Queria ter mais precisão na transcrição do diálogo acima. Talvez as duas últimas frases precisem de uma ou outra palavra. Sou péssima com citações, já disse. Enfim, acima da angústia, permanece o desejo de que as intenções das palavras tenham permanecido nesta breve adaptação.
E seriam os escritores algo além de criaturas que escolhem palavras com intenções (as intenções, bem entendido, das palavras, não dos escritores)? (vejam só, acabei de escrever uma frase curta na qual aparecia duas vezes a palavra “tentei” – ou seja, foi sumariamente eliminada, coisa fácil num teclado de computador) (mas tenho relutado e tido dificuldades para voltar a escrever direto nesta tela, não sei o que há, ela tem me repelido – as folhas parecem mais confortáveis)
Longe do meu desejo diante desta tela em branco falar, novamente, sobre narrativas, sobre o ato de escrever. Este desejo tem me acompanhado os pensamentos e os estudos. Resolvi escrever assim sem saber onde chegar e decidi começar por tal diálogo que me assombra pelas últimas horas.
Também não me parece digno de longas linhas o drama do filme. Na verdade não o acompanhei muito, estava em dúvida entre ele e um em outro canal e fiquei trocando entre os dois sem perceber que não estava dando bola para nenhum dos dois – e brincava com os bebês e curtia um momento obscuro.
Porém, ali havia algo, como no diálogo, que me toca os pensamentos dos últimos meses. Já não sabia mais o que fazer com um amor irrealizado e seus sintomas absurdos quando me dei conta, entre tanto trabalho, que deveria, então, escrever sobre. Com mais um livro de contos eróticos (não é bem isso, mas, deixa pra lá…) em vias de produção, decidi furar a fila dos trabalhos e escrever um sobre amores não realizados. Talvez também tenha sido influência das séries e filmes ingleses (e aquele com o Andy Garcia), nos quais encontrei alento sem fim.
E é isso. Amores não realizados. Há algo mais sublime no mundo amorístico? Há algo mais perfeito? Diriam que não há nada mais triste. Pois discordo. Triste é ver o fim real de um amor que concretizou-se, viveu, reviveu e foi, pelas esquinas da vida, destruído. Amores destruídos são tristes. A canção diz “todo o meu prédio já sabe que eu tenho um amor” e eu posso afirmar que todo meu minúsculo círculo de convivência já sabe que eu tenho um amor não realizado. Ah, eu falo sobre isso sem problemas. Cultivei o veneno das expectativas.
Escrever não é uma terapia. Criar mundos é abster-se de si. Não é a Fahya que rola no tapete da sala de TV com os bebês, ensinando e brincando, a mesma que se debruça horas a fio sobre telas e folhas em branco – ou que matuta dias sem fim por todos os cantos por onde anda. Não decidi ser escritora nem assim me intitulo. Tenho tentado assumir que escrevo. Como disse no post anterior, foi lendo, descobrindo aqueles mundos imaginários que quis criar meus mundos imaginários para além da minha cabeça atribulada.
Por esses dias acordei e me disse “quero um personagem”. Não estava contente com o que eu havia criado, ele parecia incerto. Escreverei sobre ele.
E García Márquez nos deixou. Já escrevi aqui sobre ele. A doença que o acometeu me fez pensar em como a vida pode ser cruel com o nosso corpo que nasce e cresce para apenas desintegrar-se. O primeiro livro que li dele foi Cem Anos de Solidão –lá se vão tantos anos... Na época nunca tinha ouvido falar em “literatura fantástica” e quase desisti dele nas primeiras páginas. E dali surgiram personagens, cenas, borboletas, bananas, peixes de ouro, nós no coração que me acompanham até hoje. Doze Contos Peregrinos me empurrou para esta guerra que é escolher palavras com intenções. Como o poeta do filme, crio meus heróis e heroínas… Gabriel me fez acreditar que um mundo inventado é sempre mais belo e lá atrás optei por ele – porque este aqui é tão desinteressante.
Por esses dias quis escrever que descobri em mim uma ânsia de interferir na vida das pessoas. De todos os sentimentos do mundo, tenho pra mim que o mais valioso é quando você interfere na vida de alguém – seja mostrando a ela algo que ela desconhecia, seja ensinando, seja lá como for. É o que eu sinto quando olhinhos se arregalam, me encaram e dizem “é mesmo! Eu nunca tinha pensado nisso!”. Conviver com os bebês me fez perceber mais isso. O mundo vai se descortinando aos olhos de outros… e você ser o responsável por isto é a melhor sensação da vida.
Não faz uma semana pensei, novamente, que insistia à toa em duelar com as palavras. E eis que a vida me respondeu. A cada leitor novo que se declara, ou que eu descubro, o sentimento aflora. Descubro-os mesmo naqueles completamente inesperados. E sentir que faço um pouco que seja pela vida de alguém já é tanto para mim.
Precisava dizer isso ao Gabriel. Ele fez muito pela minha vida (e não estou falando no caso de querer escrever). Como dizem os teóricos da literatura, as pessoas lêem para apreender a vida, para tentar entendê-la, para crescer como pessoa, ou até para fugir dela. Com Gabriel, tive tudo isso. Aqueles bilhetes, aquela chuva interminável, aquela rede com um gigante, aquele coronel, aquele impossível, todos eles mudaram meu olhar sobre o mundo, me fizeram ter 87 muito antes do tempo e nos piores (e como foram horríveis…) momentos me fizeram escapar deste mundo. Digo, a desrespeito de todos os amigos, de pais e irmãos, de namorados e casos, os mundos imaginários foram a melhor companhia – e, claro, somem a eles os seres de quatro patas.
A responsabilidade me sufoca. Ter leitores é angustiante – é como não saber se estou fazendo “certo”. Mas, como também já disse aqui, escrevo por mim, para vocês. Estudar sobre o ato de escrever é a soma: angustiante e sufocante. Tenho tentado lidar com tudo isso. E as histórias de amores não realizados surgem numa contemplação não de mim, mas das vidas nas quais poderei tocar com elas.
Um dos sonhos é conhecer a origem de Macondo. Um dia irei lá. Quem sabe meu filho, além do Sinfrônio José e do Zoroastro Artiaga, se chame Aureliano. E é a segunda vez, este ano, que fico com uma pontinha de tristeza por ter sido omissa em me declarar: a primeira foi ao Eduardo Coutinho, agora ao Gabriel. Porque eu já descobri como é forte ouvir uma declaração dessas. Não sinto pela morte do Gabriel, o tempo, a carcaça, as doenças. A morte do Coutinho foi mais traumatizante. Enfim, já faz tempo que a morte não é novidade pra mim. É impossível não ficar feliz com o fato de que eles, como tantos outros, estarão para sempre por aí fazendo muito pela vida de tantos de nós. Que nós saibamos fazer algo de bom com o que eles nos proporcionam, para nós e para os outros.
Estava eu ali, primeira aula. Começar pelo começo, o que é Filosofia? Ouço lá no fundo “Professora, Valesca é?”, sobre quem são os pensadores. Em seguida, “Clarice Lispector é?”.
Diria eu que não, meus queridos, filósofos são somente aqueles nomes estranhos ali no quadro. Turma de primeiro ano, primeira aula de Filosofia. E que diacho é essa tal Filosofia? E por que diacho aquelas crianças trancafiadas numa escola precisam aprendê-la?
Eu? Eu respondo assim: Filosofia é tudo. E vou tentando explicar, gosto das respostas explicadas. Deparei-me com uma das maiores dificuldades da minha vida: mostrar àquelas crianças que elas pensam. Elas não sabem disso. Não se ensina a pensar, infelizmente. Só o que se pode fazer é mostrar que todos nós pensamos. E aquela tal Filosofia poderia, então, fazer parte da vida deles. Na idade deles foi que comecei a escrever, porque eu lia e imaginava e comecei a achar que poderia fazer como os autores que eu amava: escrever aquilo que minha imaginação ditava. E foi assim que continuamos a aula que comigo é toda feita de perguntas (eu) e respostas (eles), “então o filósofo é alguém que tem uma idéia? Mas nós também não temos idéias o tempo todo?”. Segundo as respostas, eles pensam, têm idéias, são inteligentes, estudam, têm conhecimento sobre alguma coisa. E eu perguntava: e nós não? Já via os nós atados nos olhos de alguns.
Sim, tem a História da Filosofia, a História das Idéias, as áreas da Filosofia, as grandes obras. Nós não escrevemos livros mirabolantes como os filósofos, mas tirando isso, fazemos as mesmas coisas.
E aí foi complicando. Tirando alguns poucos, aquelas cabecinhas não demonstravam consciência de que sabem que pensam. Meu choque diante desta constatação foi tal que me levou à irritação. Chegou a me faltar meios interativos para mostrar a eles que eles pensam. Ninguém quer que eles pensem, ninguém nunca quis. Alguns deles desconfiam que sabem pensar, mas não querem. Escolhas não se discutem. Tenho que encontrar truques, novos truques, que me permitam mostrar a eles que eles pensam.
Saía às dez da noite da escola, cidade pequena do interior, e na minha frente três rapazes iam ouvindo algum rap no celular. Não entendia o que era falado. Comecei a matutar o que levava-os a ver que há idéias numa letra de rap, como nos versos do Charlie Brown Jr rabiscados nas carteiras da sala de aula, mas que eles não conseguiam perceber nas aulas de Filosofia. Lá e cá são idéias – eles precisam me ajudar. Por que o rap está no fone de ouvido e a Filosofia na escola? Vamos e venhamos, já eu, anos atrás, me sentia oprimida pela escola, sinônimo de enclausuramento, obrigação, tédio e quantas mais coisas ruins. Não mudaram muito, as escolas. Rap, no meu gosto, não é música, é intervenção poética. E aí ficarei apenas na opinião mesmo, pois não conheço o suficiente para emitir uma crítica.
E eu que me orgulho de conseguir falar de igual para igual com crianças e adolescentes – já disse que se não sou uma eterna criança, definitivamente sou uma eterna adolescente – estava ali sem conseguir me fazer compreender por eles em coisas tão simples. Quando perguntaram minha idade, afirmando que eu não tinha mais que dezoito, e ao verem meu sorriso de orelha a orelha balançando negativamente a cabeça, “tá, impossível mais que 22”. (cara de dezoito, corpitcho de 20 – e garanto pra vocês que o corpo dos 20 era bem melhor que o dos 18) E é assim, não posso irritar-me, não temos culpa se há séculos induzem estas crianças a não perceberem que pensam.
