Passou-se muito tempo para que eu possa continuar ignorando evidências. Talvez eu acredite demais numa sina, uma sina de família sobre dores e desgraças. E talvez eu tenha certezas, ou talvez só uma certeza: perderei todos que amo, sempre. Talvez Deus tenha me olhado, ao me designar para este mundo, e dito “vai lá sofrer, amar e perder”. Pois o raio cai várias vezes no mesmo lugar – e garanto que viajar de avião, mesmo em 2014, é mais seguro do que de carro. Sinto-me, por vezes, coletora de histórias. E me consumo muito em guardá-las, revivê-las, relembrá-las o tempo todo. Nem um décimo de mim divido com os outros. Porque faz ainda mais tempo que sei que sou sozinha no mundo, sozinha e solitária, e nada nem ninguém – graças a Deus – mudará isso. Eu é que às vezes, só às vezes, me engano e faço de conta que é diferente – que eu posso contar com os outros, que eles fazem parte de mim e essas bobagens. Sim, bobagens. Talvez eu leve demais a vida a sério. (e a construção da frase não ficou boa – agora implico até com isso) Tentei e tento ser melhor, pensar, mudar as minhas atitudes, fazer mais. Mas em manhãs chuvosas de domingo me questiono duramente porquê. Sei que é, essencialmente, para mim. Considero muito difícil que eu faça algo por ou para alguém. Quando faço coisas que as pessoas dizem que foi para ou por alguém costumo discordar, faço por motivos mais nobres e nem preciso dizê-los. Na melhor das hipóteses, faço por mim. Estudo, trabalho, corro atrás dos meus sonhos e não só corro, faço por onde, aprendo o tempo todo, perco horas de sono, dou meu tempo para criaturas que eu amo e que me fazem bem, dou meu melhor no que faço, separo um tempo hoje para todo o amanhã que eu almejo. E muitos diriam que faço tudo isso para nada. Aliás, quem me cerca nem entende o que faço. Nem acreditam no que faço. E talvez seja o motivo de eu ter me criado sozinha e solitária, basta que eu acredite em mim. Pra seguir meu caminho basta que eu saiba aonde estou indo. E coisas, lugares, pessoas e amores vão sendo perdidos… Perder. Taí, Deus acertou bonito nessa. Deve vir daí minha total ausência de espírito competitivo. Sou perdedora por natureza. Sei (bem) perder. E talvez já nem me importe muito com isso – mas ainda tenho meus momentos de rebeldia. E, talvez, perder seja a melhor lição que alguém possa ter na vida. Ou a única de fato necessária. Com ela o resto a gente tira de letra. Se um dia eu tiver filhos jamais direi que estudem, sejam boas pessoas, que o trabalho dignifica o homem. Talvez nem para eles eu consiga dizer mais que um décimo de mim, mas deixarei claro que ser inteligente, se doar em amor, ser fiel e companheira, liberal, divertida, tentar melhorar sempre, procurar fazer mais do que o mínimo e lutar não garantirá reconhecimento ou prioridade nem entre pais, irmãos, amigos ou amantes. Ser preterido por outros que não se esforçam ou não têm as qualidades que você tem é via de regra no mundo. Por mais que se aprenda isso, será sempre indigesto e a indignação será justa. Justíssima. Nem para quem é sozinho e solitário ser preterido cai bem. E nem a água do temporal da manhã de um domingo lavará cicatrizes e inflamações que custam a sarar. E ainda terão os sonhos, aqueles de olhos fechados, que insistirão em te lembrar disso quase todos os dias. E só é possível manter-se de pé trilhando um caminho sinuoso e estimulante porque os sonhos, de olhos abertos, fazem todo sentido – só pra mim, é claro, e é isso que importa. Nada mais importa. Ninguém mais faz com que eu sinta que devo me importar.
Perspectivas
Foi ali, num ponto qualquer – ou não tão qualquer, posto que velho conhecido – da BR 101 que ela se deu conta. Brotou aquela vontade de levantar e sair dançando pelo corredor do ônibus. A renovação das músicas do mp3 ajudaram, é inegável. Naquele momento ela se deu conta qual era, afinal, a boa de 2014. Era tempo de mudar os pontos de vista. Já andava preocupada há meses com essa incerteza sobre o ano que chegava na metade: e ela não sabia, ainda, qual era a dele, afinal. Burrice não ter percebido antes – ela tem dado sinais de burrice aguda, a perdoem. E foi ali, diante do mar azulzinho, do sol laranjão de outono recém-nascido que teve aquela epifania. Havia mudado os pontos de vista desde o começo do ano. Havia mudado drasticamente a alimentação, havia abandonado hábitos ruins (ruins não, péssimos – e impublicáveis), havia deixado de pensar em quem não devia, só ainda tinha dificuldade em esquecer aqueles olhos verdes (pois é, Johnny Cash, por aqui não são azuis), havia assumido responsabilidades astronômicas – pois sim, ela que gostava de pensar que era irresponsável (doce ilusão) agora responsabilizava-se por tanto e tantos que lhe assustava a novidade. E a grande e deliciosa mudança havia começado sem querer por algo que ninguém esperava dela, lá em janeiro: dormia e acordava cedo. Sim, ela, mais uma notívaga que louvava a criatividade, a beleza e o silêncio da madrugada agora não conseguia ficar acordada depois das onze da noite. Ou, ainda, quando era assaltada por sonos cavalares às oito. A animação com a qual acorda às cinco da manhã e tem visto mais sol nascendo do que se pondo – ela que já se apaixonou por todos os pôr-do-sol que já viu. Dormir e acordar cedo foi a primeira mudança drástica de perspectiva à qual ela aderiu este ano. Em seguida vieram as mudanças alimentares – hoje come até cenoura. Lhes digo que já até sentou em lugares que não eram os cativos. Pintou a unha de esmalte branco (e não arrancou-o no dia seguinte). E foi ali diante do mar e de um sol lindo que saltitava de alegria ao, finalmente, descobrir a razão da existência de 2014. Não sabia ao certo o que lhe embotara a percepção nos últimos meses, se os chocolates da Páscoa, a agenda exigente e apertada ou, ainda, o peso das responsabilidades e da realização de alguns sonhos. Agora até ama Porto Alegre. Agora cumpre regularmente – ó dó – e com respeito todos os horários semanais. Imagine-a assim anos atrás… sei que não dá. Por dias ela até disse que não estava feliz e, em seguida, se desdizia sem entender, afinal, o que sentia. Sei lá, talvez estivesse pagando pra ver até onde iria. Desistir não tem lhe parecido uma boa pedida. Porém, poucas coisas a interessam e divertem mais do que mudar a perspectiva. Por que 2014 não seria, então, mais uma alegria?
