Palhaços

Queria chegar e segurar tua mão. Mas não sou boa com essas coisas. Mais fácil eu chegar fazendo uma piadinha sem graça, ou infame. Queria parecer genial, como tanta gente tenta ser, pra te fazer cair o queixo. Mas acho que só sei fazer rir. Um dia meu pai disse que sou muito palhaça, se eu não der em nada na vida, já tenho uma opção – eu, que tenho pavor de palhaços. Detesto palhaços num nível de querer matá-los, tipo vaca. Sim, também tenho pavor de vacas. Sabe aquelas moças todas cheias de si, com as palavras certas, as melhores selfies? Não sou dessas. Um dia publiquei uma foto minha com uma panela na cabeça – sim, tipo Menino Maluquinho. É que volta e meia faço isso na cozinha e minha mãe se ataca de rir, achei que a foto ficaria boa.

Minha mãe é muito indulgente comigo, eu sei. E não se preocupou em criar uma mocinha certinha e delicada – nem sei se alguma insistência dela serviria de algo. Minha mãe ri das minhas palhaçadas – e cai nas minhas pegadinhas, o que mantém nosso cotidiano num divertimento sem fim. Não sou nem de passar rímel, blush e batom (difícil saber o nome de mais alguma coisa dessas de maquiagem). Sou cara lavada pra vida. Sou cara lavada para os sentimentos. Nunca precisei de intermediário nessa coisa de encarar os outros e as situações. E, até o momento, tenho me dado bem. Considero toda fraqueza alienável. Fraqueza a gente só deve assumir para as paredes do quarto, a portas fechadas.

Num Natal, ganhei de amigo secreto do namorado uma furadeira. E era o que eu tinha pedido. Esses dias quebrei a serra-copo. Quando contei pro meu pai, ele disse que serra-copo nunca quebra. Pois é. Respondi que essas peças são feitas para homens, e homem não usa força, né. Meu pai riu. Gosto de fazer os outros rirem. Talvez seja uma missão na vida. Queria te fazer rir, mas isso eu nem preciso querer. Queria sentar bonitinha, com ar de mistério, olhar inteligente. Mas ficar parada me dá tédio. Um banho de chuva parece mais interessante, não?

Queria ter respostas sempre certas. Ser aquela que impressiona à primeira vista. Mas o que eu gosto mesmo é de passar despercebida. Entrar muda e sair calada. Ficar cá com meus pensamentos. A gente escolhe ser anti-social. A gente escolhe ser sozinha. A gente prefere não dividir o fardo. A gente não quer dar sem receber. Ontem o cara me perguntou “Você é arquiteta? Porque arquiteto que gosta tudo diferente, que não é só de chegar e copiar, fazer igual ao que todo mundo faz e exige que o trabalho fique perfeito nos mínimos detalhes.” – pois, não, não sou arquiteta, minha irmã é. Ah, fazer igual a todo mundo… que grande perda de tempo na vida. Sabe, quando criança tive dois apelidos: “a diferente” e Faísca (este foi meu avô que deu porque, bem, eu falei do tédio de ficar parada…).

Queria ser essas coisas que é o que todos esperam de mim. Só por um dia. Aí, o horror me provaria que eu jamais poderia ser essa outra pessoa. Não direi o que se espera de mim. Não serei querida e simpática. Não pegarei na tua mão. Só quando eu tiver quintas intenções. Na verdade, se quiser me domar, nem perto eu passarei de ti. Outros já tiveram essa esperança – até hoje lambem as feridas. Não se brinca com fogo. Mas eu já incendiei meu pijama de seda ao fazer pipoca de madrugada e semana passada queimei meu roupão ao esquentar a sopa da janta. Eu, que só uso fogo por necessidade – mas não temos uma boa relação.

Acho bonita essa gente que anda por aí sendo tudo o que esperam delas. Acho bonito até aqueles que precisam ser, para os outros, quem não são. Deve ser alguma necessidade psicológica, alguma consciência pesada. A gente aprende a apreciar como os outros se auto enganam. Pena que disso eu não consigo fazer piada. (talvez só disso) Fiz piada até do choque que levei antes de ontem ao desligar o aquecedor da tomada. Detesto energia elétrica, também. Mas a vida é assim, a gente às vezes tem que conviver com o que detesta – tipo eu com a energia elétrica, as vacas, os palhaços e o fogo.

Difícil mesmo nessa vida é ser quem se é. Nada mais o é – quem diz o contrário, é pura encenação, não dêem crédito. Às vezes eu fico sem assunto, faço cara de abobalhada, fico divagando quando deveria prestar atenção, cruzo e descruzo as pernas por descontração. Toda noite deito minha cabeça em paz no travesseiro. Nunca entro numa calça que já não me serve mais. Mas só vou largar tudo na vida pra virar palhaça quando os palhaços deixarem de ser… palhaços.

Mimada

Saudosista eu sou e não é nenhuma novidade. Mas não estou mesmo sabendo lidar com o Outono. Li esses dias uma entrevista de um escritor e ex-professor meu na qual ele fazia elegias à estação do sol ameno. Alguns fotógrafos elogiam o dourado do sol. E o frio invernal que fez neste final de Outono só me deixou uma saudade dolorosa do mar.

Lembra quando fez dias de calor absurdo, justo no meio do Outono? Ah! Foi numa terça-feira, cheguei na praia e corri pro mar. O mar em dias de impaciência, a lua nascendo naquele final de tarde. Foi meu último banho de mar deste ano. Do lado esquerdo, um pouco distante na pequena praia, um grupo de adolescentes. Um casal de idosos caminhava na areia. Do lado direito um homem. Evitei-o pelo instinto feminino de auto-proteção. Fiquei ali a rolar-me na água feliz feito qualquer um que é feliz por estar onde quer.

