Pessoas que almoçam ao meio-dia

 

Sabe, eu nunca fui pra balada. É, nunca saí pra “night” (o povo do interior gosta de falar assim, né?). Vejam vocês, janeiro, alta temporada (só não posso listar “calor”), sexta-feira à noite e? Estou aqui escrevendo. Emocionante, né? Pois é, acho que é. Ou não, sei lá.

 

Eu gosto do silêncio. Eu gosto de ficar sozinha. Agora a pouco me senti meio sem rumo – certo, isso frequentemente acontece. Estou no meio de mil coisas que eu gosto e que quero fazer e? Me sinto sem rumo, sem vontade pra nada do que está acontecendo. E por quê? Bem, quem souber a resposta me avisa. Não faz sentido. Mas eu gosto do que não faz sentido.

 

Já me irritei algumas vezes hoje. Com trabalho (quando me deparei com algo que eu sei como é, não é bom mas terei que encarar de qualquer jeito), com esse, com aquele, com tudo. Até com as pobrezinhas das peludas. Mas é assim, estou um porre hoje. E daí só eu me aguento.

 

Aí li, dormi no sofá, abandonei tudo. Passei uma parte da tarde enrodilhada na coberta no sofá, entre dormitar e ouvir música. E quando me dei conta (ou seja, quando vi que ainda pertencia a esse mundo), pensei: era tudo o que eu precisava! E era mesmo. Aí, depois disso veio a história da falta de rumo.

 

Aí liguei a TV, assisti a novela, resisti a matar a fome (pelo menos hoje não veio o desejo insano por azeitonas que tem me assaltado nos últimos dias – o qual eu tenho saciado toda vez que aparece. Não venham com bobagens, claro que não estou grávida.), deixei a TV no mudo com a tecla SAP (acho isso divertido) e voltei a ler o italiano chato. Quer dizer, chato não. Não, não, é chato mesmo. Só porque sou mais chata que ele, terminarei de ler o livro e não o abandonarei antes disso.

 

Viram? Sou chata, sou velha.

 

Aí, ali lendo, dando uma espiada no SAP, puf! Bato sem querer no controle e desconfiguro a TV. É, sem TV, ponto pra mim. Aí me irritei, pô, eu queria mesmo assistir TV. Ah, o italiano é chato. E, sei lá, internet uma fada sem madrinha, as peludas brincando pra cá e pra lá e nem me convidaram. E eu ia o quê? Ficar com o italiano? Este maldito é como aquele tio sem razão que quase nunca te vê, tu aguenta uma meia dúzia de pergunta antes de escapulir atrás de um brigadeiro como se fosse pela tua vida (pra quem me conhece sabe que eu não gosto de brigadeiro).

 

Aí ligo pra mãe, pro pai e pro espírito santo pra saber como arrumar a TV. Dramalhão que ninguém atende telefone. Quando um atende já solto os cachorros por não atenderem o telefone. Pô, não façam isso num dia como hoje! E desligo sem saber como configurar a pobre amiga. Banho? Janta? Banho frio não dá (não tô conseguindo mudar o chuveiro pro “inverno”, aí já é sacanagem), sopa de feijão com um monte de alho (calor, frio, calor, em janeiro? a velha se previne). Pô, tá difícil. E o italiano ali jogado no sofá com aquela cara estapafúrdia dele.

 

Pode esperar querido.

 

E estou irritada mesmo com as pessoas que almoçam ao meio-dia. Mas como?! Que doença é essa? O relógio bate meio-dia, parece que o buraco no estômago dessa gente desperta e grita. Não entendo esse povo. Eu nunca almoço ao meio-dia. Pior ainda quem consegue almoçar às 11h30. Só podem ser doentes. Nem quando eu estudava de manhã (foram muitos e muitos anos, acreditem. quer dizer, ir eu não ia muito não) eu conseguia almoçar meio-dia em ponto. Acho que são ETs, se estão no telefone, trabalhando, dirigindo, largam tudo e entram no primeiro restaurante que vêem, sentam à mesa e precisam comer. Isso não pode ser normal, não pode ser ser humano. Tô achando mesmo que são ETs. E desconsidero quem comparar isso com a minha falta de rumo. Quem tentar insinuar isso eu bloqueio em todas as redes sociais e mando o e-mail pra spam, hein!

 

Sexta-feira, eu aqui escrevendo. Meus leitores por aí na balada, viajando, namorando, fazendo aquelas coisas que, olha, é melhor eu nem dizer por aqui senão terei que auto-censurar o blog – só para maiores de 25 anos.

 

Já contei pra vocês que nunca fui pra balada? Pois é. Dizem que pra tudo sempre tem a primeira vez. A gente sabe que é mentira, né. Tem um monte de gente aí que morre sem a primeira vez de muita coisa. Tem coisa que a gente ate dispensa a primeira vez. Pois é. Agora tô meio “pois é”, repararam? Pois é.

 

Um dia, uma amiga quase, quase me levou pra balada. (mas, pô, não me vem com esse negócio de sertanejo analfabeto ou bate-estaca) No fim, não fui. Tem um monte de coisa que eu nunca fiz. Pois é. E a vida está boa, tudo do jeito que eu queria. E eu fico sem rumo pra pensar que pode estar bom, mas pode ser ainda mais diferente, pode ser inédito, pode ser mais. E eu lá sou mulher de me acostumar com o bom? E minha falta de rumo me fez até me perguntar: quem vai me levar pra balada? Porque é assim, tô precisando fazer algumas daquelas coisas que nunca fiz. Tá afim?

Pós-guerra

 

Já faz tempo que sou “velha”, porque a vida correu e pra não piorar o que já era ruim eu corri atrás. O ceticismo, a ironia, a desilusão mantiveram apagadas muitas coisas que não tiveram seu tempo nem seu lugar na minha vida. Poucas (boas ou más) reações derivavam da surpresa.

 

De velha pra chata é um passo. E qualquer um que me conhecia, pouco ou muito, percebia isso. Apesar de uma alegria fugidia que parecia negar tudo isso. Só parecia.

 

Não falta juízo, experiência, nem um monte de coisa.

 

Porém, como eu disse nos últimos posts, tenho pensado muito. E eis que uma coisa grande e simples, mas tão sutil, me fez pensar que eu tinha uma idéia errada.

 

A guerra. Sim, a guerra. O exemplo surgiu da guerra real, aquela de combate, entre nações ou ideologia, a luta armada. A guerra em si é um exercício devastador, destruidor. Nos locais dos combates há morte, fome, destruição, medo, excessos de ambos os lados. Os povos dos locais onde elas ocorrem fogem ou ficam e tentam se esconder. É um tempo de privação e mudanças. Fácil dizer que é uma coisa ruim, que estraga mais do que beneficia. O período de guerra é o prato principal de muitos livros, é objeto de cobiça de historiadores, programas de TV e o cinema se deleitam entre a ficção e o documento.

