexualidade (sua e da dos outros) e da nutrição, o que são os seres modernos? Seres que, inclusive, desprezam quem procura praticar sacramentos que os liguem à vida. Os sacramentos, como estudados pela História da Religião, são muito antigos, Mircea faz várias preleções sobre eles e não se originaram só nas religiões que a gente conhece. São praticados pela humanidade, como citei, na busca pela comunhão com a vida. E seres racionais, é claro, não precisam disso.

Sinto-me tão próxima do homem arcaico e dos animais. Sinto-me em boa companhia. Não quero parecer contraditória, pois afirmei que gosto de idéias e elas pertencem ao campo da razão. A questão é pesar, é não tirar o espaço de uma pelo da outra. Segundo as publicações de milhões de brasileiros, como eu não voto como eles eu sou estúpida, indigente intelectualmente. Como tendo a ser querida comigo mesma, vejo que procuro usar a razão sem fazer disso o que me diferencia dos outros seres racionais. E voltei ao Mircea para não esquecer que somos, antes de tudo, animais. Do nosso organismo é que depende a nossa vida, sem sexualidade e sem nutrição o ser humano deixará de existir – e diante disso de nada adianta ser o mais racional dos racionais, sorry.

Sou uma pessoa altamente religiosa. Pratico ritos, sacramentos e cerimônias. Tenho minhas quatro relações com o sentir-se viva. Gosto de pessoas religiosas que buscam a ligação com a vida. Acredito que não me dou muito bem com os homens modernos. Parece, também, que não sou tão racional quanto meus amigos. Ainda bem.

Diria Aristóteles, ou mesmo o meu horóscopo de hoje, que o acertado é a justa medida. É o que eu busco, apesar de ser tão dada aos exageros – principalmente em alguns sacramentos, porque sentir-se viva é tão bom que não dá vontade de parar. Mas exagerar na razão eu pratico só ocasionalmente.

Logomarcas

 

Ficou ali observando e pensando nas pessoas e nas suas vidas tristes. Qualquer um sentiria pena, qualquer pessoa de bem com os pensamentos mais óbvios e ridículos. Não sentia pena. Desnudara-se de sentimentos em relação às pessoas, talvez. Ah, as pessoas! O grande mal do mundo. Ao mesmo tempo tão intrigantes e interessantes e repulsivamente abomináveis. E os abomináveis nem eram os serial killers, abundantemente eram os mais instruídos e donos de tantos bens móveis, imóveis e imateriais. Enquanto os intrigantes eram as figuras mais insuspeitas da face da Terra. Qual a porcentagem de uns e de outros? Difícil dizer. Impreciso, talvez. E, ainda talvez, uns pudessem ser ambos. O mundo ficaria tão bem sem as pessoas. Tinha convicção disso. E olhava ao redor pensando no quanto nada daquilo nunca nos últimos cinquenta anos mudara – nada. E ali viviam e trabalhavam e circulavam as pessoas mais jovens, antenadas e eficientes do momento. Antes delas as mesmas jovens, antenadas e eficientes de outras décadas por ali circularam – mas umas não viam as outras e agora a logomarca ali na torre era moderna, diferente, de linhas curvas. A logomarca unificava toda a mudança, a novidade, o tempo. Alguém mais percebia que aquilo não mudava era nada? As vidas tristes que por ali passavam, fosse num estágio da vida de uns e outros, fosse a vida inteira para alguns, as vidas tristes são sempre as mesmas. E são, sim, tristes. Ninguém diria isso, entre rodízios de sushi, noitadas regadas a cerveja, encontros permeados por altas discussões culturais e teóricas, apartamentos recém-decorados, carros novos, viagens e compras no exterior. Ninguém diria. Eram, assim, o topo da pirâmide. Bem, se não o topo, aqueles que elogiadamente galgavam todos os degraus para um dia lá perdurarem. E a tristeza, onde estava que só ela via? Ali, saltando aos olhos. Vidas tristes também, reparem, devem ser vividas. Ela mesma não usufruiria tão bem da sua vida se não houvesse essa inundação de tristeza em volta. Seria, talvez, menos feliz se não percebesse a enrascada que eram as vidas tristes daquelas pessoas. Via a logomarca, as cores, o entra e sai, os gestos – Ah! Os gestos! Gestos irrefletidos e, por isso (desconfiava), tão hermeticamente iguais. Gestos que viviam anos-luz distantes das almas. – e nada lhe parecia autêntico. Nada lhe parecia vida. E, no entanto, eles riam, ouviam música alta, combinavam programas maravilhosos, tomavam banho de piscina, cuidavam do corpo e da mente. Chegou a duvidar das próprias observações. Quem sabe aquilo tudo poderia ser algo que chamamos de vida. Seu apego às dúvidas não lhe permitia deixar de considerar isto. Pensava em tudo que via, nas fotografias tão candidamente postadas todos os fins de semanas, nos compromissos selados em noivados e compromissos sérios, nas viagens metodicamente exibidas, no prazer com que alardeavam que trabalhariam, trabalhariam e trabalhariam… pensava. Ainda assim lhe pareciam vidas tristes quando ela pegava da lupa e buscava a espontaneidade. Buscava, ali apreciando o vento entre as árvores, a naturalidade de tudo aquilo – até mesmo das piadas ruins. E por falar em árvores, não pôde deixar de reparar em como as pessoas evitavam o sol matutino e se aglomeravam debaixo da única árvore da rotatória. Eram vidas tristes as que fugiam do sol e buscavam uma nesga de sombra. Autômatos, será? Por isso lhes faltavam a espontaneidade e a naturalidade? Um estudo comportamental elucidaria que é o agir por imitação, a ação como cópia. Quem não imita e não copia, pode, enfim, não ter uma vida triste. Seria o fim do mistério? Talvez ela não quisesse encontrar uma solução. Apesar de ter identificado o problema, tinha a tendência dos cientistas que mais se apaixonam pelos problemas do que pelas respostas. O Show do Milhão é que precisa de respostas. Não, não, não, não falaremos em dinheiro. O programa do homem do Baú foi só um exemplo feliz. Chegou a pensar na rispidez da crítica. Justifica, com frequência, que adota o silêncio porque as pessoas e suas vidas tristes não suportam dedos nas feridas. E a crítica, tão demonizada nos cultos da sociedade, até lhe fazia gargalhar surpresa no meio da calçada. Não deixava, porém, de ser ríspida, ácida, cutucante. Achava a vida tão sem graça quando não podia cutucar os outros. Evitava, é certo, porque, as pessoas, enfim, ah! as pessoas! Aquelas vidas tristes sobreviveriam. Ela, não se sabe. As vidas tristes são blindadas contra as verdades da vida e, numa comparação menos feliz e menos criativa, são como as baratas – passará o fim do mundo e elas continuarão. Se sobreviver, será sempre feliz – um tanto mais feliz porque não perderá, como um espírito de porco inspirado, a chance de observar de perto aquelas vidas tristes. Se sobreviver, ficará muito mais tempo observando as levianas mudanças das logomarcas, as famílias se formando, as dúvidas cruéis sobre os vestidos de noiva – e, também, não deixará de sorrir ao som das trovoadas, ficará ao sol matutino, longe da sombra confortante, não postará a foto do manjar dos deuses que foi seu almoço, nem dividirá com ninguém aquilo tudo que lhe passa pelo coração.

O conservadorismo em Joinville

Dizem que a imprensa é o quarto poder. Ouvi muito isso até que pouco mais de mês atrás eu e algumas pessoas sentimos na pele o poder que ela tem. De destruição, inclusive. Liberdade, pra mim, não tem poréns e sou daquelas que preza a liberdade de imprensa inclusive. O problema não é a liberdade da imprensa de publicar as asneiras, manipulações, mentiras e o que mais for, o problema é que as pessoas, dentro dos seus graus de instrução, culturais, valores religiosos, éticos e etc., têm níveis de compreensão diversos. Eu me sinto à vontade para ler todo e qualquer jornal, revista, assistir este ou aquele canal. Aliás, prezo muito isso porque considero enriquecedor. Analisar como, porque e o que está sendo veiculado é fundamental e é o que eu busco fazer. Por isso, desprezo quem me vem com o “ah, leu na Veja” e em seguida publica um link, sei lá, do Idelber Avelar – e se considera genial. Aliás, já devo ter escrito sobre isso.

