Indo dormir

 

 

O sol risca o horizonte que não vemos

os caminhos levam às casas e aos bares

tão pouco de um dia a mais

e a chuva que não veio

As jantas fumegam nas panelas

as crianças suadas saem da prisão

as moças esperam seus namorados

e os velhinhos já na televisão

Hoje começa uma novela das seis

talvez ao despertares não tenha sol

há quem veja começos no fim

e dias sem alegrias

Os postes em mistério se acendem

os cães festejam o desejado passeio

os pássaros calam e se aninham

o sol deixa o laranja roseado da saudade

Teus beijos de raspão me atingiram

com suspiros irritadiços quis te afastar

rondas o espaço dos meus pensamentos

e estou indo dormir

Pesadelos me assaltarão

esses olhos sonolentos verão

tu em prosa e verso

e serás o suspeito de conturbar

a próxima manhã.

A tríade

O corpo pede descanso. Isso ainda não é nada. A cabeça precisa descansar. Nem a tríade bem conhecida do relaxamento universal funciona. Se sexo, banho e comida não resolvem… nada há de resolver. O tempo, provavelmente. A tensão acumulada pela espera que, sim, não é frescura, parece infinita. A tensão que deveria ser canalizada para aproveitar este tempo com o que precisa ser feito, pois depois será tarde demais e aí somará mais tensão ainda, só distrai, dispersa, irrita. Contra irritação não há tríade, só sexo mesmo. Não acredito que exista alguém que nunca fez sexo com uma pessoa irritada. Moralmente injusto é descontar nos outros, nos mais próximos, toda a tensão. Eles não têm culpa. Ninguém, na verdade, tem. Mas é quem está perto, é quem não te compreende. No meu caso é quem me oferece comida. Aliás, sou inclusive chantageada com comida. Eu gosto de ser chantageada. (seja esperta e não queira perder uns quilos JUSTO na mesma época de tensões homéricas – acho que nunca fui muito esperta) Juro que queria ter toda a tranquilidade da alma para dissertar, novamente e sempre, sobre o tempo. Contra ele hoje pesam todas as acusações. Sem chance. A cabeça precisa parar, o corpo precisa relaxar. São horas que se arrastam, válvulas de escape procuradas em todo canto e opções. E nada. O banho ajuda – mesmo em doses diárias quando a tensão é a longo prazo, não muito. Eu queria escrever a coisa mais bonita sobre o banho – os banhos, pois, chuveiro, mangueira, mar, rio, chuva (tanto tempo que não tomo banho de chuva…) – descrever com palavras difíceis a água morna escorrendo pelo corpo nu, o fechar os olhos no vapor do chuveiro, as risadas da companhia do banho gelado de mangueira num dia quente, resvalar para a única sensualidade possível da água sobre a pele. Não tem como. O banho é o banho e não há poeta nem palavra no mundo que o alcance. Que bom, né? Gosto dessas coisas intocáveis pelas palavras. Palavras, enfim, não dão conta de tudo no mundo. Mas, palavras ajudam a aliviar a tensão. Boas conversas, as interessantes, não as inteligentes. Sempre preferi conversas interessantes às inteligentes. Conversas que te façam esquecer a vida por algumas horas. Esses dias, assistindo a um filme, senti saudade do telefone – aquele sem fio, linha fixa. Era gostoso conversar por telefone, horas a fio. Não sei o que deu na gente ao substituir isso por tanta conversa escrita. Ou conversa de celular que dá até pra falar na estrada. Boa era a conversa no telefone sem fio, encontrar um lugar confortável na casa e ali ficar por horas. Já me vendi barato por boas conversas interessantes. Ah, mas tem também o vinho. Ou rum, ou cachaça, ou vodka ou whisky. Aliviam a tensão que é uma maravilha – mais recomendado, certamente, acompanhando a tríade. Porque descontar só no álcool dá merda. Ou chá de camomila, que o dano é menor. O fundo do poço, né? Imersa em tensão, cabeça cheia e se escorar no chá de camomila (uma xícara quentinha aqui ao lado, aliás, portanto fundo do poço onde estamos). Todas as alternativas são válidas. E a tensão não passa. Já fui uma pessoa muito nervosa. Daí virei meio tranquilona. Porque, né, não adianta arrancar os cabelos. Mas a minha seriedade com algumas coisas é demais. Daí surgiu a tensão. Quando tratada tem bons resultados – não, o tempo não passa mais rápido -, senão fica aquela coisa meio nem aí, tô aqui comendo mesmo, assistindo a uns filmes, demorando para ler o que tem que ser lido (aliás, pelo amor, preciso ler alguma coisa só pelo prazer de ler, não por obrigação), atrasando os passos por algumas fotografias. Haja saída. Cartas de tarot, talvez. A ida a uma cigana. O horóscopo, sempre. Alguma coisa que antecipe o tempo. Qualquer coisa. Tiveram o despautério de dizer que estou intratável! Refugiada em mim mesma, as pessoas não têm idéia do quão intratável eu consigo ser. Críticas, aliás, não ajudam em nada nessas horas. Agora há pouco o banho aliviou o cansaço do corpo e a tensão da alma. Passei metade dele me cobrando, porém. Mais dias virão. Haja tríade e seus acompanhamentos. Não tem mais paciência, me dá sorvete.