Aí esses dias consagraram a Valesca como pensadora contemporânea. Minha primeira reação foi rechaçar uma prova – literalmente – de Filosofia, com múltipla escolha. Desconsidero totalmente. E aí estava lá o professor confirmando sua hipótese, se colocasse Valesca na prova, a escola viraria notícia. E dizem que virar notícia ajudou ainda mais na compreensão do assunto tratado em sala de aula. E aí o professor falou sobre a escola pública, o pessoal caiu matando – coisas deste mundo maravilhoso da internet – no professor. Pelo que li, e nem foi muito (já explico), o conteúdo da prova era bem aprofundado, tema pertinente, teoria boa – e não é em qualquer escola (muito menos pública) que um professor tem condições de lograr êxito ou sequer trabalhar assim. É aquele velho mito, porque há escolas públicas excelentes – como particulares muito ruins. Educação é uma soma complexa, estrutura, meios, material didático, professores, diretores e pedagogos, alunos (com todos seus pormenores individualizantes de classe social, formação e estrutura familiar, níveis de interesse, estímulo e conhecimento, problemas pessoais e psicológicos, a lista vai longe). E aí a gente sempre quer enxugar esta lista.
Voltarei lá, todos nós pensamos. Nem todo pensamento é válido – e eis que chegamos à Filosofia. Dos pensamentos para os pensamentos válidos há um salto, e de ter idéias, expressá-las e elas serem relevantes, há outro. Não li muito sobre o ocorrido pelo simples motivo de que era mais uma “velha novidade de internet”, porque foi intencional (detesto as coisas intencionais, de verdade – só a espontaneidade me vale). O professor fez questão de dizer lá sei eu quantas vezes que ele não tem Facebook, mas sabia que ia cair “na rede” (ninguém mais usa essa expressão, né?).
Porque tem isso. Ele foi lá e disse que não tem preconceito, mas que não ouve Valesca, não é o tipo de música que ele colocaria no carro. Pra mim, quem diz “não tenho preconceito” já está querendo se defender de alguma coisa. Digo procêis, de todo coração, eu tenho um balaio de preconceitos. Ainda não ouvi a tal música do recalque (palavra brega, hein?). Fiquei aqui matutando: ouço ou não ouço, pelo menos para escrever sobre. Já vi doutorandos postarem a tal música na TL do Facebook. Decidi que terei que ouvir, dos meus alunos, o que eles ouvem, o que eles querem que eu entenda que, para o mundo deles, é um pensador. Mas eles também terão que me ouvir, aqueles nomes estranhos ali no quadro são pessoas que fizeram o que nós, só com nossas idéias e nossa preguiça, não faremos.
Não se ensina a pensar. Foi minha maior frustração na universidade, já contei? Eu esperava da universidade algo nobre, elevado, uma verdadeira “busca pelo conhecimento”. Não foi. E cedo me desiludi. E teve professor que fez muita prova de Filosofia. Até com múltipla escolha. E aquela Filosofia da sala de aula da UFSC (aquela dos maconheiros, lembram?) não tangia nem de longe o mundo real (ai, Platão!). Para a maioria dos professores nem o contexto da vida e das obras estudadas merecia atenção. Era abrir a porta, entrar, fechar a porta e isolar-se deste pobre mundo real para ir para algo inatingível (com um cheirinho de maconha dia sim, dia não)– inclusive, como eles deixavam claro, por muitos de nós, alunos. E aí a Filosofia fica assim, distante até de quem deve ensiná-la – o que, aliás, não era prioridade no curso que frequentei.
No fim e por fim, não ouvi a tal música. Porque fala em recalque… e eu tenho trauma de inveja, de todo coração. Inveja faz mal – para quem é invejado. Faz muito mal. E recalque me lembra inveja. Eu já nem quero mais saber quem não gosta de mim, quem fala mal de mim por aí. Não me contem. Tenho uma prioridade na vida: me afastar do que me faz mal. Para poder mandar o tal beijinho no ombro eu teria que saber quem me inveja ou é recalcado. Tô dispensando, de todo coração.
E o professor, bem, ele não quis quebrar um preconceito. Ele não quis dizer realmente que a Valesca é uma grande pensadora contemporânea. Ele só quis provar (precisava?) o poder das avalanches vazias de internet. A Valesca, coitada, ainda agradeceu, não percebeu a ironia ridicularizante do professor. Não posso levar a sério. Ah, e só queria deixar claro, adoro exemplos na Filosofia. Ensinar a pensar é bem complicado – impossível talvez – mas aí a gente pode mostrar um caminho ali, despertar uma idéia numa cabecinha acolá, transmitir aquilo que a gente já leu, já viu, já aprendeu. Fazer piada, burburinho ou “cair na rede” não sei se ajuda, sinceramente.
Não vejo diferença, como citou o professor, entre usar como exemplo o Chico Buarque ou a Valesca. Junta aí o rap. Não acho algo discutível. Porque o professor lá deve lembrar do Kant e de como a apreciação estética é subjetiva. Aí procuro lá no meu balaio de preconceito, porque julgar o gosto de estético de alguém é muito over. E, sério, escrever over é over demais, hein?
Quem dera eu rompesse meu silêncio para escrever sobre filmes ou sobre livros ou sobre narrativas ou sobre qualquer dessas coisas lindas do mundo da ficção. Quem dera. Relutei muito em escrever, mas o motivo me pareceu interessante – nobre não. Ando à procura dos motivos nobres – tenho vivido alguns. Foi uma portuguesa que me levou a uma avalanche de pensamentos e me motivou a escrever. Uma portuguesa que olhou para o Brasil como poucos brasileiros fazem e senti como que acolhida nas suas palavras – sabe quando alguém fala ou escreve algo no que você se sente aconchegado?
O Brasil não conhece o Brasil. O brasileiro vive de ilusões nas quais ele mesmo decidiu acreditar. Como contei aqui, em uma semana estive nas três capitais do Sul e na cidade mais populosa de Santa Catarina. O que vi foi muita gente nas ruas, eram professores em frente a prefeitura de Curitiba, o pessoal da saúde fazendo barulho no Palácio Farroupilha e estudantes fechando ruas, os trabalhadores e agentes carcerários em Florianópolis e até, pasmem, os atingidos pelas cheias em Joinville. Era pela manhã, pela tarde e até pela noite, andando por essas cidades, a pé principalmente, e lá estava algum grupo e suas vozes alçadas aos ouvidos da maior quantidade de pessoas possível.
Tive tempo para observar, para pensar, para andar por ruas com tapumes e muros pichados e com cartazes colados anunciando paralisação de hospitais, falta de professores em sala de aula, ameaças aos serviços básicos. Além, é claro, de curiosas intervenções artístico-reflexivas sobre o corpo feminino, a Copa, o uso dos animais pelos humanos. As idéias, então, estão nas ruas – através, principalmente das palavras (faladas ou escritas) e das imagens. Andar por essas ruas me despertou a sensação de opressão. Os gritos, em geral, me oprimem.
Pelas ruas de Porto Alegre
Pensei, pensei, pensei. Alguma coisa todo este rebu queria dizer. Não fui longe… o brasileiro está insatisfeito. Segundo estatísticas, os governos e as declarações do próprio brasileiro, ele tem tudo (e mais muito), mas está insatisfeito. Como qualquer criança ou animal mimado. O brasileiro tem emprego, uma parcela gigantesca tem emprego-sonho público, tem escola, tem casa (que segundo diz o slogan é sua vida), tem bolsa-isso-e-aquilo, tem a sua cansada e velha Democracia, tem um governo popular de Esquerda, tem iPhones, tem internet, tem carro na garagem! (e faz questão de trocá-lo constantemente), leva o cachorrinho para tomar banho no pet shop, tem bolsas e tênis Nike… e não está satisfeito.
Abandonei o mundo da internet por questões muito pessoais. Sou uma atrasada na questão, nunca tive mIrc, durei pouco (uns dois anos) no msn e só comecei quase quando ele estava acabando, fui um suplício no Orkut. Abraço o mundo maravilhoso dos downloads. Acho fantástico o meio, porém muito mal usado. Entediei-me com as TLs tão repetitivas (pessoas são repetitivas e entediantes), com as vidas mirabolantes não-vividas, com as idéias geniais, com as fotografias desfocadas. Irritei-me com aviões desaparecidos, com maconha no campus, com fraude na estatal, com pesquisa que só diz o óbvio e depois desdiz o que disse, com reclamações dos sistemas públicos de transporte, de empresas aéreas e de internet/telefonia – este eterno, enfim, rodízio do prato do dia no mundo virtual.
Uma das melhores atitudes que se pode ter na vida é afastar de si o que – ou quem – te faz mal. Fui afastando aqui, afastando ali. Calo-me. Mantenho um olho atento, é claro. Há algumas TLs divertidas, há pessoas com boas coisas a dizer – mesmo que sejam a minoria – e da diversão e dessas pessoas eu não abro mão.
O brasileiro está insatisfeito. Ele nunca teve tanto e nunca reclamou tanto. Vi alusões ingenuamente doces daqueles que dizem que lugar de aula também é na rua, protestando, reivindicando (ocupando reitorias, talvez). Bem, eu nunca fui às ruas, e desde do ensino fundamental fiz abaixo-assinados, reivindiquei qualidade no ensino (será que sabem o que é isso?), protestei contra arbitrariedades dos professores, apontei faltas graves deles. Do ensino fundamental ao mestrado, sempre e sempre. Dei de cara com o corporativismo fétido dos professores de universidades (federais, privadas e estaduais). Enojei-me com o corporativismo arrogante e puxa-saco dos alunos em todos os níveis. De tudo, a cegueira, principalmente a ideológica, foi a que mais me horrorizou. Na escola, nem na universidade, não há interesse em ensinar a pensar – e aí saem doutores que se dizem politizados, cientes, esclarecidos. Pobrezinhos.
Nunca fui às ruas. Não sou melhor nem pior que ninguém. Mas nunca me calei. Não preciso gritar em frente a uma prefeitura para me fazer ouvir. Diriam alguns que sempre fui uma insatisfeita (ah! Eles se surpreenderiam com uma Fahya renovada e tão profundamente diferente), disse uma vez uma professora de português (eu não tinha nada contra ela nem a aula dela, mas como era uma boa leitora e um tanto à frente nos estudos à época, era um tanto blasé em sala) “o que a Fahya já está protestando lá atrás?!” (voz esganiçada, grosseira) – e eu, bem, eu tinha acabado de contar uma piada para um colega. Não foi a primeira nem a última vez que um professor se sentiu, de alguma forma, ameaçado por mim. Deus há de saber porquê.