Há quem seja oportunista e mal intencionado sem nem mesmo precisar da imprensa (a internet permite isso melhor do que em qualquer outra época). Oportunistas, pessoas mal intencionadas e maus profissionais há em todo canto – como comentei no último post. Há médicos bons e médicos ruins, há arquitetos bons e arquitetos ruins, há gerentes bons e gerentes ruins – e isso em todo lugar. Desejo aqui fazer uma análise (mesmo que longa) e usar tão somente a observação, sem recorrer muito a qualquer área específica do conhecimento ou a dados. Em um ou dois momentos talvez use coisas que a Filosofia conhece bem, mas que qualquer um pode saber – e usarei para fazer uma ironia deliciosa. Antes de começar, devo dizer que conheço pessoas que são professores em Joinville e não são profissionais ruins (para dizer algo além eu precisaria assistir às aulas deles, ouvir alguns alunos e tal). De outros tantos, porém, que conheci já não posso dizer o mesmo.

Dito tudo isto, vou ao que me motivou a escrever nesta tarde chuvosa de um típico sábado joinvilense. Algum dia na vida cogitei fazer a graduação em Jornalismo e até hoje agradeço não tê-la feito – não sei o que ensinam nesses cursos, mas o que vejo me apavora. Até fiz uma disciplina do curso na UFSC, mas, como sempre, foi com o professor banido do departamento. Ótimas aulas, aliás, e um belo dia encontrei-o no twitter. Quando você conhece um ex-esquerdista radical que por considerações práticas e intelectuais abandonou o esquerdismo você se sente menos só no mundo. Pense numa reportagem, num texto jornalístico. Leia vários e vá reparando nas semelhanças e tal. Não é difícil perceber as intenções e o formato. Como nos maus documentários, quando quem escreve/dirige quer dar status aos dados apresentados, ou uma mera interpretação gabaritada, convoca um estudioso, um “doutor”, um sabichão da área. Eles querem, simplesmente, colocar alguém para dizer aquilo que eles desejam, mas pelas palavras de alguém “entendido”, pois eles são meros jornalistas – não podem sair por aí falando de doenças, guerras e educação, seriam, pobrezinhos, acusados de dar a opinião. Às vezes penso que jornalistas ficariam melhor apenas com suas opiniões.

Agora, leia o seguinte texto: http://anoticia.clicrbs.com.br/sc/politica/noticia/2014/09/saiba-como-joinville-vota-para-presidente-da-republica-4608517.html

Li isto hoje pela manhã e confesso que uma revolta de várias ordens tomou conta de mim. Tuitei freneticamente, pensei, repensei, voltei a ler. Não conheço pessoalmente nenhuma das pessoas envolvidas. Fui ler porque desconfiei que o joinvilense vota sempre ao contrário do país, e vi, só na minha hipótese, uma confirmação para a idéia que tenho de que a nossa democracia, como prevista, não funciona. Pois ela foi pensada para uma cidade não muito grande onde o “todos” era apenas uma parcela não muito grande da população – e, neste caso, talvez ela funcionasse. Desconfio que tentar adaptá-la para um país de milhões de pessoas num espaço enorme é uma furada – mas é só mais uma das minhas teorias. E fiquei curiosa, também, porque ontem tive o prazer de conhecer um morador de Joinville que é daqueles que acredita que caminhamos (o Brasil) para uma ditadura cubana. Já tinha ouvido falar dessas pessoas, mas nunca tinha conhecido pessoalmente. Elas existem – e, apesar de serem hoje motivo de chacota, prefiro manter minhas dúvidas. Pensei, antes de ler o texto, “aí estão pessoas como esta”.

Mas me surpreendi com o texto da tal reportagem. Diz ele que em apenas duas vezes o eleitorado joinvilense não acompanhou o resto do país. Porém, o mais surpreendente veio depois. O “argumento da autoridade” (sim, é intencional para remeter às falácias – não sabe o que é? Dá uma googlada rápida) foi o que me deixou abismada. Foram, então, convocados dois especialistas, dois profissionais que entendem de… (algo) para analisar o dado que a reportagem expõe: o joinvilense, por duas vezes não acompanhou a votação para presidente. Os dados são: em 2006 e 2010, os candidatos do PSDB superaram, em votos, os candidatos do PT – o que, como sabemos, não ocorreu na contagem geral dos votos.

Eis que, então, após dois parágrafos de dados, é dada a palavra ao, devidamente apresentado e já, só por isso, gabaritado, “professor de Sociologia e Ciência Sociais da Univille”. Temos alguém com formação e, tentou-se deixar bem claro, currículo – dizer de qual universidade não foi à toa. Como eu disse, não conheço pessoalmente o tal professor. O conheço, porém, do twitter. Comecei a segui-lo meses atrás. Foi difícil. Ele mesmo parecia gostar da pretensão dos títulos e currículo que possui. Depois de ler alguns absurdos, intelectuais e ideológicos, deixei de segui-lo – Twitter, te amo, queria que o mundo fosse como você. Tive meus motivos e pronto, era uma pessoa que eu não desejo conviver nem na ágora virtual que é o twitter.

O tal professor afirma que Joinville é constituída por conservadores, que quando alguém aparece com “idéias e propostas incomuns” não é bem aceito. Segundo ele, ainda, baseado em algum conhecimento histórico, a cidade não era conservadora e tenta usar como fato o dado de uma greve geral da indústria e comércio em 1917. Vamos analisar: os cidadãos legitimamente joinvilenses é que não são conservadores, pois ele afirma que “antes não era assim”, conservador é aquele que torce o nariz para o novo, e como consequência dos dados que a reportagem quer interpretar, quem vota PT não é conservador, este é quem vota no PSDB: um dualismo simples. Outra coisa que podemos perceber: quem participa de greve não é conservador. Pois se os cidadãos participaram de uma greve geral em 1917, então não são conservadores: eis o argumento da autoridade.

Mas agora vem o melhor: ele afirma categoricamente a origem do conservadorismo na cidade. A leva de pessoas do campo, do interior de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná, a partir das décadas de 1940 e 1950 é que tornou a cidade conservadora. Eu preciso copiar as palavras dele (pelo menos a ele atribuídas pela reportagem) literalmente porque não há como explicar um argumento desses:

“— Foram essas pessoas que deram a Joinville uma característica conservadora. A gente costuma dizer: você pode até sair do campo, mas o campo não sai de você. Quem mora no campo sempre vê a mesma paisagem, o mesmo rio, tem a mesma rotina. As pessoas de cidades grandes estão mais abertas a mudanças — argumenta.”

Ele sentencia que “essas pessoas” é que tornaram Joinville uma cidade conservadora (vejam que ele não usa sequer o termo “predominante”). Analisemos: todas as pessoas que moram no campo vêem sempre a mesma paisagem, o mesmo rio e têm a mesma rotina. E, por isso, (como se fosse uma consequência óbvia) não conservadoras. Já que o convocado diz ter formação na Filosofia, eu lembraria do próprio Heráclito, filósofo até que bastante conhecido pela famosa idéia de que nunca entramos duas vezes no mesmo rio. Pois o rio, professor, nunca é o mesmo. Mas o seu camponês olha sempre para o mesmo rio? A paisagem do campo, exposta às intempéries, às estações do ano, aos períodos de plantio e colheita, é sempre a mesma, professor? O que há de mais mutável do que a natureza em si? Sobre a rotina: uma pessoa que mora no campo tem uma rotina mais excruciante e repetitiva do que o assalariado dos grandes centros urbanos (maioria da população destas regiões) que trabalha das 8h ao meio-dia e das 13h30 às 18h, pensando no trajeto casa-trabalho e trabalho-casa (de ônibus ou de carro ou de trem – sempre os mesmos), nos colegas, no ambiente, no trabalho repetitivo de um caixa de banco ou de um cirurgião, sempre no mesmo horário, passando pelos mesmos lugares, tendo o mesmo tempo para as mesmas coisas (refeições, família, etc.)? E há, ainda, uma contradição absurda. Pois se pessoas de grandes cidades “estão mais abertas a mudanças”, o que dizer do joinvilense hoje? Porque ele se refere a um suposto conservadorismo de pessoas que para cá vieram nas décadas de 1940 e 1950. Mas a “maior cidade do Estado” se orgulha tanto – mas tanto – de ser “cidade grande”. E os joinvilenses nascidos de 1970 e 1980 pra cá, na tal “cidade grande”, não têm, então, como serem conservadores porque não vêem sempre a mesma paisagem e o mesmo rio (Sim! Sim! Sim! Entendam aqui a ironia pesada que estou fazendo, você que conhece a paisagem da cidade desde esta época e conhece nosso velho Cachoeira). Que contradição feia, professor!

