Tempo é amor

 

Diálogo real

– É casada? Namorado? Um ficante? Um rolo qualquer? – ele me interrompe com cara séria.

– Não. Não. Não. Não. – eu, com um sorriso complacente – Você me pergunta isso toda semana, sabia?

– Sei, sim. De um dia pro outro pode mudar. – ele, ainda sério.

– Ah, não… acho muito difícil. – já preparo meu sorriso de ‘vou fazer uma piada idiota’ quando o assunto fica sério. (sempre faço isso e sei que não adianta, mas não desisto)

– É isso que eu não entendo. – sim, a seriedade já me assusta.

– Não entende o quê? – aí libero meu sorriso extra-mega-super-simpático.

– Você não ser casada, não ter um namorado grudado em você. Você… (uma ênfase, uma pausa, uma coragem) você seria a melhor esposa. Como é que não tem ninguém com você? – como se fosse possível, ficou ainda mais sério.

– Ah, eu seria uma boa esposa? Você nem sabe se cozinho tão bem e, ó, não passo roupa e nunca peguei um bebê no colo. – eu sei, eu sei, minhas tentativas de fazer piada falando sério são um fracasso.

– E daí? Eu poderia passar a vida inteira ouvindo você falar. – e aí ele combina a seriedade com um sorriso encantador (pois eu já ouvi isso antes e já vi dúzias de sorrisos encantadores na vida).

– Ah, aí eu duvido mesmo. Ninguém suporta me ouvir, sabia? Começo a achar que isso aí é cantada barata. Conheço as pessoas e me conheço, falo demais, de mil coisas e ninguém aguenta mais que meia hora. – eu, séria com um meio-sorriso sarcástico querendo encerrar o assunto.

– Eu gosto de te ouvir. Tudo o que você fala, sabe? Me faz ter idéias. Me faz querer falar de mim. – a seriedade desapareceu, o sorriso também, e pude vislumbrar uma melancolia.

– Mas eu já não te disse que pensar demais faz mal? – dou o meu melhor sorriso – Deixe esse mal pra mim, acho até que já me dou bem com ele.

– Mas nunca vou entender você sozinha. – não sei se foi insistência ou persistência dele, mas com sorriso maroto.

– É que não depende dos outros, entende? Depende de mim. E por mim, só você sabe, viu?, tenho preferido conviver com as idéias. – aí a melancolia era minha, sem seriedade e sem sorrisos.

– É… não sei se entendo. – e aí um anjo dos céus interrompeu a conversa que já tinha ido longe demais.

Pessoas especiais: tenho o prazer de tê-las na minha vida. Este 2014 mucho loco me presenteou com algumas delas. Mas, quase tudo de bom que 2014 me deu, também me tirou. Este rapaz do diálogo é mais uma dessas pessoas especiais e tornou-se ainda mais nas últimas semanas. Não foi a primeira vez e sei que não será a última que passarei por um interrogatório sobre ser ‘sem’ marido/namorado/ficante/peguete. Não vou escrever sobre como, ó, a sociedade oprime as solteiras e como as cabeças nos obrigam a estar com alguém. Lá fora as coisas realmente são assim, aqui não.

Fiz a piada de não cozinhar tão bem nem passar roupa ou segurar um bebê (é tudo verdade, viu?) porque eu sei o que um homem ainda espera de uma mulher como conjugue. É triste mas é real – não seria a realidade sempre algo triste? Comentava, esses dias, com umas pessoas sobre isso e chegamos à conclusão (li alguma coisa que me levou a isso também, mas nem lembro o quê) que o homem continua com a mesma visão machista, mas agora ele exige que ela trabalhe. Eu juro que não vou escrever muito sobre essas questões porque estou perturbada e bêbada de Stendhal – guru, amigo, irmão de pensamento. Do jeito que os homens querem as mulheres eu não quero ser esposa/namorada/amante. Já disse, meu último relacionamento acabou no exato instante que ele quis discutir a estampa da cortina da cozinha do apê dele. Mas, Jesus, quero nascer de novo se for pra passar por isso.

Eu quero escrever sobre dois pontos: as palavras (que não devem ser ditas) e o tempo. Sobre as palavras há uma preocupação de ordem acadêmica e criativa, confesso, que me persegue há anos e agora vou me dedicar a estudá-la com mais afinco, mas pra hoje temos algo informal. E sobre o tempo… bem, o amor pode ser aquilo que inventaram só pra justificar nossa procriação, mas o tempo existe sim.

Sou reconhecida por falar (demais, diriam uns) e fui sincera quando disse que ninguém me aguenta muito falando, muito menos pelo resto da vida. Dizia lá uma pessoa querida da minha adolescência que devemos casar com quem gostamos de conversar porque quando tudo acaba, só resta um bom papo (já devo ter escrito isso aqui, além de falar demais ainda me repito). Passei muito tempo acreditando nisso. Até que aprendi a delícia do silêncio a dois. Já pensou se eu fosse casar com todos que me deleito conversando?! Ia ganhar cartão de pontuação de fidelidade de cartório. Mas, não, pois se tem algo que afasto com veemência da minha vida é a banalidade. E as palavras banalizam as relações. Eu raramente digo o que sinto. Porém, não deixo de sentir jamais. Tem um exemplo que vou antecipar aqui sobre o dizer não dizendo. Na “Esse cara sou eu” do Robertão, que eu acho linda-maravilhosa-perfeita e suspiro toda vez que toca, tem um verso – só um – que eu diria pro Rei trocar. Quando ele canta “e no meio da noite me chama pra dizer que me ama” (eu sei, os malas reclamam dessa música – seria porque despertou neles o quanto eles não são ‘esse cara’ para suas respectivas? (quando homens) e porque despertou, nelas, o quanto o ‘cara’ delas não tem nada de especial?). Eu mudaria o “dizer” por “mostrar”. Só isso. Porque o meu ‘cara’ deve me chamar no meio da noite pra mostrar que me ama. Poderia ter resumido o parágrafo todo por “atitudes valem mais que palavras”, mas, vê, falo/escrevo demais.