Eu sou caxias, bem caxias, e chata. Só gosto das coisas como elas devem ser. Não sou nem nunca fui uma insatisfeita. Insatisfação é como a depressão dos dias de hoje. As pessoas não vivem as vidas que elas tinham em mente, elas não veem projetados na realidade os anseios e desejos que alimentaram nas suas cabecinhas quase vazias. Se eu não consigo o que quero, pelo meu esforço, pelo meu empenho, depois de quebrar muito a cabeça, agir e esperar – sim, na vida é fundamental – eu logo corro postar nas redes sociais um selfie depressive way of life, marco hora no psiquiatra, pego atestado, e continuo a vida normalmente. Vejam bem, depressão é uma doença (e séria) e assim deve ser tratada, acuso aqui os que dela não sofrem e a usam, indevidamente, como subterfúgio para suas vidas infelizes, suas covardias, suas incapacidades, suas preguiças e sua fuga da vida real que não é igual aos sonhos cor-de-rosa.
O insatisfeito brasileiro é esta pessoa que não encara a vida. Que foi mimadinho nos bancos de escola e nos sofás das suas casas. É o que sempre reclama de alguma coisa – ou o que só reclama mesmo. Entre as TLs repetitivas estava lá algo como uma comemoração (e não falo dos militares) sobre o Golpe de 1964 (só de citar me dá vontade de parar). Sim, era tanta, mas tanta, gente escrevendo e falando sobre que parecia algum tipo de comemoração. Eram os saudosos da ditadura. E não digo saudosos os que dela gostavam, não. A ditadura dava um sentido à vida de muitos brasileiros. Havia algo pelo que lutar (a liberdade, talvez, a democracia, quem sabe, nunca entendi direito se eles sabiam pelo que lutavam). Desde cedo aprendi o tesão com o qual as pessoas falavam sobre a ditadura. Até embarquei nele. Era uma paixão, tesão mesmo, quando eles citavam tempos idos (há pouco tempo, é verdade, visto que falo aí de 1993 a 2000 mais ou menos). E nem era o povo adepto das idéias da caserna. Eram os esquerdistas, o pessoal das humanas, os intelectuais do povo. Era tesão. Aí neste meio tempo eu fui lendo, pensando… já não aguentava mais ouvir sempre a mesma ladainha sobre a ditadura. Para pensar é sempre preciso ouvir mais, ver mais, escrever mais, torcer o pescoço para todos os lados. Quem ainda aguenta ver filme brasileiro sobre a ditadura? Aliás, como falar sobre filmes é sempre gostoso, me arrisco a afirmar que os filmes argentinos sobre a ditadura são imensamente melhores do que os nossos.
Sabe por quê? Porque há uma dor latejante, há um sofrimento, há a vitimização (sempre tão ruim e complicada para a construção ficcional) nos filmes deles. Nos nossos há este incômodo saudosismo. Este incômodo e eterno “nós tínhamos pelo que lutar” (acaba aí porque, como eu disse, não tenho bem certo se eles tinham clareza quanto a isso) que arrasta o brasileiro para uma relação anacrônica consigo mesmo.
O brasileiro… ah, o difícil e complexo “o brasileiro”. É aí que a portuguesa me aconchegou nas suas palavras. O Brasil não conhece o Brasil. O brasileiro não está nem aí para o brasileiro ali ao lado dele. Não vou me deter nos intelectuais do nosso país, nesta nata de classe social abastada, com suas salas com ar condicionado, com seus cargos públicos ou em mídias de qualquer tipo. Como eram os intelectuais e os artistas dos tempos da ditadura (parece que atualmente os artistas largaram o osso, podemos discutir imensamente sobre isso – eu adoraria). Eu sou burguês Mas eu sou artista Estou do lado do povo Do povo! O “cara que pensa”, o “cara que conduz a opinião pública”. Ou aquele carinha ali das humanas ou sociais que é todo de esquerda, brada vivas à Cuba, enfrenta PMs para salvaguardar a nossa Democracia, tem uma vida incerta, nem sabe se leu Marx, anda meio esfarrapado e fala em revolução. Felizmente, nem o IPEA vai dizer que estes são a maioria do povo brasileiro.
Pichação num muro na Armação, Florianópolis – pichar pode, assistir à Globo não, me dizem os arautos do esclarecimento contemporâneo.
Contou-se um conto ao brasileiro: vamos dizer que zeramos a fome, vamos dar juros para que todos possam dizer que têm carro, vamos dar casas-vidas precárias para serem pagas em parcelas a perder de vista, vamos fazer mais e mais concursos públicos, vamos dar cotas por uma questão histórica, vamos projetar universidades fuleiras em uma meia dúzia de lugares onde não há nenhuma e… vamos fazer que está tudo bem. Sem revolução. Sem soluções reais. Com muita propaganda. Com o sorriso pelo qual o brasileiro é tão conhecido até no Instagram. Brasil, não mostre a tua cara.
O brasileiro quis acreditar no conto que ele mesmo conta por aí. E como o Brasil desconhece o Brasil, reclama da “mobilidade urbana” (só eu já criei antipatia absurda pelo termo que substituiu o bom e velho “trânsito”?), mas gosta de achar que está tudo tão bem. E torna-se um insatisfeito. Como a portuguesa tão bem falou, ao ver as realidades brasileiras para longe do nosso nariz de sul-sudeste, ou de grandes centros, civilizado com acesso a tudo e mais um pouco, ninguém cometeria o despautério de afirmar que está tudo bem. Para deixar claro: não falo dos mimadinhos que já têm tudo e estão ali fora a gritar por alguma coisa, procurando razões para a sua existência, secretamente desejando ditaduras para terem “pelo que lutar”. Falo daqueles que não têm. Dos que estão ao nosso redor e os quais fazemos questão de ignorar. Há uma passagem muito bonita da oração de Nossa Senhora do Desterro da qual falarei num próximo texto que trata disso: de pedir por quem tem menos do que eu.
Não, não é no sentido paternalista da coisa. É uma questão de consciência. Há méritos em dar dinheiro para quem não tem, através de programas sociais, para que possam, ao menos, comer. Mas isto não pode camuflar a realidade de não ter ônibus, não ter água encanada, não ter esgoto. E nem pode ser aproveitado por quem tem como comer, tem onde morar, tem boas condições e, cabendo nos parâmetros burocráticos, vai lá todo mês sacar seu dinheiro “porque tem direito”. O brasileiro insatisfeito e triste mascara sua realidade e ignora sua consciência.
Não vejo pessoas que pensam em como o seu trabalho, o seu estudo e o seu empenho na vida, podem mudar e ajudar a vida dos outros. As pessoas trabalham para elas, para adquirir bens, principalmente. Como disse a portuguesa, o Brasil é capitalista – ao extremo. Nem crianças mais sentem medo dos nossos comunistinhas. Ah, se elas descobrissem o sentimento deliciosamente inenarrável que é saber que você faz a diferença, com o teu conhecimento e com as tuas atitudes, na vida de outras pessoas! Ah, se elas soubessem! Mas o mimado-selfie-depressivo-insatisfeito não tem bases mínimas para iniciar qualquer coisa que o leve a alcançar este sentimento. O Brasil de Rondônia e Acre debaixo d´água, isolados, sem comida não comove o atribulado trabalho-estudo-pego-ônibus-cheio-tenho-smartphone-e-como-no-McDonald´s.
O brasileiro insatisfeito tem me causado aversão como há tempos não sentia por algo. E como eles são assíduos usuários da internet (e são os que pensam que todo mundo tem internet), tenho me afastado comedidamente dela. A portuguesa, ao falar do sentimento de culpa dos portugueses, me fez pensar que um pouco de culpa na cabeça destes brasileiros insatisfeitos não faria nenhum mal. Talvez assim eles tivessem real motivo para uma depressão.
Nunca vi ninguém que não tivesse nada que se mostrasse insatisfeito. Ninguém.
Quando há adolescentes que não sabem o que é um partido político (fato real) ou na narrativa da portuguesa sobre não ser entendida no Brasil mesmo falando a mesma língua, não posso acreditar na propaganda, nem nas fachadas, nem no crédito fácil para eu ter um carro. Não posso. Para uma caxias como eu, é quase “agir conforme o dever”. Só posso discordar da portuguesa quando ela afirma que esse povo que está nas redes sociais é mais politizado. Ser politizado está além dos posts enjoativamente compartilhados – sobre qualquer coisa. E não há ninguém fazendo nada por isso. Nos meus tempos de escola, uma vez ouvi que educação nunca foi prioridade para nenhum governo porque a massa ignara é mais governável. Dói saber que isso ainda é verdade. E não me venham com índices de alunos nas universidades, de bolsistas do PRONATEC, etc.. Pois quem tenta responder com isso desconhece, de antemão, o que significa Educação.
Que um dia estudem esta patologia coletiva do saudosismo da ditadura e possam curar parcela da população – parcela que, curiosamente, cresce devido aos professores e opinadores públicos que proliferam seu tesão por aí. Que o brasileiro aceite sua tristeza, sua realidade e suas vidas, a falsidade das propagandas – aceitar dói menos, não é mesmo? Aquela outra parcela da população, a que não sai às ruas insatisfeita, é a que tem me interessado. Aquele que tem menos do que eu, que precisa mais do que eu seja lá do que for, é que desperta meu coração.
Não é preciso ser portuguesa para não ser otimista sobre o futuro do país, me basta ver, de perto, realidades diferentes da minha (uma dica: nem precisa ir até a Amazônia ou ao Pará). O “país do futuro” encontrou seu presente e não gostou de tudo o que ganhou porque quer… quer o que mesmo?
Talvez seja a primeira vez que eu cumpro com a promessa de um post. Foi num texto sobre os filmes do Oscar que citei o desejo de escrever sobre narrativas. Tenho, desde então, me apegado a pensar sobre elas – e em mais um meia dúzia de coisas. Tenho, felizmente, pensado muito muito muito sobre poucas coisas.
Talvez, enfim, não seja somente sobre narrativas. Comecei me perguntando se havia uma crise nas narrativas – principalmente audiovisuais – ao tentar assistir ao Trapaça (American Hustle). Era mais um daqueles filmes que começa num ponto da história (ah! como eu sinto falta de poder escrever estória!), depois a história volta a um ponto antes daquele (ou ao ponto inicial “de verdade”). Sabemos que em vários casos há um impacto na alteração da ordem cronológica dos fatos. Nem estou falando em filmes como 21 Gramas e Babel que trabalham com a edição acima da narrativa. Eis que nem lembrava onde havia começado minha cisma com essa possível crise quando, ontem, assisti The Fifth Estate. Ele também começa numa sequência (ah! que saudade do trema!) e volta a um passado pouco distante para “começar” a história. A primeira sequência, no seu devido ponto cronológico, aparece depois na íntegra. Sobre o filme? Benedict fez um trabalho sensacional. O Matthew (do Downton, que eu nunca lembro o nome) também dá o ar da graça. Julian Assange é um personagem e tanto, vale pelo filme.
Mas não é hora de falar sobre personagens.
