O médico-escritor sincero

 

Ontem à noite eu lia um livro no sofá da sala, escrito por um médico. Antes dos contos propriamente ditos havia uma ou duas apresentações sobre o escritor estreante.

Foi quando me deparei com elogios rasgados à sinceridade dele, do autor.

 

Não conheço pessoalmente o médico-escritor para fazer comentários acerca da sinceridade dele, mas duvidei um tanto disso.

 

Realmente não imagino alguém receber elogios por ser sincero.

 

Sou adepta da sinceridade sem limites. Não sou a pessoa afável que encontra inúmeros eufemismos para as palavras duras ou que ao ser simpática com todos engole os pensamentos mais genuínos. Não sou assim dentro de casa, nem fora, nem com o companheiro, nem com os amigos, nem com estranhos.

 

Raramente ouvi sinceros (vejam só!) elogios à sinceridade que pratico. Raramente. E alguns deles não eram exatamente elogios, mas apenas constatações (com um tanto de reprovação) “você é muito sincera”.

 

Eis que me peguei pensando sobre isso durante a madrugada, efeito do tal médico sincero que recebia elogios de um amigo por isso! Sim, porque pensei, meus amigos não elogiam isso!

 

Tenho pensado nisso nas últimas semanas e o tal médico me fez matutar ainda mais.

 

Ninguém pode esperar de mim uma falsidade ou consentimento que burlem minha sinceridade. Então como meus amigos, os que já me conhecem a tempos, podem ficar insatisfeitos comigo justamente por isso?!

 

Eu, como boa pisciana, choro junto, como dou gargalhada junto e fico revoltada junto. Me junto aos sentimentos de quem está perto de mim. Não vejo um amigo bem e fico com inveja, na mesma hora fico bem junto, me alegro por ele e com ele.

 

Mas não me peçam para ser cúmplice das merdas que fazem. Nem me peçam para passar a mão na cabeça quando fizerem alguma coisa idiota (ainda mais quando eu insistentemente tentei ajudar evitando que a coisa fosse feita). Aí serei sincera e não acho isso ruim, nem doloroso.

 

Mas meus amigos (alguns deles), ultimamente, tem achado ruim a sinceridade. Acham que devo só ouvir e ficar calada, aceitar seus erros e ser cúmplice deles. Não farei isso. E isso não é demonstração de amizade. Nem nunca foi. Amigo não é só aquele que passa a mão na cabeça, esse está só esperando para te dar o bote na primeira oportunidade.

 

Porque é fácil encontrar um colega, um conhecido, um colega de trabalho – esses relacionamentos fortuitos e passageiros – que te apóie (supostamente) em tudo, que te incentive a fazer merda. Ele não se importa em te ver na pior. Nem vai te ajudar de verdade quando tudo der errado, esse será o primeiro a abandonar o barco.

 

Sinceridade não é fácil de praticar. E, eu sei, não é fácil ouvir. Não rende elogios nem abraços efusivos. Porém, tenha a certeza, só vem daquele que realmente quer o teu bem.

 

Enfim, talvez as pessoas não se preocupem com isso. Fiquei me perguntando se o tal médico-escritor era realmente sincero ou se era apenas um elogio falso. Acredito que ele pode ser, sim, uma pessoa sincera. Feliz dele que tem amigos que reconhecem o valor da sinceridade, acima do simpático tapinha nas costas.

 

 

Miséria intelectual

 

Eu ouvia de um professor de História do Ensino Médio que era preciso conhecer a História para não repetí-la. Talvez a maior verdade que eu tenha ouvido em todos os meus dezesseis anos de estudo formal.

 

A intelectualidade brasileira hoje está pobre. Não sei se vocês também sentem isso. Mas é tão latente que dói.

 

A pobreza consiste em não conseguir criar, se reinventar. Há apenas uma intelectualidade (que eu chamaria carinhosamente de pseudo-intelectualidade) que se restringe a levantar bandeiras e proclamar hinos do passado. Aquilo que era para ser renovador, instigante, inebriante se contenta em, acuado, proferir impropérios contra quem não pensa como eles (os tais “reaças” ou direitistas, segundo terminologia tão amada por eles). A intelectualidade chegou à miséria de cegamente não aceitar que há quem não pense como ela. Não aberta à críticas, à renovação, à dúvida, a nossa pobre intelectualidade se abraça fortemente ao inusitado nas artes e às páginas rançosas de uma duvidosa “esquerda” (não os questione sobre o significado disso), com teorias estagnadas e ultrapassadas (algumas já deram seu atestado de inconsistente logo após serem escritas).

 

O nobre nessa pobreza é citar o desconhecido, o pop, o que está mais na moda para, logo em seguida, largá-lo sem dó nem piedade pelo próximo revolucionário europeu com uma teoriazinha chinfrim sobre a tragédia que é a economia ocidental, ou sobre os dilemas da vida pós-pós-moderna, ou sobre algum novo “rizoma” reciclando conceitos de outras ciências.