Escrevo, é um hábito, um exercício, uma profissão de fé. Gosto de ver idéias em palavras (apesar de que a praia agora é outra). Mas eu não sou palavras. Muito menos relacionamentos o são. Em tempos de Whatsapp é difícil entender, eu sei. Quem diria que chegaríamos a este ponto da revolução tecnológica para ficarmos dependentes de comunicação viciada em… palavras (mal) escritas. Nem Bradbury teria previsto algo tão insignificante.

E, enfim, sobre o tempo. Além do Stendhal, sei que o último fim de semana maravilhoso me fez voltar os pensamentos a esta questão. Quis escrever sobre ela faz uns meses, porém 2014 não tem sido querido. Sim, a teoria de que o amor é algo inventado (e não é exclusividade cristã) para nos diferenciar dos animais e justificar nossa procriação não é minha. Lembro de ter pensado isso em algum momento glorioso da minha adorável adolescência (enquanto as amiguinhas namoravam desde os doze anos com quem hoje já são casadas) e é bem provável que fui influenciada por algo que li na época – sim, eu lia muito, foi o que me estragou pro resto da vida. Também não é nada original que amar é doar o seu tempo. Despender tempo com as coisas e as pessoas é a única real demonstração de amor que existe. Em especial para uma pessoa que é solitária por prazer. Não são declarações (as quais, aliás, acho que nunca fiz – pensava cá esses dias), não são buquês de flores, não são cartões e bilhetinhos, não são presentes caros, não é apresentar para os amigos/família, não é nem aquele sussurro ao pé do ouvido na alcova (sim! Também quero escrever sobre isso) nem andar de mãos entrelaçadas. É dedicar tempo. E, ah!, como tenho amado por estes meses!

Fui no aniversário de uma amiga de longa data e eu era a única sozinha ali – eu e a aniversariante. Todos os outros convidados eram casais. Já não sou das mais sociáveis, como todos sabem, e no meio de um papo que girou sobre “dormimos juntos sexta, sábado e domingo” (todos deram esta mesma resposta e ficaram analisando se configurava união estável ou não e tal – havia advogados no recinto) e os financiamentos da Caixa para comprar o apê, além de onde o piso ou o forno de embutir era mais barato, é óbvio que entrei em tédio profundo. Elas ali querendo parecer sensuais e gostosas e maduras e eles a fazerem piadas infantis e poses ridículas e comentários idiotas. Fui me servir e encontrei a aniversariante pegando refrigerante, aí fui obrigada a comentar “E aí, só nós duas sobrando ali no papo de casal. Mas tem cachorro-quente, aí é a nossa praia, né?” e ela deu uma sonora gargalhada. Ela me conhece faz muito tempo, sabe de histórias e histórias, e eu posso dizer o mesmo dela. Aliás, o cachorro-quente estava fantástico. Já avisei a mãe dela que passarei lá qualquer dia desses pra comer mais.

Amar não é escolher o piso do apê. Ninguém vai me convencer disso. Amar é doar-se. É doar o teu tempo para estar com, conversar com, ajudar no que for preciso, só fazer companhia, assistir à novela e ao horário eleitoral junto, pedalar junto, ir ver o pôr-do-sol junto, ouvir (de verdade) o outro. É deixar os compromissos um pouco pra depois só pra poder ficar ali deitado junto, ninando e afagando as saudades e dores do outro (que, às vezes, são nossas também). É mudar toda a rotina pra encaixar tempo pra todos que são dignos do nosso amor. É levar no médico, é levar pra vacina – e não, não é por mera obrigação. É ter tempo para parar tudo o que está fazendo (mesmo diante de prazos apertados) para explicar bem uma coisa que o outro tem dificuldade. É deixar o tempo escorrer em gotas de nós mesmos. Posso não acreditar no amor que me contam, mas conheço bem o tempo.

Tenho amado intensamente neste ano. E, não fosse o tempo, amaria ainda um tanto mais. Tenho feito verdadeiros milagres e preciso de mais alguns até dezembro. Amo tanto e tantos e tanta coisa que tenho me deixado em segundo plano – sei que não deveria, mas… Também tenho feito papel de idiota, é claro, como sempre. Porém, diálogos como o citado aqui me fazem ter certeza de coisas bem especiais. E deixemos a questão do dinheiro (ah! Stendhal!) para outra hora e a discussão sobre ter que deixar de amar por falta de tempo ainda não está pronta.

E é isso, estou que é só amor. Culpa do Stendhal. Do fim de semana. Culpa dos meus ilustres pensamentos. Qualquer dia volto a escrever coisas sérias.

porta do desejo

 

Há portas abertas

Duas à esquerda

e uma à direita

Me basta um passo

o caminho está à distância de um braço

 

 

A vida e o seu gastar sola de sapato

tão aos poucos, tão sem perceber

vai a sola deixando de si

pedaços mínimos.

 

 

Sinto que já deixei sapatos aos prantos

pelas bordas dos caminhos.

Solas furadas machucam.

Troquei sapatos cá e lá

e hoje já não mais.

 

 

Ando descalça, por fim

 

 

Assim, não há mais o que deixar

não há mais o que ter

não há mais o que perder

ou sarar.

Não há.

 

 

Pés fortes e cicatrizados

estão agora diante das três portas.

Escolha feita seguirei

sem pensar nem levar as perdas.

Sou de promessas

dessas de prometer a si mesma

e prometi levar comigo

só o que cabe em mim

e o que comigo caminha.

 

 

Temo meus pensamentos

admito não ter razão

entrego-me de corpo e alma

ao que me consome.

Diante das portas, hesito

hesitações me correm pelas veias

sempre

e à porta desejo

seguirei sem pejo.

