Off

Naquela noite eu fui acordada três vezes. Era o celular que exigia ser recarregado. Estiquei o braço e achei por bem desligá-lo – seria melhor para nós dois. Logo cedo tive que, enfim, ligá-lo e colocá-lo para carregar, fulano vai não-sei-onde, pode precisar telefonar e tal. Mas minha sina mesmo era a geladeira.

A geladeira, vistosa por fora, pequena por dentro, é mandona. Se eu deixo a porta aberta por muito tempo – e é ela quem decide sobre o “muito” – ela começa a apitar. Um apito chato e irritante que fez dela minha inimiga. E hoje, logo hoje, acendo a luz da cozinha, pois mal amanheceu, e ela está com a porta aberta – uma frestinha de nada. Como ela não gritou furiosa ao desavisado que não fechou-a direito?! Madrugada, silêncio, alguém teria ouvido aquele bip insuportável. Mas, não. Ela prefere apitar só quando não precisa – nas horas que eu passo diante dela, arrumando potes e mais potes nas prateleiras mal desenhadas onde não cabe nada.

E hoje é dia de trabalho atrasado. Faço um chá e sento em frente ao computador, enquanto ele liga, arrumo uma papelada. Vejo que é a data de um prazo importante. Abro o arquivo que devo revisar para enviar por e-mail. Me abaixo para pegar a caneta que caiu e esbarro o ombro na escrivaninha. Com a trombada, o computador pula e desliga sozinho. Tento ligá-lo, sem sucesso, pelas próximas horas. Há meses levei-o na assistência: ele não tem nada de errado. Parece que tornou-se sensível à violência, a qualquer gesto brusco da minha parte ele desliga sozinho e se nega a voltar.

Depois do almoço, decido assistir um pouco de TV. me interesso por um programa sobre pesca de baleias no Caribe. Do nada, a TV me avisa que vai desligar em sessenta segundos. Não adianta fazer nada, a fábrica disse que é um dispositivo de segurança. Imagino que devo ficar feliz: tenho uma TV que se preocupa com a minha segurança.

Preciso sair para fazer um exame de rotina. Nem me incomodo com o som do carro que não obedece à ordem de repetir aleatoriamente todas as músicas do CD antes de repeti-las: já perdi essa guerra. Chego à clínica com vinte minutos de antecedência – levou dois meses para conseguir marcar o horário. Depois de passados cinquenta minutos do horário marcado, uma moça simpática avisa que os exames serão cancelados porque o aparelho apresentou problema nos cabos. Eles telefonarão para remarcar, pois da última vez a manutenção levou vinte dias. Chego no carro e a partida automática trava. Fico uma hora tentando. Ligo para a assistência e eles me dão um prazo de duas horas – “o sistema está com problema, a senhora entende…” – desisto e sigo a pé para casa.

Chego em casa e decido fazer um bolo para salvar o dia. O liquidificador é antigo, a tomada é nova daquelas de três pinos. Nunca três pinos despertaram tanto ódio no mundo. Procuro por todo lugar e nada de adaptador que sirva. Desisto. Vou para o banho como uma condenada. Hoje fez calor. Ontem fez frio. Para o chuveiro, pouco importa. Ele tem seis temperaturas, e ele mesmo quem escolhe em qual delas eu devo tomar banho – ainda esperançosa eu fico longos minutos girando o regulador da temperatura: em vão. Tomo um banho escaldante e saio suando do box.

Já é tarde, eu cansada, vencida, obrigada a ser feliz por estar protegida de todos os riscos. Deitei e sorri. Na terça-feira haviam ligado avisando que por manutenção na rede, a energia elétrica será desligada no domingo das sete da manhã às duas da tarde. Sonharei com esta promessa.

Imprescindível – Ação de Graças

Eu acredito que não importa quais teus nortes na vida: é imprescindível agradecer. Eu busco ver as pessoas além do que a vida mesquinha de todos nós acaba por envolver e guiar. Quando a gente deseja coisas boas aos outros – e que seja sempre assim – não importa gênero, crenças, conta bancária, sobrenome e tudo o mais. Importa querer bem. E é o que eu quero: o bem.

2015 foi um baita ano. Hoje, Dia de Ação de Graças, é dia de agradecer. Agradecer por não ter perdido. Agradecer por estar onde estou, com quem estou. Sei que as pessoas estranharam minhas mudanças, meus sumiços, minhas idéias diferentes, meu comportamento e uma dúzia de coisas neste ano. Eu fiz, mudei. A idéia que permeou 2015 é simples: deixei o ter e o ser (aquela velha dualidade) e busco existir. Busco, aliás, existir no tempo – é imprescindível, também, que seja assim. Não bastaria existir, é preciso existir no tempo. A idéia surgiu aí de longas reflexões, a partir de textos e conversas lá e cá.

Se é feriado americano, se é tradição estranha ao Brasil, pouco importa. É uma das tradições aqui em casa, já devo ter dito. É quando eu encerro o ano, é tempo de seguir para o Natal. Hoje cedo saí para comprar o pinheirinho, desci as caixas de enfeites, passei a tarde cozinhando um pato para o jantar, fiz uma bebida especial, tomei meu banho, coloquei um vestido e tirei este tempo para escrever. Amo esta época do ano desde sempre, sempre escrevo sobre ela, amo a decoração, amo músicas natalinas, amo o eterno retorno (já escrevi sobre), amo presentes, amo o significado cristão, amo me arrumar mesmo que, como hoje, não ponha os pés para fora.