 

Nesse cenário repulsivo, a pobreza intelectual encontrou um sentimento de culpa (talvez Freud explique) para esconder debaixo da cama sua ausência total de criatividade: abraçou a pobreza (aquela real, de falta de recursos, de falta de ter o que comer, de falta de esgoto, de falta de moradia, de violência, de marginalidade, de exclusão social, de falta de educação – a pobreza não voluntária que piora com o descaso da sociedade e dos governantes). Difícil entender o motivo dessa guinada na qual o intelectual – sempre uma figura afetada, nobre e inalcançável da nossa sociedade – parece querer reparar anos e anos (centenas deles) de indiferença pelo trabalhador pobre comum brasileiro. Tantos e tantos diplomados, doutorados, ricos, nascidos em berços de ouro que desconhecem o que é “não ter” (na prática, não me venham com aquele papo “mas eu conheço porque vi”, viram ali quando passaram pela frente e olhe lá). Dentro de suas salas com ar condicionado eles riem satisfeitos por terem elegido um partido de esquerda (?), por defenderem as questões ambientais, por terem uma mulher presidente, por saberem que existe o bolsa família. E, talvez, conheçam apenas isso mesmo. Nunca doaram um pacote de arroz, nem uma roupa que não usam mais. Talvez, quem sabe, o mais perto disso que eles tenham chegado foi quando a mãe pegou uma roupa velha deles e deu para a empregada levar para o filho.

 

Eles disfarçam a total falta de competência e criatividade balançando profusamente bandeiras na nossa frente. São tantas bandeiras… logo virão outras. Foi-se o tempo dos bons intelectuais. Tanto os intelectuais que conheciam e tratavam a realidade (inclusive a da pobreza real das nossas ruas) quanto os que viviam nas suas masmorras alheios a tudo com apenas suas idéias na cabeça. Ficamos órfãos dos bons pensamentos e dos bons pensadores. Hoje nos dão muitos mais letrados, “doutores” (nunca antes na nossa História houve tantas pessoas diplomadas), e tão raro ou inexistente pensadores.

 

Tudo isso me fez lembrar do filme O Gatopardo. Burt Lancaster, gostoso e maravilhoso como sempre, no meio da revolução italiana, sereno diante dos revoltosos que destituíam a nobreza (à qual ele pertencia), diz que os pobres que ali se insurgiam queriam exatamente o que a nobreza era: queriam ser ricos. Não havia uma procura pela igualdade, pela superação das diferenças. A pobreza queria destituir a nobreza para apoderar-se do que eles tinham. Não há um desejo nobre nisso. É o que se vê aqui mesmo com o que os economistas e intelectuais chamam de ascenção da classe C ou coisa parecida. Criticam os que sempre tiveram (como a maioria dos nossos intelectuais), mas é justamente isso que eles querem: ter. Onde há justiça social nisso? Pois para eles terem, alguém há de não ter. O que me lembra Primo Levi: para eu estar vivo hoje, alguém teve que morrer. Para a classe C hoje ascender à B ou à A, alguém tem que estar na C. Será que eles pensam nisso? Ou realmente temos ainda resquícios dos filósofos utópicos que defenderão que há uma real possibilidade de todos terem oportunidades e chances iguais? Teremos um mundo com sete bilhões de pessoas ricas, é isso? Posso parecer pessimista, mas duvido que veremos isso. Talvez porque além de achar o estudo da filosofia importantíssimo, valorizo ainda mais conhecer a História. Duvido porque aprendi que não tem como ser assim.

 

Ou o mundo terá sete bilhões de ricos e milhares de intelectuais pobres. Enfim, o dinheiro, o capital, vítima da crítica voraz da maioria desses intelectuais terá ele sim ascendido à nobre posição do valor comum? Já não importam outros valores, apenas o dinheiro.

 

Quem sabe o intelectual sempre se veja no seu pedestal já desde cedo e tenha declinado de assistir algumas aulas, como as de História. Lembro de um excelente professor no curso de Filosofia que sempre fazia questão de começar a aula contextualizando a época, os conflitos, os regimes, do pensador que ele iria apresentar. Muitos alunos ali (sim, esses que hoje são “intelectuais”) torciam o nariz. Uma chegou mesmo a fazer um comentário desprezando a metodologia do, este sim intelectual, professor. A resposta? Uma piada irônica qualquer. Ele não perderia tempo com estes intelectuais sobre seus pedestais com ar condicionado e amarras de ouro.

 

Quem sabe o intelectual tenha desaprendido a essência do conhecimento: questionar.

 

 

Amar no tédio

 

Há quem traia e como diz a música “quem trai, trai a si mesmo”. Há quem não entenda, há quem nunca entenderá.

Há de tudo nesse mundo e Deus ou o deus dos ateus ouve cada coisa!

E as mulheres e os homens todos erram e não aprendem com seus erros. Repetem seus erros sem conhecer sua história. Enfim, esses nem têm história.

 

O amor também precisa existir no tédio, pois a vida é um tédio.

 

Se esse tal amor você só sente quando está “tudo lindo maravilhoso” (também como diz a música) ou no outro extremo quando a queda e o fim são inevitáveis e surge aquele valor imensurável que só se dá quando sabemos que podemos perder, você não ama.

Amar no tédio é essencial, já faz, assim, parte do amor.

Porque a vida é tédio, o sol nascer e se pôr todos os dias é a mãe de todos os tédios.

“deixem tudo como está, voltarei”

Hoje eu escrevi um bilhete: deixem tudo como está, voltarei.

E o plano era ir, sumir no mundo com a roupa do corpo.

