A presidente Dilma não tem mesmo nada contra a Filosofia e a Sociologia?

Entre cansada de ouvir “por educação, saúde e segurança” e revoltada com as declarações de candidatos e governantes sobre seus planos para a educação mais especificamente, me veio aquele sentimento de obrigação de dizer cá umas coisinhas. Eu queria muito evitar. Mas, pelo visto, não consegui. Pois ao contrário de uma maioria, eu acompanho a campanha política, assisto e ouço as propagandas, procuro os sites de alguns candidatos, leio e vejo entrevistas. Faço isso desde antes de eu ter o direito de, alegremente, aos dezesseis anos fazer meu título.

Foi minha educação, em casa, e minha formação intelectual que me fizeram assim. Eu assistia às propagandas da época que o Voltolini era candidato a prefeito – e nunca ganhou, tadinho. Eu ia com minha avó e com minha mãe votar no Círculo Operário (alguém lembra?), chão de tábuas, uma mesinha com um biombo de papelão, cédulas de papel, e fazia o X por elas. Fui ao aeroporto de Joinville pela primeira vez para ver o Affif (alguém lembra?). Lembro de meu avô e meu pai conversarem sobre as dúvidas que tinham sobre o Collor – antes mesmo de tudo o que aconteceu. Certo que não entendia tudo desde o começo, mas ouvia e via bastante. Não foi, porém, suficiente para frear meus arroubos juvenis dos dezesseis – confesso. Para terminar o circunlóquio histórico, conto que foi um choque o dia que vi no título de eleitor da minha mãe que ela o fez, pela primeira vez, no ano que eu nasci. Vá lá, não faz tanto tempo assim… minha mãe não teve o orgulho que eu tive de fazê-lo (e sentir-se um pouco gente) aos dezesseis.

E são esses jovens de dezesseis e dezoito as grandes vítimas das campanhas. Não têm boa formação escolar, muitas vezes não a têm em casa também, são confinados aos pensamentos de tutores intelectuais duvidosos, sentem-se sempre insatisfeitos com o agora e esperançosos com o futuro. São eles que mais caem no discurso de políticos que acenam com maravilhas – sejam as que já fizeram, sejam as que ainda farão. São eles que acreditam que o que eles têm/são foi por algum tipo de benesse ou benção do Estado. E assim, assustadoramente, pensam a vida inteira.

Como citei, a tríplice “educação, saúde e segurança” é repetida para além da exaustão. Pensei em usar como critério não votar em nenhum que resvalasse nela: acreditem, a chance de votar nulo para todos os cargos é enorme – só reparem. Conversando com minha mãe, ela dizia quais os pontos principais que procurava num candidato, de acordo com a idade e situação dela. Pois eu sou um tanto chata, como todos sabem, e discordei. Política, pra mim, é por todos e para tudo. Eu sei, vocês não são assim. Não consigo atinar ao certo como este pensamento egoísta veio parar na política. Ah, sim, na Política não há o pensamento egoísta, na politicagem, sim. E esta é o que se pratica hoje. Na politicagem a gente vende o voto para aquele candidato que enche o nosso tanque de gasolina, dá um emprego pro filho, consegue vaga na creche mais perto de casa. E vota naquele que oferece alguma benesse que agrada aos nossos interesses. Desculpa, gente, não consigo.

Minha mãe descartou, por exemplo, a preocupação com a educação porque os filhos (graças a Deus) não estudam mais. E aí eu tive que, novamente, discordar. (Cêis acham que é fácil ser minha mãe? É, não.) Soltei: e teus netos? E fui adiante: um monte de problema que a gente tem na sociedade é decorrente da educação. E não são? Eu sei, eu sei. Colocar toda a culpa e responsabilidade na educação já tornou-se discurso batido. Mas não irei para este lado.

Numa propaganda da Dilma sobre educação, ela cita a lei que entrará em vigor obrigando as crianças a partir de quatro anos a entrar na escola. Quatro anos. Ela diz, também que há um compromisso com a alfabetização de todas as crianças até os oito anos. Oito anos. Faz auto-elogios rasgados aos cursos profissionalizantes e PRONATECs da vida. Citava, como o Vignatti e tantos outros, a “valorização” do professor. Todos, acredito que sem exceção, falam em implantar o período integral nas escolas de todos os níveis. Por último, a “modernização” das escolas e do ensino (?) é também amplamente prometido.

Lhe digo que foi a propaganda da Dilma que despertou minha revolta. Crianças de quatro anos sendo obrigadas a ir para a escola? Para garantir (ou prometer) a alfabetização das mesmas só aos oito anos? Eu ainda não tenho filhos, mas enquanto assistia comentei que filho meu jamais – jamais – irá para a escola aos quatro anos de idade.

Fazendo mais uma digressão: eu entrei na primeira série aos sete anos recém completados. Não canso de contar a história do meu primeiro dia de aula: a caminho da escola disse ao meu pai que não queria ir. Aí ele me respondeu: se você não for, o pai vai preso. Imaginem o drama, senti um nó na garganta. Sei que por muitos anos a imagem do meu pai preso foi a única coisa que me manteve na escola. Detalhe: eu entrei na escola aos sete anos já sabendo ler, escrever, somar, subtrair, dividir, multiplicar e identificando formas geométricas. Sim, orgulhosamente eu conto, também, que fui alfabetizada em casa, pela minha irmã. Minha mãe foi professora, inclusive da minha irmã, mas não foi ela que me alfabetizou. Contudo, em casa e na rua eu sempre fui corrigida, ensinada, e sempre tirei minhas dúvidas ao ver descortinado o maravilhoso mundo das letras quando via placas, folders, legendas. A alfabetização é o teu passaporte de liberdade para o mundo. Qualquer um que viaja para outro país sem conhecer o idioma sabe do que eu estou falando. Qualquer um que conhece pessoas semi-analfabetas, analfabetas ou analfabetos funcionais sabe do que eu estou falando. Até hoje sou saudosa que aos sete anos eu sabia fazer contas melhor do que sei hoje.

Ah, mas sou uma branca, classe média, nascida e crescida em grandes centros de grandes cidades. Sou aquilo que chamam de privilegiada. As primeiras vezes que ouvi isso achei que era xingamento, hoje tomo como elogio. Sou, sim, privilegiada – pela família que tenho. E, por favor, não cometam a falácia de dizer que não posso escrever sobre lugares, cores de pele, situações sociais que não aquelas às quais eu pertenço. Eu sei que vocês são espertos e não farão isso. E já fui tantas vezes acusada disso que acharia extremamente repetitivo da parte de vocês.

Eu conheço de perto o que o analfabetismo, coroado por professores e alimentado por pais negligentes, causa na vida das pessoas. Pauto aqui o que escrevo sobre educação pelo que vi e vivi. Fui uma aluna difícil. No começo da adolescência eu lia muito, via filmes e documentários e tal. A repetição da escola era mortal pra mim. Além do mais eu tinha boa memória e rever tantas coisas não me motivava em nada. Conhecia alguma coisa do ensino em outros países e via lá fora soluções que não eram implantadas aqui. Sou do tempo de quadro de giz e livros didáticos, papel e lápis. Lembro bem quando fiz meu primeiro trabalho em Power Point, na quinta série, e fui a única a usar tal recurso. Tínhamos computador porque era o trabalho do meu pai e da minha irmã e eu era uma autodidata nessas coisas de informática. Foram dois trabalhos que me marcaram desta época, sobre tsunamis e sobre o Fagundes Varella. Ambos feitos no computador, porém com conteúdos tirados nos livros e enciclopédias de casa e da biblioteca.

Para tentar ser objetiva: considero um crime colocar crianças de quatro anos na escola. Ao ver tantos candidatos prometendo o ensino integral, me perguntei: pra quê? Vão ensinar mais? Vai ficar mais tempo na escola pra quê? E a “valorização” do professor se resume a salários mais altos. Simples assim. Médicos e engenheiros são profissionais valorizados na sociedade desde quando passam no vestibular porque os salários iniciais previstos não são menos que cinco mil reais. Só por isso, vai ver. Professor, de ensino fundamental e médio sejamos claros, é um profissional desvalorizado (e não estou me referindo aos salários) porque de casa não se valoriza o ensino. Me referi aos professores de ensino básico porque na nossa sociedade o status do professor universitário é outro, e não me venham de ladainha. E as promessas de tablets para todos os alunos? Vontade de dizer para um candidato desses: vai lá, entra na sala de aula e tenta dar aula para aqueles olhos enfiados nas telas touch screens. Tenta, malandro. Porque enquanto escolas debatem como proibir o uso do celular e dos tablets em sala de aula, os candidatos dizem que vão dá-los a todos!