Aliás, este ano quase não saí de casa. Vivi com quem amo. Escrevi bastante. Li um bom tanto. Assisti filmes e séries como há tempo eu não fazia. Corri atrás de coisas que, por exemplo, entre os três escolhidos eu ficava em quarto. Nunca me ergui tão rápido de todas as quedas que sofri. Sorri mais. Dormi muito, muito e muito bem. Cortei praticamente todo o supérfluo. Me desafiei a viver com bem menos, longe de outras tantas coisas que amo. Na balança, deixei de perder muito mais do que deixei de ganhar. E deixar de perder deveria ser o maior motivo pra gente agradecer sempre.

É o espírito da coisa, entende? Que tenhamos todos ao que agradecer. É o que eu desejo a vocês e a todos. Às vezes é difícil, eu já cheguei neste dia, em outros anos, e achava difícil ter pelo que agradecer. Mas a fé e a esperança são assim, tão humanas quanto nós. Não dá pra ser feliz sempre, mas é imprescindível que a gente saiba o caminho de volta para a felicidade.

Como eu disse, independe de crenças. Pra mim é uma semana muito especial (ontem foi dia de Santa Catarina de Alexandria, minha protetora e amanhã é dia de Nossa Senhora das Graças, a qual sou devota) e até dia primeiro de janeiro será assim, todos os dias serão especiais. Por isso, semana que vem terei festas, farei as visitas tão prometidas, enviarei presentes e cartas de agradecimentos e saudades. No mesmo tom do ano inteiro: só tenho a mim para oferecer.

Talvez eu até escreva sobre essas mudanças todas, mas não no nível de auto-ajuda (não gosto). Penso que quando escrevemos sobre o que alcançamos é para dar um testemunho de que aquilo é possível para qualquer um – basta querer. Sabe o gordinho que cria conta no Instagram pra mostrar a luta contra a balança? Então, mais ou menos isso – e acaba que sempre é auto-ajuda. (risadinhas por aqui)

Agradeço, claro, a vocês que lêem este meu desassossego todo. Vocês são especiais. Apareçam sempre (eu deveria aparecer sempre também, né). E que vocês tenham, hoje, muito a agradecer.

O retorno

Há pessoas que, sem saber, capturam meus pensamentos. Aquelas que dizem não sonhar, por exemplo. Mais curioso do que as que não sonham acordadas, são as que fecham os olhos e não vivem por algumas horas – até abrirem-nos novamente para este mundo. Viver só neste mundo real e táctil me parece insuportável. Devem, estas pessoas, ter alguns truques para sobreviver – lêem muita ficção, embriagam-se, usam, enfim, das mais variadas drogas.

Que, quando não durmo ou durmo mal, não vivo. Quando criança sonhava muito com uma casa rosa de madeira que pegava fogo comigo dentro. Na adolescência sonhava com ondas gigantes como se o mar fosse na rua de casa. Agora, talvez adulta, sonho com bichos. Bichos: de várias espécies e em várias situações. A Ciência e os psicanalistas explicam tudo. Qualquer dicionário dos sonhos on line também.

Eis que ontem, como todos os dias, às nove e meia em ponto, entrei no meu quarto para realizar o ritual sagrado: tirar a colcha, passar creme nas mãos, hidratante labial, deitar, ler só com a luz do abajur e recepcionar meus sonhos – doces ou não. E não foi bem assim.

Um velhinho empertigado, de barba branca, monóculo, mãos cruzadas sobre o colo, vestindo um terno cinza bem cortado e tão fora de moda estava sentado na minha poltrona. Pensei em gritar – e não o fiz porque achei que ele se assustaria. Olhei para trás, seria brincadeira de alguém?

Ele me olhou triste e “Precisamos conversar”. Assim, a frase de terror e mais assustadora a sua familiaridade. “Precisamos?”, perguntei. “Preciso convencê-la a ser minha paciente” ele me respondeu aflito. “Estou doente?” minha incredulidade me fazia querer rir. Eu, que sempre temi ser diagnosticada como louca. Encostei a porta para ninguém ouvir. Ou todos já sabiam?

“Não é fácil ver o tempo passar, falarem tanto sobre mim e eu de mãos atadas!” ele desabafou elevando a voz. “Que civilização é esta? Por que ninguém – nem aquele ingrato que se dizia meu amigo e discípulo – continuou meus estudos? Por que jogam minha teoria no mundo de hoje – que nada tem a ver com a vida de vocês?” ele falava aos borbotões, suava, indignava-se com a humanidade. “O senhor quer que eu ligue o ventilador?” tentei aliviar o velhinho que se exaltava com razão. “Exato! Vamos começar por aí! Você dorme todas as noites, todas, com o ventilador ligado! Como você explica isso?” gaguejei e “Preciso explicar?”. “Deite-se, ligue o ventilador. Vamos conversar sobre isso.” e eu obedeci. Ele era autoritário e enérgico.

