Fraturas e processos

Existe um processo. E processos são sempre fraturas (Deus meu, como detesto esta palavra). Parece contraditório, agora assim escrito. Vê, um processo deve ser algo contínuo, um trecho da vida. E como é, ao mesmo tempo, fratura? Fratura é o que quebra, rompe uma linha, um osso, uma confiança. Quero explicar isso pra mim mesma, dificuldade maior do que para quem quer que seja. O processo é a fratura em meio ao contínuo. As coisas deveriam seguir sempre, o eterno rio, os ponteiros do relógio. Mas você pára ali no meio (ou perto do fim, ou em qualquer ponto) e fica. E é aí que irrompe o processo. O processo fratura o teu seguir, porque precisas deste processo para continuar – melhor ou pior, mais ou menos feliz, com novos olhares ou não. Certeza que já fui mais clara na vida. O processo é a fratura que rompe o devir – que, talvez, por algum motivo, tenha parado (de vir – não é hora pra trocadilhos, Fahya, o assunto é sério).

O processo fratura a tua leve caminhada pela vida. Você está aí, seguro, confiante, cheio de dúvidas, talvez, algumas más decisões, dois ou três arrependimentos, já aprendeu muito na vida, sabe o que faz, com quem caminha, quais os destinos que se te oferecem pela frente. E aí, ah, aí, meu amigo… você se depara com o inesperado. Ou o esperado que você não preveria mais na tua vida, ou que não era tua prioridade, sei lá. É o inesperado (não sei se foi a melhor escolha de palavra). Os que reclamam que sou muito abstrata devem estar exultantes até este segundo parágrafo. Querem exemplos concretos?

Uma gravidez inesperada (foi o melhor que me ocorreu, vejamos se ele se encaixa). Gravidezes não são, em nada, inesperadas para pessoas que praticam sexo (Fahya sendo Fahya). Mas, uma gravidez inesperada. Construirei a situação, namorados há seis meses, um estuda o outro só trabalha, lá pelos vinte. E surge a gravidez. Cada um tinha a sua linha da vida, seus sonhos, seus objetivos a serem cumpridos, um vestibular talvez, uma promoção no trabalho, comprar um carro ou um patins. Nunca se sabe. E ali no meio deste caminho “previsto”, surge a gravidez. Ser pai, ser mãe, ser, talvez, um casal (é, ainda hoje gravidez parece requerer obrigatoriedade para juntar as trouxas – fica quieta, Fahya, o assunto é sério). Ambos terão que passar por processos. Romperão a linha que seguiam para entrar em processo diante das mudanças que virão (e que, neste caso, serão enormes). As famílias de ambos, talvez, também passarão pelo processo – o filho que sairá de casa, quem ficará com o bebê, onde vão morar, sei lá. Eis um exemplo de processo.

O processo é íntimo. Muito íntimo. Por isso minha abstração e dificuldade em vir escrever sobre. Não ficou claro o exemplo? Vejamos outro. Apaixonar-se. É um processo. Até para esses que vivem aí nas pistas da vida (imagino eu), para os que correm atrás do “alguém” (y los hay) a vida inteira. Você está aí de boa na vida, vai pra escola todo dia, dorme a tarde toda, joga videogame e, pronto. Num dia a menininha tímida que senta na carteira ao lado puxa conversa, te dá um bombom de presente, convida para ir ao aniversário dela. E vocês gostam disso. Mas, sei lá (meus exemplos estão adoráveis, acho que sou boa com isso), você vai precisar lembrar da data do primeiro beijinho debaixo da árvore nos fundos da casa dos pais dela. Ela vai querer conversar a tarde toda, no teu tempo dedicado ao sono. E agora? Agora é o processo, mocinho. Tens aí, sei lá, seus doze anos. Você passará por isso algumas vezes pela vida. Esta experiência servirá de base para todas as outras, se fores galã (credo, Fahya, palavra velha, só tu usa) chegará a usá-la e aperfeiçoá-la demais. Você vai saber a diferença de um “não” para um “não sei”, e essas coisas todas. (cuidado para não se confundir diante das repetições, fica o conselho) Você estava preocupado com lembrar de salvar o jogo para recomeçar amanhã do mesmo ponto, não com se apaixonar. E aí é a fratura, rompe teus dias, te empurra para o processo.

E no processo de apaixonar-se há perigos (em todos, não?). Você precisa n e c e s s a r i a m e n t e sair de si mesmo. É horrível, eu sei. Porém, aviso aos incautos, não pode abandonar a si mesmo. Ah, divinas dificuldades. Vejamos o primeiro ponto: precisa, sim, sair do teu casulo, dos teus hobbies, do teu dia a dia, da tua rotina, das tuas visões, das tuas expectativas. Sempre tive problema com este assunto (sempre não, só depois dos 25 HAHAHA), e ano passado numa conversa animada uma pessoa disse algo que eu nunca tinha pensado (posto que burra) e é a resposta. Cada um tem a sua educação, sua experiência familiar, a direção das pequenas coisas: a orientação religiosa, as exigências ou não com limpeza, higiene, organização, as minúcias pavorosas do cotidiano. Também têm, isso lá pra bem depois dos amores dos doze anos, as orientações políticas, os ódios e amores, as experiências traumáticas da vida, os vícios e os prazeres (ambos muito perigosos nesse “processo”). Você tem o que você é – e a outra pessoa, mesmo que creias “alma gêmea”, também. E vai juntar esses dois mundos pra você ver. Uma confusão. Então pessoas que têm mais “coisas em comum” terão mais facilidade no processo? Não necessariamente.

