Mimada

Saudosista eu sou e não é nenhuma novidade. Mas não estou mesmo sabendo lidar com o Outono. Li esses dias uma entrevista de um escritor e ex-professor meu na qual ele fazia elegias à estação do sol ameno. Alguns fotógrafos elogiam o dourado do sol. E o frio invernal que fez neste final de Outono só me deixou uma saudade dolorosa do mar.

Lembra quando fez dias de calor absurdo, justo no meio do Outono? Ah! Foi numa terça-feira, cheguei na praia e corri pro mar. O mar em dias de impaciência, a lua nascendo naquele final de tarde. Foi meu último banho de mar deste ano. Do lado esquerdo, um pouco distante na pequena praia, um grupo de adolescentes. Um casal de idosos caminhava na areia. Do lado direito um homem. Evitei-o pelo instinto feminino de auto-proteção. Fiquei ali a rolar-me na água feliz feito qualquer um que é feliz por estar onde quer.

O homem volta e meia olhava pra mim. E eu também olhava disfarçadamente pra não ser levada pela correnteza que ia em direção a ele: se bobeasse cairia nos braços dele, desses micos não morro. Fiquei pensando, por um instante, que desenvolvi essa auto-proteção em demasia. Preciso baixar a guarda, mas, queridos, experiências ruins não nos deixam de um dia para o outro. Eis que ele saiu nadando e eu admirei as boas braçadas dele. Há três coisas que gosto num homem: saber nadar, saber dançar e ser alto. E é saber nadar, não é espanar a água. Sou exigente, claro. Saber dançar, não zumba e axé (há traumas que jamais nos deixam!), como antigamente, lembra a cena da Aurora em Senhora? Coisa de amores do século passado, como diria Glauber. E, bem, ser alto não deve ter explicação (e é só uma constatação). O moço nadava bem. A cada volta que ele dava eu observava, quando ele descansava eu fazia de conta que não o via. Também observava o casal idoso a conversar tão entretido enquanto sorriam para o mar e caminhavam. E o grupo de adolescentes barulhentos me fez lamentar não ter vivido o ano inteiro dos meus tempos de adolescência à beira-mar. Foi uma belíssima terça-feira.

Diante daquelas tão bem executadas braçadas decidi que poderia, quem sabe, até apaixonar-me novamente. Talvez nem precise esperar a Primavera. Aquele calor foi embora. Um frio intenso, desanimador, infernal (pois o inferno há de ser gélido – e cheio de crianças mal educadas) chegou e não quis mais ir embora. Apesar de tão feliz, não dessas felicidades de ganhar na mega, comprar carro, apartamento, noivar ou casar, engravidar, sinto uma falta tão grande do calor. Depois daquele dia voltei algumas vezes à praia, mas não encontrei mais o nadador. O frio nos afasta do mar, deve ser meu maior desgosto com ele.

Fiquei mal acostumada. Mimada pelo sol e calor. Mimada pelos banhos de mar. Mesmerizada pelo horizonte. Mimada pelas manhãs silenciosas lendo na varanda. Mal acostumada em ver os corpos à beira-mar, o nascer do sol e os barcos de pesca voltando cedo cheios de sororocas e camarões frescos para o almoço. Me diz como voltar às quatro cobertas na cama, ao aquecedor ligado dia e noite, às pantufas, às blusas de lã, ao secador de cabelo, aos banhos escaldantes, ao fondue e ao nescau quente pela manhã?

Sou saudosista, bem se vê. Sou mimada por tudo aquilo que aquece o coração. Sou feliz por ter quem eu quero, onde eu quero – e por lutar pra dar conta de tudo sem reclamar. Faltou alguma coisa, alguma leve transição pra eu aceitar que o Verão acabou. Talvez porque ele nunca acaba nos meus olhos. Dizem que lá vem o Inverno… eu não consegui nem chegar ao Outono, que sol me aquecerá, que mar me embalará? Não há saudade que baste.

As certezas dos outros

Eu estranho quem tem muitas certezas. Quem tem todas as certezas, então, me assusta. A pessoa tem certeza que ama o cônjuge. O cara tem certeza de que está na profissão certa. Os pais têm certeza que deram a melhor educação para os filhos. Não sei o que há de errado com as dúvidas. Parece uma fraqueza, uma inconsistência na vida, tê-las. Eu as tenho em enorme quantidade, queria lhes dizer.