Há uma regra básica da Lógica (e nem precisaríamos recorrer a ela, pois qualquer pessoa com um raciocínio razoável compreende) que afirma que, se encontramos um único caso que negue uma afirmação, esta é falsa. Ou seja, se ele afirma que “todo morador do campo que veio do interior de SC, PR e RS é conservador” eu afirmo que conheço um – e nos basta um só – desses que não é conservador. Ou seja, o argumento todo dele cai por terra. Um exemplo para ficar bem claro: alguém afirma “todos os cisnes são brancos” (pois ele só havia visto cisnes brancos) e existe um, mesmo que só um, cisne negro, portanto a afirmação é falsa.

Afirmações generalizantes são, por excelência, comprometedoras – mas aqui temos afirmações categóricas. Mas, depois de seguir o tal professor no twitter, não me admira que ele tenha dado essas declarações. A reportagem, contudo, continua pois o jornalismo é uma prática imparcial, como todos sabemos. Nos é apresentada uma outra autoridade, também professora e cientista social da mesma universidade, que diz que Joinville não é tão conservadora assim e justifica: elegeu, anos atrás, um prefeito do PT. Lembram do ovo e da galinha que citei no último texto? E voltamos ao dualismo que para estes dois cientistas sociais (que devem ter algum renome na cidade…) é claro e evidente: votou no PT é “progressista” (nas palavras da professora temos, finalmente, um adjetivo para aqueles que não são conservadores), votou no PSDB é conservador. Você aí, meu amigo, que já votou nos dois… abrace uma crise existencial, a gente deixa.

Como se não bastasse, a professora diz que os cidadãos são progressistas quando se trata da economia (mas não argumenta) e interpreta as diferenças nas duas eleições ao apoio do senador Luiz Henrique da Silveira. Algo mais ou menos assim: o joinvilense vota em quem o atual senador mandar (para quem não sabe, LHS já foi prefeito da cidade por duas vezes e foi governador do Estado). Além de conservador, o joinvilense é boi mandado do Luiz Henrique da Silveira.

Há tantas coisas que se auto-evidenciam no discurso destes professores e justificam minha revolta. Os “joinvilenses”, na fala do professor, são os que fundaram a cidade, e estes têm valores e princípios louváveis – pois não são conservadores. Sim, o conservadorismo aqui é implicitamente negativo e ponto final. Todas as pessoas que moram em Joinville sem terem seu vínculo familiar (e de sobrenome, coisa que é, ainda hoje, praticada na cidade) ou de origem com os primórdios da cidade, não é joinvilense. Aí há xenofobia explícita – de dar inveja ao parodiante “fora haole” da Ilha de Santa Catarina. Há uma parcela da sociedade joinvilense que não considera “joinvilense” aqueles que para cá vieram, como meu avô. Sim, meu avô é nascido no interior do Paraná (vê só, não era do campo, era da cidade e não gostava do lugar onde vivia) e veio para Joinville exatamente entre as décadas referidas pelo professor. Tenho cá pra mim, tomando meu avô como exemplo, que uma pessoa que se sente insatisfeita com o lugar onde vive, que está no interior e se arrisca, arrisca tudo o que tem, expõe a si e a sua família aos dissabores de uma mudança tão radical (ainda mais naquela época em que as distâncias não eram suprimidas como hoje) em busca de um emprego melhor, de condições melhores de vida, de estudo, de possibilidades, não é alguém que se possa, imediatamente, ser considerada “conservadora”. E meu avô se considerava, com muito orgulho, joinvilense. Casos de xenofobia em Joinville não são raros. O próprio prefeito do PT que foi citado referiu-se a um residente de Joinville que se considera joinvilense como se assim não o fosse e que não deveria intervir na cidade – o vídeo foi divulgado na internet. Por isso fiz questão de dizer, linhas acima que conheci um morador de Joinville que acredita na que viveremo uma ditatura cubana em breve – morador porque ele não é nascido aqui, mesmo que aqui trabalhe e tenha sua família há anos que se perdem no tempo. Meses atrás eu tive o desprazer de conhecer uma pessoa no twitter – um machista e ignorante da pior espécie – que morava em Joinville e se considerava tão joinvilense, apesar de manter o orgulho de ser um gaúcho do interior, que me xingou pacas (inclusive me acusou de “manezinha” – para relembrar a rixa chata -, gente, sou curitibana, tá? Quando forem xingar, xinguem direito) porque acompanhou uma conversa minha com um outro joinvilense (nascido em Tubarão!) sobre os problemas da cidade. O tal joinvilense-gaúcho era daqueles que não aceita que falem qualquer coisa da cidade-exemplo do Estado. Volta e meia me deparo, na minha TL, com menções a essa criatura e dá deprê porque me lembro que pessoas assim existem.

Alguém já se perguntou o que seria de Joinville sem aqueles que vieram de outros Estados e até de outros países? Sei lá, o único joinvilense ilustre que conheço que é daqui mesmo é o Juarez Machado, eu acho. Vejam só que curioso, Carlito Merss, o prefeito do PT, é de Porto União (interior de SC). Luiz Henrique da Silveira é de Blumenau. Ambos, então, são conservadores! Está explicado porque o joinvilense elegeu, extraordinariamente uma vez, um candidato do PT, não foi a tal “parcela progressista” da cidade – deve ser lenda, professora. E o Luiz Henrique, evidentemente, é conservador porque não apoiou o Lula em 2006 nem a Dilma em 2010. Mas, pera, o PMDB é o vice da Dilma. Será que entre o dualismo do ovo/PSDB e da galinha/PT há um meio, a casca talvez, que é o PMDB nas relações políticas?

A imprensa está aí, prestando cada vez mais desserviço ao público. Na contramão, temos que estar cada vez mais com as orelhas em pé. Porém, o que me revolta é ver análises rasas e até preconceituosas como essas feitas por professores que se gabam (e como se gabam, no caso do professor) de terem os diplomas e currículos que têm. E, pior, estão em sala de aula. Estão influenciando e manipulando (sim, num sentido muito negativo) as mentes dos alunos que estão ainda em formação intelectual. Muitos alunos, como eu comentava no post anterior, não têm boa formação em casa, não fazem boas leituras, e são cada vez mais desincentivados a ter consciência crítica das coisas. Os professores não ensinam ou estimulam, doutrinam. E aí, presidente Dilma, vamos desmoralizar as Ciências Humanas e Sociais mesmo – nem que seja para espantar um perigo.

Para alunos do Ensino Médio, na disciplina de Filosofia no segundo ano, eu sempre digo que vamos desenvolver a crítica e que, para isso, temos que superar o senso comum e nossas prisões (religiosas, familiares, ideológicas, etc.). O primeiro ano serve como um primeiro momento de contato dos alunos com a Filosofia, contato este difícil, pois eles só vêem Filosofia depois de oito ou nove anos na escola – qual é, então, a importância dela agora que eles estão quase saindo? Despojar-se de preconceitos, princípios, dogmas e do senso comum é um exercício árduo que brinda com um descortinar de novas impressões e sensações – é mágico. É um processo. Causa um alvoroço, é verdade. Mas faz pensar – e não vejo a Filosofia com outra “finalidade”.

