Num corredor do supermercado…

 

Às vezes acho que tenho os pensamentos mais impróprios para os lugares onde estou.

Esses dias saí e enquanto caminhava me duelei com uma das teorias que fico formulando nas horas menos vagas. Horas depois, quando cheguei em casa, sabia exatamente onde, qual música tocava no mp3, como eu andava, o que eu vi – tudo passava como um filme colorido na minha cabeça – quando estava duelando com a teoria na rua e por nada desse mundo conseguia lembrar qual era a grande questão acerca da teoria. Dias depois, do nada, lembrei. Volta e meia essa teoria reaparece nos meus pensamentos.

Ela é simples e boba. Não vale nem o tempo de leitura de vocês.

Há tanto tempo tenho a teoria de que encontrarei o amor da minha vida num supermercado. Um olhar, um esbarrão, uma coincidência boba qualquer. Convivo com essa idéia e muitas vezes lembro dela quando entro num supermercado. Passei aí mais de um mês sem entrar em um supermercado e quando o fiz semana passada nem lembrei da teoria – me preocupava encontrar espigas de milho com qualidade e bom preço para fazer um estoque. Nem vou dizer que tinha, comprei bastante (agora somos em quatro para dividí-las!) e ainda vi um homem vendendo na estrada e outro em frente ao restaurante onde fui no dia seguinte. Depois de meses sem em dois dias havia milho para todos os lados. Mas essa é outra história.

Então tenho essa teoria. Às vezes caminho despercebida pelo supermercado pensando na teoria. Normalmente não gasto muito tempo em supermercados. O que, aliás, diminuiria minhas chances de encontrar o amor da minha vida.

A teoria não tem nada de romântica, é verdade.

Mas não me vejo encontrando o amor da minha vida no carnaval, por exemplo. Amor no carnaval, só de carnaval – como diz aquela belíssima canção cantada pelo Jair Rodrigues (aliás, ele é uma simpatia e o show dele é uma loucura!). Mamãe e papai não querem que eu case porque acham que é cedo (para eles sempre será) e saudade é coisa boa que dá e passa.

Eis que há um tempo, encontros e desencontros da vida, pensei em reencontrar um grande amor da minha vida num avião. Ponho mais fé e romantismo no encontro num avião (sem aquele clima de “foi por medo de avião que eu segurei pela primeira vez a tua mão”) do que num supermercado, é verdade. Num aeroporto não. É difícil eu encontrar alguém num lugar assim porque meu estado de espírito é sempre aéreo demais (só por milagre encontrei minha mãe no de Brasília). O “aéreo” não foi piadinha infame. Meu nome não é à toa, ele diz tudo a meu respeito. Tudo.

Eis, então, duas boas possibilidades. A eterna do encontro num supermercado e a do avião. Cada uma delas traduz um perfil de “amor”. Era sobre esses “perfis” que eu tenho pensado nos últimos dias… culpa do Christopher. Mas essa é, ainda, outra história.

Quando eu caminhava naquele dia, o que me trouxe a teoria à tona (eu não ia ao supermercado) foi que nunca imaginei encontrar o amor da minha vida numa livraria ou num sebo. Fiquei, então, me perguntando porque diacho eu nunca havia pensado nisso. Uma boa parte do caminho foi para entender porque eu não pensava no meu príncipe encantado em meio a livros… de cara tive duas boas respostas e, bem, fui veemente o suficiente para me convencer a mim mesma delas. Há lugares que dizem muito das pessoas que os frequentam. Essa foi a teoria que nasceu da discussão. Provavelmente esta teoria nasceu carregada por alguns traumas que já tenho na vida com pessoas que frequentam sebos e livrarias. Mas ficou de pé.

Li um livro esses tempos que me fez pensar que nunca vivi certas cenas tão clichê de cinema – e me levou a perguntar se elas só existem nos filmes. Há cenas no cinema e na TV (bastante frequentes) de casais que se encontram (por acaso ou acasos calculados) nos corredores de supermercados. Acho que não é daí que vem minha teoria. Mas nunca vivi a cena de entrar num bar/restaurante e um cara se interessar de cara por mim e perguntar se pode sentar comigo – bem, a probabilidade de ele ter um “não” como resposta é enorme. Sabe esse tipo de cena? Ou no ônibus. Sei lá. Tem aquela do cara mandar um drinque pra tua mesa. Tinha mais uma ou duas que não me recordo agora. Escrevendo lembrei de uma cena que provavelmente existe em algum filme mas que já vivi. O cara chega e puxa conversa na praia e pede pra sentar do teu lado. É tão chato. Teve um mineiro ali no Campeche, uma vez, que foi muito chato. Eu sou a pessoa mais disposta a dispensar indiferentemente esse tipo de abordagem. Sério mesmo. Sou boa nisso. Aliás, eu vivo sozinha, e se me verem sozinha por aí não é porque estou aberta à abordagens ou infeliz sozinha. É um modo de vida. E tenha certeza que na quase totalidade dessas vezes eu quero estar sozinha. Aliás, em certos programas e passeios eu detesto companhia.

Foi aí que somo dois mais dois e fico pensando que se o amor da minha vida me abordar num supermercado eu poderei mandá-lo pastar com certa desenvoltura. Sou dessas de correr o risco, o tempo inteiro, de ver o amor da minha vida passar por mim e ainda despachá-lo com indiferença.

Christopher me fez pensar que sim. Porém, me deu uma certeza do que eu considero amor. Ah, sim, sou a mesma adolescente que teve suas teorias de que era só uma palavra para encobrir os coitos e os interesses. Ainda acho esta teoria válida. E a concorrente dela também.

Dentre os tipos de amor, desisti do que eu sempre vivi. Abracei, de vez, aquele que eu sempre admirei e fiz fé. Os outros são só inventados.

Se eu encontrá-lo num corredor de supermercado ou sentado ao meu lado num avião… quem sabe. Definitivamente não encontrarei-o nos corredores de um sebo. Nem num bloco de carnaval.