Todo dolor

 

Todo dolor

es insoportable

cuando necesito

el silencio

para callar mis lamentos

de las cosas que Dios me quita

de los reveses de la vida

porqué decir el dolor en palabras

es imposible

 

 

en mis sueños

– lúdicos y infantiles sueños

un abrazo suyo

llevaría el dolor y las personas malas

para él fundo del océano

hasta que el aire les cerrase los ojos

nadie echaria de menos quienes hacen daño a los otros

 

 

Todo el dolor

es incomprensible

no me engaño, pues no me hace más fuerte

solo hace sufrir y hasta llorar

Todo el dolor

Te hace infeliz

y si tienes ganas de gritar

hágalo con placer

porque callar-se

es imposible

 

 

la realidad

es incomparable

si lo supiera como traicionarla

me iba a poner mi mejor fantasía de sinvergüenza

la amaría una noche y otra

haría aquellas promesas de alcoba al pie del oído

y después la repudiaría

así como son todos los amores incontrolables

la amaría por desprecio

para llevarle conmigo su astucia

y su insolencia

 

 

Todo el dolor

tan solo duele

y hacemos poesía

y no tenemos presunción

de decir nada más que

el dolor

solo duele

Em nome dos preteridos

Passou-se muito tempo para que eu possa continuar ignorando evidências. Talvez eu acredite demais numa sina, uma sina de família sobre dores e desgraças. E talvez eu tenha certezas, ou talvez só uma certeza: perderei todos que amo, sempre. Talvez Deus tenha me olhado, ao me designar para este mundo, e dito “vai lá sofrer, amar e perder”. Pois o raio cai várias vezes no mesmo lugar – e garanto que viajar de avião, mesmo em 2014, é mais seguro do que de carro. Sinto-me, por vezes, coletora de histórias. E me consumo muito em guardá-las, revivê-las, relembrá-las o tempo todo. Nem um décimo de mim divido com os outros. Porque faz ainda mais tempo que sei que sou sozinha no mundo, sozinha e solitária, e nada nem ninguém – graças a Deus – mudará isso. Eu é que às vezes, só às vezes, me engano e faço de conta que é diferente – que eu posso contar com os outros, que eles fazem parte de mim e essas bobagens. Sim, bobagens. Talvez eu leve demais a vida a sério. (e a construção da frase não ficou boa – agora implico até com isso) Tentei e tento ser melhor, pensar, mudar as minhas atitudes, fazer mais. Mas em manhãs chuvosas de domingo me questiono duramente porquê. Sei que é, essencialmente, para mim. Considero muito difícil que eu faça algo por ou para alguém. Quando faço coisas que as pessoas dizem que foi para ou por alguém costumo discordar, faço por motivos mais nobres e nem preciso dizê-los. Na melhor das hipóteses, faço por mim. Estudo, trabalho, corro atrás dos meus sonhos e não só corro, faço por onde, aprendo o tempo todo, perco horas de sono, dou meu tempo para criaturas que eu amo e que me fazem bem, dou meu melhor no que faço, separo um tempo hoje para todo o amanhã que eu almejo. E muitos diriam que faço tudo isso para nada. Aliás, quem me cerca nem entende o que faço. Nem acreditam no que faço. E talvez seja o motivo de eu ter me criado sozinha e solitária, basta que eu acredite em mim. Pra seguir meu caminho basta que eu saiba aonde estou indo. E coisas, lugares, pessoas e amores vão sendo perdidos… Perder. Taí, Deus acertou bonito nessa. Deve vir daí minha total ausência de espírito competitivo. Sou perdedora por natureza. Sei (bem) perder. E talvez já nem me importe muito com isso – mas ainda tenho meus momentos de rebeldia. E, talvez, perder seja a melhor lição que alguém possa ter na vida. Ou a única de fato necessária. Com ela o resto a gente tira de letra. Se um dia eu tiver filhos jamais direi que estudem, sejam boas pessoas, que o trabalho dignifica o homem. Talvez nem para eles eu consiga dizer mais que um décimo de mim, mas deixarei claro que ser inteligente, se doar em amor, ser fiel e companheira, liberal, divertida, tentar melhorar sempre, procurar fazer mais do que o mínimo e lutar não garantirá reconhecimento ou prioridade nem entre pais, irmãos, amigos ou amantes. Ser preterido por outros que não se esforçam ou não têm as qualidades que você tem é via de regra no mundo. Por mais que se aprenda isso, será sempre indigesto e a indignação será justa. Justíssima. Nem para quem é sozinho e solitário ser preterido cai bem. E nem a água do temporal da manhã de um domingo lavará cicatrizes e inflamações que custam a sarar. E ainda terão os sonhos, aqueles de olhos fechados, que insistirão em te lembrar disso quase todos os dias. E só é possível manter-se de pé trilhando um caminho sinuoso e estimulante porque os sonhos, de olhos abertos, fazem todo sentido – só pra mim, é claro, e é isso que importa. Nada mais importa. Ninguém mais faz com que eu sinta que devo me importar.

Soco no estômago

Numa geração tinder, quando descartamos pra direita ou pra esquerda aquele que achamos bonito ou feio, pouca coisa deveria nos assustar. Deveria. Quem dera fosse assim simples.

O tempo tem sido escasso para tanta coisa por aqui, mas nunca deixo de manter olhos, ouvidos e mente abertos. Assim, testemunho algumas muitas coisas que, sim, assustam.

Sentei-me para almoçar, cidade pequena, de frente para a janela num dia de semana. Levanto os olhos e congelo. Dois meninos, entre treze e quinze anos, do outro lado da rua, parados ao lado de um carro são atacados por dois policiais militares. Os meninos levam tapas, são jogados contra o capô do carro. Um policial se posiciona atrás deles enquanto o outro observa alguma coisa perto da abertura do tanque de combustível do carro (onde os meninos foram abordados). Eles falam mas eu não ouço nada. A abordagem é agressiva, não há dúvida. O policial começa ostensivamente a revistá-los, joga o boné sobre o capô, revista o moletom, demora-se demais na região genital, e num instante (sem parar de falar ao pé do ouvido do menino, que é o mais novo, por sinal) dá um soco no estômago dele. O outro policial se aproxima, chama um colega (na região há vários pois o batalhão é na mesma rua e eles almoçam todos no mesmo restaurante) que está perto. A revista do outro menino é mais comedida, os outros policiais estão perto. Os três policiais conversam, o que fez a revista ri, o que chegou depois faz um sinal com a mão. São liberados e o que fez a revista passa carinhosamente a mão na cabeça do menino mais novo antes de colocar o boné dele de volta.