Sim, há problemas no ensino. Não, não serão resolvidos com crianças sendo obrigadas a frequentar escolas nem com tecnologia de ponta distribuída entre alunos e professores nem com salários mais altos para professores nem com crianças e adolescentes trancafiados em escolas por mais horas. Não.

Minhas reflexões iam por aí… não só como professora ou como futura mãe e estudante. Fui uma aluna difícil, já disse, e no ensino médio eu larguei os estudos. Não tinha capacidade nem interesse algum em Matemática, Física e Química; detestava o ambiente escolar (pessoas); morria de tédio na carteira (mais comum era me ver de cabeça baixa lendo durante as intermináveis aulas); tirava notas boas a medianas; elaborava colas geniais para as disciplinas desinteressantes mas para as quais eu precisava de nota. Tive, na época, problemas familiares e tal, e um dia resolvi não mais estudar. Dizem que minha mãe passou maus bocados (e eu acredito nos testemunhos, já disse, ser minha mãe não é fácil). Só por ela que eu tive idéias mirabolantes para voltar a estudar. Me sentia muito esperta na época. Nunca fui nerd, nem CDF, nem gênio. Só achava tudo aquilo muito entediante.

Como professora eu aprendi que é preciso atrair os alunos, com o meu comportamento, com idéias, com provocações. Mas meus piores momentos como professora sempre foram as dificuldade institucionais alocadas nos alunos. Adolescentes são inteligentes, são espertos, são maliciosos, sabem se expressar, são pessoas completas. E eu nunca pude chegar ali na frente deles e ignorar isso. As dificuldades que eles traziam das aulas de Português, as dificuldades que eles traziam das aulas de História e Geografia. Os problemas seríssimos no simples ato de ler e escrever corretamente. Problemas que vinham das famílias, pais enlouquecidos pelas notas dos filhos, pais ignorantes (no sentido pejorativo) que incutem nos filhos o desinteresse pelo conhecimento, pais ausentes, a violência que cada um traz na sua história. Eu vejo adolescentes inteligentes na minha frente, mas marcados pelos crimes das instituições. E dói. Dói muito. Por isso que cada reconhecimento, cada comentário numa avaliação, cada elogio, cada mensagem é que significa, pra mim, a tal valorização do professor. É saber que entre tanto descaso eu consigo fazer o meu trabalho. O Estado, alguns professores e as famílias não têm idéia do mal que causam às crianças e adolescentes.

É quadro e giz e, no máximo, livro didático e você tem que dar aula de Filosofia. Mas eles são inteligentes e você não os subestima, é claro. Dispenso fácil qualquer projetor, slide, tablets. Queria, ao menos, uma biblioteca. Sabiam que há inúmeras escolas que sequer têm bibliotecas? Ou muitas que têm mas vivem fechadas porque não há funcionário responsável?

Fui pensando em tanta coisa até desistir de escrever sobre. Diriam que são coisas muito pessoais. Mas não pude me calar ao encontrar, parcialmente, resposta para algumas das minhas dúvidas na entrevista da Dilma ao Bom Dia Brasil ontem (22 de setembro).

Ao falar de educação, ela proferiu uma frase que selou de vez minha indignação – seguida do que pareceu, no momento, uma proposta/resposta. A presidente do Brasil consolida a idéia de que o ensino é maçante e critica as doze disciplinas às quais os alunos são submetidos – e frisa que dentre estas doze estão Filosofia e Sociologia. Ao perceber o ato falho, ela em seguida acrescenta: nada contra Filosofia e Sociologia. Não, presidente, nadinha contra as Humanas e Sociais, né? A fala dela sugeriu uma reforma curricular que não ficou clara em absoluto. Ou seja, deu uma resposta que eu queria. Então, teremos, de fato, uma reforma curricular? Em quais moldes? Seguindo quais exemplos já existentes? Por que, presidente, esta proposta de reforma curricular não foi apresentada na sua propaganda na TV? Era o que eu queria perguntar. Tudo o que eu desejo para o ensino no país é uma reforma curricular – evitando a demagogia do período integral e de doação de tablets. Sobre reforma curricular eu sonhava nos meus tempos de aluna do ensino regular. Concordo que a resposta seja uma reforma curricular, em primeiro lugar, e uma rigorosidade com os profissionais da educação. Contudo, o único misto de sentimento e pensamento que pude ter foi temor. Temi pela volta do tecnicismo do ensino escolar – tal qual na Ditadura, lembra, presidente? Meu pai aprendeu marcenaria na escola, o que lhe vale muito até hoje e eu sempre elogiei, mas as razões para eles ensinarem isto nas escolas não era das melhores. Há anos o Brasil entrou em crise de profissionais das engenharias, das tecnologias e correu-se a abrir cursos e dar incentivos para formação. Ficou claro que nos espelhamos na China. Hoje temos dados que comprovam que não faltam profissionais formados nas áreas da educação, mas há desinteresse na profissão. Não passou o tempo em que era mais fácil passar para as licenciaturas e era lá que paravam os que “não davam em nada” ou não eram muito inteligentes? O interesse em transformar escolas em meros centros formadores de técnicos e de mão-de-obra qualificada para Exatas e Tecnológicas é evidente – e muito preocupante.

Vai ver por isso que não saber ler nem escrever não faça muita diferença. Ah, e vai ver que por isso Filosofia e Sociologia sejam tão dispensáveis. E é, queridos, no que muita gente acredita.

Me revolta ver a situação do ensino. Me revolta ver uma presidente falar assim. Me revolta ver que não é na escola que devemos ser incitados (pois não é algo que se ensine) a pensar.

Soluções? Respostas? Abraço os filósofos e sociólogos. Primeiro ponto: não desejo que o Estado diga o que e como meu filho deve aprender. Segundo ponto: responsabilizo, antes de qualquer coisa, os pais pelos filhos que colocam no mundo. E se a lei fosse que todo pai e mãe deve ser o responsável pela alfabetização do próprio filho até os sete anos? Quantos pais e mães se revoltariam a bradar que isso é “responsabilidade do Estado”? E se as escolas fossem só três dias por semana? E se as “escolas” fossem criação de comunidades de pais e professores que elencassem suas prioridades e interesses, assim como voltadas para os talentos e habilidades dos alunos? E fossem financiadas pelos pais em conjunto com verbas públicas? Princípios liberais demais para um país que está preso em “o que veio antes, o ódio ao PSDB ou o ódio ao PT”, não é mesmo?

Vejamos alguns pontos que não vejo sendo discutidos e que são menos “liberais”: traduções, preços e acesso a livros; política menos dispendiosa e corrupta de livros didáticos; bibliotecas em todo – todo – lugar; acesso a conteúdos on line (como li numa entrevista esses dias, inclusão digital não é disponibilizar conexão); currículos de graduação e pós abertos e verdadeiramente multidisciplinares (palavrinha mágica que ouço desde o fundamental e não, não é só colocar um trabalhinho que una conteúdos de História e Geografia ou Física e Química); formação avançada no ensino médio para mapear as habilidades e interesses dos jovens antes da graduação (medida que não é do interesse tecnicista); a não ideologização do ensino, principalmente nas áreas Sociais e Humanas (difícil, hein?); contemplar mais áreas específicas do conhecimento (meu problema atual); rever as disciplinas como Artes e Educação Física que não devem ser meros “passatempos” para o aluno, mas que são essenciais na qualidade de vida, raciocínio e desenvolvimento intelectual e físico.

Pois repito: não desejo que Estado algum determine o que vai entrar na cabeça do meu filho. E pais analfabetos, como alfabetizariam os filhos? Bem, aí talvez nós olhássemos de vez para a vergonha que é ter um número tão alto de adultos analfabetos. E não os jogaríamos nos CEJAs e outros cursos relâmpagos que só dão diplomas para conseguir “empregos qualificados”. O retorno e o vínculo entre pais alfabetizados que alfabetizam os próprios filhos seria inestimável, tanto para as famílias quanto para a sociedade.