Minha vida vai muito bem, tenho tudo que quero e o que preciso. Amo uma dúzia de pessoas que também me amam. Mas hoje o caminho era perder-se sem destino.

Deixaria a cabeça cheia, os celulares, as coisas materiais. Eu sou muito, muito mesmo, apegada e dependente dos meus bens materiais. Mas sei que posso viver sem eles e posso me desapegar quando quiser, precisava apenas praticar isso.

Deixaria a casa fechada, as chaves para alguém regar minhas roseiras, minhas orquídeas, minha flor da paz, meu pé de alecrim, minha erva doce, meu jasmim, minha palmeira e aquela flor da minha infância.

Deixaria as meninas com minha mãe porque sei que lá serão sempre bem cuidadas e amadas.

Planejei tudo nos mínimos detalhes, em poucos minutos após escrever a única linha de despedida. Ao contrário do bilhete do suicida, dali eu partiria para a vida.

Deixaria algumas contas para pagarem, uma louça suja, um filme 35mm para um amigo, uns livros lidos em partes, as roupas sujas no cesto.

Não diria qual o destino, não daria nem pistas, pois desse nem eu sabia.

Não levaria esmaltes, lixas, cremes, sabonetes, pilhas, câmeras nem malas. Quando escrevi a linha de despedida me bastava a roupa do corpo para não ser presa ao sair pelada. Fazia calor, não fosse a lei iria sem nada.

Pois então que bastasse a todos o “voltarei”, a mim bastava. E deixava muito de mim no “deixem tudo como está”, assim garantia que não fizessem algo que me irrita muito: mexer no que é meu. E dava um alento da certeza do retorno.

Enfim, suspirei, amassei o papel, senti pontadas de dor, um tanto zonza. O telefone tocou, peguei a bolsa e saí sem a alternativa de não ter destino.

E talvez fosse muito por mim, hoje eu só queria ficar em casa.

(Uma breve despedida temporária do blog e da vida breve, sei que não tenho obrigação em escrever, nem regularidade, mas não estranhem uma breve ausência. Ela se deve à escrita do destino.)

O prazer de pensar

                Ainda não há diploma que diga: esse pensa. Sim, é assim simples, pensar não é aferido por um pedaço de papel. Vá lá e olhe no seu.

                Pensar, também, não é uma coisa fácil. Requer, acima de tudo, coragem. Como dizem, tem que ter muito peito.

                Eu me admiro ao perceber que existem pessoas que falam sobre a dicotomia “direita” x “esquerda”. Ainda há quem acredite nisso? Fiquei feliz, esses dias ao descobrir que nem todos pensam assim! Conversa vai, conversa vem, encontrei pessoas com a mesma percepção: direita e esquerda não mais existem e só quem fala nisso é saudosista (ou anacronista no linguajar estonteante dos historiadores).

                Tão fácil perceber que as coisas do hoje não podem (nem devem) ser vistas com olhares do passado. Eu li, estudei e gostei de Marx (o meu “gostar” se refere a que ele tinha um pensamento coerente, bem estruturado e no meio disso dizia coisas hilárias – como é difícil rir lendo textos econômico-filosóficos, ele me conquistou) e nem por isso acho que ele é Deus (aliás, ele mesmo ficaria bem irritado com isso, imagino eu) ou ando por aí pregando a palavra dele. Vejam bem, Marx tece comentários que hoje seriam ardentemente condenados, sobre as mulheres, por exemplo, mas disso ninguém comenta.

                Pensamentos são atemporais? Sim, são. Os pensamentos sim, mas a sua prática e a sua análise estarão sempre presas ao seu contexto. Há um perigo enorme em retomar pensadores e textos, idéias em si, e tentar visualizá-los em outro período. Estou falando do tempo. Como eu posso observar algo que foi criado a uns cinco séculos atrás e que existe até hoje sob a mesma idéia da sua concepção?

                Todas essas reflexões me surgiram de discussões e conversas sobre fatos dos últimos dias. Um exemplo, a ocupação da reitoria da USP. Vi muitas defesas sobre a origem da universidade. Bem, qualquer pessoa pode perceber que da origem da universidade até hoje ela sofreu mudanças drásticas nos seus ideais e propostas. Mas isso me leva a perceber que há também aí saudosistas, eles ainda vêem a universidade como o templo do saber, o supra sumo do pensamento. E eu não quero tirar ninguém das nuvens da ilusão, mas ela não é mais isso. Faz tempo que universidade não é mais isso, muito menos no Brasil. Profissionalizou-se demais a universidade? Sim. E, creiam-me, eu também me desiludi com isso pelos corredores da universidade. Numa época não muito distante eu ainda me agarrava à idéia de que ali era o templo do saber e fui olhando para os lados e vendo que nada daquilo era real.

                A universidade não é mais o templo do pensar, por isso no seu diploma não diz: esse pensa. Pensar está muito além (ou aquém) da universidade. Conheço e conheci várias pessoas inteligentíssimas e com uma capacidade de crítica, análise e pensamento que nunca tinham passado em frente a uma universidade. Aliás, eu escrevi “aquém” entre parênteses ali em cima porque muitas dessas pessoas sequer chegaram a estudar num ensino médio.