Em seguida quis fazer um acordo. Ele viria todas as noites. Eu teria que contar meus sonhos, minhas sensações, meus temores. Ele só ficaria ali observando e fazendo anotações. Disse que precisava de mim para expandir sua compreensão deste mundo – tão diferente da época dele! Eu fui aceitando, fui persuadida, deitei e respondi a tudo com sinceridade. Ele jurou que não atrapalharia meu sono.

“Você não sabe o que é ficar lá no outro mundo observando vocês, criando novas teorias – afinal, nem todas as neuroses têm origem sexual – sem poder me defender! Mas escolhi você para me redimir. Seu caso é assaz interessante!” ele por fim explicou-se e mandou que eu dormisse.

Não sei se ele voltará esta noite. De manhã, contei-lhe que sonhei com caixas vazias. Ele ficou exultante. Quis dizer que, talvez, um homem que usa monóculo e fala “assaz” não está preparado para interpretar e compreender este mundo. Diante do entusiasmo do velhinho, preferi me calar e entretê-lo com meus sonhos.

* 19 de novembro, Dia Mundial da Filosofia: que aos pensadores que já se foram, o mundo fica e ficamos com as idéias deles, mas o mundo nunca mais é o mesmo – nem eles seriam.

Nota

Onde torres são erigidas

Pedaços de terra são perdidos e conquistados

Onde há guerra ao lado

E as pessoas querem ser corajosas

Um gole de bondade

Uns petiscos de solidariedade

Nada vai e tudo volta

Em nome de que eu existo?

Cá estou, meu senhor, este é meu nome

Sobrenome, religião, princípios

Aqui, veja, tem até a hora que sinto fome

Agora pode, senhor, dizer quem eu sou?

Os arranha-céus e os igarapés

As bandeiras hasteadas

E o discurso de paz

Talvez se eu lhe disser, senhor

Qual o meu livro favorito?

Se prefiro anéis ou brincos?

Qual o meu signo?

Então me dirá se: culpado ou inocente

Onde doces as vinganças

Amargas as vitórias

Os heróis de terno não sabem seu destino

Senhor, por favor, uma nota de pé de página:

Não ato laços, eu crio casos.

O mal, uma questão existencial

Não sei bem quando foi que conheci a maldade. Talvez tenha sido quando a colega de escola, nos primeiros anos, me chamava de elefante – “ó, lá vem o elefante!”, gritava pelos corredores ao me ver, ela que era e ainda é magérrima. A mesma que hoje tem por companheiro um rapaz acima do peso e abriu um restaurante de comida vegana, além de viver cercada por mandalas e afins.

Talvez tenha sido quando pessoas muito próximas, dessas que dizem que temos o mesmo sangue, traíram, enganaram e causaram uma infinidade de males às pessoas que mais amo. Lembro bem, enquanto na escola me chamavam de elefante, de uma ex-prima, ao dormir na minha casa, dizer que os pais dela diziam que conosco era tudo “olho por olho, dente por dente” e de uma ex-tia que me agarrou à força na frente de casa e me disse tanta coisa que ao chegar para minha mãe eu nem sabia repetir tudo aquilo – o bloqueio, graças a Deus, permanece até hoje.

E foi assim, de pessoas que eu nem ligava muito até aqueles que entram na casa da gente, que eu conheci a maldade. Vi as lágrimas correrem de olhos nos quais eu jamais imaginaria, tudo por conta da maldade. Lá se vão quase trinta anos de vida e posso dizer que, na pele, já senti a maldade em umas centenas de formas – enquanto observo-a, no mundo, em tantas outras fantasias que ela adquire.

O mal não é novidade. O mal é banal. Enquanto houver ser humano na face da Terra, existirá a maldade. Todos nós podemos praticá-la. O ser humano, enquanto ser, é mau – falta-lhe a humanidade. Já devo ter dito, mas não gosto dos adjetivos “selvagem” ou “bárbaro” para designar o que me parece estritamente humano, como a maldade.

Talvez pela minha natureza curiosa ou teórica, gosto de quem pensa a maldade. Foi o que me atraiu em Hannah Arendt. Ainda experienciando a maldade no meu dia a dia, tive contato com Eichmann em Jerusalém. Desde aqueles tempos da escola, a história da dizimação dos judeus me fascinava (a maldade, vejam só, tornar-se-ia um tema dos mais relevantes na minha vida) com suas fotos nos livros de Histórias (os quais guardo até hoje). É um fragmento da História da Humanidade que detém meus pensamentos há muito tempo. E a filósofa toma Eichmann, esta figura pretensiosa e angustiante, como exemplo do mal que se faz tomando o famoso “apenas cumpri ordens” por princípio. Ela quer distanciar os vilões, dessas moças bonitas, maquiadas e bem-vestidas das novelas da TV, por exemplo, da pessoa genial, da grande vilania da literatura. O vilão é um Eichmann, um ridículo. É esse cara com quem você almoçou ontem, de calça jeans e camiseta, sem nada de especial.