Sei que não é, de modo algum, o objetivo de um texto do A Notícia de poucas e pobres linhas provocar a reflexão das pessoas. É, no mínimo, tendenciosa ao querer explorar a relação do eleitorado joinvilense com o partido que ele elege. Não quer nem ao menos levantar a discussão sobre como vivemos numa democracia que uma cidade inteira elege um presidente que não é aquele que vai governar por quatro anos. Que esses não são os objetivos da imprensa a gente entende. Mas ver dois professores das Ciências Sociais partirem para teses preconceituosas, limitadas e estúpidas é lamentável e, sim, revoltante. Não foi a primeira vez que conheci legítimos joinvilenses das Sociais com mentalidades que alimentam dualismos, preconceitos e xenofobia. Eu sempre disse que o problema de Joinville (vejam, falo da cidade) é a mentalidade dos joinvilenses (e, pelos exemplos, joinvilense é um termo que pode ser bastante expansível, né?). Diante de um texto de jornal corroborado por professores locais e relembrando certas coisas e discursos, tenho um vislumbre de onde vem esta tal mentalidade à qual me refiro.

Desejo, por último, dizer que conheço joinvilenses da melhor espécie. Na minha família a maioria é joinvilense. Meu irmão era um legítimo joinvilense. Meu avô e minha avó que para cá vieram há tanto tempo se consideravam joinvilenses. E eu sei que foram pessoas como eles que fizeram desta a tal maior cidade de que tantos se orgulham. Como se orgulham das suas origens alemãs. Orgulho, se bem pensado, não faz mal. As mentes pequenas é que fazem mal, principalmente quando permeadas por intenções da pior espécie. Xenofobia e preconceitos fazem mal. Dualismos categóricos fazem mal.

Eu imagino que bem estaríamos se joinvilenses considerassem e respeitassem os joinvilenses. Até eu, que não tenho nada com isso, ficaria feliz – nem que fosse pelos meus avós.

Ps: obrigada aos meus alunos queridos por eu nunca mais conseguir falar em “senso comum” sem dar umas gargalhadas.

A presidente Dilma não tem mesmo nada contra a Filosofia e a Sociologia?

Entre cansada de ouvir “por educação, saúde e segurança” e revoltada com as declarações de candidatos e governantes sobre seus planos para a educação mais especificamente, me veio aquele sentimento de obrigação de dizer cá umas coisinhas. Eu queria muito evitar. Mas, pelo visto, não consegui. Pois ao contrário de uma maioria, eu acompanho a campanha política, assisto e ouço as propagandas, procuro os sites de alguns candidatos, leio e vejo entrevistas. Faço isso desde antes de eu ter o direito de, alegremente, aos dezesseis anos fazer meu título.

Foi minha educação, em casa, e minha formação intelectual que me fizeram assim. Eu assistia às propagandas da época que o Voltolini era candidato a prefeito – e nunca ganhou, tadinho. Eu ia com minha avó e com minha mãe votar no Círculo Operário (alguém lembra?), chão de tábuas, uma mesinha com um biombo de papelão, cédulas de papel, e fazia o X por elas. Fui ao aeroporto de Joinville pela primeira vez para ver o Affif (alguém lembra?). Lembro de meu avô e meu pai conversarem sobre as dúvidas que tinham sobre o Collor – antes mesmo de tudo o que aconteceu. Certo que não entendia tudo desde o começo, mas ouvia e via bastante. Não foi, porém, suficiente para frear meus arroubos juvenis dos dezesseis – confesso. Para terminar o circunlóquio histórico, conto que foi um choque o dia que vi no título de eleitor da minha mãe que ela o fez, pela primeira vez, no ano que eu nasci. Vá lá, não faz tanto tempo assim… minha mãe não teve o orgulho que eu tive de fazê-lo (e sentir-se um pouco gente) aos dezesseis.

E são esses jovens de dezesseis e dezoito as grandes vítimas das campanhas. Não têm boa formação escolar, muitas vezes não a têm em casa também, são confinados aos pensamentos de tutores intelectuais duvidosos, sentem-se sempre insatisfeitos com o agora e esperançosos com o futuro. São eles que mais caem no discurso de políticos que acenam com maravilhas – sejam as que já fizeram, sejam as que ainda farão. São eles que acreditam que o que eles têm/são foi por algum tipo de benesse ou benção do Estado. E assim, assustadoramente, pensam a vida inteira.

Como citei, a tríplice “educação, saúde e segurança” é repetida para além da exaustão. Pensei em usar como critério não votar em nenhum que resvalasse nela: acreditem, a chance de votar nulo para todos os cargos é enorme – só reparem. Conversando com minha mãe, ela dizia quais os pontos principais que procurava num candidato, de acordo com a idade e situação dela. Pois eu sou um tanto chata, como todos sabem, e discordei. Política, pra mim, é por todos e para tudo. Eu sei, vocês não são assim. Não consigo atinar ao certo como este pensamento egoísta veio parar na política. Ah, sim, na Política não há o pensamento egoísta, na politicagem, sim. E esta é o que se pratica hoje. Na politicagem a gente vende o voto para aquele candidato que enche o nosso tanque de gasolina, dá um emprego pro filho, consegue vaga na creche mais perto de casa. E vota naquele que oferece alguma benesse que agrada aos nossos interesses. Desculpa, gente, não consigo.

Minha mãe descartou, por exemplo, a preocupação com a educação porque os filhos (graças a Deus) não estudam mais. E aí eu tive que, novamente, discordar. (Cêis acham que é fácil ser minha mãe? É, não.) Soltei: e teus netos? E fui adiante: um monte de problema que a gente tem na sociedade é decorrente da educação. E não são? Eu sei, eu sei. Colocar toda a culpa e responsabilidade na educação já tornou-se discurso batido. Mas não irei para este lado.

Numa propaganda da Dilma sobre educação, ela cita a lei que entrará em vigor obrigando as crianças a partir de quatro anos a entrar na escola. Quatro anos. Ela diz, também que há um compromisso com a alfabetização de todas as crianças até os oito anos. Oito anos. Faz auto-elogios rasgados aos cursos profissionalizantes e PRONATECs da vida. Citava, como o Vignatti e tantos outros, a “valorização” do professor. Todos, acredito que sem exceção, falam em implantar o período integral nas escolas de todos os níveis. Por último, a “modernização” das escolas e do ensino (?) é também amplamente prometido.

Lhe digo que foi a propaganda da Dilma que despertou minha revolta. Crianças de quatro anos sendo obrigadas a ir para a escola? Para garantir (ou prometer) a alfabetização das mesmas só aos oito anos? Eu ainda não tenho filhos, mas enquanto assistia comentei que filho meu jamais – jamais – irá para a escola aos quatro anos de idade.

Fazendo mais uma digressão: eu entrei na primeira série aos sete anos recém completados. Não canso de contar a história do meu primeiro dia de aula: a caminho da escola disse ao meu pai que não queria ir. Aí ele me respondeu: se você não for, o pai vai preso. Imaginem o drama, senti um nó na garganta. Sei que por muitos anos a imagem do meu pai preso foi a única coisa que me manteve na escola. Detalhe: eu entrei na escola aos sete anos já sabendo ler, escrever, somar, subtrair, dividir, multiplicar e identificando formas geométricas. Sim, orgulhosamente eu conto, também, que fui alfabetizada em casa, pela minha irmã. Minha mãe foi professora, inclusive da minha irmã, mas não foi ela que me alfabetizou. Contudo, em casa e na rua eu sempre fui corrigida, ensinada, e sempre tirei minhas dúvidas ao ver descortinado o maravilhoso mundo das letras quando via placas, folders, legendas. A alfabetização é o teu passaporte de liberdade para o mundo. Qualquer um que viaja para outro país sem conhecer o idioma sabe do que eu estou falando. Qualquer um que conhece pessoas semi-analfabetas, analfabetas ou analfabetos funcionais sabe do que eu estou falando. Até hoje sou saudosa que aos sete anos eu sabia fazer contas melhor do que sei hoje.