Ah, sim, outra objeção possível: e o tempo? Como fazer com o tempo dos pais que só trabalham e trabalham e trabalham (ó, a sociedade consumista assim o exige!)? Lembrei, então, do que me motivou de vez a escrever esta longa revolta: a propaganda do Dário Berger ontem na TV. Sabe o que ele disse? Que vai lutar pelo ensino em período integral por você mãe (sim, ele disse mãe) trabalhadora que quer ter onde deixar seus filhos. Preciso comentar o machismo ultrapassado de colocar nas costas da mãe a obrigação de criar e cuidar dos filhos ou o óbvio não precisa ser frisado? Só a mãe trabalhadora não tem onde jogar o filho. Vejam bem, eu sei que há uma maioria de “mães de família” e que talvez, só talvez, ele esteja de olho nesta fatia do eleitorado – porém não acho que seja o caso, pela falta de inteligência da propaganda acredito mais no machismo mesmo.

Então finalmente um candidato teve a cara de pau (bem estilo do Dário) de dizer com todas as letras o que é, afinal, o ensino integral. É ter onde jogar crianças e adolescentes. Não tenho confiança numa sociedade que faz filhos e depois acha que é dever do Estado dar tudo para eles, desde saber as vogais e consoantes, e, ainda mais, cuidar deles a maior parte do tempo – porque o que sobra hoje é pai e mãe que mal convivem com os filhos. Por que fazem filhos? Eu fico na dúvida. Se não tem tempo para levá-lo pra escola, pra jogar bola, pra levar pra passear, pra assistir TV junto, pra fazer as tarefas de casa, pra ensinar como funciona um motor de carro (ah, eu aprendi, papi ensinou!), pra levar pra cozinha pra fazer bolo, pra contar uma história antes de dormir, pra levá-lo num museu… pra que tê-los? E, sério, não preciso ser mãe pra saber, mas estão perdendo (ambos) a melhor parte.

Vejam só, os problemas são bem mais graves do que julgam as vãs propagandas e promessas eleitorais. Deve ser falta de Filosofia e Sociologia na escola (né, querida presidente?). Tive alguns excelentes professores e guardo comigo muitas coisas (reflexivas) que aprendi com eles. Uma delas é que governo nenhum quer que o povo pense – desde antes até hoje, tudo igual. Filosofia e Sociologia, como as Artes (incluo aí a Literatura e as aulas de redação, mas é extensível às Humanas em geral), não são aquelas disciplinas que você tem que decorar fórmulas, cálculos e conceitos. Como acrescentei no parênteses, História e Geografia também devem incitar à reflexão e ao pensamento crítico. Minha crítica sempre foi que não nos deixassem pensar. Aprendi muita coisa com as Exatas também, apesar de não ter muita afinidade e ter também um certo desinteresse. Estive num museu de ciência e tecnologia esses dias e me diverti horrores com tudo que eu aprendi algum tempo atrás e que uso pouco ou quase nada no meu dia a dia. Por isso, sim, uma reforma se faz necessária – mas antes nas cabeças das pessoas. E, não, isso nada tem a ver com políticos.

Vocês sabiam que fui chamada de “revoltada” por muitos professores? Até na graduação (na banca de mestrado meu orientador disse que eu tinha “idéias próprias”, não sei se foi elogio ou desabafo). Aí minhas revoltas acabam assim em quatro páginas – e ainda são insuficientes. Pensei mil coisas que não vieram parar aqui. Qualquer hora vou reler e anotar o que esqueci de escrever. Ah, esqueci de comentar que lamento ver meus colegas das Artes, Humanas e Sociais como os grandes apoiadores (e supostos intelectuais) deste governo que deixou claras suas intenções acerca do ensino, além do desprezo com as nossas áreas. E, vejam só, para quem largou os estudos por alguns meses e só voltou por pena da mãe, porque recebeu bolsa de estudos e foi sempre uma aluna difícil e irritante, sinto-me ainda mais privilegiada por ser moradora de grandes centros urbanos e que ainda não parou de estudar. E nem pretende. Ah, jamais subestimem o que eu conheço daquilo que vocês concluem que eu não devo conhecer. Só uma dica.

“y yo sentir”

 

Antegozando o prazer dos sucos de acerola que se encontravam nas minúsculas flores brancas que eu via da janela, pensei: não tenho porque ficar triste. Terei dias de sol, terei sucos de acerola, verei meu cachorro pulando para comê-las do pé, terei banhos de mar, terei destinos novos a me deliciar. Sem rumo, sem horários a cumprir, sem novas paixões, sem certezas: e cá estava a sorrir e a dançar. Uma lunática, diriam. Uma mimada, de fato. Uma sonhadora, sem dúvida. Ah, sou daquelas que pára a vida para gozar o pôr-do-sol. Senão a vida não é nada mais que um senão. Das guerras travo as mais distintas e tem dias que não quero ganhar. Pensava em enterrar amores, de novo. Ou quase-amores. Talvez amanhã eu pense em prazos. Não conheço nada que dure para sempre e assim enterro e dou fins como se, sim, houvesse amanhãs. Há amanhã: não tenho porque ficar triste. Não tenho bens móveis, nem imóveis nem uns meio-parados-meio-andando. Não tenho dinheiro no banco. Não tenho carne da minha carne nem sangue do meu sangue. Não tenho contratos. Tenho uma dívida ou outra para que alguém sempre lembre de mim, para ouvir ao menos o telefone tocar. Tenho passagens compradas porque parar me mata. Não leio mais notícias. Tenho cá novas dúzias de fotografias. Espero que no próximo ano a cerejeira da minha janela dê frutos que já será hora. O canteiro de roseiras cresce com vigor. Não deixo mais de apreciar o sobe e desce dos aviões. Sei que tem quem não precisa mais de mim – dói, de dor entendo, sobre qualquer outro sentimento nunca sei direito o que fazer. Desconfio que faço, agora, o que é certo pois as gatas retornaram a minha cama e de prazeres elas entendem. Devorava uma sopa de feijão acompanhada de um Vitor Hugo e pensei: preciso de malícia. Reparei bem e falta-lhe, ó, Mundo, malícia. A doce malícia, não a vil. Preciso do sol a queimar a pele e de pés descalços, não nego. Talvez, até, esteja precisando de palavras. A Primavera já levou muitos dos meus amores – é quando mais a vida me tira quem amo e a quem um dia amei. E, sei lá, é nela que boto fé. Não tenho porque ficar triste, o inferno não dura a vida toda. Sofrer de véspera é meu lado perua (vê só, nunca usei estampa de oncinha), mas antegozar o intangível é o quê? Sei não. Não sei se quero saber. Como diz a canção “tu empeñada en que querías ser feliz y yo sentir”.

que lhe cabe

Amara as madrugadas. Amara o pôr-do-sol. Amara, um dia, ver o sol raiar. Amara ver a lua nascer. Amara as intermináveis conversas em horas que todos calavam. Amara o lilás das fotos do incerto do dia, quando não se sabia se luz havia. Amara as manhãs em que a alegria não via o relógio mudar o ponteiro. Talvez nunca tivesse amado o meio, em que não era manhã nem noite e demoravam-se a ir embora – as tardes. Amara ouvir os começos vagarosos do dia e os fins exaustos dos mesmos. Amara os silêncios. Quando pensava demais eram só eles que tinham autorização para lhe fazer companhia. Silêncio de si, do dia, das bocas alheias. E lhe custava, agora, sequer pensar nas bocas alheias. Deixemos pra lá. Amara um por vez, alguns ao mesmo tempo, sem muita contradição, e mudava seus amares às vezes conforme a estação, às vezes ao sabor do humor ou até da idade. Nunca foi sempre a mesma. E não entendiam. Por isso agora ela já não se importava – sofria um tantinho, é claro, só para acreditar que não era assim tão desumana como lhe diziam. Tinha tanto amor, quem sabe.