Recentemente me deparei com Labirinto de Mentiras e The Eichmann Show, além de ter revisto Hannah Arendt, estes dois utilizam as imagens reais de arquivo do julgamento de Eichmann – pois imagino que não há ator capaz de interpretá-lo na sua total falta de humanidade; só demonstra, talvez, no máximo, preguiça em estar ali – e me debrucei novamente sobre a maldade: como não gostamos de falar sobre isso, como fazemos de conta que ela não existe. Até, talvez, atacarem a capital mundial da liberdade. Aí é difícil evitar os noticiários e o assunto do momento permeado de opiniões rasas.

Depois que li A Sangue frio, delineei uma relação entre o livro da Hannah Arendt e a jóia de Truman Capote. Ambos tratam do mal, este mal banal que permeia a nossa vida, seja lá a vida de quem for. Eu já conhecia a história da família assassinada em Holcomb, porém ao começar a leitura percebi a genialidade de Capote ao traçar o caminho (não só geográfico) dos assassinos. Ao terminá-lo, perguntas ficam sem respostas. Não é o crime, a cena sangrenta, que interessa.

Talvez por este interesse em particular pela maldade eu não entendo a comoção histérica diante de grandes catástrofes e holocaustos perpetrados pelo ser humano. O mal que se faz ao planeta, tanto quanto o mal que se faz a qualquer ser humano (seja ele branco, negro, mulher, criança, homem, idoso, etc.) é o mal que se faz contra o mundo no qual vivemos e contra todos nós. Não existe grau de “mais mal” e “menos mal”, seja por questões pessoais, religiosas, geográficas ou políticas. Hannah Arendt enfatiza a maldade propagada por ideologias, pois muito mal se faz em nome deste ou daquele, desta ou daquela crença (em idéias, deuses, ídolos). Nossas crenças pessoais são as que mais praticam o mal. A colega da escola não me chamava de elefante porque pertencia ao partido de algum Estado totalitário, eram as convicções pessoais dela (sim, as temos desde cedo) que a levaram a agir assim. A maldade, em si, não precisa de grandes causas, não precisa encontrar em um povo inteiro a sua vítima.

Talvez não sejam esses medíocres a praticar a maldade verbal mais pobre que estejam aptos a praticar os grandes atos maus. Depois desses anos todos e de tanto pensar nisso, sei que o mal está em quem tem poder, dinheiro, meios tanto quanto em quem não tem um tostão no bolso, nem um cachorro que lhe lamba a cara: e os atos de todos prejudicam, matam, ferem, destroem, deixam cicatrizes para sempre.

Talvez a humanidade prefira creditar as atrocidades do mal à grandes grupos religiosos, étnicos ou políticos. Porque o que torna a nossa vida ainda mais difícil, ainda mais insegura, é sabermos que o mal em si é medíocre, é banal e, como Labirinto de Mentiras expõe tão bem, está no padeiro, nos nossos familiares, no professor da escola dos nossos filhos, nos grandes artistas do nosso tempo, em líderes que vêm do povo. É isso que nós não queremos saber.

O mal, a despeito do nosso medo de encará-lo, não tem limites ao ser praticado nem ao que ou quem atinge. E preferimos pensar que estaríamos a salvo no seio da nossa família, cercado pelos vizinhos do nosso condomínio, ao entrar no avião, ao jantar tranquilamente nos melhores restaurantes, enfim, cercados pela civilização da qual tanto nos orgulhamos.

É raro, mas quis deixar assim organizado (tudo fácil de encontrar, nada cult ou dificílimo de ver/ler).

* Lista das citações

Eichmann em Jerusalém, Hannah Arendt, 1963.

Im Labyrinth des Schweigens (Labirinto de Mentiras), Alemanha, 2014. Direção Giulio Ricciarelli

The Eichmann Show, Reino-Unido, 2015. Direção Paul Andrew Williams

Hannah Arendt, Alemanha e França, 2012. Direção Margarethe von Trotta

A Sangue Frio, Truman Capote, 1966.

E alguns outros que eu lembro agora porque me marcaram muito:

Areia Pesada, Anatoli Ribakov, 1978.

Wakolda (O Médico Alemão), Argentina, 2013. Direção Lucía Puenzo

Exceto A Sangue Frio, todos tratam do assassinato em massa dos judeus – é uma fixação minha, claro, mas considero um bom exemplo a não ser esquecido do ser enquanto não-humano. As bombas em Hiroshima e Nagasaki também podem ser usadas, a perseguição aos católicos no Oriente Médio, a Inquisição Católica, o tráfico de escravos, e tantos, tantos, tantos outros (volta e meia falo disso por aqui, aliás). O que só prova meu ponto de que o mal está sempre presente, é inerente a nós.

Quarenta e dois dias

Quando eu acordava, era você que eu via por primeiro. Não sei mais o que são meus dias sem você além de uma sucessão de horas passadas sem memória. Meu corpo sente a tua falta. Meus olhos sentem a tua falta. Nem em sonhos eu te vejo mais. Eu vivia num buraco escuro quando você surgiu. Fomos, sim, como dizem todas as canções, tão felizes juntos. Fomos feitos um para o outro. As melhores e mais belas coisas que eu fiz na vida, lá estava você. Ah, como sinto saudade das nossas fotos juntos. Com você eu me sentia viva. Pedalar pelas cidades na tua companhia era sublime, nem importava o fato de quase ser atropelada ou o suor abundante que escorria pelo corpo: eu estava com você. Quantas aventuras juntos? Quantas presepadas e quantos tropeços meus você presenciou? Sempre ali ao meu lado, consciencioso, firme e me transmitia tanta confiança. Era tão fácil confiar em mim, com você ao meu lado. Era tão fácil sorrir pra vida, sabendo que eu te teria comigo.