O homem volta e meia olhava pra mim. E eu também olhava disfarçadamente pra não ser levada pela correnteza que ia em direção a ele: se bobeasse cairia nos braços dele, desses micos não morro. Fiquei pensando, por um instante, que desenvolvi essa auto-proteção em demasia. Preciso baixar a guarda, mas, queridos, experiências ruins não nos deixam de um dia para o outro. Eis que ele saiu nadando e eu admirei as boas braçadas dele. Há três coisas que gosto num homem: saber nadar, saber dançar e ser alto. E é saber nadar, não é espanar a água. Sou exigente, claro. Saber dançar, não zumba e axé (há traumas que jamais nos deixam!), como antigamente, lembra a cena da Aurora em Senhora? Coisa de amores do século passado, como diria Glauber. E, bem, ser alto não deve ter explicação (e é só uma constatação). O moço nadava bem. A cada volta que ele dava eu observava, quando ele descansava eu fazia de conta que não o via. Também observava o casal idoso a conversar tão entretido enquanto sorriam para o mar e caminhavam. E o grupo de adolescentes barulhentos me fez lamentar não ter vivido o ano inteiro dos meus tempos de adolescência à beira-mar. Foi uma belíssima terça-feira.

Diante daquelas tão bem executadas braçadas decidi que poderia, quem sabe, até apaixonar-me novamente. Talvez nem precise esperar a Primavera. Aquele calor foi embora. Um frio intenso, desanimador, infernal (pois o inferno há de ser gélido – e cheio de crianças mal educadas) chegou e não quis mais ir embora. Apesar de tão feliz, não dessas felicidades de ganhar na mega, comprar carro, apartamento, noivar ou casar, engravidar, sinto uma falta tão grande do calor. Depois daquele dia voltei algumas vezes à praia, mas não encontrei mais o nadador. O frio nos afasta do mar, deve ser meu maior desgosto com ele.

Fiquei mal acostumada. Mimada pelo sol e calor. Mimada pelos banhos de mar. Mesmerizada pelo horizonte. Mimada pelas manhãs silenciosas lendo na varanda. Mal acostumada em ver os corpos à beira-mar, o nascer do sol e os barcos de pesca voltando cedo cheios de sororocas e camarões frescos para o almoço. Me diz como voltar às quatro cobertas na cama, ao aquecedor ligado dia e noite, às pantufas, às blusas de lã, ao secador de cabelo, aos banhos escaldantes, ao fondue e ao nescau quente pela manhã?

Sou saudosista, bem se vê. Sou mimada por tudo aquilo que aquece o coração. Sou feliz por ter quem eu quero, onde eu quero – e por lutar pra dar conta de tudo sem reclamar. Faltou alguma coisa, alguma leve transição pra eu aceitar que o Verão acabou. Talvez porque ele nunca acaba nos meus olhos. Dizem que lá vem o Inverno… eu não consegui nem chegar ao Outono, que sol me aquecerá, que mar me embalará? Não há saudade que baste.

Antes do veranico

Aquelas coisas da vida. No meio da madrugada um sonho me convenceu a resgatar um projeto adormecido – e decidi transpor o sonho num conto, apesar do pouco correto que ele parecerá. Aí logo pela manhã separei aqui as anotações do projeto. Confesso que sempre me surpreendo com minhas anotações. É tão bom esquecer! A gente vive revivendo. Se terei sucesso? Bem, demoraremos a saber.

Pensei logo em escrever. Mas sobre qualquer outra coisa. E não sobre as atrocidades da vida. Essas eu deixo para 140 caracteres. Por enquanto. Bem, vim decidida ao editor de texto para falar de alguma coisa séria e interessante. Talvez não tão séria, mas certeza que interessante. E enquanto carregava o programa…

O plano de fundo do desktop é um compilado de fotografias que mudam de tanto em tanto tempo. Pois nestes míseros segundos de espera lá estava eu deitada em mar esplêndido. O sol brilhava, a água estava na temperatura maravilhosa, era Verão. Eu jazia largada, olhos fechados, alheia ao mundo e aos meus pensamentos. Sem planos, quase sem roupa, sem pretensões. Mais importante de tudo: sem desejos além do de ali permanecer. E permaneci. Deixei até de comer para ficar ali boiando infinitamente ao carinho da maré. Talvez minha demora e meu desligamento, tenham inspirado o fotógrafo a me eternizar naquele momento. Fotógrafos têm razões suspeitas.

Gosto das Estações. Do frio, quem sabe. O fogão a lenha, os moletons e blusas de lã. Ah, as cobertas! Pantufas, claro. Nem o frio me faz gostar de calças, porém. E meias que servem pra nada. O barulhinho da chuva (desde que não a longo prazo). Ver o frio na Serra. Não gosto de sentir frio, de jeito nenhum, pois só quem já passou frio sabe do que estou falando. O frio dói. Um chá quentinho. E a preguiça, porque não há frio digno sem ela! O céu límpido num dia gelado, as cores mutantes das árvores.

Em especial a festa junina. Pinhão assado e cozido, milho cozido, pipoca, canjica, quentão, paçoca (de rolha!), pé de moleque, maria-mole. Em boa companhia, claro. As más companhias jamais, em Estação nenhuma. Uma feijoada, hein? Um cozido preparado no fogão à lenha. Sentar ali e ver a chuva respingar no jardim enquanto o aipim e o inhame cozinham. Talvez ver a vida assim mais de longe. Já fui acusada de tanta coisa nessa vida, até de não gostar do frio. Nem de casamento. Essas coisas. Mas se a vida não é a gente rebolar ao sabor da música, então ainda não aprendi nada.