Ama os fins de tarde. Se fosse o capítulo de um livro, o título de um filme ou de uma canção, seria: os minutos dos desejos. Pois é ali naquele tempo mais pra cá ou pra lá entre o dia e a noite que os desejos estão à flor da pele. Não é ao amanhecer, nem na alta madrugada. E o fim de tarde, de fato, não existe. Ele fica perdido entre minutos que calculam o hemisfério, a despedida do sol, a demora da lua, os encontros e desencontros astrais. E talvez por isso fosse amor contínuo. Para quem vive aos números, não existe o fim de tarde – pois a tarde acaba às 18h no mesmo instante que começam os protocolos de “boa noite”. Quem lhe dizia “bom fim de tarde!”? Ninguém. E no aflorar dos desejos é que existe o melhor do dia. Um silêncio frio reinava sobre os impropérios de uma TV esganada em algum andar do prédio e da furadeira incansável do vizinho que prolongara a manhã e a tarde. O fim de tarde é o ar frio de qualquer estação que súbito avança até os ossos. É este instante. O fim de tarde é a folga dos pensamentos suplantados por puros – nem tão puros – desejos. São as partidas. E a solidão de quem fica. Não há um poro que não respire o fim do dia. Ou da tarde, que a noite ainda é do mesmo dia. São os corredores e xícaras vazias. É a mão fresca a massagear a nuca. É esticar a coluna. É o olhar vago e o suspiro. Ama os fins de tarde como jamais amara alguém. Às vezes ouvia até o zumbido do ouvido e ficava a desejar. Desejava fechar os olhos e deixar a vida entregue às promessas da noite. Às vezes era só nesse instante do fim de tarde que a vida lhe pesava de verdade. Nas outras horas ela fingia carregá-la com grande alegria, esforço e vontade. Ela desejava fazer confidências, confessar medos, rasgar verdades. E calava. Desvairava pensamentos distantes da realidade, esta que a todos os outros momentos lhe espancava a alma. Pois desejava e desejos são da alçada da alma. E a noite tão solícita com as falsas esperanças das pessoas chegava sem hora. Deixava-a ali a obrigar-se a seguir. Apreciava o frio nos pés e mãos, o corpo dolorido, mas já não era mais possível. Os sons que espantavam o silêncio, o violão da aula que começara no andar de cima, os carros chegando na garagem, as portas que batiam, a luz artificial: os desejos não mais vibravam na pele. Era a noite. Já não sabia ao certo, mas por esses tempos as noites pouco lhe importavam se não trouxessem algum prazer ilícito. De resto as via como as malvadas que lhe sacavam os desejos à flor da pele. E eles ficariam ali encantados sob um manto de obrigações e olhos sem destino até o próximo fim de tarde. Ama os fins de tarde que é o amor que lhe cabe.

Tempo é amor

 

Diálogo real

– É casada? Namorado? Um ficante? Um rolo qualquer? – ele me interrompe com cara séria.

– Não. Não. Não. Não. – eu, com um sorriso complacente – Você me pergunta isso toda semana, sabia?

– Sei, sim. De um dia pro outro pode mudar. – ele, ainda sério.

– Ah, não… acho muito difícil. – já preparo meu sorriso de ‘vou fazer uma piada idiota’ quando o assunto fica sério. (sempre faço isso e sei que não adianta, mas não desisto)

– É isso que eu não entendo. – sim, a seriedade já me assusta.

– Não entende o quê? – aí libero meu sorriso extra-mega-super-simpático.

– Você não ser casada, não ter um namorado grudado em você. Você… (uma ênfase, uma pausa, uma coragem) você seria a melhor esposa. Como é que não tem ninguém com você? – como se fosse possível, ficou ainda mais sério.

– Ah, eu seria uma boa esposa? Você nem sabe se cozinho tão bem e, ó, não passo roupa e nunca peguei um bebê no colo. – eu sei, eu sei, minhas tentativas de fazer piada falando sério são um fracasso.

– E daí? Eu poderia passar a vida inteira ouvindo você falar. – e aí ele combina a seriedade com um sorriso encantador (pois eu já ouvi isso antes e já vi dúzias de sorrisos encantadores na vida).

– Ah, aí eu duvido mesmo. Ninguém suporta me ouvir, sabia? Começo a achar que isso aí é cantada barata. Conheço as pessoas e me conheço, falo demais, de mil coisas e ninguém aguenta mais que meia hora. – eu, séria com um meio-sorriso sarcástico querendo encerrar o assunto.

– Eu gosto de te ouvir. Tudo o que você fala, sabe? Me faz ter idéias. Me faz querer falar de mim. – a seriedade desapareceu, o sorriso também, e pude vislumbrar uma melancolia.

– Mas eu já não te disse que pensar demais faz mal? – dou o meu melhor sorriso – Deixe esse mal pra mim, acho até que já me dou bem com ele.

– Mas nunca vou entender você sozinha. – não sei se foi insistência ou persistência dele, mas com sorriso maroto.

– É que não depende dos outros, entende? Depende de mim. E por mim, só você sabe, viu?, tenho preferido conviver com as idéias. – aí a melancolia era minha, sem seriedade e sem sorrisos.

– É… não sei se entendo. – e aí um anjo dos céus interrompeu a conversa que já tinha ido longe demais.

Pessoas especiais: tenho o prazer de tê-las na minha vida. Este 2014 mucho loco me presenteou com algumas delas. Mas, quase tudo de bom que 2014 me deu, também me tirou. Este rapaz do diálogo é mais uma dessas pessoas especiais e tornou-se ainda mais nas últimas semanas. Não foi a primeira vez e sei que não será a última que passarei por um interrogatório sobre ser ‘sem’ marido/namorado/ficante/peguete. Não vou escrever sobre como, ó, a sociedade oprime as solteiras e como as cabeças nos obrigam a estar com alguém. Lá fora as coisas realmente são assim, aqui não.

Fiz a piada de não cozinhar tão bem nem passar roupa ou segurar um bebê (é tudo verdade, viu?) porque eu sei o que um homem ainda espera de uma mulher como conjugue. É triste mas é real – não seria a realidade sempre algo triste? Comentava, esses dias, com umas pessoas sobre isso e chegamos à conclusão (li alguma coisa que me levou a isso também, mas nem lembro o quê) que o homem continua com a mesma visão machista, mas agora ele exige que ela trabalhe. Eu juro que não vou escrever muito sobre essas questões porque estou perturbada e bêbada de Stendhal – guru, amigo, irmão de pensamento. Do jeito que os homens querem as mulheres eu não quero ser esposa/namorada/amante. Já disse, meu último relacionamento acabou no exato instante que ele quis discutir a estampa da cortina da cozinha do apê dele. Mas, Jesus, quero nascer de novo se for pra passar por isso.

Eu quero escrever sobre dois pontos: as palavras (que não devem ser ditas) e o tempo. Sobre as palavras há uma preocupação de ordem acadêmica e criativa, confesso, que me persegue há anos e agora vou me dedicar a estudá-la com mais afinco, mas pra hoje temos algo informal. E sobre o tempo… bem, o amor pode ser aquilo que inventaram só pra justificar nossa procriação, mas o tempo existe sim.

Sou reconhecida por falar (demais, diriam uns) e fui sincera quando disse que ninguém me aguenta muito falando, muito menos pelo resto da vida. Dizia lá uma pessoa querida da minha adolescência que devemos casar com quem gostamos de conversar porque quando tudo acaba, só resta um bom papo (já devo ter escrito isso aqui, além de falar demais ainda me repito). Passei muito tempo acreditando nisso. Até que aprendi a delícia do silêncio a dois. Já pensou se eu fosse casar com todos que me deleito conversando?! Ia ganhar cartão de pontuação de fidelidade de cartório. Mas, não, pois se tem algo que afasto com veemência da minha vida é a banalidade. E as palavras banalizam as relações. Eu raramente digo o que sinto. Porém, não deixo de sentir jamais. Tem um exemplo que vou antecipar aqui sobre o dizer não dizendo. Na “Esse cara sou eu” do Robertão, que eu acho linda-maravilhosa-perfeita e suspiro toda vez que toca, tem um verso – só um – que eu diria pro Rei trocar. Quando ele canta “e no meio da noite me chama pra dizer que me ama” (eu sei, os malas reclamam dessa música – seria porque despertou neles o quanto eles não são ‘esse cara’ para suas respectivas? (quando homens) e porque despertou, nelas, o quanto o ‘cara’ delas não tem nada de especial?). Eu mudaria o “dizer” por “mostrar”. Só isso. Porque o meu ‘cara’ deve me chamar no meio da noite pra mostrar que me ama. Poderia ter resumido o parágrafo todo por “atitudes valem mais que palavras”, mas, vê, falo/escrevo demais.