Ao pesar a bagagem

Todo mundo tem uma bagagem. Talvez importe mais, quando a gente olha pra si mesmo, o que deixamos fora da bagagem. É bem bonito o sentimento pequeno príncipe de ir leve e alegremente, mas quem vive não consegue. Tem a bagagem material e a sentimental. Acumular demais pode ser um problema para a primeira, e pode tornar-se um caos para a segunda. Adolescente já quer ter todos os sentimentos do mundo. Depois aprendemos que não é bem assim. Tem aqueles que chegam aos sessenta e nem sentiram nada do tudo que há para sentir. Viver não é para qualquer um, é preciso dar a cara a tapa.

Foi num diálogo simplório de uma série, o pai aconselhava a filha sobre o cara com quem ela estava saindo. O pai questionava o que ela sabia sobre o cara, qual era “a bagagem” dele. E não é sempre um mistério? Eu me agarro à idéia de que é melhor não conhecer as bagagens alheias. Todo mundo é sempre tão complicado – e aí basta a nossa bagagem complicada. Quando alguém chega na tua vida, ele não precisa ir abrindo as malas, espalhando a bagagem pela tua sala de visita. A idéia parece assustadora. E ali pelo meio da bagunça tem uma coisa ou outra que vão te dando pistas sobre toda aquela bagagem que ele preferiu não colocar dentro dos baús e das malas. (sim, porque tem baús também, é o que acontece, às vezes…) Leva mais tempo para descobrir o que ficou de fora. Porque só carregamos conosco aquilo que queremos que os outros saibam que temos. O resto a gente esconde. E tem coisas que é melhor esconder muito bem.

Desconfie de quem traz consigo pouco ou quase nada. Ou não viveu, ou esconde tanta coisa que decidiu seguir assim, à la principito. Sabe quando você faz uma viagem sozinha? E, claro, compra mil coisas, malas enormes, ao entrar e sair de avião, ônibus, táxi, se quebra toda pra colocar e tirar tudo, carregar carrinhos e tal? Então, dá trabalho. Se você for eu, paga mico, certeza. Conta com a colaboração, auxílio e presteza de pessoas maravilhosas que encontra pelo caminho – porque pessoas de bom coração vêem que você não consegue carregar tudo sozinha. Mas você não esmorece, não joga os bibelôs fora, não abandona aquela bolsa maravilhosa, não deixa a camiseta de lembrancinha pro teu pai. Às vezes você terá a sorte linda de poder contar com alguém para aliviar o peso, na maior parte do tempo, não. Porque você sabe que aquela é a tua bagagem – e cada um tem a sua.

Quem vai deixando as lembrancinhas pelo caminho é um fraco. Prefere o vazio (aqui vos fala quem não suporta nem paredes vazias). Quem leva o tanto de bagagem que consegue suportar no limite do esforço é um medroso – não confia nem no próprio taco para arcar com a própria vida. Porém, quem carrega excesso de bagagem (paga aquela taxa absurda das companhias aéreas: sempre lembrar, Fahya) morre soterrado sob ela – o ar não renova e vai sufocando, sufocando… É preciso carregar aquela bagagem que você precisa curvar um pouquinho a coluna, sentir os músculos do braço um tantinho estirados, fazer uma força extra ao agachar e levantá-la. E é preciso, também, saber que há dias que a vida pede só uma mochila – e nada, nada, nada mais.