Aceito trocas
Precisava mudar de vida. Aceitava trocas. Agora não havia mais dúvida. Pois quando uma simples e despretensiosa caminhada pelo bairro que conhecia desde criança, cabelos ao vento, o nariz sorvendo o ar com prazer, lhe dava o maior prazer em semanas, é que as coisas não andavam bem. Queria viver outras vidas. Não queria estar nem ser. Queria não ter tempo para ouvir aquela canção que lhe fazia relembrar aqueles olhos verdes. Quem sabe uma outra cidade. Ou uma aventura bem longe de qualquer cidade. Talvez um trabalho perigoso num outro país. Não, não. Não precisava correr risco de vida para sentir-se viva. Isso era para os doentes da alma. E que não lhe ouvissem os sentimentos, pois o fato é que amava quem lhe amava – mas as circunstâncias não lhe apaixonavam. Os caminhos de sempre estavam vazios. Não lhe causavam mais arrepios. Já tinha tantos livros, tantas fotografias, tantos anéis e cartas. A vida, enfim, lhe pesava. Volta e meia se pegava pensando como seria a vida sem aquela cama antiga, sem a bolsa de estimação, sem aquele abajur de borboletas. Algo lhe dizia que, ainda assim, não seria outra pessoa. Porém, ela temia. Temia esquecer-se de si. Temia não amar tanto quem lhe ama. Temia que seu amor pela vida superasse qualquer outra paixão. Enfim, de novo sentia-se presa. Presa, amordaçada, encurralada. De novo o amor lhe cobrava. Cobrava que estivesse ali por outra pessoa. Cobrava que demonstrasse diariamente este amor. Cobrava a cumplicidade. Não que ela não amasse ou que não quisesse, já lhes disse. Ela só amava de outro jeito. Não amava com amarras, nem com presenças exigidas, nem, muito menos, com responsabilidades. Queria, mesmo, amar sem tirar os olhos e o sorriso do horizonte. Sentia-se atada às palavras, às idéias, às lembranças, a tudo que aprendera com a experiência e sentada nas carteiras. Atada aos laços de sangue. Atada à falta de perspectiva e opções. E aquela inocente caminhada com a chave da casa num bolso, a identidade no outro e os fones no ouvido fora sua queda. Precisava de outra vida. As ruas continuavam iguais, um prédio novo apenas, a segurança de que o tempo não havia passado por ali faria mais da metade da humanidade feliz – segurança, a meta de tantas pessoas. Pois ela recusou-se a atravessar a rua na faixa. Dobrou uma quadra antes, seguiu outro caminho até o mesmo destino. E assim percebeu. Precisava de outra vida. Quis enganar-se de que mudar um trajeto era o começo da grande mudança. Mentira. Mudar caminhos e chegar aos mesmos destinos é como trocar de roupa para ir a mesma festa. E ela só não sabia ao certo se havia outra festa para ir. Por enquanto, desejava apenas uma festa à fantasia.
“os carinhos do motor”
Entrou, sentou, bateu a porta. Bufou. Numa cápsula, enfim. Gestos coordenados, o cinto, os espelhos, o freio de mão, a ignição, o som. Chovia como há tempos não se via. Chovia. Já se inspirara alhures nas imagens da chuva sobre a cidade. Deu o pisca e foi. Noite. Noite vazia de cidade operária. O coração sorria com as canções do CD. Sorria. Chovia. E era gostar tanto assim de dirigir na chuva quanto off road. O paralelepípedo, que era cidade de ainda tê-los, molhado, desnivelado, esburacado e pintado pelas luzes. Seguiu ruas vazias seguiu rumo nenhum seguiu sorrisos e versos. Queria estar sozinha. Entrou em ruas que já de tanto conhecer-lhes os nomes, os havia esquecido. Sim, sim… agora entendia, Belchior, os carinhos do motor. Era ele e ela e um sem fim. Ela queria dizer que jamais esquecia do que quer que fosse. Jamais. Tinha cá o inferno particular que é lembrar. Ruas vazias. Chovia. Sentia-se tão parte dele e ele dela, sem dúvida. Se tivesse imaginação diria que ele a acariciava. E aquela – aquela – canção tocava. Aumentou o volume. Cantou junto. Queria viver presa na imagem da chuva sobre a cidade à noite. Até porque… ah! até porque… Queria estar ali e estava. O olhar rápido entre um espelho e outro, detalhando os reflexos no asfalto, nas gotas do pára-brisa. Um dia apaixonara-se pelos reflexos. Coisa de gente que olha o mundo pelas lentes. Era melhor não falar de paixão. Melhor, não. Amaria. Chovia. Pensava nos sentimentos. Ah, mas diz que o amor não precisa de Filosofia. Precisava – lhes digo que muito precisava – do amor e da Filosofia. Se perdia. Chovia. Parada no sinal ficou com aquele temível olhar fixo num ponto entre o nada e o tudo. Ah, mas o trem passa e poderia levá-la. E não são assim todas as histórias? Inventaria mais um personagem. Criaria um a la Tyrone Power. Pois tem isso, quando se cria um personagem deve-se dormir e acordar, tomar banho e beber vinho, com ele. Cansara dos seus personagens dolorosos. Queria Tyrone do Rawhide e não daquele mascarado famoso. Fazia bico de charme nos solavancos dos buracos das ruas abandonadas daquela cidade operária – e sentia-se um tanto operária e entendia suas dúvidas, anseios e irritações das últimas semanas – e a mão acariciava o volante lembrando da praia Brava e do Sertão do Ribeirão. Dê-lhe uma estrada de chão e a faça feliz. Já havia dito que um dia fugiria, mas certeza que avisaria. Iria. Chovia. Chegaria em casa, ouviria de novo a canção-hino da sua libertação – era a hora de tudo mudar – flutuaria e iria para a cama encontrar-se com Tyrone. Assim como no banho do dia anterior, a vida era melhor servida com boas doses de sonhos de olhos abertos. Pois esses sonhos de olhos fechados cheios de escadas a confundiam. Nos azares da vida preferia ter um Tom Owens ao seu lado na cama do que tê-la vazia. Vazia. Chovia. Ah, os carinhos do motor. Suave deslizava e até se sentia amada. Fugira. Voltaria. Chovia.
Historietas
Dez anos atrás. Não sei ao certo como eu e Elaine – aquela a quem eu chamo de Loira, pois ela era assim de corpo e alma quando a conheci – ficamos amigas. Santo bateu forte. Primeira fase do curso de Filosofia e éramos tão – mas tão – diferentes. Lembrei disso hoje.
Amiga pra toda a vida que viria a partir daqueles dias. Ela me emprestava o caderno dos dias que eu faltava, eu passava cola, vendia trabalhos, ela me convidava pra balada, eu nunca fui, eu chamava pro bar e pra praia, ela ia. Ela me contou a história mais triste – e, pô, é triste pacas – da vida dela. Com ela fiz a minha primeira trilha na Ilha. Com ela passei meu primeiro fim de semana na Ilha. E não havia porre que me derrubasse – bem descobriu o primo dela.
Antes disso tudo, um dia ela apareceu com um baralho cigano. Eu tive que ler as instruções, ela já sabia tirar as cartas. Aí ela tirou pra mim. Uma, duas, três, quatro… em todas as vezes – todinhas – saiu uma conjunção de cartas que provavam meu futuro: união forte (casamento no vocabulário chulo), amor, sentimento avassalador (o adjetivo é perdão de trocadilho, não resisti). Na primeira vez fiquei chocada (já lá, e antes, meu horror ao casamento era estável). Aí pedi uma segunda vez, e pedi a terceira, a quarta. O resultado não mudava.
Sou uma amiga que não se encontra por aí – pode perguntar pra Elaine e para uma dúzia de gente, até para aqueles que decidiram não ser mais meus amigos. Nos relacionamentos que existem entre as pessoas só sou realmente excepcional como amiga. O problema é que sou chata, é o único preço a pagar. E Elaine, com toda classe de uma loira e paciência de uma leonina para com uma pisciana, pagou.
Fomos para a biblioteca do CED e mais de hora passou enquanto ela tirava repetidas vezes as cartas daquele baralho tão querido. O resultado sempre o mesmo. Ela só pediu pra parar quando uma dor de cabeça fulminante a atacou.
Quase não vejo mais Elaine. Ela me abandonou. Mudou-se. Um dia uma prima dela queimou nosso tão estimado baralho e nunca poderei perdoá-la por isso.
Ela quase não usa internet. De vez em quando eu telefono pra ela quando tenho um babado forte ou quando é o ilustre aniversário dela, no nosso querido dia dos solteiros. Até fundamos um clube.