Na semana passada estive nas três capitais do Sul do país e na cidade mais populosa de Santa Catarina. Viajei de carro, ônibus e avião. Andei muito a pé. Fotografei muito. Pensei ainda mais. E eis que uma pessoa muito conceituada no mundo da criação disse algo que me acompanhou por dias e que fiz questão de colocar em prática no meu último compromisso da semana (que adentrou esta semana, pois já era domingo).
Dizia ele: se você vai fazer algo que é clichê, melhor não fazê-lo. Uma frase simples. Uma idéia simples. Mas de muita sabedoria e essencial para quem cria. Não vem ao caso sobre qual área das artes ele se referia. Eu mesma pude aplicá-la em outra área dias depois. Em qualquer área da criação, não fazer o clichê é muito melhor do que fazê-lo. Se nada inovador (outra expressão bastante presente na última semana) ou criativo lhe ocorrer, resista a recorrer ao clichê. Aliás, pode até ser expandido para áreas que consideramos menos criativas – o mundo acadêmico, por exemplo.
Ficou evidente que o recurso de começar por um ponto para depois retomá-lo é realmente uma crise, ou, ainda, a demonstração de insegurança. Se há uma boa história, comece pelo começo (ouvi algo assim esses dias, talvez tenha sido no Fifth Estate). Agora, se você acha que pode não ser uma boa história… tente não demonstrar criando firulas narrativas.
Depois da frase sobre o clichê lembrei de duas expressões que eu gosto de contrapor. Tem quem diga que tudo o que é demais enjoa (ou expressões semelhantes). Pois eu discordo. Tenho cá pra mim que certas coisas até quando são demais continuam deliciosas. Porém, aquela máxima “menos é mais” me convence. Tenho implantado muitas e profundas mudanças na minha vida e o “menos é mais” ganhou um espaço importante. Nas histórias, menos também é mais. Numa das viagens comecei a ler o Drácula, do Bram Stoker. Era um livro que eu via nas prateleiras da minha mãe, desde criança. Eu via e desanimava com a quantidade de páginas. Também nunca fui fã de histórias de vampiros (apesar de ter ficado impressionada com um filme de suspense, que assisti quando criança, que tinha vampiros mas nem lembro qual era). Achava que era um daqueles livros ostentação, que as pessoas dizem que leram só para todo mundo dizer “óóó” pela quantidade de páginas (o que, anos depois, vi acontecer). Como levar um livro daqueles na bolsa? Só para ler em casa. Mas encontrei-o gratuitamente na Amazon. Aí sim teria a oportunidade de lê-lo.
Por que citei o Drácula? Porque esses dias ouvi uma crítica às apresentações de personagens. Juntando-se a isso o “menos é mais” teria todo sentido. Mas Bram Stoker descreve cada detalhe da paisagem, não economiza adjetivos para descrever as ações, detém-se nas roupas dos personagens. Ali, mais é mais. E a história começa do começo. Talvez, enfim, as histórias não precisem de menos nem de mais. Talvez as histórias precisem apenas ser contadas. Sem clichês – afinal a vida já está cheia deles -, com começo, meio e fim – mesmo que os fins não sejam finais.
Aliás, estou em busca de histórias sobre as impossibilidades (do coração, de preferência). Nestas, os fins que não são finais são indispensáveis.
(ps: não estranhem os sumiços e matem a saudade lendo os textos mais antigos; prometo voltar a escrever com frequência e sobre essas coisas bobas da vida – me aguardem)
Bebia um acerola com laranja no balcão. Na esquina, via o calçadão a perder de vista. Pensava. Gestava meu tempo. Tempo, tempo, tempo. Finalmente havia encontrado onde acerola com laranja não era de polpa. E a idade, de fato, me deixara ainda mais exigente. Via a esquina. Pensava. Centrava minha vida naquele balcão: fora do teto, sol calor, três vias à disposição. E meu desejo era permanecer naquele balcão. Pensava. O temporal do dia anterior fora pontual: às 18 horas. O calçadão virara uma cachoeira. Os ônibus que dobravam a esquina da rua lá de baixo seguiam uma rua que desaparecera sob a água e faziam ondas. Ondas sempre me lembram o mar. Mar sempre me lembra a vida. A roupa encharcara antes da esquina, eu temia pela integridade dos objetos na bolsa. Sobrevivi sem nem uma bela dor de garganta. Pensava. Se eu não sabia o que fazer com o meu tempo, o que eu estava fazendo com a minha vida? Não era bem assim… pensava. Quantas vidas eu tinha – hoje, só hoje, durante o tempo deste copo de acerola com laranja? Pra que tantas vidas? Eu preferia assim. Eu gosto delas. Quando se escolhe seguir vários caminhos ao mesmo tempo demora mais para chegar onde se quer. Tem quem prefere os caminhos às chegadas. Mais ou menos como é o sexo. Pensava. Calor absurdo para aqueles dias. Absurdos atraem absurdos. É a parte boa da vida. Pensava. O copo quase vazio. Quando era uma só, um desejo, uma casa, uma cidade, não era feliz. Quer dizer, era feliz mas vivia tragada pelo escuro. O escuro em nada se parecia com o céu lá fora – hoje ele exigia ser contemplado. Os paralelepípedos brilhavam. Eu queria seguir os três caminhos que surgiam naquela esquina. Pensava. Não havia mais acerola com laranja. Dizem que é preciso planejar. Não sou boa nisso. Lá iria eu pela direita da esquina. Daria a volta pela rua de cima, desceria pela segunda opção e seguiria pela terceira. Alegremente. Ansiando absurdos. Como ontem durante o temporal, tremendo de frio disse para mim mesma: sorria.
Já havia se espalhado não mais pela rua toda, mas pelo bairro, talvez já por toda a região sul da cidade. Os donos das quatro patas vinham às dúzias, filas dobravam as esquinas. De dia, de madrugada, o tempo todo. De manhã cedo mal abria a porta eu já me deparava com os primeiros da fila. Num começo de tempestade no meio da madrugada, ao levantar para tirar as redes da varanda já encontrava os que guardavam seus lugares na fila. Eram gatos, cachorros… de várias cores, tamanhos, com aqueles olhares doces e compridos.
Não sei se foi fofoca, disse-me-disse, ou se a coisa espalhou-se porque passavam aqui e viam a vida que os nossos levam. Só sei que agora todos sabiam que nossos quatro patas (e duas patas e duas asas) eram muito amados e bem tratados.
Antes da coisa fugir ao controle, foi um gatinho cinza magricelo. Deitou no portão lateral num dia de calor escaldante e ficou. Eu tentei espantá-lo quando vi de longe porque pensei que era mais um pretendente às nossas gatas. Aí reparei que ele mancava da patinha direita da frente. E assim os portões de casa foram abertos. Água, ração, caminha, a garagem toda dele. Em minutos ele já parecia fazer parte dali, liguei para veterinário, vimos tudo o que podia ser feito. E assim eles foram aparecendo. Não havia mais terreno para os nossos cachorros, nem casa para as nossas gatas. Eram latidos e miados exigentes que queriam portas e portões abertos.
A nossa gata mais louca subia presunçosa à janela, olhava para a fila em volta de casa e narrava sua boa vida boa. Sim, elas comiam peixe feito pela melhor cozinheira. Claro, dormiam todas as noites na cama. É verdade, quando faz friozinho ela coloca a coberta grossa de lã no sofá e nós nos refestelamos. Ah, sim, ração com nuggets, sachês de salmão e cordeiro. Também, cenoura, iogurte, milho cozido tiradinho da espiga e dado na boca. É, tem lá seus pontos negativos, aquelas horas de terror no banho quase sempre, as idas ao veterinário que tira a temperatura, limpa as orelhas, dá vacina. Sim, naquele carro ali, passeamos, viajamos e exigimos que não seja na caixinha de transporte. Na rede? De vez em quando. Eles não deixam, mas quando dá vontade a gente pula nas mesas, escrivaninhas, na TV, escala os armários e guarda-roupas. Ah, tem leite condensado também, toda vez que fazem doces! Água fresca é só pedir, dão na hora. Caixinha sempre limpa ou ainda a gente pode passear e fazer pelo jardim. Sim! Subimos em árvores e afiamos nossas unhas nos seus troncos! Não sou muito calorenta, mas quando quero tenho ventilador só pra mim. Tem uma que é friorenta e dorme debaixo da coberta, com a cabeça no travesseiro, como gente! Quando ela chega, me pega no colo, coça minha barriguinha, me aperta, me joga pro alto e pega no ar.
E assim foi se espalhando e as filas crescendo… até a tartaruga, quando não estava de nariz empinado, gostava de ir até a janela e lá de dentro do aquário destilava superioridade. Tenho esse aquário enorme só pra mim, sim. Camarão e ração, todo dia. E agora até consigo enganá-los, porque é só eu pedir comida que todos dão. Antes eu, bobinha, só pedia uma vez por dia para um deles. Aí eu vi que se fizesse meu estardalhaço n´água quando escurece, todos me dão. Isso, passo o dia aqui boiando no meu banho de sol. Eles sempre trocam a água e eu posso nadar e nadar e nadar.
O psicopata, o cão que já é maior que eu, com esvoaçantes orelhas de dumbo corria desvairado de um portão a outro gritando: estão vendo tudo isso?! É meu! Tudo o que tem aqui é meu! Eu corro louco para onde eu quiser, quando eu quiser, posso até perder o sono de madrugada e ficar correndo atrás das sombras latindo alto! Estão vendo as árvores? Pois eu como pitanga, acerola, maracujá, goiaba, jabuticaba, tudo diretamente do pé! E quando quero é só ir na janela da cozinha e fazer a cara que eles acham lindo e ganho banana todo dia! Claro, tem biscrok, ração, baldes e baldes de água fresca. Eu sempre ganho camas enormes (ó o meu tamanho, né, e como não é só pra mim…), sofás, travesseiros e destruo tudo! Só para vê-la chegando com mais presentes pra mim! De vez em quando ela me leva pra dentro: quando está muito quente eu deito no piso de cerâmica da sala e ela me dá gelo na boca, quando está muito frio eu deito no tapete da sala de TV e ganho leitinho quente – como quando eu era pequerrucho! Os outros também ganham tudo, a gente não tem motivo pra brigar. Mas eu fui criado com as gatinhas, com as quais eu adoro brincar, e aprendi a comer milho cozido direto da espiga! Nas férias eu ganho todo dia! Ah, quando faz frio e ficamos aqui fora ela vem e acende o fogão à lenha da varanda fechada, coloca nossas cobertas de lã, deita ali conosco e ficamos no quentinho. Ah, sim, desde quando eu era pequenino ela me chamava para deitar no colo dela e eu só consigo dormir bem quando ela vem e senta na varanda, no chão mesmo, ou no banco, e eu posso deitar no colo dela! Quando não durmo no colo dela, sonho com isso! Eu posso lamber, morder, agarrar a perna dela com as duas patas pra ela não ir embora, pedir companhia para correr pelo quintal todo, que ela não briga comigo e faz tudo o que eu quero! Eu sei que eles não gostam quando eu destruo as plantas e vasos do jardim, mas é que assim eles ficam ainda mais tempo comigo. Eles também não gostam quando os outros cavam buracos sem fim perto das calçadas, mas a gente se diverte. Claro, tem banho que eu adoro! Desde pequeno tomo banho de mangueira com ela e nos divertimos muito! Quando está frio eu tomo banho lá dentro com água bem gostosa. Ela usa dúzias de shampoos e sabonetes pra gente ficar bem limpinho – porque eu me sujo demais, eu sei. Eu gosto tanto de banho que quando os outros estão no banho eu entro e fico olhando. Também adoro ir ao veterinário! Alguns aqui não gostam muito porque tem injeção. Mas eu sou corajoso! Eu adoro passear de carro e na coleira! Quando eles colocam o carro lá perto do portão e bobeiam deixando a porta aberta eu já entrou e vou me refestelando! Sim, também vamos pra praia! Fazemos rodízio! Lá é menor mas é bem gostoso, tem areia pra todo lado!