Por isso mesmo sempre usei muito o “será?”. O que, aliás, me rendeu desastres em relacionamentos interpessoais. Quando alguém afirmava alguma coisa, bradava suas certezas, suas hipóteses, eu – por preguiça de discutir o assunto, ou por vontade de (precisando ou não) instigar a pessoa a refletir, ou por questionamento puro e simples (bom não perder a prática) – lançava um solícito “será?”. Deixei-o cair em desuso porque as pessoas tornaram-se agressivas, irritavam-se com a expressão da minha dúvida. As pessoas não sabem viver com dúvidas. Elas precisam das certezas mentirosas para acreditar na vida que levam.

Senão, vejam vocês, por que continuar casada com alguém que você não tem certeza que ama? Por que continuar crendo no Deus e nas doutrinas que você não tem certeza que existem? Parece sem sentido. Parece inútil ou inseguro. E as pessoas precisam de segurança. Mais vale uma certeza vazia do que uma dúvida bem construída. Pois eu prefiro, ainda, as dúvidas.

Depois de abandonar o “será?”, adotei recentemente o “talvez”. Nada mais divertido e apaixonante para instigar as dúvidas. As pessoas, diante de um “talvez” jogado na cara, calam-se. Fica fácil, assim, ver qualquer certeza precária desmoronar diante dos nossos olhos. É mais angustiante do que o “você está certo disso?” do Show do Milhão. Falando assim parece abstrato, mas quando alguém aparecer com alguma certeza, diga-lhe um mero “talvez você não saiba do que está falando”. Se der tempo, você verá os olhos arregalados, a boca aberta, aprecie o silêncio. As certezas são falantes e fofoqueiras. Ah, as dúvidas calam! (eu, particularmente, que já não sou grande fã de pessoas, admiro quando ficam em silêncio)

Pode ser que seja influência da Filosofia, admito. Porém, vejam só, a Filosofia constrói-se sobre dúvidas. Você só alcança algum conhecimento porque questionou ou duvidou de algo. No entanto, fato triste da realidade, o estudo da Filosofia descaracteriza as pessoas que nela entraram, por ela se apaixonaram. Em pouco tempo o academicismo dominante as faz ter todas as certezas do mundo. Elas têm certeza do que Heidegger quis dizer, o que Sartre pensou e até o que Schopenhauer sentiu. E ai de você se duvidar de alguma das certezas delas. Chega um ponto na vida dos amantes da Filosofia que eles esquecem o que foi que ensejou aquele amor – como acontece nos casamentos. Eu poderia criticar muita coisa sobre o academicismo, mas a ausência de dúvidas é, em si, o suficiente para desmoralizá-lo. E, sabemos, não é só na Filosofia. Isso acontece na maior parte (em todas, será?) das áreas. O mais conceituado exponencial da sua área é aquele cara que tem todas as certezas do mundo, convidado para palestras, eventos, plateias concorridíssimas. Nunca vi um cara desses chegar dizendo “não sei” ou “talvez não seja assim”. A dúvida, meus queridos, não faz sucesso. Garanto-lhes.

Ah, mas as certezas são necessárias, inclusive nas Ciências. Sim. Mas não se chega a nenhuma certeza a partir de outra, na raiz há sempre as dúvidas. A pessoa que tem dúvidas é considerada incapaz, fraca, titubeante, mas só pelo senso comum – para o qual não há espaço aqui. Em muitas discussões eu já lancei “ó, não sei”. Eu posso até agir, tomar uma decisão, mas deixo claro que, porém, não há uma certeza na correção ou exatidão daquilo. A pessoa que duvida não necessariamente é uma pessoa sem atitudes. Ocorre que ela as toma ciente da incerteza do que faz. Eu temo quem só toma atitudes das quais tem plena certeza.

Ninguém gosta de que duvidem de si. Eu, como não acredito nem confio em ninguém, tenho meu salvo-conduto. Eu vou duvidar de você, sempre. Você pode se declarar, vou achar bonitinho e tal, mas ali no canto estará presente o “será?”. Eu não tenho problema com isso, mas os outros têm. Você só pode ser alguém muito arrogante para achar impossível que duvidem de você. Deixe que duvidem, corra o risco de acharem alguém muito melhor do que você mesmo acredita que é. Vai por mim.