Foi esses dias que o mp3 tocou três vezes My Way. Tenho algumas canções do Frank Sinatra, evidente. Juro que quando tocou a terceira vez eu pensei: é hoje que eu morro, só pode, And now, the end is near And so I face the final curtain, tanto a cigana quanto meus pressentimentos estavam errados, morrerei jovem antes de fazer tudo o que quero. Ela foi a primeira música (o correto é canção, mas não perco velhos hábitos) do dia, assim que saí pelo portão na manhã fria e ensolarada. Ia a caminho de uma coisa muito boa, daquelas que enchem a bagagem, a cabeça, a alma. E mais um passo nessa sinuosa tempestade que é cumprir os sonhos. Caminhei pensando que era um bom começo de dia (que se mostrava promissor), lembrei, como sempre, do Coutinho.

E ela tocou novamente pela hora do almoço. Ia seguindo alegremente, contente comigo mesma (essa mania nunca perderei). Porque podem dizer que eu penso demais, mas que eu acerto naquilo que quero, ah!, acerto!. Talvez nessa hora eu não tenha dado muita atenção. Andava distraída (esqueci quatro coisas, nunca me acontece, estava totalmente no mundo da lua), observando as pessoas, as construções, os sons, o mundo. Sem rumo, com horário. Quando me decidi pelo cachorro quente me satisfiz com a lanchonete quase vazia, a moça iniciante no trabalho, os ônibus que passavam na rua, repensava as últimas besteiras que tinha feito. Estava feliz e queria comemorar. Então comemorei.

Eis que estou na estrada quando ela tocou pela terceira vez. Bem, aí me ocorreu a idéia da morte e I’ve lived a live that’s full I’ve traveled each and every highway And more, much more than this I did it my way. Parece coisa de arrogante o tal I did it my way. E é. Precisa ser teimoso e arrogante para decidir o que quer colocar na bagagem. Não cabe discussão. Não há tempo para ouvir o outro. E, muito menos, colocar as cartas na mesa. Nem todos os dias são floridos, nem toda chuva é suspirante.

Pensei comigo que não seria um bom dia para morrer. Pô, logo agora! Tenho umas datas aí para esperar, uns compromissos para cumprir, umas mensagens para responder. Se fosse agora, fazer o quê. Mas, né, bem no meio dessas alegrias e tensões onde me meti? Medo da morte?, pois: I faced it all and I stood tall And did it my way. Já encarei coisas piores. Ali no meio da estrada, com uma bolsa apenas de bagagem, a alma transbordando e talvez até disposta a dividir o peso (dá vontade, mas passa), Regrets I’ve had a few But then again, to few to mention que a vida é longa e sempre tive esse orgulho besta de não me arrepender de nada – talvez alguns pequenos, bobos e insinceros, ou apenas um: que me valeria a vida inteira. Não, não seria o meu dia.

Não terminei ainda de encher os baús. A coluna me dói um pouco – por isso sei que estou certa. Dói dia sim, dia não. E talvez eu fale disso um dia, o mais provável é que eu nunca chegue aqui, ou na tua sala de visita, abrindo as malas e baús – porque os outros olham pra nossa bagagem com a cara de “hein?”. Parece que estou na estrada há tão pouco tempo e pasmo ao lembrar que já tive que me livrar de algumas bagagens pelo caminho. Hoje não conseguiria mais carregá-las todas. O que eu trago comigo é tudo aquilo que preciso para ser quem sou (e quem serei?) For what is a man, what has he got? If not himself, then he has naught.

Sem alarme, sobrevivi. Quem sabe foi alguma pane no mp3. Ou uma mensagem para que eu parasse e pensasse na vida. Ou não foi nada, Fahya, deixa de bobagem. Bem, me deixa que eu gosto das bobagens da vida. Não pesam em nada na bagagem.