Ah, mas sou uma branca, classe média, nascida e crescida em grandes centros de grandes cidades. Sou aquilo que chamam de privilegiada. As primeiras vezes que ouvi isso achei que era xingamento, hoje tomo como elogio. Sou, sim, privilegiada – pela família que tenho. E, por favor, não cometam a falácia de dizer que não posso escrever sobre lugares, cores de pele, situações sociais que não aquelas às quais eu pertenço. Eu sei que vocês são espertos e não farão isso. E já fui tantas vezes acusada disso que acharia extremamente repetitivo da parte de vocês.

Eu conheço de perto o que o analfabetismo, coroado por professores e alimentado por pais negligentes, causa na vida das pessoas. Pauto aqui o que escrevo sobre educação pelo que vi e vivi. Fui uma aluna difícil. No começo da adolescência eu lia muito, via filmes e documentários e tal. A repetição da escola era mortal pra mim. Além do mais eu tinha boa memória e rever tantas coisas não me motivava em nada. Conhecia alguma coisa do ensino em outros países e via lá fora soluções que não eram implantadas aqui. Sou do tempo de quadro de giz e livros didáticos, papel e lápis. Lembro bem quando fiz meu primeiro trabalho em Power Point, na quinta série, e fui a única a usar tal recurso. Tínhamos computador porque era o trabalho do meu pai e da minha irmã e eu era uma autodidata nessas coisas de informática. Foram dois trabalhos que me marcaram desta época, sobre tsunamis e sobre o Fagundes Varella. Ambos feitos no computador, porém com conteúdos tirados nos livros e enciclopédias de casa e da biblioteca.

Para tentar ser objetiva: considero um crime colocar crianças de quatro anos na escola. Ao ver tantos candidatos prometendo o ensino integral, me perguntei: pra quê? Vão ensinar mais? Vai ficar mais tempo na escola pra quê? E a “valorização” do professor se resume a salários mais altos. Simples assim. Médicos e engenheiros são profissionais valorizados na sociedade desde quando passam no vestibular porque os salários iniciais previstos não são menos que cinco mil reais. Só por isso, vai ver. Professor, de ensino fundamental e médio sejamos claros, é um profissional desvalorizado (e não estou me referindo aos salários) porque de casa não se valoriza o ensino. Me referi aos professores de ensino básico porque na nossa sociedade o status do professor universitário é outro, e não me venham de ladainha. E as promessas de tablets para todos os alunos? Vontade de dizer para um candidato desses: vai lá, entra na sala de aula e tenta dar aula para aqueles olhos enfiados nas telas touch screens. Tenta, malandro. Porque enquanto escolas debatem como proibir o uso do celular e dos tablets em sala de aula, os candidatos dizem que vão dá-los a todos!

Sim, há problemas no ensino. Não, não serão resolvidos com crianças sendo obrigadas a frequentar escolas nem com tecnologia de ponta distribuída entre alunos e professores nem com salários mais altos para professores nem com crianças e adolescentes trancafiados em escolas por mais horas. Não.

Minhas reflexões iam por aí… não só como professora ou como futura mãe e estudante. Fui uma aluna difícil, já disse, e no ensino médio eu larguei os estudos. Não tinha capacidade nem interesse algum em Matemática, Física e Química; detestava o ambiente escolar (pessoas); morria de tédio na carteira (mais comum era me ver de cabeça baixa lendo durante as intermináveis aulas); tirava notas boas a medianas; elaborava colas geniais para as disciplinas desinteressantes mas para as quais eu precisava de nota. Tive, na época, problemas familiares e tal, e um dia resolvi não mais estudar. Dizem que minha mãe passou maus bocados (e eu acredito nos testemunhos, já disse, ser minha mãe não é fácil). Só por ela que eu tive idéias mirabolantes para voltar a estudar. Me sentia muito esperta na época. Nunca fui nerd, nem CDF, nem gênio. Só achava tudo aquilo muito entediante.

Como professora eu aprendi que é preciso atrair os alunos, com o meu comportamento, com idéias, com provocações. Mas meus piores momentos como professora sempre foram as dificuldade institucionais alocadas nos alunos. Adolescentes são inteligentes, são espertos, são maliciosos, sabem se expressar, são pessoas completas. E eu nunca pude chegar ali na frente deles e ignorar isso. As dificuldades que eles traziam das aulas de Português, as dificuldades que eles traziam das aulas de História e Geografia. Os problemas seríssimos no simples ato de ler e escrever corretamente. Problemas que vinham das famílias, pais enlouquecidos pelas notas dos filhos, pais ignorantes (no sentido pejorativo) que incutem nos filhos o desinteresse pelo conhecimento, pais ausentes, a violência que cada um traz na sua história. Eu vejo adolescentes inteligentes na minha frente, mas marcados pelos crimes das instituições. E dói. Dói muito. Por isso que cada reconhecimento, cada comentário numa avaliação, cada elogio, cada mensagem é que significa, pra mim, a tal valorização do professor. É saber que entre tanto descaso eu consigo fazer o meu trabalho. O Estado, alguns professores e as famílias não têm idéia do mal que causam às crianças e adolescentes.

É quadro e giz e, no máximo, livro didático e você tem que dar aula de Filosofia. Mas eles são inteligentes e você não os subestima, é claro. Dispenso fácil qualquer projetor, slide, tablets. Queria, ao menos, uma biblioteca. Sabiam que há inúmeras escolas que sequer têm bibliotecas? Ou muitas que têm mas vivem fechadas porque não há funcionário responsável?

Fui pensando em tanta coisa até desistir de escrever sobre. Diriam que são coisas muito pessoais. Mas não pude me calar ao encontrar, parcialmente, resposta para algumas das minhas dúvidas na entrevista da Dilma ao Bom Dia Brasil ontem (22 de setembro).

Ao falar de educação, ela proferiu uma frase que selou de vez minha indignação – seguida do que pareceu, no momento, uma proposta/resposta. A presidente do Brasil consolida a idéia de que o ensino é maçante e critica as doze disciplinas às quais os alunos são submetidos – e frisa que dentre estas doze estão Filosofia e Sociologia. Ao perceber o ato falho, ela em seguida acrescenta: nada contra Filosofia e Sociologia. Não, presidente, nadinha contra as Humanas e Sociais, né? A fala dela sugeriu uma reforma curricular que não ficou clara em absoluto. Ou seja, deu uma resposta que eu queria. Então, teremos, de fato, uma reforma curricular? Em quais moldes? Seguindo quais exemplos já existentes? Por que, presidente, esta proposta de reforma curricular não foi apresentada na sua propaganda na TV? Era o que eu queria perguntar. Tudo o que eu desejo para o ensino no país é uma reforma curricular – evitando a demagogia do período integral e de doação de tablets. Sobre reforma curricular eu sonhava nos meus tempos de aluna do ensino regular. Concordo que a resposta seja uma reforma curricular, em primeiro lugar, e uma rigorosidade com os profissionais da educação. Contudo, o único misto de sentimento e pensamento que pude ter foi temor. Temi pela volta do tecnicismo do ensino escolar – tal qual na Ditadura, lembra, presidente? Meu pai aprendeu marcenaria na escola, o que lhe vale muito até hoje e eu sempre elogiei, mas as razões para eles ensinarem isto nas escolas não era das melhores. Há anos o Brasil entrou em crise de profissionais das engenharias, das tecnologias e correu-se a abrir cursos e dar incentivos para formação. Ficou claro que nos espelhamos na China. Hoje temos dados que comprovam que não faltam profissionais formados nas áreas da educação, mas há desinteresse na profissão. Não passou o tempo em que era mais fácil passar para as licenciaturas e era lá que paravam os que “não davam em nada” ou não eram muito inteligentes? O interesse em transformar escolas em meros centros formadores de técnicos e de mão-de-obra qualificada para Exatas e Tecnológicas é evidente – e muito preocupante.

