Trovoadas

As trovoadas anunciavam o fim: aquele calorão nos deixaria em paz. O vento descobriu as pernas, arrastou as lonas, os comerciantes recolhiam jornais e melancias. Naquele momento era possível dividir a humanidade entre os felizes, que corriam em busca dos primeiros pingos da chuva, e os infelizes, que maldiziam, xingavam e pareciam gremlins ao toque de qualquer pinguinho desavisado. Num dia de calor recorde é que você conhece de verdade as pessoas.

Algumas tremerão de desejos. Outras, dignamente ensopadas, perderão a dignidade vocabular e não haverá sabão o suficiente para tão bocas sujas. Algumas te convidarão para um caldo de cana, um sorvete (nada mais sensual que sorvete), ou para suar junto. Outras irão ao shopping, até a casa da tia rica que é toda climatizada e, claro, tem piscina. Sim, eu disse piscina. Pense na água fresca, sem algas nem ondas, paradinha te esperando para uma foto de fazer inveja aos que estão de terno e gravata dignos dos ossos do ofício pelas ruas escaldantes. Algumas te esperarão em casa, nuas em pêlo (ou sem eles). Outras, com um mau humor do (censurado, mas é aquele palavrão que vocês conhecem), dirão sem pestanejar “nem encosta”. Assim, a humanidade pode ser dividida entre os que amam – e os que não, mas talvez finjam de vez em quando. Não é possível só amar no frio, queridos. (como se tirar a roupa no frio fosse de boa, né)

As trovoadas trariam o fim: uma chuva exigente e indelicada, um vento passageiro e arrebatador. As temperaturas cairiam uns dez graus. Nada voltaria a ser como antes, pois ainda o corpo suado, os quartos abafados, as janelas a trancafiar o calor dentro de casa senão os pisos ficariam encharcados. Cachorros encharcados a balançar o rabo de felicidade, eu e você a chegar em casa, pingando a transparência das roupas, a sorrir. Os computadores, televisores e ferros de passar devidamente desligados das tomadas e os banheiros fechados (essa história do espelho nunca foi confirmada, melhor não arriscar). A terra falsamente molhada. As velas acesas para Santa Bárbara.

A chuva de Verão lava a alma dos corpos cansados. Que o calor cansa, por certo. Ela passa de raspão nos dias mais quentes só para constar: ela pensa em nós. Pensa em nós satirizando nossos sofrimentos e desistências. Não fui até a farmácia hoje, só de pensar em andar três quadras num asfalto inclemente de mais de sessenta e cinco graus eu preferi tomar sorvete para aliviar a dor de cabeça. Para quem olhava pela janela a imaginar uma rede pendurada debaixo das árvores do quintal: ainda dá tempo de correr colocar as cordas (não há lugar melhor do que uma rede para apreciar os temporais de Verão, vão por mim). É o intervalo, é o nosso recreio, aproveita e tira o lanche da bolsa, contempla como ela é passageira. Antes do suor do teu peito secar, ela terá se mandado. E a certeza de amanhã será mais sol e calor – ela, porém, é voluntariosa, pode nos deixar esperando um encontro nunca marcado.

As trovoadas diriam o meu sim: quero o caldo de cana e o sorvete, o banho de chuva, o corpo encharcado de suor a gotejar essa água gelada da chuva, os pés escorregando do chinelo, os olhos buscando um arco-íris, o testemunho das janelas fechadas às pressas, o escândalo do mar a acinzentar-se espelhando as nuvens. Viriam os raios brutais e instantâneos (talvez eu persistisse em fotografá-los). Quero estar na rede da varanda a afagar teus ombros enquanto a chuva de verão segue seu rumo a estabanar outros recantos do nosso litoral. Quero todos os temporais.

Não sabem

Se todos soubessem

não seríamos nós

 

os ventos sopram a favor

e entre linhas és meu leitor

 

apregoamos versos e verdades

ao desviar das maldades

 

as mãos cansam no limiar do dia

fechamos os olhos em sintonia

 

nas ondas do mar a espera em mim

e sacrifícios duram tardes sem fim

 

ah! se todos soubessem…

 

não seriam histórias

resumiriam as fofocas

não seríamos nós

a buscar noites frias

na segurança do balanço da rede.