                A pretensão dos doutores e meros graduados de hoje com todos os seus anacronismos e saudosismos é decepcionante. Eles fazem discursos pelo pobre e ignorante, estão nos seus pedestais e gritam que são esclarecidos e a nata da intelectualidade. Bem, como eu já disse, não gosto de nata. Decepcionante porque era deles que esperávamos os melhores discursos e, claro, ações. Citei ações porque esses são os que não se importam com qualquer coisa, apenas com seu ar condicionado, e deles não vemos nenhuma atitude.

                Ter medo de pensar é refugiar-se atrás de falácias e argumentos do tipo “você lê tal revista” “você assiste tal canal”. Eu não medo de pensar. Eu não tenho medo de nada, minha mãe sempre encheu a boca para dizer de todos os seus filhos “eles não têm medo de nada”. E não temos mesmo. Não ter medo de pensar traduz-se em poder e querer ler qualquer revista, qualquer jornal, assistir qualquer canal, qualquer emissora, ouvir qualquer repórter, entrevistador, pessoa. Quando a pessoa foge demais de uma coisa parece que ela tem medo de realmente acreditar naquilo. Eu leio a Veja, leio a Claudia, leio a Piauí, leio vários blogs, leio a Carta Capital, leio a Caras (na verdade vejo figurinhas), leio a revista de História da Biblioteca Nacional. Assisto TV regularmente, normalmente pouco, mas de vez em quando assisto. Assisto TV a cabo, TV aberta. Leio até romance de banca de revista, sabiam? Converso com quem pensa como eu, com quem é radicalmente contra tudo que eu falo. Pra que medo? Que medo insano é esse? Afinal, eles (vocês?) têm medo do que com tudo isso?

                Sobre o caso USP. Sim, os alunos estavam reivindicando melhorias e protestando contra um reitor que chamaram de ditador. No meio disso surgiu a turma da baderna, cometeu crimes (reafirmo, e não sou eu que digo, é a lei, depredar patrimônio público é crime), usou de violência, fez arruaça e, como sempre, sujou a imagem das boas intenções da maioria dos estudantes. A USP ainda é a nata da universidade brasileira (repito, não gosto de nata) e como em toda universidade, principalmente federal, tem os filhinhos de papai que não estão nem aí para nada. Eu estudei no Centro de Filosofia e Ciências Humanas, disparado sempre o mal visto da universidade. Pessoas que hoje defendem lá os estudantes da USP são alguns dos que sempre fizeram piadas e menosprezaram o centro onde eu estudei. Se tem muito maconheiro? Claro que tem. Se tem gente que não faz nada? Claro que sim. Se tem o bando da arruaça? Também. Como em todos os centros. Sim, lá na medicina, no jornalismo, na letras, nas engenharias, nas sociais, no direito, em todos tem. E é essa turma que faz feio quando outros querem correr atrás do certo. E, por experiência própria, eu corri atrás do certo na universidade e nunca tive que acampar na reitoria, nem depredar patrimônio público, nem fumar maconha. Mas aí não é visto, né? Não tiram foto e nem sai na revista.

                De modo geral eu entendo os meios de comunicação que estão nem aí para os problemas da USP. Ninguém quer, nem a mídia nem o governo, que os problemas das universidades federais venham à tona. A universidade federal, para estes saudosistas, deve ser visto como um templo. Toda vez que se discute educação, nunca se discute o ensino superior porque é para a sociedade pensar que ali tudo é uma beleza. Não é. Tanto se fala em vagas e cotas para a universidade para manter a fachada de que aquilo ali é um sonho, é perfeito, é o futuro. Não é. Por isso governo e mídia querem manter essa ilusão nas pessoas. E, claro, para o brasileiro trabalhador aqueles maconheiros vagabundos que estão quebrando bens públicos e deveriam estar estudando estão errados. A mídia corrobora a opinião que já vem incutida na mentalidade do brasileiro trabalhador, e este não gosta de arruaceiros. (reparem que eu citei o governo, porque nesse vai e vém ninguém falou do governo, vai ver é porque estacionamento de universidade federal está lotado de carros e ano passado a ostentação de adesivos do partido que ganhou a eleição foi gritante)

                Pensar dá trabalho, cansa e é mal visto. Mas faz bem. E como eu disse ontem numa discussão: pensar é tão, mas tão gostoso que podemos ser egoístas. Se tem quem não quer este prazer, pior para eles.

A vida não é cinema, Fahya.

Nesses dias sem postar vivi muitas coisas, antes mesmo, entre um post distante do outro eu vivi coisas que pensava em escrever aqui. Por fim, reparei que eram tantas críticas, tantas coisas negativas que só de pensar em sentar aqui confortavelmente, olhando pela varanda um dia lindo, eu me sentia mal. Sim, mal por destrinchar meus pensamentos sobre coisas ruins, desagradáveis, tristes e infelizes.

Mas não é que a vida, além de bela, tem seu lado negativo? Não possoapenas ignorar isso e fazer de conta que vivo o conto de fadas da outra parte. Porém, também não posso me ater apenas às coisas ruins e tornar-me uma pessoa doentia.

Deixei de escrever exatamente dois posts sobre coisas pontuais que me surgiram no vai e vém da vida. Esses dias, diante de um contratempo comum da vida, meu namorado estava inquieto, irritadiço. A situação era comum, como eu disse, talvez até boba. Eu mesma algumas vezes já me vi irritada (profundamente) numa mesma situação. Contudo, olhei para ele e fiz um sermão oferecendo uma visão oposta. De que adiantaria ficar naquele estado? Irritar-se não resolveria em nada o problema. A única solução mesmo para a situação seria esperar. E se ficassemos lá esperando quinze minutos, duas ou dez horas, ficar irritado adiantaria de alguma coisa ou apenas atiçaria uma futura gastrite?