 

A coisa, então, assim se apresentava pra mim. A “guerra” pode ser, também, todas as nossas batalhas contra pessoas, instituições ou “problemas”. Entramos em guerras no sentido figurado. Usamos a guerra como uma metáfora, pois consideramos esta guerra a nossa guerra, usamos todas as relações: nos armamos, planejamos, atacamos os inimigos.

 

Contudo, a surpresa se deve ao perceber que a guerra em si, o período de guerra não é o cerne da questão. Neste caso, o que realmente conta, o que faz a diferença é o pós-guerra. A modificação que a guerra causa nas pessoas, como os lugares (no caso da guerra literal) ficam depois da guerra, as trocas que ocorrem entre os exércitos, o “mundo expandido” é que é o efeito da guerra. O durante importa muito pouco ou quase nada. O efeito daquele período, as consequências, é que dirão a que veio tal guerra.

 

E assim é também com a guerra metafórica. Nós nunca somos os mesmos depois que saímos de uma guerra. (lembram os relatos, filmes e livros sobre ex-combatentes das guerras literais?) Os comandantes e os líderes se preocupam demais com o desenrolar da guerra, sem perceber que o que vem depois é a verdadeira guerra.

 

Por isso, antes de entrar na guerra, não pese apenas as estratégias, as armas, as munições, a força do inimigo. Pense se você está à altura de aguentar o que virá depois, porque o combate embota os sentidos e as emoções, mas na hora que a poeira baixar, na hora de contar mortos e feridos e retirar a tropa os olhos vão voltar a enxergar, inclusive aquilo tudo que você fez e sofreu durante o combate.

 

Era isso, talvez, que eu ainda não tinha percebido. Como eu disse, é sutil, muito sutil. Tão sutil mas ainda mais importante. O silêncio que reina justifica a importância dessa percepção. A sutileza ao tocar no assunto é tão delicada posto que é, de fato, algo difícil e delicado em si.

 

Talvez você, querido leitor, já soubesse disso e perdeu seu tempo lendo. Pois bem, a velha aqui não. E o desassossego do blog é feito disso. Fico, na contramão, pelo menos satisfeita porque não sou totalmente imune às surpresas. Ainda me falta um pouco da “velhice”. Ainda bem.

 

 

O Big Brother, a novela das 19h, a covardia e os seus julgamentos

 

Essa semana eu pensei várias vezes em escrever um post sobre uma personagem da novela das 19h da Globo. Mas como o assunto passava perto (bem perto) de questões pessoais, eu relutei. Além do mais, alguns torceriam o nariz e diriam “mas você assiste novela?” ou coisas semelhantes. Aí me ocorreu um post um tanto mais descontraído sobre esses rótulos, justamente. Porque coloquei o disco de vinil da Angela Rô-Rô para tocar e pensei: um monte de gente já diria “essa aí é sapatão, ouve Angela Rô-Rô”. Como se o que eu ouço ou o que eu assisto determinam o que eu sou ou até o que eu faço da minha vida sexual.

 

Pois bem, acho que juntei tudo isso neste post que culminou com o Big Brother. Sim, o tal BBB. Se já torceriam o nariz ao me verem falar em novela, imagine em Big Brother, né? Pois é. Isso que eu vou contar para vocês que li a Veja ontem. Sim, podem pensar o que quiser. Li a Veja sentada em frente à TV sem som que passava o Fantástico e parei para assistir o Big Brother. Perdi a sua amizade por isso? Pois então não me fará falta.

 

Porém posso dizer que ouvi Norah Jones e li Stendhal antes de dormir. Nesse meio tempo vi e li muitas coisas. Porque se você me julga por isso, querido, precisa conviver vinte e quatro horas comigo para poder fazer um bom julgamento. E ainda assim este será deficiente. Aliás, você não suportaria esse tempo todo convivendo comigo, ouça o que eu lhe digo, não é fácil.

 

Mas as pessoas gostam de tentar te rotular, de tentar te atacar só porque ele acha que você é pedante porque vai para a aula com uma dúzia de livros debaixo do braço, mas quando chega junto pra que você dê para ele, aí você descarta. E aí chegamos ao assunto do começo.

 

Na novela das 19h da Globo, “Aquele Beijo”, a personagem da Giovana Antonelli, Cláudia, está em processo de separação do seu já ex-esposo (eles já não vivem mais sob o mesmo teto pois Cláudia decidiu separar-se após ver sua mãe ir presa inocentemente por conta de falcatruas do pai do personagem Rubinho, na época esposo de Cláudia e que sabia o que estava acontecendo, mas que não contou para ela). Houve separação de corpos e ela entrou com o pedido formal. Rubinho, no entanto, disse que não aceitava a separação (e aqui eu me pergunto: o que há para aceitar se a separação em si já é um fato?) e que teriam que seguir no litigioso.

 

Pois bem, situação mais comum do que a gente pensa. Mas, mais comum ainda é a sequência das ações de Rubinho. Citarei três: num capítulo, Cláudia está chegando em casa e ele surge ao lado da porta do seu apartamento, insistindo para entrar e questionando onde ela estava. Cláudia se assusta, barra a entrada da porta e diz que não lhe deve satisfação, afinal não está mais com ele. Bem interpretada por Giovana, a personagem fica visivelmente abalada e assustada, contudo ela, ao entrar (fecha a porta rapidamente para que o ex não entre) e encontrar com a mãe que agora mora com ela, não lhe conta nada; num capítulo seguinte, Cláudia está no primeiro encontro com o engenheiro que ela conheceu numa obra, eles estão num restaurante jantando quando do nada surge o ex, Rubinho, pergunta quem é o “cara”, diz que ela não pode fazer isso e numa primeira atitude agressiva, esfrega a cara do engenheiro no prato de comida, sendo retirado à força pelos seguranças, o engenheiro sai logo em seguida culpando-a por ter um ex assim e ela fica lá jantando sozinha; no capítulo seguinte, após contar para a mãe o que ocorreu (ela tenta erguer-se do fim de um relacionamento que durara anos), a mãe tenta encontrar justificativas para o ex, dizendo que é natural que ele sinta-se como dono de Cláudia pois eles tiveram um longo relacionamento e homens sentem-se assim, Cláudia, porém, não aceita essas palavras e ainda conclui que está sendo seguida por ele. Logo em seguida vemos Cláudia ao telefone, no seu lugar de trabalho que é a obra onde conheceu o engenheiro, o qual pede sua demissão pelo ocorrido. Eis que entra Rubinho e faz as perguntas descabidas sobre quem era o homem que estava com ela, que ela era dele e coisas afins. Cláudia se nega a concordar com ele e ainda tenta mostrar que ele causou um problema profissional para ela, ao que Rubinho a agarra com as duas mãos e diz palavras agressivas, diante do susto e do medo, Cláudia fica paralisada. O escândalo chama a atenção dos operários que se colocam para defender Cláudia, assim Rubinho vai embora.