Meus pés sempre gelados não me impedem de ver a beleza do momento. Fecho por um momento o programa. Não tem mais a minha foto flutuando no mar. Tem a gata com o chapéu de papai noel. Bateu aquela saudade do Natal? Claro. Adoro Natal. E entre o frio de hoje e as alegrias de fim de ano, meu coração palpita mesmo pela luz do sol a me abençoar em serenidade… a dispensar as lógicas e cruezas da vida. A deitar-me simplesmente no inescrutável vazio do mar. Jamais negarei isso. Talvez, se vivesse isso todo dia, enjoasse. Não me garanto com certezas, então…

Enquanto o Verão não voltar, comerei pinhões até não mais poder. É agora que a gente engorda pra emagrecer tudo correndo na areia e espanando água nas deliciosas braçadas, né? E quando a pele amorenar e o cabelo espigar e a terra secar e o corpo cansar virá aquela chuva de final de tarde pra gente matar a saudade do moletom com cobertor e pipoca em frente a TV. Quem sabe aí um veranico em agosto? Ponho fé.

E se viver não é essa sucessão de esperanças e lembranças, não sei o que fazer. Prometo que voltarei com o que é sério e interessante.

A partir de hoje

Agora é a vez do tempo. É declarar Carnaval o ano inteiro até o fim do milênio. É rever o mapa da vida, revivê-la todinha e jogar os dados, apostar na roleta e seguir caminho sem volta. É carregar o único peso da mala entulhada de sonhos – aqueles tão antigos, os novinhos em folha e os favoritos: os impossíveis. É rebater sorriso no espelho, encontrar manchas na pele, nem lembrar do que foi uma ou outra cicatriz.

Agora é a vez do tempo. É pedir a benção e agradecer e afirmar “eu creio”. O passado começa agora: e é tão mais fácil viver. É nunca mais não querer ter por medo de perder. É perscrutar cada canto em busca do que deixou pra trás. É conhecer o gosto do veneno do demais e a anemia do de menos. É abusar do risco – mas só os pequenos. É ansiar, tremer, chorar, insoniar, resmungar só se for charme.

Agora… agora digo que é a vez do tempo. A partir de hoje, se eu quiser, ele passará voando. Se for do meu gosto, ele cairá feito garoa. Se me der vontade, num estalo poderei pará-lo. Só se chega aqui sem esquecer de si. A gente é o que é, não a carcaça, o mundo de fora, é o que tem lá onde a alma aflora. Pra quem chega até aqui e tem coisa diferente para dizer de si, perde o trem e nunca será a vez do tempo.

Agora a viagem é no e com o tempo. Posso mudar de fantasia todos os dias. Darei a roupa do corpo se perder no jogo, atirarei as moedas aos céus se quebrar a banca. Que venha o tempo, nele eu confio que cuidará de mim com zelo.

Dias ruins

A parte boa dos dias ruins é que eles não duram pra sempre. Pode, ou não, haver a disposição de encará-los de frente, como: vou ser feliz, me entendeu? Ou podemos apenas tentar colocar a cabeça no lugar, os sentimentos em ordem e distrair com seja lá o que for. Às vezes, desejo escrever sobre o que sinto. Não o faço porque já passei da idade de acreditar que alguém se importa de verdade com os sentimentos alheios. Qual é essa idade? Não sei, certeza que não se trata de um número aleatório calculado pela data de nascimento. É a partir de um ponto na vida, de uma carga de experiências, que você entende o valor do silêncio acerca do lhe passa pelo coração. Ninguém se importa e trazer os sentimentos à tona só é chato e ridículo. Não que não devamos tê-los, longe disso. Mas é imprescindível saber conviver com os próprios sentimentos, sem que precise externá-los a ninguém. É só uma teoria? Talvez. Uma teoria que funciona na prática.

Nesses dias ruins, me pego pensando: o que faz alguém que não tem um quintal nessas horas difíceis? Joga vídeo-game, oras. Bem, eu não tenho vídeo-game e acho plausível que alguns tenham esta válvula de escape. O que fazem aqueles que não apreciam um bom chá para clarear a mente e confortar o corpo, quando as notícias não causam boas sensações? E os que não se encantam com um incenso aceso para liberar os pensamentos das coisas ruins? Vão ao shopping, talvez. Fazem hora extra no trabalho, quem sabe. Desde que cada um saiba identificar quando está num dia ruim e o que deve fazer para passar por ele sem muitos danos – e de preferência com ganhos – tudo ficará bem. Mas há quem não enxerga nada e por isso, também, não faz nada para melhorar. E há quem não se conheça o suficiente para saber no que deve mergulhar para não se afogar.

Ou, ainda, quando você sabe que só conseguirá passar pela turbulência ao ouvir as suas músicas favoritas para estes momentos. E aí parei pra pensar que há quem não ouve nenhum ruído deste mundo, nem a música. A estabilidade de uma vida com tudo “perfeito”, com saúde, braços, pernas, sentidos nos cega. É como viver todos os dias da vida sem nunca pensar que num instante podemos perder tudo e todos que amamos. Assim, num vapt. Porque quando der o vupt já será hora de lamentar não ter se prevenido do que poderia acontecer. Dizem que é sair da sua zona de conforto, essa vidinha cheia de pleonasmo que a gente leva e fica deitando e levantando todo dia da cama. E preparar-se para os dias ruins – dando aquele tempo pra cuidar do jardim, jogar vídeo-game, tomar um chá, estourar o cartão de crédito – é contornar de antemão os danos a si e aos outros.