A dúvida aguça os sentidos. Duvidar de tudo e de todos o tempo todo mantém a atenção alerta. A dúvida amortece a queda. Duvidar, nos piores momentos, te conforta. Quando aquele cara que te amava tanto bater a porta e nunca mais voltar, você vai lembrar daquelas vezes que duvidou de tanto amor, tanta foto postada nas redes sociais, tantas declarações em público e dos buquês de flores – e vai dizer pra si mesma, “bem que eu duvidei”. Porque duvidar não é o mesmo que não acreditar. Vocês sabem, é claro.

Não importa a estratégia que eu use ou que eu tente amenizar as expressões de dúvida, ninguém gosta que eu duvide ou questione as suas certezas. Ninguém. E eu acho a dúvida tão bonita! Ela é tão construtiva. Ela mantém o coração batendo forte. Ela faz olhar pra vida com mais paixão. Porque com dúvidas você encontra mil possibilidades mundo afora, as certezas te limitam. As pessoas gostam mesmo de ter certeza que estão certas, que suas pregações são as corretas, que suas vidas estão no caminho certo. Elas esmorecerão se duvidarem disso. Simples assim. A dúvida, meus queridos, é para os fortes. Acho curioso, não estranho, quem cospe a certeza de ter votado no melhor candidato das últimas eleições, de ter feito as melhores escolhas, de ter os princípios mais coerentes. Sabe aquela pessoa que tem em si a certeza de só professar e praticar verdades absolutas? Jamais as entenderei. Acho curioso porque me pergunto se ninguém nunca lhes jogou um “será?” na cara. Caso fosse feito, talvez (rá!) estivessem sentadas no meio-fio até agora, banhadas em arrependimento. Repito: jamais as entenderei. Porque quem não percebe o quão sedutora é uma dúvida, não terá minha empatia. Jamais.

Mudança de sonhos

Sonhos mudam

não muda quem os têm só na fumaça

Naquele dia ela era outra

com novos sonhos

pois os antigos já não valiam

já não lhe cabiam.

Há quem sonha

E há os que planejam

e, também, há quem não se conheça.

O sonhador sonha

em sonhar novos sonhos

o burro tem só os mesmos

sonhos

e senta à espera

– enquanto se engana.

Ao sonhador a vida lhe tira o chão

é a primeira lição

para aprender a voar.

Naquele dia ela desejou

de novo, o novo

revisou sonhos passados

arejou o guarda-roupa

das pretensões

das dificuldades

dos desafios.

Sonhar lhe custa a vida

todos os dias

lhe custa as horas passadas

em admirar o caminho tortuoso

em abrir e fechar portas

em chegadas e despedidas.

Naquele dia ela quis ir adiante

e retomou seus sonhos

fez promessas a si mesma

e a ninguém mais. Jamais.

Antes do veranico

Aquelas coisas da vida. No meio da madrugada um sonho me convenceu a resgatar um projeto adormecido – e decidi transpor o sonho num conto, apesar do pouco correto que ele parecerá. Aí logo pela manhã separei aqui as anotações do projeto. Confesso que sempre me surpreendo com minhas anotações. É tão bom esquecer! A gente vive revivendo. Se terei sucesso? Bem, demoraremos a saber.

Pensei logo em escrever. Mas sobre qualquer outra coisa. E não sobre as atrocidades da vida. Essas eu deixo para 140 caracteres. Por enquanto. Bem, vim decidida ao editor de texto para falar de alguma coisa séria e interessante. Talvez não tão séria, mas certeza que interessante. E enquanto carregava o programa…

O plano de fundo do desktop é um compilado de fotografias que mudam de tanto em tanto tempo. Pois nestes míseros segundos de espera lá estava eu deitada em mar esplêndido. O sol brilhava, a água estava na temperatura maravilhosa, era Verão. Eu jazia largada, olhos fechados, alheia ao mundo e aos meus pensamentos. Sem planos, quase sem roupa, sem pretensões. Mais importante de tudo: sem desejos além do de ali permanecer. E permaneci. Deixei até de comer para ficar ali boiando infinitamente ao carinho da maré. Talvez minha demora e meu desligamento, tenham inspirado o fotógrafo a me eternizar naquele momento. Fotógrafos têm razões suspeitas.