Não houve acusação. Não havia indício de nada. Deixei a comida quase intocada no prato. Assisti a tudo paralisada e com o estômago revirado. Mais pessoas viram, ninguém deu bola. Dois meninos, não-brancos, como qualquer menino que vemos pelas ruas. Me dei conta, naquele instante, que fora da realidade sou eu. Aquilo ali é real. Não, nunca vivi na periferia. Não uso-a como discurso. Sempre vivi em cidade grande e região central. As histórias que já li e ouvi e vi (nos filmes) iguais a qual eu acabara de presenciar eram idênticas e, segundo insistem em nos dizer, ocorrem aos montes todos os dias.

Ao ouvir uma palestra de um especialista em drogas, e no seu combate, que conta histórias e mais histórias sobre desgraças que o uso de drogas causa na vida das pessoas (mas tudo a partir de uma narrativa, digamos, “informal”) fiquei convencida de que há pessoas (uma gigantesca maioria) que não se sensibilizam com as dores e sofrimentos alheios. No mesmo dia que testemunhei a cena tive mais provas de que as pessoas pouco se importam com o sofrimento alheio e, pior, não tomam sequer como exemplo. Senti-me, ao ver aqueles meninos, justamente ao contrário. Nem serei piegas e direi “imaginei um filho meu ali” (meu irmão, inclusive, já passou por coisas semelhantes). Vi-os ali, passando por aquilo, vi os rostos deles. Depois daquilo, pouca coisa tem me passado levemente na vida mesquinha de cretinos que insistem em se aproximar de mim.

Resolvi, sem consultar ninguém, resgatar as discussões políticas ao final dos almoços de domingo. A época, inclusive, é propícia. E, sim, gosto muito de discussões – com quem, de fato, sabe discutir. Os ignorantes eu deixo porta afora, como bem frisei ontem. Baixei de vez meu nível de tolerância. Já tentei e discursei sobre tolerar “o outro” e tal, mas criei critérios excludentes pois não tenho porque ouvir certos absurdos.

Discutíamos, então, posicionamentos políticos e afins quando eu informei (tudo começou com a minha pergunta, “entre a Dilma e Marina, você corre pra onde?”) a um dos mais convictos da mesa: nenhum (candidato) fará milagre. O silêncio pairou. E um outro disse “não, isso óbvio”. Por isso não sou ferrenha de nenhum candidato ou partido. Tenho, inclusive, desconsiderado pessoas que eu, até então, considerava que tinham o mínimo de formação e cabeça. As baixas estão em alta, com o perdão do trocadilho.

Ontem cheguei bem tarde em casa e só vi uns comentários no twitter sobre o debate (eu nem sabia que seria na terça, ando por fora de TV e tal e me disseram que seria na quinta – aí, talvez, eu conseguisse assistir). Já comentei muito debate no twitter e o meu favorito é sempre o da Band. Mas fiquei ali lendo os tweets e meu estômago revisou-se quase do mesmo jeito quando vi a cena com os meninos. Além das pessoas que eu sigo, foram muitos RTs (ou seja, “ouvi” outras vozes e até acompanhei alguns replies. Não sei se o debate dos presidenciáveis foi indigesto (minha TV mal funciona e a Band de jeito nenhum), mas garanto que tudo o que li o foi, talvez até revoltante.

Era engraçado comentar só os trejeitos, falhas e aparência dos candidatos. Sobre a Marina em específico, já se pode observar uma rispidez a mais (além da ira dos partidos polarizados que vêem na sorte dela – na medida que a morte de alguém pode ser sorte para outro – o azar deles) pelo fato de não ser o padrão “bonita” de vocês, não-branca, cabelo não-liso, usar óculos e roupas fora do padrão “revista de moda” de vocês. Virou a chacota da noite. A Luciana Genro também foi achincalhada pela sua aparência e expressões faciais. Dilma, ao que parece, ficou ofuscada ou já estamos cansados de rir da imagem dela. Ah, claro, sobre a aparência dos candidatos homens não vi quase nenhum comentário. Porque rir de mulheres que não são a loira gostosa que os homens desejam secretamente a portas de banheiros fechadas, pode. O que vi foi uma espécie de tinder eleitoral. Como me senti? No mínimo, bem no mínimo, nauseada.

Não adianta, penso eu, estar em sala de aula tentando abrir cabeças a machadadas quando o mundo aqui ensina tão bem coisas tão ruins. Não adianta. Continuem reiterando preconceitos e ignorâncias, parece que lhes faz bem. E, claro, continuaremos a ignorar os meninos violados em revistas no meio da rua e ao sol do meio-dia.

Não se pode levar mais nada a sério com a presença irrestrita da internet? Memes e babaquices afins dominam até manchetes de revistas e jornais. Sim, porque quando vejo a quantidade de memes e sei lá que nome dão para essas coisas que entopem as redes sociais imagino que ser humano tem tempo na vida pra ficar montando e editando essas coisas. Não pude, no sentido político, tirar nada do debate pela minha TL. Nada. Nem daqueles que nunca aparecem no twitter e só apareceram ontem pra dizer solenemente que não temos em quem votar, “ó, desgraça”.

Dizia eu, lá na mesa do almoço de domingo, que não vejo saída na política., ao contrário do que percebo na nossa sociedade tão superficialmente politizada (hoje todo mundo discute a campanha em todos os cantos). O Estado, vejam só, não é responsável nem culpado por tudo. Há uma crença cega coletiva de que nós não somos responsáveis por nada. Não vejo (nem nunca vi) alguém criticar a educação confessando que é ou foi um péssimo e irresponsável aluno – ou professor. E quem adora criticar a corrupção mas corre atrás de político pra pedir “favores” ou sonega ou engana o chefe? E o médico que estudou mal e é negligente com o paciente que na conversa de bar diz que a culpa toda é do sistema de saúde?

Culpas existem aos montes. Porém, o que está fora de moda é consciência moral dos próprios atos. Controlei-me, ontem, numa crise de desespero ao imaginar a humanidade não usando sua racionalidade. Quiseram meus pensamentos do banho que eu analisasse apaixonadamente tudo o que tenho visto e lido… e eles me diziam que a única conclusão é que não temos sido racionais – nem nas coisas mais simples. E, sim, isso me parece desesperador. Nem o simples fato de que somos racionais e devemos usá-la, a razão, tenho conseguido enfiar a machadadas em algumas cabeças.