Como diz a outra canção, não ofereço quase nada. Nem quero tralhas nem medos nem ais, como diz, ainda, outra canção. Christopher me lembrou tanta coisa, das histórias de amor que existem sem um único beijo (e não são as platônicas ou não correspondidas), e o que de fato faz existir o amor em mim. É só nesse amor que acredito. Sempre foi, mas sempre me deixei distrair… como quando passamos pelas prateleiras dos supermercados olhando sem ver.

 

 

Você só precisa saber

 

Você precisa saber que eu não ligo a TV aos domingos. E quando eu começo a gostar de alguém, me afasto de propósito porque sinto que a pessoa não vai gostar de mim como eu dela. Não posso mais viver amor não correspondido. Saiba que eu durmo todos os dias – todos – com o ventilador ligado. Me visto mal, tenho um gosto brega para cores e estilos. Nunca comprei um esmalte nem um livro repetidos – nunca. Mas não sou do tipo sistemática, não faço listas, nem cadastros, nem catalogo nada – detesto isso, acho doentio. Você só precisa saber que tenho muita prática em arrumar malas e dizem que sempre levo bagagem demais – não é verdade. Numa briga, não sou comedida nas palavras e acabo sempre fazendo discursos. Não queira brigar comigo, detesto brigas e elas me esgotam. Às vezes, fico em silêncio olhando para o nada. Eu sofro sozinha e calada. Tenho manias, mas até essas mudam de vez em quando. Já passei dos vinte e cinco anos e ainda uso franja e como algodão doce. Eu imponho certas regras que devem ser quebradas. Tenho claustrofobia. Desmaio em lugares públicos. De vez em quando tenho dores de cabeça, não para usar como desculpa para coisa alguma, são dores de cabeça inexplicáveis e, ao que parece, incuráveis. Elas surgem, me deixam irritadiça, nervosa e depois somem. É difícil eu avisar que elas são a causa de algum destempero meu. Eu amo água. Amo banhos. Já passei dos vinte e cinco anos mas tomo nescau todo dia e minha mãe vai ao médico comigo na maioria das vezes. Dizem que sou anti-social, antipática. Posso até ser, mas só com quem merece. Eu fujo das pessoas. Normalmente o que eu digo não era bem aquilo que eu queria dizer, cabe a você descobrir. Não tolero que mexam nas minhas coisas. Eu tinha completa aversão a incensos, hoje quase não passo um dia sem acender um. Saiba que eu posso não gostar de telefone, mensagem, bate-papos… mas por um bom motivo-alguém os uso com excelente habilidade. Saiba, também, que me apaixono fácil demais sem nem ser amor. Nessas horas nunca tive coragem de dizer a verdade. Saiba que eu tenho sonhos que você nem ninguém jamais vão saber. Ah, eu acredito em sinais. Eu fico prostrada diante de certas manifestações humanas como a fé, a coragem, a dor, a tristeza, a indignação. Já vivi, já sofri, e não trocaria minha vida por nenhuma outra – digo isso hoje e direi o resto dos meus dias. Às vezes me afasto, sem querer, porque não confio em ninguém e só eu entendo isso. Se você precisa que confiem em você, eu não sirvo. Eu adoro aprender. Eu me saboto. Sou muito condescendente comigo mesma. Não tenho – e, ah! nunca tive! – disciplina. Não consigo. Sou que nem peru, sofro de véspera. Crio histórias antes delas acontecerem. Fico na cama criando vidas, encontros, desastres, despedidas que nunca vivi – e em alguns casos nunca viverei. Detesto noites de domingo. Acho que elas são tristes. Não tenho o costume de acordar cedo, mas adoro fazê-lo – desde que não seja por obrigação. Detesto ser acordada, isso me deixa de mau humor. Eu não entendo as pessoas. De vez em quando deixo o coração falar, mas desconfio que ele é gago. Tenho sonhos (aqueles enquanto dormimos) loucos, insanos, extraordinários e eles fazem muito sentido, sonho com coisas, lugares e pessoas dessa vida e de outros mundos. Às vezes até gosto de contar os sonhos que tive. Meu inconsciente é um turbilhão. Não tenho a consciência tranquila. Fico horas remoendo fatos, frases, questões. Eu gosto do abstrato. Não gosto de quem não reflete sobre (quase) tudo. Adoro espelhos. Adoro vidros e tenho pavor de me cortar com eles. Saiba que eu nunca doei sangue e não sei se teria coragem de doar por alguém especial. Eu tenho coleção de conchas do mar e de pedras semi-preciosas. Eu gosto de pedras. Saiba que já fiz artesanato pra vender na escola e que já trabelhei com recepcionista e balconista. Já mandei cartas anônimas (e já li na constituição que isso é crime). Não sou doente por chocolate.

 

Saiba que sou assim, de pequenos e grandes detalhes. Nunca esqueça de me contrariar. Eu me afastar sempre diz muito mais do que a minha simpatia e meu lado prestativo. Muito mais.

 

Você só precisa saber disso, seja lá quem você for… assim, como num baile de mascarados da canção do Chico.

 

 

Os homens da minha vida – Anúncio de jornal

PROCURO HOMEM – De 16 a 55 anos.