Tudo perdeu a cor. Tudo perdeu a graça. Voltei ao breu da vida. Sem desculpa e com muitas explicações e justificativas, você se foi. Se foi com alguma promessa vaga de voltar. Dizem que você vai bem, longe de mim. Dizem até que vai melhor assim. Mas eu me agarro à esperança de um dia te ver de novo. De um dia tê-lo novamente ali ao acordar. Sinto frio todos os dias, o dia inteiro. Dizem que estou pálida, que não me animo a nada, que não ponho os pés para fora de casa. E é verdade. É a falta de você. Como um presidiário com longa sentença a pagar, conto os dias da tua ausência em risquinhos na parede. O tempo é um castigo. Não sei o que fiz pra te perder e por mais que digam que não é culpa minha, me penitencio.

As flores do jardim, as árvores, os cachorros e gatos, todos sentem tua falta. Ou são meus olhos que vêem neles a falta que você faz. Por vezes, sinto que minha alma escoa junto à chuva, se perdendo em milhares de metros cúbicos pela terra encharcada. Tem dias que sinto-me à beira da loucura, como atada à punições severas e querendo fugir para uma terra onde possa encontrá-lo de novo. Acordar, abrir a janela e não vê-lo é o resumo do meu dia. Foi assim hoje e nos últimos quarenta e um dias. Então, sem você, abro inutilmente as cortinas da casa e espero o horário de fechá-las, sem que você tenha vindo me fazer sorrir. Sem que você tenha aparecido pra despertar em mim a vontade de encontrar o ângulo certo para captar uma bela foto. Sem que você me anime a sair pelas ruas novamente.

Quarenta e dois dias sem sol. Quarenta e dois dias penando neste calabouço. Mas, dizem, você vai voltar. Dizem que ali acima, em algum lugar, você está. Tenho até medo da minha reação quando você aparecer… talvez eu saia dançando pelo jardim, numa espécie de dança do sol; talvez eu cante enquanto percorro as ruas buzinando e gritando “ele voltou!”; talvez eu sinta tanta alegria ao mesmo tempo que não consiga acreditar nos meus olhos; talvez, pela minha natureza desconfiada, eu espere pra ver se você veio pra ficar; talvez, meu querido, eu abra a cortina e te dê meu melhor presente: este sorriso que só você conhece.

Mas, volte. Volte porque nem eu aguento minha pele tão branca, nem tenho paciência para usar tanta roupa. Volte porque todos aqui sentimos a sua falta. Volte, porque se não me deste a Primavera dos deuses que me inspira tantos amores, ao menos me prometa um Verão inesquecível na tua companhia.

Da terra onde há quarenta e dois dias não vemos o sol.

Camelos passarão

E aquela mulher não ficava quieta. Chamou o filho “Diz que eu não tenho dinheiro pro remédio, diz pro médico que tu quer C E F A L E X I N A (dizia com uma acentuação engraçada) porque eu tenho um cunhado que já teve isso e curou.” E repetia C E F A L E X I N A. O rapaz quieto enquanto ela reclamava da demora. O segurança contava para um homem que ele não pegava a escala para trabalhar ali nas segundas-feiras, pior dia, porque sempre dava confusão e era preciso chamar reforço. A mulher irritante atravessou-se na conversa e, como havia entendido errado, comentou que era muito bom a Guarda Municipal cuidar dos carros do estacionamento. E o tempo não passava.

Os nossos problemas são, sempre, menores do que os problemas de tantas outras pessoas. Era este o meu pensamento sentada ao lado daquela mulher irritante. Sabe aquele tipo que dá palpite e acha que sabe tudo, manda e desmanda? Eu, quieta no meu canto, não escapei do seu ataque “Tá esperando muito tempo?” ao que eu respondi que não. Mesmo se estivesse, não daria este gostinho a ela. Não seria mais uma a me juntar aos reclamadores de plantão. Esperaria, é certo, e sabia que não levaria pouco tempo.

Naquele mesmo domingo, onze de outubro, o padre Juca fez um apelo. Pediu que rezássemos pelo nosso povo, pela intercessão de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, padroeira do Brasil, que seria celebrada no dia seguinte. Padre Juca lembrou dos desmandos, roubos e crimes que temos visto serem cometidos contra o nosso país – em favor dos que mais têm poder e que prejudicam muito os trabalhadores, nós, os que menos ou quase nada têm. Um país destroçado pela ganância e sede de poder. Um povo abandonado à própria sorte, sofrendo os danos infligidos por quem deveria trabalhar para ele. Talvez só reste, a este povo, rezar. Pedir à Mãe Aparecida a intercessão e proteção.

Estava no PA Sul pela décima segunda vez, segundo a minha ficha. Ao sair às pressas para a missa, prensei a mão no portão. Além dos ralados, doía. Era a mão direita, meu instrumento de trabalho – e eu imaginava o caos que seria não poder usá-la. A mulher insuportável e os dois filhos, homens feitos, tinham furúnculo. Um deles no dedo, outro lá onde vocês podem imaginar e ela eu nem sei. A cada minuto ela dizia que ia desmaiar, que estava tonta, foi até aferir a pressão. Eu aguardava a minha vez fingindo um estoicismo ardente.

