Sonhos de Miss Potter: aos leitores

 

Um dia desses li um texto politiqueiro totalmente ausente de qualidade, desses que publicam em blogs coletivos regionais, e nos comentários um leitor fazia boas considerações sobre a precariedade da falta de argumentos do autor. Eis que, na resposta deste ao comentário, ele não se ateve ao conteúdo do que foi dito, mas dizia que tinha visto o perfil do leitor no Facebook e que surpreendeu-se ao ver que era um jovem e não um aposentado reaça (ou algo assim) com tempo para escrever bobagens. O autor do texto é pessoa que nem merece mais meus comentários, as atitudes dele falam por si. Porém, na sequência, o autor dizia que este ou aquele leitor deveria ler um livro – no sentido de, imagino eu, insultá-lo.

Tentei encontrar algum jeito de começar este texto. Foi difícil. Nem acho que este exemplo foi o melhor. Tenho me deparado com tanta gente ignóbil que usá-las como exemplo é uma tentação. Mas, enfim, é disto que quero falar: livros.

Ler livros não te faz uma pessoa melhor, nem mais inteligente, ou mesmo culta (sábia, então, nem cogitemos). Frases feitas que dizem isto ou que viajar te faz uma pessoa melhor são mais vazias do que um balão – pois este ainda tem ar. Conheço pessoas que já viajaram o mundo e como pessoas são as mais horripilantes. Conheço (ainda mais) pessoas que já leram muito – e muito – e são algumas das piores do mundo. Então, a falha no argumento “vá ler” é evidente e auspiciosa. Porque o contrário também é fato: há pessoas inteligentes, sábias, bondosas que nunca leram um único livro – muitos, inclusive, por nem terem acesso.

Eu não gosto da arrogância esnobe de quem “lê” e exibe isso para mostrar-se superior aos outros. Já considerei uma qualidade a pessoa ler, hoje a coloco em categorias: “lê mas é um pedante”, “lê mas é burro feito uma porta”, “lê mas é só para postar no Facebook”, “lê por algum suspeito complexo de inferioridade”, tem categoria de todo tipo.

Mas, vejam só, muita gente lê. Gente de todo tipo. Gente que lê livros de todo tipo. Ano passado me deparei com algumas situações que foram o estopim para esta reflexão. Entre grupos de aspirantes a escritores (não esqueçam do “aspirantes” pois eles mesmos com qualquer oficina ou curso já se intitulam “escritores”) é tão comum ouvir que há mais gente que escreve do que gente que lê – como, ó, uma dor do ofício num mundo tão ignorante. De fato, há muita gente que escreve – ainda bem, não? Qualquer um pode escrever, qualquer um pode publicar. Ainda bem. Mas na questão dos números acredito que precisaríamos de dados mais precisos, um cálculo de quantos escritores existem, quantos livros são vendidos, quantas pessoas lêem, essas coisas. Como já é sabido, desfiz minha amizade com os números, mas seria uma pesquisa interessante.

Entre escritores, pseudo-escritores, aspirantes a escritores, alunos e professores de Letras e todo esse pessoal da área, infelizmente há muitos preconceitos, esnobismos e narizes torcidos. Talvez o pior deles é achar que literatura (no caso) só interessa a entendidos. Dentistas, médicos, engenheiros, analistas de sistemas, donas de casa, policiais, balconistas, economistas, jardineiros, lêem, se interessam, gostam e, sim, entendem de literatura. Subestimar os leitores é uma fraqueza de caráter que pouco se vê em outras profissões.

Eu quero escrever. Não sou escritora. Talvez, um dia. Eu sou leitora. Deixei de lado os trabalhos em audiovisual porque tropecei em péssimos colegas de profissão e como é um trabalho coletivo a coisa não deu muito certo. Sempre apreciei o trabalho solitário do escritor – qualquer trabalho solitário me agrada mais. Sempre apreciei a prática solitária da leitura. Não levo jeito com as pessoas (tenho bons motivos). Me meti a estudar a arte da escrita e foi uma aventura – literalmente em alguns momentos. Mas conhecer alguns escritores e aspirantes a tal foi nefasto. Não me sinto solitária, porém, na crítica. Escritor também é dessas profissões que podem agregar prestígio e fama, aí já viu, né.

Sobre a crítica e o glamour da profissão, em 2014 surgiram algumas vozes dissonantes. Para ser escritor hoje você precisa ser uma estrela, uma pessoa famosa, fazer participações brilhantes e teatrais em feiras de livro, precisa tirar selfies com fãs, etc.. Não basta escrever, é preciso atuar no mundo real. É preciso ser descolado, claro – hoje em dia todos precisam, não? Também vimos escritores reclamando que o ganha pão vem de escrever para jornal, escrever textos encomendados, viver da miséria dos cachês de participação em feiras e eventos. Escrever não dá dinheiro – afirmação duvidosa. Ou se você ganha dinheiro é porque escreve coisas populares – vulgo, ruins.

Entre meus estudos me deparei com este problema: a literatura se coloca (é colocada, obviamente) sobre todas as outras artes, é-lhes superior. O texto escrito é, ainda, elitizado. Por mais que estudos (dentro das universidades, na quase totalidade, infelizmente) tentem desmistificá-la, popularmente ainda é assim. Para ficar mais breve e claro, para apreciar música é só preciso ouvir, para apreciar artes visuais é só preciso ver. Em primeiro lugar, ser alfabetizado ainda não é para qualquer um,  interpretação de texto, coesão e coerência e essas coisas todas, precisam ser ensinadas. O acesso às artes determina muita coisa.

Minha relação com os livros nunca foi de amante, muito menos possessiva. Quando criança eu lia porque gostava, porque passava o tempo, porque eu ficava sozinha. Meus pais nunca leram pra mim, nunca fui obrigada a ler livro algum. Foram, porém, marcantes a prateleira de livros da minha mãe e as coleções da Barsa dela e da minha avó. Na Barsa fiz muita pesquisa escolar, descobri muita coisa do mundo. Por muitos anos eu ia todo dia na biblioteca da escola, pegava dois livros infanto-juvenis, lia na mesma tarde e devolvia no dia seguinte para pegar outros dois. Logo vieram os romances (quando a escola liberou o resto da biblioteca pra minha idade), os contos, Sherlock Holmes, Agatha Christie (da prateleira do pai), literatura brasileira (de trechos de textos que eu encontrava nos livros didáticos de português e anotava os autores) e tudo mais. Sim, tudo. No ensino médio comecei a ler Filosofia porque encontrei a edição Os Pensadores em casa. Na época eu frequentava quase que diariamente a biblioteca pública de Joinville, onde me apaixonei por Fernando Pessoa, Stanislaw Ponte Preta, Nelson Rodrigues, Gabriel Garcia Márquez. Ia muito ao sebo Colin, mas dinheiro era coisa que eu não tinha. Qualquer trocado que eu conseguia corria pra lá procurar alguma coisa e foi assim que descobri uma das minhas paixões literárias: os best-sellers românticos e romances de banca de revista (Harlequin, Bianca, Julia, e essas delícias todas). No sebo tinha uma bancada de “Um real” que me atraía pelo valor, é claro. E aí eu catava alguma coisa lá. Se é literatura boa ou ruim? Pouco me importa. Tem dias que é só do que preciso. Até a graduação eu lia muito. Durante os cinco excruciantes anos de graduação eu li muito menos do que queria das coisas que gostava, mas li muita coisa por obrigação que foram proveitosas – outras nem tanto. Talvez eu tenha ficado mais chata para a leitura. Tive crises de não querer ler nada, de não achar nada interessante. A ficção, então, foi quase deixada de lado. Desde então tive períodos de não ler praticamente nada. E volta e meia surge um romance qualquer, um clássico qualquer, um livro de contos despretensiosos qualquer que me faz ficar ali docemente quietinha e encantada por algumas horas.

Minha história como leitora é igual a de muita gente. Mas não me confundam com esses que gozam prazeres como o “cheiro das páginas” ou a “capa sublime da Cosac&Naify” – cheiro de livro pra mim é cheiro de mofado, guardado e velho. Não. Eu amo a LP&M pockets, a Martin Claret foi uma mão na roda em vários momentos. Foi na graduação que comecei a sentir o cheiro esnobe dos adoradores de livros. Comentários sobre editoras, edições, capas e blábláblá. Eu não dava bola nenhuma pra isso – se tentei dar, felizmente passou. O que importa num livro? O que ele nos diz. Por isso hoje leio até num Kindle.

Sim, aderi aos livros digitais (com atraso, pois um Kindle durante o mestrado teria sido um anjo). Por quê? Porque é mais leve de carregar na bolsa (em 2014 eu mal desfiz mala e bolsa), porque tem muita – mas muita – coisa disponível de graça em digital (até aqueles que a gente não encontra em lugar nenhum) e nem ocupa espaço nas prateleiras. É uma delícia. Tanto quanto qualquer livro de papel. Sem frescura.