Para relacionamento nada sério, mas divertido e que seja, todos os dias, interessante. Requisitos básicos: Goste de boas conversas, de preferência que tenha algo a dizer. Que aprecie mais a convicção do que a certeza. Tenha sempre as unhas aparadas e bem feitas (inclusive as cutículas) e as mãos e pés bem cuidados e macios. Que seja inteligente, independente de títulos e diplomas. Que saiba fazer as pessoas sorrirem mais do que rirem ou gargalharem. Que ame ler – não só livros técnicos, acadêmicos, a seção de esportes do jornal ou a Playboy – inclusive bons livros de ficção e poesia. Que goste de música – não precisa ser nenhum expert ou profissional da área – principalmente música brasileira, como o samba (se não, não seria bom da cabeça ou do pé). Por falar em samba, que já tenha amado de todo jeito e que já tenha sido amado, já tenha dado pé na bunda e já tenha levado, até, quem sabe, que já tenha sido traído (mas que jamais tenha traído a si mesmo), que já tenha vivido esses amores de samba e que entenda alguém que viveu amores de Cazuza. Preferência para quem gosta de tatuagem. Alguém que saiba apreciar o ócio e o dolce far niente e que tire de letra os dias de trabalho exaustivo. Que nunca pronuncie “estou cansado”. Que goste muito de bichos e flores e plantas. Que adore deitar na rede. Que ame praia, o sol, o mar, a areia, que goste de chuva e pare para ver o pôr-do-sol. Que saiba a delícia que é virar madrugadas – fazendo inúmeras coisas deliciosas. Que viva ocupado mas que tenha sempre tempo para mim. Que tenha mania de organização mas saiba quando é o momento da bagunça. Que sinta prazer em degustar um bom vinho, algum drink e até uma boa cachaça. Que adore viajar, pela terra, pelo céu, pelo mar. Que seja um pouco egoísta. É essencial que faça as coisas por si e para si, jamais pelos outros ou para os outros. Requisito muito necessário: que tenha imaginação e goste muito de fantasias (não necessariamente as de carnaval – por falar nisso, que não despreze o carnaval e uma bateria de escola de samba). Que seja piegas de vez em quando. Que seja sexualmente bem resolvido com o seu corpo. Que goste de inventar – coisas, programas, palavras, surpresas. Aliás, que não tenha medo de surpresas. Exigências: que leve os sacos de lixo para fora e troque o saco do aspirador de pó. Que saiba fazer pequenos consertos em casa e no carro. Que goste de fazer coisas (inclusive fantasias) ao ar livre. Que não reclame do frio quando fizer frio nem do calor nos dias quentes. Que goste de tomar banho de mar. Que passe um dia ou outro jogado no sofá debaixo das cobertas, assistindo seriados. Que goste de filmes (de todos os “gêneros”) e mesmo sendo mais barato e prático assistir em casa, que ainda valorize o encanto de uma ida ao cinema. Que não more sempre no mesmo lugar. Que não tenha medo (ou se tiver, que o encare) de mudanças. Que peque mais por fazer do que por deixar de fazer. Que tenha um sorriso lindo e olhos que digam o que pensa. Aliás, que pense sempre. Que goste de banhos de chuva e de observar a lua. Preferência para os que não gesticulam o tempo todo, mas saibam sempre quais os gestos exatos. Que tenha atitudes de homem – não de pirralho. Que não goste de café. Que saiba cozinhar bem, limpar, lavar e passar. Que nunca durma durante uma conversa. Que saiba elogiar quando eu usar uma saia, um vestido, um decote. Que tenha orgulho de quem anda ao seu lado – sem transformá-la num troféu. Que goste de crianças (e entenda como cuidar delas) e que queira ter filhos. Que não assista muita TV e que não goste dos canais Discovery. Se gostar de futebol ou esportes, que pelo menos dê intervalos para outras coisas (gostosas) durante a programação. Que não faça drama – de nenhum tipo. O ideal seria que não tivesse família e morasse sozinho. Na impossibilidade disso, que não tenha amor de mais nem de menos pela mãe, que não seja uma cópia do pai e não tenha irmãos aproveitadores e tias fofoqueiras. Que saiba fazer brincadeiras e piadas sem parecer um menino da quinta série. Que saiba ouvir elogios sem precisar deles e sem deixar inflar o ego. Que reconheça quando faz algo errado. Que saiba seduzir sem fórmulas prontas e repetitivas. Que precise variar sempre, em quase tudo. Que goste de janelas e varandas. Que goste de ver os aviões pousando e aterrissando, ou apenas cruzando o céu. Que entenda sinais. Que entenda riscos e perigos e não deixe de fazer nada por medo de encará-los. Que saiba dizer o que sente e que sempre o faça – e que saiba me ensinar isso. Que goste de mesas de cabeceira. Que chore – somente nos momentos de extrema dor ou alegria. Que seja explosivo – sinta mais indignação do que tristeza. Que seja crítico – mas não chato. Que goste de jogar, por mera distração, nunca por competição ou vício. Preferência para os que não gostam de videogame ou jogos no computador. Que goste de andar à pé, de longas caminhadas. Que fale abertamente sobre sexo. Que nunca grite – nem comigo nem com ninguém – mas que saiba quando é preciso falar grosso. Que discuta idéias, opções, propostas – jamais banalidades e besteiras. Que seja fiel a si mesmo, a tudo e a todos, menos ao dinheiro. Se gostar do poder, enfim, é aceitável. Independente da altura, do peso, loiro ou moreno, que seja sensual. Que goste de rebolar. (não é eliminatória, mas será levado muito em conta se tiver coxas grossas) Que dance mesmo sem saber dançar. Que nunca fique brabo por mais de três horas. Que goste de abraços – e que me ensine a gostar também. Que tenha muitas coisas a me ensinar. Que fale por horas, com paixão, daquilo que faz e gosta e me deixe fascinada por isso. Que coloque paixão em tudo o que faz. Que nunca corte o cabelo muito curto – deixe, no mínimo, aquele tanto para eu ter onde passar a mão, agarrar e puxar. Que saiba fazer massagens. Que saiba qual o lado do garfo e o da faca ao arrumar uma mesa. Que não reprima gemidos de prazer. Que seja espontâneo. Que beije muito, indiscriminadamente. Que tenha sintomas de ser possessivo e que transborde sinceridade. Que seja um ótimo amigo. Que goste de experimentar. Que goste de dar e receber presentes. Que leia pensamentos. Que, de vez em quando, olhe para trás. Que não use relógio. Que não tenha muitos pêlos, mas que não depile peito, pernas e braços. Não há exigências quanto ao estado civil, se possui filhos, profissão, cor da pele, signo do horóscopo ou número do calçado.

Contatos por aqui mesmo, ou nas esquinas da vida.

(em casos de não cumprir algum requisito ou cumprir mais uns que outros, serão todos analisado)

{Aos que exclamarem (em tom de galhofa ou crítica) “Quer um perfeito, então?”, direi que não sou perfeccionista (e, aliás, prefiro que ele também não seja), apenas sou detalhista.}

Sorte dupla e um tango

“- Oi, moça, você é daqui?