Vai ver por isso que não saber ler nem escrever não faça muita diferença. Ah, e vai ver que por isso Filosofia e Sociologia sejam tão dispensáveis. E é, queridos, no que muita gente acredita.

Me revolta ver a situação do ensino. Me revolta ver uma presidente falar assim. Me revolta ver que não é na escola que devemos ser incitados (pois não é algo que se ensine) a pensar.

Soluções? Respostas? Abraço os filósofos e sociólogos. Primeiro ponto: não desejo que o Estado diga o que e como meu filho deve aprender. Segundo ponto: responsabilizo, antes de qualquer coisa, os pais pelos filhos que colocam no mundo. E se a lei fosse que todo pai e mãe deve ser o responsável pela alfabetização do próprio filho até os sete anos? Quantos pais e mães se revoltariam a bradar que isso é “responsabilidade do Estado”? E se as escolas fossem só três dias por semana? E se as “escolas” fossem criação de comunidades de pais e professores que elencassem suas prioridades e interesses, assim como voltadas para os talentos e habilidades dos alunos? E fossem financiadas pelos pais em conjunto com verbas públicas? Princípios liberais demais para um país que está preso em “o que veio antes, o ódio ao PSDB ou o ódio ao PT”, não é mesmo?

Vejamos alguns pontos que não vejo sendo discutidos e que são menos “liberais”: traduções, preços e acesso a livros; política menos dispendiosa e corrupta de livros didáticos; bibliotecas em todo – todo – lugar; acesso a conteúdos on line (como li numa entrevista esses dias, inclusão digital não é disponibilizar conexão); currículos de graduação e pós abertos e verdadeiramente multidisciplinares (palavrinha mágica que ouço desde o fundamental e não, não é só colocar um trabalhinho que una conteúdos de História e Geografia ou Física e Química); formação avançada no ensino médio para mapear as habilidades e interesses dos jovens antes da graduação (medida que não é do interesse tecnicista); a não ideologização do ensino, principalmente nas áreas Sociais e Humanas (difícil, hein?); contemplar mais áreas específicas do conhecimento (meu problema atual); rever as disciplinas como Artes e Educação Física que não devem ser meros “passatempos” para o aluno, mas que são essenciais na qualidade de vida, raciocínio e desenvolvimento intelectual e físico.

Pois repito: não desejo que Estado algum determine o que vai entrar na cabeça do meu filho. E pais analfabetos, como alfabetizariam os filhos? Bem, aí talvez nós olhássemos de vez para a vergonha que é ter um número tão alto de adultos analfabetos. E não os jogaríamos nos CEJAs e outros cursos relâmpagos que só dão diplomas para conseguir “empregos qualificados”. O retorno e o vínculo entre pais alfabetizados que alfabetizam os próprios filhos seria inestimável, tanto para as famílias quanto para a sociedade.

Ah, sim, outra objeção possível: e o tempo? Como fazer com o tempo dos pais que só trabalham e trabalham e trabalham (ó, a sociedade consumista assim o exige!)? Lembrei, então, do que me motivou de vez a escrever esta longa revolta: a propaganda do Dário Berger ontem na TV. Sabe o que ele disse? Que vai lutar pelo ensino em período integral por você mãe (sim, ele disse mãe) trabalhadora que quer ter onde deixar seus filhos. Preciso comentar o machismo ultrapassado de colocar nas costas da mãe a obrigação de criar e cuidar dos filhos ou o óbvio não precisa ser frisado? Só a mãe trabalhadora não tem onde jogar o filho. Vejam bem, eu sei que há uma maioria de “mães de família” e que talvez, só talvez, ele esteja de olho nesta fatia do eleitorado – porém não acho que seja o caso, pela falta de inteligência da propaganda acredito mais no machismo mesmo.

Então finalmente um candidato teve a cara de pau (bem estilo do Dário) de dizer com todas as letras o que é, afinal, o ensino integral. É ter onde jogar crianças e adolescentes. Não tenho confiança numa sociedade que faz filhos e depois acha que é dever do Estado dar tudo para eles, desde saber as vogais e consoantes, e, ainda mais, cuidar deles a maior parte do tempo – porque o que sobra hoje é pai e mãe que mal convivem com os filhos. Por que fazem filhos? Eu fico na dúvida. Se não tem tempo para levá-lo pra escola, pra jogar bola, pra levar pra passear, pra assistir TV junto, pra fazer as tarefas de casa, pra ensinar como funciona um motor de carro (ah, eu aprendi, papi ensinou!), pra levar pra cozinha pra fazer bolo, pra contar uma história antes de dormir, pra levá-lo num museu… pra que tê-los? E, sério, não preciso ser mãe pra saber, mas estão perdendo (ambos) a melhor parte.

Vejam só, os problemas são bem mais graves do que julgam as vãs propagandas e promessas eleitorais. Deve ser falta de Filosofia e Sociologia na escola (né, querida presidente?). Tive alguns excelentes professores e guardo comigo muitas coisas (reflexivas) que aprendi com eles. Uma delas é que governo nenhum quer que o povo pense – desde antes até hoje, tudo igual. Filosofia e Sociologia, como as Artes (incluo aí a Literatura e as aulas de redação, mas é extensível às Humanas em geral), não são aquelas disciplinas que você tem que decorar fórmulas, cálculos e conceitos. Como acrescentei no parênteses, História e Geografia também devem incitar à reflexão e ao pensamento crítico. Minha crítica sempre foi que não nos deixassem pensar. Aprendi muita coisa com as Exatas também, apesar de não ter muita afinidade e ter também um certo desinteresse. Estive num museu de ciência e tecnologia esses dias e me diverti horrores com tudo que eu aprendi algum tempo atrás e que uso pouco ou quase nada no meu dia a dia. Por isso, sim, uma reforma se faz necessária – mas antes nas cabeças das pessoas. E, não, isso nada tem a ver com políticos.

Vocês sabiam que fui chamada de “revoltada” por muitos professores? Até na graduação (na banca de mestrado meu orientador disse que eu tinha “idéias próprias”, não sei se foi elogio ou desabafo). Aí minhas revoltas acabam assim em quatro páginas – e ainda são insuficientes. Pensei mil coisas que não vieram parar aqui. Qualquer hora vou reler e anotar o que esqueci de escrever. Ah, esqueci de comentar que lamento ver meus colegas das Artes, Humanas e Sociais como os grandes apoiadores (e supostos intelectuais) deste governo que deixou claras suas intenções acerca do ensino, além do desprezo com as nossas áreas. E, vejam só, para quem largou os estudos por alguns meses e só voltou por pena da mãe, porque recebeu bolsa de estudos e foi sempre uma aluna difícil e irritante, sinto-me ainda mais privilegiada por ser moradora de grandes centros urbanos e que ainda não parou de estudar. E nem pretende. Ah, jamais subestimem o que eu conheço daquilo que vocês concluem que eu não devo conhecer. Só uma dica.

Tempo é amor

 

Diálogo real

– É casada? Namorado? Um ficante? Um rolo qualquer? – ele me interrompe com cara séria.

– Não. Não. Não. Não. – eu, com um sorriso complacente – Você me pergunta isso toda semana, sabia?

– Sei, sim. De um dia pro outro pode mudar. – ele, ainda sério.

– Ah, não… acho muito difícil. – já preparo meu sorriso de ‘vou fazer uma piada idiota’ quando o assunto fica sério. (sempre faço isso e sei que não adianta, mas não desisto)

– É isso que eu não entendo. – sim, a seriedade já me assusta.

– Não entende o quê? – aí libero meu sorriso extra-mega-super-simpático.

– Você não ser casada, não ter um namorado grudado em você. Você… (uma ênfase, uma pausa, uma coragem) você seria a melhor esposa. Como é que não tem ninguém com você? – como se fosse possível, ficou ainda mais sério.

– Ah, eu seria uma boa esposa? Você nem sabe se cozinho tão bem e, ó, não passo roupa e nunca peguei um bebê no colo. – eu sei, eu sei, minhas tentativas de fazer piada falando sério são um fracasso.