Escrevo, é um hábito, um exercício, uma profissão de fé. Gosto de ver idéias em palavras (apesar de que a praia agora é outra). Mas eu não sou palavras. Muito menos relacionamentos o são. Em tempos de Whatsapp é difícil entender, eu sei. Quem diria que chegaríamos a este ponto da revolução tecnológica para ficarmos dependentes de comunicação viciada em… palavras (mal) escritas. Nem Bradbury teria previsto algo tão insignificante.

E, enfim, sobre o tempo. Além do Stendhal, sei que o último fim de semana maravilhoso me fez voltar os pensamentos a esta questão. Quis escrever sobre ela faz uns meses, porém 2014 não tem sido querido. Sim, a teoria de que o amor é algo inventado (e não é exclusividade cristã) para nos diferenciar dos animais e justificar nossa procriação não é minha. Lembro de ter pensado isso em algum momento glorioso da minha adorável adolescência (enquanto as amiguinhas namoravam desde os doze anos com quem hoje já são casadas) e é bem provável que fui influenciada por algo que li na época – sim, eu lia muito, foi o que me estragou pro resto da vida. Também não é nada original que amar é doar o seu tempo. Despender tempo com as coisas e as pessoas é a única real demonstração de amor que existe. Em especial para uma pessoa que é solitária por prazer. Não são declarações (as quais, aliás, acho que nunca fiz – pensava cá esses dias), não são buquês de flores, não são cartões e bilhetinhos, não são presentes caros, não é apresentar para os amigos/família, não é nem aquele sussurro ao pé do ouvido na alcova (sim! Também quero escrever sobre isso) nem andar de mãos entrelaçadas. É dedicar tempo. E, ah!, como tenho amado por estes meses!

Fui no aniversário de uma amiga de longa data e eu era a única sozinha ali – eu e a aniversariante. Todos os outros convidados eram casais. Já não sou das mais sociáveis, como todos sabem, e no meio de um papo que girou sobre “dormimos juntos sexta, sábado e domingo” (todos deram esta mesma resposta e ficaram analisando se configurava união estável ou não e tal – havia advogados no recinto) e os financiamentos da Caixa para comprar o apê, além de onde o piso ou o forno de embutir era mais barato, é óbvio que entrei em tédio profundo. Elas ali querendo parecer sensuais e gostosas e maduras e eles a fazerem piadas infantis e poses ridículas e comentários idiotas. Fui me servir e encontrei a aniversariante pegando refrigerante, aí fui obrigada a comentar “E aí, só nós duas sobrando ali no papo de casal. Mas tem cachorro-quente, aí é a nossa praia, né?” e ela deu uma sonora gargalhada. Ela me conhece faz muito tempo, sabe de histórias e histórias, e eu posso dizer o mesmo dela. Aliás, o cachorro-quente estava fantástico. Já avisei a mãe dela que passarei lá qualquer dia desses pra comer mais.

Amar não é escolher o piso do apê. Ninguém vai me convencer disso. Amar é doar-se. É doar o teu tempo para estar com, conversar com, ajudar no que for preciso, só fazer companhia, assistir à novela e ao horário eleitoral junto, pedalar junto, ir ver o pôr-do-sol junto, ouvir (de verdade) o outro. É deixar os compromissos um pouco pra depois só pra poder ficar ali deitado junto, ninando e afagando as saudades e dores do outro (que, às vezes, são nossas também). É mudar toda a rotina pra encaixar tempo pra todos que são dignos do nosso amor. É levar no médico, é levar pra vacina – e não, não é por mera obrigação. É ter tempo para parar tudo o que está fazendo (mesmo diante de prazos apertados) para explicar bem uma coisa que o outro tem dificuldade. É deixar o tempo escorrer em gotas de nós mesmos. Posso não acreditar no amor que me contam, mas conheço bem o tempo.

Tenho amado intensamente neste ano. E, não fosse o tempo, amaria ainda um tanto mais. Tenho feito verdadeiros milagres e preciso de mais alguns até dezembro. Amo tanto e tantos e tanta coisa que tenho me deixado em segundo plano – sei que não deveria, mas… Também tenho feito papel de idiota, é claro, como sempre. Porém, diálogos como o citado aqui me fazem ter certeza de coisas bem especiais. E deixemos a questão do dinheiro (ah! Stendhal!) para outra hora e a discussão sobre ter que deixar de amar por falta de tempo ainda não está pronta.

E é isso, estou que é só amor. Culpa do Stendhal. Do fim de semana. Culpa dos meus ilustres pensamentos. Qualquer dia volto a escrever coisas sérias.

porta do desejo

 

Há portas abertas

Duas à esquerda

e uma à direita

Me basta um passo

o caminho está à distância de um braço

 

 

A vida e o seu gastar sola de sapato

tão aos poucos, tão sem perceber

vai a sola deixando de si

pedaços mínimos.

 

 

Sinto que já deixei sapatos aos prantos

pelas bordas dos caminhos.

Solas furadas machucam.

Troquei sapatos cá e lá

e hoje já não mais.

 

 

Ando descalça, por fim

 

 

Assim, não há mais o que deixar

não há mais o que ter

não há mais o que perder

ou sarar.

Não há.

 

 

Pés fortes e cicatrizados

estão agora diante das três portas.

Escolha feita seguirei

sem pensar nem levar as perdas.

Sou de promessas

dessas de prometer a si mesma

e prometi levar comigo

só o que cabe em mim

e o que comigo caminha.

 

 

Temo meus pensamentos

admito não ter razão

entrego-me de corpo e alma

ao que me consome.

Diante das portas, hesito

hesitações me correm pelas veias

sempre

e à porta desejo

seguirei sem pejo.

Todo dolor

 

Todo dolor

es insoportable

cuando necesito

el silencio

para callar mis lamentos

de las cosas que Dios me quita

de los reveses de la vida

porqué decir el dolor en palabras

es imposible

 

 

en mis sueños

– lúdicos y infantiles sueños

un abrazo suyo

llevaría el dolor y las personas malas

para él fundo del océano

hasta que el aire les cerrase los ojos

nadie echaria de menos quienes hacen daño a los otros

 

 

Todo el dolor

es incomprensible

no me engaño, pues no me hace más fuerte

solo hace sufrir y hasta llorar

Todo el dolor

Te hace infeliz

y si tienes ganas de gritar

hágalo con placer

porque callar-se

es imposible

 

 

la realidad

es incomparable

si lo supiera como traicionarla

me iba a poner mi mejor fantasía de sinvergüenza

la amaría una noche y otra

haría aquellas promesas de alcoba al pie del oído

y después la repudiaría

así como son todos los amores incontrolables

la amaría por desprecio

para llevarle conmigo su astucia

y su insolencia

 

 