Nem precisa ir para os contos de fada e novelas de TV, quando a mocinha é pobre e o mocinho é rico. Não me ateria à classe social. Mas, claro, questões sociais, raciais, religiosas interferem muito. São muito grandes pra discutir aqui. Quero me ater à personalidade, aos gostos, aos hábitos, talvez. É horrível. Pior do que a mocinha pobre ter que se acostumar a comer lagosta (reparem, cena repetidíssima na ficção para mostrar o processo). Ah, Fahya, mas o amor, a paixão, os sentimentos. Pera, gente, nem chegamos lá. Essas coisas nublam o entendimento. Estou tentando ser prática, objetiva, lógica (se encontrarem esta Fahya por aí, mandem sinal). Apaixonar-se pode vir antes, durante ou depois. Nunca se sabe.

E é aí que o processo pode pôr tudo a perder – até os grandes amores imortais. Você começa a sair com o garoto e toda vez que ele chega na tua casa liga a TV. E a TV fica ligada o tempo t o d o. Você começa a namorar a mocinha, mas na casa dela tem que tirar os sapatos na porta (diz lá a sabedoria milenar asiática) e você é daqueles machos que se sentem menos machos sem sapatos fechados e ela passa aspirador de pó no chão a cada refeição que faz. Você pode ser a garota que detesta TV ligada o tempo todo. E o mocinho que além da segurança masculina ferida, se irrita com barulho de aspirador. Fui para questões muito práticas. Mas, vão por mim, essenciais.

É o processo. O processo de sair de si. De deixar tuas manias e desgostos, pelo outro. Ah, vendo assim, apaixonar-se é sublime esforço humano. Ou você pode optar por ficar na tua bolha – quentinha, ou fresca, confortável, calculada, segura e certa. É certo, para você, ter a pia sempre limpa e seca. É a tua segurança. Pro outro, talvez não. Talvez ele seja meio preguiçoso, ou meio nem aí para isso, ou meio sujinho. E sair da bolha nos leva para o segundo ponto (para alguns, assustadoramente mais difícil do que este), não abandonar a si mesmo. Amigo, você precisa ajustar os ponteiros com o outro, mas teu relógio (de novo?) não pode correr os ponteiros para seguir os dele. Talvez uma das questões femininas mais pesadas de todos os séculos (e pouco abordada), quando as mulheres ainda (como hoje) largavam seus sonhos e desejos para seguir os maridos, cuidar dos filhos. Tivemos sucessivas gerações de mulheres aos quarenta desiludidas, decepcionadas, infelizes com o que haviam “deixado para trás”. Citei só pela questão social, mas não se refere só às mulheres. Abandonar a si mesmo acomete a ambos. Quantos homens deixam de ser caras divertidos, animados, brincalhões quando começam a namorar porque ela (provavelmente ariana – Fahya, pára) vê traição e suspeita em tudo? Quanto deixamos de nós, pelo outro? É o processo.

Ao ajustar os ponteiros acontecerá isso, fatalmente. Você deixará de ser um pouco do que era. Depois de sair de si para encarar o outro, você verá que algumas partes do teu eu não conviverão bem (de jeito nenhum) com o eu dele. Ninguém escapa disso. É o processo que fratura a tua vida estabelecida, dentro dos eixos, que seguia na boa. Sair de si é escolha, normalmente. Você pode ser a gata aí na pista, aberta às possibilidades e opções – está praticamente fora de si (sem trocadilhos), disposta a “conhecer novas pessoas” (eu morro com algumas expressões). Abandonar a si mesmo é menos escolha, parece que a gente vai perdendo aos poucos, vai se deixando levar (pelos sentimentos, e tal, aquelas coisas), mesmo quando toma certas decisões (ele não quer que você trabalhe e deixe o recém-nascido com um estranho, “não tem problema, amor, em uns dois anos você volta pra tua carreira”, e na hora você acha isso também).

Somos melhores juízes na hora de sair de si. Você pode ser um solteirão convicto (existe algum depois que o George Clooney casou?), nunca ter se interessado pelos descaminhos do amor. Ou você pode ter tido tua dose dessas coisas na vida e preferiu ficar quieta na tua. Sair de si em direção ao outro, repito, é horrível. (tem que estar muito cego de paixão louca pra não pensar assim – e depois que a cegueira passar hão de concordar comigo) Somos péssimos juízes entorpecidos quando se trata de abandonar a si mesmos. Dependendo da personalidade ou do caráter da pessoa a coisa pode ficar bem crítica (e perigosa). Tomem cuidado. É o processo.