Gosto das Estações. Do frio, quem sabe. O fogão a lenha, os moletons e blusas de lã. Ah, as cobertas! Pantufas, claro. Nem o frio me faz gostar de calças, porém. E meias que servem pra nada. O barulhinho da chuva (desde que não a longo prazo). Ver o frio na Serra. Não gosto de sentir frio, de jeito nenhum, pois só quem já passou frio sabe do que estou falando. O frio dói. Um chá quentinho. E a preguiça, porque não há frio digno sem ela! O céu límpido num dia gelado, as cores mutantes das árvores.

Em especial a festa junina. Pinhão assado e cozido, milho cozido, pipoca, canjica, quentão, paçoca (de rolha!), pé de moleque, maria-mole. Em boa companhia, claro. As más companhias jamais, em Estação nenhuma. Uma feijoada, hein? Um cozido preparado no fogão à lenha. Sentar ali e ver a chuva respingar no jardim enquanto o aipim e o inhame cozinham. Talvez ver a vida assim mais de longe. Já fui acusada de tanta coisa nessa vida, até de não gostar do frio. Nem de casamento. Essas coisas. Mas se a vida não é a gente rebolar ao sabor da música, então ainda não aprendi nada.

Meus pés sempre gelados não me impedem de ver a beleza do momento. Fecho por um momento o programa. Não tem mais a minha foto flutuando no mar. Tem a gata com o chapéu de papai noel. Bateu aquela saudade do Natal? Claro. Adoro Natal. E entre o frio de hoje e as alegrias de fim de ano, meu coração palpita mesmo pela luz do sol a me abençoar em serenidade… a dispensar as lógicas e cruezas da vida. A deitar-me simplesmente no inescrutável vazio do mar. Jamais negarei isso. Talvez, se vivesse isso todo dia, enjoasse. Não me garanto com certezas, então…

Enquanto o Verão não voltar, comerei pinhões até não mais poder. É agora que a gente engorda pra emagrecer tudo correndo na areia e espanando água nas deliciosas braçadas, né? E quando a pele amorenar e o cabelo espigar e a terra secar e o corpo cansar virá aquela chuva de final de tarde pra gente matar a saudade do moletom com cobertor e pipoca em frente a TV. Quem sabe aí um veranico em agosto? Ponho fé.

E se viver não é essa sucessão de esperanças e lembranças, não sei o que fazer. Prometo que voltarei com o que é sério e interessante.

As últimas palavras…

Um dia, numa dessas aulas sobre a escrita, o cara falou: experimenta cortar a última frase. E não é que o texto do rapaz que ouviu esta sugestão ficou muito melhor? Desde então, pois escrever é um ofício que não se ensina, mas decorre da vida e esta é lição e experimentação, eu penso nisso. Nunca tive muito problema com pontos finais, penso eu. O caos é sempre o título, no meu caso. Porém, volta e meia me deparo com essa formiguinha no pensamento: e se eu cortar a última frase?

Porque o fim é aquela hora que a gente quer sempre dizer o que não foi dito, ou reiterar o que a gente achou que não ficou claro, ou, sei lá, explicar alguma coisa que achou falha. Vejam vocês que a perguntinha incômoda pode ser feita em vários casos, até na vida. Quantas vezes a gente quis dizer algo a mais depois do último adeus? Fosse uma declaração ou um desaforo, fosse o que fosse. Não é só na escrita, nem na vida, no cinema também. E eu poderia, sim, passar o resto da vida aqui só escrevendo sobre a escrita, sobre cinema e sobre a vida – além dos mundos possíveis. Nada mais eu pediria do mundo.

Tenho um problema. Quando falam muito de um filme, mesmo que eu, a princípio, não tenha o menor interesse em assisti-lo (não é francês, não tem o Del Toro nem o Redford, não é dramalhão) eu acabo procurando ver se é tudo isso que estão falando. Quanto arrependimento, gente! Aí aconteceu isso com The Witch. Lá se foi meu tempo de assistir a filmes de terror (sempre preferi os bons suspenses), quando um namoradinho era louco por eles e assisti dos clássicos aos B. Mas, assisti. Inicialmente gostei de ser de época. Fora isso e umas três ou quatro cenas arrasadoras na dramaturgia, é ruim. A pior parte foi o roteirista não ter se perguntado: precisava da última sequência? Não precisava. O fim era a cena da menina que debruça-se sobre a mesa. Seria, no mínimo, um filme relevante.