– E daí? Eu poderia passar a vida inteira ouvindo você falar. – e aí ele combina a seriedade com um sorriso encantador (pois eu já ouvi isso antes e já vi dúzias de sorrisos encantadores na vida).

– Ah, aí eu duvido mesmo. Ninguém suporta me ouvir, sabia? Começo a achar que isso aí é cantada barata. Conheço as pessoas e me conheço, falo demais, de mil coisas e ninguém aguenta mais que meia hora. – eu, séria com um meio-sorriso sarcástico querendo encerrar o assunto.

– Eu gosto de te ouvir. Tudo o que você fala, sabe? Me faz ter idéias. Me faz querer falar de mim. – a seriedade desapareceu, o sorriso também, e pude vislumbrar uma melancolia.

– Mas eu já não te disse que pensar demais faz mal? – dou o meu melhor sorriso – Deixe esse mal pra mim, acho até que já me dou bem com ele.

– Mas nunca vou entender você sozinha. – não sei se foi insistência ou persistência dele, mas com sorriso maroto.

– É que não depende dos outros, entende? Depende de mim. E por mim, só você sabe, viu?, tenho preferido conviver com as idéias. – aí a melancolia era minha, sem seriedade e sem sorrisos.

– É… não sei se entendo. – e aí um anjo dos céus interrompeu a conversa que já tinha ido longe demais.

Pessoas especiais: tenho o prazer de tê-las na minha vida. Este 2014 mucho loco me presenteou com algumas delas. Mas, quase tudo de bom que 2014 me deu, também me tirou. Este rapaz do diálogo é mais uma dessas pessoas especiais e tornou-se ainda mais nas últimas semanas. Não foi a primeira vez e sei que não será a última que passarei por um interrogatório sobre ser ‘sem’ marido/namorado/ficante/peguete. Não vou escrever sobre como, ó, a sociedade oprime as solteiras e como as cabeças nos obrigam a estar com alguém. Lá fora as coisas realmente são assim, aqui não.

Fiz a piada de não cozinhar tão bem nem passar roupa ou segurar um bebê (é tudo verdade, viu?) porque eu sei o que um homem ainda espera de uma mulher como conjugue. É triste mas é real – não seria a realidade sempre algo triste? Comentava, esses dias, com umas pessoas sobre isso e chegamos à conclusão (li alguma coisa que me levou a isso também, mas nem lembro o quê) que o homem continua com a mesma visão machista, mas agora ele exige que ela trabalhe. Eu juro que não vou escrever muito sobre essas questões porque estou perturbada e bêbada de Stendhal – guru, amigo, irmão de pensamento. Do jeito que os homens querem as mulheres eu não quero ser esposa/namorada/amante. Já disse, meu último relacionamento acabou no exato instante que ele quis discutir a estampa da cortina da cozinha do apê dele. Mas, Jesus, quero nascer de novo se for pra passar por isso.

Eu quero escrever sobre dois pontos: as palavras (que não devem ser ditas) e o tempo. Sobre as palavras há uma preocupação de ordem acadêmica e criativa, confesso, que me persegue há anos e agora vou me dedicar a estudá-la com mais afinco, mas pra hoje temos algo informal. E sobre o tempo… bem, o amor pode ser aquilo que inventaram só pra justificar nossa procriação, mas o tempo existe sim.

Sou reconhecida por falar (demais, diriam uns) e fui sincera quando disse que ninguém me aguenta muito falando, muito menos pelo resto da vida. Dizia lá uma pessoa querida da minha adolescência que devemos casar com quem gostamos de conversar porque quando tudo acaba, só resta um bom papo (já devo ter escrito isso aqui, além de falar demais ainda me repito). Passei muito tempo acreditando nisso. Até que aprendi a delícia do silêncio a dois. Já pensou se eu fosse casar com todos que me deleito conversando?! Ia ganhar cartão de pontuação de fidelidade de cartório. Mas, não, pois se tem algo que afasto com veemência da minha vida é a banalidade. E as palavras banalizam as relações. Eu raramente digo o que sinto. Porém, não deixo de sentir jamais. Tem um exemplo que vou antecipar aqui sobre o dizer não dizendo. Na “Esse cara sou eu” do Robertão, que eu acho linda-maravilhosa-perfeita e suspiro toda vez que toca, tem um verso – só um – que eu diria pro Rei trocar. Quando ele canta “e no meio da noite me chama pra dizer que me ama” (eu sei, os malas reclamam dessa música – seria porque despertou neles o quanto eles não são ‘esse cara’ para suas respectivas? (quando homens) e porque despertou, nelas, o quanto o ‘cara’ delas não tem nada de especial?). Eu mudaria o “dizer” por “mostrar”. Só isso. Porque o meu ‘cara’ deve me chamar no meio da noite pra mostrar que me ama. Poderia ter resumido o parágrafo todo por “atitudes valem mais que palavras”, mas, vê, falo/escrevo demais.

Escrevo, é um hábito, um exercício, uma profissão de fé. Gosto de ver idéias em palavras (apesar de que a praia agora é outra). Mas eu não sou palavras. Muito menos relacionamentos o são. Em tempos de Whatsapp é difícil entender, eu sei. Quem diria que chegaríamos a este ponto da revolução tecnológica para ficarmos dependentes de comunicação viciada em… palavras (mal) escritas. Nem Bradbury teria previsto algo tão insignificante.

E, enfim, sobre o tempo. Além do Stendhal, sei que o último fim de semana maravilhoso me fez voltar os pensamentos a esta questão. Quis escrever sobre ela faz uns meses, porém 2014 não tem sido querido. Sim, a teoria de que o amor é algo inventado (e não é exclusividade cristã) para nos diferenciar dos animais e justificar nossa procriação não é minha. Lembro de ter pensado isso em algum momento glorioso da minha adorável adolescência (enquanto as amiguinhas namoravam desde os doze anos com quem hoje já são casadas) e é bem provável que fui influenciada por algo que li na época – sim, eu lia muito, foi o que me estragou pro resto da vida. Também não é nada original que amar é doar o seu tempo. Despender tempo com as coisas e as pessoas é a única real demonstração de amor que existe. Em especial para uma pessoa que é solitária por prazer. Não são declarações (as quais, aliás, acho que nunca fiz – pensava cá esses dias), não são buquês de flores, não são cartões e bilhetinhos, não são presentes caros, não é apresentar para os amigos/família, não é nem aquele sussurro ao pé do ouvido na alcova (sim! Também quero escrever sobre isso) nem andar de mãos entrelaçadas. É dedicar tempo. E, ah!, como tenho amado por estes meses!

Fui no aniversário de uma amiga de longa data e eu era a única sozinha ali – eu e a aniversariante. Todos os outros convidados eram casais. Já não sou das mais sociáveis, como todos sabem, e no meio de um papo que girou sobre “dormimos juntos sexta, sábado e domingo” (todos deram esta mesma resposta e ficaram analisando se configurava união estável ou não e tal – havia advogados no recinto) e os financiamentos da Caixa para comprar o apê, além de onde o piso ou o forno de embutir era mais barato, é óbvio que entrei em tédio profundo. Elas ali querendo parecer sensuais e gostosas e maduras e eles a fazerem piadas infantis e poses ridículas e comentários idiotas. Fui me servir e encontrei a aniversariante pegando refrigerante, aí fui obrigada a comentar “E aí, só nós duas sobrando ali no papo de casal. Mas tem cachorro-quente, aí é a nossa praia, né?” e ela deu uma sonora gargalhada. Ela me conhece faz muito tempo, sabe de histórias e histórias, e eu posso dizer o mesmo dela. Aliás, o cachorro-quente estava fantástico. Já avisei a mãe dela que passarei lá qualquer dia desses pra comer mais.