Como deixamos os sentimentos de lado, na hora de escolher sair ou não de si mesmo é mais fácil pensar “ah, esse aí tem coisas que me agradam, bons costumes e tal, vale tentar”. Mas aí, minha amiga, esse aí pode não te satisfazer em quase nada. Nem te dar tesão, sei lá. Coisas a se levar em conta, sabe? A teoria está incompleta, obviamente. Ou você pode toda felizinha escolher sair de si mesma na direção de um cara que você já sabe que não vai ajustar ponteiro nenhum. Os sentimentos que te ajudem! Porque, o que eu sei, é que em todos os casos, se não pensar nisso antes, a vida te obrigará a dar de cara com os fatos. E os fatos são dolorosos em todos os amores. Eles não nos deixam passar incólumes.

Se você estiver disposto a apaixonar-se, pronto para esticar o braço para fora da bolha do teu mundinho, boa sorte. Não deixe, porém, a cabeça por último na bolha. Às vezes vale mesmo a pena, sou testemunha (o texto não prometeu ser imparcial). Se algo começar a puxar tua mão para fora da bolha e você “mas eu quero ficar aqui, escolhi isso”, o dilema é maior. Serão duas escolhas numa só. Quando eu descobrir mais sobre isso, prometo contar-lhes. Mas, por último, eu diria que nunca, jamais, em hipótese alguma, abandone a si mesmo. Por nada. Não tem amor digno que valha isso – por pior que você seja, inclusive.

Interlúdio

 

Chego sem aviso. Nunca te fiz promessas. Entrelaça-te nas minhas pernas. Sou a amante desalmada que partiu sem palavra. Trago meus problemas e partirei com eles: tu não os resolve, mas me alivia o fardo. Venho sempre com pouco ou quase nada de roupa – é contigo que sinto-me livre. Reclamam da tua frieza, ela me revigora. Passo horas – horas não, que contigo não sei contá-las – nos teus braços a rodopiar, sonhar. És inclemente, me puxa, me joga, me abraça afogado. Saio exausta, sem fôlego, caio no chão enquanto a tontura não passa. Me deixas exausta. Exausta, exaurida, acabada. E é como gosto. Vim te ver, de novo. Tinha que pôr a cabeça e a alma no lugar. Logo te abandonarei de novo e, vê, levarei mais alguns problemas. Não me importo. Contigo não sinto nem o peso do corpo. Me abandono contigo à sensualidade extra das manhãs, te procuro infalível nas paixões desesperadas dos finais de tarde. És minha segurança na vida – ninguém concordaria. És a única segurança que quero ter na vida – porque de segurança não preciso. Vê o mundo, muda sempre. E tu, não, meu ponto de equilíbrio. Me arrebatas trançando minhas pernas em ti. Puxas o meu cabelo. Me fazes tropeçar. E eu sorrio. Tens meu melhor sorriso. Nunca fizemos promessas um ao outro. Se te deixo nunca foi por querer. Só a ti sempre fui fiel. Enquanto tu deleitas tantas outras. E não me importo. Me deixas o corpo dolorido, a pele mais bonita, o olhar lânguido. Sou toda tua como nunca fui de nenhum outro. Seja justo, não te procuro só nos meus piores momentos. Tens minhas mais doces alegrias, é a ti que procuro quando tenho algo a comemorar. Conheces cada risco da minha pele, cada canto escuro da minha alma, cada prazer de todas as cores. Não me conheço como tu o sabes. Às vezes te procuro embriagada, digo coisas que esquecerei e me hipnotizas sem levar em conta meus desatinos. Tudo passa. Já me viste, mais de uma vez, chorar. Só tu e Deus. Tudo passa. Só por ti faço drama, atiro vasos contra a parede, esbravejo más palavras. É a tua falta. Só eu sei como me fazes falta. Não tem lembrança, nem foto, nem nada que te faça mais próximo. E a amante volta, larga tudo, vem sem avisar, se ajoelha ao te rever. Conta os problemas, meu bom ouvinte. Só tu me ouves. Te confesso as dúvidas e as angústias. E te ouço – ah, que deleite. Não sou de promessas. Nem te digo, está certo que sempre voltarei – um dia para ficar, quem sabe. És minha melhor metáfora. Se fosse definir carícia, diria: tu. Vais me confinando no vai e vem da ponta do dedão do pé e subindo, subindo… não sobra nada de mim. Dou risadas. Que me tiras do sério e da tristeza. Me tiras do chão. Me tiras o chão. Quando me devolves à vida, menina birrenta a refrear o instinto de voltar aos teus vais e vens. Não me pedes promessas. Eu jamais as faço. Lá me vou novamente, não voltarei daqui a pouco, desta vez. Quero teus dias de ressaca e de calmaria. Esteja preparado, aparecerei qualquer hora – que nossos intervalos sejam cada vez mais curtos. Quero te trazer conquistas a comemorar, quando eu voltar, mas não me importo. É no teu colo que, se precisar, eu choro. Não há promessas. Te levo sobre a pele e aqui de novo estarei em breve.