E na vida? Sobre as últimas palavras, na vida, tenho um problema ainda maior. Sempre penso que deveria ter dito mais. Fossem os desaforos ou os amores. Num caso, disse tanto desaforo depois do último adeus que sei, hoje, que fiz errado. Em outro, quis muito, decorei o texto do que iria dizer, ensaiei mentalmente. E não disse. E, sabe, foi melhor assim. Eu, aliás, iria dizer. Mas escrevi no twitter esta minha ânsia e um sábio comentou que, se eram coisas boas, eu deveria dizê-las. Se não o fossem, melhor calá-las. E não é que é?

A última frase de um grande romance pode ser dispensável – e não são, justamente, grandes romances porque dispensaram-nas? A última frase de um conto, se ficar, sempre o tornará menor. A última cena de um filme será a sua glória para quem até ali não se convencera. A última sequência deitara tudo a perder. A toda hora não pensamos o suficiente em tudo o que dizemos aos outros. É a pressa, os problemas, a desatenção, o caos e as penúrias. Ou o descaso mesmo. Quando vier o último adeus, aí não podemos dar bobeira. Depois do último adeus é preciso que a gente saiba o bem que não deve ficar só no nosso coração, e o mal que deve ser deixado ao vento.

(quem sabe aqui eu deixaria alguma outra frase edificante ou levemente alegre após o suspeito desaparecimento do site – ainda sou crente dos não-ditos, dos vazios, das páginas em branco)

Cadê a poesia?

Hoje eu queria
que tudo se passasse em poesia
E, quem sabe,
até um banho em tua companhia
Eu queria, sim
que o difícil tivesse fim
Desejei brotarem versos
em cada esquina
E que os gritos
intuíssem melodia
Hoje eu queria
que a dor na pobreza da rima
se fantasiasse de amor
e a apatia
respirasse furor
Hoje eu queria, quem sabe
um pouco de amizade
e que o coração suspirasse
pelas mudanças na paisagem
Hoje eu queria
falar de paz com o travesseiro
teu olhar matreiro
e nos sonhos reencontrar
a poesia

Destino selado está

Nas horas de angústia

A gente não sabe se gasta

O piso e sola de sapato

Quando pinga o tempo de um dia

E notícia boa ou ruim se atrasa

Espera lenta a tua desfeita?

O calor do teu orgulho

Teus chutes na porta

Teus cabelos arrancados

Tuas lágrimas – será raiva ou desespero?

Tu te perguntas se tens controle

Se o teu mínimo desafogo

dispara o pior.

E Deus te diria que não há nada a fazer

Se maldizes o mundo, se blasfemas

Ou se pedes perdão, mergulhas em oração

Destino selado está!

E é esse tempo que custa a passar

Não mais que o mesmo tempo de sempre

que te fez nascer

que fez a planta brotar

que leva a vida de velhice

Enquanto caminhas pra lá e pra cá

Escreves versos a desorientar

Comes sem parar

Não esqueça: Destino selado está!

Notícia boa ou ruim não depende de ti

e vem já.

Talentosos egoístas

Talvez lá entre preceitos religiosos, lições de vida e pensamentos positivos da indústria de auto-ajuda esteja a máxima: faça ao menos uma coisa na vida, que você faz muito bem, mas que não seja para você. E pratique sempre isso. No que você é bom? O que é que você faz que alcança um grau de excelência? Mas que o resultado ou os frutos disso não sejam para você. É importante observar isso. É essencial, eu diria. Você pode ser muito bom no teu trabalho, mas um trabalho que não é de ajuda ou serventia a ninguém que precise dele, e do lucro dele só você se beneficia. Não é este o caso.

No Brasil as pessoas não estudam. O brasileiro não dá valor ao conhecimento. Então é raro vermos boas pessoas valorizadas por se empenharem em fazer algo para o qual estudaram muito. Muito raro. Quem tem sucesso em alguma coisa é visando o status social, as posses, uma vida, diriam, confortável. O rico é invejado porque estamos num país onde todos queriam ser ricos. Nosso problema não é ter milhões de pobres e miseráveis. Não se almeja ser uma pessoa boa naquilo que faz. E que este teu fazer seja benéfico para outros.