Noite de Natal

Naquela noite de Natal não havia nenhum pacote de presente debaixo da árvore. A mesa grande decorada com uma toalha cheia de bonecos de neve e papais noéis não ostentava nenhum enorme peru. As caixas de som não entoavam os mais belos cânticos natalinos. Nem o pisca-pisca estava aceso. Era um Natal onde faltava paz. Faltava que as pessoas acreditassem no futuro. No próximo Natal, caso tudo continuasse igual, o passo seria nem ter árvore a ser enfeitada. Os corações mantinham os adornos, apenas. Corações adornados não preenchem espaços. Viam-se invejados, pelo lado de fora. Sorrisos não pendiam dos galhos da árvore decorada no meio da sala. Crianças não enlouqueciam o chão com seus novos brinquedos. Cachorros e gatos não detestavam suas roupinhas vermelhas inexplicavelmente cheias de pompons brancos.

Naquela noite de Natal o entorno da mesa farta era ruidoso. Diriam que todos ali se entendiam. O churrasco de sempre passava de mão em mão. As caixas de chocolate já abertas descansavam no balcão. As crianças disputavam a vez na bicicleta nova da prima mais afortunada, logo estariam agarrando-se pelos cabelos. Todos suavam e o ventilador não dava conta do ambiente abafado. Uns disputavam conquistas do ano, outros discutiam a agenda da casa compartilhada na praia. A maionese seria pouca, é fato. A tia nunca acertava a quantidade. Ou sempre apareciam os que ninguém esperava. A família, já grande, crescia tanto a cada ano! A árvore-de-natal de plástico não chamava atenção no canto escuro, perto da porta do banheiro. E um papai Noel vesgo tilintava seu sino até acabar a pilha, para ver se a neta recém-chegada pegava logo no sono.

Naquela noite de Natal eles nem sabiam ao certo que era… Natal. Os tubos de oxigênio, as macas, os sacos de soro silenciavam a noite feliz. Um laço vermelho na mesa da recepção queria lembrá-los – em vão. Os lençóis brancos e os horários cumpridos à risca não queriam emular a neve nem preocupavam-se com a ceia. Havia um silêncio descomunal pelos corredores que pareciam ainda mais escuros. Nem as almas perambulavam naquela noite. Um ou outro era visto num canto a bocejar e esfregar os olhos com a mão adormecida de dormir meio sem jeito na cadeira. Todos torciam para que, até o fim do plantão, a sirene da ambulância não tocasse tal qual o sino do papai Noel.

Naquela noite de Natal eu colocaria um vestido novo e sentaria no sofá à espera dos presentes, minguados, por certo, porque não havia sido uma boa menina. Olharia a dança das nuvens depois da tempestade pelos janelões da sala de visitas. Contaria as horas para ver o velho barrigudo e de barba branca (verdadeira) entrar pela porta da frente carregando um saco vermelho. Veria a sala encher-se de gente, sendo, como sempre a primeira a ali estar. Esperaria com ansiedade meu nome ser chamado – uma, duas, várias vezes. Colocaria um presente sobre o outro, empilhados num canto, com medo de que alguém confundisse com os seus ou que se perdessem no meio dos pacotes vazios. O sono chegaria e eu, satisfeita com todos os regalos, abraçada a eles com medo de que eles deixassem de ser meus, partiria para a cama.

Naquela noite de véspera de Natal o cansaço levou-me tarde para a cama. Os olhos demoravam mais em cada piscada. O ventilador tornava o quarto fechado atrativo. Eu esperava por você. Esperava ter mais esperanças e fé no futuro. As pernas doíam pelo andar desenfreado da correria das compras de Natal. Pensava na praia, em pular para o Ano Novo, em como era bom que Natal só havia um por ano. Quando seria mais difícil te esperar, você apareceu. No portão de casa, você reclamava pelo meu colo. Talvez o coração aos pulos ou eu nem sabia ao certo. O Natal agora fazia sentido. Eu te esperaria, sempre. Sem sono, sem cansaço. Para ver teu sorriso, enxugar tuas lágrimas, dar-te abraços. Em nenhum Natal, até hoje, eu havia recebido o que mais desejava. E, ali estava, tua presença. Ao voltar, pé ante pé para não esbarrar nem no papai Noel que dizem que sai da chaminé, desliguei as luzes do pinheirinho, tirei o vestido embebido no teu cheiro e adormeci a sorrir com o melhor presente da minha vida.