 

O texto do Miguel Falabella é muito bom e me parece que esta sequência terá ainda um crescente. Um crescente, creio eu, um tanto familiar. Como eu disse, é algo pessoal, já passei por isso. Pensava em escrever aqui pedindo que meus leitores dessem uma atenção especial às notícias diárias sobre exs que matam, sequestram, assediam, agridem as mulheres que ousaram dizer “não, não quero mais”. Não são poucas, tenho certeza. São muitas mais do que podemos imaginar. A situação em si já é grave, mas mais grave ainda é não denunciar. É calar-se. Você cala por vergonha, por susto, por medo. Se você se vê como uma mulher dona do seu nariz, como pode se ver numa delegacia dizendo a um policial que quer fazer um BO porque tem um homem lhe perseguindo? Parece simples, mas não é. Lhes garanto que não e compreendo o silêncio dessas mulheres. Como Cláudia, muitas vão tentando ignorar, sentem medo, esperam que aquilo acabe por si, que o idiota acorde num belo dia e a esqueça para todo sempre. Isso, infelizmente, não acontece em muitos casos. E diriam, como a mãe de Cláudia: homens são assim. Pois então o problema são eles, quem precisa de cura ou de solução são eles: nós não. Mas quem precisa se rebaixar e ir a uma delegacia (onde normalmente nada é feito e só alimenta a frustração) somos nós. Nós?

 

Há a esperança que lhe prende e não lhe permite tomar uma atitude mais severa. Há uma ferida no ego ter que desprender-se de si para rebaixar-se ao nível de que aquilo que o outro faz não é correto nem bom. O homem? Primeiro há o desespero e as atitudes ligadas a isso; depois há a percepção de que a rejeição é real, e aí o pior que há no sexo masculino transborda: a covardia e a agressividade. O homem se ampara na sua “natureza” como disse a mãe da Cláudia para justificar a covarida diante daquilo que não vai mudar e como já não há nada mais a ser feito ele só consegue agir, o que significa violência e agressividade. É o velho “tomar à força”. Homens são repugnantes por isso. Mas, mas, mas… dirão que estou generalizando.

 

Enquanto a mulher sente-se impotente o homem usa de toda a sua “potência”.

 

E aí eu vou ligar diretamente com o Big Brother. Programa da mesma emissora que já faz e ainda faz (para desgosto de muitos) muito sucesso no Brasil. Acho de uma hipocrisia sem tamanho quem hoje tanto critica mas já foi lá seu fã. A esmagadora maioria dos brasileiros já assistiu alguma temporada do Big Brother. No começo, acho que a curiosidade e o estrondo levaram muitos de nós a assistir. Porém, hoje muitos assistem porque querem ver barraco, putaria e coisas afins. A própria produção do programa deixa claro que visa isso. A escolha dos participantes (não é quem quer ganhar um milhão de reais e por consequência aparecer, é quem quer aparecer e por consequência ganhar um carro ou dinheiro), as festas regadas a muito álcool, o número reduzido de camas, as intrigas. O nível moral do Big Brother foi sendo construído ao longo de algumas temporadas, somou-se o que o povo mais gostava de ver com o que os participantes ofereciam. Bem, diante desta equação é óbvio que o resultado foi o mais baixo e constrangedor possível. Se eu estivesse lá, provavelmente não haveria sexo em frente às câmeras; se você estivesse lá, provavelmente não haveria mentiras. Por isso, eu e você não somos escolhidos para o programa. Simples assim.

 

Diante destas colocações, não há boas coisas à espera. Contudo, o ser humano é foda. (desculpem-me pelo palavrão, ele foi necessário)

 

Ontem a internet pulsava frenéticamente acerca de o que foi chamado de “estupro” e aí muita coisa foi exigida (as massas, na internet, exigem alguma coisa?) e escrita. Resumindo: uma participante (catarinense, por sinal, mas que eles chamam de gaúcha porque mora em Porto Alegre, Monique Amin (!)), bebeu, bebeu e bebeu na festa – ou seja, fez seu papel – e caiu na cama apagada. Logo, um rapaz que só sei o nome, Daniel, deitou ao seu lado e nitidamente teve algum tipo de contato sexual com ela (debaixo dos tais edredons). Se foi masturbação, se foi bolinação, se houve ou não penetração (li em algum lugar algo assim “nem houve sexo, os dois estão o tempo todo de lado” – oh, wait! que tipo de vida sexual tem uma pessoa que diz isso?!), não se sabe nem se saberá. O que se sabe é que a tal Monique de nada participou conscientemente. Poderíamos saber a verdade caso o tal Daniel fosse uma pessoa correta e sincera, porém, tudo já demonstra o contrário.

 

A Globo, que não é boba nem nada e sabe que internet só é para poucos, ainda, fez seu procedimento normal, chamou a Monique, fez suas perguntas e, não pasmem, continuou como se nada tivesse acontecido. Não houve estupro (e a discussão jurídica acerca da coisa foi enfadonha), tudo continua como antes, a moça disse que sabia o que estava acontecendo. Aham… sabia. Sabia tanto que foi perguntar para o tal Daniel e questionou uma colega “será que eu fiz?”. Ah, o Daniel… a resposta dele: você fez alguma coisa que não queria? Ela: não! Então está tudo bem, diz o rapaz.

 

Homens, não é mesmo? Eu assisti o programa à noite curiosa por como a Globo apresentaria a questão. Uns seis segundos da cena do edredon, um “o amor é lindo” dito pelo velho ridículo Bial, as perguntas de uma Monique que demonstra estar completamente alheia ao que aconteceu e uma cena em particular: o tal Daniel agarra com força uma moça (que eu obviamente não sei dizer quem é) durante a festa, puxando-a ao encontro do seu corpo e forçando um beijo, ela não gosta, tenta se afastar, nega, vira o rosto e diz “me deixa ir, pode me largar?” algo assim.

 

Esse Daniel não é bonito. Ele é feio. Não que isso importe para a maioria dessas mulheres que vão para a balada. Ele demonstra claramente que está no Big Brother com a cara dizendo “aqui vou pegar muitas, afinal o programa quer isso: todos se pegando”. Somente pela atitude dele com a moça durante a festa já diz quem ele é: mais um homem idiota, desses não faltam no mundo. Ele é um homem idiota que acha que toda mulher deve lhe dar. Sim, “dar” no sentido sexual. Porque os homens são assim. Eles cresceram assim, você os educou assim. Você, pai e mãe ausentes e irresponsáveis, nunca chegou para ele e mostrou que não era assim.