Vejam só o juiz Moro. Estudou, especializou-se, foi para o exterior fazer um dos melhores cursos do mundo em desvendar lavagem de dinheiro. Claro que ele colherá os louros do trabalho dele, o status, a fama (coisa que nem é de praxe para juízes). Mas é um trabalho que, sim, visa o outro (seja o Estado, a população, etc.). E o cara é tratado como “um juiz de primeira instância” por um ex-presidente (que também usufrui de status e fama). E esse juiz de primeira instância está lá trabalhando e colocando empreiteiro corrupto na cadeia (essa acho que ainda não tínhamos visto). Ah, mas é um juizinho de primeira instância. Viu como a gente não valoriza o trabalho dos outros? Viu como a gente desmerece quem estuda e se empenha em ser bom naquilo que faz?

É como aquele aluno que entrega o trabalho na data certa, com pesquisa feita antes e tal. Aí no dia da entrega chega a turma do “deixei pra fazer na última hora e não deu”, o pessoal que nunca faz nada, e o professor altera a data da entrega pra facilitar justamente para os que, já se sabe, não fazem nada e não estão nem aí para estudar. É esse aluno que não vê o seu empenho, a sua busca pelo conhecimento, ser reconhecido. É esse aluno que vai começar a duvidar do valor de uma boa formação. Se nem o professor enaltece as qualidades de pontualidade e compromisso, por que um aluno se dará a este trabalho? Como incentivar um aluno a ser bom naquilo que ele fará pelo resto da vida? Valorizando-o desde o começo. E só se é bom naquilo que se faz com seriedade, comprometimento e organização.

Como os órgãos de trânsito da cidade. São pessoas que trabalham para a população. Portanto, presume-se que devem primar pela preocupação dos pedestres, motoristas e passageiros. Não deveriam colocar como preocupação metas de eleição, números e estatísticas. Pior ainda quando a equipe sequer entende do que faz e prejudica constantemente a população. Um engenheiro de trânsito, ou os técnicos que trabalham nisso, deveriam ser pessoas que se preocupam em fazer um bom trabalho, para os outros. Não para suas concepções, idealizações ou politicagens. Todo mundo conhece uma situação na qual uma mudança no trânsito prejudica todo um bairro, toda uma rua, todos os moradores e comerciantes do entorno. É justo o oposto daquilo que eu comentava no início.

E nós? Já sabemos o que fazemos muito bem e que é para o outro? Quantas pessoas passam a vida inteira sem nem pensar nisso? Todos nós somos muito bons em muitas coisas. Mas somos educados para que os benefícios dos nossos talentos sejam para nós mesmos. Nossa educação já vem toda viciada de maus hábitos. Não somos educados para o bem do próximo. É muito cristão isso? Claro. Mas é humano, qualquer ser humano pode pensar assim, até os mais capitalistas. Fazer algo para os outros não impede que você siga a sua vida, lucrando, tendo teus bens. Melhor ainda quando você une os dois, como o bom professor que se mantém com o seu salário e ao mesmo tempo faz aquilo que sabe fazer bem para, também, o bem do outro. Como um engenheiro de trânsito que estuda, entende bem daquilo que faz e atua na sua cidade para melhorar a vida dos outros. Como o guri talentoso que sempre quis ser arquiteto, se dedica a isso e faz boas casas para os outros. Talvez um detalhe é desapegar e entregar teu talento ao outro sem nada em troca. Se você cozinha muita bem, por que não oferecer essa boa refeição a quem passa fome? Se você é um excelente professor, por que não dar aulas de graça em cursos comunitários? Se você é um bom advogado, por que não oferecer seus serviços de vez em quando para quem precisa?

Minha mãe sempre disse que o brasileiro é bom só naquilo que faz mal: roubar, prejudicar, dar golpes. Parece uma sina, né? Por que temos pessoas que são boas em coisas ruins? Como os caras que, no desastre de Mariana, deram golpe com os tratores que ajudavam a recuperar as áreas afetadas? Por que tirar de quem mais precisa? Que nível de maucaratismo a pessoa precisa ter para roubar doações (de atingidos por enchentes, desastres, etc.)? E a maioria que faz isso é bom no que faz, comete crimes perfeitos. Assisto estarrecida a tudo isso. Não valorizar quem faz bem as coisas gera uma mentalidade de que o crime compensa.