7h44

 

Ele deixará suspiros de lamento pelos dias não terem sido ainda mais longos. O Verão chega e abre as portas para a esperança. Talvez a única coisa que hoje nos falta. As sombras espalham-se pelas nossas vidas e somente o sol dilacerante da alta temporada de calor para espantá-las. Dirão que não. Enganam-se. O Verão é alegria em potência. É força à espera dos desânimos. Nem todos irão à praia, nem todos conseguirão o bronzeado perfeito, nem todos terão férias. Mas a todos é dada a chance de se redimir dos seus desalentos. A todos é possível macerar suas mazelas ao belo sol.

E se chover? Se chover a gente toma banho de chuva e fica na varanda vendo os raios desenharem os céus tumultuados. E se fizer frio? Se fizer frio a gente caminha pela praia, de moletom, e depois fica enrodilhado no sofá debaixo das boas cobertas. No Verão, até a chuva e o frio passam. Não passará a vontade de ficar junto a quem se ama – que essa não deve passar em nenhuma Estação. Nem que sejam as doces paixões de Verão. (não esqueçam jamais que elas não subirão a Serra) Sugiro sempre apaixonar-se na Primavera, pois ficamos menos suscetíveis aos amores fugazes e ardentes do Verão – e colocamos à prova o amor que supera distâncias e ausências. Se o teu amor aguentar um Verão de provação é sinal de que ele aguentará muitos percalços da vida.

Às 7h44 o peso do mundo aliviará nossas costas. Quereremos mais vento e menos roupa. Há algo de versos brilhantes rodopiando pelos jardins e pelas ruas. Sentiremos uma vontade irresistível de ser quem somos – sem máscaras, titubeios e sorrisos fracos. Quem é de banho de mar, tomará mais banhos de mar; quem é de cerveja gelada, tomará muitas cervejas geladas – e desejamos que todos em paz. E até quem é do Inverno perceberá a graça do Verão numa criança brincando feliz com a água fresca de uma piscina ou a fazer castelos de areia sem suas preocupações filosóficas inerentes.

Mas, como todas as Estações e como os castelos de areia, este Verão um dia findará. É neste momento que não consigo gostar das despedidas e dos finais. Peço que se me virem por aí pelo fim do Verão, me dêem um abraço. É difícil superar o fim, a cada fim, do Verão. Notarão meu mau humor, minha tristeza súbita, minhas reclamações, meu desgosto pela sua Estação vizinha. Dele sempre guardaremos boas recordações, que são traduzidas em fotos, gargalhadas e as marcas do sol na pele. Por que falar do fim justo agora quando ele começa? Para não esquecer de aproveitá-lo a cada minuto, a cada dia, a cada onda, a cada companhia. Deixemos a partida para depois, até porque seu primo, o veranico, aparecerá ao longo do ano – e preferiremos as estradas cheias em direção ao litoral num fim de semana.

Desígnios dos deuses

Tem aquele dia que começa com um sol e céu azul e no começo da tarde as nuvens chegam, as trovoadas anunciam e cai um temporal – o dia, assim, vira noite. Ou, você liga pra marcar o salão de beleza, afinal vai começar o Verão e você quer um cabelo lindo, e em seguida descobre que a tua única amiga pode estar com um tumor – no cérebro. E as pessoas hão de questionar “nossa, tá assim nervosa por quê?”. E cada balela de discussão em família te parece insuportável. E Verão ou Primavera ou o que quer que seja não fazem muito sentido.

O que, afinal, faz sentido? Nada. Nada faz. Qualquer um que pare míseros minutos para atentar para a razão e explicação das coisas sensatamente meteria uma bala na cabeça. Ironia, claro. Que o cheiro da desgraça te faça agir desgraçadamente. Não seria a vida, afinal, uma péssima ironia muito bem planejada? Não sei quê filosofias ou religiões dão sentidos à vida. Somos todos abestalhados a procurar o que nos engana melhor.

É a comida que há dias não lhe cai bem. É o chocolate que te deixa um gosto ruim na boca. É o pé inquieto. É você rezar pra Nossa Senhora de Lourdes por sossego e paz, por minutos de silêncio, porque até o barulho da (interminável) chuva te deixa os nervos estalando. Vão dizer que foi o ano, este ano maldito, como foram tantos outros e até escreveram artigos comprovando que dizemos isso de todos os anos. Danem-se os anos. É o ínfimo detalhe de um trabalho que te faz querer jogar tudo – tudo – para o alto.