 

Eu tenho fatos pessoais sobre essas questões, e você, mulher, que me lê, pare um instante e puxe pela memória, certamente também encontrará alguns. Eu disse “não” a alguns homens. E vi a cara que não compreendia isso, como se para eles as mulheres fossem feitas para simplesmente obedecê-los. Bem, tenho um histórico ruim porque nem aos meus pais eu obedecia. Não seria a um marmanjo que acha que eu tenho que dar pra ele que eu obedeceria.

 

O Rubinho, lá da novela, é um personagem. O Daniel é um cara aí, normal. Poderia ser seu filho, seu namorado, seu pai.

 

Daniel foi rejeitado. Por beleza física ele está abaixo de muitos ali e talvez as mulheres (que também não são lá muito bonitas) não lhe dessem chance. O que ele fez? Seguiu o processo e agiu – com covardia e uma dose de agressividade. Agressão não é unicamente dar um murro na cara do outro, a agressão vem de muitas formas, pois se ela se apresenta até em palavras, por que não seria agressão manipular o órgão sexual de outra pessoa enquanto ela dorme? O covarde utiliza-se da agressão para sanar sua nulidade, e aí podem ser palavras, perseguições, o uso da força, a manipulação, a chantagem física e psicológica, etc..

 

Eu poderia contar uma dúzia de fatos para vocês, assim tornaria mais íntimo e pessoal o post, porém, não adentrarei neste nível de relato porque o ego fala mais alto. Bastam estes exemplos, de uma mesma emissora que usa suas novelas para condenar abusos e educar a população (os autores mesmos gostam de dizer que incentivam doadores de medula, que incentivam mulheres a denunciar casos de agressão familiar, etc.) e ao mesmo tempo dá ao povo aquilo que ele gosta, no nível que ele gosta.

 

Foi inevitável que ontem, ao tirar a colcha da cama, ainda um tanto chocada pela edição do programa do Big Brother, com o Stendhal debaixo do braço, eu lembrasse carinhosamente de Nelson Rodrigues já citado aqui no blog: se todos soubessem da vida sexual de cada um, ninguém falaria com ninguém. Nelson tem outras grandes análises do ser humano (o complexo de vira-lata, a burrice da unanimidade, dentre textos que relatam com detalhes sórdidos personagens nesses níveis que, caso fossem pessoas do nosso conhecimento, não teríamos coragem de falar com elas). E você tenta descobrir minhas opções sexuais através da música que eu ouço. Francamente! Você passa longe, bem longe, do Nelson Rodrigues.

 

Você tenta julgar meu caráter pelos programas de TV que eu assisto. Minha cultura e nível de conhecimento avaliando se eu leio Sidney Sheldon ou assisto Godard. Você aí que pode ser um homem dos mais clássicos, um Daniel. Ou você que está com a aliança no dedo, namorando ou noiva, de um… Daniel. (talvez você já desconfie que ele é um Daniel, ou ainda não tenha a menor idéia disso e provavelmente só vai descobrir tarde demais)

 

Confesso que a primeira coisa que me ocorreu sobre o caso do Big Brother foi que não havia nada de mais na situação, pois isto acontece todos os dias, em baladas e festinhas no mundo inteiro, todos os dias. Você mesmo talvez já tenha participado de uma dessas (eu nunca participei de festas ou baladas, por isso nunca vi com meus belos olhos castanhos, mas, né, felizmente tem coisas na vida que não precisamos ver para crer). Moças bêbadas (beber até perder os sentidos é um atestado de “você é boazuda/o” no mundo) que caem inconscientes no meio da festa e rapazes que (muitas vezes também bêbados) abusam delas é tão comum, só não saem nos noticiários como as mulheres assassinadas pelos seus exs. E o que é comum, já se sabe, toma para si uma garantia de “normal”.

 

Não gosto do que é normal. Nem do que é comum. Não gosto. Por que haveria de gostar, não é mesmo?

 

Bem, aos que julgam, eu poderia citar o caso de amor da Campireali pelo Banciforte do Stendhal, onde há, nitidamente, mais um Daniel de outros tempos, que a corteja, a exije e a humilha para mostrar que é seu dono. Os Daniéis e as Moniques têm origens muito antigas e nem por isso estão certos. Porém, preferi citar o Big Brother e a novela das 19h. Suas condenações não me dizem respeito.

 

(Nota: eu tento assistir a novela das 19h do Falabella porque eu gosto do texto, mas como todo programa de TV que eu tento assistir tem o problema de eu lembrar quando passa e tal, porque o relógio e eu não nos entendemos; não assistirei ao Big Brother, podem ficar tranquilos, e acho que quem ficou “de cara” com a atitude da Globo deveria simplesmente parar de assistir, afinal, para ver pornô (muito mais interessante do que o que eles oferecem) tem tantos outros meios. Assiste quem quer e só. Ainda não terminei de ler o Stendhal. Ouvi Ultraje a Rigor também ontem. E eu ainda me apego MUITO ao Nelson Rodrigues porque, como eu sempre digo, quero continuar falando com vocês, meus queridos.)

 

 

Se ela pudesse me escutar

Você só vai conhecer um homem, aquele a quem você ama, quando ele souber que você deixou de amá-lo.

Os amigos só serão amigos quando estiverem ao seu lado na sua maior alegria, sem invejá-lo.

Seus pais serão sempre seus pais e, para o bem ou para o mal, você sempre pensará neles.

As pessoas ruins sempre se encontrarão na vida, como que atraídas pelo cheiro da maldade. Porém, elas, de tanto praticarem o mal, não o verão quando forem vítimas dele. Assim, a surpresa e o espanto serão desproporcionais – muito maior do que a reação que causam nas pessoas que recebem as suas maldades, visto que essas já as esperam. Há um sopro de justiça e vingança em cada ato desses.

As pessoas que se dizem “muito boas” querem na verdade dizer que patologicamente sofrem do complexo de vitimização. Não podem causar mal algum, a não ser a si mesmas, como diz a música. Para isso, deixam-se vitimar pela maldade alheia.

A mulher que se permite continuar ao lado de um homem que diz “você é MINHA mulher” está fadada à insignificância. Homem que diz isso é um covarde.

Os homens, em geral, encontram desculpas: arranjam desculpas para tudo o que fizeram, que deixaram de fazer e que ainda farão. Simples assim. Não são espertos, nem inteligentes. Contudo, ainda há mulheres bem mais estúpidas que eles.

As lembranças acometerão somente aqueles que viveram um passado com o coração pleno, e assim não haverá arrependimento, dor, lamentações de qualquer tipo. As lembranças serão seu tesouro. Quem sofre, lamenta ou pensa que poderia ter sido diferente não tem lembranças, é apenas um incauto que vaga vazio pelos seus dias até que eles acabem. Este fim estará sempre distante para lembrá-lo, a cada instante, em cada lugar, que ele nunca conseguirá ter lembranças.

O sangue nunca determinará seu ciúme, sua inveja, sua admiração nem sua paixão. Para os desavisados isso será sempre um perigo à espreita.