Eis que minha atenção foi aprisionada por uma senhora. Agarrada a uma sacola plástica, ela era uma das vítimas da mulher irritante que a bombardeava de perguntas e ordens. Esta senhora era parente de um paciente que estava internado no PA – desconfio que irmã ou mãe dela. Sem notícias, aguardava. Sem deixá-la em paz, a mulher irritante incitou-a a entrar na área de internação.

Nossos problemas, como eu dizia, não são nada diante do que sofrem os outros. A senhora voltou da Observação e contou a história da paciente que ela acompanhava. Estava ali desde ontem, havia sofrido parada cardíaca e queriam transferi-la para Florianópolis, pois em Joinville não havia vaga. Vi as lágrimas conformadas naquele rosto seco e envelhecido, o vazio naquele abraço automático ao saco plástico. Os médicos estavam tentando de tudo, mas “na maior cidade do Estado” não havia vaga em CTI para um caso de parada cardíaca. Me senti por terra. Não queria mais estar ali. Passaria um cataflam na minha mão e ela ficaria boa. Mas por aquela senhora, por aquele paciente que nem sei quem é, eu não podia fazer nada.

Pouco antes de eu ser chamada, a senhora voltou – sem esperança. Os médicos haviam conseguido a vaga em Florianópolis, mas a paciente não estava em condições de empreender as pouco mais de duas horas de viagem. “Acho que ela não vai conseguir mesmo, só estão esperando” foi o que ela disse. E mesmo neste momento a mulher irritante soltou “Leva pelo menos até o Betesda, não deixa ela morrer aqui” ao que a senhora repetiu que não havia vaga.

Sabe quando você sente que nunca mudará o mundo? Quando você se sente sem palavras ou sem ter o que fazer? Eu me sentia pior. Eu vi chegar mais um senhor e uma moça com os olhos pastosos de tristeza. Eles se debatiam em telefonar pra esse, chamar aquele. E não havia vaga em nenhum hospital para que aquela pessoa lá dentro tivesse o tratamento necessário. Para salvar aquela vida.

Fui examinada e segui para o raio-X. Pela primeira vez encontrei o corredor dos consultórios vazio – justo naquele dia eu havia sido encaminhada para o Cirúrgico. No silêncio, rezei uma Ave-Maria pela paciente que estava diante da realidade. Da realidade de não ter um leito numa cidade que se orgulha dos seus mais de 500 mil habitantes. Da realidade de médicos que tentam de tudo, mas que se frustram por não ter como fazer mais. Da realidade da tristeza impotente dos que a amam.

A mulher irritante e seus filhos saíram de lá com os remédios e curativos. Eu peguei uma receita. Ao todo, o atendimento durou cerca de duas horas.

Pensei tantas vezes naquela senhora e na paciente. Aliás, não consegui tirá-las da cabeça. Me socorri nas palavras do padre Juca. Senti como é estar tão desolado que a prece é a única coisa na qual podemos nos agarrar. Mas senti, também, uma necessidade de escrever. E este texto saiu a marteladas, como se eu tivesse tanta coisa para dizer e não conseguisse, como se eu quisesse apontar culpados, como se eu precisasse escrever para dividir minha angústia. O caso da falta de vaga não rendeu capa para os jornais locais. Ninguém perderá votos, por isso, na próxima eleição. Eu não sei o que aconteceu com a paciente, mas desejo que ela esteja bem. Que o amor dos familiares, a intercessão divina e o empenho dos médicos tenham-na salvado.

O evangelho daquele domingo foi a famosa passagem sobre ser mais fácil um camelo passar no buraco de uma agulha do que um rico ir para o céu. Talvez seja mais fácil fingirmos que o país vai bem, ou reclamarmos inclementes do péssimo atendimento de um PA que abrange toda a região sul de uma cidade populosa, ou simplesmente pagarmos um plano de saúde. Muitos camelos passarão, enquanto achamos nossos problemas mais importantes do que os dos outros e a todos nós só nos resta rezar aos céus.

Como ser um little boy

12 de outubro, dia de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, dia, também, das crianças. Talvez eu escrevesse aqui aquelas quatro ou cinco páginas sobre mil coisas e pensamentos que tenho vivido. Mas sobre esses dias que a gente não quer que acabe, terei muito ainda por escrever nas próximas semanas.

Escrevo para deixar uma pérola do cinema, um sonho como todo filme deveria ser. Nunca repararam como os filmes se assemelham muito aos sonhos? Pois é. Deixarei a crítica de cinema de lado, por ora, – só devo dizer: Fotografia (iluminação, as cores e enquadramentos e movimentos de câmera, essas coisas) deslumbrante e com um toque de felicidade; atuações maravilhosas; roteiro sensacional; – para comentar uma lista, “an ancient list”, que é praticamente um personagem do filme.