Não estamos cuidando das nossas responsabilidades. Não temos feito exames de consciência. E nem de longe temos sido racionais. E assim seguimos euforicamente. A euforia coletiva sempre me indica maus presságios.

Enquanto tento controlar crises de pânico (tenho desejos de me desligar das pessoas e do mundo) o soco no estômago daquele menino sinto-o na cabeça.

Por respeito aos nãos

Talvez fosse coerente começar escrevendo sobre oportunismo, coisa que (se é que um dia saiu de moda em terras tupiniquins) está muito em voga. Só de escrever declaradamente sobre certos assuntos eu já posso abraçar os oportunistas que, parece, têm brotado aos borbotões. É curioso o quanto aumentamos a exposição daquilo que criticamos que está sendo exposto, já repararam? Se eu considero que uma determinada ação de uma pessoa (ou de um grupo delas) é excessiva, errada ou expõe o que não deveria, ficar falando, publicando e comentando-a só ajuda a aumentar a publicidade da coisa. É simples. Mas muita gente não percebe.

Não, não me deterei em fatos particulares. Serei o mais abstrata possível. Como dizemos no twitter, entendedores entenderão. Justo assim. Antes de começar a escrever pensei e repensei o quanto eu sofri tentativas de cerceamento desde (e principalmente durante) a minha infância. Na prática, nunca houve porta trancada, armário alto, portão com cadeado, cofre com segredo, esconderijos secretos e afins que tenham me detido – podem perguntar, algumas histórias são célebres. Ouvir um não ou uma proibição qualquer disparavam em mim, no mesmo instante, o botão do desafio. Se era não, então eu faria. Claro que me meti em inúmeras confusões, apanhei pra caramba, deixei algumas pessoas em desespero. De fato, não faz tanto tempo assim que o que não era pra ser, pra mim seria.

E não sei bem quando foi (repito, não faz tanto tempo assim) me vi refém dos meus próprios nãos. Eu me dei o dever de me cercear. Os primeiros momentos foram de dilemas quase-existenciais. Minhas atitudes mudaram. Eu decidia por mim se sim ou não. Não demorou muito para me sentir responsável – ó, meu pavor desde sempre. E, sim, hoje creio que me sinto uma velha por isso. Envelhecer deve ser isso de respeitar os nãos – os próprios nãos. E, lhes digo, dia após dia, tenho me deparado com situações nas quais o coração sai se arrastando pelo peso dos lamentos ao respeitar meus nãos…

Pensei cá se não deveria ser uma lei universal o respeitar os próprios nãos. Não é questão de educação, etiqueta, noção ou bom senso – não é respeitar o que nos é, desde sempre, imposto. É saber o que se deve ou não fazer – em determinado lugar ou situação. Pensem bem, não estou me referindo às psicoses nem aos crimes hediondos (mas a alguns casos destes é possível aplicar).

Pensei, também, que seria simples. Passaríamos menos vergonha com atitudes totalmente reprováveis – dessas que abundam registradas em imagens e divulgadas na internet –, talvez até respeitássemos mais uns aos outros (entre mortos e vivos), quem sabe até acreditaríamos mais nos seres humanos – esta espécie que louva tanto ser racional.

Concluí, então, que tenho pensado demais. De vez em quando acontece. Publiquei, ultimamente, textos de ficção (?) porque também de vez em quando acontece de eu querer olhar o mundo somente pelos olhos da ficção. Acredito que poucos lograram acompanhar o que eles de fato queriam dizer. Mas, pelo que afirmam os estudiosos das Letras, não importa o que o texto quis dizer, mas o que ele disse a você, leitor. Nem terminei de escrever e tenho certeza que este texto não dirá absolutamente nada à maioria (dos que o lerão, óbvio). Entendedores entenderão.

Às vezes também acontece de eu preferir apenas observar. É um exercício e tanto. Ainda mais quando os dias são batalhas árduas em obedecer aos nãos que eu me digo – tem dias que é um atrás do outro e, ó, coração, sofra sem dar um pio. E enquanto isso vou lendo livros de ficção que me ajudam a entender tudo. Ficção só me faz bem – da realidade já não posso dizer o mesmo. Às vezes, só às vezes, tenho cá pra mim que há uma imensa maioria jogada ao mar, entre ondas que vêm e vão e vêm e vão e têm dificuldade (total incapacidade?) de perceber. Entre as pérolas “na minha opinião, tenho certeza absoluta” e baldes de gelo, não sei bem o que se passa com a cobertura em tempo real e imediato do mundo.

E aí também estranho e (em certos casos) lamento as mortes (não que eu ache, como parecem querer que a gente acredite, que tenha morrido muito mais gente nesses tempos do que em outros – cadê as estatísticas?). E entre over flooding de especialistas sobre suicídio, depressão e piadistas de merda, é reconfortante ver que certos sentimentos continuam os mesmos – a pobreza, a politicagem, o amor, o ódio, a ignorância. Talvez eu até preferisse o mundo quando ele era assim.

É, sou velha, mas tão velha, a ponto de preferir os bons tempos em que fofoca era fofoca e não indireta nesta ágora on line. Bons tempos quando meu avô discutia política no final do almoço de domingo e minha avó suspirava “política e religião não se discutem” – pois é, vó, nem o teu não eu respeitava, posto que foram as primeiras coisas que amei discutir na vida. Sou velha, o suficiente quem sabe, para respeitar o meu não nem que seja diante da dor dos outros. E aí me deparei com uma passagem – ficção (?), é claro – de um dos últimos ilustres falecidos que fez parte da minha adolescência mais desrespeitosa com os nãos (e feliz) da qual muito me orgulho:

Sobre enterros no Nordeste:

“Às vezes, um enterro cedo. Precisava ser cedo, porque logo se trabalhava. Defunto não come, talvez seja melhor. Mas não era menos enterro por ser de madrugada, antes era mais, porque em outras horas tem sempre gente na rua que não está prestando atenção no enterro. E de madrugada não, porque, quando tem um enterro de madrugada, só tem mesmo o enterro, com aquele caixão deslizando e o povo atrás e se ouvindo as pisadas no chão e as pernas das calças se esfregando umas nas outras.” – João Ubaldo Ribeiro, Sargento Getúlio

Sou dessas velhas que entendem enterros como o som dos passos e das pernas das calças se roçando. E, vejam bem, no meu tempo nem precisavam ser de madrugada para tanto. Ah, para os que não me conhecem, já fui a mais enterros do que descobri segredos de cofres e senhas de e-mails alheios. E, talvez, só quem já tenha visto ou sentido certas coisas vai entender o “defunto não come, talvez seja melhor”.