Tenho essa boa mania de quando todos perdem a calma eu a encontro. Tenho a boa mania de ver o outro e reparar nele coisas que eu mesma faço, mas que quando eu vejo refletida eu posso fazer um sermão crítico consciente. Afinal, conheço bem a situação. Não sei se já contei aqui, mas nunca me consultei com psicólogos, analistas e companhia, porque faço auto-análise. Funciona muito bem.

Também sou uma boa ouvinte das críticas que me fazem, apesar de muita gente não acreditar nisso.

Como o exemplo, tirei uns dias para não dar mais tempo às coisas ruins do que aquele que elas exigem.

Assim, me privei de mais pontos para a futura gastrite.

Mas, infelizmente, não podemos fugir das coisas como são. Eis que me deparei, novamente, com uma situação que me deixa, no mínimo, temerosa.

Há uma corrente (tipo essas correntes marinhas que sabemos que existem, as estudamos, mas se olharmos para o mar agora não as veremos) no país que está exarcebando direitos (direitos de algumas “minorias” como alguns chamam, eu discordo da expressão). É sabido que as mulheres, os homossexuais, os negros (para ficar nos exemplos mais “volumosos”, eu diria) lutam por reconhecimentos e direitos que foram historicamente negados, privados baseados em teorias infundadas e preconceituosas e afins.

Não sou de levantar bandeiras, nem a favor nem contra. (um dos posts que não escrevi – ainda – diz respeito um pouco às mulheres mais ou menos nessa direção) Acho digno e admiro algumas formas dessas lutas.

Infelizmente não temos ainda um grau de educação para livrar-nos a todos da ignorância. E opinião, como dizem, é uma merda porque todo mundo tem a sua. É uma praga ainda pior que a do carro, porque este felizmente nem todos ainda possuem.

Aí me surgiu uma observação baseada justamente nisso: na observação.

Eu julgo as pessoas? Sim. Você também. Todos fazem isso. Todos. Só que alguns assumem que fazem, outros não. Essa é a diferença.

Você tem capacidade e está disposto a discutir (no sentido de apresentação de idéias e argumentação, não ho de bate-boca, obviamente) sobre um assunto? Mesmo que a sua posição seja extremada e decline de qualquer possibilidade de mudança?

Colocado isso, poderei prosseguir.

Há uma crítica pouco velada quando alguém faz um comentário ou uma crítica a uma outra pessoa que se encontra num desses “grupos” que citei (homossexuais, negros, mulheres e acrescento os pobres).

Se a pessoa é negra, ou pobre, ou rica, ou homossexual, ou mulher, quando surge um comentário, logo alguém grita que é preconceito porque a pessoa é negra, pobre, rica, homossexual ou mulher. Não ficou claro?

Assim, se você critica a índole ou o comportamento de uma determinada pessoa, por exemplo: ele faz errado porque joga papel no chão! Aí, o cara é negro, e olham para você e dizem que você está dizendo isso, fazendo esse comentário, porque você é preconceituoso e racista!

Um outro exemplo? Critico o Lula por ter dito que o SUS (que eu uso e conheço, como talvez você também) é o melhor sistema de saúde do mundo, mas quando ele precisa ele corre para o Sírio-Libanês (hospital reconhecidíssimo por ser particular e “dazelite”). Aí me acusam de dizer isso porque ele foi pobre, porque eu estou desejando a morte dele. Hein?

Sim, me causa espanto. Preciso dizer um “hein?” saído de uma cabeça embotada e confusa. Como assim?

Então partimos do princípio que homossexuais, mulheres, pobres, negros são inatacáveis? São moralmente corretos? Todos, vejam bem. Nenhum comete erros, nenhum infringe leis? Todos são pefeitos, possuem boa índole e agem corretamente. E se você ousar fazer algum comentário sobre algum deles poderá ser chamado de racista, preconceituoso, maldoso!

Somem ao espanto um pavor e um temor gigantescos.

A que ponto a argumentação desvirtuada chegou? Eu julgo, eu critico, eu falo. Você também, só alguns não assumem. Mas aí quando é do interesse da criatura, dá-lhe lenha para queimar mais um herege?

Sim! Herege! Bem lembrado! Porque a maioria esmagadora dessas pessoas que apontam o dedo chamando de racista, preconceituoso (nesse tipo de caso que eu exemplifiquei), é ateu ou não possui nenhuma religião mas agem como o mais santo carola da Inquisição! Viu como é bom criticar? Viu como todos, enfim, julgam? Eu sou julgada por professar minha religião. Ouço quase todos os dias ofensas e críticas à minha religião e à minha fé. No mesmo dia me surge um não-Cristão desses a me dizer que não julga ninguém!

E há quem me fale em coerência! Ó, pai…

Faço um exercício diário de convivência. Principalmente com aquele que (graças a Deus) não é igual a mim, e com aquele que pensa diferente de mim. Confesso que em alguns dias isso toma proporções quase insuportáveis.