O amor, ah! o amor, nunca estará no mesmo lugar que você no momento certo. Você tenderá a pensar que sim, fatalmente. A maioria passa a vida acreditando nisso, porém, o amor mesmo você deixou passar despercebido quando faltou a ele apenas um pequeno gesto seu – que você não fez porque achava já tê-lo encontrado.

O coração lhe pregará peças. Muitas. O corpo, se você for das pessoas carnais, lhe pregará muito menos peças. Este lhe será mais verdadeiro e fiável, enquanto que aquele se iludirá até com palavras.

Muitas pessoas te dirão “não”. Algumas te dirão “sim”. Respeite as primeiras e desconfie das segundas.

As portas e as janelas se abrirão e se fecharão ao sabor daquele ou daquilo que só lhe resta duas saídas: acreditar e tornar tudo mais difícil; ou duvidar e tornar tudo mais fácil. Porém, só descobrirás teus sentimentos reais sobre isso na hora da morte ou quando te sentires diante dela. Antes, serão apenas elocubrações.

A vida, sendo breve ou não, não lhe será mãe nem madrasta. Será um espelho. Mas demorarás a descobrir isso, e quando descobrires terás o espanto de um índio na época do descobrimento. Cuidado, pois ficarás tentado a trocar este espelho por qualquer coisa – algo que não parecerá ter valor para ti no momento – somente para tentar possuí-la. E assim serás enganado e a culpa será toda tua.

E vamos para o próximo!

 

Esse ano eu sofri, chorei um pouco, fiquei doente. Eu fiquei feliz por inúmeros motivos, eu me superei. Eu dei com a cara na parede, tentaram me enganar, e foi um dos anos que eu mais ri. Definitivamente, me diverti muito. Vivi situações inusitadas, insuspeitas. (como a cena que eu vejo agora aqui ao meu lado enquanto escrevo) Eu mudei de casa, mudei muitas coisas dentro e fora de mim. Estabeleci metas que não cumpri. Alcancei objetivos que não havia sequer cogitado. Enfim, me surpreendi a mim mesma. Encarei a distância, a falta, senti aquela saudade imensa e irremediável. Fiz tudo por algumas pessoas, me doei. Precisaram de mim, atendi. Não ganhei nada com isso, pois esse não era o objetivo, mas perdi. Perdas que podem ser compensadas ou adiadas, perdas que não são nada perto da morte. Esta, felizmente, não vi tão frequente este ano (algo raro). Cresci em responsabilidade como nem eu mesma imaginava – cresci muito nisso. Encarnei minha Madre Teresa de Calcutá como nunca, pois precisei. E assim fiz um ano melhor. Recebi amigos, velhos e novos amigos, e como os amigos fazem conosco, me redescobri. Perdi alguns (poucos) amigos que se distanciaram pelos motivos errados. Mas esses eu esperarei ali na frente, pois sei que hão de voltar. O tempo resolve tudo. Briguei menos, bem menos. Discuti mais do que deveria com certas pessoas. Porém, não me arrependi. Fiz bobagens imensas, me meti em roubadas inenarráveis. E com estas também me diverti. Soube rir de mim, do outro, do bem e do mal. Não desisti. Insisti naquilo que eu queria, naquilo que eu sabia, naquilo que eu teria. E consegui. Assim como você que me lê, conquistei muita coisa boa esse ano. E como você sabe, isso nos proporciona uma alegria imensa. Provei pra todo mundo que eu não preciso provar nada pra ninguém, como diz a música. Amei: amei demais, amei de menos, não amei ninguém, amei todo mundo; do jeito que me cabe, com a inconstância que levo sempre comigo. Recebi admiração, ganhei fãs, conquistei corações. Corri atrás e recebi em dobro aquilo que plantei. Lamentei errar com a minha saúde, mas, enfim, tentei compreendê-la e respeitá-la: hoje vivemos em paz. Mantive minhas roseiras cultivadas, reguei meu jasmim, arrumei a bicicleta hipocondríaca, perdi o sinal do celular diversas vezes, liguei menos a TV, me reapaixonei pelos livros de ficção, olhei desconfiada para a História. Decidi, por alguns dias, não arrumar a cama, dizer não para uma bebida tentadora, deixar de usar a internet, enfim, mostrar que quem manda em mim sou eu. Ajudei quem precisava, fosse alguém próximo ou que eu nem conheço. Deixei as unhas crescerem, deixei-as todas curtinhas (como agora). Viajei com menos (bem menos) bagagem do que nunca na minha vida – viajei muito, literalmente e metafóricamente. Disse mais “sins”, fiquei mais calada, escrevi mais, pensei ainda mais (se isso for possível), reaprendi a tolerar. Me assustei com a enxurrada de novos cabelos brancos, perdi o sono mais do que o normal. Eu sei que todos que me lêem viveram muitos altos e baixos esse ano, que experimentaram coisas boas e ruins, foram felizes e tristes. E foi assim também comigo. Vivi semanas e meses de montanha russa que deixaria qualquer enredo no chinelo. Mas nós sempre terminamos o ano com aquele anjinho ali no canto nos dizendo que faltou muita coisa. Faltou, é claro que faltou. Não só faltou como já temos a continuidade das conquistas desse ano. Por isso queremos que venha o próximo, para viver muito mais. O que eu quero para o próximo? Sempre o mesmo: que me surpreenda e que seja memorável. Que não seja assim, bege. Que não seja planejado nem previsível, como são as pessoas. Desejo que ele venha com aquela sutileza e arrogância que não me deixam ficar na minha zona de conforto. Conforto pra quê? Já escolhi o vestido de ano novo: branco com mini-flores rosas e folhinhas verdes. Paz, amor e esperança. Ou seja, quero estar pronta para tudo. Quero paz, muita paz, aquele amor gostoso e da esperança eu nunca me desgarro. Quero manter minha vida colorida sem isso de muito cinza ou muito amarelo. Quero, como sempre, variar. Que não me venham somente alegrias e respostas. Quero as tristezas e as dúvidas. A mim, me basta tudo. Já estou onde eu quero, com quem eu quero, vivendo do jeito que eu quero. Amanhã farei tudo aquilo que sempre faço, manterei as tradições. Eu gosto das minhas tradições. E nem por isso não sinto meu coração maior, onde, surpresa, encontrei lugar para mais gente e criaturinhas. Para todos vocês desejo o inesperado e só. Isso já lhes será de muito bom tamanho. E lembremos sempre: por pior que esteja aqui, em alguns momentos, ainda é uma delícia somente pelo fato de estarmos vivos. E eu hei de rir na cara de algumas pessoas esse ano. Irei à desforra, não olharei para trás. Pois que venha o próximo ano.