– Sim…

– Sabe dizer se andando por essa praia chega àquela outra?

– Sim, chega sim. É como se fosse uma só.”

E assim começou a minha caminhada pela praia hoje. A menina que me fez a pergunta estava acompanhada do irmão e da mãe que segurava ansiosa uma câmera fotográfica. Ela me fez a pergunta com alegres olhos arregalados. Todos pareciam surpresos e inebriados com a resposta.

Eu arregalei os olhos quando respondi que era daqui. Poderia responder que não sou daqui, mas também não sou de lá, não sou de lugar nenhum, mas vivo feliz demais aqui e lá, acolá também, e nesse meio tempo passo por ali… a resposta soaria insana demais, eu sei.

Foi mais um daqueles dias sublimes. Não adiantaria eu descrever cada mínimo detalhe, vocês não entenderiam. As coisas que surgiram, as que seguem em construção, as conquistas que dependem de alguns cálculos aqui e ali para dentro em pouco me deixarem com aquele sorriso mais enigmático e satisfeito. Fato é que ninguém entenderia. Eu entendo, isso nos basta, não é mesmo?

Durante o dia, enquanto esboçava minha criatividade culinária alimentada por desejos especiais, lembrei de uma história do ano passado que acho que não contei aqui (ou apenas citei superficialmente). Tenho muitas histórias e impressões de tudo o que vi e vivi ano passado que penso em publicar aos poucos por aqui. Ainda são muito presentes, deixarei que virem memórias.

Numa tenda na praça ali do Centro Cívico, em Curitiba, tinha a praça de alimentação da Virada Cultural, mais voltada à comida oriental. Claro que meu desejo por rolinho primavera e yakissoba dominaram. Mas, enquanto comia, vi um rapaz andando com uma cesta cheia de biscoitos da sorte. Catei umas moedas e disse que iria lá comprar uma sorte dupla, pois queria dois pra mim. Sei lá, eu tenho um dom pra sorte. Aí comprei três. Voltei, dei um pra minha mãe e coloquei os dois na minha frente. Todos me olham. Minha mãe agradece e minha irmã faz cara feia. Pois é, eram dois pra mim e um pra minha mãe. Eu disse que queria sorte dupla. Mas, sou uma boa irmã, sabe… fiz que era brincadeira e dei um pra ela.

Nem lembro o que saiu nos delas… mas eis que quebro o meu e… dois bilhetinhos da sorte dentro de um biscoito! Minha fama de “bocuda” (no sentido de dizer coisas que acabam acontecendo) já é grande. Era só mais um exemplo. Quando li os dois bilhetinhos senti, num breve momento, que a sorte anda ao meu lado. Como andou 2012 todo.

Por isso, hoje enquanto cozinhava lembrei das duas frases e aquele sorriso ficou dançando nos lábios… me deliciando com as certezas mais inexistentes do mundo.

“O bom caráter é consequência natural do pensamento profundo” e “Você terá uma capacidade refinada para desfrutar a vida”. Eu ria, ao ler as duas, e quando li em voz alta ainda complementei que eram feitas para mim, minha sorte dupla.

Quando eu tenho esses momentos que não posso descrevê-los, quando as coisas acontecem e eu sei o que elas significam, quando aproveito as horas do dia como fiz hoje, eu lembro da tal capacidade refinada… conheço bem poucas pessoas que podem, talvez, entender e praticar isso. E o bom caráter me parece tão óbvia, pensar, pensar, pensar… com bom caráter nós alcançamos a capacidade refinada. As duas vieram juntas porque não podem, em mim, viver separadas. Ninguém entenderá. Me julgam, me condenam, fazem cara feia, tentam mudar quem eu sou… tudo em vão. Como diz a canção, carrego em mim um “sentimiento de vida llena”. É difícil, praticamente impossível, dividir, compartilhar, expor isso a alguém. Meu mundo, minha vida, meu olhar sobre as coisas. Confesso que é divertido ver as reações, desesperos e caras horrorizadas (além de algum desprezo, inveja – mas não quero falar de coisas ruins!) quando tomam parte ou tentam conhecer este mundinho aqui.

E ninguém viu a coroa lilás-rósea que o mar e as ilhas ganharam hoje no final de tarde. Nem ouviu aquelas canções deliciosas e tão, mas tão, marcantes enquanto pisava forte na areia fofa e chutava as espumas brancas das ondas olhando para um céu com uma estrela mais brilhante que todas e aviões que o cruzavam vagarosos. Ninguém além de mim.

Que venha a madrugada, o incenso de rosas vermelhas, o vinho, as boas palavras… e quem sabe algum tango.

O coração, a cabeça e o corpo: para não esquecer o leitmotiv do blog

Bem que eu queria ter uma resposta, mas não a tenho. O que 2013 trará? Não sei. Lá se vai a primeira semana e ele ainda se mostra obscuro.

Fiquei com a leve impressão de que teremos alguns ineditismos também este ano. Mas a impressão mais forte mostrou-se com a idéia de que este ano dependerá das minhas ações. Ah, ações vêm de decisões… e decisões de uma pisciana?!