No final do ano eu ia participar de uma antologia de aspirantes a escritores (alguns já se intitulavam tal…). Me desgostou muito ver que o esnobismo estava presente. O que interessava? Uma edição primorosa. E só. E para isso, claro, pagaríamos caro. Não participei, é claro. Queriam uma edição à la Cosac e o que importava mesmo era a divulgação, que fossem enviados cerca de quarenta exemplares para jornalistas, críticos e afins com folders e tal. Afinal, eu iria participar de uma antologia para ter meu nome num jornal e um lançamento com comes e bebes fantástico ou para que as pessoas – pessoas – lessem minhas histórias? Senti que meus princípios e meus interesses divergiam do grupo. Como sempre.

Foi pouco depois disso que me deparei com um filme doce e interessante. Miss Potter, com a Renée Zellweger. Não sei se o comentário é pouco modesto, mas me vi muito na personagem/escritora. Além da posição dela como mulher da época (o fantasma que anda grudado nela é hilário, única coisa que nós mulheres não temos mais hoje, o resto é a mesma situação social, apesar de quererem que acreditemos no contrário), duas coisas me marcaram. Logo no início ela diz “o bom de começar uma história é que você nunca sabe onde ela vai te levar” (algo assim, vocês sabem como sou para citações). E é exatamente como me sinto quando escrevo – feliz e encarando uma aventura que eu não sei onde irá me levar. Ou seja, de nada serviram as aulas, as leituras e toda a teoria que diz que devo ter tudo programado e previsto sobre personagens, conflitos e tal. O outro ponto foi o que ela afirmou ao fechar o contrato para ser publicada: o preço. Deveriam ser baratos para que qualquer um pudesse comprar. Senti um aperto no peito durante o filme. É isso. O acesso. Qualquer um deve poder ter acesso. Para vocês terem uma idéia, a tal antologia da qual não participei sairia por trinta e dois reais (entre 120 e 160 páginas). Trinta e dois! Perto do natal entrei numa rede de livrarias e os mais vendidos (o novo da Fernanda Torres, algum John Green e tal) estavam por trinta e nove reais. A julgar que vivemos num país que tem vale-cultura a cinquenta reais e salário mínimo de setecentos e oitenta… sem contar a ausência de bibliotecas nas pequenas, médias e grandes cidades que poderiam suprir a demanda de quem não tem dinheiro para comprar livros.

Simpatizei muito com Miss Potter. A relação com a família que não reconhece o seu trabalho, o apaixonar-se por homens que admirem e consigam entender o que ela faz (isso é essencial), o pouco importar-se com as regras e blábláblás, o processo criativo, a preocupação da acessibilidade aos livros, o descaso com o dinheiro. Assistir ao filme me deu um suspiro alentador no final de um ano e tanto – e muito dedicado à escrita.

Sobre o acesso: o que importa é ler, o resto é esnobismo. Há quem viva bem sem ler. Há quem não viva sem ler – como um querido que me confidenciou que ficava mal se não lesse um pouco, ao menos, por dia (menos aos sábados por questão religiosa). Mas tenham certeza que ler, só por isso, não faz de ninguém melhor – alguns só ficam mais esnobes, pretensiosos, arrogantes, pedantes, ignorantes. Eu gosto de ler (amo meu gosto bagaceiro) e gosto de quem gosta de ler despretensiosamente. Às vezes é difícil ler um clássico, tenha cem ou quinhentas páginas. Às vezes é difícil entender porque tal livro ou autor é tão falado e elogiado e pra gente ele não diz nada. É o gosto subjetivo kantiano, não precisamos desesperar. Cada um gosta do que lhe causa prazer! E mesmo a literatura se pretendendo tão superior, a relação se dá do mesmo jeito.

Podemos ter centenas de títulos em abarrotadas prateleiras ou livro nenhum em casa e frequentarmos bibliotecas. Isso não diz nada sobre nós. Vira notícia quando descobrem que Marilyn Monroe tinha clássicos nas suas prateleiras, eis o que o mundo nos proporciona. O livro que me reabilitou depois das muitas leituras específicas do mestrado foi o Corta pra Mim, do Marcelo Rezende. Dizem que isso depõe contra a minha pessoa. Diria um outro querido que “clássico é o que fica” e as emoções que sentimos diante de uma história que lemos ficam, então é um dos nossos clássicos. E as prateleiras não estão em nenhuma sala ou quarto.

Agradeço às conversas que acrescentaram muito a essas reflexões. Agradeço às pessoas que me fizeram, no bom e no mau sentido, a ver as coisas de outro modo neste último ano. Agradeço aos leitores, meus e de outros textos, pois somos mais especiais como leitores do que como escritores.

(seguem links que li e me fizeram pensar nisso tudo e muito mais; sobre as perguntas do Michel Laub, caso um dia eu seja escritora, vou adorar responder qual o meu signo!)

http://oglobo.globo.com/cultura/livros/diario-de-um-viajante-contrariado-13540191

http://oglobo.globo.com/cultura/livros/andre-santanna-as-coisas-nao-sao-bem-assim-13541352

http://www.peterrabbit.com/en/beatrix_potter/beatrixs_life

http://elpais.com/elpais/2014/11/17/eps/1416222276_076944.html

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/michellaub/2014/12/1564329-perguntas-ao-escritor.shtml

Sem motivo

Quem dera fosse o espírito natalino. Quem dera fosse um peso na consciência sobre, sei lá, qualquer coisa. Quem dera fosse uma lista das últimas aventuras. Quem dera o motivo para escrever hoje fosse qualquer coisa boa que deixasse as pessoas de cara (ainda usam a expressão ou sou muito antiquada?) como a minha vida é fascinante.

Pois isso nunca desejei. Pois faz tempo guardo minha vida a sete chaves porque, bem, as pessoas não têm bons sentimentos. Pois depois de mais de mês volto a escrever aqui sem motivo algum.

Esses dias me peguei apreensiva e um tanto triste ao me deparar com escolhas alheias. Disse cá pra mim que eu preciso – com urgência – parar de ficar assim, pois as escolhas são dos outros. E nem afetam minha vida. Mas digo-lhes que minha experiência e meus pensamentos me impedem. Vejo as pessoas fazerem certas coisas e, oh, Lord, fico muito apreensiva. Pelas dificuldades que enfrentarão, porque não estavam sob juízo perfeito ao tomar certas decisões, porque seguem a boiada e não refletem. Sim, sim, quanta arrogância, certo?

E aí cheguei a duas conclusões quase epifânicas. Sou arrogante. Desconfio disso faz tempo demais. Eu não só pareço arrogante, eu sou. Aparentemente, lido bem com tal defeito. A arrogância de achar que sei mais que os outros – é o principal sintoma. Decorre, claro está, de uma velhice precoce que a vida, esta querida, me impôs. A gente fica velho antes da hora porque a vida antecipa uns capítulos e aí pula outros, fica uma loucura, e a cabeça, ah! a cabeça tem que dar jeito em tudo – os que dão jeito, envelhecem, os que não, perecem pelo caminho. Não pereci. Não tombei. Não ganhei todas as batalhas, mas sobrevivi. E aí, nessas guerras da vida, eu aprendi que o grande trunfo de todos os vencedores é saber quando retroceder. Calma, este é outro assunto.

A segunda, então, foi mais acachapante. Foi do nada que me dei conta. Estava pensando em uma situação (vida alheia com a qual não tenho nada a ver) e me ouvi (cá com meus botões) dizendo resignada “que sejam felizes”. É uma expressão que eu uso porque, afinal de contas, é só o que importa na vida – e não importa o jeito que ela estiver, dá pra ser feliz. No momento que eu disse isso me ocorreu uma lembrança. Eu digo isso já faz um tempo e nunca havia dito em situações iguais a qual me referi desta vez – não irei, de jeito nenhum, revelar qual era a tal situação. Meu normal é criticar, meter o pau, partir pra arrogância de achar que quem está na situação está fazendo uma grande burrada sem perceber. E, desta vez, só me saí com o “sejam felizes”. Porém, na mesma situação, com outras vidas alheias, uma pessoa que eu conheço sempre disse “sejam felizes”. Eis que esta pessoa sempre demonstrou uma sabedoria que eu, do alto da minha querida arrogância, nunca percebi.

Esta pessoa é daquelas que nunca deseja o mal a ninguém, que nunca fez mal a ninguém, que nunca me deixou nem de brincadeira falar algo de ruim pra quem quer que fosse. (ps: as pessoas, porém, em quase nada retribuíram isso, viu) A tal situação, evidentemente ruim para as pessoas envolvidas, em nada pode ser mudada por mim – portanto, só me resta, sabiamente, desejar que, dentre tudo de ruim que elas vão enfrentar, consigam de algum jeito ser feliz.

Mandar à merda é uma expressão que eu guardo com zelo (desculpem aí a baixeza). Uso-a muito de vez em quando e só em momentos de extraordinário descontrole. Mas, vejam só, diante de uma situação, eu olho ou penso na pessoa e chego à conclusão que a pessoa já está na merda, com uma vida de merda, num relacionamento de merda (ou na merda por estar sem um), faz escolhas de merda, num emprego de merda – mandar à merda não faz sentido, e não desejo nada, nem de bom nem de ruim, à pessoa. Ao contrário do caso acima, no qual eu desejo que encontrem pelo menos algo de bom, aqui me é indiferente.