O passarinho que é meigo, não gosta nem de contar vantagem do seu belo canto, também deu seus gorjeios. Sim, banho, banho de sol… alpiste, espinafre, galinhos verdes todos os dias. Ela leva e traz minha gaiola, protege do vento, dos pernilongos malvados, coloca areia. E me chama de Nelson porque quando vim pra cá era muito boêmio. Agora tenho companhia, fico ali durante o dia conversando com curruíras, pardais, rolinhas, bicos-de-lacre e sabiás que vêm todo dia comer nos comedouros do jardim e do quintal, tomar banho nas bacias. Meus amigos ficaram encantados com a nova vida aqui, me contaram horrores do que já passaram em outras casas.
Eu procurei me conformar. Se fosse um negócio, diria que a propaganda é a alma do negócio. E por mais que meu coração seja ainda maior que os terrenos que tenho, sofro quando não posso dar tudo para todos, acolhendo-os como já fiz com estes – e com tantos outros que já partiram deste mundo mas que vivem aqui nas minhas belas e doces lembranças. Agora é minha vez: eles nunca foram ao cinema comigo, é verdade; também nunca jantaram naquele restaurante caro, ou foram naquela festa. E melhores amigos nunca tive. Sempre atentos ao meu humor, às minhas tristezas, sempre felizes e sorridentes (sim!) com disposição de sobra para me fazer companhia. Me ouvem como ninguém e para eles já contei coisas que viv´alma de duas pernas neste mundo nunca saberá. Não me cobram, não ficam “de mal”, não esquecem de convidar ou de simplesmente ligar para saber como estou – sei que se pudessem, ligariam e eles me ouvem mesmo por telefone. Tardes chuvosas, manhãs ensolaradas, dias longos e cansativos… com eles ficam perfeitos.
Para muitos de duas pernas já dei quase tanto assim de mim, já dei amor, dei cama, dei comida, dei carinho, dei colo, dei meu tempo, levei ao médico, dei minha companhia, meus ouvidos, minha total atenção. Dou pedaços da minha vida. Enquanto os quatro patas (e os de asas!) nunca me abandonaram, nunca deixaram de falar comigo, os de duas pernas viram a cara quando me encontram nas ruas, me bloqueiam nas redes sociais, cortam relações duradouras ou curtas e intensas, ao contrário daqueles, estes espalham pelos quatro ventos coisas ruins a meu respeito. E assim também correm bairros e cidades. Mas as filas de quatro patas me dizem muito mais. Curiosamente, há filas dos de duas pernas também. Eu confio e acredito nos primeiros. Nestes últimos, não vejo porque depositar amor, crenças e esperanças.
Falar em injustiça na lista dos indicados ao Oscar é clichê. Parece uma coisa de sorte mesmo. Tom Hanks, Robert Redford, Joaquin Phoenix, Emma Thompson são alguns deste ano. Mas a mais injustiçada foi a Scarlett Johansson. É uma situação complexa, a academia não indicaria a melhor atriz uma atuação que é só a voz da atriz o filme inteiro, ao mesmo tempo, não é qualquer atriz que aceita um papel desses e que, sinceramente, faz um trabalho excepcional.
Sim, estou falando de Her. É mera coincidência que os dois últimos filmes que me arrebataram são com a Scarlett. Ela é quase uma Marilyn em alguns sentidos. E talvez por isso eu goste tanto dela. Os dois papéis, em Her e Don Jon, são papéis que a maioria esmagadora das atrizes (principalmente as de primeiro escalão) dispensaria na hora. Scarlett não tem medo dos riscos da profissão. Scarlett é Scarlett, já fez seu nome, faz personagens que usam e abusam das suas melhores qualidades e adora um desafio. Ah, e dá entrevista dizendo que come um hamburguer daqueles cheio de ketchup. Ah, e tem fotos suas divulgadas na internet através de um hacker de celular e se sai com “Conheço meus melhores ângulos”. Scarlett é das minhas. Bem, chega de babação pela Scarlett, né?
Her foi amor – e não foi à primeira vista. Acompanhei algumas coisas que saíram na mídia antes do lançamento, mas quando fui assistir só lembrava que era com o Joaquin Phoenix (aiai…) e com a Scarlett (só isso já bastava para me convencer de muita coisa). Nem lembrava, como eu prefiro, da sinopse nem nada. E foi um baque.
Joaquin dando inveja em nós pobres mortais com um computador que digita o que ele fala (meu sonho de consumo há anos!). A humanidade não é assim tão esperta, ainda não inventou isso. E dando mais inveja ainda com o seu OS. Eu queria ambos.
É futurista. É melancólico (tudo que segue este padrão de futurismo tem isso, né?). É lindo. É uma fábula. E foi lá quase pela metade do filme que eu me senti arrebatada. Como não lembrar de Fahrenheit 451, o do Truffaut, aquele que bate e rebate com Teorema, do Pasolini, como meu filme favorito? Fahrenheit 451 é baseado na obra do Ray Bradbury, a qual eu ainda não tive a oportunidade de ler. Mas sempre quis muito ler qualquer coisa do Ray e eis que mês passado encontrei Os Frutos Dourados do Sol (numa edição do Círculo do Livro) na prateleira dos baratinhos do sebo. Her concorre com Melhor Roteiro Original, mas a concepção do futuro dele lembra e muito as obras do Ray – e Fahrenheit, é claro.
A melancolia, a solidão das pessoas, a relação com a palavra escrita, os avanços da tecnologia, o futuro sem localização temporal, em tudo isso há semelhança. Entre os filmes a fotografia e a direção de arte comungam também (e Her não foi indicado à fotografia, vejam só). Aliás, Her concorre em Direção de Arte e já é meu favorito (por mais que digam que O Grande Gatsby vai levar). E talvez por isso o filme não arrebate de cara. Joaquin está ótimo em mais uma escolha a dedo na sua tumultuada carreira.
Apaixonar-se por um OS num futuro próximo. Por aquele ser que faz praticamente tudo por você, via voz, que está ali quando você precisa, e que ainda é genial, compõe, lê Física, manda teu livro para um editor. Sexo? Também tem. E é sexo que não precisa mão aqui e ali, suor, roupas jogadas, posição X ou Y, mas, felizmente, não dispensa os gemidos e suspiros. Até do sexo “futurista” eu gostei. Aliás, gostei até do videogame realmente interativo. Lembram da TV interativa em Fahrenheit? Então, a proposta é a mesma, só visualmente que a realização é diferente. Fiquei pensando que, para além de uma tecnologia de ponta, pensam a interatividade com a tecnologia como algo a se concretizar no futuro. Ray já pensava na interatividade com a TV, em Her é com o videogame (e com os OS). Provavelmente será a mais frustrada das previsões para o nosso futuro, pois o máximo que conseguimos de interatividade hoje é telefonar para o Fala que eu te escuto e os comentários (infames) em posts e reportagens na internet. Ou seja, para chegar aonde a ficção (literária e cinematográfica) almeja, levará muito mais tempo.
Ontem ainda lia um conto do Ray que se passava em 2003 e as personagens estavam de mudança para Marte. Mas nos contos do Ray, e em Her, o futuro guarda muita semelhança com o nosso tempo. E a principal é com os sentimentos. O bombeiro que ateia fogo em Fahrenheit apaixona-se por uma moça subversiva e sente-se impelido pela curiosidade pelos livros, objetos proibidos. O personagem de Joaquin sente-se só, também apaixona-se (pelo OS-Scarlett), e tem todos os sentimentos contraditórios que só as boas pessoas têm num relacionamento. A moça do conto pretende viajar a Marte para se casar. Independente do futuro, o que move os personagens são os sentimentos.
Her é mais um ótimo filme com um roteiro pouco provável de fazer sucesso protagonizado pelo Joaquin. O cinema sempre conta tantas histórias de amor, às vezes precisa dar um fôlego novo para elas. E, de lambuja, fazer uma crítica ao mundo cada vez mais com os olhos (e o coração?) enfiados nos OSs da vida.
Só um comentário sobre Don Jon: é divertido! Levitt conseguiu realizar um trabalho de primeira. Só tem uma coisa ali que eu achei que poderia ser diferente. Não é futurista, Scarlett está em carne (e que carne!) e osso numa personagem das que mais se encontram aqui pelo nosso mundo, e é tão crítico sobre as relações pessoais quanto Her. Num papel relativamente pequeno mas muito forte, Julianne Moore, honra uma pequena parcela de mulheres (que nem sempre se encontram só numa “idade madura”) que ainda se encontram neste mundo. Se têm alguma coisa em comum? São ambos super sensíveis às coisas que se passam aqui dentro de muitos de nós. Porém, não se iludam, filmes não fazem as pessoas voltarem os olhos para aquilo que escolheram ignorar.
(ps: comecei este texto mais de uma semana antes da data de publicação, tive que interrompê-lo (coisa que detesto) por motivos de força muito maior; eis que tinha que publicá-lo e confesso que Dallas Buyers Club juntou-se à American Hustle – não passei dos primeiros minutos – e já assisti Save Mr. Banks e Prisioners (o primeiro sem muitos comentários, pelo segundo eu não dava nada mas valeu a pena, principalmente pelas atuações)
Lia agora Os Sofrimentos do Jovem Werther (nem eu imaginava que um dia leria, mas, enfim, tenho motivos para tal e este fato com os pensamentos e atos de ontem renderão um post) e encontrei, entre tantas frases e parágrafos contundentes: “Aliás, nesse mundo, não é fácil compreendermos uns aos outros.” e já antes de começar a ler o clássico eu havia colocado na pauta do blog o post de hoje (que foi atropelado pelo do Capitão Phillips).