Nesses dias ruins, até aquele livro adorável que estou lendo, que me fez enxergar e estudar tanta coisa, está acabando. Nas últimas páginas… no último conto, e eu faço como quando estamos comendo algo muuuuito gostoso, começamos pelas bordas, vamos comendo devagar, para prolongar o prazer. Eu não quero que o livro acabe. Não agora que talvez eu esteja num desses dias ruins. Então me delicio aos pouquinhos. Bem, isso só vale para o tipo de pessoa que gosta de histórias que os livros contam e, também, que não vai com toda sede ao pote – porque sabe que a vida é assim gostosa e bonita porque foi feita pra ser apreciada, e não engolida de uma vez sem sentir o gosto. As teorias nunca valem pra todo mundo, vejam só.

Se os dias ruins não duram pra sempre, os bons também não. E é essa balança que nos fideliza na experiência. Há quem se iluda. Há quem idealize tudo e todos. Há quem se engane. Há quem fuja. Na minha teoria, a vida foi feita pra ser encarada de frente. Vai arranhando, vai tirando pedaço, vai deixando saudade, vai sorrindo, vai surpreendendo, vai arrancando e brotando. Olhar de soslaio pra vida, ou de óculos escuros, ou por cima dela, é coisa daquelas pessoas que nos dias ruins nunca sabem que é hora de parar pra jogar vídeo-game, assistir a um filme, podar umas árvores, pegar a estrada, dar um mergulho no mar ou, sei lá, tomar um banho de chuva. Depois podemos até voltar, mas só depois.

Sem motivo

Quem dera fosse o espírito natalino. Quem dera fosse um peso na consciência sobre, sei lá, qualquer coisa. Quem dera fosse uma lista das últimas aventuras. Quem dera o motivo para escrever hoje fosse qualquer coisa boa que deixasse as pessoas de cara (ainda usam a expressão ou sou muito antiquada?) como a minha vida é fascinante.

Pois isso nunca desejei. Pois faz tempo guardo minha vida a sete chaves porque, bem, as pessoas não têm bons sentimentos. Pois depois de mais de mês volto a escrever aqui sem motivo algum.

Esses dias me peguei apreensiva e um tanto triste ao me deparar com escolhas alheias. Disse cá pra mim que eu preciso – com urgência – parar de ficar assim, pois as escolhas são dos outros. E nem afetam minha vida. Mas digo-lhes que minha experiência e meus pensamentos me impedem. Vejo as pessoas fazerem certas coisas e, oh, Lord, fico muito apreensiva. Pelas dificuldades que enfrentarão, porque não estavam sob juízo perfeito ao tomar certas decisões, porque seguem a boiada e não refletem. Sim, sim, quanta arrogância, certo?

E aí cheguei a duas conclusões quase epifânicas. Sou arrogante. Desconfio disso faz tempo demais. Eu não só pareço arrogante, eu sou. Aparentemente, lido bem com tal defeito. A arrogância de achar que sei mais que os outros – é o principal sintoma. Decorre, claro está, de uma velhice precoce que a vida, esta querida, me impôs. A gente fica velho antes da hora porque a vida antecipa uns capítulos e aí pula outros, fica uma loucura, e a cabeça, ah! a cabeça tem que dar jeito em tudo – os que dão jeito, envelhecem, os que não, perecem pelo caminho. Não pereci. Não tombei. Não ganhei todas as batalhas, mas sobrevivi. E aí, nessas guerras da vida, eu aprendi que o grande trunfo de todos os vencedores é saber quando retroceder. Calma, este é outro assunto.

A segunda, então, foi mais acachapante. Foi do nada que me dei conta. Estava pensando em uma situação (vida alheia com a qual não tenho nada a ver) e me ouvi (cá com meus botões) dizendo resignada “que sejam felizes”. É uma expressão que eu uso porque, afinal de contas, é só o que importa na vida – e não importa o jeito que ela estiver, dá pra ser feliz. No momento que eu disse isso me ocorreu uma lembrança. Eu digo isso já faz um tempo e nunca havia dito em situações iguais a qual me referi desta vez – não irei, de jeito nenhum, revelar qual era a tal situação. Meu normal é criticar, meter o pau, partir pra arrogância de achar que quem está na situação está fazendo uma grande burrada sem perceber. E, desta vez, só me saí com o “sejam felizes”. Porém, na mesma situação, com outras vidas alheias, uma pessoa que eu conheço sempre disse “sejam felizes”. Eis que esta pessoa sempre demonstrou uma sabedoria que eu, do alto da minha querida arrogância, nunca percebi.

Esta pessoa é daquelas que nunca deseja o mal a ninguém, que nunca fez mal a ninguém, que nunca me deixou nem de brincadeira falar algo de ruim pra quem quer que fosse. (ps: as pessoas, porém, em quase nada retribuíram isso, viu) A tal situação, evidentemente ruim para as pessoas envolvidas, em nada pode ser mudada por mim – portanto, só me resta, sabiamente, desejar que, dentre tudo de ruim que elas vão enfrentar, consigam de algum jeito ser feliz.