Sobre o resultado das cartas daquela época? Confirmou-se (por um tempo, é claro). Tempos depois as cartas me pregaram mais umas peças que também se realizaram. Diriam os capricornianos que fui influenciada. Talvez. E, ainda bem, pois sou um tanto indecisa e tapada de vez em quando.
Lembrei disso tudo porque encontrei um baralho igualzinho àquele nosso, porém virtual. Aí, quando a lua entra em alguma conjunção que me deixa à beira dos penhascos fazendo rimas ricas e pobres enquanto rio das minhas desgraças, recorro a ele.
________________________________________________________________
Era janeiro. Não sei, talvez início de fevereiro. Frisantes na geladeira, eu sozinha na casa de praia. Havia começado a ler Os Sofrimentos do Jovem Werther dias antes. Tinha uma dissertação para terminar mas saber dosar prazeres e deveres é um dom que eu possuo. A rede do Piauí na varanda. As gatas dormindo no sofá. Um pôr-do-sol lindão se anunciava. Fábio Jr na vitrola.
Tinha certeza que jamais leria Werther. Certeza. Ainda mais que Elaine, a personagem da historieta acima, nos seus dias de busca para as razões e obstáculos do amor havia devorado todos os livros sobre o tema, inclusive ele – e, lembrem, ela tinha aquela história triste. Eu não leria Werther, havia escapado dele na época de minha adolescência quando li muitos e muitos clássicos e, sério, ele suicidava-se no final. Só gosto de saber o final quando eu mesma, lá pelo meio do livro atolada na ansiedade, corro para as últimas páginas.
Eu não leria Werther. Poderia passar a vida sem lê-lo. Tipo, sei lá, Romeu e Julieta. Muito amor e morte no final pro meu gosto. E nunca superei o trauma – aterrador – d´O Sorriso do Lagarto. Nunquinha. Ubaldo que tenha pesadelos de vez em quando por ter escrito aquilo.
aí… ah, aí…
A vida, sabe? Essa graça que começa e termina todos os dias. E eu e essa mania de me desafiar, de gostar de mudanças, de gostar de me desdizer. Me desdigo e seja lá o que for. E às vezes é cada coisa…
Um punhado de coincidências e de atração infernal deram uma rebolada na minha vida. Eu vi. Eu dei um passo. Aí eu chamei desesperada por uma amiga, contei tudo o que (não) havia. Pensei, pensei, pensei… já nem sei direito se paguei pra ver ou se… bem, a vida, apesar de tão bela, tem lá suas regras.
Regras. E não era o momento de eu querer fazer coisas erradas de novo.
Narrei (quase) tudo aqui. Sobre o Werther: juro que não entendi. Me perguntei centenas de vezes se alguém em sã consciência passaria uma espécie de cantada falando dos sofrimentos do Werther. E aí, ah, aí… eu teria que ler para descobrir.
Feira de praia, lá estava o livro bem baratinho. Muito contrariada, comprei. A saudade, a distância, o calor, tudo me atormentava. Era claro que eu não havia entendido algo. Comprei-o. Ou minha burrice é tamanha que eu havia entendido de forma clara e dolorosa demais, só não queria aceitar tanto azar.
Azar no amor, azar no jogo, sorte na vida. Meu lema.
Comprei. Comecei a ler. E foi naquele final de tarde, naquela rede, naquela varanda, com aquela trilha musical e aquele frisante que eu li o Werther.
Como já disse num outro post aqui, eu e Werther temos muito em comum. Engasgava em muitos parágrafos. Foi difícil. Fui aceitando. Fui entendendo. Saí da rede porque os pernilongos haviam me devorado e eu nem tinha percebido. Garrafa vazia era uma nova que era aberta. Da rede pro sofá. Não via nada. Não pensava em nada. Só lia e sentia. Não lembro nem quantas garrafas foram – mas tenho certeza que foi meu recorde. Fábio jr ainda cantava e eu terminei de ler e fui com a última garrafa para debaixo do chuveiro. Sentada no chão do box falei sozinha por mais de hora.
Enrolada na toalha caí no sofá e apaguei. Acho até que chorei.
Finalmente, pela primeira vez na vida, havia tomado um porre homérico. O que ficaria em segundo lugar também fora histórico: não fiz a pior besteira que poderia ter feito (mas por muitas vezes me perguntei o que teria acontecido se eu tivesse apenas esticado o braço naquele determinado momento). O terceiroo foi divertido. Este foi devastador. Fiquei sem beber até semana passada. Já temia meus pensamentos e sentimentos. E eis que voltei ao vinho.
Não me perguntem se foram as cartas que tirei no baralho cigano virtual, ou se as malditas e doces coincidências ou, ainda… o Werther e nossos sofrimentos.
Velar a saudade
Hábitos e costumes são coisas que não sobrevivem bem ao tempo. No meu apreço pelos seriados ingleses cometo overdoses de vez em quando. Foi o que ocorreu esses dias e fiquei a pensar em como educaria meus filhos – pensamento que volta e meia ocupa meu tempo, sem nenhuma exigência. Admiro a educação à moda antiga, o pedir licença ao sentar-se ao lado de alguém – fiz isso, esses dias, como de costume e me senti um ET -, o cavalheiro levantar-se quando a dama se retira, um respeito aos mais velhos não pela idade, mas pelo reconhecimento. O revoltar-se só com bons e verdadeiros motivos. Não falar muito alto, não fazer cenas em público. Coisas que não sobreviveram, enfim. Há toda uma classe no agir dos personagens dos seriados ingleses que me encanta, independente da classe social. O simples fato de não ter intimidade e chamar por miss ou mister já demarca as relações pessoais. Sobre relações pessoais num assunto que me toca bastante eu escreverei em breve.
Comecei pelo final, de fato. Pois continuarei de trás para frente, então. Não na narrativa, mas na ordem que meus pensamentos surgiram. Falava sobre como educaria meus filhos e cada vez tenho mais certo de que os privaria das maravilhas dos nossos tempos. Não teriam acesso à internet, nem a smartphones ou tablets. Redes sociais: nem pensar. A simples idéia me apavora. Não comeriam, jamais, no McDonald´s, Bob´s, Burguer King ou qualquer primo-irmão. Ah, sim, não beberiam refrigerante. Talvez até pudessem usar o computador para ler, escrever ou até jogar. Seriam, sim, analfabetos tecnológicos. Prefiro-os analfabetos tecnológicos a analfabetos funcionais ou emocionais. Não me imaginem tão tola ao ponto de não perceber a dificuldade que seria criá-los em tempos pós-selfies de Instagram.
Contudo, eu fui criada num mundo um tanto a parte e sei que não é de todo ruim nem impossível. Lá se vão alguns anos, eu criança acreditava que o mundo para além do portão de casa era igualzinho o meu mundo ali dentro. Pai, mãe, irmãos, avós, casa, comida, bichos, choradeiras e alegrias. E foi essa mesma criança que aos olhos muito atentos e preocupados de todos sumia de casa e ia passear pelas redondezas – queria, talvez, descobrir o mundo, sem ao menos duvidar que ele não era igual ao seu.
Conto isso porque foi quando criança que comecei a compreender que os hábitos e costumes não são os mesmos em tempos e lugares e pessoas diferentes. Com os colegas filhos de mães solteiras ou separadas descobri que as famílias não eram todas como a minha. Nas casas de colegas descobri que as regras e os ambientes também não eram os mesmos. Era, sempre, tudo muito estranho. Deve ter sido aí que meu estranhamento, em relação aos lugares e pessoas, começou – e, ó vida, nunca me abandonou. Era difícil entender a vida. As pessoas. Mas eu fui tentando – eu acho.