Gosto de escrever de coisas boas, de como podemos ser melhores. E o filme, numa sessão Dia das Crianças, e increase your faith, ambas perfeitas para este feriadão, é exatamente isso: como ser melhor. Como melhorar a nossa fé, e nada melhor do que a partir da visão de uma criança. Deixo aqui a lista com o desafio: conseguiríamos dar conta dela? O post de hoje é breve e imprescindível, com tempo poderíamos discutir cada item. Na última lição a ser empreendida e aprendida devemos acrescentar o nome do nosso Hashimoto: quem mais odiamos na vida, o que desperta nossa ira, a quem destinamos nossas más ações. O nome que devemos colocar ali fica aberto à nossa livre e sincera escolha.

Fiquem com a lista. Assistam ao filme Little Boy (Alejandro Monteverde, 2015) se quiserem porque quem sou eu para impor alguma coisa a alguém. É emocionante, no mínimo. Qualquer dia talvez eu fale mais dele por aqui (porque por aí falarei pelos cotovelos, certeza).

the-list

Ps.: não sei se a lista tem alguma origem e tal, depois pesquisarei com calma (mas vi que tem textos interessantes sobre o filme por aí).

Mundos possíveis – exercício filosófico

Em homenagem ao último conto que li, sofrendo por ver o livro terminar, decidi escrever sobre um exercício filosófico. A Filosofia só causa males, para a alma, mente, corpo, enfim, para tudo. Vamos ao exercício.

O que você faria se não houvessem leis, nem morais nem jurídicas, nenhuma, nem consequências (que, se olharmos bem, só existem moralmente) dos nossos atos, nem punições? Uma das artes da Filosofia é imaginar os famosos mundos possíveis. Então, este seria nosso mundo possível: não há leis nem consequências. Quais seriam seus atos? Quais seriam seus princípios?

Talvez caiba definir se nasceríamos neste novo mundo ou sairíamos do nosso mundo (já afogados em leis e detentores de uma consciência tolhida em várias esferas) e entraríamos no paraíso do mundo possível. Se nascêssemos no mundo possível proposto, seria ideal, posto que não traríamos o arraigado certoXerrado das nossas sociedades – e provavelmente viveríamos naturalmente nele. Se hoje jogassem um de nós neste mundo possível, o processo se daria de modo muito mais agressivo, para uns, ou assustador, para outros. Ou, em muitos casos, não haveria processo algum.

Pensem em pessoas que vocês conhecem. Aquele cara que no momento da suspensão das leis e das consequências, sairia bêbado dirigindo loucamente como bem entendesse, pegaria em armas e mataria todos os seus desafetos – até quem lhe pisasse o pé por acaso. Talvez as leis existam justamente por causa dessas pessoas. E você? O que você faria?

Quantos sinais você furaria? Quantos casos extraconjugais teria? Quantas pessoas mataria? As leis só existem para que deixemos o nosso lado ser (do humano) aprisionado e domesticado. Enquanto seres, agiríamos – todos – de modo repreensível. O acréscimo “humanos” é que nos previne de que não podemos apenas ser neste mundo. O humano deve pensar que há uma humanidade, que há outros que dependem entre si para continuar existindo. Talvez hoje sejamos mais humanos do que em 1940. Talvez digamos isso baixinho, numa noite escura, para tentar nos convencer.

Eu tenho certeza que mataria alguns. Poucos, é verdade. Um ou outro aí que eu preferia que não existisse. A não existência de leis morais nos levaria a praticar tudo aquilo que nossa mente refreia ardorosamente todo santo dia. Jogaríamos (mais) lixo nas ruas e nos rios, ouviríamos música num volume (mais) alto, não doaríamos nada nem daríamos esmolas, arrotaríamos e peidaríamos quando e onde desse vontade, cobiçaríamos a olhos vistos até conseguir. Praticaríamos os atos mais ignóbeis que hoje permeiam os cantos das notícias de jornal.

Ah, então seria a barbárie! Não. Seria o ser do humano. Só isso. Seríamos, digamos, mais nós. De verdade. Roubaríamos milhões, bilhões, trilhões (e eu mal sei contar até aí) porque não haveria punição nem nenhum peso moral que nos condenasse – diante da sociedade ou afundados nos nossos travesseiros. Mentiríamos ao nosso bel-prazer! Imaginem quantas desculpas, mentiras e justificativas poderíamos dar sem o peso do constrangimento! Enganaríamos quem amamos, passaríamos a perna nos nossos concorrentes da forma mais desleal possível.

Quando batesse uma tristeza, poderíamos colocar o pé para alguém tropeçar, só pelo desejo de rir de alguma coisa. Certeza que eu faria muito isso. O exercício consiste em nos colocarmos neste mundo possível para, no mínimo, nos conhecermos melhor. Sabermos, enfim, do que seríamos capazes na prática. Visto que a maioria esmagadora de nós não matará, neste mundo real, o seu colega de trabalho porque ele é burro e fala demais (no mundo possível eu mataria, certeza certa). E vocês, o que fariam? Me contem! (se é que pode ser algo assim dito com todas as letras)

Além de matar os burros e chatos e praticar sacanagens bobas para rir dos outros, esses pecadilhos de nada, não sei se eu faria coisas muito graves – é o peso do humanismo moral que nos cerceia até a imaginação. É, pensando bem, também não teria muito problema com roubar. Mas preferiria correr as casas de madrugada, sacaneando cachorros e quebrando vidraças só para não deixar em paz o sono alheio.