E esta era a falta de motivo. Sinto um cansaço enorme das mesmas coisas que vejo todos os dias. Vocês aí publicando como são felizes, comemorando sempre as mesmas coisas, divulgando coisas que vocês acham que vão salvar o mundo e o planeta, se entupindo de frases de efeito e de auto-ajuda – tudo regado com muita foto desfocada e imagens fofinhas. Ah, sim, é fim de ano, então abundam, também, as fotos-comprovantes de que agora, só por agora, vocês foram lá fazer uma boa ação por alguém (invariavelmente crianças ou animais – cachorros e, no máximo, gatos). Sei lá se é pra chegar dia 31 com a consciência limpa ou porque é o espaço que há antes das fotos na praia e na piscina. Enquanto isso, passam o ano todo desejando – mesmo que só no pensamento – coisas ruins a torto e a direito.

Não comentei que um dos motivos de tamanha arrogância é que sempre fui muito crítica – antes mesmo de eu saber o que era isso. Ficava matutando demais sobre as coisas, é sempre horrível. As professoras da escola odiavam meu alto índice de críticas, meu pai vive apavorado com isso, não há homem que resista. Eu gosto de críticas. Vivo bem com elas. E adotei a prática da auto-crítica (não foi conselho de psicólogo). Sou carrasco de mim. Claro, não espero que todo mundo seja assim, mas, convenhamos, como faltam pessoas que pratiquem a auto-crítica! Faltam espelhos para tanto ego inflado. São esses que só vêem o mundo, não conseguem se ver nele. Junto à arrogância vem um brinde: o desprezo.

Vou cantar aquela música do tédio com um T bem grande pra vocês agora que as vidas alheias me despertam muito mais desprezo (e, em certos casos, nojo). Enquanto isso, os inocentes vítimas dos amores de alcova, os heróicos desbravadores dos caminhos tortuosos, os honrados homens e mulheres que não mancham suas escolhas, os ingênuos de corações aflitos, os que têm fé e os que acreditam em algo ou alguém terão o direito de ser feliz, entre uma tempestade e outra, e desejo que não percam as coisas boas que trazem no coração.

Não quis nenhum motivo para escrever e juro que não economizei na arrogância.

De onde a chuva me faz refém dos meus sonhos e pesadelos

A Stendhal, Tchecov e ao leitor (des)conhecido:

Esses dias fui tomada pela ânsia de dizer a você, Stendhal, como os 28 fazem diferença. Como é tão diferente amar aos 16 do que amar aos 28. Dias depois voltei ao começo: já terei amado? Alguém tão leviana, impulsiva, apaixonada, pode amar? Não sei. Estive, sim, ocupada com mil compromissos e problemas, cheguei às raias da rispidez e extrapolei a impaciência – e, por vezes, me peguei pensando, nos breves minutos que meus olhos permaneciam abertos quando deitava minha cabeça no travesseiro, nos porquês do coração. Devo lhe dizer, caro amigo, que aprendi mais com você do que com meus raros relacionamentos. Pensamos tão igual sobre o amor! Pretensão minha, é claro. Você é um estudioso, teórico e praticante do tema e eu… eu não chego a ser simples iniciante – quando muito. Deveria escrever ao Goethe, também, para pôr um fim a minha obsessão por ele – e por tentar recontar a história do nosso amado Werther, se não com Charlotte, enfim, na vida. E é aí que entra meu amantíssimo Tchecov, pois ficar só falando de mim seria mais que enfadonho. Tchecov apaixonou-me em poucas linhas. Tchecov falava da vida de um jeito… como a vida é. Lembro de ter passado algumas horas com ele, em longas noites na varanda, com nós na garganta. Nunca fiquei tanto tempo imersa nas histórias – nem antes de conhecê-lo, nem depois. Em Tchecov não havia finais. Mas havia ponto final para todas as histórias. E eu chegava ali no ponto final, me sentia mal, abraçava o livro e olhava para algum lugar no meio do nada. Um dia, pouco tempo depois, supus, novamente, estar apaixonada. Eu que sempre dissera “não perder tempo” com essas coisas. Estava lá pensando demais em uma pessoa, sendo conquistada por longas conversas. Mas… havia algo que eu não sabia dizer. Quando encontrei-o pessoalmente, emprestei o livro do Tchecov – não é um hábito meu emprestar livros, que fique claro, mas o ato em si queria demonstrar algo sem nem mesmo eu saber. Descobri tarde demais que meus atos sempre querem dizer algo – que normalmente eu desconheço. Acredito que o livro fez diferença para ele, e eu pude discorrer horas seguidas numa euforia entusiástica sobre minhas teorias. Se foi amor? Não sei. Já tinha pra mim, desde aquela época, que se é amor dura, e se não dura é porque não foi amor – outras influências, eu sei. Hoje talvez eu pense diferente. Sim, amigos, eu mudo minhas idéias, concepções e teorias. Mas, infelizmente, em algumas coisas eu não mudei nada… nada. E até acredito que é isso que me faz escrever hoje. Voltando à história, o amor acabou, o amor virou alguma espécie de violência obsessiva da parte dele, de indiferença da minha parte e… ele usou Tchecov contra mim! Eu deveria, portanto, nunca mais indicar meus gostos, preferências, leituras e músicas, para que não pudessem, em algum momento, usá-las contra mim. Não é mesmo? Mas sou péssima aluna da vida. Tanto tempo se passou e vi Tchecov com outros olhos por questões profissionais e de estudo. De resto, nada mudou. Suas histórias, Tchecov, não têm finais… mas têm, sempre, o último ponto final. Como já disse tanto, eu gosto dos fins, gosto de pôr o ponto final no seu devido lugar. Porém, ninguém nunca me ouviu falar que eu sei fazer isso bem, ou que não dói, ou… que, sei lá. A carta começa a parecer meio vaga, não? Imaginem minha pretensão de escrever tanta bobagem para dois mestres das letras e da vida. Pois, saibam, que a regra sobre não escrever quando se está confusa é muito válida – e eu deveria usá-la mais.

Não sei se já amei – não sei se amo. Poderia partir para o clichê “mas sinto tanto!”. Sinto, é verdade, o que não pode ser traduzido em palavras. Confesso só para vocês que as possibilidades de manipulação pela escrita me assustam deveras. Palavras nunca são sinceras. Palavras nunca dizem tudo. Vejam só, quero viver da escrita e não confio nas palavras. Podemos, então, partir para os meus defeitos. Não confio. Algo, lá atrás, quebrou minha confiança – não em algo ou alguém, mas o sentimento de confiança – e eu nunca consegui reavê-la. E quanta dor isso me causa – só eu sei. Às vezes, eu só queria confiar um pouco que fosse… em mim, no que eu faço, em alguém, em alguma coisa. Não consigo. Eis a causa de tantos dissabores e atitudes infelizes da minha parte. Sou apaixonada, e paixão nós sabemos como é. A paixão destrói. A paixão consome. A paixão possui. A paixão não constrói um lar, não dá de comer, não tem um longo caminho pela frente. Eu sei, eu sei… me desculpe pelo resumo tão pobre, Stendhal. Mas, veja só, se os 28 já chegaram, por que a paixão não foi embora? Por que atraio justo por aquilo que mais me afasta das pessoas? Quis escrever, dias atrás, para dizer que eu desconfiava que tinha mudado. Que eu sabia ser mais despojada da minha imaginação traiçoeira, que eu havia me desapegado das exigências, que eu não era, imaginem!, mais tão sanguessuga. Eis que nada mudou. Eis que devo só amargar (sim, eis a exatidão) meus desalentos, minhas atitudes impensadas e, ah!, minhas frustrações. Não conheço ninguém que seja tão débil a lidar com elas como eu. Nunca quis que me prometessem a lua ou coisa que o valha, acharia até meio meloso. As frustrações vêm da falta que os gestos podem fazer – pois só eles dizem tudo o que palavra alguma poderia. Os gestos! Ah, Stendhal, me diverti tanto com suas histórias! O que o amor – ou qualquer das suas dúvidas – nos faz fazer! Ah, Tchecov… o amor nunca tem final. Lembrei de ti justamente porque pensei que você adoraria o site dos 140 caracteres. Imaginei-te um gênio dos começos, meios e finais em tão poucas letras e espaços. Pois é por uma dessas que você é tão comentado e estudado. Quantos amores começam e terminam em 140 caracteres? Nas suas mãos, muitos. Na vida? Ah, a vida tem lá suas complicações. Ou, como diria um ex-leitor meu, nós é que a complicamos. Sem fins, estou certa, se não complicam, pelo menos ficam muito complexas. Demais, até, para alguém como eu. Admiro as pessoas resolutas, as que sabem o que querem, as que tomam as rédeas dos próprios sentimentos, as que resolvem suas frustrações com o suicídio. Admiro-as, sinceramente. Já tentei ser assim, sabiam? Fracassei. Sou um fracasso até para querer dizer o que (acho) que sinto. Porque não acredito que alguém pense que as idéias, o trabalho, os estudos tomem todo o meu tempo. Jamais. Como diria uma (que eu acho que ainda é) amiga, sou zen só na superfície, por dentro sou mar revolto. E a tempestade não passa.