Mandar à merda é uma expressão que eu guardo com zelo (desculpem aí a baixeza). Uso-a muito de vez em quando e só em momentos de extraordinário descontrole. Mas, vejam só, diante de uma situação, eu olho ou penso na pessoa e chego à conclusão que a pessoa já está na merda, com uma vida de merda, num relacionamento de merda (ou na merda por estar sem um), faz escolhas de merda, num emprego de merda – mandar à merda não faz sentido, e não desejo nada, nem de bom nem de ruim, à pessoa. Ao contrário do caso acima, no qual eu desejo que encontrem pelo menos algo de bom, aqui me é indiferente.

E esta era a falta de motivo. Sinto um cansaço enorme das mesmas coisas que vejo todos os dias. Vocês aí publicando como são felizes, comemorando sempre as mesmas coisas, divulgando coisas que vocês acham que vão salvar o mundo e o planeta, se entupindo de frases de efeito e de auto-ajuda – tudo regado com muita foto desfocada e imagens fofinhas. Ah, sim, é fim de ano, então abundam, também, as fotos-comprovantes de que agora, só por agora, vocês foram lá fazer uma boa ação por alguém (invariavelmente crianças ou animais – cachorros e, no máximo, gatos). Sei lá se é pra chegar dia 31 com a consciência limpa ou porque é o espaço que há antes das fotos na praia e na piscina. Enquanto isso, passam o ano todo desejando – mesmo que só no pensamento – coisas ruins a torto e a direito.

Não comentei que um dos motivos de tamanha arrogância é que sempre fui muito crítica – antes mesmo de eu saber o que era isso. Ficava matutando demais sobre as coisas, é sempre horrível. As professoras da escola odiavam meu alto índice de críticas, meu pai vive apavorado com isso, não há homem que resista. Eu gosto de críticas. Vivo bem com elas. E adotei a prática da auto-crítica (não foi conselho de psicólogo). Sou carrasco de mim. Claro, não espero que todo mundo seja assim, mas, convenhamos, como faltam pessoas que pratiquem a auto-crítica! Faltam espelhos para tanto ego inflado. São esses que só vêem o mundo, não conseguem se ver nele. Junto à arrogância vem um brinde: o desprezo.

Vou cantar aquela música do tédio com um T bem grande pra vocês agora que as vidas alheias me despertam muito mais desprezo (e, em certos casos, nojo). Enquanto isso, os inocentes vítimas dos amores de alcova, os heróicos desbravadores dos caminhos tortuosos, os honrados homens e mulheres que não mancham suas escolhas, os ingênuos de corações aflitos, os que têm fé e os que acreditam em algo ou alguém terão o direito de ser feliz, entre uma tempestade e outra, e desejo que não percam as coisas boas que trazem no coração.

Não quis nenhum motivo para escrever e juro que não economizei na arrogância.

De onde a chuva me faz refém dos meus sonhos e pesadelos

A Stendhal, Tchecov e ao leitor (des)conhecido:

Esses dias fui tomada pela ânsia de dizer a você, Stendhal, como os 28 fazem diferença. Como é tão diferente amar aos 16 do que amar aos 28. Dias depois voltei ao começo: já terei amado? Alguém tão leviana, impulsiva, apaixonada, pode amar? Não sei. Estive, sim, ocupada com mil compromissos e problemas, cheguei às raias da rispidez e extrapolei a impaciência – e, por vezes, me peguei pensando, nos breves minutos que meus olhos permaneciam abertos quando deitava minha cabeça no travesseiro, nos porquês do coração. Devo lhe dizer, caro amigo, que aprendi mais com você do que com meus raros relacionamentos. Pensamos tão igual sobre o amor! Pretensão minha, é claro. Você é um estudioso, teórico e praticante do tema e eu… eu não chego a ser simples iniciante – quando muito. Deveria escrever ao Goethe, também, para pôr um fim a minha obsessão por ele – e por tentar recontar a história do nosso amado Werther, se não com Charlotte, enfim, na vida. E é aí que entra meu amantíssimo Tchecov, pois ficar só falando de mim seria mais que enfadonho. Tchecov apaixonou-me em poucas linhas. Tchecov falava da vida de um jeito… como a vida é. Lembro de ter passado algumas horas com ele, em longas noites na varanda, com nós na garganta. Nunca fiquei tanto tempo imersa nas histórias – nem antes de conhecê-lo, nem depois. Em Tchecov não havia finais. Mas havia ponto final para todas as histórias. E eu chegava ali no ponto final, me sentia mal, abraçava o livro e olhava para algum lugar no meio do nada. Um dia, pouco tempo depois, supus, novamente, estar apaixonada. Eu que sempre dissera “não perder tempo” com essas coisas. Estava lá pensando demais em uma pessoa, sendo conquistada por longas conversas. Mas… havia algo que eu não sabia dizer. Quando encontrei-o pessoalmente, emprestei o livro do Tchecov – não é um hábito meu emprestar livros, que fique claro, mas o ato em si queria demonstrar algo sem nem mesmo eu saber. Descobri tarde demais que meus atos sempre querem dizer algo – que normalmente eu desconheço. Acredito que o livro fez diferença para ele, e eu pude discorrer horas seguidas numa euforia entusiástica sobre minhas teorias. Se foi amor? Não sei. Já tinha pra mim, desde aquela época, que se é amor dura, e se não dura é porque não foi amor – outras influências, eu sei. Hoje talvez eu pense diferente. Sim, amigos, eu mudo minhas idéias, concepções e teorias. Mas, infelizmente, em algumas coisas eu não mudei nada… nada. E até acredito que é isso que me faz escrever hoje. Voltando à história, o amor acabou, o amor virou alguma espécie de violência obsessiva da parte dele, de indiferença da minha parte e… ele usou Tchecov contra mim! Eu deveria, portanto, nunca mais indicar meus gostos, preferências, leituras e músicas, para que não pudessem, em algum momento, usá-las contra mim. Não é mesmo? Mas sou péssima aluna da vida. Tanto tempo se passou e vi Tchecov com outros olhos por questões profissionais e de estudo. De resto, nada mudou. Suas histórias, Tchecov, não têm finais… mas têm, sempre, o último ponto final. Como já disse tanto, eu gosto dos fins, gosto de pôr o ponto final no seu devido lugar. Porém, ninguém nunca me ouviu falar que eu sei fazer isso bem, ou que não dói, ou… que, sei lá. A carta começa a parecer meio vaga, não? Imaginem minha pretensão de escrever tanta bobagem para dois mestres das letras e da vida. Pois, saibam, que a regra sobre não escrever quando se está confusa é muito válida – e eu deveria usá-la mais.