Aqui no meu reduto, de onde faço questão de não sair antes de março, aqui onde já passei dias solitários maravilhosos, onde já fiz algumas dúzias de bobagens! Aqui onde o tempo parece não passar. Sim, a dez anos atrás não havia internet, nem televisão, nem telefone… e era tão melhor! Eu vivia mais. Colocava algum disco para tocar, lia meus livros na rede e vivia reclusa em casa, nem à praia ia. Uma vez ou outra ia tomar sol no quintal (aliás, esse quintal tem cada história para contar! daquelas que jamais contarei aqui!), cozinhava, cuidava da casa, do meu anjinho, lavava roupa. O tempo parava. Eu vivia. Os anos passaram, já tem 3G, telefone pega (só da TIM não, oh, wait!), tem TV e antena… e a minha vontade de solidão e reclusão continuam as mesmas. O meu dolce far niente também. Ah, a enorme vontade de fazer bobagenzinhas também! Ah, o ócio! Ah, as noites pensativas! Ah, o calor do Verão! O simulacro do vazio casado com um ócio e uma imaginação danada de boa fazem desses dias algo memorável. Parece que eu amo mais, parece que me entrego mais em tudo, parece que vivo apaixonada, que vivo nas nuvens num plano de eterno prazer. Não só “parece”…

Aliás, o coração anda vazio. Começamos 2013 num ineditismo e tanto! Desde a primeira vez que me apaixonei (lá se vão muitos e muitos anos – vide o post Os homens de minha vida), sofri tanto, num beliche desses aqui mesmo, ao acordar chorando e sentindo falta daquele “amor”, e desde então passei somente um Verão com o coração desocupado. Aliás, é justamente quando ele está desocupado que mais parece “ocupado”. Lembro do outro Verão que passei assim e eram tantas mudanças, tantas perspectivas, tanta coisa melhorando e acontecendo ao mesmo tempo que ele vivia aéreo demais para se ocupar.

Será, então, um tempo de boas perspectivas?

Porque ele anda vazio, a cabeça anda cheia, conturbada, se cobrando a todo tempo, num cabo de guerra entre o prazer e o dever, e o corpo… ah, o corpo. O coração, a cabeça e o corpo não estão, em definitivo, se entendendo. De jeito nenhum! E isso, é claro, me preocupa.

Agora mesmo o coração quer porque quer (e isso sempre basta a eles, os corações, não é mesmo?) fazer algo que a cabeça, imperiosa, tem lhe proibido há dias! E ela tem ganhado esta disputa. O corpo? Ah, ele normalmente pende para o coração! Mas tem desprezado este que gosta dos caminhos tortuosos, das conquistas, das palavras, dos gestos… ele tem dado preferência à despreocupação, à ausência de cobranças e compromissos, à plena e simples satisfação.

Eu digo, eles não têm se entendido…

Até quando a cabeça vai conseguir dominar não sei. Mas também temo um pouco isso. Porque o coração pode desanimar, ficar desencorajado… e talvez em outros cabos de guerra por aí ele já tenha perdido quando a cabeça lhe permitir agir.

E onde fico eu no meio dessa confusão?!

Eu me cobro! Eu tenho uma pilha de coisas para ler por obrigação, mais umas dúzias de páginas para escrever por obrigação. E a mesma medida por puro e simples prazer. Só aqui para eu me reencontrar tão bem. Não me preocupo tanto com as obrigações porque sei que as farei no tempo certo. Decidi que a palavra de ordem este ano será disciplina. Sim, até eu ri disso por aqui. Eu e disciplina? Piada, né. Mas eu me domino. Eu dou um jeito. Eu sempre dou um jeito em tudo. Tanto que ia deixar para começar a colocar em prática a disciplina nesta segunda-feira e acordei sábado, mudei de idéia e comecei no mesmo dia. E, até agora, está funcionando.

 

Tenho todo esse medo de que a cabeça prevaleça ao coração e ao corpo… ela pode ser dominadora, exigente e cruel demais. Ela me deixa exausta. Às vezes, ela me deixa triste… Eu preciso tantas e tantas vezes me deixar levar pelo coração e pelo corpo… senão não sou eu. Que 2013 não me tire isto, seja lá por qual razão for. Se o coração mandar, que eu obedeça. Mesmo que ele se quebre (novamente, como tantas vezes já…) depois, que eu não deixe de fazê-lo. Que eu obedeça mesmo sabendo que depois a cabeça vai passar longos e duros sermões. O corpo, bem, quanto a este a cabeça tem menos (ou nenhum) domínio. Os sermões são mais longos e duros, porém há pouco a se fazer antes. Quem sofre mesmo é o coração diante de tanto controle. Porque ele tem a melhor qualidade de todas: é espontâneo.

 

2013 começa assim, fazendo jus ao nome do blog, à intenção do blog: o desassossego. Faz jus à lembrança de que os corações não podem pensar, posto que não podem parar, e que só podem, depois, ouvir os sermões.

 

 

Too late ou tarde demais

Há um momento pelo qual já passei inúmeras vezes em todo os relacionamentos que tive. E acho que nem foram tantos assim. O momento em que ele deveria ligar. O momento que ele deveria vir com a conversa exata. Aquele momento que as palavras certas fariam toda diferença. Aquele momento de um pedido de desculpa. Ou de uma simples pergunta sincera. (sim, há perguntas sinceras, não somente respostas)

 

E esses momentos passam… todos eles sempre passaram. Quando ele ligou, quando ele veio conversar, quando brotaram as palavras certas, quando pediu desculpa ou quando perguntou com sinceridade já não era mais o momento. “O” momento, bem assim, destacado. De nada adiantou vir fora de hora.

 

A resposta que sempre me veio aos lábios foi “é tarde demais”. Mas antes de proferir essas três palavras tão cruéis, mentalmente sempre me ocorreu “too late”. Não sei o motivo, mas o “tarde demais” me parece realmente cruel enquanto o “too late” é todo carregado de tristeza, de melancolia e desamparo. E sempre me senti, nessas horas, longe da crueldade e mais próxima dos últimos. Lamentar não é um bom sentimento, mas não dá pra deixar de lamentar por alguém que, tarde demais, teve a coragem de fazer ou dizer o que deveria, o que precisava. Também, é claro, lamentava por mim… lamentava ter esperado tanto tempo por algo que veio, mas quando já não fazia mais sentido.

 

Poderia incluir na lista um desdenhoso “perdeu, playboy” (que tantas vezes ouvi de um memorável tutor), mas nenhum demorou tanto assim para receber o puro desdém.

 

Se parar para analisar, é bem fácil concluir que sou alguém que espera demais das pessoas. Alguém que idealiza a pessoa a quem ama. Sou mesmo. E quem não é? Eu idealizo, eu amo demais, eu sonho e espero demais (demais mesmo!) das pessoas. Tudo isso porque não imagino o amor de outro jeito. Se é pra idealizar, se é pra amar, se é pra pensar coisas boas de alguém, que seja pra valer. Que seja exagerado. A queda do lugar mais alto nem sempre é a mais dolorosa, posto que é mais longa, durante ela você amortece o encontro final com o chão. Quando a gente cai de lugares (expectativas) mais baixos a queda é curta e o contato com o chão é bem mais traumático. Se é pra cair, que seja bem do alto.