Os 28 fizeram diferença em eu me dispor a voltar a… amar. Porque sou sempre pega de surpresa e, como lema leminskiano, tenho esse pacto com o Destino, o que pintar eu assino. Talvez eles tenham apenas me ajudado a abrir os olhos e perceber que só coleciono fracassos. Sobre aquele que eu emprestei o teu livro, Tchecov, quando eu não sabia o que sentia (apesar de desconfiar que sentia algo) eu me disse várias vezes “se não for um grande erro, será o maior acerto”. Porque eu já tinha a convicção de que amar não era coisa pra mim. E não é, né? Só se eu fosse muito estúpida para continuar tentando e prejudicando os outros. Não há “maior acerto”. E sobre os erros, “grande” deve ser pouco. Eu sei que prejudiquei e até fiz mal (dentre os voluntários e involuntários) a certas pessoas. Sei que é isso que pensam de mim e o que sentem. É que poucas pessoas têm um instinto de auto-preservação tão alerta quanto o meu. Ou, até, poucas pessoas querem tanto aprender o que é amar – e, de fato, não conheço ninguém que tenha a confiança quebrada para sempre. Vocês devem conhecer o Glauber, outro amigo meu, e numa madrugada tensa e difícil ele me fez companhia. Numa carta que ele escreveu a alguém (não lembro, sou péssima nessas coisas) também tomei a pretensão de ver meus pensamentos na cabeça dele. Dizia ele “vou estudar, escrever e namorar” – e, pensei, quero mais da vida? E aí ele passava as seis linhas seguintes comentando que não era nenhum Apolo ou Don Juan (repararam nas nossas semelhanças?), e entre as três coisas, namorar é o mais difícil para alguém tímido, que não goste de “mocinhas frívolas”, que prefira as cultas e inteligentes e despreze os flertes baratos e passageiros. Me digam se não saltei da cadeira numa euforia assustadora e gritei pra mim: é isso, é isso! Por fim, ele diz querer amar como no século passado “romance ardente e perigoso”. Seria o amor algo tão sem graça e sem perigos? Eis nossa falta de comunhão?

O que me falta de amor, transborda da companhia de vocês. Eu tento ser uma aluna aplicada – só aqui na teoria. Eu espero do amor tudo aquilo que parece não ser da alçada dele. Só me resta não machucar mais ninguém. Eu, me machucar? Ah, posso não ter aprendido muita coisa nessa vida, mas quanto a lidar com minhas dores eu me viro. E agora quero encerrar pois não disse nada e quero dizer, ainda, tanta coisa… só sei, queridos, que finais sem fins me deixam desnorteada. Só sei que minhas atitudes não têm sido boas. E faço com a vida, no momento, o que fazia com os contos do Tchecov: abraço-a e fico com o olhar perdido no nada.

De onde a chuva me faz refém dos meus sonhos e pesadelos, daquela varanda nossa conhecida, de quem desconfia do mundo e das palavras, Fahya.

Sobre sacramentos e A Razão

Finda a apuração do primeiro turno das eleições para presidente, no domingo, fomos tomados por um clima nada ameno no mundo virtual. Como tenho reparado, o mundo real – com o qual sempre tive uma relação difícil – anda bem mais agradável do que o virtual. Foi questão de segundos para começar uma enxurrada de podridões de ambos os lados – posto que foi decidido que há lados na politicagem, segundo os ingênuos eleitores. Contudo, não escrevo hoje para falar de campanha e eleições. Quero apenas comentar o que, dentre toda a falta de argumentos que tenho observado, me chamou a atenção.

Uma pessoa, considerava amiga até, postou vários posts contra um dos candidatos (ela que mal aparece no Facebook) com insultos e uma agressividade que me assustou. A base dos textos era a ignorância e a falta de razão (no sentido de raciocínio, não de “estar com a razão”) do outro, um “o que você, que vota em fulano, tem na cabeça”, ou “quem pensa, quem tem o mínimo disso ou daquilo não vota em fulano”. Naquele momento fiquei de fato surpresa. Então eu, que não tinha votado na mesma pessoa que ela, era irracional, burra, estúpida. E não é que isto foi e tem sido usado por ambos os “lados” desde então? Mais ou menos assim: você vota em quem eu voto, então você é inteligente, pensa, percebe as coisas do mundo e é um poço de boas informações; se não, você é burro, mal-informado, idiota, cego, apesar dos diplomas e tal, não percebe nada!

Talvez me sinta superior demais a alguém que se restringe a dizer uma coisa dessas. Talvez eu tenha me sentido acuada por tal nível de acusações e despautério. Me silenciei. Tenho visto e lido coisas, de ambos os “lados”, que analiso, penso, reflito, tento, principalmente, identificar a origem aqui com meus botões e minhas teorias. Em particular, tenho até discutido. Mas só. Internet é esfera pública, melhor manter-se moderadamente afastada. Por isso, não vou nem comentar o que penso sobre o que está acontecendo – e sobre o que penso das pessoas nestas circunstâncias.

Dias antes estava pensando sobre uma idéia que aprendi num livro. Ler livros é melhor do que ler as TLs alheias. Livros mudam a minha vida, idéias me apaixonam. Livros mudam a minha percepção do mundo. Pensei até em escrever este texto para o dia dos professores, pois o autor que quero citar aqui foi-me apresentado pelo estimado e adorável professor Lupi, o melhor dos melhores. Livros têm esta capacidade, como algumas poucas pessoas, de entrar na vida da gente, mexer com pensamentos e sentimentos, destrancar portas e escancarar janelas. Estou, há uns três dias, lendo um que faz, novamente, esta reviravolta na minha vida. Não são todos, por isso é preciso ler sempre, para encontrá-los.

Professor Lupi um belo dia nos passou Mircea Eliade para ler. Historiador das religiões, Mircea é um querido. Não, não o conheço, digo isso só pelas idéias dele. Tínhamos que ler o Tratado de História das Religiões. E eu sempre fui apaixonada por religiões, amava Lupi (o único professor que disse que eu era uma boa aluna!), amava as aulas maravilhosas e perfeitas dele e na época eu estudava pacas. Fui ler com uma gana sem igual. Era uma época que, sendo das mais difíceis em tantos aspectos, eu vivia inimaginavelmente muito feliz.

Cheguei onde queria, porque não vim falar, falar e não dizer nada nem dar aula sobre coisa alguma. Há uma consideração do Mircea à qual eu já voltei tantas vezes: como nós renegamos tanto a nossa condição animal, suplantando-a pela nossa capacidade racional. Segundo ele, o homem moderno, diferente do homem arcaico, é incapaz de viver sua vida orgânica. Com vida orgânica ele se refere diretamente à sexualidade e à nutrição. O homem moderno abraçou de tal forma a razão que esconde (literalmente, como nos mostra a História dos Costumes) seu funcionamento orgânico. Ele aponta que a sexualidade e a nutrição foram vivenciados como sacramentos por culturas anteriores. Em termos teóricos ele julga que a psicanálise e o materialismo histórico é que foram os responsáveis por desmerecer e até ignorar a sexualidade e a nutrição como sacramentos.

“Para o moderno não passam de atos fisiológicos, ao passo que para o homem das culturas arcaicas são sacramentos, cerimônias por cujo intermédio se comunica com a força que representa a própria vida.” como não concordar que a sexualidade e a nutrição nos ligam diretamente com a vida? Sendo um homem moderno! Então devo ser uma mulher muito arcaica. A sexualidade e a nutrição são duas (das quatro) coisas que fazem eu me sentir viva, literalmente. São momentos cerimoniais, concordo plenamente, durante os quais sentimos a vida. O homem moderno, porém, carece de sentir-se vivo, como é fácil observar por aí.

Assim, me sinto muito estranha quando pessoas proclamam tanta racionalidade. Eu gosto muito de animais. Já faz um tempo adotei a prática (acho até que já contei isso aqui) de não chamar as pessoas e seus “problemas” por nomes de animais – porco, anta, cachorro, vocês sabem. Dou adjetivos que qualifiquem qualidades e defeitos das pessoas, não xingo os coitados dos animais. A idéia do Mircea já vivia incubada lá nos meus delírios adolescentes com “Invejo os bichos Invejo os bichos Que só brigam por comida e sexo” (thanks, Barão Vermelho!). Os homens arcaicos viviam mais próximos (proximidade física, não em evolução) dos animais, os conheciam e observavam – e não era através da tela da TV no Discovery. A proximidade com os animais permitia que eles desenvolvessem uma relação mais respeitosa e inteligente com o que podiam aprender. Eu aprendo (e muito!) com os bichos.

Sexo ser usado para, sei lá, contar vantagem de quantas pegou na balada, para subjugar pessoas que lhe são, de alguma forma, inferiores, e tantas outras formas torpes é coisa do homem moderno. Os arcaicos vêem o óbvio, a reprodução (consequência) e o prazer (como consequência imediata) – uma bela cerimônia com a vida. Alimentar-se pra postar foto na internet, pra fazer check-in e todo mundo saber que você foi no lugar mais top (HAHAHA) ou caro da cidade, pra mostrar como você é saudável ou que tuas escolhas políticas coincidem com tua alimentação é coisa do homem moderno. O homem arcaico come porque disso depende sua vida e eis mais uma cerimônia prazerosa. Eu sou tão arcaica que gosto de todo o ritual de escolher, preparar, arrumar a mesa, servir, comer com quem compartilha do mesmo prazer, e é uma das minhas cerimônias preferidas – não gosto de comer sozinha e tem que ser um momento único e ponto. Até tenho esse sentimento de disputa com os outros em relação à comida, nada mais arcaico!