Convidado

Esta boca

não tem teus beijos

nesta cintura

não tem sinais das tuas mãos

Tola fui

festa fiz

na tua chegada

e não te vais

para sempre.

Presença sutil

quando quase esqueci

teu cinismo me alcança

a nossa música toca

queres presente

me contas tuas conquistas

e eu não sou tua.

Por que não me esqueces?

Desacreditei o coração

te abandonei nos sonhos

tola fui

e quis tua vida

– esta que tu já tens.

Perca-me do teu caminho

guarde pra ti as ilusões

cala – o que não vivemos.

No jardim tem convidado

arrumei a casa

limpei as vidraças

ouço novas músicas

é hora de abrir a porta.

Antes e depois da chuva

Desligar o computador sem o sentimento de dever cumprido, mas pelo pesado fato de que não aguentava mais. Meu limite de computador sempre foi duas horas (exceto quando jogava virada na madrugada o SimCity 3000). E a vida passa e os trabalhos exigem dias excruciantes em frente a tela. Não tinha trabalhado o suficiente para o dia, não via o fim do túnel, ainda, e desliguei – num impulso. Dia difícil, idéias incompletas, espírito selvagem. Desliguei sem nenhum peso no dedo.

Nessa guerra quem ganha é a companhia. Saio pelo quintal com a gata e o cachorro. Dizem que um poeta disse “feche os livros e vá viver” e outro que a gente canta o quintal de casa. Foi naqueles dias quando ainda víamos o sol. Esgotada a mente o corpo precisava viver. Eu sou feliz no meu quintal – nem todos podem dizer isso, de verdade. O quintal é onde se cultiva, é semear, esperar, esperar, esperar e esperar (já disse esperar?), é a alegria do brotar, do desespero de falta e excesso de água. É regar, proteger, fazer muda. É transplantar. É coisa de velho, diriam, pois personagens que cuidam do seu quintal, na ficção, são os velhos (só reparem). O quintal é trabalho, cuidado e perseverança.

No perfume da lavanda, o cachorro educadamente deitado sob os galhos secos da videira, a gata ao lado se deleitando ao sol, olho para o céu. Que o quintal também tem céu. Enquadrado parte pelo concreto, parte pela palmeira e outro lado pelos galhos da árvore-que-eu-não-sei-o-nome (a que plantei quando criança e hoje está enorme) era a lua, as nuvens em forma de caminho e um jato a cruzar o espaço. E nasceu a vontade de, a despeito pelo amor ao quintal, estar no jato – fosse de e para onde fosse. Era voar, ir, voltar. Já morei próximo a um aeroporto e tinha por hábito ver os aviões da varanda – quando não ia até a praia vê-los sobre minha cabeça. E no meu quintal nunca vira um avião.

Dizem que a humanidade pode ser sempre dividida em dois. Os “esses” e os “aqueles”. Os que gostam de azeitona, e os que não gostam. E por aí vai. Senti aperto tão grande na alma, calei desejos e acendi penumbras. Fiquei a ver o jato. Depois até fui buscar a câmera para fotografar (o risco do jato não ficou como deveria, claro). Mas aqui tudo estava eternizado. A humanidade pode ser dividida entre a terra e o ar – os que criam raízes e os que criam asas. Eu criança nunca queria voltar para casa, de uma viagem. Eu adulta volto para casa meio contrariada, pela obrigação, e no mau humor do cão. Sabe aquela de que voltar é a melhor parte da viagem? Eu nunca soube. Quando criança nada me prendia à “volta”. Depois havia – ou há. São as raízes. Eu, logo eu, que não as tenho.

Viver na terra é para quem tem raízes. Para quem se vê em cada esquina. Para quem não vive sem sua rotina. Viver a viajar é para quem sente a vida num outro grau. Já morei onde eu podia fugir de casa (e, sim, eu morava sozinha) e, quem sabe, até voltar no mesmo dia. Podia ir até ali e este “ali” se traduzia num outro mundo. A humanidade de fato se divide entre a terra e o ar. E o eu hoje tem quintal e tem ânsias de voar. Tenho duas humanidades, será? Sou desumana ao dizer que viveria sem o meu quintal, por isso temo dizer. Mas sei que não posso viver sem o ar. E estranham quando nunca estou só num mesmo lugar. Talvez a longa tradição (que ainda não abandonei, nem pretendo) de passar a temporada de Verão na praia e o resto do ano na cidade (e se a cidade tiver praia, melhor ainda, mas, mesmo assim, irei para outra na temporada).