Diante disso, não exijo nem coerência, mas respeito. Nunca permitirei agressões (gratuitas ou não), de nenhuma espécie. Nas redes sociais da vida é assim que eu procedo, pode pensar diferente, pode ser isso ou aquilo, podemos discutir. Agora, nunca, jamais, permitirei qualquer tipo de agressão, aí sim sairá da minha lista. (provavelmente entrará na lista negra! uma piadinha pra descontrair) Nem no mundo virtual nem no real agressões serão permitidas.

Sobre os exemplos, aprendi com a excelente educacão que tive, a valorizar a pessoa pelo que ela é, pelo que ela faz. Nunca pela sua cor, pelas suas roupas, pelos seus bens, com quem ela faz sexo ou não. Aprendi assim. Eu a julgo pelo que ela faz, por quem ela é. E, claro, também, pelo que ela fala (ou escreve, né?). Isso é que faz o caráter da pessoa e é a isso que eu me refiro quando faço alguma crítica ou comentário.

Por isso eu disse que é exarcebar direitos contestar críticas com ataques infundados como “preconceito”, “racismo”, etc..

Talvez há quem se valha disso mesmo, por preconceito retrate a crítica, mas eu não. Não podemos generalizar nem em um caso, nem em outro. Nem nos opositores ferozes.

Sobre o caso do Lula, como eu disse, não desejo nem faço o mal a uma dúzia de pessoas que me desejam (e fazem!) o mal, iria perder meu tempo desejando o mal para alguém que eu nem conheço, ainda por cima um político?! (sim, as pessoas esquecem que ele é político de carreira antes de ser muita coisa)

Não vou nem perder meu tempo me estendendo sobre o assunto. Só citarei um filme que vale como boa relfexão para o caso: The Doctor. Filme lá da década de 80 se não estou enganada. Assisti bem antes da notícia do caso do Lula, mas na hora me lembrei dele. Quando assisti já gostei muito e percebi o argumento reflexivo.

É a história de um médico fodão (ou que pelo menos assim se vê), cirurgião, que trata os pacientes por números, vive sua vida acima de tudo e de todos, mal vê a família e do nada descobre um tumor na laringe. O que acontece? Ele passa a fazer seu tratamento no mesmo hospital onde trabalhar, e aí ele vê a coisa, digamos, pelo “lado de lá”, por outro ângulo. Como ele é um personagem do cinema, ele muda e percebe muitas coisas.

Mas, enfim, a vida não é cinema, Fahya. Por isso, querida, saia desse computador nessa tarde de ventania, silêncio e tristeza e vá assistir um filme.

 

 

Exercício diante do fim do mundo

 

 

Eu ali sentada, o sol escaldante na cabeça. Sim, fazia calor apesar de um vento fresco surpreendente (nunca havia visto esse vento por aqui).

 

Não havia água, nem comida. Eu mal tinha acordado e os olhos embotados ainda me confundiam quando eu saíra de casa. Eu evitava as perguntas.

 

O trem passou para lá. O tempo ficou ali parado. O trem passou de volta para o outro lado. Não quis fazer cálculos, mas a distância percorrida mais o tempo estimado para esvaziar cada vagão, sendo que havia x vagões… sim, era bastante tempo. Melhor mesmo não querer saber.

 

O movimento da hora do almoço, todos foram, todos voltaram.

 

Um kadett rebaixado, verde escuro metálico, com aquela música compartilhada com todos a sua volta, pára ao lado. Eu reviro os olhos ao ouvir um verso da música. Ainda embotada para não perceber os números das horas, nem recordo mais a letra da música no segundo seguinte.

 

O motorista sai do carro, vejo pelo canto dos olhos, viro o rosto para o outro lado.

 

Sinto um cheiro. Hein? Viro a cabeça na direção do vizinho, lá esta ele, já fora do carro, com um desodorante spray a apertar em direção às axilas.

 

Náusea. Náusea. Náusea. Náusea.

 

O sono, o tempo, a paciência, o ir e vir representado, tudo era suportado. Aquilo não.

 

Náusea. Por um segundo refleti que sinto náusea ao ser forçada ao contato da intimidade alheia. Náusea.

 

Pensava no fim do mundo que havia sido anunciado para o dia. Mas haveria algum outro fim do mundo que não aquilo tudo?

 

 

Eu sei que o dia das crianças foi ontem

 

 

Ontem foi dia das crianças. Eu não abro mão de comemorar a data, mesmo já tendo passado dos dezoito anos a algum tempo. Pouco tempo, é claro.

 

Sempre espero presente, também.

 

Ainda ontem quando liguei para a minha mãe perguntei: e o presente?

 

Meu namorado me questiona sempre dizendo que não sou mais criança. Ora, vejam bem, ele se contradiz.

Toda vez que eu conto alguma coisa da minha infância e digo algo como “eu não tinha paciência” (ontem mesmo comentei isso sobre jogar video-game com meu irmão quando éramos crianças) ele na hora retruca “não tinha? tu não tem!”.

 

Ou seja, posso concluir que sou quem eu era, ou seja ainda, quem sempre fui!

 

Porque não perdi por todas as desaventuranças, as desgraças, as perdas, as tempestades, as brutalidades e crueldades a minha infância nem o meu jeito de ver e levar a vida. Esse “jeito” que faz as pessoas se admirarem quando digo minha idade. O corpo envelhece, e só.