Enfim, Ubaldo era baiano e seus personagens transitavam ali pelo sertão. Mas ele também saía da ficção pra dar umas bordoadas na nossa realidade – esta, em resumo: uma democracia que não sabemos usar. Também não sabemos usar a liberdade e quase não encontro quem respeite seus próprios nãos. Então só me resta concluir com a imagem da minha avó recolhendo o prato dela e se retirando da mesa.

Deslize inconfessável

   

     Das coisas que gosto da vida, as inconfessáveis ocupam um lugar especial. Tenho cá pra mim que uma vida que não tenha seus recônditos inconfessáveis não é em nada vivível. E nem falo daquelas coisas que se confessam ao pé do ouvido ao amante recente enquanto corpos ainda suados tremem convulsivos. Digo as inconfessáveis por excelência e tenho apreço especial por aquelas que não confessamos nem a nós mesmos.

      Uma pessoa muito querida que conheci este ano tem me ajudado a pensar, estudar e entender coisas sobre este… poderia dizer ofício, mas aí lembra qualquer coisa relacionada a profissão ou obrigação, e não é o caso. Trabalho, talvez, porque como disse ele “nós não temos horário, nós temos trabalho” e encarar como trabalho foi o que fiz ano passado e me ajudou muito. Ou, quem sabe mais verdadeiro, um hábito. Tenho, por hábito, escrever. E isto eu encaro como trabalho. Demorei anos para chegar até estas definições – e acredito que elas possam mudar como já mudaram tanto para chegar até aqui. Como eu ia dizendo, esta pessoa (é um fofo, sério) entre tantas coisas diz repetidas vezes que o escritor é um outsider. Ou seja, que escrevemos porque não nos sentimos in, sentimo-nos fora de algo – seja espaço, grupo, normas, etc.. De coração, ainda tenho dificuldades em dizer: sou uma outsider! Sabe, acredito que é uma certa antipatia por pessoas que sempre se autodenominam ou rotulam “sou underground”, “sou alternativa”, “sou eclética”, e afins. Não sei bem o que há dentro para ter certeza que estou fora. E, reparem, entre todos os diferentes há os iguais. Não adianta pintar o cabelo de vermelho-cereja, só se vestir de preto, ser fã do Nirvana e achar que é diferente: tem milhares iguais a você. É uma mentalidade permitida na adolescência e foi lá mesmo que já percebi essas bobagens.

      Então o escritor seria um outsider. Como não me sinto assim, tive que procurar aqui dentro como me sinto, então, como pessoa que escreve – por hábito e trabalho. Eis que não consigo fugir de mim: sou uma personagem. Nas palavras escritas sou, sempre, uma personagem. Por isso, não me causa espanto algum saber que meus maiores problemas com as pessoas são de comunicação – quando envolve a escrita. No mundo das palavras não existe eu. Aí as pessoas confundem muito. O que, aliás, muito me diverte em vários momentos. As personas que escrevem têm características, por vezes, que ninguém que me conhece pessoalmente me atribuiria. E com toda razão, aliás.

    Para poder prosseguir com algumas atividades e planos tive que procurar estas respostas. Eu poderia escrever best sellers com unhappy end como os que agora fazem sucesso, vide Nicholas Sparks e John Green. Esses dias me perguntei se isso era alguma forma de neo-romantismo contemporâneo. Sou saudosa dos tempos, antes mesmo do meu tempo, de Sidney Sheldon. Transgressão perdeu a graça? Sexo virou rotina? Desavenças são desinteressantes? Que mundo é esse, então?Mundo mais afoito por uma indústria cultural ainda nos moldes do Adorno e do Horkheimer do que nunca. Poderia, também, viver de escrever romances de banca de revista – dos quais, aliás, sou fã fervorosa! Mas, não. Ainda não.

     Como personagem que escreve tento, por vezes, me furtar a escrever. Foi esses dias que pela primeira vez escrevi um texto para publicar aqui e não o fiz. E jamais o farei. Gosto do imediatismo do blog, escrever e já publicar. Quando você se dedica a escrever um livro sem nem a certeza de que será publicado a situação é muito diferente. Aqui, não, escrevo e publico (e apago) quando bem entendo. E publico muita bobagem, é claro. É o exercício, é o hábito. Foi logo depois deste que não publiquei que escrevi um que não tinha nada a ver com o que ele era na minha cabeça. Me explico. Não sofro da síndrome da folha em branco. Não sento e digo “agora vou escrever”. Eu penso, penso, penso, matuto, crio tudo na minha cabeça (e raramente uma anotação aqui ou ali), lapido uma frase de efeito ou outra. E aí, quando está tudo ali, sento e escrevo – e raramente releio ou reviso. Mas, no caso deste texto em especial eu não gostei dele na questão formal. Queria algo mais poético e não foi este o resultado. E aí pensei em não publicá-lo.

    Foi, então, que senti a responsabilidade como alguém que escreve. Tratava-se de emoção. Era um simples registro de sentimentos. Vejam só. Pensei, talvez arrogantemente, que eu senti aquilo como tantas outras dúzias de pessoas também o sentem. E me vi responsável por elas. Há uma pessoa que diz que o escritor é aquele que não teve preguiça em escrever o que muitos pensam ou sentem. Sabe quando a gente lê uma coisa e se “identifica” (sorry, detesto o termo depois que ele foi vulgarizado pelo Big Brother)? Então, o autor é aquele que entre eu e ele não teve preguiça. Simples assim (mas não tanto). Da escrita não consigo fugir e de tudo faço literatura. Já conheci e conheço muitas pessoas com idéias e sonhos fantásticos, além de bons contadores de histórias. Mas daí a terem escrito livros, nunca. E, sim, claro, obviamente, me utilizo deles na cara dura.