Uma inesquecível Primavera

 

Quero te desejar uma boa Primavera. Sei que me desejarias o mesmo. Sei, também, que isso não diz nada. Eu estava diante do mar de ressaca às 11h21 e garanto que nada mudou – nem o sol ficou mais quente, nem mais brilhante, nem surgiram flores pelos morros, nem o vento soprou mais sedutor. Nem eu, naquele instante, mudei. Sei, porém, que toda Primavera transforma a vida da gente. Repara. Não tenho estatísticas, não tenho provas. Mas, repara. Temos até a beirada do Verão para olhar bem. É preciso, porém, olhar de perto e com coragem. Coisa que não fiz com essas ondas enormes que hoje tomaram meus olhos a manhã toda. Às vezes, preferimos olhar de longe e com pontadas de covardia – ou seria medo?

O Inverno despediu-se com enterros. Levou-me um recente sossego. Levou-me a apatia de ser quem eu era há tanto tempo. Disse-me ele, com todas as letras: as coisas não se repetem, Fahya. Disse-me, também, enfurecido: de onde queres enganar-te a deixar o passado sobrevoar sobre o presente? Ele foi cruel comigo nas últimas semanas, arrasou-me, puxou-me as orelhas, disse-me cínico: não tens como continuar sendo a mesma, renova-te. Receio encontrá-lo daqui três Estações e ele me cobrar o que não tive forças para fazer. Ficaremos de mal, abraçados debaixo de casacos pesados.

Desejo-te uma bela Primavera. Que possamos esquecer – que mudar dá trabalho pra mais de uma Estação – um pouco quem somos. Desejo que ela nos prepare com calma para o turbilhão da próxima, quando é ainda mais difícil viver despidos das nossas fantasias. Quem dera a Primavera não tivesse sempre deixado suas cicatrizes e tatuagens na minha vida, obedeceria ao Inverno e jogaria o passado entre as rochas agora fustigadas injustamente pelo mar que vinga-se da sua saudade. Não foi de ontem para hoje que deixei de ter um passado, mas o Inverno sorrateiro tem toda razão. Como, então, despedi-lo, mandá-lo embora para a tumba fria da memória? Sei lá, será que já podemos almoçar e voltar a ver o mar?

Me ensinaram que só vivemos a repetição – das horas, dos dias, das Estações, dos mitos, dos fatos, das explicações, das datas tristes e festivas, dos arrepios e dos vícios. E o Inverno, sacana, me manda não pensar mais assim. Assim, de antes de ontem pra hoje. Levou-me pela mão até o costão e me explicou, deu exemplos, discutimos. Quase me convenceu. Lembrei que ele em breve partiria e resolvi não brigar mais. Prefiro despedidas com apertos de mão e sorrisos abertos. E hoje me sinto a aluna de férias com uma pilha homérica de tarefas a cumprir. Boa aluna que nunca fui, será que já podemos fingir que nada disso aconteceu e voltar para o sol com a missão do bronzeado primaveril?

Me conforta te dizer que, ao contrário do exigente e mandão Inverno, a Primavera é aquela amiga meio louca que nos empurra e apoia sem muita distinção. Ela deixa tomar banho de mar com a água fria debaixo do sol quente, sem se preocupar com a febre que virá de madrugada. Ela nos abraça e dança junto sob a chuva refrescante ao final do primeiro dia mais quente desde abril e está nem aí para os papéis importantes encharcados dentro da bolsa. Ela chega de mansinho, pedindo rouca que sintamos o prazer de andar descalço. Passa feito furacão guardando as blusas de lã, abrindo a garrafa de rum da geladeira. Ela não quer mais janelas fechadas, empurra tua mão para abri-las, sentir o vento na cara e nem ouses ligar ar-condicionado! Porque é só isso que ela quer: que tu sintas. E é assim que desejo sempre a Primavera: a sentir mais. Depois passaremos o sufoco das consequências de tanta ousadia – mas só no Verão.

Te desejo uma boa Primavera. Porque ninguém toma decisões nas Primaveras. Ela não nos julga – culpados ou penitentes. Ela busca encobrir nossos rastros de erros do passado. Vai, aos poucos, pedindo com jeitinho que a gente mostre o que existia adormecido no Inverno. Ela nos convida a vê-la, ao show que ela não deu às 11h21, mas que terá atrações todos os dias e madrugadas. Ela quer que a gente mude, pra melhor (talvez ela tenha ouvido minhas discussões acaloradas com o Inverno, não sei). Ela ri de mim, dessa ânsia aloprada em pegar tanto sol e estar com a pele em brasas antes da nossa hora marcada – talvez só o Verão saiba como gosto do cheiro do sol sobre a pele.

Desejo, a nós, uma inesquecível Primavera. Não esqueça, não se distraia: repara. O Inverno é pai das certezas; nem só de repetição é feita a vida, e o presente de passado se sufoca.

22 de setembro, 12h. Hora de almoçar e voltar para a praia.