Já frequentei casas sem portas ou sem maçanetas, casas onde não se usam toalhas sobre as mesas, já conheci pessoas que não jogam o próprio lixo na lixeira, pessoas que não tomam banho todo dia, casas onde a TV fica ligada o dia inteiro, pessoas que passam a ferro até cuecas e lençóis, casas onde dormem todos no mesmo quarto, pessoas que só bebem coca-cola, casas onde os banheiros são imundos, pessoas que proíbem você de entrar de sapato na casa delas, casas onde não há TV, pessoas que nunca estudaram nenhum outro idioma. De um choque inicial bem marcante, cheguei a um modo zen de não julgar e me interessar deveras por tudo que observo.
Hábitos e costumes não mudam de uma região para outra, de um Estado para outro ou de um país a outro. O que pode causar transtornos nos relacionamentos e alegrias para espíritos curiosos. Tinha pra mim, por um tempo, que eu devia, então, ter os melhores hábitos e costumes – que fossem racionais e corretos. Tentei. De vez em quando implanto algo novo sempre prezando alguma racionalidade. Vivo tentando. Se não é algo exato, deve ser sempre perseguido.
Mas eis que um hábito meu nunca encontrei em ninguém. As visitas ao cemitério. Não conheço ninguém que frequente cemitérios – bem, frequento um em especial e mais dois ocasionalmente, porém, tenho um gosto especial em conhecer os cemitérios das cidades para onde viajo. Frequento cemitérios desde bem pequenina. Sempre gostei deles, nunca os temi por nada. Uma vez lá ouvi que medo de cemitério era bobagem, pois os mortos não podem nos fazer mal – os vivos sim (e farão, esteja certo).
Enfim, no começo de tudo estava minha constatação de que hoje, quando as pessoas morrem, os vivos livram-se dela muito rapidamente. Sim, foi observando notícias de mortes seguidas de enterros em poucas horas que percebi isso. Os vivos não velam mais seus mortos. Há pressa em jogar aquele corpo, que começa a apodrecer, ao fogo ou à terra. Antes os velórios eram dignos das saudades latentes no porvir. Hoje eles se aproximam desta ausência das pessoas nos cemitérios, das pessoas que fogem dos seus mortos – tenham eles, em vida, feito-lhes bem ou mal.
Continuo observando as notícias de fulano que morreu ontem à noite e hoje cedo já foi enterrado. Não, manter o falecido por horas aqui não diminuirá a dor. Mas, me parece, no mínimo, mais digno. Também não considero que o mausoléu seja a presença eterna aqui na Terra. São os nossos monumentos ao amor e à saudade. E, bem, não tenho problema algum com nenhum dos dois.
Foi esses dias que me surpreendi, imersa nessas considerações, com uma família que desceu do carro perto de onde eu estava, num cemitério fazendo minha visita habitual. Pai, mãe e três filhos – dois adolescentes e uma criança. Confesso que achei a cena muito estranha. Fiquei observando e eles foram até um túmulo que nem é muito novo na vizinhança. O pai falou, falou, a mãe ficou mexendo no celular o tempo todo. O menino pequeno olhava, olhava para os lados, cruzava as mãozinhas. O rapaz mais velho ficou o tempo todo parado. A moça parecia emocionada. Conversaram um pouco, o pai acendeu uma vela, ficou uns instantes em silêncio e saiu seguido pela mãe que não largava o celular. O pequeno acompanhou-os. O rapaz ficou uns minutos com os olhos fechados e a moça sentou-se na beirada e começou a chorar com vontade. Ficaram ali algum tempo até que ela levantou-se e viu que estava sozinha, o irmão tinha saído em silêncio. Ela enxugou os olhos na manga do moletom e foi embora.
Meu respeito duelou com minha mania de curiosidade e observação, por isso não sei ao certo qual foi a conversa, qual era o elo entre o falecido/a e os presentes (mas, tenham certeza que formulei minhas teorias). Eu poderia ver mais cenas assim. Já fui protagonista e testemunha delas algumas inúmeras vezes. Mas, pelo que aprendi ao longo dos anos, as pessoas têm hábitos diferentes – até para chorar pelos seus mortos, pelas suas dores e saudades.
Enfim, sem saber como terminar, posto que vim parar no começo, me assusta que estejam livrando-se dos mortos assim com tanta pressa. Se um dia eu vier a morrer, daqui muito muito tempo, por favor, encerrem meus belos dias aqui na Terra com um longo velório oferecendo as coisas que eu mais aprecio em vida – e, claro, não esqueçam do sol. Jamais me enterrem num dia de chuva.
Queria ver sentir falta do que nunca teve
Falar sobre o que não sabe é fácil, qualquer um pode fazê-lo. Queria ver sentir falta do que nunca teve. Ela ouvia o advogado ao lado ruminar suas sabedorias sem fim sobre coisas das quais ele não tinha idéia. Tentava ser simpática, concordava, fazia um comentário ou outro. Educação, sabe? Não confundam. Eram os problemas do mundo e todas aquelas banalidades. Ela estava com sono, mas ainda assim ouvia o homem com um relógio enorme, engravatado e usando um perfume forte. Ele falava dos condomínios em Miami, sobre os fingers do Brasil, sobre os gastos com a Copa, as maravilhas da tecnologia em celulares, os problemas de assistência às pessoas com deficiência e mais alguma dúzia de coisas que ela não saberia listar.
As pessoas são assim. Insistem. Querem atenção. Acham que seduzem. Se vêem obrigadas a serem sociáveis, a conversarem com os outros. Não sei de onde vem estas obrigações – ela também não sabia. Na verdade, ela não estava pensando nisso. Pensava apenas no sono e em como gostava de aproveitar aquele momento de despegar da terra. Ela gostava de voar. Mas, é claro, por vezes ela não entendia esta necessidade de ser sociável que as pessoas sentiam – e mesmo assim se via ali, conversando… não, conversando não, era só um monólogo do advogado com breves comentários dela.
Ele falava sobre tudo, o que tão facilmente leva ao nada. Não bastasse todo o barulho de fora e de dentro, ele ali tagarelando e ela só pensando no sono – doce sono. Ela não se considerava, enfim, mais um boi deste mundo e foi por isso que quando ele quis, mais uma vez, demonstrar sua gigantesca sabedoria comentando que o barulho da turbina era anormal por falta de manutenção e que eles não faziam overall, ela silenciou, fechou os olhos e ignorou-o até o fim – quando ele ainda (por essas obrigações descabidas do social) virou-se para ela e disse “tchau, querida”.
Ele é um bom exemplo. Uma criatura dessas jamais entenderia o que é sentir falta do que nunca teve. Jamais. Talvez o mundo todo possa ser dividido entre as pessoas que falam sobre o que não sabem e as que são capazes de sentir falta do que nunca tiveram. Porque, vamos e venhamos, generalizações são perfeitas para um mundo como o nosso. Se não isso, coloquemos uma mesinha com um atendente para anotar todos os entremeios de cada indivíduo deste mundão.
E pouco importa o certo. Quem sente falta do que nunca teve não compreende o certo e o errado, como um cachorro que revira o lixo para comer papel higiênico usado. E, também, é algo sobre o que nunca se fala – nem aqui deveria estar constando. É uma das poucas coisas que não deve constar nos autos do mundo – já que falávamos de advogados, vale citá-los: se não está nos autos, não está no mundo.
Opa. Então… perceberam a relação? Se você nunca teve é porque nunca esteve nos autos da sua vida. Ou seja, não existe – deixemos de lado o “não lhe pertence” porque a discussão seria por outra vereda. Há metafísica demais nisso. Não acham? Ela não achava. Com um olhar de quem viu um mosquitinho flutuando na panela de sopa fervente, ela acompanhava o vazio da tela do computador, da tela do celular e com um ouvido irritado pelas mesmas palavras de sempre, ela acompanhava o celular que não tocava, o recado que não era dado, a mensagem que não chegava.