Não sei se já amei – não sei se amo. Poderia partir para o clichê “mas sinto tanto!”. Sinto, é verdade, o que não pode ser traduzido em palavras. Confesso só para vocês que as possibilidades de manipulação pela escrita me assustam deveras. Palavras nunca são sinceras. Palavras nunca dizem tudo. Vejam só, quero viver da escrita e não confio nas palavras. Podemos, então, partir para os meus defeitos. Não confio. Algo, lá atrás, quebrou minha confiança – não em algo ou alguém, mas o sentimento de confiança – e eu nunca consegui reavê-la. E quanta dor isso me causa – só eu sei. Às vezes, eu só queria confiar um pouco que fosse… em mim, no que eu faço, em alguém, em alguma coisa. Não consigo. Eis a causa de tantos dissabores e atitudes infelizes da minha parte. Sou apaixonada, e paixão nós sabemos como é. A paixão destrói. A paixão consome. A paixão possui. A paixão não constrói um lar, não dá de comer, não tem um longo caminho pela frente. Eu sei, eu sei… me desculpe pelo resumo tão pobre, Stendhal. Mas, veja só, se os 28 já chegaram, por que a paixão não foi embora? Por que atraio justo por aquilo que mais me afasta das pessoas? Quis escrever, dias atrás, para dizer que eu desconfiava que tinha mudado. Que eu sabia ser mais despojada da minha imaginação traiçoeira, que eu havia me desapegado das exigências, que eu não era, imaginem!, mais tão sanguessuga. Eis que nada mudou. Eis que devo só amargar (sim, eis a exatidão) meus desalentos, minhas atitudes impensadas e, ah!, minhas frustrações. Não conheço ninguém que seja tão débil a lidar com elas como eu. Nunca quis que me prometessem a lua ou coisa que o valha, acharia até meio meloso. As frustrações vêm da falta que os gestos podem fazer – pois só eles dizem tudo o que palavra alguma poderia. Os gestos! Ah, Stendhal, me diverti tanto com suas histórias! O que o amor – ou qualquer das suas dúvidas – nos faz fazer! Ah, Tchecov… o amor nunca tem final. Lembrei de ti justamente porque pensei que você adoraria o site dos 140 caracteres. Imaginei-te um gênio dos começos, meios e finais em tão poucas letras e espaços. Pois é por uma dessas que você é tão comentado e estudado. Quantos amores começam e terminam em 140 caracteres? Nas suas mãos, muitos. Na vida? Ah, a vida tem lá suas complicações. Ou, como diria um ex-leitor meu, nós é que a complicamos. Sem fins, estou certa, se não complicam, pelo menos ficam muito complexas. Demais, até, para alguém como eu. Admiro as pessoas resolutas, as que sabem o que querem, as que tomam as rédeas dos próprios sentimentos, as que resolvem suas frustrações com o suicídio. Admiro-as, sinceramente. Já tentei ser assim, sabiam? Fracassei. Sou um fracasso até para querer dizer o que (acho) que sinto. Porque não acredito que alguém pense que as idéias, o trabalho, os estudos tomem todo o meu tempo. Jamais. Como diria uma (que eu acho que ainda é) amiga, sou zen só na superfície, por dentro sou mar revolto. E a tempestade não passa.

Os 28 fizeram diferença em eu me dispor a voltar a… amar. Porque sou sempre pega de surpresa e, como lema leminskiano, tenho esse pacto com o Destino, o que pintar eu assino. Talvez eles tenham apenas me ajudado a abrir os olhos e perceber que só coleciono fracassos. Sobre aquele que eu emprestei o teu livro, Tchecov, quando eu não sabia o que sentia (apesar de desconfiar que sentia algo) eu me disse várias vezes “se não for um grande erro, será o maior acerto”. Porque eu já tinha a convicção de que amar não era coisa pra mim. E não é, né? Só se eu fosse muito estúpida para continuar tentando e prejudicando os outros. Não há “maior acerto”. E sobre os erros, “grande” deve ser pouco. Eu sei que prejudiquei e até fiz mal (dentre os voluntários e involuntários) a certas pessoas. Sei que é isso que pensam de mim e o que sentem. É que poucas pessoas têm um instinto de auto-preservação tão alerta quanto o meu. Ou, até, poucas pessoas querem tanto aprender o que é amar – e, de fato, não conheço ninguém que tenha a confiança quebrada para sempre. Vocês devem conhecer o Glauber, outro amigo meu, e numa madrugada tensa e difícil ele me fez companhia. Numa carta que ele escreveu a alguém (não lembro, sou péssima nessas coisas) também tomei a pretensão de ver meus pensamentos na cabeça dele. Dizia ele “vou estudar, escrever e namorar” – e, pensei, quero mais da vida? E aí ele passava as seis linhas seguintes comentando que não era nenhum Apolo ou Don Juan (repararam nas nossas semelhanças?), e entre as três coisas, namorar é o mais difícil para alguém tímido, que não goste de “mocinhas frívolas”, que prefira as cultas e inteligentes e despreze os flertes baratos e passageiros. Me digam se não saltei da cadeira numa euforia assustadora e gritei pra mim: é isso, é isso! Por fim, ele diz querer amar como no século passado “romance ardente e perigoso”. Seria o amor algo tão sem graça e sem perigos? Eis nossa falta de comunhão?