O exercício filosófico de imaginar mundos possíveis é gratificante. Nos coloca de frente com nossos maiores medos e prisões. Faz com que entendamos muito mais de nós, do que somos capazes e, principalmente, dos nossos desejos. Não acho que a humanidade conseguirá ser assim tão humana enquanto os desejos viverem reféns do joguinho infantil do pode e não pode. Talvez, ao sair de um mundo possível, cheguemos a conclusão de que não precisamos de tantas leis, de tanto pensamento ruim, de tantas amarras. Imaginar um mundo possível qualquer nos faz olhar o nosso mundo com outros olhos. E os mundos possíveis são infinitos, longe de nos amedrontar diante da nossa finitude, nos permite sonhar e acreditar que as coisas não podem (nem devem) ser apenas como são. Porque, para fazer deste mundo, um mundo possível, às vezes só nos falta coragem.

Dias ruins

A parte boa dos dias ruins é que eles não duram pra sempre. Pode, ou não, haver a disposição de encará-los de frente, como: vou ser feliz, me entendeu? Ou podemos apenas tentar colocar a cabeça no lugar, os sentimentos em ordem e distrair com seja lá o que for. Às vezes, desejo escrever sobre o que sinto. Não o faço porque já passei da idade de acreditar que alguém se importa de verdade com os sentimentos alheios. Qual é essa idade? Não sei, certeza que não se trata de um número aleatório calculado pela data de nascimento. É a partir de um ponto na vida, de uma carga de experiências, que você entende o valor do silêncio acerca do lhe passa pelo coração. Ninguém se importa e trazer os sentimentos à tona só é chato e ridículo. Não que não devamos tê-los, longe disso. Mas é imprescindível saber conviver com os próprios sentimentos, sem que precise externá-los a ninguém. É só uma teoria? Talvez. Uma teoria que funciona na prática.

Nesses dias ruins, me pego pensando: o que faz alguém que não tem um quintal nessas horas difíceis? Joga vídeo-game, oras. Bem, eu não tenho vídeo-game e acho plausível que alguns tenham esta válvula de escape. O que fazem aqueles que não apreciam um bom chá para clarear a mente e confortar o corpo, quando as notícias não causam boas sensações? E os que não se encantam com um incenso aceso para liberar os pensamentos das coisas ruins? Vão ao shopping, talvez. Fazem hora extra no trabalho, quem sabe. Desde que cada um saiba identificar quando está num dia ruim e o que deve fazer para passar por ele sem muitos danos – e de preferência com ganhos – tudo ficará bem. Mas há quem não enxerga nada e por isso, também, não faz nada para melhorar. E há quem não se conheça o suficiente para saber no que deve mergulhar para não se afogar.

Ou, ainda, quando você sabe que só conseguirá passar pela turbulência ao ouvir as suas músicas favoritas para estes momentos. E aí parei pra pensar que há quem não ouve nenhum ruído deste mundo, nem a música. A estabilidade de uma vida com tudo “perfeito”, com saúde, braços, pernas, sentidos nos cega. É como viver todos os dias da vida sem nunca pensar que num instante podemos perder tudo e todos que amamos. Assim, num vapt. Porque quando der o vupt já será hora de lamentar não ter se prevenido do que poderia acontecer. Dizem que é sair da sua zona de conforto, essa vidinha cheia de pleonasmo que a gente leva e fica deitando e levantando todo dia da cama. E preparar-se para os dias ruins – dando aquele tempo pra cuidar do jardim, jogar vídeo-game, tomar um chá, estourar o cartão de crédito – é contornar de antemão os danos a si e aos outros.

Nesses dias ruins, até aquele livro adorável que estou lendo, que me fez enxergar e estudar tanta coisa, está acabando. Nas últimas páginas… no último conto, e eu faço como quando estamos comendo algo muuuuito gostoso, começamos pelas bordas, vamos comendo devagar, para prolongar o prazer. Eu não quero que o livro acabe. Não agora que talvez eu esteja num desses dias ruins. Então me delicio aos pouquinhos. Bem, isso só vale para o tipo de pessoa que gosta de histórias que os livros contam e, também, que não vai com toda sede ao pote – porque sabe que a vida é assim gostosa e bonita porque foi feita pra ser apreciada, e não engolida de uma vez sem sentir o gosto. As teorias nunca valem pra todo mundo, vejam só.

Se os dias ruins não duram pra sempre, os bons também não. E é essa balança que nos fideliza na experiência. Há quem se iluda. Há quem idealize tudo e todos. Há quem se engane. Há quem fuja. Na minha teoria, a vida foi feita pra ser encarada de frente. Vai arranhando, vai tirando pedaço, vai deixando saudade, vai sorrindo, vai surpreendendo, vai arrancando e brotando. Olhar de soslaio pra vida, ou de óculos escuros, ou por cima dela, é coisa daquelas pessoas que nos dias ruins nunca sabem que é hora de parar pra jogar vídeo-game, assistir a um filme, podar umas árvores, pegar a estrada, dar um mergulho no mar ou, sei lá, tomar um banho de chuva. Depois podemos até voltar, mas só depois.

Blog no WordPress.com.

Acima ↑