 

Já me propus inumeráveis vezes deixar de esperar demais das pessoas, para meu próprio bem. Não adianta. Vou continuar aqui esperando aquela mensagem, aquele telefonema, aquelas propostas, aquelas palavras, aquela conversa, aquela pergunta. Deixaria de ser eu se não fizesse assim e, de verdade, nem sei se saberia lidar com algo diferente. Eu espero. Porque ainda creio que além do período tão dedicado e deliciosamente interessante da conquista, há tantos (e tantos!) outros momentos verdadeiros e poderosos num relacionamento. Quando eles faltam, resta afastar-se. Quando eu cansar de esperar por aquelas palavras, ou quando elas vierem atrasadas, só restará um “too late”. Ou, para ser mais direta e compreensível, um “tarde demais”. A resposta a essa expressão é das coisas mais aterradoras que já vi na vida.

 

Como diz a canção, eu não me canso de esperar. E eu acredito nas coisas, porque nas pessoas já deixei de acreditar (pelo que eu me lembro). “Timing” é, por isso, fundamental. Não sei se ainda direi algum ou muitos “too late”, mas sei que ainda e sempre esperarei. Porque às vezes as mensagens, telefonemas, perguntas nunca vêm.

Não consegui pensar em nada além de corredores de supermercados

Tenho essa fascinação em, de vez em quando, criar a expectativa de encontrar o amor da minha vida pelos corredores de um supermercado. Antes de ontem me senti assim.

Essas minhas fascinações, as paixões e tantos ões podem me fazer parecer uma pessoa incompreensível. Não só incompreensível porque fica feliz feito criança pequena ao encontrar milho cozido a R$1,50 no centro e poder vir caminhando para o apartamento, de chinelo, me sentindo um pouco em casa depois de mais uma semana sem explicações. As pessoas me olhavam (reparei que por aqui não usam chinelo) como se houvesse algo… de errado? Pois eu creio que há tudo de muito certo.

 

Minha vida é uma inexatidão que constrói caminhos tortuosos, vertiginosos, confusos.

 

E hoje tive mais um ponto culminante dessa inexatidão tão perfeita que eu amo. Eu não conseguiria descrever (ah, Merleau-Ponty!), eu não saberia transliterá-lo, de nada adiantaria citar fatos e frases em sequências. Eu sei porque eu acredito, e isso sempre me bastou.

 

Talvez eu quisesse alguém para ouvir meus sonhos, meus delírios (que não passam nem perto de Becky Bloom), alguém que não apenas me ouvisse, mas lesse meu olhar, meus gestos incontidos, minha euforia, ao falar sem nexo nem sentido sobre todas as impressões (ões, ões…) que me fazem acreditar e pensar como penso. Talvez a ventania absurda que ouço aqui do sétimo andar me tenha chamado para ir lá para fora, sentar num meio-fio qualquer e ter conversas intermináveis com gosto de paixão pura, sem pensar na hora, sem se preocupar com assaltos, enrolada numa jaqueta (ou seria japona?) tiritando de frio… Talvez. Mas não há ninguém para ir lá comigo, nem para me ouvir. Não lamento nem sofro por isso. Alguém que só me ouvisse como uma coisa a mais, ou alguém que acha que me ouvir faz parte do preço para ter sexo, ou alguém que do trabalho só saberia em pouco tempo falar em cansaço, esses alguéns não me interessam. Não quero mais muita coisa e sei bem o que me espera. Tenha dessas, de saber o futuro.

 

Por falar em sétimo andar, confirmei que não posso viver em apartamento (nunca gostei!). A louca pode cair da janela ao tentar fotografar a lua linda, como fiz ontem e antes de ontem, lá entre outros prédios porque é Primavera e no Inverno ela fica numa posição mais fácil e menos perigosa de fotografar.

 

Talvez eu fique aqui, podendo alongar minha madrugada depois de semanas tendo que acordar com horário, pensando que não estou lá fora aproveitando a ventania (mais uma paixão), a noite, o frio, uma conversa desregrada… Talvez eu aproveite mais umas horas de solidão como as que tanto me fizeram falta na última semana. Talvez eu escreva, já antevendo aquilo tudo que prometi.

 

2013 começou. Começou terno, descortinando os louros de longas batalhas. Já me apresentou as certezas que sempre tive porque, na verdade, nunca deixei de acreditar.

 

Sobre 2012 posso dizer que havia aí umas dezenas de coisas para completar na lista de ineditismo, porém, sinto que a maioria delas é impublicável. Umas por censura como a dos filmes adultos mesmo, outras porque, enfim, amo meus leitores, mas devo me preservar em algumas coisas.

 

Em 2013 vou completar a lista, além de ineditismo, completarei aquela lista das coisas que sempre busquei, que construí, e agora é a hora de investir no acabamento para poder me mudar de vez. É aquela mudança de alma que vai se completar.

 

Nem antes de ontem nem hoje encontrei o amor da minha vida pelos corredores dos supermercados. Por outro lado, tenho o prazer indescritível de reencontrar as minhas paixões todos os dias. Esse amor virá. Mas amores vêm e vão… as minhas paixões, o que eu sou permanecem.

 

Escrevo para dizer que não há como escrever o que foi esta semana, de onde ela, ao longo dos anos, se formou, de onde surgiram tantas pontas, detalhes, frestas que formaram o ponto culminante de hoje e de muita coisa que virá. Mesmo se eu tivesse alguém com quem ir ver a ventania, teria escrito. Porque já contei e recontei para as pessoas que me cercam e ainda assim preciso ficar tagarelando. A euforia me permite. Não verbalizar até aquilo que não é possível dizer é para os poderosos da síntese. Eu dispenso.