O que me falta de amor, transborda da companhia de vocês. Eu tento ser uma aluna aplicada – só aqui na teoria. Eu espero do amor tudo aquilo que parece não ser da alçada dele. Só me resta não machucar mais ninguém. Eu, me machucar? Ah, posso não ter aprendido muita coisa nessa vida, mas quanto a lidar com minhas dores eu me viro. E agora quero encerrar pois não disse nada e quero dizer, ainda, tanta coisa… só sei, queridos, que finais sem fins me deixam desnorteada. Só sei que minhas atitudes não têm sido boas. E faço com a vida, no momento, o que fazia com os contos do Tchecov: abraço-a e fico com o olhar perdido no nada.

De onde a chuva me faz refém dos meus sonhos e pesadelos, daquela varanda nossa conhecida, de quem desconfia do mundo e das palavras, Fahya.

As mãos

Tamborilava as mãos sobre qualquer superfície como expressão da carência que sentia. Passava as mãos por corrimãos de escadas, espaldares de cadeiras, puxadores de gavetas, alisava a textura das colchas… as mãos tornavam-se ágeis dias e noites. Incansáveis observadoras das sensações que o mundo – duas doses melancólico, uma triste e três solitário – tão pouco ainda lhe proporcionava. Sentir… jamais imaginara falta que faria. Não estava a pensar em sentimentos, desses nunca nos livramos. Sentir sensações. As mãos tentavam sentir mais. Arrastavam-se pelas prateleiras do supermercado. Demoravam-se afagando os pêlos dos bichanos. Enrodilhavam-se na lã das cobertas. O calor e o frio: como lhe faziam falta. Supria, com as mãos, as sensações que lhe faltavam no corpo todo – e nisso não queria de jeito nenhum pensar. De jeito nenhum. De tanto jeito, não havia jeito: pensava. E pensava… e qualquer contato lhe atarantava. Um dia se perguntara se não sabia mais o que era sentir. Talvez não. Gostava tanto de água, como todos sabem, e se deliciava em senti-la em todas as temperaturas – aí não eram só as mãos que se esbaldavam. Deixava estar o corpo molhado debaixo do chuveiro e, apesar do seu carinho pelas toalhas macias, ficava em frente ao espelho vendo o reflexo da luz nas gotas espalhadas pelo corpo até que tivessem sumido. Achava a pele molhada um quê mais bela e serena. Pegara essa mania de rolar o cabelo entre os dedos, de vai e vem dos dedos no pescoço, de traçar o contorno dos lábios com o polegar. Quanto mais concentrada, durante um trabalho ou problema, mais seus dedos desenhavam o teclado do computador, as bordas da escrivaninha, os limites estreitos da caneta. Até quando dormia, vejam só, na cama larga e firme, as mãos em meio aos sonhos deslizava pelos lados vazios, subia e apertava curiosa os travesseiros. Ou subia um pouco mais e enganchava os dedos na cabeceira de ferro frio como se ali acorrentada estivesse. Apreciava até quando faltava luz só pelo prazer de andar com as mãos espalmadas ao lado do corpo decorando cada aspereza das superfícies. Nem assim avivava as lembranças de sensações há muito desgastadas e abandonadas. Sobre algumas, se perguntava: um dia, as terei de novo? Não sabia. Talvez nem soubesse mais como eram – que para a memória também serve a máxima: a prática melhora a performance. Só o que lhe restava, com um raio, eram legítimas alucinações. E tudo ficava preso em imagens. Imaginar, todos sabem, não é sentir. As mãos não imaginavam, apenas passeavam por um mundo que perdera um pouco da sua leveza. E seu humor lhe garantia que elas, felizes e saltitantes entre texturas e calores e frios, não lhe bastavam. Nem elas, nem a imaginação. E, por isso, às vezes tentava ver-se livre da imaginação e do pouco que as mãos lhe faziam sentir. Sem nada para substituí-las, o mundo a apavorava e ela voltava correndo fazer as pazes e deixava-as – as mãos e a imaginação – livres.

“y yo sentir”

 