    A responsabilidade é essa. Registrar sentimentos e emoções que sei que não sou a única que sente. Sou personagem o tempo todo, mas quando assumo a ficção penso catar os sentimentos e emoções que conheço e desconheço para chegar a alguém. E sempre chego.

    Voltamos, então, friamente calculado, ao começo. Meus leitores não confessam que lêem o que eu escrevo. Eis algo inconfessável. Vejam bem, ler o que eu escrevo ainda não é crime. Faço festinha em mim mesma num flerte com prazeres proibidos ao saber que sou parte de algo inconfessável. Afinal, de coisas inconfessáveis é que se faz uma boa vida. A responsabilidade que assumo (visto que tenho pavor de responsabilidades) ao escrever por outros recebe, em contrapartida, o deleite de ser a inconfessabilidade de algumas vidas por aí. Não desejaria nada mais.

    Meu blog não é daqueles de milhares de acessos por dia, semana ou mês. E com números nunca me importei, vocês sabem. Nem escrevo e fico mandando aos amigos e conhecidos para que leiam. Me sentiria mal fazendo isso. Me dei ao luxo de configurar aquelas ferramentas que publicam automaticamente nas redes sociais e só. Sei de pessoas que lêem o que eu escrevo. E sei que elas não assumem isso por aí. Tenho leitores que não falam mais comigo, que já me amaram e odiaram demais, aqueles que me conhecem mas nunca nem me disseram um “bom dia”. Amo todos vocês, viu? Como personagem que escreve tenho um coração enorme.

     Lamento muito ter, novamente, escrito sobre o ato de escrever. Poderia, sei lá, falar da Copa das Copas ou da campanha política. De vez em quando vocês sabem que eu faço isso. Tirei o ano para (me) estudar sobre este hábito que não me abandona desde tanto tempo e ao qual resolvi dar uns afagos. Daqui a pouco eu volto para escrever sobre casamento, dores de amor, manias doentias, problemas sociais e as curiosidades que observo. Enquanto isso meus leitores vão acariciando seu inconfessável deslize de me ler.

 

Os homens da minha vida – o fora

Demorei, demorei demais para entender. Então, pela primeira vez eu levei um fora. Era isso, era assim. Não estava com dó de mim. Minha larga experiência em dar o fora não havia me prevenido. Precisei de tanto tempo para saber que fora um fora (perdão pelo trocadilho) e mais um tempo para poder verbalizar e vivenciar isso. O tempo, ah!, o tempo!, fora (!) tão cruel conosco. Coisa de dias, de semanas, nem chegou a meses – e tudo, t u d o, teria jeito. Mas, não. A vida a me trollar (na falta de termo melhor) ad infinitum desde então. E aí chegou esta semana, meses depois, em que abracei a vida e comecei a rir (de mim) junto com ela. Eu não tinha mais saída. Fui passear por caminhos onde tantas vezes pensei em você, onde tantas e tantas vezes pensei e repensei nos dias que passamos juntos, onde tantas vezes sonhei. Ali fiz minha penitência logo que vi um rosto e senti aquele sobressalto. Não posso mais. Não posso mais encontrar teu rosto por aí e sentir o coração pular. Que, o coração que me perdoe, mas isso não é coisa que se faça. Não posso mais ter receio imenso de voltar a frequentar certos lugares porque temo – com todo o temor que me é possível – encontrá-lo. Porque já não sei o que faria se te visse. E, em verdade, não quero saber. Foi ali, diante do mar verde da cor dos teus olhos, um vento norte frio e inimigo, entre o mar e a Ilha do Campeche, que afoguei o nosso amor. Gosto de rituais e não tinha lugar (nem trilha, aliás, porque é claro que até o mp3 me trolla) melhor para o nosso amor descansar em paz. Volta e meia irei visitá-lo e te garanto que todo ano ele receberá flores em fevereiro. Vou rezar pra Deus, nosso Senhor, para nunca mais te ver. Ah! Nunca mais. Que dessas coisas de fim entendo bem. E guardo a esperança, que nunca morre, para todo o resto. Naquele dia a sinceridade foi tanta que nenhum propôs “amigos?” porque amizade é outra coisa. Agora, tudo vira história. Quando me perguntaram, meses atrás, se depois de fulano eu não tinha mais me apaixonado, menti. Menti porque se eu contasse que, sim, havia me apaixonado (de novo, como sempre) mas que no único momento de sensatez da minha vida – porque, e só porque, você foi sensato como lhe é de costume – eu levei um fora com meu consentimento. Diriam aquelas almas bobas “você deveria ter lutado por ele”. Tadinhas, não sabem que luta travei de verdade. Se sofri, se doeu, nem sei. É aquela coisa dos 28 de que fala Stendhal. Só sei que agora sou bem mais cuidadosa quando digo meus “nãos” e saio (por hábito) pela querida tangente. Um dia contarei como fui abordada no trem semana passada. Não esperem, porém, a falsidade de um “estou pronta pra próxima” (nem pra levar um fora nem pra me apaixonar). Nunca estou, não é mesmo? Nunca espero nem procuro – e, às vezes, nem quero. Porque de você só me restou aquela foto que escondi em algum lugar pra bem depois achar – e aí sorrir ou jogar fora. E como não podíamos deixar rastros, sei que tens algo que nunca te deixará esquecer de mim. E foi assim, o que me fez demorar tanto a entender é que tuas palavras não diziam o mesmo que os teus olhos. Não foi não querer, era questão de não poder. Vou aproveitar este ano e rezar pra Santo Antônio. Pois que ele me manda os melhores sempre com os mesmos problemas. Errar é humano, não é coisa pra santo. Até santo me trolla. E aí tenho achado o amor essa coisa que fica bem nos filmes e nos livros – nem do amor na vida dos outros tenho achado graça. Porque hoje ainda pensava a minha vida como uma estação de trem e o filme da tarde, um daqueles que me tira do eixo, terminava sobre trilhos. “O caminho mais reto é o mais curto” disse a moça (entre outros diálogos potentes). E eu que só tenho curvas na vida?

almas escribas

Yo tentaba hacer música de las palabras, de los sentimientos y de los pensamientos

de verdad, de música no conozco nada.