 

 

Nem só de beleza vive o turismo de um Estado

Estava eu na tal sala VIP quando entram duas senhoras (lá pelos finais dos quarenta). Fiquei observando curiosa, não eram, definitivamente, frequentadoras do local.

Uma delas vai até o balcão e num português afrancesado e dificultoso solta algumas perguntas. A atendente se bate para responder e logo aparece um incrivelmente solícito fiscal. Eles estavam tentando explicar para ela (em um português razoável) que os bilhetes de passagem continham um horário, é verdade, mas que na prática pouco importava. Num primeiro momento ela parecia incrédula. Agora já não era mais um problema de comunicação: ela havia entendido, só não acreditava. De incrédula ela passou para indignada e ao relatar a conversa com a sua companheira de viagem soltou alguns impropérios: aquilo era inadmissível!

Eu ali me divertia com a cena, afinal na França e em vários lugares do mundo, quando um ônibus ou trem tem um horário determinado no seu bilhete deve ser por algum motivo.

O fiscal (figura que surgiu do nada neste dia) ficou saltitante de um lado ao outro da rodoviária. Logo veio ele com uma turista americana e num inglês pífio tentou entender as dúvidas dela. Enquanto isso, o ônibus (Joinville – Florianópolis, na verdade a linha é Curitiba – Florianópolis) que nem tinha horário não aparecia.

Quando já estavam todos embarcando, finalmente, as turistas francesas deram o bilhete ao motorista que soltou um “merci” ao devolvê-lo. Eu ali, observando. Nisso, vem o fiscal (que passava instruções aos que atendiam a moça que falava inglês) solícito e pergunta ao motorista: tu vai além do merci? (visivelmente empolgado) E antes mesmo da resposta: porque eu só sei dizer que não sei falar francês. E disse uma frase incompreensível em algum idioma imaginário.

Sim, eu ali me divertia e embarquei no ônibus.

Passou um tempo fui até lá atrás pegar uma água e ir ao banheiro. Quando estou voltando vejo a francesa semi-letrada em português em pé no corredor sobre a outra e falando com um moço (com uma camisa amarela de doer os olhos) que lhes mostrava o mapa da Ilha no celular. Bem, eu fiquei ali parada me divertindo um pouco mais.

O rapaz, para mostrar serviço, falava em espanhol. Uma francesa que não entende nada nem de espanhol nem de português, um rapaz com um espanhol doloroso e um português talvez ainda pior e outra francesa que de espanhol não sabia nada mas arranhava no português. Ou seja, o diálogo era interessante. Ele falava da praia Mole (ih, moço…) e discorria sobre as maravilhas da “uma cidade pequeña dentro de la cidade”, ou seja, a Lagoa da Conceição. A francesa a perguntar sobre distâncias e a afirmar que não tinha problema porque elas caminhavam bastante.

Tenho dificuldade em reproduzir as falas do moço solícito que achava que estava falando espanhol. mas garanto que me diverti muito. Sobre os atrativos da Ilha, então… Ah, melhor ainda quando ele tentou explicar a relação “Estado de Santa Catarina”, “Ilha de Santa Catarina”, províncias e sabe mais Deus o quê.

Sim, pessoas, eu fiquei ali em pé admirando a cena.

Ao que a francesa que estava em pé disse um “merci” e mexeu-se para sentar. O moço ainda pergunta já meio esgoelado “e o que eu respondo quando você diz merci?!” (quase que eu respondo, “diz que vai se matricular num curso de francês, oras!”). E, claro, lá vem o enjôo apocalíptico do francês: très bien!

Mas o choque foi a aproximação da francesa… oh, God! Na França não faz calor, não? A fama tem justificativa! Sério, eu fiquei enjoada com o fudum que vinha daquela mulher. Uma náusea tomou conta de mim e pela cara de algumas pessoas em volta eu não era a única a passar mal!

Tranquei a respiração e me dirigi ao meu banco.

Fiquei pensando nas notícias e estatísticas que tenho visto por aí: 1. Santa Catarina será o segundo Estado a receber mais turistas estrangeiros; 2. Santa Catarina foi eleito o melhor Estado para Turismo do País, pelo quinto ano consecutivo; 3. Receberemos cerca de 5,5 milhões de turistas, 1 milhão só na Ilha.

Então, é para ficar orgulhoso, alegre ou temer?

São questões tão simples: não é so título, não é só número. Tem que receber bem, ter estrutura (palavra inexistente no dicionário do brasileiro), estar preparado.

Eu já trabalhei com turista estrangeiro na Ilha e digo: são explorados e sofrem com a falta de comunicação e desinformação. Não gostam da maioria dos nossos serviços, enquanto os donos de hotéis, restaurantes e afins aqui aproveitam para cobrar muito, muito mais caro deles!

É lamentável ter poucos profissionais que dominem (eu disse dominar, não arranhar) outros idiomas (para além do espanhol e do inglês então…) e tanto descaso com o turista que é visto apenas como o que mais gasta. Hoje mesmo encontrei turistas sul-americanos numa loja de calçados que eu frequento. Todo ano eles aparecem, muitos ficam deslumbrados com o nosso comércio. E eu sempre observo como são tratados mal, como não são compreendidos e como são vergonhosamente explorados.

E não pensem que é descaso ou mal profissionalismo (tema para um próximo post) do funcionário! Isso vem de cima, vem dos donos dos comércios, hotéis, etc.. Uma vez eu recebi um casal inglês que foi parar numa pousada que não era onde eles deveriam ter ido, erro do motorista do táxi. Mas eles só perceberam isso depois porque uns amigos haviam combinado de ficarem todos no mesmo hotel e quando chegaram no correto entraram em contato com eles. O casal então tentou cancelar o check in (cerca de vinte minutos depois) com uma funcionária, mas veio a ordem da dona do hotel em não permitir. O valor, inclusive, deste hotel era absurdamente mais alto. O que aconteceu? Eles ficaram no hotel errado, pagaram muito caro, tiveram gastos a mais de deslocamento, e ainda faltou luz a noite toda. Mosquitos, calor… Uma imagem linda para uma diária acima de quinhentos reais.

Conheci outros casos. Alguns realmente não se importam em pagar caro. É até triste ver que eles esperam não encontrar alguém que consiga se comunicar com eles!

Eu gosto muito de Santa Catarina. Tenho orgulho de ver o Estado merecidamente destacado no turismo. Mas lamento tudo isso. Lamento a falta de um “a mais” nos profissionais da área. Turismo não é exploração. Não sei o que tem sido ensinado nas muitas (hoje são inúmeras, quando eu fiz vestibular até cogitei pois estava em voga) escolas e faculdades de turismo por aqui.