Talvez as más línguas dirão que ela sonhava (dormindo ou acordada, já se fez muita poesia sobre isso, não cabe repetir). Pois não era bem o caso. Ela desejava, isso sim. Seu desejo não desejava controlá-lo. Deu para entender? Os desejos, muito mais que os sonhos, tratam daquilo que não temos. Sonhar é, de alguma forma, ter. Então sentir falta de algo com o que já se sonhou não é sentir falta do que nunca se teve. Ela desejava apenas e por isso sentia aquela falta.
Ela que me desculpe, mas há metafísica demais nisso. A tal falta em nada insinua-se na vida, nas relações, no dia a dia, nesse passar tão indecifrável do tempo – que me desculpem, também, os relógios. Seria interessante tentar dividir a humanidade entre os que falam sobre o que não sabem e os que sentem falta do que nunca tiveram porque os primeiros são facilmente identificáveis, enquanto os segundos não dão sinal da provação pela qual passam. Bem, se há mesmo metafísica nisso tudo, vocês também não deixaram de perceber que em ambos os casos há negação. E quem dera que para além do mundo dos matemáticos de duas negações surgisse uma afirmação.
E se alguém do primeiro grupo a interpelasse depois do advogado e ela quase lhe abrisse o coração (coisa que os que sentem falta do que nunca tiveram nunca o fazem) e ele fosse desses que falam sobre o que não sabem acerca da metafísica, dos livros, dos pensadores, ele lhe diria compungido “a vida é negação”. E se ela estivesse já com o sono a embotar-lhe o humor, ela levantaria e diria “se fosse negação, não terias nascido porque tua mãe teria tido o mínimo de respeito com a humanidade e teria dito um belo ‘não’ ao teu pai – evitando o ato de te fazerem” (eu disse que ela não era muito chegada nessas coisas sociáveis).
Não há conceitos nem definições aqui. Lamento se decepcionei vocês. “sentir falta” é ausência, “nunca teve” também é ausência. Como definir o que não há? Sobre “sentir falta” talvez muitos de bom coração tentem abraçar a idéia. A única coisa, não sei se vocês perceberam, é que existe uma presença ali que muda tudo: “do que”. Há um que, um quem (talvez). Eis a charada. Nunca existiu nem existe no momento (posto que faz falta) mas existe – há. É presença. Tão presente quanto ela naquela poltrona com aquele advogado ao lado. Tão presente quanto o sono que ela sente. Tão presente quanto o som que vem da turbina.
E, com metafísica ou não, é a presença que sempre altera tudo. Há o desejo que concretiza esta presença, simples assim. Quem tem desejo é que pode sentir falta do que nunca teve. Quem não o tem, fala sobre o que não sabe – não há desejo, há necessidades (as piores, se é que entre necessidades há alguma que não seja ruim) palpáveis. Sim, para a metafísica as necessidades inexistem. E ficamos assim, vendo-a sentada diante daquele chocolate quente, com um cheiro forte de esgoto que vem lá da rua apinhada de ônibus e gente em êxtase, esperando um pastel do qual já se arrependeu, com os olhos desenhando um quadro mental daquelas cadeiras de ferro, do dono anotando os pedidos, da moça gorda na mesa ao lado e dos cantos sujos. Falo dos olhos, mas não posso falar do que lhe vai por trás deles.
Imaginemos, então. Ela pensa, é claro. Sente, também. Posso contar-lhes com sinceridade que aquela tarde foi das mais marcantes da vida dela. Pensou até em anotar numa agenda ou algo assim. Ela leu e releu o recado que havia recebido. Como há muito não acontecia, emocionou-se. Do jeito dela, é claro. E felizmente sem advogados nem pessoas que falam sobre o que não sabem por perto. Pôde ser feliz como lhe convém. O sono ela nem lembra que sentiu. Não sei, talvez não pense. Talvez apenas agradeça e sinta. Sei que foi um tanto depois desta cena que ela veio a sentir falta do que nunca teve. Sentiu-o assim como o céu ensolarado que vai nublando. Estava diante de dois nadas com um todo no meio. E era aquele todo que agora levava-a a suspirar, a retrair-se, a desejar, é claro.
Se falhei em explicar-lhe o que é sentir falta do que nunca se teve, logrei meu intento. Fico feliz. Só sei que o dia que você sentir isso, lembrará desta pobre anunciação metafísica. Pra mim basta. Quem sou eu para falar sobre o que não sei?
Os homens da minha vida – Temos todo o tempo do mundo: o sotaque dançante entre possibilidades
Foi mais ou menos assim.
Ela já o conhecia. Ela estava no balcão do bar da vida, alheia como era de costume, feliz demais com seus trabalhos, fazendo festinha em si mesma com tantas alegrias que encontrava pelo caminho. Ela é responsável. Ela é sozinha. Ela é feliz. E ela acreditava, pobrezinha, que tudo continuaria assim.
Ele apareceu ao seu lado no balcão. E como havia sido tantas vezes, o corpo dela despertou. Ela reparou nele. Nos traços, nas pernas, nas mãos. Mas ela é cautelosa. Observa e faz de conta. Ela não gosta de ser objeto do interesse dos outros, ela prefere interessar-se. Um redemoinho se formou. O balcão do bar estava mais movimentado. Ela saiu dali sentindo uma euforia estranha, era parte satisfação, parte alguma outra coisa. Ela não queria crer – mas crer era tão ela.
Ela partiu mas voltou àquele balcão. Voltou algumas vezes. Já não havia como negar. Ele a fazia rir – e sorrir. Ela se pegou pensando há quanto tempo alguém não conseguia fazê-la rir e sorrir. Diziam que aquele bar ia fechar em breve. Ela tinha pouco tempo. Ela já acreditava que ele retribuía o interesse muito menos veladamente do que ela.
Como diz a canção “Primeiro foi a música A canção fez você sorrir E logo à primeira vista O mundo girou pra mim”. Foram as músicas, disso não há dúvida. E foi o jeito, a proximidade, as confissões, as coxas, as mãos. E foi ter sonhado com ele na noite que ela havia saído do balcão com sensações que ela não usava havia tanto – mas tanto – tempo. Meses antes ela havia escrito – ela tem essa mania de escrever – sobre um caso marcante da vida dela: “As palavras, o jeito de andar quase cowboy, o rosto de ave de rapina, a expressão sorridente alegre, o sotaque dançante, o meio sorriso divertido. A sinceridade. Eu estava apaixonada.”. Ninguém entenderia, ela se apaixona em segundos. Ela se apaixona pelas palavras (as estima muito), pelo jeito de andar, pelo rosto, mas mais ainda por sorridentes alegres, sotaques dançantes (ela tem prazeres especiais por sotaques) e pela sinceridade. Ela se apaixona.
Era o último dia que ela iria até aquele bar e ficaria horas ali naquele balcão. Na verdade, ela ficaria pouco tempo, mas inventou algo para ficar ali mais tempo. Era despedida. Ela gosta de despedidas. Queria uma especial. E eis que no meio de tanto barulho, de tantas conversas, ele veio com mais uma canção (ele não se cansava de cantar para ela, até nos momentos mais inesperados). Ela não deu muita bola para a canção, é verdade. Ela penitenciou-se inúmeras vezes depois por ter feito isso. A canção, aquela, e ela só soube dizer “ah, sim, daquele filme”. Mas ele queria dizer mais. Ele disse que era a canção do momento atual da vida dele. Ele citou o vácuo. Nos balcões dos bares da vida nós falamos dessas coisas. Ela não entendia porque ele a havia escolhido para abrir assim o coração. Ela perguntou o signo dele. Ela disse que estava no mesmo “momento” da vida, que também entraria no vácuo – os dois concordaram que viam a mesma saída para o futuro. Estavam no vácuo, poderiam sair do mesmo jeito, era proximidade demais. Ela disse que ele era muito sério, muito certinho. Ele não gostou. Fez de tudo para dizer que não era, que também detestava a rotina. Ela se gabou das conquistas do passado. Ela jogou umas iscas, ele mordeu. “Até o tempo passa arrastado Só preu ficar do teu lado” já diz aquela canção que ela ouviu mil vezes depois daqueles dias. Eles ali, naquela bolha no meio da multidão barulhenta, trocando confidências, olhando nos olhos, atropelando palavras e sentimentos querendo dizer tanto.