Todo el dolor

tan solo duele

y hacemos poesía

y no tenemos presunción

de decir nada más que

el dolor

solo duele

Em nome dos preteridos

Passou-se muito tempo para que eu possa continuar ignorando evidências. Talvez eu acredite demais numa sina, uma sina de família sobre dores e desgraças. E talvez eu tenha certezas, ou talvez só uma certeza: perderei todos que amo, sempre. Talvez Deus tenha me olhado, ao me designar para este mundo, e dito “vai lá sofrer, amar e perder”. Pois o raio cai várias vezes no mesmo lugar – e garanto que viajar de avião, mesmo em 2014, é mais seguro do que de carro. Sinto-me, por vezes, coletora de histórias. E me consumo muito em guardá-las, revivê-las, relembrá-las o tempo todo. Nem um décimo de mim divido com os outros. Porque faz ainda mais tempo que sei que sou sozinha no mundo, sozinha e solitária, e nada nem ninguém – graças a Deus – mudará isso. Eu é que às vezes, só às vezes, me engano e faço de conta que é diferente – que eu posso contar com os outros, que eles fazem parte de mim e essas bobagens. Sim, bobagens. Talvez eu leve demais a vida a sério. (e a construção da frase não ficou boa – agora implico até com isso) Tentei e tento ser melhor, pensar, mudar as minhas atitudes, fazer mais. Mas em manhãs chuvosas de domingo me questiono duramente porquê. Sei que é, essencialmente, para mim. Considero muito difícil que eu faça algo por ou para alguém. Quando faço coisas que as pessoas dizem que foi para ou por alguém costumo discordar, faço por motivos mais nobres e nem preciso dizê-los. Na melhor das hipóteses, faço por mim. Estudo, trabalho, corro atrás dos meus sonhos e não só corro, faço por onde, aprendo o tempo todo, perco horas de sono, dou meu tempo para criaturas que eu amo e que me fazem bem, dou meu melhor no que faço, separo um tempo hoje para todo o amanhã que eu almejo. E muitos diriam que faço tudo isso para nada. Aliás, quem me cerca nem entende o que faço. Nem acreditam no que faço. E talvez seja o motivo de eu ter me criado sozinha e solitária, basta que eu acredite em mim. Pra seguir meu caminho basta que eu saiba aonde estou indo. E coisas, lugares, pessoas e amores vão sendo perdidos… Perder. Taí, Deus acertou bonito nessa. Deve vir daí minha total ausência de espírito competitivo. Sou perdedora por natureza. Sei (bem) perder. E talvez já nem me importe muito com isso – mas ainda tenho meus momentos de rebeldia. E, talvez, perder seja a melhor lição que alguém possa ter na vida. Ou a única de fato necessária. Com ela o resto a gente tira de letra. Se um dia eu tiver filhos jamais direi que estudem, sejam boas pessoas, que o trabalho dignifica o homem. Talvez nem para eles eu consiga dizer mais que um décimo de mim, mas deixarei claro que ser inteligente, se doar em amor, ser fiel e companheira, liberal, divertida, tentar melhorar sempre, procurar fazer mais do que o mínimo e lutar não garantirá reconhecimento ou prioridade nem entre pais, irmãos, amigos ou amantes. Ser preterido por outros que não se esforçam ou não têm as qualidades que você tem é via de regra no mundo. Por mais que se aprenda isso, será sempre indigesto e a indignação será justa. Justíssima. Nem para quem é sozinho e solitário ser preterido cai bem. E nem a água do temporal da manhã de um domingo lavará cicatrizes e inflamações que custam a sarar. E ainda terão os sonhos, aqueles de olhos fechados, que insistirão em te lembrar disso quase todos os dias. E só é possível manter-se de pé trilhando um caminho sinuoso e estimulante porque os sonhos, de olhos abertos, fazem todo sentido – só pra mim, é claro, e é isso que importa. Nada mais importa. Ninguém mais faz com que eu sinta que devo me importar.

Soco no estômago

Numa geração tinder, quando descartamos pra direita ou pra esquerda aquele que achamos bonito ou feio, pouca coisa deveria nos assustar. Deveria. Quem dera fosse assim simples.

O tempo tem sido escasso para tanta coisa por aqui, mas nunca deixo de manter olhos, ouvidos e mente abertos. Assim, testemunho algumas muitas coisas que, sim, assustam.

Sentei-me para almoçar, cidade pequena, de frente para a janela num dia de semana. Levanto os olhos e congelo. Dois meninos, entre treze e quinze anos, do outro lado da rua, parados ao lado de um carro são atacados por dois policiais militares. Os meninos levam tapas, são jogados contra o capô do carro. Um policial se posiciona atrás deles enquanto o outro observa alguma coisa perto da abertura do tanque de combustível do carro (onde os meninos foram abordados). Eles falam mas eu não ouço nada. A abordagem é agressiva, não há dúvida. O policial começa ostensivamente a revistá-los, joga o boné sobre o capô, revista o moletom, demora-se demais na região genital, e num instante (sem parar de falar ao pé do ouvido do menino, que é o mais novo, por sinal) dá um soco no estômago dele. O outro policial se aproxima, chama um colega (na região há vários pois o batalhão é na mesma rua e eles almoçam todos no mesmo restaurante) que está perto. A revista do outro menino é mais comedida, os outros policiais estão perto. Os três policiais conversam, o que fez a revista ri, o que chegou depois faz um sinal com a mão. São liberados e o que fez a revista passa carinhosamente a mão na cabeça do menino mais novo antes de colocar o boné dele de volta.

Não houve acusação. Não havia indício de nada. Deixei a comida quase intocada no prato. Assisti a tudo paralisada e com o estômago revirado. Mais pessoas viram, ninguém deu bola. Dois meninos, não-brancos, como qualquer menino que vemos pelas ruas. Me dei conta, naquele instante, que fora da realidade sou eu. Aquilo ali é real. Não, nunca vivi na periferia. Não uso-a como discurso. Sempre vivi em cidade grande e região central. As histórias que já li e ouvi e vi (nos filmes) iguais a qual eu acabara de presenciar eram idênticas e, segundo insistem em nos dizer, ocorrem aos montes todos os dias.

Ao ouvir uma palestra de um especialista em drogas, e no seu combate, que conta histórias e mais histórias sobre desgraças que o uso de drogas causa na vida das pessoas (mas tudo a partir de uma narrativa, digamos, “informal”) fiquei convencida de que há pessoas (uma gigantesca maioria) que não se sensibilizam com as dores e sofrimentos alheios. No mesmo dia que testemunhei a cena tive mais provas de que as pessoas pouco se importam com o sofrimento alheio e, pior, não tomam sequer como exemplo. Senti-me, ao ver aqueles meninos, justamente ao contrário. Nem serei piegas e direi “imaginei um filho meu ali” (meu irmão, inclusive, já passou por coisas semelhantes). Vi-os ali, passando por aquilo, vi os rostos deles. Depois daquilo, pouca coisa tem me passado levemente na vida mesquinha de cretinos que insistem em se aproximar de mim.

Resolvi, sem consultar ninguém, resgatar as discussões políticas ao final dos almoços de domingo. A época, inclusive, é propícia. E, sim, gosto muito de discussões – com quem, de fato, sabe discutir. Os ignorantes eu deixo porta afora, como bem frisei ontem. Baixei de vez meu nível de tolerância. Já tentei e discursei sobre tolerar “o outro” e tal, mas criei critérios excludentes pois não tenho porque ouvir certos absurdos.

Discutíamos, então, posicionamentos políticos e afins quando eu informei (tudo começou com a minha pergunta, “entre a Dilma e Marina, você corre pra onde?”) a um dos mais convictos da mesa: nenhum (candidato) fará milagre. O silêncio pairou. E um outro disse “não, isso óbvio”. Por isso não sou ferrenha de nenhum candidato ou partido. Tenho, inclusive, desconsiderado pessoas que eu, até então, considerava que tinham o mínimo de formação e cabeça. As baixas estão em alta, com o perdão do trocadilho.

Ontem cheguei bem tarde em casa e só vi uns comentários no twitter sobre o debate (eu nem sabia que seria na terça, ando por fora de TV e tal e me disseram que seria na quinta – aí, talvez, eu conseguisse assistir). Já comentei muito debate no twitter e o meu favorito é sempre o da Band. Mas fiquei ali lendo os tweets e meu estômago revisou-se quase do mesmo jeito quando vi a cena com os meninos. Além das pessoas que eu sigo, foram muitos RTs (ou seja, “ouvi” outras vozes e até acompanhei alguns replies. Não sei se o debate dos presidenciáveis foi indigesto (minha TV mal funciona e a Band de jeito nenhum), mas garanto que tudo o que li o foi, talvez até revoltante.

Era engraçado comentar só os trejeitos, falhas e aparência dos candidatos. Sobre a Marina em específico, já se pode observar uma rispidez a mais (além da ira dos partidos polarizados que vêem na sorte dela – na medida que a morte de alguém pode ser sorte para outro – o azar deles) pelo fato de não ser o padrão “bonita” de vocês, não-branca, cabelo não-liso, usar óculos e roupas fora do padrão “revista de moda” de vocês. Virou a chacota da noite. A Luciana Genro também foi achincalhada pela sua aparência e expressões faciais. Dilma, ao que parece, ficou ofuscada ou já estamos cansados de rir da imagem dela. Ah, claro, sobre a aparência dos candidatos homens não vi quase nenhum comentário. Porque rir de mulheres que não são a loira gostosa que os homens desejam secretamente a portas de banheiros fechadas, pode. O que vi foi uma espécie de tinder eleitoral. Como me senti? No mínimo, bem no mínimo, nauseada.