Os racionais homens modernos extinguiram o prazer – e abrigam-se em pseudo-prazeres muito estranhos, como, sei lá, possuir bens e guardar dinheiro, coisas que em nada nos ligam à força da vida. Procuraram submeter a sexualidade e a nutrição às leis, às regras rapidamente mutáveis do tempo das sociedades, ao nosso mundo obscuro, aos eternos tabus. Quer algo mais moderno do que os tabus? Assim, sentem-se suprassumos detentores da razão – sim, porque, pelo visto, só há uma.

Mircea acrescenta a dimensão de conexão com a realidade que há entre o sentir a força da vida que o aproxima do existir como ser (numa perspectiva ôntica como se diz nos termos da Filosofia, que é o estudo do ser) e o liberta dos automatismos da vida, que são as coisas sem sentido e sem conteúdo. E eu me pergunto, quantas coisas o homem moderno faz que são esvaziadas de sentido e conteúdo? Tão praticantes dos automatismos, detentores da razão que fazem mau uso da sexualidade (sua e da dos outros) e da nutrição, o que são os seres modernos? Seres que, inclusive, desprezam quem procura praticar sacramentos que os liguem à vida. Os sacramentos, como estudados pela História da Religião, são muito antigos, Mircea faz várias preleções sobre eles e não se originaram só nas religiões que a gente conhece. São praticados pela humanidade, como citei, na busca pela comunhão com a vida. E seres racionais, é claro, não precisam disso.

Sinto-me tão próxima do homem arcaico e dos animais. Sinto-me em boa companhia. Não quero parecer contraditória, pois afirmei que gosto de idéias e elas pertencem ao campo da razão. A questão é pesar, é não tirar o espaço de uma pelo da outra. Segundo as publicações de milhões de brasileiros, como eu não voto como eles eu sou estúpida, indigente intelectualmente. Como tendo a ser querida comigo mesma, vejo que procuro usar a razão sem fazer disso o que me diferencia dos outros seres racionais. E voltei ao Mircea para não esquecer que somos, antes de tudo, animais. Do nosso organismo é que depende a nossa vida, sem sexualidade e sem nutrição o ser humano deixará de existir – e diante disso de nada adianta ser o mais racional dos racionais, sorry.

Sou uma pessoa altamente religiosa. Pratico ritos, sacramentos e cerimônias. Tenho minhas quatro relações com o sentir-se viva. Gosto de pessoas religiosas que buscam a ligação com a vida. Acredito que não me dou muito bem com os homens modernos. Parece, também, que não sou tão racional quanto meus amigos. Ainda bem.

Diria Aristóteles, ou mesmo o meu horóscopo de hoje, que o acertado é a justa medida. É o que eu busco, apesar de ser tão dada aos exageros – principalmente em alguns sacramentos, porque sentir-se viva é tão bom que não dá vontade de parar. Mas exagerar na razão eu pratico só ocasionalmente.

Logomarcas

 

Ficou ali observando e pensando nas pessoas e nas suas vidas tristes. Qualquer um sentiria pena, qualquer pessoa de bem com os pensamentos mais óbvios e ridículos. Não sentia pena. Desnudara-se de sentimentos em relação às pessoas, talvez. Ah, as pessoas! O grande mal do mundo. Ao mesmo tempo tão intrigantes e interessantes e repulsivamente abomináveis. E os abomináveis nem eram os serial killers, abundantemente eram os mais instruídos e donos de tantos bens móveis, imóveis e imateriais. Enquanto os intrigantes eram as figuras mais insuspeitas da face da Terra. Qual a porcentagem de uns e de outros? Difícil dizer. Impreciso, talvez. E, ainda talvez, uns pudessem ser ambos. O mundo ficaria tão bem sem as pessoas. Tinha convicção disso. E olhava ao redor pensando no quanto nada daquilo nunca nos últimos cinquenta anos mudara – nada. E ali viviam e trabalhavam e circulavam as pessoas mais jovens, antenadas e eficientes do momento. Antes delas as mesmas jovens, antenadas e eficientes de outras décadas por ali circularam – mas umas não viam as outras e agora a logomarca ali na torre era moderna, diferente, de linhas curvas. A logomarca unificava toda a mudança, a novidade, o tempo. Alguém mais percebia que aquilo não mudava era nada? As vidas tristes que por ali passavam, fosse num estágio da vida de uns e outros, fosse a vida inteira para alguns, as vidas tristes são sempre as mesmas. E são, sim, tristes. Ninguém diria isso, entre rodízios de sushi, noitadas regadas a cerveja, encontros permeados por altas discussões culturais e teóricas, apartamentos recém-decorados, carros novos, viagens e compras no exterior. Ninguém diria. Eram, assim, o topo da pirâmide. Bem, se não o topo, aqueles que elogiadamente galgavam todos os degraus para um dia lá perdurarem. E a tristeza, onde estava que só ela via? Ali, saltando aos olhos. Vidas tristes também, reparem, devem ser vividas. Ela mesma não usufruiria tão bem da sua vida se não houvesse essa inundação de tristeza em volta. Seria, talvez, menos feliz se não percebesse a enrascada que eram as vidas tristes daquelas pessoas. Via a logomarca, as cores, o entra e sai, os gestos – Ah! Os gestos! Gestos irrefletidos e, por isso (desconfiava), tão hermeticamente iguais. Gestos que viviam anos-luz distantes das almas. – e nada lhe parecia autêntico. Nada lhe parecia vida. E, no entanto, eles riam, ouviam música alta, combinavam programas maravilhosos, tomavam banho de piscina, cuidavam do corpo e da mente. Chegou a duvidar das próprias observações. Quem sabe aquilo tudo poderia ser algo que chamamos de vida. Seu apego às dúvidas não lhe permitia deixar de considerar isto. Pensava em tudo que via, nas fotografias tão candidamente postadas todos os fins de semanas, nos compromissos selados em noivados e compromissos sérios, nas viagens metodicamente exibidas, no prazer com que alardeavam que trabalhariam, trabalhariam e trabalhariam… pensava. Ainda assim lhe pareciam vidas tristes quando ela pegava da lupa e buscava a espontaneidade. Buscava, ali apreciando o vento entre as árvores, a naturalidade de tudo aquilo – até mesmo das piadas ruins. E por falar em árvores, não pôde deixar de reparar em como as pessoas evitavam o sol matutino e se aglomeravam debaixo da única árvore da rotatória. Eram vidas tristes as que fugiam do sol e buscavam uma nesga de sombra. Autômatos, será? Por isso lhes faltavam a espontaneidade e a naturalidade? Um estudo comportamental elucidaria que é o agir por imitação, a ação como cópia. Quem não imita e não copia, pode, enfim, não ter uma vida triste. Seria o fim do mistério? Talvez ela não quisesse encontrar uma solução. Apesar de ter identificado o problema, tinha a tendência dos cientistas que mais se apaixonam pelos problemas do que pelas respostas. O Show do Milhão é que precisa de respostas. Não, não, não, não falaremos em dinheiro. O programa do homem do Baú foi só um exemplo feliz. Chegou a pensar na rispidez da crítica. Justifica, com frequência, que adota o silêncio porque as pessoas e suas vidas tristes não suportam dedos nas feridas. E a crítica, tão demonizada nos cultos da sociedade, até lhe fazia gargalhar surpresa no meio da calçada. Não deixava, porém, de ser ríspida, ácida, cutucante. Achava a vida tão sem graça quando não podia cutucar os outros. Evitava, é certo, porque, as pessoas, enfim, ah! as pessoas! Aquelas vidas tristes sobreviveriam. Ela, não se sabe. As vidas tristes são blindadas contra as verdades da vida e, numa comparação menos feliz e menos criativa, são como as baratas – passará o fim do mundo e elas continuarão. Se sobreviver, será sempre feliz – um tanto mais feliz porque não perderá, como um espírito de porco inspirado, a chance de observar de perto aquelas vidas tristes. Se sobreviver, ficará muito mais tempo observando as levianas mudanças das logomarcas, as famílias se formando, as dúvidas cruéis sobre os vestidos de noiva – e, também, não deixará de sorrir ao som das trovoadas, ficará ao sol matutino, longe da sombra confortante, não postará a foto do manjar dos deuses que foi seu almoço, nem dividirá com ninguém aquilo tudo que lhe passa pelo coração.

Era como se desejasse a Primavera

Era como se desejasse a Primavera

Todas as vezes que sentia-se só

as árvores em botão, as rosas se abrindo

o sol a castigar de dia e a brisa em companhia com a lua

os animais a rolarem de desejos.

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A Primavera, em si, nada resolvia

– nem lhe arrumava companhia.

Quem dera, a distraía.

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E ano após ano, ansiava pela Primavera

Às vezes depositava confiança nela

Às vezes só queria lamber as feridas

Muitas vezes apaixonava-se

E, de vez em quando, ia ao inferno

Uma vez ou outra lhe chegavam desgraças

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Como o anjo com pés sujos de barro

não era sempre que a Primavera

só lhe arrancava sorrisos.