O jovem Werther, pasmem, e eu somos muito – muito – parecidos. Pensamos e nos sentimos da mesma forma sobre tantas e tantas coisas. Tenho no sangue a tendência às fortes emoções e a sofrer mais dos males do coração do que do corpo. Já muitos atestados de óbitos da família poderiam vir com “tristeza” como causa mortis. Quando Werther descreve o encanto pelo lugar que ele escolheu para viver consigo compreendê-lo perfeitamente. Neste lugar ele encontra pessoas “simples”, pessoas que trabalham, que não têm sobrenomes pomposos nem títulos, nem instrução. A cena do irmão de quatro anos que segura um bebê enquanto esperam a mãe, assim como a conversa com o moço que conserta o arado são exemplos disso. Sim, poderia ser apontado como a superioridade de alguém que olha para um desvalido – mas não me parece o caso.
Queria falar disso… de olhar os outros. Tenho colecionado histórias, fatos, tenho observado há um longo tempo na minha vida as pessoas que me cercam. Não falo das pessoas que conheço – muitas vezes dessas não quero nem saber se continuam vivas. Falo dessas pessoas das quais não sabemos os nomes, pessoas que nos servem, nos atendem, fazem serviços que garantem nossa segurança e a limpeza dos lugares que frequentamos. Não me venha dizer que você sabe o nome da moça que limpa o andar do prédio onde você trabalha. Não sei se é coisa “dos dias de hoje”, se é o individualismo capitalista ou qualquer bobagem semelhante – duvido que seja. As pessoas não olham umas as outras, não é mesmo?
Em muitos casos me sinto constrangida. Não sei, por exemplo, mandar nas pessoas, dar ordens, exigir. Quantas vezes você já foi grosso com a atendente de telemarketing da tua empresa de telefonia? Quantas e quantas vezes vejo pessoas reclamando de terem sido mal atendidas nesta ou naquela loja? Em contrapartida, quantas vezes você já fez mal o seu serviço?
Para ser mais clara, vou citar umas cenas que já presenciei.
Vinha caminhando pela avenida mais movimentada da cidade, numa viagem, final de tarde. Em frente a um banco, um moço e uma moça uniformizados varriam a larga calçada.
– Ó só isso. Ó. – ela fala e aponta com a vassoura para que o rapaz veja do que ela fala.
Eu me viro para olhar também.
– Isso aí é porque a mãe dele não varre, né. – responde o rapaz ao ver um bom punhado de papel picadinho bem picadinho espalhado pela calçada.
Fiquei ali pensando… nem sei se a mãe dele (ou dela) ou ele mesmo não varre. Mas, definitivamente, ele ou ela não pensou que alguém teria que varrer aquilo que ele poderia simplesmente ter jogado no lixo.
Estava na beira do mar, já há dias procurando um vendedor de algodão doce e barquilha quando finalmente naquele dia surge um. Ele faz propaganda, diz que foi feita na hora pois havia vendido tudo de manhã, voltara para fazer mais e poder voltar para a praia para vender.
Conversa vai, conversa vem, eis a história dele: ele mora em Curitiba, vende barquilha lá pelo Jardim Botânico, e há dez anos aluga uma meia água em Barra Velha para vir vender na praia durante dois meses. Lá vende a quatro reais, aqui a dois. Só de imposto para a prefeitura para conseguir a licença (ele mostra a camiseta) são duzentos reais. Explica como elas são feitas, num processo que dura três horas. A pele tostada de sol. Diz que vale a pena, mas que é cansativo, ficam longe da família e tal.
Sim, eu converso com as pessoas. Tenho, ainda, uma baita dificuldade com isso. Contudo, umas idas e vindas me fizeram até apreciar e desejar isso. Se eu não falasse com ele, teria apenas tirado uma nota de dez reais, escolhido minhas barquilhas e nem olhado na cara dele. E não é assim que acontece quase sempre?
Parei num desses lugares da Penha onde tem caldo de cana, toalhas, artesanato e muito mais. Entramos, pedimos caldo e começamos a ver as coisas. Eu me apaixonei de cara por umas bolsas e do nada surge uma menina ao meu lado. Uns dez anos mais ou menos, pergunta se pode me ajudar. Eu solto a clássica “estou só olhando”. Aí em seguida ela diz que tem mais modelos numa prateleira. Escolho duas e uma delas peço para embrulhar. Vou olhar as almofadas enquanto quem está comigo olha uns bancos de madeira, a menina é solícita, mostra esse, aquele – o que imediatamente irrita quem está comigo que não gosta do tipo de vendedor “que fica em cima”. Como sei disso, chamo a menina para me mostrar outras coisas. Ela pergunta de onde sou, conta da tia, conta que mora ali na Penha e estuda em Navegantes.
Desde o primeiro instante a menina chama a minha atenção. Muita gente não sabe, mas comecei a trabalhar mais ou menos com a idade dela. Cumpria horário e era a melhor funcionária que minha mãe já teve. Como a menina, sabia os preços de cor. Me orgulhava muito do que fazia. Não pensem que porque a loja era da minha mãe que aquilo não era a sério. Era a única a ficar sozinha em determinados horários. Ainda me orgulho muito de por muitos e muitos anos (até a graduação nos dias que estava lá e nas férias, inclusive nos horários estendidos de final de ano) ter trabalhado como atendente, caixa, balconista.
Um dia no Mercadorama da Praça Osório, em Curitiba, fui passar no caixa e a moça me diz “Bonita as tuas unhas”. Eu sorrio e “Obrigada. As tuas também.” (pois fazia uns minutos eu estava reparando nelas). “Como você faz esse efeito?” eu pergunto e ela sorridente me explica como faz o efeito craquelado com um palito de laranjeira. Não havia, ainda, na época os esmaltes que já fazem este efeito. Não recordo direito o nome dela, acho que era Marlene – realmente não sou boa com nomes.
Fui até o Imperatriz do Beira-Mar, em Fpolis, para comprar guloseimas enquanto esperava minha companhia para o cinema chegar. No caixa, a moça diz “Bonita a tua bolsa.” eu agradeço e ela pede para vê-la, pois faz crochê. Conversa vai, conversa vem, ela me conta que só fazia isso, pois adora fazer crochê, faz toalhas, chinelos, bolsas, mas que como teve que pegar o emprego não sobrava mais muito tempo. Semanas depois fui lá e fiz questão de ir no caixa dela e ainda apresentei para quem me acompanhava. Disse que volta e meia passarei lá para saber se ela já tem alguma bolsa pronta para eu ver.
Eu poderia elencar mais umas dúzias de exemplos. Além da loja da minha mãe já trabalhei em outros empregos que lidam diretamente com o público: é, sem sombra de dúvida, o mais difícil. As pessoas não te vêem. As pessoas esperam ser servidas porque estão pagando, simples assim. E usei as histórias acima para mostrar o que muita gente sequer pensa: por trás de cada pessoa há uma história de vida, há desejos e frustrações, há necessidades, dons, alegrias e tristezas. Contando com você, quantas pessoas você conhece que fazem exatamente o que queriam estar fazendo profissionalmente? Ou devemos pensar que pessoas nascem com vocação para serem caixas de banco, de supermercado, atendentes de padaria, frentistas? Felizmente a maioria ainda tenta de todo jeito fazer o seu melhor. Liguei hoje para a operadora para tentar resolver um problema da minha internet, levei semanas para me dispor a isso. A atendente ficou meio sem paciência depois de tantas tentativas para solucionar, via telefone, algo tão complexo. Eu a compreendo, minha relutância em telefonar era justamente por isso. Por que eu a culparia? Eu não a conheço, nem sei se o filho dela acordou hoje com febre ou se o namorado não respondeu aquela sms ontem à noite.
Não olhamos os outros… pior ainda, não conversamos uns com os outros. Assim, Werther, fica ainda mais complicado compreendermos uns aos outros. Cada pessoa é um acúmulo de histórias e fatos, e tem quem anda por aí achando que uma balconista é muito diferente de si – só porque é balconista. Eu disse para quem me acompanhava que também não gosto de atendente que fica em cima da gente, mas eu via a menina orgulhosa de estar ali, queria mostrar “serviço”, como entendo muitos atendentes que correm quando você entra na loja porque no comércio há dias que não há ninguém e o tédio é um saco. Eu imagino que muito caixa de supermercado não está ali porque quer mas porque é uma área que tem muita oferta de vaga – e sei que por isso pagam muito mal.
Sempre fui muito quieta e fechada e por isso as pessoas podem estranhar este assunto aqui. Mas faz tempo que mudo meu jeito de ver o mundo e, como Werther, observo essas coisas e pessoas que passam pela minha vida. De jeito nenhum aceitarei a acusação que há superioridade em olhá-las dessa maneira. E sei que devo muito disso à minha mãe que sempre tratou com respeito e de igual pra igual todas as pessoas que cruzaram e cruzam a vida dela. Aliás, ela adora uma conversa também, o que ajuda muito. Foi assim que comecei a ouvir e a olhar para as pessoas. Na loja, ela conversava e sabia as histórias de todos que por lá passavam. Devemos, ambas, isso ao meu avô, pai dela, que fazia do balcão da oficina dele um recanto de conversas com estranhos e conhecidos. É assim que se aprende o que é respeito. Eu poderia escrever páginas e páginas sobre os maus tratos aos animais, mas, sabe, tratar bem animais, plantas, pessoas pra mim é tudo a mesma coisa. Porém, vejo tanto em defesa disso e daquilo, e muitas dessas defesas vêm de pessoas que não olham nem na cara do frentista e vivem nas redes sociais falando mal deste ou daquele.
Minha mãe é amiga da senhora que ajuda a cuidar da casa. É amiga mesmo. Eu sei tudo sobre a família dela, temos conversas animadas e minha mãe até se desespera quando eu pego e começo a ajudá-la na limpeza quando estou na casa dela. Minha mãe só tem este auxílio por questões de saúde e eu nunca, jamais, me neguei ou deixei de fazer o serviço de casa. Não é raro me ver neste tipo de situação e, sim, as pessoas estranham muito. Como diz o imã da minha geladeira, gentileza gera gentileza.
Talvez seja a educação, talvez o respeito e provavelmente tudo isso tenha despertado meu contínuo interesse em personagens, mesmo que esses da vida real. Que o diga a cabeleireira com quem cortei o cabelo semana passada: será a protagonista do meu próximo livro. Vidas… vidas. Gigantescamente assim: vidas. E, ah!, a vida muito me interessa. Mesmo que vá para a ficção.
Talvez seja apenas um desfilar de clichês numa fórmula pronta e de fácil utilização a qual conhecemos tão bem por ser exaustivamente exposta aos nossos olhos. Talvez seja, enfim, Hollywood. E pergunto novamente, o que seria do mundo sem os clichês?