Talvez o tempo. O tempo juntou essas duas humanidades. E há tempo o suficiente para satisfazê-las a ambas. Não abro mais mão do meu quintal. Não posso mais abrir mão de voar. (talvez persista o incontornável mau humor do “cheguei”) Sei que fica mais difícil quando o trabalho dá uma folga e uma chuva interminável não permite que o quintal seja aproveitado. Aí só resta a birra e o consolo pós-contemporâneo de maratonas de séries terapêuticas na solidão. Foram, talvez, três dias a olhar desconsolada pela janela, a tentar todo tipo de distração com os cachorros e gatos mais enfezados que eu pelos pingos que não deram trégua. E o quintal para cuidar. E, agora, as passagens para comprar. As datas para planejar. O trabalho para dar conta. E ser uma só.

Para quem joga só de um desses lados da humanidade, tenho a esperar a desprezível incompreensão. Aos que nunca buscaram seus sonhos, sabem muito bem o que estão perdendo. Não descontem em mim suas frustrações. Ainda não consegui ser só uma; ainda me divirto tanto com os sonhos (em especial os de olhos fechados, num certo sentido, mas desses não posso falar). Se o tempo vier a mudar algo disso, terei muito a lamentar. Tenho raízes, mas água demais as apodrecem. Sem ar o corpo não respira – e não vive.

Anseios de um dia de amor

Anseio
que me vejam ao teu lado
que nunca conheças meu passado
e teu corpo da nuca aos calcanhares
só e só e só
e só meu
Anseio
namoro todo dia
no portão de casa
na calçada e na praia
no shopping e no sofá
que vejam que saibam
que invejem que cobicem
Anseio
gargalhadas e gritos
discussões sem fundamento
sustos e que o fogo
não caia em desuso
e boa noite sem muxoxo
Anseio
arranhões e portas batidas
verdades escancaradas
e que nunca descubras:
os meus sonhos pelas madrugadas
e o que faço quando te odeio
Anseio
a vida sem laços nem promessas
sem cartório nem padre nem pastor
e constantes torturas de amor
quando teus pensamentos forem
meus
e só e só e só e só
meus.

As tais cartas de amor

Sublinho as palavras mais difíceis

abandono as que desconheço

tua letra é pequena

tuas frases curtas são mesquinhas

falta sentimento na página

tão bem escrita

cheia de parábolas e metáforas

vazia de paixão por mim

Há esse amor que transborda

por si mesmo em cada linha

na tarefa intrincada

de traçar textos perfeitos

sem erros e sem afetações

suspeito um desejo

de abalar corações

se esmerando

no senso comum desfeito

nas paráfrases pomposas

e no culto ao inteligível

Esperei esta carta

sonhei uma declaração

senti a pele arder

as noites emudecerem o calor

quase perdi os sentidos como se fosse uma dama

ansiei lê-lo à mão trêmula

olhos embaçados e garganta fustigada

Recebi e li

um tratado, algo assim

um artigo, talvez

devo estudá-lo?

ou vais publicá-lo?

Que amor amado não se publica

atiro as folhas insípidas ao fogo

que cartas de verdadeiro amor

se escondem nas gavetas.

Quando Fassbinder me traiu

Talvez esta história seja triste. Por algum tempo pensei nela com raiva, não tristeza. Os personagens não existem mais na minha história faz um bom tempo, mas uma coisa ficou. E eu não gosto das coisas que ficam…

Já fui traída – de várias maneiras, por amores, amigos, colegas de estudos e de trabalho, familiares. Não costumo esquecer as traições porque considero que é mais saudável assim. Nem queria vir contar histórias pessoais. Por algum tempo, como eu disse, eu senti raiva por ter sido traída por um namoradinho (no diminutivo pra demonstrar, com essa dificuldade que nos proporciona a palavra, o quão “pequeno” ele é).