A moça da história incompleta

Eu não sei bem as razões que nos levam a querer tantas explicações. Natural do ser humano, diriam. De uns tempos pra cá talvez eu tenha deixado de ser tão humana, então. Saber é um vício, ou um simples exercício, ou, ainda, problema de ególatras. Fui deixando de querer saber… Nem sei quando isso começou. Nem o “curiosidade mata” me impediu de ser uma criança que perguntava tudo, que queria saber de tudo, e que incomodava muito. Eu lia a Barsa da casa dos meus avós e a dos meus pais, por exemplo. Não tinha Google e era divertido. Lembro de me admirar “nossa, a Barsa tem tudo!”. E quem é que dá bola pra Barsa, Fahya?

Não sei porque sempre queremos saber – estaria eu, agora, querendo saber? Tivemos um colega na graduação de Filosofia, aluno mediano, envolveu-se com o mais morto que vivo centro acadêmico do curso (que, aliás, sempre me lembra de outra história – quem dera eu nem lembrasse mais), frequentava as festinhas do CFH. Não era amigo próximo, mas vez ou outra conversávamos entre a roda de amigos. Eis que um dia uma moça (não lembro se era caloura da Filosofia ou de outro curso) morreu no Campus no meio da madrugada. Digamos que foi uma história chocante na época. Nós sabíamos que os dois estavam juntos de vê-los pelos corredores (ah, se aqueles corredores falassem! – Deus queira que eu nunca os ouça) e o burburinho correu solto. Uma moça foi encontrada morta e os fatos eram nebulosos.

Lembro de ter visto na TV as imagens das câmeras. Foi depois de uma festinha no campus, um prédio novo em construção (da Química, se não me engano, atrás do estacionamento do centro de Direito e Sociais), os dois subiram as escadas – as câmeras mostraram tudo – e no alto, meio que num impulso, ela sobe o parapeito e cai – ou se joga. Além da comoção, lembro de ter ficado bem próxima da convicção de que ela havia se jogado, talvez um pouco inconsciente (sob efeito, talvez, sei lá do quê) das suas ações. Ele sumiu por algum tempo, nem sei se terminou o curso. Acho que fiquei, à época, um pouco obcecada pela história. Surgiram boatos de que eles haviam brigado e como os jornais gostam, deram o prato cheio da tragédia, não deram muita bola para as consequências e exposição dos envolvidos.

Até hoje eu não sei como terminou a história. Os amigos mais próximos dele também não tiveram muito contato, muitos de nós não queríamos julgá-lo. Ou seja, é uma história incompleta. E eu me descobri obcecada por histórias incompletas. Por isso mesmo que, esses dias, lembrei desta história e fiquei me perguntando o que teriam pensado ou sentido os pais da moça (não lembro o nome dela por nada deste mundo). Se o nosso colega, afinal, era culpado ou não. Ou, ainda, se existem culpados numa situação dessas.

Minha obsessão por histórias incompletas se vê até nos filmes e livros que abandono. Só semana passada foram uns quatro. Fiquei uns minutos imaginando como seriam os finais daquelas histórias – umas, aliás, de tão óbvias e quadradinhas, estou certa que não errei (redundante isso, não?). Quando alguém conta uma história, nós queremos ouvi-la toda. Se a pessoa interrompe a narrativa, ou se termina de contar sem ter um final, nos frustramos (ou ficamos revoltados). É essa sensação de completude sobre os fatos, os eventos e as narrativas que sacia as pessoas. E eu não sei bem quando foi que perdi isso…

O caso desta moça foi pouquíssimo tempo depois do meu irmão ter se suicidado. E foi bem naqueles dias que todo filme que eu ia assistir tinha, obviamente, um suicida. E foi quando eu não sabia mais se saber de tudo é tanto assim da natureza humana. E foram essas experiências que me fizeram mudar – apesar de ter, por algum tempo, me incomodado com histórias incompletas, se não por mim, pelos outros. Talvez as pessoas realmente precisem de explicações. Talvez elas precisem saber porquês, comos, quandos e ondes. Eu já sei que a vida é muito curta para perder tempo com filmes ruins e livros chatos. Ou com pessoas que não trazem alegrias pra tua vida – ou que você não pode fazê-las felizes.

Eu não lembro mesmo o nome da moça. Não sei se o nosso colega falou com os pais dela, quais foram as últimas palavras dela – para os pais faz diferença. Eu nunca dei meu apoio explícito a ele (ainda tenho cá guardada a convicção de que não houve culpados), mas lembro que deixei claro que não fiz julgamentos – e, naqueles (como em tantos outros) corredores, isso é raro. A história, vocês me desculpem, fica assim incompleta. (talvez um google aí os ajude, as Barsas certeza que não se atêm a essas minúcias da vida mundana – não somos nenhum Napoleão)

Bilhete de partida

Parti sem data pra voltar

deixo o bilhete de despedida

sem meias verdades

levo a alma manchada

de frustrações

Queria querer precisar

de ti e do abraço apertado

hoje sinto-me sem ar

sem rumo a encantar-me

sem paixões

– das que rompem meu querer

Levo pouca roupa

pouca comida

pouco dinheiro

e uma mala de saudades doidas

para matá-las à beira-mar

Acendi uma vela

para desfazer o encanto

das tuas palavras

deixo instruções

de sobrevivência sobre a mesa

e parto sem peso na consciência

vou ali sentir o sopro vibrante

de saber que o mundo não precisa de mim

que nem você nem ninguém

– precisam de mim

e, quem sabe, nas ondas

descobrirei o que preciso.