Tentei assistir American Hustle. Juro que tentei. Não foi desta vez. Talvez eu consiga terminar de assisti-lo algum dia e, tendo conseguido ou não, prometo escrever algo sobre o que os primeiros trinta minutos do filme me fizeram pensar sobre narrativas. Prometo. Já havia previsto este tema para o blog quando fui surpreendida positivamente pelo filme seguinte (do qual misteriosamente eu falava no parágrafo anterior): Capitão Phillips.
Eis então que aquele acúmulo de clichês e talvez mais um filme bobobuster entre tantos me fez encontrar coisas sobre o que escrever. Eu não dava nada pelo filme. Tanto que no dia anterior havia escolhido American Hustle entre os dois. Eu sabia algo da sinopse, Tom Hanks, o bom americano por excelência, era capitão de um barco sequestrado no mar por piratas da Somália, daquela história real (não disse que repete-se a sina do ano passado sobre histórias “reais” na concorrência ao Oscar?). Eu não havia acompanhado as notícias da época (bem recente) – afinal não sou boa em acompanhar notícias, felizmente – mas sabia um pouco do que se tratava.
Ele não se destaca pela fotografia. A direção não tem nada de mais, nem de menos, fora um detalhe ou outro (como a carta que ele escreve para a família e da qual não temos mais do que vislumbres) que nos diz que o diretor é competente – e, sinceramente, nos dias de hoje ser competente em algo, principalmente quando este algo é dirigir um longa-metragem, é já bastante louvável. Ele talvez exceda uns vinte minutos no tempo sem prejudicar tanto o drama – parece que para concorrer ao Oscar é preciso passar das duas longas horas. Dizer que Tom Hanks está num dos seus melhores papéis parece redundante, mas tudo o que normalmente pode incomodar na atuação dele em outros papéis misteriosamente desapareceram neste filme, ou seja, ele está extraordinariamente bem. Ser o típico americano em tantos papéis não conseguiram alcançar o ordinário que ele preenche tão bem como o capitão Phillips. O filme é baseado no livro de autoria do próprio Richard Phillips, “A Captain’s Duty : Somali Pirates, Navy SEALs, and Dangerous Days at Sea” que pelo título já dá elementos do quão raso é o personagem.Os piratas como atores coadjuvantes são um mérito a parte, tão bem construídos e interpretados. Mas o que tem, afinal, Capitão Phillips além de clichês, diálogos esperados, ação previsível e algumas boas interpretações?
Eu diria que este filme alcançou algo que 12 Years a Slave talvez pretendesse e não conseguiu. Num dos diálogos, o ordinário e quase estúpido capitão do Tom Hanks pergunta ao Muse (Barkhad Abdi), capitão dos piratas, se não há outra opção (além de sequestrar navios de carga). Muse o olha e diz que ali não é a América. Ao ouvir a pergunta eu mesma respondi (sim, eu falo durante os filmes) que ali não era assim – quase a mesma resposta do Muse. Eis a obviedade do filme, até eu conseguia antever diálogos. E não é por ser tão óbvio que ele deixa de ser excepcional.
Depois de escalonar os assuntos que pretendia abordar sobre o filme, fiquei pensando hoje cedo o quanto esta visibilidade que se quer dar aos negros, à História e cultura deles, dando-se ênfase na guerra ao preconceito pode estar, também, errada. Porque aqui no Brasil muito se ouve sobre os negros que foram escravizados e para cá vieram. Tenta-se resgatar um passado de forma, como sempre, lúdica e romantizada. Não querem mais ser “negros” e querem que substituamos por “afro-descendentes”. Talvez numa tentativa de guerra pacífica aos que se dizem descendentes de europeus neste país. Brasileiro, ao que parece, ninguém quer ser. Enfim, fiquei me perguntando se passou a moda de falar da África. Na minha época de ensino fundamental a África estava na moda, na TV, nos jornais, na sala de aula, muito se falava da miséria do continente, pululavam fotografias de crianças negras esquálidas, lamentavam-se as guerras tribais, os números da fome e de como o calor castigava a população. Hoje não vemos mais este drama fraturadamente exposto. Não sei se o Ocidente encontrou em si tantos problemas tão ou mais graves que acabou esquecendo de importar imagens e fatos das desgraças africanas. Fato é que não é mais moda. Pois passada a moda de voltarmos nossos olhos para a África, surgiu a moda de orgulhar-se de ser “afro-descendente”… mantendo, contudo, os olhos aqui pelos continentes americanos mesmo. Não desmereço nenhum orgulho nem nenhuma cor de pele, só considerei irônico que o cinema, de uma hora para outra, tenha voltado os olhos para uma condição africana que não parece mais interessar ao mundo ocidental.
Cheguei a estes pensamentos depois de ter, durante o Capitão Phillips, lembrado de um filme pungente que assisti no ano passado. Vi no cinema e tive o prazer de ver novamente quando passou na TV a cabo (em dezembro quando estive na casa dos meus pais estava passando, talvez ainda esteja). Terraferma, um filme italiano que tem méritos enormes e entre outras coisas geniais que ele aborda surge a questão dos imigrantes africanos que tentam chegar à Itália pelo oceano. Terraferma e Capitão Phillips tratam da condição africana contemporânea sem carinho, firulas ou passadas de mão na cabeça. Eles também não cruzam mares para tentar representar nas telas com atuações, figurinos e adereços a situação real deles. Talvez seja um ponto fraco de ambos mostrar o negro africano somente quando este rompe mares e fronteiras e aporta ao lado de nós, ocidentais. Porém, talvez o ponto fraco seja mais um mérito, pois delicadamente colocam o dedo na ferida do nosso esquecimento, depois da miséria africana sair de moda, ao dizer que eles ainda estão lá – e, pior ou melhor, estão vindo para cá.
Ambos também fogem do fantasma que descredita 12 Years a Slave ao abortar a idéia da representação da violência. Sim, há controvérsias, reconheço. Pois os SEALs matarem à queima-roupa os piratas que estavam no bote salva-vidas é algo violento da pior espécie (posto que autorizado e não-criminalizado) e a atitude do jovem pescador italiano de bater com o remo para evitar que eles subam no barco também não é nada anti-violência. Porém, a violência aqui difere em muitos graus da violência de donos de escravo que violam o corpo dos negros para dobrarem suas convicções e almas. Aqui há implícita uma auto-defesa do seu território (espontânea no caso do italiano e calculada e militarizada no caso do americano) – e, sim, trata-se o tempo todo de territorialidade. Outro porém: a violência não é inserida para deleite e degustação do espectador, como ocorre em 12 Years, ela surge como elemento do drama sem recorrer à espetacularização.
Vemos poucos minutos do que seriam as terras da Somália de onde saem os piratas que pagam para poder ir em busca de uma boa vítima nos mares. Vemos logo de cara que ali há somente vítimas que se vitimizam entre si. Está colocado o argumento: a miséria não une. A miséria nunca uniu. Entre quem não tem absolutamente nada, não ter continua sendo desvantagem. Os negros não se vêem como irmãos – ao contrário do que se vê hoje em dia. Aliás, dizem os especialistas que nem os negros que para cá vieram escravizados se viam como iguais e irmãos – outra coisa que curiosamente tentam evitar de contar. O que, aliás, também ocorreu com os judeus. Nós brancos não somos todos iguais, nem temos as mesmas crenças, origens e valores, nem nos reconhecemos como irmãos – nem os negros, nem os índios, nem os orientais nem os africanos se vêem assim. E talvez esta idéia faça muita falta nos discursos. Os piratas contemporâneos que em nada lembram as histórias dos romances são desunidos, mantêm-se mascando “khat” e buscam milhões de dólares do seguro de seus sequestrados para pagar seus chefes. Como diz Phillips uma hora, “todos nós temos chefes”. Ali estão as arraias miúdas sem ganhar nada e correndo risco de vida enquanto seus chefes assistem aos jornais e guardam seus dólares.
Os capitães ali, Muse e Phillips, na verdade não mandam em nada. Chega a ser constrangedor quando percebemos que Tom Hanks não está ali como nenhum herói – o que era de se esperar, visto que ele dá, inclusive, nome ao título do filme. Quem seria o herói, então? Afinal entre os clichês hollywoodianos é preciso haver um herói. Seriam os SEALs, armas humanas de matar que vão até lá no último momento realizar um serviço? (é dolorosa a cena na qual eles, depois de matarem os piratas dentro do bote a uma certa distância, parecem relaxados e começam a trocar de roupa como o final de um turno qualquer numa indústria qualquer) Seria o presidente dos EUA? Seria Muse, condenado a realizar o sonho de ir para a América? Para entender um herói é preciso pensar no que foi salvo. A vida do capitão Phillips foi salva, é claro – e pelo SEALs às ordens do governo americano. Porém, foram, na verdade, salvos o barco e o dinheiro da seguradora – quem salvou o primeiro foi o capitão Phillips, enquanto o segundo também foi salvo pela Marinha e pelo SEALs. E as vidas dos piratas que foram perdidas? Não valiam nada, como desde o começo do filme parece ser evidenciado? Mas, claro também ficou que a vida do capitão americano não valia nada para ninguém (além da família dele).
Como boa ação e um tanto de suspense o filme cumpre bem suas intenções. Eu não esperava nada dele porque justamente não acreditava que ele me levaria tão longe nos pensamentos. Os diálogos entre os capitães podem parecer previsíveis e piegas quando tratam da realidade dos diferentes mundos, mas não resvalam (como eu esperava que fosse) para a velha superioridade americana com sua moral inquebrantável. Uma idéia que vem me perseguindo a dias tocou os pensamentos sobre o filme: não percebemos o luxo que temos na vida. Sabe aquela história da zona de conforto? Pois é mais ou menos isso, falta sermos críticos da nossa própria situação. Perguntar-se, de vez em quando, “eu poderia viver com menos?” é um bom exercício. Não precisamos ter nosso barco sequestrado por piratas somalianos para ver que estamos deitados num berço esplêndido de luxos. Talvez eu sempre tenha sido uma crítica ferrenha do luxo – e nem pensem que falo de carrões importados, coberturas em Copacabana ou hospedagens em castelos da França – e tenho piorado. O que o luxo tem a ver com o filme? Não sei ao certo, mas quando a Marinha americana oferece comida e água aos piratas que estão no bote e eles nem se importam algo em mim se acendeu… eles mascam khat o tempo todo não porque são drogados, uns viciados idiotas, mas porque comida e água não fazem parte da vida deles. Eles querem dólares, milhões de dólares, dos quais mal verão a cor e que, em breve, terão que voltar ao mar para buscar mais e mais. São vítimas, das vítimas, das vítimas. E estas vítimas, me diz Terraferma e Capitão Phillips, estão ao mar entrando à força em territórios que não se importam mais com eles porque não está mais na moda e porque os do lado de lá já têm desgraças demais para cuidar sob o próprio nariz – vide a crise que se instaurou na ilha paradisíaca italiana que perde seus pescadores por falta de peixe e apela para um turismo da pior espécie, em pessoas e hábitos.