Não tem explicação. A vida, nem você, nem eu, nem nada nem ninguém. Não tem. E viver consciente disso? Dá? Dá não. É o descompasso da vida que nos alcança a todos em algum (mais de um?) momento. Eu recomendaria portas e janelas fechadas, silêncio, talvez até alguma boba distração – ou, melhor não. Você não encontra o momento e o meio que te fizeram se enganar até agora. Por umas horas as doses de anestesia não farão efeito e é preciso encobrir o estrago, viver a dor, engolir o choro. Nos outros dias você vai agir normalmente, ficará feliz porque o Natal se aproxima, fingirá alegrias, vai até sorrir com aquela história de ver a flor se abrir.

Mas no fundo – mais ou menos fundo – a certeza da falta total e absoluta de certezas você sempre carregará. Pode, é claro, como a maioria das pessoas, não meter uma bala na cabeça. Pode querer vê-la turva no fundo de algumas garrafas vazias. (sempre considero uma baita saída – mera opinião pessoal) Pode recorrer a outras drogas – há tantas. Pode, até, querer escrever (não recomendo). Pode, quem sabe, assistir à novela, rezar e dizer a si mesmo, todas as noites, “nada faz sentido” antes de dormir. É uma convicção. Na falta de certezas que nos amparem, agarremo-nos às convicções (sempre fui simpática a elas).

Dizem que depois da tempestade vem a bonança – mas, quer coisa pior que ditados populares para encobrir dolorosas verdades? Por vezes, não há desgraça maior do que viver. Manter-se de pé. Ter fé. Há quem faça drama, há os que chutam as portas. E há todo um mundo que não te deixará em paz – a começar pelos teus pensamentos. E talvez te bata à porta um grupo desses de alguma igreja a querer te convencer dos desígnios dos deuses e, bem, a última fronteira parecerá conseguir responder com educação. Tente.

Palpitantes

A saudade

fala todas as línguas

percorre vias públicas

nas rodas de skates

e rollers das crianças

desatentas

brilha nos olhos

das gatas que perambulam

no escuro

atrai as famílias

em bando para a foto

aos pés das árvores

de Natal da praça

duvida do que lhe

trará o futuro

incerto nas mãos

de alguém tão incauto

carrega lágrimas

que não disparam

diante do silêncio

elétrico do chuveiro

demora as horas

das distâncias em

quilômetros e metros

e dos relógios que

tremulam apenas

dez minutos

A saudade

cala todas as línguas

atira-se de pontes

afoga-se nas baías

agarra-se aos molhes

pega carona com os navios

pendura-se nos aviões

a sobrevoar recantos

de mares e amores

A saudade

mata todas as línguas

palpitantes de um beijo

ao quebrar das ondas

no entardecer.

Amuletos

O primeiro sinal é não olhar-se ao espelho. A imagem não é mais duplicada, é única. Mesmo invertida, desnuda-se mais do que convém. O segundo sinal demora a aparecer: é a mão que não está só – nem apertando convulsivamente a outra mão de si mesmo. Mas, voltemos ao espelho. Ele, como diria o poeta, é amuleto dos ciganos. Por vezes tão difícil conviver consigo mesmo, qualquer droga nos alivia este peso. E o espelho ali na sala, perto da porta de entrada, não nos deixa escapar. O espelho do banheiro aprisiona a cara lavada – deste, mesmo, impossível fugir. Ele não nos despe, ele nos invade. Não tem melhor ângulo nem a cara de malvado: ele nos vê no todo. E ele percebe.

A mão cofia a barba no meio de um trabalho complicado. Ela cutuca aquela espinha dolorosa no nariz. Tamborila o vidro da mesa numa reunião chata. Sacode freneticamente o lápis durante o desenho que não sai como deveria. Agarra com vontade a colher de pau diante da panela fumegante. A mão, eis nosso símbolo mais solitário. Ela vive por si sem mais. E, por isso, é o segundo sinal: mete-se entrelaçada em outra. Aconchega-se nas reentrâncias da mão de alguém. Antes disso, entre o primeiro e o segundo sinal há uma longa distância – e muito pode-se fazer para não chegar de um a outro, caso se deseje.