Pés na areia…

A mãe traz na memória o retrato do sorriso do filho quando da primeira vez que o viu nos seus braços depois do parto. O fanático descreve cada passe daquele gol fantástico que definiu o campeonato para o seu time. O cirurgião, toda vez que entra na sala de cirurgia, lembra do leve tremor que sentiu na primeira vez que segurou o bisturi. São as lembranças, mais que lembranças, são aquelas fotografias, mais que fotografias, pois têm cheiros, sensações, sons, arrepios, que todos temos e que volta e meia rememoramos. A mãe que perder seu filho o terá sempre ali diante dos olhos, o primeiro sorriso, o som da voz, as marcas pesadas que a vida deixa na gente.

Elas podem ser boas ou ruins – mas hoje, nem esta semana, eu não quero falar de coisas ruins. Fiquemos com as boas. Eu guardo comigo uma risada, o som e a beleza de uma especial risada – da qual sinto muita falta. Eu reparo muito na risada e no sorriso das pessoas, considero os melhores cartões de visita. Ou é só porque eu gosto de rir e fazer rir. Fazemos essa coleção memorativa sem nem perceber, sem catalogar, sem hierarquizar – bem, alguns não. Quando a gente se dá conta, está aí com álbuns inteiros preenchidos. Dizem que as primeiras vezes a gente não esquece (e eu não concordo muito). O primeiro beijo de um grande amor, ou daquele namoradinho mesmo, que o amor acabou, o relacionamento acabou, mas aquele beijo… ah! Ele ficará.

Talvez por essas traquinagens (desculpem, eu preciso usar esta palavra hoje) da memória que existem as canções que embalam os nossos momentos. Foi quando nos encontramos naquela festa e o teu olhar cruzou o meu que tocava tal canção – nunca entendi muito isso, pois atenção dispersa por natureza, dificilmente eu saberia o que tocava no momento que me deparei contigo (pois antes do riso eu preferia o olhar…). Mas dizem que é assim. O sabor da polenta da vó, no aconchego do calor do fogão a lenha, que nunca ninguém fará igual – nem a tua esposa escolhida a dedo. O perfume das damas da noite nas longas caminhadas pelas madrugadas. Ou aquele abraço, de quem você menos esperava, no momento que você mais precisava.

Não sei se vocês param, às vezes, para repassar toda essa coleção. Sei lá, num domingo de manhã que é a hora que tanta coisa nos faz falta na vida. E só deliciar-se com reviver cada lembrança, sem motivo. Porque somos vítimas da memória a qualquer instante. Elas voltam quando você passa por alguém que usa o mesmo perfume do teu ex, quando você vê a cor favorita da tua amiga, quando qualquer bobagem do mundo real e frio é um túnel para a bagunça das lembranças.

E é esse calor incerto… esse sol sedutor, esse guardar pantufas e cobertas e aquecedores. Eu quis esquecer tudo de ruim das últimas semanas. Eu quis sobreviver a elas. Eu quis ter esperança. E me agarrei à inominável lembrança que tenho de colocar os pés na areia. Afundá-los, mexer os dedos até sentir o arranhar impiedoso e glorificante da areia sobre a pele macia. Sentir a água gelada do mar enterrar meus pés ainda mais na areia… me agarrei a esta sensação – jamais esquecida – para contar as horas e os dias. Nunca passei tanto tempo sem senti-la. Nunca. E, por isso, algo por aqui está triste, importa-se menos com tudo e com todos. Vejo-os e suas fotos de praia (feriados e finais de semana) e vejo-os de tênis e nas calçadas. Entro nas fotos sem pedir licença e no meio do caminho tiro o chinelo e enfio meus pés na areia. Mas, cá estou na poltrona e pés gelados.

Fracassos de cabeceira

Eu começaria dizendo que todos já sentiram a mão gelada, dura e fétida que nos agarra o tornozelo numa manhã qualquer e nos submete ao desejo de não sair do escuro do quarto e do peso das cobertas. Mas não há nada que valha para todos (além da morte?). Há pessoas que nunca sentiram nem sentirão esta mão que nos puxa sem força e com convicção. Felizes os que têm motivo para levantar-se todas as manhãs. Ou, ainda: felizes os que saem todas as manhãs da cama, sem o menor motivo para fazê-lo. Eu mesma já senti várias vezes esta mão. Acho até que tivemos uma amizade duradoura e simpática. O mundo, o real, o das idéias, o da ficção – danem-se todos – nenhum deles por vezes me interessa. Quem entenderia, não é mesmo?