Achei, inclusive, uma afronta do governo federal levar a Copa mais para o nordeste do que para cá. Todos sabem que o nordeste perdeu o seu posto de pai do turismo no Brasil. Lá foi assim: uma dúzia de investidores estrangeiros, muita estratégia de marketing, preços altíssimos, badalação e jogaram a pobreza pro lado. Os pacotes CVC da vida sugaram o que puderam (a estratégia é simples: você investe aqui, constrói seu hotel, a CVC manda quantidades absurdas de turistas) e hoje os preços despencaram porque está tudo sucateado. Rio de Janeiro e São Paulo já são auto-sustentáveis, mas também vêem Santa Catarina como uma ameaça. Como pode um estadinho lá do Sul querer desbancar os grandes nomes do turismo do país? E aí já começou a retaliação, a ignorância. O governo federal nunca foi por Santa Catarina. Nem os políticos do Estado. Volto a dizer: não temos representatividade a nível federal (e não vejo perspectiva de termos, mas sinto que é essencial). O Estado por si, por suas belezas e seu povo, pelo trabalho desse povo, conquista o que pode. Mas sofrerá sempre com o descaso.

Agora, o que não pode é perder a oportunidade que alcançou. O turismo é só mais uma vocação do Estado. Sempre fizemos muito mais e chegamos àquilo que não era tão explorado e visado até pouco tempo. Belezas nunca nos faltaram. Mas ainda nos faltam muitas coisas!

Não me peçam respostas

 

Ontem fazia muito calor, mas lá pelo meio da tarde o vento mudou de direção e o tempo virou. Fiquei lá em cima vendo o temporal chegar pelo oeste e o sol que se punha logo ao lado.

 

Já final da noite começo de madrugada, como tem sido todos os dias, as vontades insanas me assaltavam: desejo de sair. Desejo de andar pela escuridão com o vento no rosto. E fiquei, na cama confortável, o fresco só mesmo do ventilador e da varanda aberta. Dormir? Nem sei mais se sei o que é isso.

 

Alta madrugada o vento além de mudar para sul ficou mais forte e uivava pelas frestas. O uivo do vento… como se ele uivasse dentro de mim. E eis aqui mais um dia. Não sei se posso esperar. Mas o que eu espero? Não espero nada mais. E de onde vem a incessante vontade de seguir?

 

Seguir para onde? Para a casa da mãe, penso comigo mesma. Sim, talvez seja uma boa opção. Para a praia, talvez. Para meu refúgio, quem sabe. Pegar a bicicleta e dar aquela volta pelo bairro. Para a terrinha, talvez, para fazer compras e matar a saudade. Talvez: palavra e ordem do dia.

 

E me pedem respostas. Não me façam perguntas! As pessoas fazem perguntas demais!

 

Fiquei aqui vendo e ouvindo os aviôes levantarem vôo e pousarem… como se um pouco de minha alma fosse e chegasse com cada um deles… posso passar horas vendo os aviões nas suas idas e vindas.

 

O ar frio, o céu se abrindo e não tenho respostas. Tenho a mente fixa em pegar a estrada, novamente.

 

Não estou inquieta, nem ansiosa, nem espero resultados ou respostas.

 

Queria me esvaziar de mim para poder descansar. Me esvaziar de mim, talvez seja isso.

 

Me pedem coisas que eu não posso fazer. Respostas que eu não posso dar. Presenças que eu não posso oferecer.

 

Às vezes é preciso voltar para continuar, esvaziar para encher. Não responder para encontrar respostas.

 

E talvez uma pedalada hoje, uma praia e uma viagem amanhã resolvam tudo. Se não resolverem, certo que ajudarão.

 

 

O médico-escritor sincero

 

Ontem à noite eu lia um livro no sofá da sala, escrito por um médico. Antes dos contos propriamente ditos havia uma ou duas apresentações sobre o escritor estreante.

Foi quando me deparei com elogios rasgados à sinceridade dele, do autor.

 

Não conheço pessoalmente o médico-escritor para fazer comentários acerca da sinceridade dele, mas duvidei um tanto disso.

 

Realmente não imagino alguém receber elogios por ser sincero.

 

Sou adepta da sinceridade sem limites. Não sou a pessoa afável que encontra inúmeros eufemismos para as palavras duras ou que ao ser simpática com todos engole os pensamentos mais genuínos. Não sou assim dentro de casa, nem fora, nem com o companheiro, nem com os amigos, nem com estranhos.

 

Raramente ouvi sinceros (vejam só!) elogios à sinceridade que pratico. Raramente. E alguns deles não eram exatamente elogios, mas apenas constatações (com um tanto de reprovação) “você é muito sincera”.

 

Eis que me peguei pensando sobre isso durante a madrugada, efeito do tal médico sincero que recebia elogios de um amigo por isso! Sim, porque pensei, meus amigos não elogiam isso!

 

Tenho pensado nisso nas últimas semanas e o tal médico me fez matutar ainda mais.

 

Ninguém pode esperar de mim uma falsidade ou consentimento que burlem minha sinceridade. Então como meus amigos, os que já me conhecem a tempos, podem ficar insatisfeitos comigo justamente por isso?!

 

Eu, como boa pisciana, choro junto, como dou gargalhada junto e fico revoltada junto. Me junto aos sentimentos de quem está perto de mim. Não vejo um amigo bem e fico com inveja, na mesma hora fico bem junto, me alegro por ele e com ele.

 

Mas não me peçam para ser cúmplice das merdas que fazem. Nem me peçam para passar a mão na cabeça quando fizerem alguma coisa idiota (ainda mais quando eu insistentemente tentei ajudar evitando que a coisa fosse feita). Aí serei sincera e não acho isso ruim, nem doloroso.

 

Mas meus amigos (alguns deles), ultimamente, tem achado ruim a sinceridade. Acham que devo só ouvir e ficar calada, aceitar seus erros e ser cúmplice deles. Não farei isso. E isso não é demonstração de amizade. Nem nunca foi. Amigo não é só aquele que passa a mão na cabeça, esse está só esperando para te dar o bote na primeira oportunidade.

 

Porque é fácil encontrar um colega, um conhecido, um colega de trabalho – esses relacionamentos fortuitos e passageiros – que te apóie (supostamente) em tudo, que te incentive a fazer merda. Ele não se importa em te ver na pior. Nem vai te ajudar de verdade quando tudo der errado, esse será o primeiro a abandonar o barco.

 

Sinceridade não é fácil de praticar. E, eu sei, não é fácil ouvir. Não rende elogios nem abraços efusivos. Porém, tenha a certeza, só vem daquele que realmente quer o teu bem.

 

Enfim, talvez as pessoas não se preocupem com isso. Fiquei me perguntando se o tal médico-escritor era realmente sincero ou se era apenas um elogio falso. Acredito que ele pode ser, sim, uma pessoa sincera. Feliz dele que tem amigos que reconhecem o valor da sinceridade, acima do simpático tapinha nas costas.

 

 

Miséria intelectual

 

Eu ouvia de um professor de História do Ensino Médio que era preciso conhecer a História para não repetí-la. Talvez a maior verdade que eu tenha ouvido em todos os meus dezesseis anos de estudo formal.