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Era como se desejasse a Primavera

Sempre que a esperança lhe faltava

Era como se desejasse a Primavera

Ao ver a palidez no espelho

Era como se desejasse a Primavera

Quando as palavras tiravam férias

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Ficava brincando de sonhar

Entremeava desejos

Refreava impulsos

Tirava longas horas para passear

Trocava o olhar

Admirava a paz

Refazia seus hábitos

Jurava com voracidade – e nunca cumpria

Sonhava com precipícios

Tentava ser mais sincera

Derrubava seus muros

Rearranjava teorias

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Era como se desejasse que nesta Primavera

ela reaprendesse a confiar.

Era como se desejasse que a partir desta Primavera

ela fosse sempre feliz.

Era como desejar que esta Primavera

nunca acabe.

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(não tenho escrito, tenho lido pouco (depois de uma overdose de leitura), diriam que me falta inspiração, eu digo que tenho me preparado para dias lindos, tenho apreciado cada segundo dos dias com menos roupas e de um calor que me faz melhor, tenho pensado – não muito – bem melhor; e só por brincadeira escrevi uns versinhos colegiais para matar a saudade)

As mãos

Tamborilava as mãos sobre qualquer superfície como expressão da carência que sentia. Passava as mãos por corrimãos de escadas, espaldares de cadeiras, puxadores de gavetas, alisava a textura das colchas… as mãos tornavam-se ágeis dias e noites. Incansáveis observadoras das sensações que o mundo – duas doses melancólico, uma triste e três solitário – tão pouco ainda lhe proporcionava. Sentir… jamais imaginara falta que faria. Não estava a pensar em sentimentos, desses nunca nos livramos. Sentir sensações. As mãos tentavam sentir mais. Arrastavam-se pelas prateleiras do supermercado. Demoravam-se afagando os pêlos dos bichanos. Enrodilhavam-se na lã das cobertas. O calor e o frio: como lhe faziam falta. Supria, com as mãos, as sensações que lhe faltavam no corpo todo – e nisso não queria de jeito nenhum pensar. De jeito nenhum. De tanto jeito, não havia jeito: pensava. E pensava… e qualquer contato lhe atarantava. Um dia se perguntara se não sabia mais o que era sentir. Talvez não. Gostava tanto de água, como todos sabem, e se deliciava em senti-la em todas as temperaturas – aí não eram só as mãos que se esbaldavam. Deixava estar o corpo molhado debaixo do chuveiro e, apesar do seu carinho pelas toalhas macias, ficava em frente ao espelho vendo o reflexo da luz nas gotas espalhadas pelo corpo até que tivessem sumido. Achava a pele molhada um quê mais bela e serena. Pegara essa mania de rolar o cabelo entre os dedos, de vai e vem dos dedos no pescoço, de traçar o contorno dos lábios com o polegar. Quanto mais concentrada, durante um trabalho ou problema, mais seus dedos desenhavam o teclado do computador, as bordas da escrivaninha, os limites estreitos da caneta. Até quando dormia, vejam só, na cama larga e firme, as mãos em meio aos sonhos deslizava pelos lados vazios, subia e apertava curiosa os travesseiros. Ou subia um pouco mais e enganchava os dedos na cabeceira de ferro frio como se ali acorrentada estivesse. Apreciava até quando faltava luz só pelo prazer de andar com as mãos espalmadas ao lado do corpo decorando cada aspereza das superfícies. Nem assim avivava as lembranças de sensações há muito desgastadas e abandonadas. Sobre algumas, se perguntava: um dia, as terei de novo? Não sabia. Talvez nem soubesse mais como eram – que para a memória também serve a máxima: a prática melhora a performance. Só o que lhe restava, com um raio, eram legítimas alucinações. E tudo ficava preso em imagens. Imaginar, todos sabem, não é sentir. As mãos não imaginavam, apenas passeavam por um mundo que perdera um pouco da sua leveza. E seu humor lhe garantia que elas, felizes e saltitantes entre texturas e calores e frios, não lhe bastavam. Nem elas, nem a imaginação. E, por isso, às vezes tentava ver-se livre da imaginação e do pouco que as mãos lhe faziam sentir. Sem nada para substituí-las, o mundo a apavorava e ela voltava correndo fazer as pazes e deixava-as – as mãos e a imaginação – livres.

O conservadorismo em Joinville

Dizem que a imprensa é o quarto poder. Ouvi muito isso até que pouco mais de mês atrás eu e algumas pessoas sentimos na pele o poder que ela tem. De destruição, inclusive. Liberdade, pra mim, não tem poréns e sou daquelas que preza a liberdade de imprensa inclusive. O problema não é a liberdade da imprensa de publicar as asneiras, manipulações, mentiras e o que mais for, o problema é que as pessoas, dentro dos seus graus de instrução, culturais, valores religiosos, éticos e etc., têm níveis de compreensão diversos. Eu me sinto à vontade para ler todo e qualquer jornal, revista, assistir este ou aquele canal. Aliás, prezo muito isso porque considero enriquecedor. Analisar como, porque e o que está sendo veiculado é fundamental e é o que eu busco fazer. Por isso, desprezo quem me vem com o “ah, leu na Veja” e em seguida publica um link, sei lá, do Idelber Avelar – e se considera genial. Aliás, já devo ter escrito sobre isso.

Há quem seja oportunista e mal intencionado sem nem mesmo precisar da imprensa (a internet permite isso melhor do que em qualquer outra época). Oportunistas, pessoas mal intencionadas e maus profissionais há em todo canto – como comentei no último post. Há médicos bons e médicos ruins, há arquitetos bons e arquitetos ruins, há gerentes bons e gerentes ruins – e isso em todo lugar. Desejo aqui fazer uma análise (mesmo que longa) e usar tão somente a observação, sem recorrer muito a qualquer área específica do conhecimento ou a dados. Em um ou dois momentos talvez use coisas que a Filosofia conhece bem, mas que qualquer um pode saber – e usarei para fazer uma ironia deliciosa. Antes de começar, devo dizer que conheço pessoas que são professores em Joinville e não são profissionais ruins (para dizer algo além eu precisaria assistir às aulas deles, ouvir alguns alunos e tal). De outros tantos, porém, que conheci já não posso dizer o mesmo.

Dito tudo isto, vou ao que me motivou a escrever nesta tarde chuvosa de um típico sábado joinvilense. Algum dia na vida cogitei fazer a graduação em Jornalismo e até hoje agradeço não tê-la feito – não sei o que ensinam nesses cursos, mas o que vejo me apavora. Até fiz uma disciplina do curso na UFSC, mas, como sempre, foi com o professor banido do departamento. Ótimas aulas, aliás, e um belo dia encontrei-o no twitter. Quando você conhece um ex-esquerdista radical que por considerações práticas e intelectuais abandonou o esquerdismo você se sente menos só no mundo. Pense numa reportagem, num texto jornalístico. Leia vários e vá reparando nas semelhanças e tal. Não é difícil perceber as intenções e o formato. Como nos maus documentários, quando quem escreve/dirige quer dar status aos dados apresentados, ou uma mera interpretação gabaritada, convoca um estudioso, um “doutor”, um sabichão da área. Eles querem, simplesmente, colocar alguém para dizer aquilo que eles desejam, mas pelas palavras de alguém “entendido”, pois eles são meros jornalistas – não podem sair por aí falando de doenças, guerras e educação, seriam, pobrezinhos, acusados de dar a opinião. Às vezes penso que jornalistas ficariam melhor apenas com suas opiniões.

Agora, leia o seguinte texto: http://anoticia.clicrbs.com.br/sc/politica/noticia/2014/09/saiba-como-joinville-vota-para-presidente-da-republica-4608517.html

Li isto hoje pela manhã e confesso que uma revolta de várias ordens tomou conta de mim. Tuitei freneticamente, pensei, repensei, voltei a ler. Não conheço pessoalmente nenhuma das pessoas envolvidas. Fui ler porque desconfiei que o joinvilense vota sempre ao contrário do país, e vi, só na minha hipótese, uma confirmação para a idéia que tenho de que a nossa democracia, como prevista, não funciona. Pois ela foi pensada para uma cidade não muito grande onde o “todos” era apenas uma parcela não muito grande da população – e, neste caso, talvez ela funcionasse. Desconfio que tentar adaptá-la para um país de milhões de pessoas num espaço enorme é uma furada – mas é só mais uma das minhas teorias. E fiquei curiosa, também, porque ontem tive o prazer de conhecer um morador de Joinville que é daqueles que acredita que caminhamos (o Brasil) para uma ditadura cubana. Já tinha ouvido falar dessas pessoas, mas nunca tinha conhecido pessoalmente. Elas existem – e, apesar de serem hoje motivo de chacota, prefiro manter minhas dúvidas. Pensei, antes de ler o texto, “aí estão pessoas como esta”.

Mas me surpreendi com o texto da tal reportagem. Diz ele que em apenas duas vezes o eleitorado joinvilense não acompanhou o resto do país. Porém, o mais surpreendente veio depois. O “argumento da autoridade” (sim, é intencional para remeter às falácias – não sabe o que é? Dá uma googlada rápida) foi o que me deixou abismada. Foram, então, convocados dois especialistas, dois profissionais que entendem de… (algo) para analisar o dado que a reportagem expõe: o joinvilense, por duas vezes não acompanhou a votação para presidente. Os dados são: em 2006 e 2010, os candidatos do PSDB superaram, em votos, os candidatos do PT – o que, como sabemos, não ocorreu na contagem geral dos votos.