E ela foi pra casa. Ressoavam os trechos da canção à qual ela não havia dado muita atenção. E foi então que ela colocou-a para tocar. Sentou-se abismada. Ele queria dizer muito mais do que ela fora capaz de entender. “Todos os dias quando acordo Não tenho mais o tempo que passou Mas tenho muito tempo Temos todo o tempo do mundo” e ela via passar a conversa anterior, sobre idade, o tempo, a força da vida que nos leva…
Ela estava apaixonada. Mas nunca mais o veria. Não voltaria mais àquele bar. As circunstâncias assim o determinavam. Ela iria viajar. Passaria um tempo longe. Aquela história teve seu começo, seu meio e seu fim. Ou não.
Ela ouviu aquela canção todos os dias, pela manhã e à noite. Ela estava lá longe, no meio do quase nada e não deixou de ouvir. Talvez lamentasse não ter dado a devida atenção. Talvez sofresse um pouco por saber que não teria a chance de viver aquele amor. Talvez tanta coisa. E ela era sozinha. Era feliz. Entre passeios e trabalhos exultava feito pinto no lixo. Talvez aquela fosse a realidade dela: azar no amor, azar no jogo, sorte na vida. Ela não teria mais amores, era isso. O Destino a fazia resignar-se. Ela ouvia aquela canção e uma outra, pois por uns dias ansiou deveras declarar-se a ele – dizer sem rodeios e apostar na sinceridade que era sua marca, estava apaixonada. Porque ninguém entenderia, também, que ela ama sem exigir nada em troca, sem nem esperar ser amada de volta. E assim ela começou a deixar de ouvir aquelas canções… mas o player, nas longas horas de estrada, suspirava ao seu ouvido. Talvez ela já estivesse esquecendo-o. E isso era muito bom.
Entre russos e hollywoodianos a história caminhava para um fim típico dos primeiros. Ela poderia ter acabado aqui. Porém, em dias chuvosos, num lugar especialíssimo, entre coisas de tantos séculos passados, ela pensou nele. Pensou em como gostaria de levá-lo lá, como seria passear com ele por aquelas vielas, ficar no alto observando a imponente serra que cercava a região. Eles já sabiam que tinham certos gostos em comum. Ela sabia que ele iria gostar dali. Ela ansiava tê-lo. Ela criava diálogos, fantasiava abraços, ouvia risadas, esboçava sorrisos.
É preciso abrir um parênteses. Ela tem sérios problemas. Ela finge o tempo todo. Ela é forte – a vida fez isso com ela e ela não vai mudar, como diz aquela outra canção que, por sinal, ele também cantou para ela. Ela usa – o tempo todo – uma máscara para esconder sentimentos. Ela é extremamente desconfiada – com tudo e com todos. Ela é fechada em si mesma e não deixa ninguém se aproximar. Por isso é tão difícil saber o que realmente se passa com ela, é tão difícil entender suas ações, seus homéricos desvios de humor. Nem os mais próximos conseguem. Eu só posso falar porque vejo tudo de um lugar privilegiado – mas até eu me confundo, às vezes. Só narro tudo isto para tentar ajudá-la. Pois, me parece, ela precisa de ajuda. Mas, acreditem, ela jamais pediria ajuda.
Ela pensou abrir seu coração para alguém próximo. E o fez. De nada adiantou. Ela pensou abrir o coração para alguém ainda mais próximo, tinha certeza que seria julgada e condenada. Ela decidiu guardar tudo ali dentro, com a força que ela conhecia e com um carinho que ela jamais vira igual dentro de si. E assim ela voltaria da viagem, voltaria a outros balcões de bares, seguiria os caminhos promissores que com tanto empenho ela havia desbravado.
Não cabe aqui enumerar as tantas idas e vindas na crença e descrença dela sobre o futuro. Nem ela saberia descrever tudo o que pensou – nem o diário foi atualizado adequadamente. Ela pensava e repensava, esquecia, quase nem lembrava. Os bares foram alternando-se, era tanta coisa ainda para dar conta. Eram prazos, dias, viagens ainda, novas conquistas. Às vezes, num mesmo dia, ela nem sabia que estava apaixonada e em seguida se contorcia de vontade de que ele sentisse orgulho dela por algo que ela havia feito, pelos elogios que ela havia recebido. Parece doentio, eu sei. Talvez quase fosse.
“Todos os dias antes de dormir Lembro esqueço como foi o dia Sempre em frente Não temos tempo a perder” dizia lá a canção que ela já nem ouvia mais. Talvez tenha pensado sobre “A tempestade que chega é da cor dos seus olhos castanhos” com aquela dúvida gigante. Era o que ela realmente pensava? Ela pensava demais? Mas preferia lembrar dele com o “Temos todo o tempo do mundo Somos tão jovens”, se a vida deixasse, numa oportunidade ela diria isso para ele. Ela também acreditava nisso. Por mais que os outros não pensassem isso deles, ela só queria dizer para ele o quanto os versos também faziam sentido para ela.
E ela voltou. Voltou à vida. Voltou aos bares. E numa reviravolta do Destino ela o veria novamente. Ficou fora de si. Sentiu a ansiedade devorá-la. Recorreu ao álcool. Ela agora combinava os brincos com o colar – e ninguém perceberia. Quis transformar a ansiedade em atitude. Mas aquela outra canção foi mais forte “Esse caso não tem solução Sou fera ferida No corpo, na alma e no coração” e mais uma vez, infelizmente, ela abraçou-se a isso e calou-se dentro de si – como era de costume.
Não soube dizer o que se passava. Lá estava ela – que nem parecia ela – naquele mesmo balcão, naquele bar, e o máximo que fez foi observar com afinco as mãos dele. As mãos. Aquelas mãos. Não pensava nele, não se deu nenhuma esperança, não tomou nenhuma atitude. Só olhava para aquelas mãos. Esqueceu de onde estava, não ouvia o burburinho, só via e pensava naquelas mãos.
Chegou em casa desiludida com ela mesma. Frustrada. A alma, a parte que ela mais preza, e o corpo haviam exilado-se com o coração. Destino desconhecido, não deixaram rastros nem bilhetes. Ou seja, ela era só cabeça – que, sim, tem funcionado excepcionalmente muito bem. Eles ainda não sabem conviver, pelo jeito. Era a conclusão. Ela voltaria àquele bar – tinha uns dias para decidir mas já sentia que voltaria lá. No caminho para casa viu-se com as mãos entrelaçadas sobre o peito segurando a bolsa. Ela nunca fazia este gesto. Pensava com afinco em como ela sabia lidar tão melhor com o “nunca mais” do que com o “(para) sempre”. Não era sábio aceitar o convite para voltar àquele bar. Contudo, era quase uma questão de honra. Ela havia falhado, novamente. Talvez tivesse falhado porque a canção está certa, não há solução. Talvez ela queira dar a si mais uma chance. Talvez ela só queira observar aquelas mãos novamente. Talvez ela queira mostrar que é forte. Talvez… ela queira encontrar como dizer tudo o que há para dizer com duas ou três palavras e um olhar. Talvez ela só pense em como não estragar tudo, sabendo que não há como não fazê-lo.