Lá se iam dois anos (se não me engano) de namoro turbulento. Ele conheceu uma moça através de um primo e se falavam pela internet (tempos idos do msn, que eu não possuía, obviamente). Aí um dia ele comentou que ela havia falado do Fassbinder, diretor de cinema, que estava procurando filmes dele ou algo assim. Ele correu baixar loucamente todos os filmes do tal diretor (ele era assim, cheio de manias doentias). Eu, é claro, aquela vida louca, cheia, ocupadíssima como sempre. Numa viagem que eu fiz, ele convidou a tal moça para assistir aos filmes do Fassbinder. Aí, bem, vocês sabem o que o convite “assistir a um filme aqui em casa” quer dizer.

Eu descobri logo depois. Deixemos a podridão da história de lado. Eu pus um ponto final na “nossa” história (digna de um filme de terror intragável). E segui (ele ainda protagonizou cenas lamentáveis durante anos – sim, eu disse anos). Eu tive todos os sentimentos possíveis à época, e não sou boa moça quando com raiva. Mas sou boa com pontos finais.

O problema era o Fassbinder. O problema é o Fassbinder. Eu estudo e trabalho com cinema, desde antes do acontecido. Imaginem vocês, nunca vi um filme do Fassbinder. Por anos eu leio textos, críticas, notícias e volta e meia aparece “Fassbinder”. Hoje mesmo eu aqui imersa em trabalho e, pá, na minha cara, FASSBINDER. Já odiei este homem. Vejam vocês, ele me traiu sem nem saber! Porque traído, queridos, a gente é todo dia. Essa aí nem foi a pior. A mais baixa, talvez, porque digna do “nível” dos envolvidos. Mas o Fassbinder.

O problema é o Fassbinder. Um dia uma pessoa da família disse “quero ver o filme tal” e, pá, era do Fassbinder. Fiz que não ouvi e não toquei mais no assunto. Tinha que ser dele?! A cabeça da gente faz cada associação que é uma miséria. Eu já vi pessoas com esse tipo de (seria trauma?) e ficava toda metida “ah, nada a ver”. Pois é, tudo a ver. Tentei me consolar com um “não estou perdendo nada, deve ser ruim”. Vai na mesma linha de associar músicas a certas pessoas ou relacionamentos, depois que a coisa desanda a música vira outra aos nossos ouvidos. (nesse caso eu nunca tive problemas, tenho até playlists de todas as musiquinhas de amores e tal, coisa mais linda e diabética)

A traição não foi nada. Quem dera o Fassbinder não existisse na face da Terra e eu não tivesse que parar meu trabalho para vir aqui desabafar com vocês essa história. Da qual, aliás, hoje eu dou risada. Quando deparei-me com ele no texto de agora a pouco eu ri “seu safado, tu aqui de novo!”. Mas ainda não vi nenhum filme dele. Preciso assisti-los para poder dizer “é ruim mesmo” (rá!). A vida tem poucas coisas tão boas quanto você poder rir de algo tempos depois de ter passado maus bocados. Porque sofrer pelas mesmas coisas a vida inteira não dá – sempre tem algum sofrimento novo chegando.

Prometo contar, escrever análises longas e minuciosas, quando eu finalmente assistir ao Fassbinder. Aliás, sinto-o quase um amigo. Passamos por uma traição juntos. Não nos deixamos cair nem conspurcar por isso. Um dia faremos as pazes. Fassbinder tornou-se uma obsessão, longe de ter a ver com a história triste de vida, mas uma obsessão cinematográfica: será apoteótico o dia tão esperado de assisti-lo, com direito a muita pipoca, vinho, cobertas, paçoca (e comentários em voz alta, claro, porque eu falo com os filmes). A história será de fato triste se ele me decepcionar – e eu puder comprovar o “é ruim mesmo, viu, eu disse”.

Olhos abertos de tanto amar

Dizem lá a sabedoria popular e as canções que o amor é cego, que quando a gente ama esquece que já sofreu um dia, e afins. Amar é não ver, mesmo. Aí vem aquele pessoal mais romântico (no sentido teórico) e não nos deixa esquecer que o ato de amar e a ilusão não se desgrudam. Poderia até acrescentar os da turma do “amar é sofrer” (porque, é claro, tem a ilusão e a cegueira aí no meio).