Voltemos ao espelho. Ele é indesejável. Quem dera um Photoshop ligasse automático quando nossos olhos fixam o perfil de soslaio: tudo seria mascarado. É o olhar, por certo. Ele denuncia qualquer movimento intenso do coração. Mas é também aquela ruga minúscula debaixo dos olhos que nos contam das horas sem dormir à espera das palavras e gestos. Quando menos se quer, são os lábios que escancaram o prazer que tens sentido – e, quem sabe, desejaria camuflar. Só pra não dar, assim, na cara. Ou a tristeza, vejo-a bem, que deixa os lábios secos e pálidos. Mira o piscar, lânguido e demorado. Os olhos não fixam de imediato, todo o rosto questiona a realidade em volta: o que foi mesmo?

Aí não tem mais volta. Pelo menos por enquanto. Logo, logo as mãos serão surpreendidas. Então, talvez os espelhos nem importem mais. Ou deixaremos de reparar neles. Não me admira que o espelho tenha caído em desuso. As telas dos celulares refletem a nossa aparência, recorremos às dúzias de autorretratos quando queremos saber como estamos. Assim, não vemos nada. Não vemos mais nada. Assim não se vê o primeiro sinal: os olhos vêem só o que queremos ver de nós.

O espelho rouba-nos a alma, sabedoria indígena. Nossa reação ao roubo é sempre de autodefesa. Não somos capazes de enfrentá-lo: vai, espelho, toma, leva-me a alma. O espelho é o traidor dos apaixonados. Apunhala de frente, sem acovardar-se, no meio da testa. Crava-nos a verdade e nos desalma sem amparo. Sábia lição dos ciganos. Levaria muitas páginas a descrever todos os sinais seguintes. Não têm importância, de fato. Quando necessário, só recorrer aos espelhos – há muitos deles por aí. Alguns mais especiais que outros, pois lhe dirão com todas as letras, te chamarão pelo nome, inclusive. Para os mais inseguros, recomendo aqueles de bolso, perfeitos para momentos de emergência – apesar de pequenos, elucidam grandes dúvidas. E são do tamanho dos mais preciosos amuletos.

Os braços

O peso do mármore

e os dedos esfolados

denunciam o perfil

atarracado e de mãos

grosseiras

 

À distância se vê

o escultor

 

A leveza dos tubos

a maciez das tintas

o leve não-tocar

do pincel sobre a tela

e a figura esquálida

porosa e frágil

 

Eis aqui

o pintor

 

O nervosismo do set

as neuras das atrizes

e a chuva no dia

de uma importante externa

percebe-se na velhice

precoce e na barriga

saliente

 

O sempre presente

Diretor de cinema

 

Às vezes trilha linhas

a machadadas e foice

esculpi palavras duras

e pinta doces expressões

entra em combate

ao cunhar sentimentos

usa armas nocivas

para atacar o âmago

do leitor

esfarela distâncias

ao atar declarações

ao vento ou ao vôo

das andorinhas

por isso o bíceps

arredondado

as mãos finas de

dedos longos e quentes

o antebraço firme

e o deltoide irresistível

 

Assim é

o (meu) escritor.

Encontro desmarcado

Bati três vezes na porta

antes de entrar

sonhos esquecidos

alma livre

e um punhado de sorrisos

trouxe na bolsa

 

Os pés descalços

em silêncio atravessaram

vales e enseadas

inundações e folhas secas

e o chão de madeira do teu quarto

coloriu as cicatrizes

 

Espia pela veneziana

a chuva que nos abençoa

– faz de mim

tua visita cativa

 

Se desmancha no ar este pó

(tempos do nosso abandono)

sob os lençóis

no recado no espelho

na dedicatória do livro

no porta retrato sobre a mesa

no chocolate na gaveta

no bilhete no bloco de notas

 

Traçado na rota

as velas enfunaram-se

o encontro desmarcado

tantas vezes

e desembarcamos atentos

na mesma praia.