Eis que, então, após dois parágrafos de dados, é dada a palavra ao, devidamente apresentado e já, só por isso, gabaritado, “professor de Sociologia e Ciência Sociais da Univille”. Temos alguém com formação e, tentou-se deixar bem claro, currículo – dizer de qual universidade não foi à toa. Como eu disse, não conheço pessoalmente o tal professor. O conheço, porém, do twitter. Comecei a segui-lo meses atrás. Foi difícil. Ele mesmo parecia gostar da pretensão dos títulos e currículo que possui. Depois de ler alguns absurdos, intelectuais e ideológicos, deixei de segui-lo – Twitter, te amo, queria que o mundo fosse como você. Tive meus motivos e pronto, era uma pessoa que eu não desejo conviver nem na ágora virtual que é o twitter.

O tal professor afirma que Joinville é constituída por conservadores, que quando alguém aparece com “idéias e propostas incomuns” não é bem aceito. Segundo ele, ainda, baseado em algum conhecimento histórico, a cidade não era conservadora e tenta usar como fato o dado de uma greve geral da indústria e comércio em 1917. Vamos analisar: os cidadãos legitimamente joinvilenses é que não são conservadores, pois ele afirma que “antes não era assim”, conservador é aquele que torce o nariz para o novo, e como consequência dos dados que a reportagem quer interpretar, quem vota PT não é conservador, este é quem vota no PSDB: um dualismo simples. Outra coisa que podemos perceber: quem participa de greve não é conservador. Pois se os cidadãos participaram de uma greve geral em 1917, então não são conservadores: eis o argumento da autoridade.

Mas agora vem o melhor: ele afirma categoricamente a origem do conservadorismo na cidade. A leva de pessoas do campo, do interior de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná, a partir das décadas de 1940 e 1950 é que tornou a cidade conservadora. Eu preciso copiar as palavras dele (pelo menos a ele atribuídas pela reportagem) literalmente porque não há como explicar um argumento desses:

“— Foram essas pessoas que deram a Joinville uma característica conservadora. A gente costuma dizer: você pode até sair do campo, mas o campo não sai de você. Quem mora no campo sempre vê a mesma paisagem, o mesmo rio, tem a mesma rotina. As pessoas de cidades grandes estão mais abertas a mudanças — argumenta.”

Ele sentencia que “essas pessoas” é que tornaram Joinville uma cidade conservadora (vejam que ele não usa sequer o termo “predominante”). Analisemos: todas as pessoas que moram no campo vêem sempre a mesma paisagem, o mesmo rio e têm a mesma rotina. E, por isso, (como se fosse uma consequência óbvia) não conservadoras. Já que o convocado diz ter formação na Filosofia, eu lembraria do próprio Heráclito, filósofo até que bastante conhecido pela famosa idéia de que nunca entramos duas vezes no mesmo rio. Pois o rio, professor, nunca é o mesmo. Mas o seu camponês olha sempre para o mesmo rio? A paisagem do campo, exposta às intempéries, às estações do ano, aos períodos de plantio e colheita, é sempre a mesma, professor? O que há de mais mutável do que a natureza em si? Sobre a rotina: uma pessoa que mora no campo tem uma rotina mais excruciante e repetitiva do que o assalariado dos grandes centros urbanos (maioria da população destas regiões) que trabalha das 8h ao meio-dia e das 13h30 às 18h, pensando no trajeto casa-trabalho e trabalho-casa (de ônibus ou de carro ou de trem – sempre os mesmos), nos colegas, no ambiente, no trabalho repetitivo de um caixa de banco ou de um cirurgião, sempre no mesmo horário, passando pelos mesmos lugares, tendo o mesmo tempo para as mesmas coisas (refeições, família, etc.)? E há, ainda, uma contradição absurda. Pois se pessoas de grandes cidades “estão mais abertas a mudanças”, o que dizer do joinvilense hoje? Porque ele se refere a um suposto conservadorismo de pessoas que para cá vieram nas décadas de 1940 e 1950. Mas a “maior cidade do Estado” se orgulha tanto – mas tanto – de ser “cidade grande”. E os joinvilenses nascidos de 1970 e 1980 pra cá, na tal “cidade grande”, não têm, então, como serem conservadores porque não vêem sempre a mesma paisagem e o mesmo rio (Sim! Sim! Sim! Entendam aqui a ironia pesada que estou fazendo, você que conhece a paisagem da cidade desde esta época e conhece nosso velho Cachoeira). Que contradição feia, professor!

Há uma regra básica da Lógica (e nem precisaríamos recorrer a ela, pois qualquer pessoa com um raciocínio razoável compreende) que afirma que, se encontramos um único caso que negue uma afirmação, esta é falsa. Ou seja, se ele afirma que “todo morador do campo que veio do interior de SC, PR e RS é conservador” eu afirmo que conheço um – e nos basta um só – desses que não é conservador. Ou seja, o argumento todo dele cai por terra. Um exemplo para ficar bem claro: alguém afirma “todos os cisnes são brancos” (pois ele só havia visto cisnes brancos) e existe um, mesmo que só um, cisne negro, portanto a afirmação é falsa.

Afirmações generalizantes são, por excelência, comprometedoras – mas aqui temos afirmações categóricas. Mas, depois de seguir o tal professor no twitter, não me admira que ele tenha dado essas declarações. A reportagem, contudo, continua pois o jornalismo é uma prática imparcial, como todos sabemos. Nos é apresentada uma outra autoridade, também professora e cientista social da mesma universidade, que diz que Joinville não é tão conservadora assim e justifica: elegeu, anos atrás, um prefeito do PT. Lembram do ovo e da galinha que citei no último texto? E voltamos ao dualismo que para estes dois cientistas sociais (que devem ter algum renome na cidade…) é claro e evidente: votou no PT é “progressista” (nas palavras da professora temos, finalmente, um adjetivo para aqueles que não são conservadores), votou no PSDB é conservador. Você aí, meu amigo, que já votou nos dois… abrace uma crise existencial, a gente deixa.

Como se não bastasse, a professora diz que os cidadãos são progressistas quando se trata da economia (mas não argumenta) e interpreta as diferenças nas duas eleições ao apoio do senador Luiz Henrique da Silveira. Algo mais ou menos assim: o joinvilense vota em quem o atual senador mandar (para quem não sabe, LHS já foi prefeito da cidade por duas vezes e foi governador do Estado). Além de conservador, o joinvilense é boi mandado do Luiz Henrique da Silveira.

Há tantas coisas que se auto-evidenciam no discurso destes professores e justificam minha revolta. Os “joinvilenses”, na fala do professor, são os que fundaram a cidade, e estes têm valores e princípios louváveis – pois não são conservadores. Sim, o conservadorismo aqui é implicitamente negativo e ponto final. Todas as pessoas que moram em Joinville sem terem seu vínculo familiar (e de sobrenome, coisa que é, ainda hoje, praticada na cidade) ou de origem com os primórdios da cidade, não é joinvilense. Aí há xenofobia explícita – de dar inveja ao parodiante “fora haole” da Ilha de Santa Catarina. Há uma parcela da sociedade joinvilense que não considera “joinvilense” aqueles que para cá vieram, como meu avô. Sim, meu avô é nascido no interior do Paraná (vê só, não era do campo, era da cidade e não gostava do lugar onde vivia) e veio para Joinville exatamente entre as décadas referidas pelo professor. Tenho cá pra mim, tomando meu avô como exemplo, que uma pessoa que se sente insatisfeita com o lugar onde vive, que está no interior e se arrisca, arrisca tudo o que tem, expõe a si e a sua família aos dissabores de uma mudança tão radical (ainda mais naquela época em que as distâncias não eram suprimidas como hoje) em busca de um emprego melhor, de condições melhores de vida, de estudo, de possibilidades, não é alguém que se possa, imediatamente, ser considerada “conservadora”. E meu avô se considerava, com muito orgulho, joinvilense. Casos de xenofobia em Joinville não são raros. O próprio prefeito do PT que foi citado referiu-se a um residente de Joinville que se considera joinvilense como se assim não o fosse e que não deveria intervir na cidade – o vídeo foi divulgado na internet. Por isso fiz questão de dizer, linhas acima que conheci um morador de Joinville que acredita na que viveremo uma ditatura cubana em breve – morador porque ele não é nascido aqui, mesmo que aqui trabalhe e tenha sua família há anos que se perdem no tempo. Meses atrás eu tive o desprazer de conhecer uma pessoa no twitter – um machista e ignorante da pior espécie – que morava em Joinville e se considerava tão joinvilense, apesar de manter o orgulho de ser um gaúcho do interior, que me xingou pacas (inclusive me acusou de “manezinha” – para relembrar a rixa chata -, gente, sou curitibana, tá? Quando forem xingar, xinguem direito) porque acompanhou uma conversa minha com um outro joinvilense (nascido em Tubarão!) sobre os problemas da cidade. O tal joinvilense-gaúcho era daqueles que não aceita que falem qualquer coisa da cidade-exemplo do Estado. Volta e meia me deparo, na minha TL, com menções a essa criatura e dá deprê porque me lembro que pessoas assim existem.