Amar não é escolher o piso do apê. Ninguém vai me convencer disso. Amar é doar-se. É doar o teu tempo para estar com, conversar com, ajudar no que for preciso, só fazer companhia, assistir à novela e ao horário eleitoral junto, pedalar junto, ir ver o pôr-do-sol junto, ouvir (de verdade) o outro. É deixar os compromissos um pouco pra depois só pra poder ficar ali deitado junto, ninando e afagando as saudades e dores do outro (que, às vezes, são nossas também). É mudar toda a rotina pra encaixar tempo pra todos que são dignos do nosso amor. É levar no médico, é levar pra vacina – e não, não é por mera obrigação. É ter tempo para parar tudo o que está fazendo (mesmo diante de prazos apertados) para explicar bem uma coisa que o outro tem dificuldade. É deixar o tempo escorrer em gotas de nós mesmos. Posso não acreditar no amor que me contam, mas conheço bem o tempo.

Tenho amado intensamente neste ano. E, não fosse o tempo, amaria ainda um tanto mais. Tenho feito verdadeiros milagres e preciso de mais alguns até dezembro. Amo tanto e tantos e tanta coisa que tenho me deixado em segundo plano – sei que não deveria, mas… Também tenho feito papel de idiota, é claro, como sempre. Porém, diálogos como o citado aqui me fazem ter certeza de coisas bem especiais. E deixemos a questão do dinheiro (ah! Stendhal!) para outra hora e a discussão sobre ter que deixar de amar por falta de tempo ainda não está pronta.

E é isso, estou que é só amor. Culpa do Stendhal. Do fim de semana. Culpa dos meus ilustres pensamentos. Qualquer dia volto a escrever coisas sérias.

Por respeito aos nãos

Talvez fosse coerente começar escrevendo sobre oportunismo, coisa que (se é que um dia saiu de moda em terras tupiniquins) está muito em voga. Só de escrever declaradamente sobre certos assuntos eu já posso abraçar os oportunistas que, parece, têm brotado aos borbotões. É curioso o quanto aumentamos a exposição daquilo que criticamos que está sendo exposto, já repararam? Se eu considero que uma determinada ação de uma pessoa (ou de um grupo delas) é excessiva, errada ou expõe o que não deveria, ficar falando, publicando e comentando-a só ajuda a aumentar a publicidade da coisa. É simples. Mas muita gente não percebe.

Não, não me deterei em fatos particulares. Serei o mais abstrata possível. Como dizemos no twitter, entendedores entenderão. Justo assim. Antes de começar a escrever pensei e repensei o quanto eu sofri tentativas de cerceamento desde (e principalmente durante) a minha infância. Na prática, nunca houve porta trancada, armário alto, portão com cadeado, cofre com segredo, esconderijos secretos e afins que tenham me detido – podem perguntar, algumas histórias são célebres. Ouvir um não ou uma proibição qualquer disparavam em mim, no mesmo instante, o botão do desafio. Se era não, então eu faria. Claro que me meti em inúmeras confusões, apanhei pra caramba, deixei algumas pessoas em desespero. De fato, não faz tanto tempo assim que o que não era pra ser, pra mim seria.

E não sei bem quando foi (repito, não faz tanto tempo assim) me vi refém dos meus próprios nãos. Eu me dei o dever de me cercear. Os primeiros momentos foram de dilemas quase-existenciais. Minhas atitudes mudaram. Eu decidia por mim se sim ou não. Não demorou muito para me sentir responsável – ó, meu pavor desde sempre. E, sim, hoje creio que me sinto uma velha por isso. Envelhecer deve ser isso de respeitar os nãos – os próprios nãos. E, lhes digo, dia após dia, tenho me deparado com situações nas quais o coração sai se arrastando pelo peso dos lamentos ao respeitar meus nãos…

Pensei cá se não deveria ser uma lei universal o respeitar os próprios nãos. Não é questão de educação, etiqueta, noção ou bom senso – não é respeitar o que nos é, desde sempre, imposto. É saber o que se deve ou não fazer – em determinado lugar ou situação. Pensem bem, não estou me referindo às psicoses nem aos crimes hediondos (mas a alguns casos destes é possível aplicar).

Pensei, também, que seria simples. Passaríamos menos vergonha com atitudes totalmente reprováveis – dessas que abundam registradas em imagens e divulgadas na internet –, talvez até respeitássemos mais uns aos outros (entre mortos e vivos), quem sabe até acreditaríamos mais nos seres humanos – esta espécie que louva tanto ser racional.

Concluí, então, que tenho pensado demais. De vez em quando acontece. Publiquei, ultimamente, textos de ficção (?) porque também de vez em quando acontece de eu querer olhar o mundo somente pelos olhos da ficção. Acredito que poucos lograram acompanhar o que eles de fato queriam dizer. Mas, pelo que afirmam os estudiosos das Letras, não importa o que o texto quis dizer, mas o que ele disse a você, leitor. Nem terminei de escrever e tenho certeza que este texto não dirá absolutamente nada à maioria (dos que o lerão, óbvio). Entendedores entenderão.

Às vezes também acontece de eu preferir apenas observar. É um exercício e tanto. Ainda mais quando os dias são batalhas árduas em obedecer aos nãos que eu me digo – tem dias que é um atrás do outro e, ó, coração, sofra sem dar um pio. E enquanto isso vou lendo livros de ficção que me ajudam a entender tudo. Ficção só me faz bem – da realidade já não posso dizer o mesmo. Às vezes, só às vezes, tenho cá pra mim que há uma imensa maioria jogada ao mar, entre ondas que vêm e vão e vêm e vão e têm dificuldade (total incapacidade?) de perceber. Entre as pérolas “na minha opinião, tenho certeza absoluta” e baldes de gelo, não sei bem o que se passa com a cobertura em tempo real e imediato do mundo.

E aí também estranho e (em certos casos) lamento as mortes (não que eu ache, como parecem querer que a gente acredite, que tenha morrido muito mais gente nesses tempos do que em outros – cadê as estatísticas?). E entre over flooding de especialistas sobre suicídio, depressão e piadistas de merda, é reconfortante ver que certos sentimentos continuam os mesmos – a pobreza, a politicagem, o amor, o ódio, a ignorância. Talvez eu até preferisse o mundo quando ele era assim.

É, sou velha, mas tão velha, a ponto de preferir os bons tempos em que fofoca era fofoca e não indireta nesta ágora on line. Bons tempos quando meu avô discutia política no final do almoço de domingo e minha avó suspirava “política e religião não se discutem” – pois é, vó, nem o teu não eu respeitava, posto que foram as primeiras coisas que amei discutir na vida. Sou velha, o suficiente quem sabe, para respeitar o meu não nem que seja diante da dor dos outros. E aí me deparei com uma passagem – ficção (?), é claro – de um dos últimos ilustres falecidos que fez parte da minha adolescência mais desrespeitosa com os nãos (e feliz) da qual muito me orgulho:

Sobre enterros no Nordeste:

“Às vezes, um enterro cedo. Precisava ser cedo, porque logo se trabalhava. Defunto não come, talvez seja melhor. Mas não era menos enterro por ser de madrugada, antes era mais, porque em outras horas tem sempre gente na rua que não está prestando atenção no enterro. E de madrugada não, porque, quando tem um enterro de madrugada, só tem mesmo o enterro, com aquele caixão deslizando e o povo atrás e se ouvindo as pisadas no chão e as pernas das calças se esfregando umas nas outras.” – João Ubaldo Ribeiro, Sargento Getúlio

Sou dessas velhas que entendem enterros como o som dos passos e das pernas das calças se roçando. E, vejam bem, no meu tempo nem precisavam ser de madrugada para tanto. Ah, para os que não me conhecem, já fui a mais enterros do que descobri segredos de cofres e senhas de e-mails alheios. E, talvez, só quem já tenha visto ou sentido certas coisas vai entender o “defunto não come, talvez seja melhor”.

Enfim, Ubaldo era baiano e seus personagens transitavam ali pelo sertão. Mas ele também saía da ficção pra dar umas bordoadas na nossa realidade – esta, em resumo: uma democracia que não sabemos usar. Também não sabemos usar a liberdade e quase não encontro quem respeite seus próprios nãos. Então só me resta concluir com a imagem da minha avó recolhendo o prato dela e se retirando da mesa.

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