Quando foi que perdemos a oportunidade de nos doar mais aos outros, sem conhecê-los ou sem esperar algo em troca? No máximo, aprendemos a fazer (por obrigação) pelos nossos pais, filhos, irmãos – e nem nisso temos nos saído bem, vide os casos de filhos e pais abandonados e maltratados. Enquanto o mal girar a roda, o caminho será ruim. Um dia eu disse aqui que amor é tempo. O Padre Bertino Weber disse, na missa do último domingo, “O egoísta nunca vai saber o valor profundo de uma liberdade”. Ficamos atados ao nosso egoísmo, querendo nosso salário, querendo o tempo todo de que dispomos só para nós (e nossas séries de TV), usufruindo solitários dos nossos talentos. Não sentimos nem o gostinho de sermos livres de nós mesmos. Pois não existe liberdade mais plena.

Deixemos o egoísmo transparecer na alegria inenarrável que é ver o sorriso de gratidão e reconhecimento que o outro nos oferece quando se depara com o nosso talento em forma de bem, para ele. Este egoísmo é perdoável.

O legítimo cronista

O cronista legítimo é velho, é aquele senhorzinho que fica a encantar-se como se fosse a primeira vez com o que vê no seu quintal – porque ele certamente tem um quintal. Ou, se é daqueles velhos de cidade grande, falará da vizinhança do seu apartamento ou do cotidiano do Leblon. Porque o cronista tem que ter tempo para ver a vida. Para deleitar-se com ela.

Os jovens não têm tempo para a vida, atropelam-se no ridículo de suas certezas e contestações e um dia, ah! um dia!, sentirão vergonha do que foram – ou fizeram. Os jovens escreverão sobre o amor, sobre as desilusões, sobre relacionamentos e, claro, sobre como é um ato inglório escrever. Porque, é ainda mais claro, eles preocupam-se só e somente com eles mesmos. O jovem lá tem tempo de reparar no vôo incerto de um beija-flor sob a chuva fina que cai no amanhecer do outono? Não, a essa hora ele dormirá pesado depois de uma longa noite de bebidas, rock e questões existenciais diante daquela mocinha que ele quer pegar.

Mas o velho acorda cedo, ouve o silêncio e faz seu próprio mão com manteiga na chapa com a delícia de infringir as regras do médico do coração e da nutricionista, antes que alguém acorde e o pegue em flagrante. Aí ele vê as formigas, em desespero, atravessarem um mínimo buraquinho debaixo da janela e levarem gotículas de mel para suas casas, antes que o frio as mate a todas. Ele sorri e jamais as enxota, afinal, ali está a vida, a necessidade, o instinto e quem sabe alguma inteligência. Talvez, depois do pão escondido e de umas colheradas de granola acompanhada de café com leite desnatado (sob supervisão), ele vá sentar-se no computador e discorrerá sobre aquelas pequeninas vidas. Ou, ainda, talvez ele se bata infinitamente para configurar alguma atualização automática do computador, se irrite e tenha que chamar algum parente próximo – um sobrinho, quem sabe – para salvar-lhe a vida e o computador. Aí, então, ele escreverá sobre essas monstruosas máquinas que nos tomam o tempo.

Certo é que o velho cronista sabe desfrutar o tempo. Enquanto os jovens ligam o computador para escrever o livro da sua vida e passam três horas jogando o último lançamento da Sony. Quando se é jovem nem sabemos que o tempo existe, por que iríamos jogar sementes em potinhos cheios de terra e esperar semanas, meses, cuidar com a falta ou excesso de água, para colher deliciosos pés de couve-de-bruxelas ou espinafres? Os jovens imaginam que o tempo é ver, de um dia para o outro, uns fios de cabelo branco na cabeça do pai, ou pequenas rugas surgindo no rosto da mãe.

O cronista velho já foi jovem. Ele já escreveu sobre as noitadas, sobre suas bandas favoritas, sobre shows inesquecíveis. Relatou em minúcias as aventuras pelo mundo afora, coisas que para o cronista velho só de pensar já lhe doem os joelhos. O cronista, quando jovem, acumulou horas e horas desconfortáveis em bancos de avião e de ônibus, já subiu altos morros, teve os desesperos iniciais das separações e o conforto falso dos novos relacionamentos que curam as feridas. O cronista nos seus bons tempos travestia opiniões políticas ferozes de crônicas inocentes sobre os dias da República. Ele desafiava os desafetos com crônicas tão ferinas que ninguém diria que aquelas cenas eram todas inventadas. Quando jovem, ele gritava; o cronista velho sussurra.