Diria que estão todos corretos – sabedoria popular, amor coisa milenar, quem sou eu para discordar ou querer dar aval. Eu amo meus bichos, a despeito de um destruir tudo o que vê, o outro revirar o lixo reciclável, a outra fazer xixi em qualquer lugar e tal. A gente ama e não quer saber dos defeitos, do quão as atitudes do outro nos incomodam, do trabalho e irritação que o convívio traz. Porque, enfim, “amor igual não há”. Ou algum outro verso semelhante. E dá pra amar e ser realista ao mesmo tempo (ou de vez em quando)? Não deve dar, pelo que sei. A realidade vai conspurcando o amor, vai por mim. A ilusão deve ser mantida, alimentada, exaltada. Iludir-se faz bem, é mais recomendado, aliás, para o bem viver do que a poesia.

É assim que o povo prefere viver, com doses cavalares de ilusão. E quem seria eu para discordar dos não dependentes de drogas (de todos os tipos)? Uma chata, porque eu discordo, obviamente. (senão não teria motivo para escrever estas linhas) Então digamos que o amor e a realidade não podem conviver pacificamente. Porque a realidade demanda olhos abertos, coração forte e pulso firme. Ou seja, dá trabalho. E é como falam da TV, depois de um dia excruciante no trabalho, de engolir sapo no trânsito e do patrão, a gente quer é sentar no sofá e esquecer o mundo (vale a abertura pirotécnica e vazia de uma Olimpíada, a novela das nove com mocinha chorosa, a série sensacional enlatada – em doses cavalares de ilusão, como diriam desde Adorno até os intelectuais de quinto mundo). A gente assiste a tudo isso como faz de conta que não se incomoda com descobrir que o cônjuge está bisbilhotando nossas conversas de Whatsapp.

Sempre fui muito criticada por ser… muito crítica. Um disparate evidente! (não o fato de eu ser crítica, mas de me criticarem por isso) Mas o texto não é sobre a Fahya. É sobre essa gente que ama, o que ou quem, e não quer abrir os olhos aos problemas e defeitos do objeto amado. Eu não me importo com o que/quem vocês amam (apesar de ter muita dificuldade em compreender alguns casos), mas fico, às vezes, estarrecida com a cegueira (aquela do começo do texto).

Eu amo praia e entendo quando os que não a amam se referem ao desconforto da areia comentário censurado e como a pele fica pegajosa depois do banho de mar. Ao contrário de quem ama cerveja e não reconhece que ela é azeda. Como existem pessoas que não gostam de praia, existem pessoas que não gostam de cerveja (três frases advogando em causa própria). Talvez amar seja uma balança onde a gente vai pesando e sobrepesando os prazeres e desgostos – cheguei agora a essa conclusão, e, quem sabe, poderia terminar o texto aqui. Porém, essencial é que tenhamos consciência dos prazeres e desgostos, não?

Vejamos um exemplo que muito me agrada. O cidadão joinvilense. Se você (o que eu duvido muito, então o exemplo seria “eu”) faz alguma crítica à cidade (ou Colônia, que fica mais próximo da realidade) dirão que é “falar mal” dela. O cidadão que exige e crítica, aponta incoerências e defeitos, deixa, imediatamente, de ser cidadão e torna-se alguém infeliz, insatisfeito, que só sabe falar mal de tudo (como se precisasse ser assim para arrepiar-se com a cidade). Repare, inclusive, nos jornais locais. Não há uma página de cobrança ou crítica, justo o contrário, muito fazem propaganda explícita para tentar convencer os cidadãos de que as merdas comentário não censurado são perfeitamente justificáveis e boas para a cidade. A despeito do que o cidadão vive, vivencia, sente na pele, ele precisa ser convencido de que aquilo é bom, para o bem dele. E ai de quem disser o contrário – esse aí é só um infeliz, nem joinvilense é, está de mal com a vida.