E essa mão aparece quando quer – mas a gente sabe quando ela tem suas razões. Não nos ensinam a fracassar. Não nos ensinam a não ter a vida que almejamos. Fracassar é uma bala azeda presa na garganta. Só há uma saída: conviver com os nossos fracassos. Mas ninguém fala em fracassos. Preferem dizer que não era a hora, que os outros é que estão errados, que não souberam valorizar o nosso trabalho, se Deus fecha uma porta Ele abre uma janela, e tantas baboseiras afins. E, na verdade, a gente fracassa e pronto. Não somos tão bons assim e ponto. E de manhã a mãozinha subirá pelo canto do colchão, agarrará o teu tornozelo bem na hora que você costuma acordar e dela não há escapatória. Talvez você fique ali uns minutos rememorando porque ela apareceu – aquele instante que a fuga dos sonhos te impediu de remoer os últimos acontecimentos e, bem, abrir os olhos é sempre colocar a memória em dia.

Você pode ficar jogado na cama o dia inteiro – a despeito do lindo nascer do sol que você poderia testemunhar, a despeito do relógio das obrigações a tocar. Você pode pensar em se matar. Você pode ligar e inventar uma doença. Você pode o que você quiser. Desde que você queira algo que caiba na vida que construiu até aqui. Senão, deite mais fracassos e frustrações aí junto da coberta e tenha mais razões para ficar jogado na cama preso à mãozinha. Você pode, também, mandar tudo à merda – não adianta nada nem muda nada, mas dá um alívio passageiro. E alívio, provavelmente, é o que a gente mais precisa nessas horas. É lícito, meus amores, não querer sair da cama. Um dia ou outro, ou vários dias (seguidos, inclusive). Paremos de problematizar isso. Deixe a mãozinha amiga ficar ali. Ela te entende melhor do que muita gente por aí, eu garanto.

A mãozinha é tão compreensiva quanto os bichos. Não sei, talvez você aí leitor seja um desapegado dos amores caninos e felinos e etc.. Mas minha longa experiência me dá respaldo para dizer que os animais entendem mais os nossos sentimentos do que outros seres humanos. Eles não precisam de um termômetro para saber quando você está mal, nem que você abra o coração aos prantos sobre suas últimas decepções e fracassos. Eles sempre estarão lá. Eles aparecem na hora que você precisa. Ao contrário dos seres humanos que você pode se jogar na frente, dar bandeira, pedir ajuda e o escambau e: nada. É provável, certeza quase, que o ser humano ainda consiga piorar (e muito) as coisas. O ser humano não é compreensivo nem muito habilidoso com a empatia. Os animais são superiores nisso, enquanto o ser humano só consegue ver o mundo a partir de si mesmo – e é cada espelho quebrado que tem por aí.

As pessoas gostam de se vangloriar – até das piores merdas. As pessoas não assumem que não são tão boas assim, que perdem muito mais do que ganham, que caem e ralam feio o joelho. Às vezes caem de penhascos e demorarão muito a se reerguer. Já caí muito na vida e sei que chega uma hora as manhãs eternas na companhia da mãozinha duram menos dias. Ela aparece, claro. Sempre. Colecionar fracassos é ter o plano B na mesa de cabeceira. E, se ao final nada der certo, danou-se. É o fim mesmo, não?

O dia amanhecerá, a mãozinha querendo ou não. O sol brilhará – a não ser que você esteja em Joinville –, o vento trará nova poeira sobre a vida. Os bichos precisarão ser alimentados. Os problemas conhecem o teu endereço. A saída é seguir com o próximo plano que estiver à mão. Se não tiver nenhum, falha sua, então fique em companhia da mãozinha até encontrar algum. Você não é tão bom quanto imagina – a despeito dos elogios, do que a sua mãe pensa de você, de sucessos e conquistas. Mas, de vez em quando, livre-se de tudo – e a mim, no momento, só interessa a previsão do tempo para a semana que vem. Só não esperem que eu diga que fracassar é bom. Se tem uma coisa que sei é que insistir é burrice – e desistir é digníssimo. Ninguém me ensinou, porém.

Escalera

En aquellos días

fríos y desdichados

Entre tú y yo

había una escalera

llevaba al cielo

de sueños irreprensibles

donde caímos

solos y heridos

era la escalera de mi vida

sigo ahora con las cicatrices

pues no pasé de la tierra

Quiso decirme que no podría

que la fe no tenía

en mi risa no confiaba

que mi amor no era garantía

Lo supe desde entonces

en la escalera no tuve compañía

tantas otras veces la subiría

y vacía iba siempre a caer.