Aí estão o jardim, os netos, as plantas, as árvores que sabidamente dão frutos só em determinada época. E o cronista velho não precisa mais correr atrás de editores de grandes editoras, nem bajular críticos dos grandes jornais, ou almejar um apartamento na avenida mais cool da cidade. Ele está ali, diante do tempo. Vê como a terra demora para entregar-se, como as crianças enxergam o mundo sem filtros, como as pessoas se distanciam com medo dos pedidos de amparo e ajuda. Talvez o cronista velho ainda escreva para algum jornal, então terá o compromisso semanal (dificilmente diário) de usar o computador para escrever sua doce ou melancólica crônica e enviá-la; ou, quem sabe, agora ele se dedique àqueles planos literários com os quais sempre sonhou, mas que deixou para depois porque precisava escrever o livro da sua vida, antes.

Depois do café da manhã, outras lutas se impõem ao cronista velho. A audição que não ouve o carteiro chamar, a mão que treme de vez em quando e derruba a lata de verniz que ele passava na madeira da janela, a dor lancinante nas costas que não o permite assistir a um filme por duas horas sentado, a vista que embaralha as pequeninas letras de um livro que um jovem autor enviou-lhe solicitando que ele escrevesse a orelha, a dieta tão rigorosa que lhe priva de uma suculenta lasanha no almoço (e lhe garante metade do prato de folhas verdes), a saudade de pilotar a moto sem destino pelas trilhas de barro… e disso tudo ele decanta suas crônicas. Porque o tempo é o melhor óculos.

O cronista, quando jovem, não percebe que não tem tempo – apesar de usar a expressão com frequência. Ele salta sobre as ofertas que a vida lhe dá. E suas crônicas queixosas e arrogantes farão sucesso, ele é o cronista da sua geração; será aquele que entende a alma dos jovens, será aplaudido pelos seus iguais, louvado pela crítica e compartilhado entre seus novos e velhos fãs. Quando se é jovem, o ego fala mais alto. Fala tão alto que não permite nem que os conselhos sejam ouvidos.

No fim do dia, o cronista velho se deliciará com o banho. Terá ficado exausto de podar umas roseiras, fazer os reparos na casa, cuidar dos netos por duas horas, lido umas cinquenta páginas e levado a esposa ao médico. Mas todo dia ele se desafiará a ocupar cada segundo das horas só com o que ele quiser, com o que lhe fará ver melhor a vida. E se ele for perder tempo, será em observar as minhocas escapando para os meandros escuros da terra quando ele cavocá-la. Se ele for perder tempo, parará no canal de desenho animado para rir de coisas bobas. Se ele tiver algum compromisso, e perder a vontade de enfrentar a cidade, sentará na varanda em boa companhia e puxará uma prosa sobre uma bela lembrança. E, claro, já terá material de sobra para as próximas crônicas. Enquanto o jovem cronista sofre diante da síndrome da página em branco.

O cronista velho tem essa vantagem: há tanto na memória e na vida para preencher aquelas linhas. Eis a legitimidade da crônica.

Hoje não tem poesia

Hoje não tem poesia

Não teve arroz nem feijão

Não teve o cão ladrando

Sequer o carteiro passou

para me deixar cartas de amor

Não teve briga nem discussão

Não coloquei minha melhor roupa

Hoje as flores não murcharam

Nem a chuva tamborilou o telhado

Vejam, nem o sol apareceu

Não foi proclamada a paz

Nem generais fizeram revolução

Também as novelas não comoveram

Ninguém morreu, ou nasceu

Nem serenata teve

Acho até que nem sonhei noite passada

Hoje, repare bem, não teve tesão

Não teve sustos nem surpresas

Até o ar está ausente

As coisas estão nos seus lugares

E as pessoas são só pessoas

Hoje a noite não trará estrelas

Nem angústias

Nem a cama parecerá vazia

Sequer a TV sem som inspirará poesia!

O telefone não tocou

O e-mail não chegou

O olhar não me delatou

E o fogão a lenha não foi aceso

Hoje o gato não sorriu

A aurora não rugiu

Nem a pobreza se repartiu

 

 

Hoje não tem poesia

Não tem vida

Tem a mente vazia

E o olhar maltratado

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