 

A intelectualidade brasileira hoje está pobre. Não sei se vocês também sentem isso. Mas é tão latente que dói.

 

A pobreza consiste em não conseguir criar, se reinventar. Há apenas uma intelectualidade (que eu chamaria carinhosamente de pseudo-intelectualidade) que se restringe a levantar bandeiras e proclamar hinos do passado. Aquilo que era para ser renovador, instigante, inebriante se contenta em, acuado, proferir impropérios contra quem não pensa como eles (os tais “reaças” ou direitistas, segundo terminologia tão amada por eles). A intelectualidade chegou à miséria de cegamente não aceitar que há quem não pense como ela. Não aberta à críticas, à renovação, à dúvida, a nossa pobre intelectualidade se abraça fortemente ao inusitado nas artes e às páginas rançosas de uma duvidosa “esquerda” (não os questione sobre o significado disso), com teorias estagnadas e ultrapassadas (algumas já deram seu atestado de inconsistente logo após serem escritas).

 

O nobre nessa pobreza é citar o desconhecido, o pop, o que está mais na moda para, logo em seguida, largá-lo sem dó nem piedade pelo próximo revolucionário europeu com uma teoriazinha chinfrim sobre a tragédia que é a economia ocidental, ou sobre os dilemas da vida pós-pós-moderna, ou sobre algum novo “rizoma” reciclando conceitos de outras ciências.

 

Nesse cenário repulsivo, a pobreza intelectual encontrou um sentimento de culpa (talvez Freud explique) para esconder debaixo da cama sua ausência total de criatividade: abraçou a pobreza (aquela real, de falta de recursos, de falta de ter o que comer, de falta de esgoto, de falta de moradia, de violência, de marginalidade, de exclusão social, de falta de educação – a pobreza não voluntária que piora com o descaso da sociedade e dos governantes). Difícil entender o motivo dessa guinada na qual o intelectual – sempre uma figura afetada, nobre e inalcançável da nossa sociedade – parece querer reparar anos e anos (centenas deles) de indiferença pelo trabalhador pobre comum brasileiro. Tantos e tantos diplomados, doutorados, ricos, nascidos em berços de ouro que desconhecem o que é “não ter” (na prática, não me venham com aquele papo “mas eu conheço porque vi”, viram ali quando passaram pela frente e olhe lá). Dentro de suas salas com ar condicionado eles riem satisfeitos por terem elegido um partido de esquerda (?), por defenderem as questões ambientais, por terem uma mulher presidente, por saberem que existe o bolsa família. E, talvez, conheçam apenas isso mesmo. Nunca doaram um pacote de arroz, nem uma roupa que não usam mais. Talvez, quem sabe, o mais perto disso que eles tenham chegado foi quando a mãe pegou uma roupa velha deles e deu para a empregada levar para o filho.

 

Eles disfarçam a total falta de competência e criatividade balançando profusamente bandeiras na nossa frente. São tantas bandeiras… logo virão outras. Foi-se o tempo dos bons intelectuais. Tanto os intelectuais que conheciam e tratavam a realidade (inclusive a da pobreza real das nossas ruas) quanto os que viviam nas suas masmorras alheios a tudo com apenas suas idéias na cabeça. Ficamos órfãos dos bons pensamentos e dos bons pensadores. Hoje nos dão muitos mais letrados, “doutores” (nunca antes na nossa História houve tantas pessoas diplomadas), e tão raro ou inexistente pensadores.

 

Tudo isso me fez lembrar do filme O Gatopardo. Burt Lancaster, gostoso e maravilhoso como sempre, no meio da revolução italiana, sereno diante dos revoltosos que destituíam a nobreza (à qual ele pertencia), diz que os pobres que ali se insurgiam queriam exatamente o que a nobreza era: queriam ser ricos. Não havia uma procura pela igualdade, pela superação das diferenças. A pobreza queria destituir a nobreza para apoderar-se do que eles tinham. Não há um desejo nobre nisso. É o que se vê aqui mesmo com o que os economistas e intelectuais chamam de ascenção da classe C ou coisa parecida. Criticam os que sempre tiveram (como a maioria dos nossos intelectuais), mas é justamente isso que eles querem: ter. Onde há justiça social nisso? Pois para eles terem, alguém há de não ter. O que me lembra Primo Levi: para eu estar vivo hoje, alguém teve que morrer. Para a classe C hoje ascender à B ou à A, alguém tem que estar na C. Será que eles pensam nisso? Ou realmente temos ainda resquícios dos filósofos utópicos que defenderão que há uma real possibilidade de todos terem oportunidades e chances iguais? Teremos um mundo com sete bilhões de pessoas ricas, é isso? Posso parecer pessimista, mas duvido que veremos isso. Talvez porque além de achar o estudo da filosofia importantíssimo, valorizo ainda mais conhecer a História. Duvido porque aprendi que não tem como ser assim.

 

Ou o mundo terá sete bilhões de ricos e milhares de intelectuais pobres. Enfim, o dinheiro, o capital, vítima da crítica voraz da maioria desses intelectuais terá ele sim ascendido à nobre posição do valor comum? Já não importam outros valores, apenas o dinheiro.

 

Quem sabe o intelectual sempre se veja no seu pedestal já desde cedo e tenha declinado de assistir algumas aulas, como as de História. Lembro de um excelente professor no curso de Filosofia que sempre fazia questão de começar a aula contextualizando a época, os conflitos, os regimes, do pensador que ele iria apresentar. Muitos alunos ali (sim, esses que hoje são “intelectuais”) torciam o nariz. Uma chegou mesmo a fazer um comentário desprezando a metodologia do, este sim intelectual, professor. A resposta? Uma piada irônica qualquer. Ele não perderia tempo com estes intelectuais sobre seus pedestais com ar condicionado e amarras de ouro.

 

Quem sabe o intelectual tenha desaprendido a essência do conhecimento: questionar.

 

 

Amar no tédio

 

Há quem traia e como diz a música “quem trai, trai a si mesmo”. Há quem não entenda, há quem nunca entenderá.

Há de tudo nesse mundo e Deus ou o deus dos ateus ouve cada coisa!

E as mulheres e os homens todos erram e não aprendem com seus erros. Repetem seus erros sem conhecer sua história. Enfim, esses nem têm história.

 

O amor também precisa existir no tédio, pois a vida é um tédio.

 

Se esse tal amor você só sente quando está “tudo lindo maravilhoso” (também como diz a música) ou no outro extremo quando a queda e o fim são inevitáveis e surge aquele valor imensurável que só se dá quando sabemos que podemos perder, você não ama.

Amar no tédio é essencial, já faz, assim, parte do amor.

Porque a vida é tédio, o sol nascer e se pôr todos os dias é a mãe de todos os tédios.

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