Cidades têm problemas. Cidades são bem ou mal geridas – em vários graus. Pessoas têm defeitos, agem bem ou mal, têm qualidades. Você pode amá-las, daí a querer fechar os olhos para a parte ruim, imagino que “todo amor que houver nessa vida” não bastará. Talvez a mediocridade (uma das minhas críticas, inclusive, à cidade) não perceba a diferença entre “criticar” e “falar mal” – sei bem como é difícil enfiar isso nas cabecinhas numa sala de aula de Filosofia. O senso comum é pai da mediocridade. Mais medíocre ainda é quem, com a capa falsa da crítica, diz que se você fala mal (rá!), então que faça melhor.

Você pode preferir amar cegamente – quem sou eu para impedir quem quer que seja de fazer o que bem entende – e exigirá que respeitem este amor. Na mesma mão eu vou continuar criticando. Porque não há amor maior no mundo do que o meu por analisar e criticar. Jogo até o argumento invencível do “nasci assim”. Pode perguntar por aí, ninguém nunca soube da Fahya sem ser assim. Então toda esta página e pouco foi para me justificar?

Não. Talvez eu quisesse apenas refletir sobre o amor. Ou sobre a realidade, quem sabe. Porque eu acredito muito que é preciso ter consciência sobre o que fazemos, sentimos, pensamos, queremos. E a ilusão é a serpente do paraíso que nos fisga a não adentrarmos às portas da consciência. Você pode amar o seu marido, daí a querer defender que ele não é um cafajeste e mau-caráter é outra coisa. Você pode amar e defender até a morte a sua mãe, daí a não reconhecer que ela é uma pilantra e mentirosa é outra coisa. (até a mãe entra nessa, viu?) é como ver um filmão, daqueles lindos, emocionantes e que são vazios.

Eu gosto muito do exemplo do cidadão joinvilense (pra você que me lê e não o conhece, não perca a oportunidade). Porque ele fica feliz com vinte minutos a menos no trajeto de ônibus pra casa, enquanto não está nem aí que fizeram mudanças absurdas em prol de ninguém menos que os empresários do transporte público. Porque ele não acha ruim a vocação industrial da cidade, enquanto tantas outras iniciativas e idéias são soterradas. Aliás, o pensamento, de modo geral, é soterrado numa cidade que nunca deu prioridade à educação. E, vocês lembram daquela máxima, se o povo não é educado, não conhecerá seus direitos, não será crítico (!) e não fará cobranças. Mas eles amam Joinville, com o Cachoeira podre, o JEC jogando mal, as enchentes periódicas, o asfalto ruim, a precariedade das universidades, a falta de acesso e valorização da cultura e formação de público, o pensamento limitado, o descaso com o meio-ambiente, a falta de leitos, a dependência pelas capitais próximas, o abandono dos espaços públicos, etc etc etc porque a consideram o melhor dos mundos. E trocam o sofá pelo banquinho desconfortável do bar da moda com um caneco de chope na mão. Porque todos temos direito às ilusões que quisermos.

Talvez eu já tenha dito aqui que jamais serei uma cidadã joinvilense (o que agradaria a muitos). Talvez exista um obstáculo intransponível, pois Joinville virou as costas para o mar e voltou seus olhos para a cerveja (uma piscadinha marota). Mas não é só o cidadão joinvilense que ama, viu? É só porque eu amo o exemplo. Repare bem e verá inúmeros amantes cegos ao seu redor. Amar de olhos abertos é uma experiência para poucos. Enquanto durar a vida, eu aconselharia maneirar nas pílulas de ilusão – mas quem sou eu para dar conselhos?! “Porque el amor cuando no muere mata” e as ilusões envenenam. Quando quiser abrir os olhos, talvez seja tarde demais…

Cuento de hadas

Es que me pierdo

en la incertidumbre

de tus ojos

en las incertezas

de mi vida

reflejo de lo que queda

por las calles

en tus cartas

que nunca he respondido

en los abrazos que no te he dado

en el amor que he renegado

con astucia

deja-me así

deja-me sin rumbo

deja-me sin destino

y sin recuerdos

deja que el tiempo despierte mis ojos

y todo lo que he dejado de hacerlo

por miedo

sea un dolor en carne y sangre

y viva yo infeliz para siempre.

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