Nós

Nós. Os nós de marinheiro que nunca consegui fazer e me deslumbravam nos quadros e enfeites fúteis. Não sei fazer nós – nem em cordas que prendem cachorros ou coisas quaisquer. Soube, porém, sempre dar nós na cabeça, no que eu tinha para dizer em grandes momentos, naqueles dias tão pesados que os ombros recaem sobre o peito diante do espelho depois do banho. Quem dera, Futuro, que eu te trouxesse boas notícias hoje. Me puxa, Futuro, falando em nós e em meses, anos, dias, segundos – que os prezo muito – e, audaciosamente, no sempre. O sempre pode ser medido? O sempre é número? É quantificável? Meses, assim, eu entendia. Um, dois, o décimo segundo esperado mês do ano. Os três amados primeiros meses do ano. Não sabia que eles podiam ser calculados em madrugadas e finais de semana inesquecíveis de tão perfeitos. A perfeição existe? Pois então! O copo se vê vazio, resolva isso, por favor. Que eu quero falar dos meses. Noção de tempo, meus caros, vocês têm? Bom relacionamento com os números e cálculos, também? Pessoas boas são vocês. Eu não os tenho, tenho cá sentimentos. Dois meses, quanto é dois meses para vocês? Sessenta e um dias, fatalmente – ou sessenta e dois, ocasionalmente. Encha o copo, que copos vazios não geram nós nas cabeças entre meio vazios e meio cheios. E um nó? São nós. Nós entrelaçados, cordas cortadas de seus navios que seguiram viagem e jazem à deriva tão unidos como nunca a flutuar num mar de possibilidades. Ficamos tão sozinhos para saber prezar essa união num encontro que de tão inesperado é dolente em dias a fio na distância de que o nó se ate todos os dias, cada vez mais. O nó roça nossas nucas ao mesmo tempo que não nos escapa driblar tempos em cada eternidade de segundos. O nó torna-se, como diria o pastor, o plural, o nós sendo dois num só nó – envoltos, prisioneiros de si mesmos naquilo que não nomeamos, quando diante da perfeição do mar a bater no costão isolado, eu quis dizer e você me impediu. O mundo existia, Futuro, numa música distante que vinha da praia com o nome da nossa cor. As praias têm cores? Claro que tem! Em que mundo vives que nunca percebestes isso? Futuro, veja, o que são dois meses? Dois é sempre dois. Dois meses, um nó sendo nós. Futuro, acho que dormi enquanto te esperava. Culpa-me. Culpa-me a indolência. Culpa-me, mas não duvide da minha persistência ao vermo-nos tão impossíveis: tu tão curioso, eu tão observadora. Desconfiávamos, é verdade. E, vê, Futuro, o tempo… falta-lhe ainda alguma metáfora? Acaso falte, disponho-me a usá-la. Tempo, encurte distâncias, aproxime camas, una desejos. Tempo, não me apunhale pelas costas. Deslize momentos ao longo de estradas com destinos inesperados. Fiz coleção de relógios na minha adolescência para hoje não saber esperar o tempo, Futuro. Os relógios, parados, ficaram sem pilha e pararam de apressar-me. Dei bobeira nessa de encontrar-te nas esquinas e sebos da cidade. Eu queria ser, queria crescer, queria experiências e arrotar meus conhecimentos dos mundos. Eu quis, Futuro. Você chegou e fiquei sem palavras: de que tudo aquilo me valia? Eu era nó em mim mesma. Vê. E nem nos nós de marinheiros existe o nó de dois nós. Perdoa-me as tentativas vãs de desatar-nos; é que vaguei à deriva o tempo todo como apenas nó sem enosar-me em outros nós. Futuro, dois meses multiplicam-se? No primeiro, fui feliz; no segundo, fui muito feliz; e no próximo? Serei ainda mais feliz? Como fica progressivamente isto à eternidade? Questiona-me, por favor, se a eternidade existe. Ponha-me os pés no chão. Diga-me que amanhã não será possível. Futuro, ama-me. Arranca-me das fatalidades das obrigações da vida, Futuro; e joga-me nos braços do nó que faz de mim nós. O copo vazio, novamente, meu nobre amigo Futuro. Delírios me dirão que sinto cheiro de ovo frito. É como encurto distâncias. É como digo-te que eu queria, naquele dia, naquele costão, naquele momento, naquele silêncio, dizer-te o que jamais pensei que diria. Calo-me, insensatez. Esses dois meses podem ser vistos num videoclipe com o som sem sincronia. As palavras saem das bocas e não são o que ouvimos. Talvez seja a melhor metáfora para o tempo. (sobra-lhe, ainda, alguma metáfora?) Futuro, queda-te. Transcorre entre meus medos e minhas esperanças. Entre minhas propostas e perguntas que te pegam de surpresa. Fica, Futuro, que não aprendi a calcular os dias. As horas. Os meses. As datas. As distâncias. Os meses… sei que somos nós – dois nós que se encontraram à deriva de mares serenos à superfície. E os nós, dos marinheiros, não salvaram tantas vidas como as nossas. Vidas que o mar abençoa todos os dias. Mostra-me: o mar. A amar.

Blog no WordPress.com.

Acima ↑