Alguém já se perguntou o que seria de Joinville sem aqueles que vieram de outros Estados e até de outros países? Sei lá, o único joinvilense ilustre que conheço que é daqui mesmo é o Juarez Machado, eu acho. Vejam só que curioso, Carlito Merss, o prefeito do PT, é de Porto União (interior de SC). Luiz Henrique da Silveira é de Blumenau. Ambos, então, são conservadores! Está explicado porque o joinvilense elegeu, extraordinariamente uma vez, um candidato do PT, não foi a tal “parcela progressista” da cidade – deve ser lenda, professora. E o Luiz Henrique, evidentemente, é conservador porque não apoiou o Lula em 2006 nem a Dilma em 2010. Mas, pera, o PMDB é o vice da Dilma. Será que entre o dualismo do ovo/PSDB e da galinha/PT há um meio, a casca talvez, que é o PMDB nas relações políticas?

A imprensa está aí, prestando cada vez mais desserviço ao público. Na contramão, temos que estar cada vez mais com as orelhas em pé. Porém, o que me revolta é ver análises rasas e até preconceituosas como essas feitas por professores que se gabam (e como se gabam, no caso do professor) de terem os diplomas e currículos que têm. E, pior, estão em sala de aula. Estão influenciando e manipulando (sim, num sentido muito negativo) as mentes dos alunos que estão ainda em formação intelectual. Muitos alunos, como eu comentava no post anterior, não têm boa formação em casa, não fazem boas leituras, e são cada vez mais desincentivados a ter consciência crítica das coisas. Os professores não ensinam ou estimulam, doutrinam. E aí, presidente Dilma, vamos desmoralizar as Ciências Humanas e Sociais mesmo – nem que seja para espantar um perigo.

Para alunos do Ensino Médio, na disciplina de Filosofia no segundo ano, eu sempre digo que vamos desenvolver a crítica e que, para isso, temos que superar o senso comum e nossas prisões (religiosas, familiares, ideológicas, etc.). O primeiro ano serve como um primeiro momento de contato dos alunos com a Filosofia, contato este difícil, pois eles só vêem Filosofia depois de oito ou nove anos na escola – qual é, então, a importância dela agora que eles estão quase saindo? Despojar-se de preconceitos, princípios, dogmas e do senso comum é um exercício árduo que brinda com um descortinar de novas impressões e sensações – é mágico. É um processo. Causa um alvoroço, é verdade. Mas faz pensar – e não vejo a Filosofia com outra “finalidade”.

Sei que não é, de modo algum, o objetivo de um texto do A Notícia de poucas e pobres linhas provocar a reflexão das pessoas. É, no mínimo, tendenciosa ao querer explorar a relação do eleitorado joinvilense com o partido que ele elege. Não quer nem ao menos levantar a discussão sobre como vivemos numa democracia que uma cidade inteira elege um presidente que não é aquele que vai governar por quatro anos. Que esses não são os objetivos da imprensa a gente entende. Mas ver dois professores das Ciências Sociais partirem para teses preconceituosas, limitadas e estúpidas é lamentável e, sim, revoltante. Não foi a primeira vez que conheci legítimos joinvilenses das Sociais com mentalidades que alimentam dualismos, preconceitos e xenofobia. Eu sempre disse que o problema de Joinville (vejam, falo da cidade) é a mentalidade dos joinvilenses (e, pelos exemplos, joinvilense é um termo que pode ser bastante expansível, né?). Diante de um texto de jornal corroborado por professores locais e relembrando certas coisas e discursos, tenho um vislumbre de onde vem esta tal mentalidade à qual me refiro.

Desejo, por último, dizer que conheço joinvilenses da melhor espécie. Na minha família a maioria é joinvilense. Meu irmão era um legítimo joinvilense. Meu avô e minha avó que para cá vieram há tanto tempo se consideravam joinvilenses. E eu sei que foram pessoas como eles que fizeram desta a tal maior cidade de que tantos se orgulham. Como se orgulham das suas origens alemãs. Orgulho, se bem pensado, não faz mal. As mentes pequenas é que fazem mal, principalmente quando permeadas por intenções da pior espécie. Xenofobia e preconceitos fazem mal. Dualismos categóricos fazem mal.

Eu imagino que bem estaríamos se joinvilenses considerassem e respeitassem os joinvilenses. Até eu, que não tenho nada com isso, ficaria feliz – nem que fosse pelos meus avós.

Ps: obrigada aos meus alunos queridos por eu nunca mais conseguir falar em “senso comum” sem dar umas gargalhadas.

Querida Ernestine…

Querida Ernestine,

vivemos num andar do inferno! No sétimo, não é mesmo? Não a sinto uma personagem, sinto-a uma amiga que conhece as mesmas dores que eu. Sabemos que há dores mais vis, as verdadeiramente insuportáveis, dessas sofremos também. Porém, não dominamos as paixões através do espírito. Nos enganamos, por vezes, a acreditar que somos senhoras dos nossos sentimentos e nada mais parece que uma troça. A cada buquê e bilhetes que recebias eu via os meus… enquanto vislumbravas o teu amado perfeito – que eles sempre são perfeitos – mergulhei junto nas tuas teorias. E quando descobrimos que eles não cabem no molde que tão alentadamente moldamos em longas horas de especulação? Os amamos quiçá ainda mais. A vida não é um livro, uma história com focalizadores e narradores oniscientes. Assim, nosso desespero em não saber o que se passa na cabeça e no coração do outro é incompreensível aos contadores de notas e aos olhos que vêem os números da bolsa. Temos consciência unilateral da história… e dos sentimentos. Que amores começam em atos levianos e somente esses são amores. Os atos levianos nos levam ao contentamento, à fixação do pensamento a toda hora do dia e da noite, aos sonhos, ao olhar insistente pela janela. E então o desespero de não saber o que se passa com o outro esvai-se para termos a certeza que nossa leviandade apaixonou-o. E amor que ama apaixona. Presas, então, de alegrias sublimes por pouco tempo esquecemos o desespero. Ele vem como o tapa mais cruel que mão alguma nos daria: sentimo-nos usadas. Fomos, então, um passatempo. Úteis quando havia tempo disponível. Ocupação temporária entre dissabores. Nosso desespero exposto ao escracho, à maledicência, à indiferença. Sentir-se usada é afogar-se em dúvidas: e os buquês, todos falsos? e os bilhetes, que nos abalavam a alma e que líamos e relíamos escondidas com sorrisos dançando nos olhos, todos friamente calculados? e a esperança alimentada com as promessas, impulso desinteressado? E quando encontrarem nos nossos olhos e palavras o enterro do desespero, jamais saberão que aqui (e aí) dentro ele pulsará ainda mais forte.

Vamos ao piano! Vamos aos estudos de história natural! Vamos dar ordens aos criados! Somos personagens de nós mesmas, fingimos a vida que temos. Não somos bonitas, não temos charme nem usamos as roupas que as moças usam. Temos a expressão imperiosa no olhar que ninguém saberá admirar. Vertemos lágrimas ardentes por alguém que mal vimos três vezes. Não temos, portanto, o mínimo do bom senso. Lançaremos ao fogo sem ler as longas cartas. Manteremos a face erguida durante jantares enfadonhos com os mestres do querer aparecer. Num mea-culpa exacerbado prometeremos mudar o que de certeza nos torna repulsivas. E o quão impossível nos é cumprir a promessa de jamais ser imperiosa! Queremos, até, mudar as roupas e os gestos infantis que nos caracterizam. Talvez amem mais uma mulher com trejeitos de trinta anos! E quem dera eu amasse como a de 28 do nosso querido, quem dera! Travei guerras comigo mesma para que eu não amasse sempre como aos quinze ou aos dezoito! Não há espírito que dome nossas paixões!

O desespero é o doce de coco do desprezo e do ódio por si mesma – como estes tornam-se obesos! E é o nosso destino. Da leviandade não nos arrependemos que só ela proporciona o amor verdadeiro, guardaremos sempre e sempre os buquês e os bilhetes, levaremos decoradas para a eternidade frases e palavras. Evitaremos melancolicamente os carvalhos e os lagos. Por um instante, num sussurrar de um vento distante que chegará de surpresa, cairemos de joelhos diante de todas as nossas resoluções. Todo o desespero que acreditávamos ter afogado as esperanças foi em vão. Teremos a idiota certeza de suplantar, no coração dele, todas as outras paixões. O vento passará breve e em seguida choverá.

Saber-se ou não amado complicará todos os fins.

E o futuro será resumido em poucas linhas.

Ernestine, esses dias me dei conta que sou uma personagem de mim. Vivemos naquele castelo a olhar pela janela, com olhar imperioso e atenção voltada aos livros (e filmes…). Desconfio que sabemos mais da vida do que os que vivem nos grandes salões com olhares agradáveis e amores sinceros. Dói-me, de fato, a despedida; dói-me menos porque sei que ganhei uma amiga. Depois de sangrá-los em algumas páginas, deixemos nossos desesperos, nossos desprezos e ódios trancafiados na torre a espiar involuntariamente o lago e o carvalho até que… até que a melancolia os tire dos nossos pensamentos.

Pela convivência da Primavera de 2013 à Primavera de 2014 (e de um breve encontro no Verão de um ano perdido no tempo), meu muito obrigada, Stendhal.

Nos encontraremos sempre.

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