Ontem uma taça de vinho não foi o suficiente para suprimir o desejo por ele. Sim, agora ela o deseja. Isto é novidade. E talvez seja isso que mova os moinhos. Não é nobre, mas ajuda. Ela não tem nenhuma forma de contato com ele, nem uma foto para a qual olhar antes de dormir. Ela tem memória. A taça de vinho não foi o suficiente para fazer com que ela não tivesse decorado na imaginação aqueles traços finos dos lábios, o corte rente do cabelo, o sorriso ponto final, os olhos curiosos, as longas pernas de coxas grossas, as mãos… as largas mãos morenas com unhas bem tratadas e inquietas, o sotaque… ela sorriu tanto ontem, durante o dia, ao lembrar o sotaque. O sotaque, o jeito de andar, mais ainda o jeito de sentar. Aquela espreguiçada que ele deu numa legítima auto-propaganda.
Ela ouve canções que dizem tudo. Ela pensa nele. Ela deseja ardentemente o “nunca mais” porque é tão mais fácil. Nunca mais vê-lo, nunca mais ouvir aquele sotaque, nunca mais aquelas mãos sobre o corpo dela. Nunca mais. Ela tem pouco tempo e nem sabe o que fazer. Ela frequenta outros bares, veste suas fantasias, não tira a máscara em público. Talvez ela esteja tramando algo, uma armadilha. Mas ela sabe que ele é arisco. É preciso, talvez, pensar. Talvez ela não queira nada disso porque deseja falar de desejos, abolir as palavras e resolver tudo com a sinceridade, um sorriso e um olhar. Talvez ela saia perdendo. Talvez não. E ela aprecia muito mais as possibilidades do que as certezas.
Você não preferiria saber que alguém lhe ama do que ficar sem saber?
Quando ela sente que vai se apaixonar, acorda cedo e troca os móveis de lugar. Passa um dia inteiro em silêncio e só, trata logo de limpar cada grão de poeira espalhado pela casa. No dia seguinte, caminha à beira-mar, encontra pessoas, come camarão – diriam até que trocou de sorriso. Ela não queria, nem pensou nisso, mas é que na noite anterior sonhou com ele. E não foi desses sonhos quaisquer, nem daqueles para maiores de dezoito anos. Foi aquele sonho. Sonhou que eles eram um, como se tudo fosse tão natural. Sonhou que estavam ali, como quase sempre se encontram fora dos sonhos, e um contato que a faz acordar sorrindo e com o susto de que ele não está realmente ao lado dela na grande cama onde ela, sozinha, tanto ama se espalhar. É assim que ela passa a vê-lo. E por isso insiste nos móveis, na limpeza, faz sessões de descarrego de coisas velhas e não usadas. Ela sabe que não vai mais olhar para ele como olhava antes. Ela sabe que vai sofrer. Ela sabe que precisa dizer para ele o que sente, assim sem mais, sem artimanhas e com um “não me leve a mal” no final da frase. Dizer o que sente não é o mais sensato – lhe afirma a razão. E a razão, ah! a razão!, vai fazê-la meter os pés pelas mãos logo mais. Não há como dizer que o coração tem sido ouvido – ele ouve as canções açucaradas, procura livros com parágrafos suspirantes, até assiste às novelas para encontrar redenção. Novelas são muito sábias nessas horas. Sem ela perceber, seu coração – o calado até então e por enquanto ainda será um tanto ignorado – faz as vezes de personagem, calcula artimanhas, prevê obstáculos entre mocinhas e vilãs. Então talvez seja melhor recorrer aos filmes, pois nessa história os papéis de mocinha e de vilã não estão bem definidos. Nas novelas, tanto vilãs quanto mocinhas amam (sempre fica a impressão de que vilãs amam mais e mais apaixonadamente), porém, só as mocinhas viverão felizes para sempre. Ela ainda não sabe se quer ser feliz para sempre. Ela ainda está sentindo, pela primeira vez, a falta que ele faz. Ela decide e desdecide, várias vezes ao dia, declarar-se. Mas declarar-se é imprescindível! Caro leitor (homens são mais vaidosos e irresponsáveis que mulheres), você não preferiria saber que alguém lhe ama do que ficar sem saber?! Dizem por aí, aqueles que o descobrem, que amar é bom, mas ser amado é ainda mais sensacional. E você, leitor, pense em uma declaração de amor surpresa na sua vida e imagine mil implicações e problemas decorrentes dela. Ainda assim você quereria ouvi-la? Vejam que a situação dela é digna de ternura. Não se apaixona há séculos. As últimas vezes nem foram assim, foram bem mais diretas, simples e livres – apaixonou-se pelo caminho e só. Ela já nem queria mais se apaixonar. Tentou, é verdade, uma vez ou outra. Não teve êxito. Já pensava que seu coração, o mudo, resolvera viver com outras paixões menos vivas e menos dependentes. Andava tendo sonhos pesados com o passado, como se precisasse relembrar tudo de ruim que pode acontecer com quem se apaixona. Eis que naquele dia sentiu que o sonho poderia ser revelador, ela poderia apaixonar-se novamente. Entre resistência, grãos de areia sugados metodicamente pelo aspirador de pó, pôr-do-sol e mar, ela abraçava com carinho a idéia de apaixonar-se novamente, toda noite quando puxava a coberta, ligava o ventilador e desligava o abajur. Era neste único momento, sozinha em completo silêncio, que ela avaliava a beleza do sentimento tão puro, divertido e nobre que ela sentia nascer aos poucos dentro de si. Ali ela aceitava. Ali ela assumia. Ali até deixava-se crer correspondida ao analisar minuciosamente gestos e falas. No resto do dia, suspirava e sorria. As pessoas reparavam, ela sorria mais. Ela chegava em casa, com as luzes apagadas caminhava até a varanda e ficava lá observando as nuvens passeando sobre os morros à beira da praia. Havia se entregado totalmente às canções. Não ouvia mais nada nem ninguém, é verdade. Nem revolta sente, não tenta bravamente trocar as lerdezas do amor por horas de trabalho a fio. Gosta do tempo. Acredita que foi ele que a jogou tão exatamente nesta barca. Ela apaixonou-se, vejam só, talvez já seja fato. Ela pode escolher viver assim por algum tempo até decidir guardá-lo com ternura no lado direito do peito – o arquivo morto, como todos sabem – se a vida, as coincidências ou até, quem sabe, o Destino (que nem deveria ser citado) não lhe pregar mais nenhuma peça. Ela já fez isso algumas vezes. Ela acha que ninguém é obrigado a saber que é o protagonista dos seus sentimentos. Talvez, vejam só, ela guarde coisas demais para si. E, menos suposição e quase certeza certa, seja o mais importante elo entre ela e ele: ele a faz tirar as coisas de dentro de si. Fato notável, tenham certeza. Isso a desconcerta. Porque ele também lhe mostra o que traz na alma. Isso, enfim, a desconcerta ainda mais. E é por isso que ela está pensando e não pensando tanto se deve declarar-se. Ninguém percebeu, mas ela voltou a ler os russos (lê escondida, não comenta, não cita). É mau sinal. Os russos sabem que não há finais – quem dirá finais felizes – para essas histórias. Ela aprendeu essa dor com eles. Quem dera ela tivesse recorrido aos filmes, aqueles das fórmulas prontas. Ela estaria planejando uma declaração sincera, direta, com o “não me leve a mal” e imaginaria os beijos e abraços que se seguiriam. Os russos… ela não deve estar imaginando uma boa recepção à declaração se entregou seus pensamentos a eles. E, assim, ela não quer perdê-lo de vez. Eis, talvez, a única parte mais certa de toda a história: nem o “não me leve a mal” pode salvar um possível afastamento total. Pensando bem, caro leitor, ela está entre perder de vez e perder de vez. Só ocorre que numa das opções ela terá dito que se apaixonou, sem culpa, sem desejo. E é esta opção que pode abrir mais caminhos – sejam russos ou hollywoodianos. Além de provavelmente inflar o ego amorístico de um homem que talvez mereça isso. Caso ela insista em não declarar-se apaixonada (como se já não fosse evidente para as pedras da praia, para as árvores da estrada, para as malas mal arrumadas) não descortinará possibilidades e o frágil caminho que há, em pouco tempo (sem metáforas aqui), se fechará de vez. E aí só restará o arquivo morto um pouco mais adiante. Há quem não goste ou não reflita por alguns segundos ao se ver como protagonista do apaixonamento de alguém? Há? Ela queria ter esta certeza. Ela pensa na razão que ajudou-a a, de verdade, apaixonar-se. Foi esta amiga que fez com que ela visse com ele que as coisas têm seu momento exato na vida. Não seria, então, um abuso calar o seu estar apaixonada se isto lhe acontece justo agora? Poderia ter sido mês passado, poderia ser só em março. Não foi. Talvez ela queira ouvir conselhos. Talvez ela queira prostrar-se diante de alguém em quem confia e contar que está apaixonada. Como um teste, talvez. Tirando pela reação das pessoas ela será induzida a declarar-se para ele, ou não. Caro leitor, não sei a sua sugestão, mas deverias induzi-la a não fazer isso pois as pessoas são muito mesquinhas quando atentam para os sentimentos alheios. Ninguém prestaria atenção no mais sincero pedido do coração dela, o “não me leve a mal”. E aí ela se consumiria em acreditar que ele também não levará isso em conta. Pode haver um grande mal em declarar-se apaixonada, sim. Mas, russos e hollywoodianos hão de concordar que ninguém fica imune a uma declaração de amor. Digam isso a ela, por favor?