 

Sabe como é? Chegam e tentam te destruir, destruir tuas idéias, teus sonhos, teus mundinhos, tentam destruir tua família, tua infância, tua adolescência, tua juventude, teus sentimentos, teu amor, tentam te fazer nunca mais acreditar nessas coisas, tentam te fazer secar por dentro, se desiludir, se desesperar, tentam te fazer alguém amargurada, infeliz, tentam estragar todos os bons momentos que você teve, tem e terá, tentam machucar quem você ama, tentam te machucar das formas mais bobas e vis possíveis. Eles tentam.

 

Eu tenho esse lema: quando tentam te derrubar, dê a volta por cima. E na minha vida quase todos os dias são assim, tentam tudo isso que eu escrevi ali em cima, e eu dou a volta por cima.

 

Vai ver não me conhecem o suficiente para saber que é em vão, e sempre será, tentar me destruir. Porque se essa criança adorável sobreviveu e reviveu, nada há de destruí-la.

 

Sei que continuarão tentando. Pouco se me dá.

 

E por isso que também sei amar as crianças. “adivinham tudo e sabem que a vida é bela!” (Cazuza, sempre, né?)

 

 

O dia das crianças será sempre feliz. O dia seguinte não mais, porque a vida dá e a morte tira. Porém, me dou o direito da tristeza pelas minhas perdas. Quem é sempre feliz, vive a mentira. Quem é sempre triste, vive uma ilusão.

 

É preciso ser feliz. É preciso, de vez em quando, ser triste.

 

E perder, na verdade, nunca é perder quando a morte tira. Porque tudo o que a vida deu eu guardo aqui no coração com uma alegria e uma felicidade imensas. Isso nada nem ninguém nunca nos tira.

 

 

 

Pobre humilhado nas novelas. E pra ele ser feliz precisa ser rico!

 

 

Esses dias sentei no sofá e assisti algumas partes das novelas que passam atualmente.

 

Fiquei particularmente assustada com a das 21h quando uma personagem maltratava ferozmente uma empregada doméstica e ainda somava o comentário “vou colocar no tronco pra ver se aprende”, citando literalmente o castigo físico que era dado aos escravos negros.

 

A tal personagem era rica, dessas ricas riquíssimas que proliferam nas novelas brasileiras. Já fui noveleira. Mas confesso que perdi o interesse. Fui fã de novelas “fantásticas” como Fera Ferida, Que Rei sou eu?, Pedra sobre Pedra, e algumas outras.

 

Hoje, por exemplo, uma que escapou um pouco a esse excesso “ricosXpobres-num-mundo-urbano-contemporâneo-porque-daí-pode-fazer-um-monte-de-merchan” foi a Cordel Encantado. Eu gostava muito daquelas novelas que eram em cidades fictícias do nordeste. Cordel Encantado soube levar a fantasia, o popular, para uma novela que primou pela qualidade da fotografia e da direção de arte. Fora isso, algumas atuações foram muito boas do elenco jovem da Globo, coisa rara de se ver (mas algum dia a Regina Duarte não vai mais estar aí para ser protagonista, nem o Antônio Fagundes).

 

Assisti um capítulo aqui, outro ali, acompanhei alguns da Cordel Encantado com a minha mãe e me peguei pensando duas coisas: a primeira foi sobre as novelas sempre mostrarem que só a riqueza permite a felicidade (e como o povo “vê” isso?); a segunda foi justamente sobre o tratamento dado aos “empregados” nas novelas.

 

Reparem bem nas atuais novelas e lembrem daquelas que vocês mais gostaram. Vou dar exemplos: Na novela das 19h, Morde e Assopra, Guilherme, personagem de Klebber Machado (acho que é isso), filho da personagem da Cássia Kiss, sempre renegou a mãe e a sua miséria (enganou a mãe dizendo que estudava medicina na capital só para manter-se com o dinheiro suado dela em festas e farras); ao final da novela ressurge seu pai e ele é rico, assim Guilherme fica rico – casa com a menina rica (que no meio da novela descobriu que era filha adotiva e os pais biológicos eram pobres) e vive feliz para sempre. Em Cordel Encantado, Jesuíno, para poder ficar com Açucena, teve que descobrir que, na verdade, apesar de filho de cangaceiro, era descendente do rei de Seráfia – assim, sendo princípe (leia-se rico), pôde, enfim, casar-se com a princesa. Na atual das 21h, a Griselda é pobre, feia, largada, trabalhadora. Qual será sua reviravolta na qual encontrará o amor, a felicidade? Ganhará o prêmio da mega-sena.

 

Essa teoria não é “nova” nas novelas, mas confesso que me incomoda. Porque sabemos, afinal, que o povo assiste, eu assisto, você assiste, e que isso mexe com o imaginário popular. Estão me vendendo que só posso ser feliz e encontrar o amor se minha conta bancária estiver em alta? É isso? Voltamos, então, àquele tempo que o povo pobre, sofrido, miserável não podia se ver nas telas? Me pergunto isso pensando já no cinema também, afinal, colocar a miséria, a pobreza, nas telas – nas pequenas e nas grandes – não foi fácil! É um retrocesso?