Versinhos de guardanapo de sábado à noite

É tempo de crise
E
Seja “Fora, Dilma”
Ou “Fora, Temer”
Sei que esqueceram
a vírgula
A pobre vírgula
Mais abandonada que o teu
Amorzinho da semana passada
Na crise a gente ama
No sábado a gente se diverte
E se a cabeça toda hora volta para o moço
É que aí tem coisa
Tem desemprego, tá caro o almoço
Tem quem tá sozinho
Beber a gente vai
Não ajuda a esquecer
Não resolve
Não é promessa de tarot
Que traz a pessoa amada em três dias
Mas tem malzbier
Tem desespero, tem leite a preço de ouro
Tá cheio de cafajeste em pele de cordeiro
A negação passou
Tá todo mundo no mesmo barco: tem crise!
Para adiar as mágoas tem malzbier
Pensar, de novo, no moço não desfaz
O encanto de querer feijoada
No meio da madrugada
Amanhã não será outro dia
Salvo qualquer engano
Hoje ninguém manda
E quem dera
O moço… – melhor não satisfazer
Escolha bem a carta do tarot
Não falte à entrevista de emprego
Economize na gasolina
E eu sorrio
Pra mais uma garrafa de malzbier

Fim de feriado

Quase cinco, saiu mais cedo do escritório na ânsia de aproveitar cada segundo do feriado no meio da semana. E as filas já na garagem da firma. No primeiro sinaleiro, quinze minutos parado. E atravessou a cidade no triplo do tempo de um dia normal. Todo mundo quis sair mais cedo. Quase chegando em casa a esposa liga pegou a mãe na rodoviária?, um palavrão e não, não tinha lembrado da sogra. Por que ela veio agora, num feriado, a velha não faz nada, está aposentada! Pra ficar mais tempo com as crianças, amor, não fala assim dela e lá foi ele, filas e filas até trazer a sogra reclamando que ficou esperando na rodoviária. Por que ela sempre viajava com um travesseiro e uma coberta, até no calor, até numa viagem de meia hora? Eram as dores, meu filho, quando chegar na minha idade! A velha era profética, ainda. Duas horas depois do horário normal de chegar em casa, a pirralhada toda feliz pelo sofá esperando a avó. A esposa cansada da faxina, imagina a mãe ver a minha casa suja! E ele deu a vez às duas no banheiro. E caiu na cama tarde e correu a mão debaixo do lençol pela perna da esposa e foi subindo e nada. Nem ele nem ela. Dormiram. Merda! Seis da manhã, despertador, que merda, esqueci de desligar! A esposa acordada, opa, volta a mão da noite anterior, rápida na bunda, vem cá! Tá louco?! A mãe está aqui do lado, imagina se eu vou fazer isso com ela aqui, deve estar acordada, sempre acordou cedo! O convincente, Amor, quando namorávamos fizemos coisa muito pior debaixo do nariz dos teus pais… A mão leva um tapa, ela pula da cama, E tu acha que eu sou o que hoje? Pronto, um bom começo. No café a algazarra, mesa cheia e ele esperou pra ser o último. Quem sabe passear? A mãe está cansada. Um filme? As crianças querem assistir TV. Almoçar fora? Não, quero fazer o prato favorito da mamãe. Ele lembrou com asco que o prato favorito da velha era língua com ervilhas. Odiava língua. Odiava, ainda mais, ervilhas. E o barulho insano que aquelas crianças produziam em grupo. Mofou no sofazinho do quarto. Depois do almoço, quem sabe, teria paz. Amor, vamos no supermercado? Ué, tua mãe não está cansada? As crianças querem que ela faça os bolinhos, precisamos dos ingredientes. O supermercado, num feriado, no meio da semana, mais lotado que as ruas da véspera. Voltaram às seis e meia, ele louco pra tomar uma cerveja e ver TV. Era a hora sagrada da novela delas. Desistiu. Sentou. A velha fez o tal bolinho, jantaram, e a esposa olhou pra ele A louça é tua, quem não cozinha, lava! Toda felizinha. Como pode alguém sujar tanta louça pra fazer um maldito bolinho sem gosto?! Quando terminou, todos haviam tomado banho, as crianças na cama, a velha deu seu boa noite. A esposa fresquinha Tô cansada, apaga tudo quando for deitar. Mais de onze da noite, tomou um banho, abriu a cerveja, sentou no sofá. A TV a cabo sem sinal. Meia hora e nada. Desistiu. Levantou. Deitou e ouviu o suspiro leve da esposa. O corpo fresquinho. A mão direto no peito, Pára, amor, que saco. Virou, verificou se o despertador estava ligado. Pensou no dia seguinte: sair de casa antes das crianças acordarem, ficar a manhã toda vendo vídeo no youtube escondido do chefe, esperar pela hora de ir ao refeitório da firma, almoçar bastante ouvindo e contando piadas com os colegas, descansar meia hora no banco do carro. Trabalhar um pouco à tarde, pra não deixar atrasar o serviço, terminar às cinco pra sair às seis em ponto. Chegar e as crianças de banho tomado cansadas demais do judô inglês ballet natação irem direto pra cama. Assistir sossegado ao jornal da TV esparramado no sofá. Desligar tudo, tomar banho e ir deitar. A mão correr pela espinha da esposa e torcer para que o cansaço e o sono dela sejam tão grandes que não consiga negar e impedir as vontades dele. Sonhou com o amanhã.

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