Antegozando o prazer dos sucos de acerola que se encontravam nas minúsculas flores brancas que eu via da janela, pensei: não tenho porque ficar triste. Terei dias de sol, terei sucos de acerola, verei meu cachorro pulando para comê-las do pé, terei banhos de mar, terei destinos novos a me deliciar. Sem rumo, sem horários a cumprir, sem novas paixões, sem certezas: e cá estava a sorrir e a dançar. Uma lunática, diriam. Uma mimada, de fato. Uma sonhadora, sem dúvida. Ah, sou daquelas que pára a vida para gozar o pôr-do-sol. Senão a vida não é nada mais que um senão. Das guerras travo as mais distintas e tem dias que não quero ganhar. Pensava em enterrar amores, de novo. Ou quase-amores. Talvez amanhã eu pense em prazos. Não conheço nada que dure para sempre e assim enterro e dou fins como se, sim, houvesse amanhãs. Há amanhã: não tenho porque ficar triste. Não tenho bens móveis, nem imóveis nem uns meio-parados-meio-andando. Não tenho dinheiro no banco. Não tenho carne da minha carne nem sangue do meu sangue. Não tenho contratos. Tenho uma dívida ou outra para que alguém sempre lembre de mim, para ouvir ao menos o telefone tocar. Tenho passagens compradas porque parar me mata. Não leio mais notícias. Tenho cá novas dúzias de fotografias. Espero que no próximo ano a cerejeira da minha janela dê frutos que já será hora. O canteiro de roseiras cresce com vigor. Não deixo mais de apreciar o sobe e desce dos aviões. Sei que tem quem não precisa mais de mim – dói, de dor entendo, sobre qualquer outro sentimento nunca sei direito o que fazer. Desconfio que faço, agora, o que é certo pois as gatas retornaram a minha cama e de prazeres elas entendem. Devorava uma sopa de feijão acompanhada de um Vitor Hugo e pensei: preciso de malícia. Reparei bem e falta-lhe, ó, Mundo, malícia. A doce malícia, não a vil. Preciso do sol a queimar a pele e de pés descalços, não nego. Talvez, até, esteja precisando de palavras. A Primavera já levou muitos dos meus amores – é quando mais a vida me tira quem amo e a quem um dia amei. E, sei lá, é nela que boto fé. Não tenho porque ficar triste, o inferno não dura a vida toda. Sofrer de véspera é meu lado perua (vê só, nunca usei estampa de oncinha), mas antegozar o intangível é o quê? Sei não. Não sei se quero saber. Como diz a canção “tu empeñada en que querías ser feliz y yo sentir”.

que lhe cabe

Amara as madrugadas. Amara o pôr-do-sol. Amara, um dia, ver o sol raiar. Amara ver a lua nascer. Amara as intermináveis conversas em horas que todos calavam. Amara o lilás das fotos do incerto do dia, quando não se sabia se luz havia. Amara as manhãs em que a alegria não via o relógio mudar o ponteiro. Talvez nunca tivesse amado o meio, em que não era manhã nem noite e demoravam-se a ir embora – as tardes. Amara ouvir os começos vagarosos do dia e os fins exaustos dos mesmos. Amara os silêncios. Quando pensava demais eram só eles que tinham autorização para lhe fazer companhia. Silêncio de si, do dia, das bocas alheias. E lhe custava, agora, sequer pensar nas bocas alheias. Deixemos pra lá. Amara um por vez, alguns ao mesmo tempo, sem muita contradição, e mudava seus amares às vezes conforme a estação, às vezes ao sabor do humor ou até da idade. Nunca foi sempre a mesma. E não entendiam. Por isso agora ela já não se importava – sofria um tantinho, é claro, só para acreditar que não era assim tão desumana como lhe diziam. Tinha tanto amor, quem sabe.

Ama os fins de tarde. Se fosse o capítulo de um livro, o título de um filme ou de uma canção, seria: os minutos dos desejos. Pois é ali naquele tempo mais pra cá ou pra lá entre o dia e a noite que os desejos estão à flor da pele. Não é ao amanhecer, nem na alta madrugada. E o fim de tarde, de fato, não existe. Ele fica perdido entre minutos que calculam o hemisfério, a despedida do sol, a demora da lua, os encontros e desencontros astrais. E talvez por isso fosse amor contínuo. Para quem vive aos números, não existe o fim de tarde – pois a tarde acaba às 18h no mesmo instante que começam os protocolos de “boa noite”. Quem lhe dizia “bom fim de tarde!”? Ninguém. E no aflorar dos desejos é que existe o melhor do dia. Um silêncio frio reinava sobre os impropérios de uma TV esganada em algum andar do prédio e da furadeira incansável do vizinho que prolongara a manhã e a tarde. O fim de tarde é o ar frio de qualquer estação que súbito avança até os ossos. É este instante. O fim de tarde é a folga dos pensamentos suplantados por puros – nem tão puros – desejos. São as partidas. E a solidão de quem fica. Não há um poro que não respire o fim do dia. Ou da tarde, que a noite ainda é do mesmo dia. São os corredores e xícaras vazias. É a mão fresca a massagear a nuca. É esticar a coluna. É o olhar vago e o suspiro. Ama os fins de tarde como jamais amara alguém. Às vezes ouvia até o zumbido do ouvido e ficava a desejar. Desejava fechar os olhos e deixar a vida entregue às promessas da noite. Às vezes era só nesse instante do fim de tarde que a vida lhe pesava de verdade. Nas outras horas ela fingia carregá-la com grande alegria, esforço e vontade. Ela desejava fazer confidências, confessar medos, rasgar verdades. E calava. Desvairava pensamentos distantes da realidade, esta que a todos os outros momentos lhe espancava a alma. Pois desejava e desejos são da alçada da alma. E a noite tão solícita com as falsas esperanças das pessoas chegava sem hora. Deixava-a ali a obrigar-se a seguir. Apreciava o frio nos pés e mãos, o corpo dolorido, mas já não era mais possível. Os sons que espantavam o silêncio, o violão da aula que começara no andar de cima, os carros chegando na garagem, as portas que batiam, a luz artificial: os desejos não mais vibravam na pele. Era a noite. Já não sabia ao certo, mas por esses tempos as noites pouco lhe importavam se não trouxessem algum prazer ilícito. De resto as via como as malvadas que lhe sacavam os desejos à flor da pele. E eles ficariam ali encantados sob um manto de obrigações e olhos sem destino até o próximo fim de tarde. Ama os fins de tarde que é o amor que lhe cabe.

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