Desafio: falem bem de mim
Minha mãe sempre diz uma coisa (e coisa que mãe diz a gente deve levar a sério) que já reparou em como pais falam mal dos próprios filhos. Ela conversa com alguém e lá vem a pessoa (de alguém praticamente desconhecido até o parente mais próximo) a falar mal do próprio filho. Ela fica indignada com isso. Sempre a ouço dizer que ela nunca fala mal dos filhos dela para quem quer que seja. Bem, não queria dizer nada, mas ela nem tem o que falar mal dos filhos dela. Minha mãe tem excelentes filho (sim, advogo em causa própria) e tem mais dois pontos super positivos sobre o causo: não fala mal das pessoas e ama os filhos. Era sobre isso que eu pensava em escrever quando me veio essa análise que ela faz: falar mal dos outros.
Todo mundo diz que é errado, mas quantos andam por aí fazendo exatamente isso? Digo falar mal mesmo, por maldade, não digo criticar ou ater-se a fatos. Inventar ou destilar veneno por seus recalques, por exemplo.
Sempre me acusaram de excesso de sinceridade. Mas, gente, sinceridade é uma coisa em si, não há como ter “excesso”. E, sim, não me falta sinceridade. Já chegaram a me dizer que é bom o jeito como eu sou, sincera, mas que não precisa ser “tanto”. Tanto? Mas se eu for “menos” sincera estarei, ainda assim, sendo sincera? Claro que não. Não falto com a sinceridade. Doa a quem doer (inclusive a mim). Aliás, pensava nisso esses dias sobre as respostas que as pessoas me dão. Por favor, sejam sinceras comigo. Não inventem, não digam por dizer, não tentem agradar. Se eu faço uma pergunta, não diga “sim” querendo dizer “não”. Fico muito revoltada com isso. Sério. Custa tanto assim ser sincero ou as pessoas já nem sabem mais o que é ser assim? Será que elas andam por aí trocando sins por nãos para evitar isso e aquilo que já nem se dão conta da diferença que há? Pois eu queria que as pessoas fossem mais sinceras comigo. Simples assim. E é aí que a sinceridade entra na questão do “falar mal”. Falar mal dos outros pelas costas é, sim, faltar com a sinceridade. E, consequentemente, é falta de caráter.
Escrevo alguma novidade? Pra mim, não. Porém, acredito que muita gente por aí não pode nem ouvir falar nisso – imersas que estão nesse mundinho de redes sociais virtuais e reais nas quais se prestam ao papel de falar mal dos outros.
Entrar na minha vida é fácil (muito fácil), seja num encontro qualquer num ônibus, num tropeço no cinema (vocês já viram a propaganda da Cinemark?!), no mundo virtual, nas ruas de tantas cidades, na aula, no trabalho. Basta me encontrar e com alguns gestos ou palavras (ou com os dois) você já terá entrado na minha vida. Dificílimo mesmo será manter-se nela. Garanto que não é nada fácil, requer muitos princípios, qualidades, paciência, disposição e tantas e tantas outras coisas. Por isso, falar mal de mim por aí (como tanta gente faz redundantemente) é facílimo. Quero mesmo é ver você destacar-se do senso comum e falar muito bem de mim. Aí eu quero ver.
Sempre achei engraçada essa relação do fácil e do difícil. O povo gosta do primeiro, vai correndo pra ele, beija, abraça, já puxa a poltrona, liga a TV e sente-se confortável. Eu gosto mesmo é do segundo. Não sou muito chegada no comodismo, bem se vê. E sabe qual o abismo que há entre os dois? Pensar. Pensar sempre te leva para o caminho mais difícil. Ignorar-se, evitar pensar e atrelar-se aos pensamentos alheios é o convite do “fácil” – tanta gente aceita. Deprê, né? Eu acho. As pessoas preferem não pensar, juntam-se a uma orda de gente que faz tudo igual, vão pelo mais fácil, ficam aí pelos cantos falando mal dos outros, cometendo maldades, esquivando-se de prestar contas dos próprios atos.
Eu? Eu tenho a consciência tranquila. Sinto a incapacidade de fazer mal, ou sequer desejá-lo, a quem quer que seja. Também tenho uma lista – bastante povoada, é verdade, desde pessoas que nunca me dirigiram a palavra até parentes bem próximos – de gente que já me fez muito mal, me prejudicou diretamente, me sacaneou, e aos quais eu poderia desejar todo o mal do mundo. Não o faço. Não sinto nada dentro de mim que me permita desejar mal a quem quer que seja. É só uma incapacidade mesmo – alguns até dizem que eu deveria “dar o troco” e essas coisas. Simplesmente tiro-as da minha vida. A vida é coisa boa demais pra pesar com gente desse tipo. Por isso eu disse que é fácil entrar na minha vida, dificílimo é manter-se.
Hoje até prefiro que me chamem de arrogante – prefiro a arrogância à ignorância.
Eu faço tanto bem às pessoas (vide inúmeras declarações que ouço constatemente), desperto coisas tão boas nelas, faço com que elas vejam a vida de outro jeito, que não tenho porque perder tempo da bela vida fazendo o mal – nem que seja só falar mal. É um dom que eu tenho, faço bem às pessoas. Ninguém pode me acusar de ter tido falhas como profissional, como parente, como namorada/caso/affair, nem de ter sacaneado ninguém, passado a perna, essas coisas. Podem me acusar de ter deixado uns corações partidos (ou desejos não saciados) por aí, é verdade. Quando falam mal de mim é por algum tipo de recalque, dor de cotovelo, problemas psicológicos, sei lá. Nem vou me alongar em imaginar porque as pessoas escolhem o caminho mais fácil e vazio – a escolha é delas.
Está lançado o desafio: quero ver andar por aí falando muito bem de mim. Quero só ver.