 

 

Thanksgiving Day

 

Eu sou e faço certas coisas que só em determinados momentos eu consigo nomear. Acontece com certa frequência, é um exercício de auto-conhecimento e auto-análise que desenvolvo consciente e inconscientemente há tempo. Sim, posso, de passagem, culpar algumas leituras dos livros de Psicologia de papai num momento crítico da minha vida. Independente dos culpados, fato é que para alguém solitária e tão introspectiva (vá lá, Jung) esta atitude parece corriqueira.

 

E eis que ontem, durante o banho de mar naquela praia deliciosa, no mar mais gostoso da Ilha, comecei a agradecer. Agradeci tudo o que tinha para agradecer deste último ano. Meu 2012 começou em novembro do ano passado, portanto, por agora (sou péssima com datas!) é meu “Ano Novo”. O que precisava acontecer, o que precisava mudar, tudo o que deveria acontecer, começou a acontecer lá por novembro de 2011, depois de um período confuso, difícil, doloroso. Claro, não foram só coisas ruins, mas o turbilhão não me deixou seguir o caminho que eu deveria fazer para mim. Passado. E o passado deve lá ficar. Esses dias ainda me dizia silenciosamente que sei muito bem passar por cima das coisas. E como sei! Pensei isso ao ver e ouvir pessoas se remoendo sobre coisas, sobre o passado, sobre sentimentos, sobre tanta coisa… passem por cima! A vida exige isso. Senão, seremos todos mal-amados, recalcados, chatos, intransigentes. Eu ali ouvindo e lendo o que me diziam e feliz, fazendo festinha em mim mesma, por conseguir passar por cima das coisas. Caso não fosse assim, meus queridos, eu não estaria aqui. Muita gente e muita coisa já teriam me derrubado. E, sinceramente, isso não é pra mim.

 

E eis que ali agradecendo e mal conseguindo listar tudo o que nestes doze meses eu queria agradecer consegui nomear mais uma coisa que sou. Ritualística. Sim, sou ritualística. Gosto de rituais, os faço com muita frequência para muitas coisas. E ontem ali, dentro d´água, olhando para os barcos, para o mar, para o morro, para a lua, para o sol, me descobri uma pessoa com fé que precisa de certos momentos, certas preces, rituais que signifiquem e resignifiquem a vida e tudo o que vem com ela. Fiz meu ritual de agradecimento – mas Thanksgiving é só hoje! – e senti como se dois terços de tudo tivesse ficado naquela água límpida e calma.

 

Sim, Thanksgiving é hoje. Mas, queridos, eu digo que sou péssima com datas! Agradeci tudo antecipadamente porque naquele momento e naquele lugar foi que senti. Sim, me deixo levar por tudo o que sinto, sem dó nem piedade, nem de mim nem de ninguém. Não resisto a nada – mais uma constatação das últimas semanas – e esta incapacidade me faz ainda mais feliz.

 

E ali tentando enumerar tudo o que eu tinha para agradecer, dentre a revolução que estes últimos meses foram na minha vida, entre coisas “boas” e “ruins” (sim, entre aspas porque considero tudo necessário, não penso que só coisas boas devem acontecer, sou o que sou tanto pelas boas quanto pelas ruins!), passou aquela vozinha “não vai pedir nada?”.

 

Não. Não peço nada. Nunca mais. Li, faz tempo, um texto que já até citei aqui, do Thomas More (meu querido!), em que ele dizia que não deveríamos pedir nada, apenas agradecer. Naquela época, num ano que teve um tantinho (ou muito!) deste último, eu me sentia assim, com tanta coisa por agradecer depois de ter passado meses rezando e pedindo. Eu pedia pelo grande salto, pela grande mudança que se fazia necessária na minha vida, e fui atendida. A partir de então, só cabe a mim fazer o que é preciso (foi isso que eu esqueci nos anos antes de 2012!) para que tudo aconteça. Por isso, tudo o que vier, eu agradeço. Não peço mais nada.

 

Sou ritualística, tenho fé, sou religiosa à minha maneira, acompanho horóscopo, leio tarot… quando me perguntam se acredito nisso ou naquilo, respondo com o verso de uma canção: acredito em tanta coisa que não vale nada!

 

No que creio pertence somente a mim.

 

Por isso, tenho tanto a agradecer neste Thanksgiving (sei que não é tradição brasileira, mas por motivos culturais e familiares ela foi introduzida nas nossas comemorações, vejam só, antes de eu nascer! Se copiamos tanta coisa de outros países, por que não uma tão boa?). Espero que quem me lê também tenha, independente de crenças, religiões ou qualquer coisa.

 

O texto do More que eu citei é “Diálogo Sobre o Conforto Espiritual e a Atribulação”. Não vou dizer “recomendo”. Porque, sinceramente, às pessoas de pouca ou nenhuma fé eu não recomendaria e acho chato e pedante recomendar livros. Eu sei onde eu li este livro, quando. Tenho essa péssima mania de associar músicas e livros a lugares, épocas da minha vida. Até hoje sei exatamente onde e quando li os mais marcantes e importantes para mim. Lembro de cada detalhe daquela tarde em que comecei a ler Cem Anos de Solidão, sem entender nada das primeiras páginas e resolvi dormir para voltar a ele no começo da noite, já desanimada, e devorá-lo madrugada adentro. Sei até qual era a disposição dos móveis daquele quarto. Rituais. E uma memória às vezes bem sacana. So não vou colocar citações aqui porque, enfim, é mais chato e pedante e nem sempre eu faço anotações nos textos (caso deste do More).

 

Dia de agradecer, de saber que o Tempo (este amigo!) e o Destino (este velhinho safado!) são cúmplices, de ter a certeza de não correr porque tudo está no seu lugar.

 

 

Não, hoje não.

 

Houve um tempo que os dias eram anotados ali no começo do caderno, todos os dias, na aula. Cidade, estado, dia, mês, ano. Ainda hoje anoto a data em cada dia de aula. Sempre houve o tempo em que os dias não importavam. Nunca me pergunte em que dia estamos, eu nunca sei. Não sei o dia, confundo o mês, não tenho idéia do dia da semana.