Não adianta, penso eu, estar em sala de aula tentando abrir cabeças a machadadas quando o mundo aqui ensina tão bem coisas tão ruins. Não adianta. Continuem reiterando preconceitos e ignorâncias, parece que lhes faz bem. E, claro, continuaremos a ignorar os meninos violados em revistas no meio da rua e ao sol do meio-dia.

Não se pode levar mais nada a sério com a presença irrestrita da internet? Memes e babaquices afins dominam até manchetes de revistas e jornais. Sim, porque quando vejo a quantidade de memes e sei lá que nome dão para essas coisas que entopem as redes sociais imagino que ser humano tem tempo na vida pra ficar montando e editando essas coisas. Não pude, no sentido político, tirar nada do debate pela minha TL. Nada. Nem daqueles que nunca aparecem no twitter e só apareceram ontem pra dizer solenemente que não temos em quem votar, “ó, desgraça”.

Dizia eu, lá na mesa do almoço de domingo, que não vejo saída na política., ao contrário do que percebo na nossa sociedade tão superficialmente politizada (hoje todo mundo discute a campanha em todos os cantos). O Estado, vejam só, não é responsável nem culpado por tudo. Há uma crença cega coletiva de que nós não somos responsáveis por nada. Não vejo (nem nunca vi) alguém criticar a educação confessando que é ou foi um péssimo e irresponsável aluno – ou professor. E quem adora criticar a corrupção mas corre atrás de político pra pedir “favores” ou sonega ou engana o chefe? E o médico que estudou mal e é negligente com o paciente que na conversa de bar diz que a culpa toda é do sistema de saúde?

Culpas existem aos montes. Porém, o que está fora de moda é consciência moral dos próprios atos. Controlei-me, ontem, numa crise de desespero ao imaginar a humanidade não usando sua racionalidade. Quiseram meus pensamentos do banho que eu analisasse apaixonadamente tudo o que tenho visto e lido… e eles me diziam que a única conclusão é que não temos sido racionais – nem nas coisas mais simples. E, sim, isso me parece desesperador. Nem o simples fato de que somos racionais e devemos usá-la, a razão, tenho conseguido enfiar a machadadas em algumas cabeças.

Não estamos cuidando das nossas responsabilidades. Não temos feito exames de consciência. E nem de longe temos sido racionais. E assim seguimos euforicamente. A euforia coletiva sempre me indica maus presságios.

Enquanto tento controlar crises de pânico (tenho desejos de me desligar das pessoas e do mundo) o soco no estômago daquele menino sinto-o na cabeça.

Por respeito aos nãos

Talvez fosse coerente começar escrevendo sobre oportunismo, coisa que (se é que um dia saiu de moda em terras tupiniquins) está muito em voga. Só de escrever declaradamente sobre certos assuntos eu já posso abraçar os oportunistas que, parece, têm brotado aos borbotões. É curioso o quanto aumentamos a exposição daquilo que criticamos que está sendo exposto, já repararam? Se eu considero que uma determinada ação de uma pessoa (ou de um grupo delas) é excessiva, errada ou expõe o que não deveria, ficar falando, publicando e comentando-a só ajuda a aumentar a publicidade da coisa. É simples. Mas muita gente não percebe.

Não, não me deterei em fatos particulares. Serei o mais abstrata possível. Como dizemos no twitter, entendedores entenderão. Justo assim. Antes de começar a escrever pensei e repensei o quanto eu sofri tentativas de cerceamento desde (e principalmente durante) a minha infância. Na prática, nunca houve porta trancada, armário alto, portão com cadeado, cofre com segredo, esconderijos secretos e afins que tenham me detido – podem perguntar, algumas histórias são célebres. Ouvir um não ou uma proibição qualquer disparavam em mim, no mesmo instante, o botão do desafio. Se era não, então eu faria. Claro que me meti em inúmeras confusões, apanhei pra caramba, deixei algumas pessoas em desespero. De fato, não faz tanto tempo assim que o que não era pra ser, pra mim seria.

E não sei bem quando foi (repito, não faz tanto tempo assim) me vi refém dos meus próprios nãos. Eu me dei o dever de me cercear. Os primeiros momentos foram de dilemas quase-existenciais. Minhas atitudes mudaram. Eu decidia por mim se sim ou não. Não demorou muito para me sentir responsável – ó, meu pavor desde sempre. E, sim, hoje creio que me sinto uma velha por isso. Envelhecer deve ser isso de respeitar os nãos – os próprios nãos. E, lhes digo, dia após dia, tenho me deparado com situações nas quais o coração sai se arrastando pelo peso dos lamentos ao respeitar meus nãos…

Pensei cá se não deveria ser uma lei universal o respeitar os próprios nãos. Não é questão de educação, etiqueta, noção ou bom senso – não é respeitar o que nos é, desde sempre, imposto. É saber o que se deve ou não fazer – em determinado lugar ou situação. Pensem bem, não estou me referindo às psicoses nem aos crimes hediondos (mas a alguns casos destes é possível aplicar).

Pensei, também, que seria simples. Passaríamos menos vergonha com atitudes totalmente reprováveis – dessas que abundam registradas em imagens e divulgadas na internet –, talvez até respeitássemos mais uns aos outros (entre mortos e vivos), quem sabe até acreditaríamos mais nos seres humanos – esta espécie que louva tanto ser racional.

Concluí, então, que tenho pensado demais. De vez em quando acontece. Publiquei, ultimamente, textos de ficção (?) porque também de vez em quando acontece de eu querer olhar o mundo somente pelos olhos da ficção. Acredito que poucos lograram acompanhar o que eles de fato queriam dizer. Mas, pelo que afirmam os estudiosos das Letras, não importa o que o texto quis dizer, mas o que ele disse a você, leitor. Nem terminei de escrever e tenho certeza que este texto não dirá absolutamente nada à maioria (dos que o lerão, óbvio). Entendedores entenderão.

Às vezes também acontece de eu preferir apenas observar. É um exercício e tanto. Ainda mais quando os dias são batalhas árduas em obedecer aos nãos que eu me digo – tem dias que é um atrás do outro e, ó, coração, sofra sem dar um pio. E enquanto isso vou lendo livros de ficção que me ajudam a entender tudo. Ficção só me faz bem – da realidade já não posso dizer o mesmo. Às vezes, só às vezes, tenho cá pra mim que há uma imensa maioria jogada ao mar, entre ondas que vêm e vão e vêm e vão e têm dificuldade (total incapacidade?) de perceber. Entre as pérolas “na minha opinião, tenho certeza absoluta” e baldes de gelo, não sei bem o que se passa com a cobertura em tempo real e imediato do mundo.

E aí também estranho e (em certos casos) lamento as mortes (não que eu ache, como parecem querer que a gente acredite, que tenha morrido muito mais gente nesses tempos do que em outros – cadê as estatísticas?). E entre over flooding de especialistas sobre suicídio, depressão e piadistas de merda, é reconfortante ver que certos sentimentos continuam os mesmos – a pobreza, a politicagem, o amor, o ódio, a ignorância. Talvez eu até preferisse o mundo quando ele era assim.

É, sou velha, mas tão velha, a ponto de preferir os bons tempos em que fofoca era fofoca e não indireta nesta ágora on line. Bons tempos quando meu avô discutia política no final do almoço de domingo e minha avó suspirava “política e religião não se discutem” – pois é, vó, nem o teu não eu respeitava, posto que foram as primeiras coisas que amei discutir na vida. Sou velha, o suficiente quem sabe, para respeitar o meu não nem que seja diante da dor dos outros. E aí me deparei com uma passagem – ficção (?), é claro – de um dos últimos ilustres falecidos que fez parte da minha adolescência mais desrespeitosa com os nãos (e feliz) da qual muito me orgulho:

Sobre enterros no Nordeste:

“Às vezes, um enterro cedo. Precisava ser cedo, porque logo se trabalhava. Defunto não come, talvez seja melhor. Mas não era menos enterro por ser de madrugada, antes era mais, porque em outras horas tem sempre gente na rua que não está prestando atenção no enterro. E de madrugada não, porque, quando tem um enterro de madrugada, só tem mesmo o enterro, com aquele caixão deslizando e o povo atrás e se ouvindo as pisadas no chão e as pernas das calças se esfregando umas nas outras.” – João Ubaldo Ribeiro, Sargento Getúlio

Sou dessas velhas que entendem enterros como o som dos passos e das pernas das calças se roçando. E, vejam bem, no meu tempo nem precisavam ser de madrugada para tanto. Ah, para os que não me conhecem, já fui a mais enterros do que descobri segredos de cofres e senhas de e-mails alheios. E, talvez, só quem já tenha visto ou sentido certas coisas vai entender o “defunto não come, talvez seja melhor”.