Las palabras que no sé si existen

los sentimientos que no los siento

los pensamientos que me destruyen por dentro.

No hay mundo que de cuenta de todas las palabras

palabras que no se miran al espejo

prefiero las palabras que no pueden

ser dichas ni escritas.

Preguntaría a Dios de donde vienen tantos sentimientos

sentimientos que no caben en el pecho

me gustan los sentimientos que se ocultan

en miradas y pérdidas.

Quisiera no ser mas humana y me deshacer de los pensamientos

pensamientos que me explotan hasta el hueso

me interesan los pensamientos que seducen

astros, estrellas y lunas.

A mi, Dios no ha dado la virtud de la música

y escribo como si fuera el poeta

la más noble persona

que de todo sabe, que de todo habla, que todo lo siente.

Es, pues, que a todos ustedes

el pobre les engaña.

Hay almas sin palabras ni sentimientos ni pensamientos

almas viajantes

almas que viajan por entre las otras almas de las gentes

y hacen de sus reflejos una posada

donde el vivir tiene algún sentido

y algún instante de amor.

Hay almas que hacen música

hay almas que suelen saber escribir.

Baú e Bidê

Todo mundo deveria ter um baú. Eis mais uma peça, do mundo que ficou para trás, que não tem sua estima reconhecida. Como o bidê, sabe? Ninguém mais tem bidê em casa. O bidê, com toda sua utilidade e, mais ainda, sua beleza atemporal foi extinto. As casas diminuíram, apertaram aqui, ali e a vítima no banheiro foi o sensato bidê. Sim, é sensato ter bidê em casa. Hoje querem pias modernas, espelhos por todos os lados, chuveiros mágicos e esqueceram o bidê. Bem, e você que me lê e nem sabe o que é um bidê?

Essa insensibilidade do mundo para com as coisas que trazem facilidades e belezas para a vida me entristece. Espremeram as casas, as vidas, e os guarda-roupas que têm portas de vinte centímetros?! Dá pra guardar um par de meia – dobrado. Cadê as portas com setenta, oitenta, centímetros? O portentoso guarda-roupa, peça que compõe, junto à cama, o quarto. Quarto é isso, cama e guarda-roupa – no mais é acessório. Tem gente que tem TV no quarto! Mas nunca teve um baú. Ou uma mesa de cabeceira – o criado-mudo, lembra? Sempre tive pena de chamar de criado-mudo. Cama, guarda-roupa, mesa de cabeceira e baú. Ah, sim, quem sabe uma penteadeira para as moçoilas vaidosas. Tudo se perdeu.

Ah, os baús… aos pés da cama, debaixo de grandes janelas. Sem querer ser chata, mas as janelas também diminuíram, vão espremendo nossas vistas a cada prédio com o qual nossos olhos se deparam. Um baú para guardar o enxoval de um futuro casamento suspiroso. Um baú para guardar as cobertas do inverno! Ah, amor eterno às cobertas do inverno com seu cheirinho de guardado. Um baú para guardar lembranças, fotografias antigas, bilhetinhos de infância, a primeira bolsa, aquele casaco de estimação, cartas de amores impossíveis, os sonhos da adolescência, a fantasia de um carnaval… para guardar as causas do que somos hoje. Quem não guarda suas causas, não compreende suas consequências. Um baú para guardar aquelas tralhas que não se sabe onde enfiar mas, acredita-se, um dia vai precisar. Ah, um baú para os virginianos, para guardar só coisas úteis, entre malas de viagem, patins, a raquete de tênis e o quimono do judô.

Não consigo imaginar onde as pessoas guardam tudo isso hoje. Na casa da mãe, talvez, no velho quarto da infância porque nossos apartamentos de filhos independentes ou famílias precoces não têm espaço nem para um nobre bidê. Ou, ingenuidade minha de lado, as pessoas não guardam nada disso. As pessoas querem guarda-roupas novos, com portas estreitas, entulhados de roupas da última coleção numa quantidade que nem se vivessem o dobro dos anos que lhes cabem nesta vida conseguiriam usar tanta coisa. As pessoas têm fotos em HDs. Ah, sim, quem ainda faz enxoval? Cobertas? Aquecedores e ar condicionado evitam o transtorno de estocar cobertas fofinhas e quentinhas. As pessoas não querem pensar em quem foram para não terem que discutir com quem são.

E os baús e bidês ficaram pelo meio do caminho… numa cena de O Outro Lado da Rua, Fernanda Montenegro, dama da TV, do palco e do cinema, com sua figura angulosa e maciça, debruça-se sobre o bidê do espaçoso banheiro de seu apartamento antigo. Filme recente, sua personagem apaixonou-se pelo vilão e quando tudo desaba, ela desaba aos prantos sobre seu companheiro, o bidê. Nem falo só da utilidade mais óbvia do bidê. E o prazer de andar descalça pela casa e pelo jardim, sujando os pés à vontade, e quando precisa colocar o tênis para sair é só recorrer à comodidade do bidê. Ou lavar as patas do cachorro trapalhão. Ou vomitar.

O bidê, nem que seja para chorar e abraçá-lo. Só quem não tem coração não sente a falta que o bidê faz. Ou quem não chora amores abandonados. Ou quem não suja as patas nas alegrias da vida. E o baú. Quando você não lembra onde colocou algo tão importante e, pensativo, deita os olhos no baú. Rá! Lá está! Ou numa noite chuvosa e triste, com o coração apertado, musicando dores, você entra em casa, joga as chaves, jura nunca mais, senta sobre o baú, apóia os cotovelos nos joelhos e respira fundo.

Não sei bem porque estão nos apertando tanto. Apertando nossos pensamentos e nossos sentimentos. Tiram nossos amigos solenes das casas. Não sou psicólogo nem teórico da pós-pós-pós-modernidade, mas desconfio que nos espremem nos espaços e tiram nossos pilares emocionais para que esqueçamos alguma coisa – se não por isso, por coisa pior.

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