 

Porque há dias que num instante mudam a vida para sempre. E não estou falando dessas bobagens do dia do casamento quando você assina um contrato ou diz sim para um padre ou do dia na balada que pela primeira vez seus olhos se cruzaram. Falo de instantes que num golpe do Destino (sempre ele, o personagem ilustre que resolveu dar sua cara no ineditismo deste ano), alheios à toda e qualquer vontade ou ação sua, mudam tudo, sem volta, sem chance.

 

E aquele instante (é difícil lembrar a hora exata nesses casos) será lembrado ad nauseum pelo resto da sua vida, por você, pelo calendário, pelas pessoas a sua volta…

 

Pois eu não quero. Não quero lembrar que dia é hoje.

 

Houve um tempo em que era um arrastar-se sofrido e masoquista necessário a cada eterno retorno. Depois a superficialidade de um pensamento “evolutivo” me fez superar o masoquismo e quase dar uma resposta às datas tão marcantes e dolorosas. Não adiantou. Porém, já tive eternos retornos menos piores.

 

Eu não vivo datas. Esqueço fácil delas. Mas sempre terá uma anotação de aula, um amigo, um calendário a me lembrar. Não quero lembrar que dia é hoje, nem que dia foi há um mês, nem que dia será amanhã e depois de amanhã… Nem aqueles dias de aniversário… nem pensar em signos.

 

Não quero.

 

“Pois qualquer sofrimento Passa mas o ter sofrido não”

 

Como só Belchior me entende, fica aqui o registro de uma percepção tão rara e exata. O “ter sofrido” é a data, o fato, a marca. O “sofrimento passa”, você envelhece, cresce, ama mais ou menos, se decepciona, reaprende tanta coisa, pára e pensa “como seria hoje, depois de tanto tempo?”, se perde nos cálculos sem saber se foi em 2006 ou 2007 e por mais que de vez em quando alguém te diga que foi num desses dois, você volta a esquecer.

 

Talvez eu tenha levado muito a sério a idéia de viver o “hoje”, nunca lembro que dia será amanhã. Mas quando o hoje é um hoje que o Destino marcou a ferro, não me sinto na obrigação de reviver cada “ter sofrido”. Não sou obrigada, porém… ah! porém! Porém, queridos, quem controla isso?

 

Por isso digo: não, hoje não. Hoje não para nada. Hoje não para conversas, hoje não para telefonemas, hoje não para companhia, hoje não para ninguém.

 

Dias borbulhantes, com novas idéias, sonhos saindo da gaveta, caminhos dissertativos mais claros e amplos, salas escuras de cinema tão convidativas e aconchegantes para uma alma inquieta, efervescência de conhecimento que faz meus dias como gosto… só me falta alguém interessante. E inteligente, claro. Mas… deixa pra lá.

 

E entre dias tão (mas tão) interessantes, importantes e excitantes lá vem o calendário falar por si coisas que só o coração sabe. Não, hoje não.

 

 

Frascos de perfume quase vazios…

E eis que os astros mandam que eu hiberne e eu aceito com todo gosto.

Porque eu sofro, eu me descabelo, eu escondo o que sinto, eu me enclausuro na casa da mãe até ter coragem de encarar o mundo, eu passo as noites com imagens audiovisuais, estórias e vinho. E eu sei que pra tudo há um tempo, há o momento de cair, tentar se agarrar a qualquer coisa que pareça ao alcance e… deixar passar. Chegar ao fundo, respirar e resolver subir de volta.

Não deixo, entretanto, de me divertir, de rir de mim, de analisar bastante até saber que era pra ser como foi. Tudo é assim. Errar é não ter coragem de tomar atitudes. E eu as tomo com todas as possibilidades que elas trazem.

Aproveito a hibernação ao me ver livre, leve e solta. Feliz. Busco uma coisa aqui, outra ali, vou pra lá, pra cá… porque sei que é a hora de não se prender, de não sofrer, de sorrir pro Tempo que me promete tudo, e mais um pouco.

Certas coisas que por uns dias me desinteressaram completamente me reapaixonam sem dó. Porque paixão tem que ser assim, imediata, dolorida, rápida.

Hoje à beira-mar, sentindo a areia gostosa roçando meus pés e pernas, lendo um texto um tanto fraco, mas com relevância eu percebi que minha pesquisa tem uma fragilidade. E isso me deixou alegre e entusiasmada. Sinal de que eu percebi isso a tempo, sinal que há um desafio ali. Melhor eu ter percebido isso do que outra pessoa (até porque o mundo está cheio de gente querendo sacanear, né?), melhor agora do que tarde demais.

E o sol… ah! o sol! Queimando a pele… como senti falta disso! Não quero mais dias que exijam blusas de lã! Quero sandálias, chinelos, vestidos… a leveza, a pouca roupa…

Domínio de si é uma coisa que vem e vai. Ainda mais para alguém tão (mas tão) passional. É preciso saber aproveitar cada um dos momentos.

Nunca me amedrontei diante do fracasso, nem dos fins, nem do frio da alma, nem de muita coisa.

Não me amedronta, agora, retomar as rédeas da minha vida e das minhas loucuras. Nem dos frascos quase vazios de perfume. Certas coisas são como um perfume que você adora, quando chega bem no fim você pára de usar só pra deixar ali, poder olhar todo dia pra ele e saber que você ainda o tem, mas na verdade não pode mais usá-lo. Se usar as duas últimas gotas ele vai acabar. Se não usar, ele acaba do mesmo jeito mas você tem uma desculpa pra mantê-lo ali. Chega uma hora que é preciso usar as duas gotas e jogá-lo fora, ou guardá-lo, com as duas gotas, mas longe da vista. Como uma lembrança de batizado qualquer.

Tenho vários frascos de perfume… alguns vazios joguei fora, outros guardei com suas últimas gotas numa caixa qualquer. Daquelas que você, num dia qualquer, abre e nem lembra o que tinha dentro.

É preciso saber, além de viver, entender as metáforas e acreditar nos astros.

Blog no WordPress.com.

Acima ↑