Enfim, Ubaldo era baiano e seus personagens transitavam ali pelo sertão. Mas ele também saía da ficção pra dar umas bordoadas na nossa realidade – esta, em resumo: uma democracia que não sabemos usar. Também não sabemos usar a liberdade e quase não encontro quem respeite seus próprios nãos. Então só me resta concluir com a imagem da minha avó recolhendo o prato dela e se retirando da mesa.

Deslize inconfessável

   

     Das coisas que gosto da vida, as inconfessáveis ocupam um lugar especial. Tenho cá pra mim que uma vida que não tenha seus recônditos inconfessáveis não é em nada vivível. E nem falo daquelas coisas que se confessam ao pé do ouvido ao amante recente enquanto corpos ainda suados tremem convulsivos. Digo as inconfessáveis por excelência e tenho apreço especial por aquelas que não confessamos nem a nós mesmos.

      Uma pessoa muito querida que conheci este ano tem me ajudado a pensar, estudar e entender coisas sobre este… poderia dizer ofício, mas aí lembra qualquer coisa relacionada a profissão ou obrigação, e não é o caso. Trabalho, talvez, porque como disse ele “nós não temos horário, nós temos trabalho” e encarar como trabalho foi o que fiz ano passado e me ajudou muito. Ou, quem sabe mais verdadeiro, um hábito. Tenho, por hábito, escrever. E isto eu encaro como trabalho. Demorei anos para chegar até estas definições – e acredito que elas possam mudar como já mudaram tanto para chegar até aqui. Como eu ia dizendo, esta pessoa (é um fofo, sério) entre tantas coisas diz repetidas vezes que o escritor é um outsider. Ou seja, que escrevemos porque não nos sentimos in, sentimo-nos fora de algo – seja espaço, grupo, normas, etc.. De coração, ainda tenho dificuldades em dizer: sou uma outsider! Sabe, acredito que é uma certa antipatia por pessoas que sempre se autodenominam ou rotulam “sou underground”, “sou alternativa”, “sou eclética”, e afins. Não sei bem o que há dentro para ter certeza que estou fora. E, reparem, entre todos os diferentes há os iguais. Não adianta pintar o cabelo de vermelho-cereja, só se vestir de preto, ser fã do Nirvana e achar que é diferente: tem milhares iguais a você. É uma mentalidade permitida na adolescência e foi lá mesmo que já percebi essas bobagens.

      Então o escritor seria um outsider. Como não me sinto assim, tive que procurar aqui dentro como me sinto, então, como pessoa que escreve – por hábito e trabalho. Eis que não consigo fugir de mim: sou uma personagem. Nas palavras escritas sou, sempre, uma personagem. Por isso, não me causa espanto algum saber que meus maiores problemas com as pessoas são de comunicação – quando envolve a escrita. No mundo das palavras não existe eu. Aí as pessoas confundem muito. O que, aliás, muito me diverte em vários momentos. As personas que escrevem têm características, por vezes, que ninguém que me conhece pessoalmente me atribuiria. E com toda razão, aliás.

    Para poder prosseguir com algumas atividades e planos tive que procurar estas respostas. Eu poderia escrever best sellers com unhappy end como os que agora fazem sucesso, vide Nicholas Sparks e John Green. Esses dias me perguntei se isso era alguma forma de neo-romantismo contemporâneo. Sou saudosa dos tempos, antes mesmo do meu tempo, de Sidney Sheldon. Transgressão perdeu a graça? Sexo virou rotina? Desavenças são desinteressantes? Que mundo é esse, então?Mundo mais afoito por uma indústria cultural ainda nos moldes do Adorno e do Horkheimer do que nunca. Poderia, também, viver de escrever romances de banca de revista – dos quais, aliás, sou fã fervorosa! Mas, não. Ainda não.

     Como personagem que escreve tento, por vezes, me furtar a escrever. Foi esses dias que pela primeira vez escrevi um texto para publicar aqui e não o fiz. E jamais o farei. Gosto do imediatismo do blog, escrever e já publicar. Quando você se dedica a escrever um livro sem nem a certeza de que será publicado a situação é muito diferente. Aqui, não, escrevo e publico (e apago) quando bem entendo. E publico muita bobagem, é claro. É o exercício, é o hábito. Foi logo depois deste que não publiquei que escrevi um que não tinha nada a ver com o que ele era na minha cabeça. Me explico. Não sofro da síndrome da folha em branco. Não sento e digo “agora vou escrever”. Eu penso, penso, penso, matuto, crio tudo na minha cabeça (e raramente uma anotação aqui ou ali), lapido uma frase de efeito ou outra. E aí, quando está tudo ali, sento e escrevo – e raramente releio ou reviso. Mas, no caso deste texto em especial eu não gostei dele na questão formal. Queria algo mais poético e não foi este o resultado. E aí pensei em não publicá-lo.

    Foi, então, que senti a responsabilidade como alguém que escreve. Tratava-se de emoção. Era um simples registro de sentimentos. Vejam só. Pensei, talvez arrogantemente, que eu senti aquilo como tantas outras dúzias de pessoas também o sentem. E me vi responsável por elas. Há uma pessoa que diz que o escritor é aquele que não teve preguiça em escrever o que muitos pensam ou sentem. Sabe quando a gente lê uma coisa e se “identifica” (sorry, detesto o termo depois que ele foi vulgarizado pelo Big Brother)? Então, o autor é aquele que entre eu e ele não teve preguiça. Simples assim (mas não tanto). Da escrita não consigo fugir e de tudo faço literatura. Já conheci e conheço muitas pessoas com idéias e sonhos fantásticos, além de bons contadores de histórias. Mas daí a terem escrito livros, nunca. E, sim, claro, obviamente, me utilizo deles na cara dura.

    A responsabilidade é essa. Registrar sentimentos e emoções que sei que não sou a única que sente. Sou personagem o tempo todo, mas quando assumo a ficção penso catar os sentimentos e emoções que conheço e desconheço para chegar a alguém. E sempre chego.

    Voltamos, então, friamente calculado, ao começo. Meus leitores não confessam que lêem o que eu escrevo. Eis algo inconfessável. Vejam bem, ler o que eu escrevo ainda não é crime. Faço festinha em mim mesma num flerte com prazeres proibidos ao saber que sou parte de algo inconfessável. Afinal, de coisas inconfessáveis é que se faz uma boa vida. A responsabilidade que assumo (visto que tenho pavor de responsabilidades) ao escrever por outros recebe, em contrapartida, o deleite de ser a inconfessabilidade de algumas vidas por aí. Não desejaria nada mais.

    Meu blog não é daqueles de milhares de acessos por dia, semana ou mês. E com números nunca me importei, vocês sabem. Nem escrevo e fico mandando aos amigos e conhecidos para que leiam. Me sentiria mal fazendo isso. Me dei ao luxo de configurar aquelas ferramentas que publicam automaticamente nas redes sociais e só. Sei de pessoas que lêem o que eu escrevo. E sei que elas não assumem isso por aí. Tenho leitores que não falam mais comigo, que já me amaram e odiaram demais, aqueles que me conhecem mas nunca nem me disseram um “bom dia”. Amo todos vocês, viu? Como personagem que escreve tenho um coração enorme.

     Lamento muito ter, novamente, escrito sobre o ato de escrever. Poderia, sei lá, falar da Copa das Copas ou da campanha política. De vez em quando vocês sabem que eu faço isso. Tirei o ano para (me) estudar sobre este hábito que não me abandona desde tanto tempo e ao qual resolvi dar uns afagos. Daqui a pouco eu volto para escrever sobre casamento, dores de amor, manias doentias, problemas sociais e as curiosidades que observo. Enquanto isso meus leitores vão acariciando seu inconfessável deslize de me ler.

 

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