Tom Hanks não foi indicado ao Oscar, lamentavelmente. Por que ainda insistem nessa separação entre “melhor atriz” e “melhor ator” nas premiações? O trabalho de atuar não é, em si, o mesmo? Ou é só para fazer aquelas cerimônias intermináveis durarem mais? Cate Blanchett está sendo aclamada pelo seu trabalho em Blue Jasmine (quem sou eu para dizer algo contra), porém o trabalho de Tom Hanks aqui é muitos graus acima. Todo trabalho de personagem que contém excessos é mais fácil de encontrar boas saídas do que os trabalhos que exigem o ordinário, o medíocre. Sou suspeita, não achei Blue jasmine extraordinário, nem a personagem – Cate merecia mais. Resolvi comparar um ator com uma atriz porque não considero que separar por sexo até nisso seja válido. Depois verei com os outros concorrentes “entre si”.
Uma última consideração: Capitão Phillips é um filme de 2013, baseado em fatos reais amplamente divulgados pela mídia internacional em 2009. É uma obra de ficção cinematográfica da história do presente. Um ótimo exercício para quem gosta de História e principalmente para o pessoal da área de História do Tempo Presente (aqueles que conseguem trabalhar com o audiovisual como fonte e objeto e tem o mínimo de conhecimento para isso). Eu particularmente aprecio quando o cinema faz suas próprias histórias, porém tem ocorrido de forma mais frequente que fatos reais corram para as telas em tempo cada vez mais curto – vide o filme dos mineiros chilenos que sairá em breve. Seria uma crise do cinema? Seria a vida a mostrar-se mais inédita do que as mentes dos roteiristas? Qual o interesse de assistir a um filme sobre algo que li e vi repetidas e incansáveis vezes nas redes de notícias? Não saberíamos mais dos fatos e detalhes do que um filme poderia jamais me mostrar? Seria algum desejo de eternizar nossa história antes que as gerações futuras as reinterpretem? Pois bem, algo a se pensar.
E ficou mesmo a pergunta: quem falará mal de 12 Years a Slave? Confesso que fiquei incomodada com o filme. Talvez não tenha assistido com a devida atenção. Talvez tenha criado expectativas demais desde o dia que vi, ano passado, o trailer antes de algum filme no cinema – e só anotei o nome dele na wish list por conta do Benedict. Uma das pessoas que assistia comigo saiu na cena em que Patsy era golpeada no tronco. E é este o ponto.
Ontem mesmo, tendo assistido-o no domingo, me deparo com um texto do Escorel (sou sua fã, um dia ainda vou mandar um e-mail me declarando) que perpassa as dúvidas sobre 12 Years e cita um crítico americano que teve a audácia de criticar o filme. Havia, então, encontrado o incômodo que senti. Primeiramente, o protagonista não está nos seus melhores trabalhos. O personagem também parece não ajudar, pois titubeia demais e não se percebe no mundo no qual foi inserido à força – sim, é complicado criticar isso, pois trata-se de uma história real (aliás, veremos este ano também a enxurrada de “histórias reais” na corrida ao Oscar como foi ano passado?). O olhar estabanado e a testa franzida em quase todas as cenas perdem e muito a carga dramática necessária para a história.
O enredo é espetacular. Quando você se dá conta do que está acontecendo, fica de queixo caído – eu não fazia idéia dos fatos que a história conta. (não, eu não leio sinopses e este caso é um bom exemplo de como isso é bem melhor) Nas primeiras imagens que vi do filme pensei que seria meu candidato favorito disparado para fotografia. As cenas nos campos de algodão são lindíssimas, porém como parece ser uma constante nos longas-metragens que exploram boas fotografias, há aqueles planos que valem só e somente pela fotografia e desmerecem o drama – não sou fã deles de jeito nenhum. Momentos como o da passagem de tempo no qual vemos o gazebo pronto e os segundos durante os quais a câmera fica fixa em Solomon nos contando que ele aguarda a resposta à sua carta salvadora e a ida e vinda ao ponto do corte de cana merecem destaque e elogios à direção que parece lembrar que faz cinema.
E aí voltamos ao problema. O tal crítico americano parece até que foi banido depois dos seus comentários sobre o filme. Quando convidei uma pessoa para assisti-lo, disse o título e comentei que era um dos favoritos ao Oscar, já premiado, ouvi “ah, sim, por causa do Obama, né.”. E, sim, pois é. Há uma onda Oba-Obama. Há quem queira dizer que o filme não tem nada a ver com isso, mas considero difícil não ligá-lo a uma nova auto-imagem do público estadunidense. São raros os filmes que retratam a escravidão estadunidense de forma mais próxima e contundente. Aliás, acho até que nós temos mais novelas e minisséries que retratam isso do que eles têm filmes sobre. Acho justo comparar nosso produto mais vendável com o deles. Estaria a maior e melhor nação do mundo reconhecendo suas mazelas?
Eu cá pra mim nunca botei fé nessa onda Oba-Obama. Não, não acho que um presidente negro (ou um ex-operário e sindicalista ou uma mulher) vá mudar a mentalidade e atitudes das pessoas. Não, não acho que os racistas estadunidenses deixaram de sê-lo ou deixarão porque alguns tantos elegeram o Obama. E, sinceramente, nem acho isso nenhuma vitória política. Pra mim, investem-se em fachadas.
Então, e o filme? É preciso (re)contar a história dos negros nos Estados Unidos. O enredo é cinematográfico (aliás, há pouco tempo eu reclamava que não tenho sido surpreendida pelos roteiros), originário do livro que o protagonista escreveu. As atuações têm altos e baixos. Esperava mais do Benedict (talvez, como o George em Gravidade, esperava vê-los mais tempo na tela), todos os méritos vão para Patsy (Lupita Nyong´o, trabalho brilhante) e Edwin Epps (Michael Fassbender, um personagem difícil, às vezes pouco crível, mas com boas nuances) e o Brad Pitt (mais feio do que ele é, com cabelo e barba desgrenhados) numa ponta que pareceu só “sou o produtor e vim aqui fazer um discurso lindo sobre a liberdade (o personagem é canadense e acima do bem e do mal, ao que parece) e essa coisa toda de multiculturalismo e blábláblá que, vejam vocês, pratico na minha vida pagando por um filme desses e adotando crianças de quase todos os continentes”.
Dizia lá o crítico que o filme era quase sadomasoquista. E é esse o problema. A violência. Há uma linha tênue, no cinema, ao representar a violência para ser o mais próximo do real possível para aproximar o espectador da dor sofrida pelo personagem, fazê-lo quase sentir as atrocidades ali estampadas, e a violência que gera o prazer catártico do espectador – vide aí o exemplo de Tropa De Elite. Há quem saia do cinema dizendo que sentiu na pele as dores do Solomon e da Patsy ao serem violentamente agredidos (lembrando que o castigo físico, em ambos os casos, é para dobrar as almas deles, não é para eles sentirem “dor”). Porém, eu me pergunto, seria essa a dor pretendida? Quando o algoz chega a quebrar a madeira com a qual espanca Solomon nós sabemos que ele está batendo muito forte e que está lanhando gravemente as costas dele enquanto ele precisa submeter-se à perda da identidade, pois agora ele é Platt. Há, provavelmente, quem saia do cinema com a alma lavada por ver violência, pois vai até lá justamente por isso, para ver aquilo que ele gostaria de fazer nas ruas, mas por tantos motivos não o faz.
Foi aí que lembrei do Glauber Rocha. Violência no cinema sempre me faz voltar a ele – enquanto eu não me deparar com mais ninguém que fale tão bem sobre isso. O cinema precisa oferecer este menu que tanto oferece e nunca satisfaz o espectador? Sim, isso é Adorno e Horkheimer. O que 12 Years a Slave faz é oferecer violência. Tenho que concordar com o crítico, é violência e não é história ou História. Mas a violência que este tipo de filme oferece é aquela que não satisfaz, é a pura indústria cultural, porque o espectador vai continuar sentindo falta dela na sua vida. E por isso que simplesmente prefiro Glauber com a violência da percepção, com a violência da câmera, pois é algo específico ao cinema – senão, posso simplesmente assistir aos MMA da vida.
Antes mesmo do filme, dois episódios me chamaram a atenção para uma questão de termos. Duas notícias de alcance nacional (e até internacional), a “briga” entre torcidas em Joinville e a matança dentro e fora dos presídios no Maranhão. Tenho praticado o afastamento das notícias, retirei todos os portais de notícias do meu feed do Facebook e instaurei outras práticas desde fins do ano passado. Tenho vivido melhor (inclusive com outras práticas que adotei, mas não vem ao caso). Contudo, em ambas as notícias uma palavra foi muito usada quando queriam descrever o que houve: selvageria. Discuti com uma pessoa quando ela usou esta palavra sobre o primeiro caso. Selvageria? Usamos “selvagem” para o animal que como naquela canção “só briga por comida e sexo”, os animais, dizem as más-línguas, são irracionais e agem por instinto (o qual, dizem, também possuímos). O animal selvagem, a natureza selvagem, são assim chamados porque não são domesticados ou tocados pelos humanos. Não vou arriscar a dizer que os humanos são os seres civilizados do planeta. O animal busca comida, briga por uma fêmea, não precisa de quatro paredes para fazer suas necessidades, mata outros animais para sobreviver. O animal selvagem não mata outro só porque ele prefere um galho diferente do dele, ou porque ele torce para outro time, ou porque ele tem um gosto diferente e prefere cruzar com um animal do mesmo sexo que o dele, aliás, animais não fazem guerras, vejam só. Sinceramente, seres humanos que fizeram o que fizeram naquele estádio e no Maranhão são só e somente seres humanos – não são selvagens, não são animais. Seres humanos são os únicos capazes disso no planeta. Faz um tempo comecei a deixar de usar termos pejorativos de animais aplicados aos seres humanos, pois os animais dos quais eu gosto tanto não merecem isso. É vagabunda, não é vaca. É sujo e não tem boa higiene, não é porco. É estúpido, ignorante, não é burro nem anta (eis o mais difícil de deixar de usar, pois costumo me chamar assim algumas vezes). É puta, não é galinha. Nem vou falar do “veado” e “macaco”. Vamos deixar disso de usar animais para tentar reduzir seres humanos ao que eles são: seres humanos. E, sim, a “selvageria” parece ser o argumento de 12 Years a Slave neste mundo entre brancos e negros.