 

Em contrapartida, sempre há e haverá o ricos X pobres. Há algum tempo o núcleo pobre não se contenta mais em ser só os empregados e afins, mas dialogam entre protagonistas e antagonistas. Contudo, percebe-se sempre a mocinha pobre que se apaixona pelo moço rico – ou ao contrário – e que a felicidade é a família rica aceitar o núcleo pobre da novela. Quantas moças pobres andam por aí acreditando nisso? Eu mesma conheço algumas. Você também deve conhecer. E no meio desse caminho, muito sofrimento, muitas barrigas grávidas em tentativas de golpes e até coisas piores.

 

Então não são mais núcleos ricos entre os protagonistas e antagonistas, mas há um núcleo que às vezes é a ligação de um núcleo com o outro que é o dos secundários do elenco e que fazem secretárias, diaristas, balconistas, empregados, babás e etc.. Aí é que entra o segundo ponto. Não foi só naquele momento de uma megera podre de rica destratar de forma vil uma empregada ameaçando com o “tronco”. Há vários momentos em todas elas nos quais homens e mulheres são humilhados, destratados e desrespeitados pela sua condição de pobre e trabalhador.

 

Não penso que isso é apenas de mal gosto. Essa humilhação presente nas cenas entre ricos e seus empregados é o dia a dia de muitos (muitos mesmo) trabalhadores do Brasil afora, esses que são ainda a maior parte da audiência das novelas. É ultrajante e um desaforo cenas assim serem mostradas sem nenhum remorso, sem nenhuma aparente expiação. Pois, não vi discussão nenhuma por aí sobre essa cena e suas semelhantes, nem vejo que o “patrão” que humilha tem alguma punição severa dentro do universo da novela. Não vejo algum desses empregados ir à delegacia prestar queixa do seu patrão. Ah! Mas isso não acontece na vida real também, porque eles têm medo de perder o emprego. Seria, então, a novela uma imitação da vida real? (porém, na primeira questão que eu comentei, a novela não imita a vida)

 

Como ficamos? Assistindo sentados a uma agressão ao próprio público fiel das novelas? Eu me senti ultrajada. Não tenho empregada. Minha mãe tem e a trata muito bem, como trata a todos.

Eu pensei nesse segundo ponto porque vi nas últimas semanas frases desrespeitosas sobre empregadas domésticas no Twitter e em comentários no meio de conversas. Um deles foi a respeito do “uni-neurônio” que uma delas teria. Uau… sério, pensei em denunciar a criatura por dizer uma coisa dessas. Fazer comentários sobre o trabalho da pessoa é uma coisa. Agora, sobre qualquer outra questão é perigoso. E sabe o que eu pensei? Se a pessoa que faz um comentário desrespeitoso e ofensivo da sua empregada é tão boa, tão inteligente, tão superior, por que ela não tem capacidade de limpar a própria sujeira? Essa é minha opinião sobre pessoas que têm empregadas, não têm capacidade de limpar a própria sujeira. Uma pessoa assim, a meu ver, está alguns níveis abaixo de muitos seres humanos. Inclusive daqueles que “ganham a vida honestamente”. Há exceções para pessoas que possuem empregados por questões de saúde e etc..

 

Tenho repulsa por personagens como a da Cristiane Torloni nessa atual novela. É tão falso, tão superficial, tão nojento e tão infeliz que não me motiva nada assistir.

 

Infelizmente não vejo mais novelas como quando era pequena e ficava as tardes em frente à TV com minha avó. E hoje é tão grande a necessidade em fazer novelas que se vendam e que vendam (carros, produtos de beleza, roupas, esmaltes, sapatos, etc.) que aquelas novelas fantásticas não têm mais tanto espaço. (repararam na calça jeans de vanguarda que o Jesuíno usava em Cordel Encantado? então, é preciso muita criatividade ou licença poética para tal)

 

Conhecemos o poder da TV sobre o comportamento das pessoas. E é esse ponto que me preocupa e assusta quando vendem essa agressão, essa fissura entre ricos e pobres, essa humilhação que compramos como comum, correta, cotidiana. Não pode ser assim. Mas quem é humilhado todo dia no trabalho aceita e percebe uma novela “realista” na humilhação da perua rica.

 

Não deveria ser assim.

 

 

Seja feliz

 

 

 

Eu não sei porque e não entendo.

 

Ser feliz está sempre ao alcance de todos. Tanto quanto a morte é democrática (como diz uma grande amiga minha), a felicidade também é.

 

E é fácil ser feliz.

 

Porém, muitas pessoas jogam fora a felicidade. Quando são felizes parece que não suportam ou não acreditam que são e precisam simplesmente estragar tudo.

 

Ou quando não são felizes fazem de tudo para continuar assim e ainda tentar fazer com que os outros também não sejam.

 

E é ainda mais simples ser feliz.

 

Não, não há receita. Não há regra. Mas todos sabemos como.

 

Só não é feliz quem não quer. Só deixa de ser feliz quem quer. É uma opção.

 

E há muitos que não querem ser feliz e destróem a felicidade do outro. Quem faz isso não merece perdão e sim cem anos de solidão e infelicidade.

Porque como é uma escolha de cada um, não é permitido interferir na escolha do outro – não quer ser feliz, se mande, mas não leve ninguém junto.

 

Ser feliz é fácil e simples. Você sabe como.

 

Nisso é cada um por si. Seja feliz.

 

Ou não.

Como você quiser.

 

 

 

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